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Civilização Chinesa

Depois de quatro anos de lutas, um ex-camponês e pequeno funcionário de nome Liu Bang fundou aquela que seria realmente a primeira grande dinastia chinesa: os Han.

O período Han foi próspero para a China Antiga, desenvolvendo o comércio, as relações internacionais, expandido as fronteiras e fazendo uma administração mais justa e menos asfixiante que os Qin. Nesta época adota-se o confucionismo como doutrina oficial de governo, apesar de algumas estruturas anteriores serem mantidas. Após um interregno, ocasionado por um golpe articulado por opositores do regime, interessados na restauração dos antigos costumes (o governo de Wang Mang, de 9-22 d.C.), a dinastia Han se restabeleceu e conseguiu governar novamente até o século III, quando se desestruturou por completo, dando margem á uma nova época de fragmentação. No entanto, as bases para a estrutura imperial já haviam sido lançadas e, depois dos Han, as outras grandes dinastias teriam o trabalho de recuperá-las.

Historiografia Moderna

Na Europa, os estudos sobre a China foram bastante imprecisos até o início da Era moderna. Antes disso, versões históricas como a de Marco Pólo, atualmente bastante discutíveis, eram utilizadas e aceitas como adequadas (Wood, 1997).

A virada nessas concepções veio com o impacto das navegações mundiais realizadas no século XVI. Ao se depararem com uma realidade bem diferente daquela concebida pelos seus antecessores medievos, portugueses e espanhóis tiveram que por mãos à obra e iniciaram uma pesquisa maior sobre as civilizações do Oriente, ainda que sobre o seu prisma colonialista e essencialmente cristão. A iniciativa lusa, em especial, rendeu frutos, já que os missionários por eles levados para as colônias orientais foram, por muito tempo, a fonte principal de informações que toda Europa recebia. Com grande sucesso, os mesmos conseguiram se instalar nas cortes chinesas, possuindo uma significativa influência na assessoria aos assuntos estrangeiros até o século XVIII.

Neste mesmo período, porém, vemos que o interesse econômico e político de Inglaterra, França e Holanda havia aumentado significativamente em relação ao Oriente, e o declínio do poder Ibero abriu as portas dessas civilizações a novos contatos.

Este processo foi acompanhado pela evolução da cultura e do pensamento ocidentais. Toda uma geração de pensadores franceses, alemães e ingleses buscou avidamente identificar e analisar as formas de filosofia e história vindas de China e Índia. O fascínio despertado pelas teorias confucionistas, por exemplo, puseram variadas vezes em xeque as realizações do proselitismo cristão. Mas este foi um período de intensas trocas de informações e conhecimentos entre ambas as partes do mundo, sem que houvesse (vale ressaltar), uma predominância Ocidental nesta via, como muitas vezes a História moderna tenta passar.

As abordagens mais sérias sobre a China só começaram, no entanto, a partir do século XIX.

Isso de deve a alguns fatores bem definidos: o Império chinês, até então, era bastante fechado à presença de estrangeiros, com exceção dos portugueses, restritos à Macau (Peyreffite, 1997).

Estes períodos de xenofobia são cíclicos na História chinesa, devido às ameaças de invasão do território: os chineses já haviam vivido sobre o domínio de uma dinastia estrangeira (os Yuan, 1280-1368) e, nesta época, além da presença Ocidental, viviam sob o julgo de outra dinastia estrangeira, os Qing (1644-1911, de origem Manchu). Os traumas decorrentes destes períodos complicados, somados a incapacidade (e má vontade) dos estrangeiros em compreender a cultura chinesa gerou, por conseguinte, uma série de preconceitos e enganos. Foi preciso uma evolução dos métodos historiográficos e sociológicos para que as relações culturais pudessem se flexibilizar e se distender entre europeus e chineses. O momento inicial desta mudança foi, justamente, o conturbado final do século XIX.

Podemos adicionar a estes problemas o fato da China ter uma história milenar e complexa, e somente por caminhos tortuosos e fatigantes o monólito desta estrutura começou a ser dissecado, analisado, investigado e valorizado por suas características singulares e impressionantes.

Os primeiros historiadores modernos da China foram essencialmente literatos, que no período XIX-XX iniciaram o trabalho de tradução das obras clássicas e pesquisa dos “fatos” históricos.

Duas vertentes se destacaram nesta época: a primeira, que creditava legitimidade à cronologia clássica chinesa, devido à sua aparente coerência; e a segunda, que tentou adaptar o modelo clássico greco-romano para o contexto indu-chinês. Assim sendo, a primeira corrente considerava a legitimidade dos conteúdos culturais chineses, conquanto a segunda tentava delimitá-la como uma manifestação aperfeiçoada da sociedade indiana.

Atualmente, História e Arqueologia tendem a comprovar a originalidade cultural da China e, embora a cronologia tradicional já não seja aceita sem as correções e análises posteriores, a segunda vertente (indu-chinesa) verificou-se uma construção totalmente irreal. No entanto, esta concepção se arraigou fortemente nos meios acadêmicos e no senso comum, o que nos gera, até hoje, uma série de enganos na interpretação e na análise do Oriente, tanto antigo quanto moderno.

