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Astecas: uma República confundida com Teocracia

7.2 – A Política de Alianças

Em suas andanças pela península de Yucatán, Cortez recebeu como presente várias coisas, dentre elas, algumas escravas (encarregadas de satisfazerem o apetite sexual dos Espanhóis), dadas pelo chefe de uma cidade batizada de Tabasco. Dentre estas escravas estava Malintzin (que depois foi batizada e recebeu o nome de Marina, Cortez se casou com ela e teve um filho: Don Martín Cortez), a filha de um chefe Maia, que havia sido escravizada quando caiu prisioneira de um rival de seu pai. A dita índia era muito inteligente e culta, tanto que falava Maia e Nahuatl (a língua oficial do Império Asteca). Logo Cortez percebeu que utilizando Aguilar (o ex-prisioneiro que por ter ficado sete anos em poder dos Maias havia aprendido sua língua) e Malintzin juntos, ele poderia conversar com os chefes das cidades tributárias Astecas.

Conversando com os chefes das cidades de Cempoal e Tuxpan (que como foi dito já haviam sido conquistadas e renomeadas), Cortez percebeu que eles não seguiam o Império Asteca por amor, por patriotismo, mas sim que eram vassalos obrigados pela força. Esta descoberta mudou os rumos da campanha que Cortez estava prestes a iniciar, pois o conquistador percebeu que poderia utilizar os índios desgostosos do domínio Asteca para engrossar suas fileiras.

Foi exatamente isso que o Espanhol fez, em 16 de agosto de 1519, após quatro meses no litoral, ele partiu de Cempoal com destino certo: Tenochtitlán.

Em sua jornada, Cortez levou 15 cavaleiros, 11 arcabuzeiros, 260 soldados e 40 besteiros, além de alguns senhores principais de Cempoal, bem como escravos e escravas que lhes faziam comida e prestavam serviços.

Com este pequeno numerário, iniciou sua marcha, sempre demonstrando aos nativos um caráter de libertador, de salvador, o que fez com que dentro em pouco tempo, mais de setecentos índios já o seguissem como tropas de apoio. Quando estava próximo de Tlaxcallan, mensageiros de Motecuhzoma II vieram vê-lo e lhe disseram que não passasse pelo meio daquela região, pois os de Tlaxcallan eram inimigos de sua gente e os Espanhóis seriam maltratados. Porém, os de Cempoal eram aliados de Tlaxcallan e, sendo assim, afirmaram que Cortez poderia ir tranqüilamente por dentro de suas terras. Preterindo o conselho dos mensageiros Astecas em relação ao de seus aliados de Cempoal, Cortez resolveu ir pelo meio de Tlaxcallan.

Quando já estava próximo da capital, Tlaxcala, o efetivo do Capitão se deparou com mais de cinco mil índios Tlaxcaltecas, todos prontos para a batalha. Os índios começaram a atacar e em pouco tempo mataram dois cavalos e feriaram outros três, além de ferirem três pessoas. Cortez ficou apavorado com o fato de estar sendo agredido com flechas e pedras por selvagens em meio às suas terras, sendo assim, enviou dois senhores de Cempoal como mensageiros à capital Tlaxcalteca.

Ao cair da noite, os dois voltaram machucados e chorando, dizendo que tinham sido presos e que só estavam vivos porque tinham conseguido fugir. Dentro dessas condições de hostilidade, Cortez resolveu atacar os inimigos e, no dia seguinte, houve nova batalha entre Espanhóis e Tlaxcaltecas (é interessante que se note que o efetivo Tlaxcalteca nos é fornecido pelo próprio Cortez, sendo assim, temos fortes razões para suspeitar que o Capitão exara na quantidade de seus oponentes para, com isso, engrandecer sua vitória). Cortez e seus aliados indígenas venceram a batalha e durante a noite queimaram povoados, fazendo mais de quatrocentos prisioneiros. No outro dia, mais de 150 mil (difícil de acreditar num número tão grande) índios de Tlaxcallan atacaram o acampamento Espanhol, sendo que chegaram mesmo a enfrentar os Espanhóis e seus aliados no combate corpo-a-corpo. Mais difícil de acreditar é o fato de que em apenas quatro horas, os Espanhóis dominaram a situação, expulsando os inimigos todos e, o mais incrível, sem sofrer nenhuma perda, ou qualquer dano (é óbvio que o contingente inimigo era muito menor do que o relatado, com certeza, deveria ser, no máximo, sete ou oito mil, ainda assim um número fabuloso, visto que os Espanhóis e seus aliados juntos não chegavam a 1500).