Nesta fase dos estudos chineses (XIX-XX), podemos destacar importantes autores como Herbet Gilles, James Legge (ambos ingleses) e Edouard Chavannes, da França. Este último é considerado, em particular, o “pai” da moderna Sinologia francesa, por seus métodos amplos e abrangentes, que buscavam conjugar Arqueologia, Literatura e História, realizando basicamente um trabalho interdisciplinar.

Seu grande seguidor, e um dos maiores especialistas em China que o mundo já conheceu foi Marcel Granet, que nas primeiras décadas do século XX produziu livros diversos que, em muitos pontos, continuam atuais até os dias de hoje. Não obstante ser um grande Sinólogo, Marcel Granet também foi um especialista em métodos históricos e sociológicos, tendo formado vários dos autores que dariam ensejo à formação da Escola dos Annales, contribuindo na crítica e na reformulação das técnicas de análise sobre as culturas.

As guerras trouxeram para a China, no entanto, uma séria interrupção dos trabalhos históricos e arqueológicos. Em 1928, por exemplo, haviam sido descobertas grandes coleções de inscrições Shang-Yin em carapaças de tartaruga, fomentando a revisão das cronologias tradicionais em função da análise de genealogia dos ideogramas. (30) No entanto, na primeira década do século XX a China havia derrubado a Monarquia e instalado a República. E, na década de 30, já estava sendo invadida pelo Japão. Logo, houve muito pouco tempo para realização destes trabalhos inovadores com regularidade. Depois, com a segunda guerra, a revolução comunista e outros processos tumultuosos, a China só veio a recuperar suas pesquisas sobre Antiguidade com maior eficiência e constância na década de 60. Isso demonstra o quanto esta Nova História chinesa é recente. Para se ter idéia, o momento dourado da arqueologia chinesa ocorre nos anos 70, com a descoberta de novos sítios Shang e Zhou (os primeiros haviam sido descobertos na década de 20 e depois, na de 50) e do túmulo do imperador Qin Shi Huang Di (até hoje em fase de escavação, tendo em vista que as partes recuperadas provavelmente não correspondem nem a 1/5 do monumento como um todo).

A partir dos anos 50 a História da China começou, então, a ser reavaliada em várias partes do mundo. Autores como Chan Wing-tsit e Feng Yulan começaram a ser amplamente valorizados por seus estudos no campo filosófico chinês. O trabalho do Sinólogo alemão Richard Wilhelm, da década de 30, foi recuperado e divulgado por suas considerações únicas em torno da funcionalidade das idéias chinesas. Na arqueologia, o trabalho inovador de Kwang Chang trouxe uma nova luz sobre os períodos antigos. E o inglês Joseph Needham surge, depois desses anos 50, como o grande historiador das ciências sino-orientais.

Na China, a História esteve engajada no discurso marxista até o início dos anos 80, colocando o antigo pensamento chinês como uma sobrevivência reacionária e conservadora. A arqueologia trabalhou diretamente com métodos quantitativos, não dando muita margem para considerações cognitivas e simbólicas. No entanto, a partir desta época de distensão do sistema político, os chineses começaram também a lidar com outras vertentes culturalistas e o resultado disso foi um resgate interessantíssimo das antigas tradições, sob um novo olhar técnico e teórico. As tradições do pensamento e da cultura têm sido valorizadas pelos seus aspectos antropológicos e filosóficos, e a academia chinesa tem formulado propostas metodológicas bastante criativas, inseridas num contexto transculturalista que visa discutir todas as conceituações históricas (essencialmente ocidentais) sob um novo prisma (embora uma parcela significativa destes mesmos autores nativos esteja se utilizando deste expediente para re-afirmar uma suposta “superioridade cultural” chinesa... uma reminiscência xenófoba e sinocentrista derivada, como podemos ver, da fusão entre as sobrevivências culturais milenares com o revanchismo pelos tempos coloniais e pela formulação de um novo nacionalismo chinês).

Podemos afirmar, por conseguinte, que o estudo da China têm sido abordado por vieses variados. A Sinologia, enquanto “ciência das coisas chinesas”, tem tentado se livrar de sua pesada carga eurocentrista e colonialista para se tornar uma proposta abrangente e mais completa de estudo sobre a civilização, englobando um trabalho interdisciplinar na formação de especialistas. A História cultural também tem dado espaço a autores brilhantes, como Jonathan Spence e André Levy. A arqueologia chinesa tem se desenvolvido fortemente, mas quase sempre nas mãos de pesquisadores nativos. O grande desafio hoje, no estudo sobre a China tem sido, de fato, se livrar da incomoda bagagem dos tempos colonialistas (e racistas) que tantas deformações trouxeram ao campo das ciências humanas como também, esclarecer o público sobre os estereótipos múltiplos que se formaram em torno das culturas orientais, principalmente os de caráter esotérico.

Dando continuidade à nossa análise das visões modernas sobre a História da China Antiga, o que observamos, hoje, é um consenso em torno de alguns aspectos que envolvem a cronologia tradicional.

Em primeiro lugar, as fontes sobre as quais esta cronologia era estruturada derivavam, essencialmente, da ortodoxia confucionista. Assim sendo, podemos compreender que muitas das construções propostas pela antiga história chinesa, principalmente em torno das dinastias Xia e Shang-Yin seriam, na verdade, superposições da cultura Zhou sobre o passado. Isso fica evidente pelo trabalho arqueológico que envolve a descoberta da cultura Shang.

Inicialmente, ainda não existem comprovações diretas sobre a existência de uma Dinastia Xia. As duas culturas neolíticas existentes, a de Yangshao e a de Longshan, demonstram ser diferentes entre si, mas não existe nenhum indício de serem mais do que sítios proto-históricos (Barnes, 1993; Jopert, 1979:22-54).

Mas, como afirmamos, a arqueologia continua se desenvolvendo: é possível, portanto, que num futuro próximo seja identificado algum indício que constitua uma prova definitiva sobre um sistema monárquico antigo denominado Xia. No entanto, isso ainda é suposição e por isso trabalharemos com o que temos.

Os momentos iniciais dos Zhou também são um pouco obscuros: depois do século VIII a.C. as datações melhoram, mas no caso das biografias dos personagens históricos, estas continuam um tanto confusas.

Para efeito comparativo, segue uma tabela entre a cronologia tradicional e a moderna, a partir da qual detalharemos, nos próximos capítulos, os períodos históricos e suas constituições.

*Notação: as datas registradas nos períodos de 841 a.C. do Shi Ji ainda são aceitas como corretas, sem grande contestação. A variação de algumas aparece, somente, em relação às biografias de algumas figuras importantes dos séculos VII-V a.C.

Períodos Tradicional / Moderna Arqueologia

3 patriarcas e 5 soberanos - 2852 -2205 / Período Proto-Histórico
Imperador Yao -2356 - 2255 / Cerâmica Preta e Pintada
Imperador Shun -2852 - 2205 / Cultura Yang Shao e Long Shan
Dinastia Xia -2205 - 1766 / Fase de Transição
Dinastia Shang -1766 -1122 / -1500 -1028 Bronze 1
Zhou anterior -1122 - 650 / -1027 -650 Bronze 2
Zhou posterior -650 - 221 / -700 - 221 Bronze Tardio e Ferro
Período Qin -221 - 206 / -221 - 206 Teoria dos 5 Elementos
Han anterior -206 + 9 / -206 +9
Han posterior +22 + 220 / +22 +220

Vemos que a Cronologia tradicional coloca a cultura chinesa como uma das mais antigas do mundo, junto com as da Índia e do Médio Oriente. Tem se feito um grande esforço, dentro da China, para resgatar o valor das datações tradicionais, em função de uma suposta antiguidade longínqua que justificasse a “ascendência” cultural chinesa sobre as outras civilizações mundiais. Este trabalho, ideologicamente engajado, não tem conseguido grandes êxitos. Os avanços arqueológicos têm sido significativos, mas as tentativas de sobrepor as descobertas materiais às datações antigas são ocasionalmente falhas. A crítica que se faz a este trabalho é, sobretudo, quanto ao seu discurso nacionalista, tal como tem acontecido também com a História Indiana. Mas, felizmente, esta visão não é abrangente e mesmo em seus países de origem ela é contestada.

Período Xia

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A história chinesa possui um certo hiato na passagem entre o seu período proto-histórico e aquela que seria considerada a sua primeira dinastia organizada, a Dinastia Xia, cujas datas tradicionais a colocam entre -2205 -1766.

As culturas primitivas, como de Yangsho e Longshan dão-nos alguns testemunhos do processo formativo da civilização chinesa, mas as conexões com uma possível organização política de caráter real ainda são incertas. No entanto, as verosimilaridades permitem-nos inferir que haja uma relação cultural entre as mesmas, ou até um movimento de continuidade. Como afirma Cotterel,

Igualmente incertos são os antecedentes da cultura Yangshao, que hoje é generalizadamente reconhecida como a génese da cultura chinesa por causa da influência permanente que a sua agricultura auto-suficiente exerceu sobre as tribos que a partir daí se consideraram o povo chinês. Fisicamente, os habitantes das aldeias Yangshao são parecidos com os atuais chineses das províncias do Sul, mas isso não deixa de fazer sentido se nos lembrarmos como, durante a era imperial, a invasão dos Nómadas transformou a China do Norte num cadinho de mistura de raças. Mas, mesmo a partir da era dos Zhou, em que se passou a dispor mais facilmente de fontes literárias, é óbvio que o critério para definir quem pertencia ao mundo chinês passava mais pela consciência duma herança cultural comum do que pela afinidade étnica.[...]Antes de se ter esgotado o período de cultura Yangshao surgiu outra cultura, chamada Longshan por ter sido descoberta em 1929 perto de Longshan ou «Montanha do Dragão», na localidade de Chengziyai, província de Shangdong. Com efeito, os baluartes retangulares de terra amassada antecipam a longa tradição de cidades fortificadas que em breve seriam inauguradas pelos Shang; além disso, a área de implantação que eles abrangiam era mais de cinco vezes maior do que a que se acolhia dentro do fosso defensivo de Banpo. Outras semelhanças com os tempos posteriores eram, por exemplo, as técnicas de adivinhação, as formas das peças de olaria e, o que não deixa de ser interessante, uma série de tabuletas de oleiros que são idênticas a caracteres descobertos em inscrições de oráculos de Shang. Seja uma evolução da cultura Yangshao, seja uma tradição oriental distinta com pontos de contato que se estendem para nordeste até à Sibéria oriental, a de Longshan caracteriza-se essencialmente pela sua olaria avançada, uma louça fina, muito polida, cinzenta ou preta, que mostra sinais de ter sido feita com roda. Esta cultura floresceu até ao princípio da idade do bronze, pouco depois de 1800 a. C., e os seus vestígios aparecem por baixo dos dos Shang, na província de Henan, sede desta dinastia. (Cotterel, 1986).