Em represália a tal atitude, Cortez continuou invadindo povoado à noite e queimando casas. Depois de queimarem dez povoados, os de Tlaxcallan vieram pedir trégua. Porém era apenas uma trégua falsa, na medida em que o que desejavam realmente era fazer os Espanhóis acreditarem em sua lealdade e, numa noite atacarem e destruírem-nos. Porém, Cortez descobriu o plano e além de cortar as mãos de cinqüenta índios, como forma de aviso, ainda fez com que os homens de Sicutengal, um general de Tlaxcala batessem em retirada, com medo de seus cavalos. Depois disso, o Capitão Espanhol realizou uma marcha triunfal por toda Tlaxcallan, fazendo-se aceitar como aliado e, por fim, recebeu vassalagem da capital, Tlaxcala, indo se estabelecer lá.

7.3 – La Noche Triste

Como já se sabe, Tlaxcallan não pertencia ao Império Asteca, sendo uma República inimiga deste e incrustada em seu coração. Na região existiam cerca de quinhentos mil guerreiros (mais ou menos 1,5 milhão de habitantes). A capital, Tlaxcala, é descrita por Cortez como sendo a segunda mais bela cidade do México (perdendo apenas para Tenochtitlán, que a essa altura, ele ainda não conhecia, mas que, como veremos, veio a conhecer depois). Devido ao ódio que os Tlaxcaltecas alimentavam em relação aos Astecas, em pouco tempo, a conquista do Império se tornou uma empresa Hispano-Tlaxcalteca.

Depois de alguns dias hospedado em Tlaxcala, nos quais ficou se recuperando da marcha e das sucessivas batalhas, Cortez resolveu recolocar-se em posição de marcha. Foi seguido, além de seus antigos seguidores, por cerca de cem mil índios de Tlaxcallan, dos quais, apenas seis mil foram realmente determinados a segui-lo até Tenochtitlán.

No caminho para Tenochtitlán, os Espanhóis (já tendo deixado Tlaxcallan) foram recebidos em Churultecal (ou Cholula), onde a mando de Motecuhzoma II, haviam armado uma emboscada, porém, Cortez descobriu e conseguiu se desvencilhar, fazendo a cidade também se tornar sua aliada.

Saindo de Churultecal, o Capitão retomou sua marcha para a capital Asteca, agora guiado por mensageiros do próprio Motecuhzoma II, que, apesar de terem pedido desculpas pelo ocorrido, continuavam a rogar aos Espanhóis que não fossem a Tenochtitlán, sempre afirmando que a cidade era muito pobre e que Cortez e os seus iriam passar necessidades nela.

Cortez, no entanto, continuava determinado em ir até lá e, em 8 de novembro de 1519, finalmente chegou a Tenochtitlán. Logo na entrada da cidade foi recebido por Motecuhzoma II, que o saudou beijando o chão. Cortez presenteou-o com um colar de diamantes e foi presenteado com um colar de ouro. O Tlatoani Asteca conduziu os Espanhóis até seu palácio (que fora construído por Axayacatl), onde estes se instalaram e onde Motecuhzoma II se tornou uma espécie de prisioneiro de Cortez.

O Capitão entendeu por bem manter o Tlatoani Asteca livre, mas vigiado de perto, de modo que não pudesse dar nenhuma ordem nem preparar nenhuma emboscada sem que os Espanhóis soubessem (entendamos que Cortez não conseguiu perceber a verdadeira organização política Asteca, sendo assim, acreditava que Motecuhzoma II (a quem ele chamava Montezuma) fosse um Imperador com caráter divino, assim como os Faraós do Egito antigo).

Motecuhzoma II impediu que os seus tomassem qualquer tipo de atitude contrária aos Espanhóis, pois tinha a plena convicção de que se tratavam de enviados de Quetzalcoatl (uma vez que Cortez sempre dizia que vinha em nome de Carlos V, seu grande senhor, Imperador ao qual todos se curvam, Motecuhzoma II acreditou que Carlos V fosse Quetzalcoatl e que Cortez fosse seu enviado). Para essa crença, contribuíram várias coisas, por exemplo, a proibição da realização de sacrifícios humanos pelos Espanhóis (como vocês devem se recordar, Quetzalcoatl proibia sacrifícios, os quais só se generalizaram quando este foi expulso por Tezcatlipoca), a destruição dos ídolos Astecas e a sua substituição por imagens de Cristo e Nossa Senhora (as quais os Astecas não conheciam e julgavam ser de Quetzalcoatl, uma vez que não havia uma padronização para a representação das entidades divinas dentro do Império, sendo que cada cultura as representava de uma forma), além da confirmação de Cortez, pois este, assim que soube que Motecuhzoma II o confundira com seu deus, fez com que acreditasse que estava certo, ou seja, que Carlos V era Quetzalcoatl e que ele, Cortez, era seu enviado.

Por quase oito meses esta situação perdurou, ou seja, Motecuhzoma II preso e acreditando piamente que seus algozes eram divindades e os Espanhóis, por sua vez, roubando tudo de valioso que encontravam.

No final de maio de 1520, Cortez teve que sair de Tenochtitlán, deixando lá muito dos seus, chefiados por Alvarado. O motivo que levou o Capitão a deixar a capital Asteca foi a chegada, a Vera Cruz, de Pánfilo de Naváez, um enviado de Diego Velásquez, para conquistar o que Cortez já havia conquistado. Cortez foi combater seu adversário, o qual não levou muito tempo para neutralizar e expulsar.

Porém, enquanto Cortez estava fora, Alvarado, temeroso do clima de insatisfação que havia se instalado entre a aristocracia Asteca devido ao longo cativeiro de seu Tlatoani, acabou por cometer um grave erro. No começo de junho, os Astecas se reúnem para celebrar a festa de Uitzilopochtli, a principal festa divina de Tenochtitlán, sendo assim, saem às ruas com suas roupas de festa e realizam uma grande procissão. Alvarado pensou que as plumas e a procissão indicassem uma movimentação no sentido de atacar os Espanhóis, sendo assim se lançou contra o povo, realizando uma grande matança.

Sem saber, Alvarado matou muitos membros do Grande Conselho, o que provocou a tristeza geral do povo e a indignação do Ciuacoatl e do Tlatocan. Estes se reuniram na mesma noite, junto com o que restou do Grande Conselho e depuseram Motecuhzoma II, acusando-o de colaborar para o fim do Império. Para o seu lugar, nomearam Cuitlahuac, seu irmão, que junto com seu filho, Cuauhtemoc (eleito Tlacateccatl, ou seja, o membro do Tlatocan que é responsável pelo comando das tropas), iniciou um ataque maciço à base dos Espanhóis.

Cuauhtemoc sempre fora um guerreiro, antes de ter sido eleito para o Tlatocan, havia sido um grande Guerreiro-Jaguar, sendo muito respeitado e amado pelos exércitos. Sendo assim, sob sua liderança, os Astecas destruíram quase todas as pontes que ligavam Tenochtitlán às margens do lago (o que impedia os Espanhóis de fugirem) e começaram a sitiar o castelo de Axayacatl (onde Motecuhzoma II e os Espanhóis estavam alojados).