As considerações feitas pelos autores da década de 80, porém, não permitiam ainda confirmar a existência dos Xia. A descoberta de importantes vestígios arqueológicos só se deu recentemente, e poucos manuais tiveram oportunidade de reproduzir estas novidades, que continuam em fase de estudo e análise.

Pouco ainda se sabe sobre eles, e muito provavelmente sua história está intimamente ligada as dos Shang, cuja sobrevivência política e documental permite-nos definir melhor seu quadro de existência.

As descobertas arqueológicas apontam, no entanto, para a imensa riqueza técnica e artística dos mesmos:

“Na Idade do Bronze, que durou cerca de 2 mil anos na China, a dinastia Xia é o período inicial no desenvolvimento da tecnologia do bronze e que lançou sólidas bases para a sua prosperidade. Os objetos de bronze da última fase da dinastia desenterrados na relíquia de Erlitou podem ser classificados em categorias de serviços de vinho, serviço de cozinha, armas, instrumentos musicais, ferramentas e adornos”. (CRI, 01-11-2004).

A exploração arqueológica da China ainda nos promete surpresas, portanto. Tal como Tróia, Xia está sendo gradualmente desenterrada do chão e seus segredos devem aos poucos ser revelados. Não serão poucas, porém, as dificuldades. Confúcio tinha consciência de que seu resgate dos tempos antigos era incompleto e possivelmente problemático - não foi o mestre, pois, que reclamou da insuficiência de textos, objetos e tradições das dinastias antigas? "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles" (Lunyu 3 e Zhongyong, 28). Mesmo assim, fragmentos desta antiguidade garantem subsídios mínimos para um estudo atual.

Para os pensadores da época de Confúcio os Xia eram, de qualquer modo, a raiz da civilização chinesa:

“Foi a lição do nosso grande antepassado;
O povo devia ser tratado com carinho
E não olhado de cima;
O povo é a raiz de uma nação.
Se a raiz é firme ela vive tranqüila” (Shujing, Livro de Xia, 3)

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Escudo decorado de Bronze Xia

Período Shang

A civilização Shang é conhecida, também, como Idade do Bronze Chinês ou Época da Realeza Palaciana. No entanto, ambos os termos são um tanto quanto imprecisos. Nossa tendência é sempre de realizar uma analogia entre os sistemas políticos e sociais da antiga China com os nossos equivalentes ocidentais, mas tal consideração merece uma avaliação cuidadosa.

Vejamos a denominação arqueológica: na época Shang, a metalurgia do Bronze desenvolveu-se tecnicamente de forma rápida e avançada, ultrapassando em muito as conquistas do Ocidente. No entanto, houve também um relativo domínio do ferro, que, no entanto, conviveu muito tempo com o bronze sem substituí-lo.

E, quando o ferro passa a ser utilizado mais amplamente, na época dos Qin - Han, uma das etapas de transição (a do ferro martelado para a do ferro fundido) parece não ter existido, conquanto as técnicas do bronze possam ter sido utilizadas como substitutas para tal fim.

Os Shang também dominavam a construção de carros de combate, com os quais guerreavam e eram enterrados: e até a época Han estes foram utilizados de forma ampla. Tais indícios, por conseguinte, demonstram que a uniformidade que caracteriza os períodos arqueológicos no Ocidente não pode ser aplicada, sem uma devida adaptação, ao contexto chinês.

O mesmo acontece em relação à denominação histórica de Realeza Palaciana. Sabe-se que os Shang viviam em cidades-estado e que estas, muito provavelmente, possuíam alguma autonomia. No entanto, quais eram as relações entre as mesmas que caracterizariam, possivelmente, uma monarquia, tal como existia na época? Podemos falar de um imperador Shang ou de Reis Shang? Sabemos também que eles se identificavam como um grupo étnico de características particulares e comuns, mas em que isso influenciava sua prática política e social? As respostas que possuímos para este período são ainda um pouco incompletas e inseguras.