Quando soube do ocorrido, Cortez (que já havia derrotado Narváez) retornou às pressas para Tenochtitlán, onde teve que forçar sua entrada. Chegando lá, não sabia que Motecuhzoma II havia sido deposto (inclusive, nem mesmo Motecuhzoma II sabia), sendo assim, pediu a ele que fosse ao oratório do palácio falar a seu povo, pedir que parassem os ataques. Motecuhzoma II foi, mas antes mesmo que começasse a falar, foi recebido por uma chuva de pedras e por gritos de "traidor, traidor". As pedras atingiram Motecuhzoma II na cabeça e, em apenas dois dias, ele morreu. Pensando que seu ato demonstraria sua grandeza e pacificaria os Astecas, Cortez entregou o corpo do soberano morto aos membros do Tlatocan. Estes; juntamente com Cuitlahuac, o novo Tlatoani; receberam o corpo e aceitaram a trégua.

Cortez, pensando que havia pacificado a cidade, retornou para o palácio de Axayacatl e ordenou que seus mensageiros fossem levar as boas novas para as cidades onde ele havia deixado Espanhóis, porém, os mensageiros foram capturados antes mesmo que pudessem sair da capital e retornaram ao palácio, todos feridos, para dizer a Cortez que os Astecas retomavam a ofensiva.

O palácio foi cercado e, com flechas incendiárias, começou a ser alvejado. Em pouco tempo estava em chamas. Os Espanhóis conseguiram apagar o fogo e expulsar os Astecas, porém, ficaram resumidos apenas ao castelo de Axayacatl (que estava num estado de semi-ruína depois do cerco que sofrera). Construíram máquinas de guerra e tentaram pacificar a cidade, mas depois de sofrerem sucessivas derrotas, perderem muitos homens e cavalos, além de já estarem quase sem água, comida e munição, os Espanhóis resolveram armar um plano de fuga, precisavam abandonar Tenochtitlán, pois os Astecas pretendiam mata-los de fome e sede, presos dentro de seu castelo.

Hernán Cortez ordenou a construção de uma ponte móvel, de madeira, que seria carregada por diversos homens (cerca de 40), esta ponte seria colocada sobre as parte quebradas das pontes originais, para assim os Espanhóis poderem passar.

Quando a ponte ficou pronta, no dia 30 de junho, eles resolveram fugir. Passaram por algumas pontes, mas apenas Cortez e sua comitiva principal (algo em torno de vinte homens) conseguiram deixar Tenochtitlán passando por ela. Os demais tiveram que sair a nado. Devido ao grande peso de suas armaduras e do ouro que carregavam nos bolsos, muitos se afogaram, outros, por ficarem para trás, foram trucidados pelos exércitos de Cuauhtemoc. Menos de cem Espanhóis (e 24 cavalos) sobreviveram (morreram 150 Espanhóis, 45 cavalos e 2000 Tlaxcaltecas) ao que ficou conhecido como "La Noche Triste", ou seja, "A Noite Triste".

Saídos de Tenochtitlán, os Espanhóis foram para Tlacopán (que os Espanhóis batizaram de Tacuba), onde contasse que Cortez teria sentado embaixo de uma árvore e chorado. Reagrupados, Cortez e seus homens deram conta das baixas, além disso, perceberam que muitos estavam feridos (o próprio Cortez perdeu os movimentos da mão esquerda em decorrência de uma flechada) e que os cavalos não eram mais capazes de correr, apenas de andar, pois também estavam feridos.

Os Espanhóis costearam o lago Texcoco no sentido horário até chegarem a Tlaxcala, onde foram acolhidos. A campanha de conquista do Império Asteca teria sido toda perdida se, em Tlaxcala, Cortez não tivesse encontrado o apoio dos Tlaxcaltecas, dos Otomi e de Ixtlilxochitl (aquele que Motecuhzoma havia afastado da sucessão de Texcoco) e seus aliados.