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Vaso Trípoda Shang

Os Shang pareciam ser um grupo étnico fortemente vinculado a cultura Longshan, evidenciado por algumas semelhanças em suas culturas materiais: uso de muros de terra batida em torno das cidades, utilização de ossos e tartarugas em artes divinatórias, e um estilo artístico próprio que aparecia nas cerâmicas antigas (preta e pintada) (Gernet, 1979:58-61). Há um hiato, no entanto, entre o surgimento dos Shang e a civilização Longshan; a primeira surge, nos depósitos arqueológicos, longe dos tempos ceramistas, dominando uma avançada técnica de emprego do bronze; "Como os homens da cultura Longshan e os da cerâmica cinzenta, os Shang fizeram grande uso da madeira para as suas construções e a sua baixela. Toda uma série de vasos de bronze – aqueles cujas formas são angulares – seriam cópias de vasos de madeira. Por outro lado, a arte dos Shang é uma arte animalista, não apenas na decoração como nas formas, dando provas, num tal domínio, de uma fantasia e um gênio inventivo surpreendentes (vasos em forma de carneiros, de corujas, de rinocerontes, de elefantes...). Só pela sua arte, a civilização chinesa da época dos Shang apresenta-se já, praticamente, tanto como uma civilização de caçadores e criadores como de agricultores'.(ibidem, 1969).

O Bronze, aliás, é a grande marca dos Shang: inúmeras coleções de recipientes dos mais variados tipos e funções são normalmente encontradas nas tumbas deste período.

O estilo artístico empregado em sua confecção (já nesta época realizada em pré-moldados) manifesta os elementos identificadores da cultura Shang. Sua composição étnica é comprovada pelo estilo inconfundível dos vasos rituais trípodas e pela máscara Tao Tieh, motivo decorativo vulgar (e aparentemente estatal) que identificava o grupo. Soma-se a isso a escrita, que aparece nos cascos de tartaruga e ossos animais para realização de presságios e oráculos. Este sistema de inscrições está parcialmente decifrado, e possui conexões com os ideogramas que comporiam a escrita chinesa tal como conhecemos hoje.

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Exemplo da Máscara Tao Tie

O aspecto ritual e religioso desta sociedade é de suma importância, tendo em vista a quantidade de achados do gênero: sacrifícios constantes de carne e vinho de arroz eram feitos aos deuses (que tinham características transitórias entre o Zoomorfismo e o Antropozoomorfismo) e depositadas em urnas especiais, das quais muitas sobreviveram graça a sua qualidade. Por vezes, os mesmos ritos buscavam atrair reis mortos e grandes antepassados. As tumbas Shang demonstram que havia a prática da servidão e do escravismo, já que eram feitos holocaustos maciços de condenados, presos e pessoas dedicadas em vida (e também, na morte) ao nobre falecido. Este era enterrado com seus pertences materiais, armas, animais e os mesmos servidores degolados, cuja cabeça era depositada em separado do corpo.

Os primeiros indícios da escrita também surgem através da prática religiosa: ideogramas primitvos aparecem, gradualmente, em ossos e carapaças de tartaruga utilizados com fins oraculares. Estas inscrições são a chave para compreender as origens do sistema logográfico chinês, sitaundo como a mais antiga escrita viva em todo mundo.

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Osso gravado com antigos caracteres

Os Shang não eram também um grupo disperso: apesar da vida organizada em cidades semi-autônomas, parece ter havido a ascensão de reis responsáveis pela administração dos interesses coletivos das comunidades.

Três são os motivos que nos levam a crer nisso: primeiro, a construção de cidades centrais (capitais), dentre as quais se destaca Anyang, responsável pela articulação e reprodução do poder Shang; "Os Shang parecem ter-se organizado como uma forma de cidade-Estado sob uma monarquia que, no início, foi muito forte. Havia aldeias-satélites não muito longe da capital central e o Estado tinha meios de controlar as comunidades a uma grande distância. Mais de 50 sítios com restos dos Shang, nove deles de grande, importância, foram identificados na região do rio Amarelo e da planície da China setentrional. A localização da capital murada sofria mudanças, e dois dos mais importantes sítios foram Zhengzhou (provavelmente a antiga capital de Ao), fundada durante o reinado do décimo monarca e ocupada desde c. 1500 a 1300, e Anyang, também conhecida como Grande Shang, que data do tempo do 19o rei, em 1300, até a queda da dinastia em 1027 a.C" (Morton, 1986); em segundo lugar, a necessidade existente de resistir às invasões daqueles que eles julgavam ser “bárbaros”, na verdade povos nômades ou mesmo outros reinos que conviveram com esta dinastia no espaço físico da China Antiga; por fim, o fato de existirem listas com as gerações reais que coincidem, com precisão razoável, com as apresentadas por Sima Qian no Shi Ji.

O domínio dos mesmos se restringiu bastante à região norte, e suas fronteiras viviam em constante tensão e conflito. Seu modo de vida, essencialmente agrícola, apresenta uma certa inclinação pecuária que se refletia nos hábitos alimentares e nos sacrifícios.

Existem indícios de que a agonia dos Shang, em torno do século XI, se deu pela fragmentação de seu poder interno, aliado ao contexto de invasão externa que teria sido promovido pelos grupos constituidores da dinastia posterior, os Zhou. Os elementos que denotam a diferenciação entre estes estrangeiros e os Shang estão presentes, por exemplo, nas questões religiosas.

Uma das primeiras medidas Zhou foi acabar com a prática dos sacrifícios humanos quando da morte de nobres: estes foram substituídos por estátuas de pedra ou madeira. Os Zhou aparecem como mais guerreiros, dinâmicos, mas com uma mentalidade aberta o suficiente para absorver os elementos culturais e técnicos que mais lhes interessavam dos Shang. É o caso dos estilos artísticos e da manutenção do Bronze. No entanto, ocorreu uma transformação no sistema político e social, já que os Zhou instauraram um novo tipo de regime monárquico feudatário.