7.4 – A Ditadura Asteca

Cuitlahuac, o sucessor de Motecuhzoma II, governou apenas oitenta dias, pois morreu em decorrência de uma epidemia de varíola que se instalou em Tenochtitlán depois da volta de Cortez (Cortez trouxe consigo muitos reforços, mais armas, mais cavalos e mais escravos, dentre eles, um escravo negro, de Cuba, que estava com varíola; o escravo morreu logo, mas os índios, que não tinham anticorpos para a doença, começaram a morrer dela também).

Com a morte de Cuitlahuac, o exército aclamou Cuauhtemoc como seu novo governante. Visto que a situação era calamitosa, ninguém fez menção de impedir sua indicação, o que contrariava as regras da República Asteca, onde o Tlatoani era escolhido pelo Grande Conselho e governava sempre tendo que ouvir a este e ao Tlatocan, além de dividir seu poder com o Ciuacoatl. Porém, Cuauhtemoc era muito carismático, é inclusive descrito por cronistas da conquista como sendo o índio mais altivo do México, o que fez com que suas decisões fossem tomadas como lei, e não discutidas ou questionadas.

Com efeito, o governo de Cuauhtemoc foi muito semelhante a uma Ditadura Romana, ou seja, um governo absoluto, no qual a palavra do governante é a única lei, mas que se instala apenas em épocas de calamidades profundas.

7.5 – A Águia que Tomba

Curiosamente, o nome de Cuauhtemoc significava: "A Águia que Tomba", o que mais parecia um sinal dos deuses, pois em seu governo, o Império cairia definitivamente.

O novo Tlatoani organizou a cidade para produzir num ritmo de guerra, enviou mensageiros para todas as cidades que compunham o Império, com a seguinte mensagem: "Todos os que ajudarem os Astecas na guerra contra os invasores serão liberados dos tributos por dois anos". Além disso, o governante deu maior ênfase ao exército.

Porém, Cuauhtemoc não pode conter a epidemia de varíola, nem suprir a falta de água potável (visto que os Espanhóis destruíram os aquedutos que a levavam para Tenochtitlán), além disso, as populações dominadas continuavam a ver os invasores como libertadores, e não como conquistadores que estavam prestes a destruírem suas culturas e retirarem sua liberdade, sendo assim, não deram ouvidos aos apelos do Tlatoani Asteca.

Cortez reuniu de novo seus homens, conseguiu aumentar suas tropas, comprar mais cavalos e canhões, além disso, trouxe mais arcabuzes e muita pólvora. Com a ajuda da mão-de-obra indígena, construiu treze navios nos quais colocou os canhões e, com eles, realizou o cerco à capital Asteca.

Além dos tiros de canhão, os Espanhóis realizaram vinte reides em apenas 96 dias à própria cidade, sendo expulsos pela resistência indígena em todos.

Quando finalmente, no dia 13 de agosto de 1521, no vigésimo ataque que faziam a Tenochtitlán, os Espanhóis finalmente conseguiram aniquilar as tropas Astecas, marchar pela capital e fincar sua bandeira no topo do Grande Templo, ficaram horrorizados com o que viram: por onde passavam, havia cabeças de Espanhóis, seus aliados indígenas e de cavalos; todas fincadas em estacas e dispostas ao longo das ruas principais.

7.6 – Motivos que possibilitaram a conquista

Além da superioridade tecnológica gritante que os Espanhóis possuíam em relação aos Astecas; com armas de fogo e de ferro, contra arcos e flechas e armas de sílex e madeira; também há que se levar em conta outros fatores, talvez até mais importantes do que as armas em si.

Na realidade, o fato de as armas Espanholas serem melhores, não garantira sua vitória, pois o efetivo dele era infinitamente menor e, mesmo que os nativos estivessem totalmente desarmados, ainda assim não poderiam ter sido derrotados apenas pelas armas dos conquistadores. Com certeza a política de alianças de Cortez foi um dos maiores trunfos dos Espanhóis (sendo posteriormente, em 1532, copiada por Francisco Pizarro na conquista do Tawantinsuyu (o Império Inca)). Além da política de alianças, que trouxe para o lado dos Espanhóis todos os povos descontentes com a dominação Asteca, existem outros fatores menores.