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Exemplar de Bronze Shang do Período de Transição

Assim sendo, parece-nos que os Shang são o primeiro grupo organizado, na civilização chinesa, a partir de uma série de reminiscências proto-históricas que lhes garantem seu caráter.

No entanto, vemos que outros grupos conviveram com os Shang em seu período de existência, o que nos faz concluir que a construção confucionista de uma história dinástica e étnica linear não era precisa: os Zhou seriam, em essência, uma fusão da cultura Shang modificada com os elementos trazidos por outros grupos étnicos habitantes de um espaço entre noroeste e o alto sudoeste chinês. E com os Zhou se iniciaria, no imaginário chinês, o “grande período de Ouro”.

Período Zhou

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Bronze da Época Zhou

A época Zhou é conhecida por uma terminologia variada: ela já foi chamada de Idade dos principados, Época Feudal chinesa e Primeiro Grande Império. Analisemos cada uma dessas visões.

O termo Idade dos Principados remete-se à política da casa de Zhou de distribuição de terras e títulos nobiliárquicos para os aliados e servidores fiéis. Desta forma, era possível dentro do “Império Zhou” a existência de reinos quase autônomos, que guerreavam entre si sob o arbítrio da casa imperial. Esta denominação parece ser adequada, portanto, ao contexto da época final dos Zhou, mas não sabemos se vale para os períodos iniciais, onde não existiria uma fragmentação política tão grande.

Já o termo Feudalismo Chinês é uma sobreposição do equivalente lingüístico ocidental ao sistema político e econômico implementado pelos Zhou, que incluía relações de vassalagem e uma hierarquia social baseada em títulos e funções sociais. No entanto, este termo também é criticado pela sua especificidade, que não parece ser plenamente aplicável ao caso chinês, tendo em vista as diferenças que caracterizam as instituições constituintes do poder no modelo Zhou (Gernet, 1979:58).

A idéia de primeiro grande Império é uma sobrevivência das interpretações clássicas confucionistas sobre a História Antiga. Vemos que os chineses tinham a tendência de articular os períodos passados numa única linha cronológica e espacial, sem observar suas variações étnicas e materiais. No entanto, a preocupação dos mesmos era explicar os momentos contemporâneos de suas vidas, para os quais as alterações nas estruturas históricas passadas nada significavam, portanto, se fossem desprovidas de um sentido simbólico. Assim, o fato dos Zhou representarem uma casa monárquica que intermediava a ação política dentro da China Antiga e que haviam inaugurado o Mandato do Céu como instituição, por si só bastava aos classicistas para denomina-lo como Império. Na verdade, temos que considerar que o que chamamos realmente de Imperium Chinês (ou seja, a partir dos Qin), é, também, uma construção da nossa historiografia. O que é para nós uma radical mudança no sistema político antigo, através dos Qin, que caracterizaria o processo de unificação e construção de uma nova estrutura administrativa e cultural era (e ainda é, para alguns chineses) apenas uma mudança na continuidade histórica.

E devemos lembrar ainda que o termo Império é de origem Latina: até existem alguns equivalentes homeomórficos na língua chinesa, mas nenhum deles preciso. Assim, é difícil pensar em como podemos associar a terminologia Imperium ao caso chinês. No entanto, a contestação que se faz desta linha historiográfica é que ela tende a não observar as rupturas e transformações históricas de forma significativa, tendendo a um imobilismo cultural e ideológico. Ela não observa também as modificações institucionais que asseguram uma nova perspectiva social e política ao longo da História chinesa. Logo, podemos afirmar com segurança que este terceiro ponto de vista é uma reprodução direta do imaginário antigo, que criou uma cronologia única e articulada, mas que não é pertinente com as transformações que ocorreram no plano material e institucional.

Vemos assim que a utilização destas três terminologias não é, por conseguinte, totalmente conflitante ou impossível, mas exige cuidado e especificidade nos casos de análise.

A História dos Zhou, segundo uma tradição ainda aceita (de acordo como o Shu Jing e com o Shi Ji) começa com a derrocada dos Shang em torno dos séculos XI-X a.C. Os grupos étnicos que comporiam os Zhou teriam uma ascendência próxima dos Shang-Yin (manifesta pelos estilos artísticos e pela escrita), mas habitavam fora do território “imperial”, e viviam em contato direto com os “bárbaros”. De tradição militarista (embora seus costumes sociais e fúnebres fossem muito menos cruéis que os dos Shang), os Zhou promoveram uma invasão do território conduzidos por um rei chamado Wen, que tinha por objetivo findar com a sucessão de terríveis déspotas Yin que afligiam a sociedade. Após uma grande batalha, os Zhou derrubam os antigos soberanos e assumem o poder. Depois disso, o rei Wen é sucedido por Wu, cujas realizações consolidam a posição da nova dinastia. No entanto, ainda ocorreriam rebeliões e conflitos que só seriam resolvidos, após algum tempo, pelo Duque Zhou (Zhougong).

Estas três figuras são fundamentais tanto na antiga história chinesa quanto na própria Sinologia moderna. Os reis Wen e Wu, tanto quanto o Duque Zhou, eram considerados modelos de virtude e sabedoria dentro do pensamento chinês. A eles foi atribuída, por Confúcio, a primeira redação do I Jing (Wilhelm, 1988:3-13). Se a existência verídica destes personagens procede, isso parece já não ser tão importante, tendo em vista o que foi realizado em nome dos mesmos.

Partindo do século XI-X, o tempo dos Zhou é dividido em períodos distintos: o primeiro, que iria de 1027 - 700 a.C. seria os dos Zhou anteriores, também chamados de ocidentais ou primitivos. Esta divisão é marcada pela transferência da capital para a cidade de Chengzhou e pela modificação de alguns parâmetros culturais e artísticos. A data aproximada de 770 a.C. marcaria o auge desta dinastia, que depois iria declinar em função da desestruturação interna e dos conflitos com os bárbaros.

O segundo período, dos Zhou posteriores, ou ainda orientais e recentes, é marcado pela decadência política, mas se constitui numa época fértil para o pensamento e para ciência chinesa.

Ele estaria datado de 771 a 221 a.C., quando da vitória dos Qin e a unificação chinesa.

Está subdividido em duas partes: a primeira, que vai de 771-481 a.C. é chamada, como já citado anteriormente, de Primaveras e Outonos (presentes nas narrativas do Chun Qiu e do Zhuo Quan), quando se inicia o período dos Estados Combatentes (Zhang Guo), que vai até 481-221 a.C. Os chineses opunham os dois períodos demonstrando claramente a perspectiva de conflito e corrupção do poder e da sociedade que se estabeleceram a partir dos séculos VII-VI a.C.

No VI-V a.C. é interpolado o período denominado Época das Cem Escolas, (já citado) que marca o alvorecer dos sistemas clássicos de pensamento chinês (Chan, 1979).

Há uma linha ainda que prefere definir a cronologia Zhou pelos seus estilos artísticos, separando-a em três: Zhou Inicial (1027-900), Zhou Médio (900-650) e Zhou Final (650-221) (Pinschel, 1963: 7-21). Segunda esta concepção, bastante funcional para o estudo da arte, o primeiro período corresponde ao de assimilação das antigas formas Shang; o segundo, de fusão artística entre os dois estilos e o terceiro, de multiplicidade, ligado à separação dos reinos. É, no entanto, um modelo artificialmente criado, e apenas metodologicamente funcional.

A análise histórica e arqueológica demonstra que houve uma expansão territorial e econômica das atividades Zhou no primeiro período. É o período de construção de uma nova cultura, conjugando elementos próprios com os dos antigos Shang - Yin.

A organização política se desdobra, nalguns aspectos, em torno das antigas relações arcaicas dos Shang: os soberanos são responsáveis não só pela administração pública quanto pelo espiritual e militar na comunidade.

Há uma inovação, porém, fundamental para a nova estrutura monárquica: a divisão em reinos e feudos do território, ligados por relações de vassalagem à casa de Zhou. Decorrente disso há também a formação de um corpo regular de assistentes burocráticos e funcionários no qual se confundem cidadãos livres e escravos.

No entanto, se a autoridade moral é a base do novo poder monárquico, o que se veria seria uma degradação da capacidade de influência dos governantes em relação aos principados. A situação foi estável até o recrudescimento das invasões bárbaras no norte (VII a.C.), que puseram em dúvida, diante da sociedade, o mandato celeste em mãos dos Zhou.

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Vaso Zhou com inscrições - um dos mais antigos exemplares de escrita

As escolas e suas idéias

A percepção de um conflito eminente foi atentada pelo surgimento de inúmeras escolas filosóficas que compõem o período das Cem Escolas. Surgidas basicamente no século VI a.C., o conteúdo destas escolas baseava-se na proposta de uma série de pensadores sobre os meios de recuperação da antiga dignidade Zhou, ou ainda, de reformulação social. A ordenação e a separação destes grupos de pensamento foi feita de forma didática no período dos Han, mas é provável que nos séculos VI-IV elas ainda se vissem mais vinculadas aos seus mestres do que propriamente a uma idéia de “escola” (Jopert, 1979:88-142).

A organização clássica dessas escolas é a seguinte: Ru jia, ou escola dos letrados, mais especificamente os confucionistas, seguidores da linha de Confúcio, Mêncio e Xunzi; moístas, de Mozi; taoístas, da linha de Laozi, Liezi e Zhuangzi, escolas dos nomes, de Huizi; a escola das leis, de ShangYang, Han Fei e Lisi; e ainda, a escola dos políticos, dos ecléticos, do Yin-Yang, dos Cinco elementos e da Agricultura. Estas teriam sido as mais importantes do período, havendo outras de caráter secundário.