O emprego de animais em combate, pois os Espanhóis utilizavam, além dos cavalos (que lhes conferiam maior agilidade e poder contra infantarias), ferozes cachorros, que eram soltos no campo de batalha e, além de aterrorizarem os índios, faziam grande estrago, pois eram treinados para matar.

Outro fator, foram as técnicas de batalha, uma vez que os Astecas lutavam para fazer prisioneiros, que sacrificavam depois, enquanto que os Espanhóis lutavam para matar o maior número de indivíduos, o que é muito mais fácil e rápido do que a captura em massa. Além disso, a ingenuidade dos tributários Astecas foi importante, pois para eles, os Espanhóis eram apenas mais um povo lutando contra o domínio de um antigo Império, como os próprios Astecas já tinham feito antes, quando derrubaram o crescente Império de Azcapotzalco. Porém, os Espanhóis não queriam tornar os índios apenas seus tributários, mas queriam destruir sua religião (impondo-lhes o Catolicismo, tido como única verdade), destruir sua cultura (fazendo-os meros dominados da cultura Européia) e escravizar seu povo (fazendo-os trabalhar em suas minas de ouro e prata).

Além desses fatores todos, deve-se ressaltar mais dois: a crença de Motecuhzoma II de que os Espanhóis eram enviados de Quetzalcoatl, o que o impediu de impor resistência aos conquistadores. E a guerra biologia inconsciente que os Espanhóis travaram com os índios, expondo-os a diversos tipos de doenças que, para eles, eram desconhecidas (tais como a varíola, a gripe, a sífilis, a tuberculose, dentre outras) e, para as quais não tinham anticorpos.

Todos esses fatores, em maior ou menor grau, mas todos juntos, contribuíram para a conquista do Império Asteca, tornando-a possível.

7.7 – O que aconteceu depois da conquista

Após a conquista de Tenochtitlán, Cortez ordenou sua destruição, como um exemplo a todos os que se atrevessem a contrariar os desejos de Carlos V. Cuauhtemoc foi preso e mantido como Tlatoani até 1525, pois Cortez julgava que seria mais fácil conquistar uma região unificada por um governante do que várias regiões divididas.

Os Astecas jogaram todo o ouro que possuíam no fundo do lago Texcoco, para impedir os conquistadores de pegarem-no. Mesmo assim, a tomada de Tenochtitlán foi muito lucrativa para os Espanhóis, pois eles encontraram as listas de tributos dos Astecas, o que lhes forneceu uma rota segura para as regiões produtoras de ouro e prata, ficando as regiões produtoras de outras coisas, em segundo plano na conquista.

Em 1522, todo o Império Asteca já estava nas mãos da Espanha e Cortez foi nomeado o Governador e Capitão-Geral da Nova Espanha (como foi batizado o Império Asteca após sua conquista).

Em 1527, os Espanhóis iniciaram a conquista da península de Yucatán, na qual sofreram com a ferrenha resistência Maia, estes só se renderam e foram dominados definitivamente em 1546.

A Nova Espanha se estendeu até o Novo México (atual estado dos EUA) e o Arizona, onde os índios impuseram uma forte resistência à dominação, só sendo exterminados muito tempo depois, pela marcha de expansão dos EUA.

Em 1535, a Nova Espanha deixou de ser uma Capitania para se tornar um Vice-Reino, sendo nomeado Dom Antônio de Mendonza como primeiro Vice-Rei da Nova Espanha.

No lugar onde se situava a cidade de Tenochtitlán, foi erigida a Cidade do México (realização da drenagem de boa parte do lago Texcoco), que se tornou a capital da Nova Espanha. Por ter sido edificada sobre o solo pantanoso do fundo do lago Texcoco, a Cidade do México apresenta, hoje, uma extrema fragilidade, podendo desabar com qualquer tremor de terra.

Cuauhtemoc foi obrigado a ver sua capital ser destruída e, em seu lugar, edificada uma cidade nos moldes Europeus, além de toda a tristeza a que foi submetido, ainda acabou enforcado na praça principal da Cidade do México, em 1525.

Imagem Mapa outros exploradores

As rotas dos exploradores Espanhóis na América
As rotas dos exploradores Espanhóis na América

7.8 – O pensamento após a conquista

Antes da conquista do México, os Espanhóis só haviam se deparado com populações indígenas Neolíticas, o que os havia feito pensar que os indígenas eram pouco mais do que macacos. Sendo assim, a doutrina de Juan Ginés de Sepúlveda, um clérigo Espanhol, havia se disseminado. Segundo Sepúlveda, os índios, assim como os negros, não tinham almas, não eram passíveis de salvação, não eram filhos de Deus, o que permitia sua escravização.

Porém, depois da conquista do Império Asteca e dos povos Maias de Yucatán (o que aconteceu simultaneamente a descoberta e início da guerra contra os Incas, no Tawantinsuyu), um outro clérigo, o Frei Bartolomé de Las Casas, escreveu um livro: Brevíssima Relação da Destruição das Índias, também chamado de: Paraíso Destruído. Neste livro, Las Casas nos mostra que a organização social desses grandes povos americanos era, em muitos casos, superior a organização dos Europeus, além disso, eles possuíam sistemas capazes de concentrar populações gigantescas (Tenochtitlán, na época da conquista era, provavelmente, a segunda maior cidade do mundo, perdendo apenas para Chang’an, na China).

A teoria de Las Casas fez com que mudasse a visão Européia sobre os indígenas americanos sendo proibida sua escravização pela Igreja. Não é conveniente aqui, neste texto, entrar nos outros méritos que levaram a Igreja Católica a proibir a escravização indígena, mas é certo que o lucrativo tráfico negreiro (do qual a Igreja se beneficiava também), influenciou na sua decisão de proibir a escravização dos ameríndios, pois assim, os colonizadores (cristãos que eram) seriam obrigados a importarem os negros da África, enriquecendo, dentre outros, a própria Igreja.

Porém, pode-se dizer que a teoria de Las Casas, fundamentada na existência de tais civilizações, pelo menos deu o respaldo para a Igreja poder realizar tal proibição, além de ter poupado muitos índios (porém não a maioria, apenas uma minoria visto que os Espanhóis, que nunca levaram muito a sério a proibição da Igreja, inventavam subterfúgios como as encomiendas, haciendas e (no caso do Peru) as mitas, para escravizar os índios, sem que eles ostentassem o título de escravos) da escravidão.

8 – Bibliografia

ABREU, Aurélio M. G. de. Civilizações que o mundo esqueceu.
BENSON, Elizabeth, COE, Michael e SNOW, Dean. A América Antiga: Mosaico de Culturas. Vol. 1, in Grande Impérios e Civilizações.
BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina. Vol. 1. América Latina Colonial.
CORTEZ, Hernán. O Fim de Montezuma: Relatos da Conquista do México.
CROSHER, Judith. Os Astecas.
FIEDEL, Stuart J.. Prehistoria de América.
GENDROP, Paul. A Civilização Maia.
GÖÖCK, Roland. Maravilhas do Mundo.
LAS CASAS, Frei Bartolomé. Brevíssima Relação da Destruição das Índias (Paraíso Destruído).
LAZZAROTTO, Valentim e PILETTI, Nelson. História & Vida: As Américas.
SOUSTELLE, Jacques. A Civilização Asteca.
Vários. Grande Enciclopédia Delta Larousse. Vol. 8.

Danilo José Figueiredo

Fonte: www.klepsidra.net

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