Um ligeiro quadro fornece-nos idéias básicas sobre as propostas morais destas escolas:

Taoístas: movidos pelos escritos de um suposto sábio chamado Laozi, construíram uma doutrina filosófica que defendia a compreensão do Tao como a única forma dos homens viverem em harmonia e retornarem a natureza primordial. Tao aí entende-se por um conceito abrangente cujas traduções aproximadas podem significar de “caminho” até “natureza”, ou mesmo “cosmos”. As diversas especulações sobre a não-ação, sobre a realidade do homem em relação ao meio e sua consciência sobre a vida inauguraram uma nova perspectiva de discussão filosófica na China. Mas os dois taoístas que popularizaram a doutrina foram Zhuangzi e Liezi, que transformaram em histórias e contos a teoria obscura do Tao escrita no Daodejing. O taoísmo desde cedo, porém, se aglutinou com as práticas mágicas, alquímicas e xamânicas, perdendo grande parte do seu conteúdo filosófico e transformando-se numa religião. De certa forma identificamos esse processo com a tendência latente de ritualização presente na cultura chinesa.

Confucionismo: diferente dos taoístas, Kongzi (Confúcio) preocupou-se desde o inicio em empreender uma volta ao passado imperial Zhou, e não propriamente com uma perspectiva naturalista como a taoísta. Ele acreditava no poder da educação para retificar a conduta do homem, e sua proposta extremamente pragmática indicava um caminho acessível à todos para o reerguimento social. Kongzi não deixava por isso de trabalhar também com valores metafísicos, mas seu entendimento sobre a realidade humana mostrava uma lucidez incrível, e por estes motivos suas proposições não podiam deixar de considerar a dificuldade em realizar o trabalho de instruir a sociedade. Assim sendo, a escola confucionista estimulava seus discípulos a participarem da vida pública e da burocracia para que estes pudessem efetivar mudanças sociais salutares. A data clássica de vida de Kongzi foi de 551-479 a.C., e os dois grandes confucionistas posteriores foram Mengzi (Mencius) e Xunzi. que teriam vivido aproximadamente no século IV-III a.C.. Estes desenvolveram uma grande discussão acerca da natureza do homem e do papel da educação e do governo. O confucionismo se transformou, na época Han, na doutrina oficial do estado imperial, mas com algumas modificações e influências das outras escolas.

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Imagem tradicional de Confúcio

Legismo: a escola da Lei (Fa jia) representa a ascensão de uma razão de governo pragmática, dura e violenta. Ela não se dispõe à retornar ao passado ideal, mas a criar um governo forte e centralizador em torno dos príncipes. Semelhante ao que ocorreu na Índia com o Artashastra e na Europa com Maquiavel, os legistas apresentavam uma proposta alternativamente despótica de poder e governo, e foram muitas vezes absorvidos na máquina administrativa, como no caso da dinastia Qin. Seu maior autor teria sido Han fei, que viveu no século III a.C., e organizou o conteúdo dessa escola que separava a política da moral, aliava a prática à uma teoria muito bem planejada e baseava-se em princípios completamente severos e racionais, desprovidos de qualquer sentimentalismo.

Moísmo: algumas décadas depois de Confúcio, um grupo surgiu sobre a égide de Mozi, um retórico religioso que pregava a paz, a igualdade e desprezava a dita “proposta educativa” dos confucionistas, por achar que ela naturalmente excluía os menos providos. Curiosamente, os moístas eram materialistas, utilitaristas e dominavam inúmeras técnicas militares, que utilizavam para defender aqueles que acreditavam ser os “mais fracos”.

Nominalistas: os ditos “sofistas” chineses surgiram mais ou menos na mesma época destas outras escolas, e destacaram-se pelo uso da retórica na discussão de assuntos políticos e jurídicos. Tiveram pouco expoentes no século IV-III a.C., mas alguns dos fragmentos que sobraram revelam um grupo altamente intelectualizado, capaz de elaborar paradoxos complexos, como o que seria escrito na Grécia por Zenão de Eleia, num período próximo, sobre a flecha partida.

Escola dos cinco Elementos: a doutrina dos cinco elementos foi um desdobramento da antiga ciência chinesa, contida em livros como o Neijing e o Ijing. Ela se preocupou em entender as problemáticas científicas como decorrentes de um ciclo natural que envolvia as correntes Yin e Yang e o domínios dos cinco elementos (água, fogo, metal, terra e madeira). Estes ensinamentos encontraram um sucesso enorme na época dos Han, principalmente no campo tecnológico, mas também foram aproveitadas para explicar eventos históricos e sociais.

Essas escolas são a base da estrutura do pensamento chinês, embora devam ser analisadas com cuidado diante das inúmeras alterações que sofreram em suas propostas ou mesmo em seu discurso. No entanto, elas nos fornecem os elementos necessários para compreender a lógica dessa civilização, mesmo em seus períodos mais antigos.

O Império Zhou

A época Zhou denota a formação de uma classe nobre importante dentro da sociedade, interligada ao funcionamento da política, da força militar e da economia.

Ela manipulava o funcionamento das práticas administrativas, sociais e religiosas através deste corpo burocrático, criado para executar o poder na extensão do território. Como afirma Aymard, “Tem-se a impressão de que, na época dos Zhou ocidentais, a sociedade ainda não foi submetida a uma hierarquia complicada, como será o caso, à medida que se desenvolver a tendência para a unidade política e a centralização do poder.

A sociedade estava dividida em duas grandes classes: embaixo, a plebe camponesa; em cima, a classe patrícia (nobres hereditários). Pouco a pouco, ramificar-se-ão e classificar-se-ão os elementos médios, começando no grau mais baixo com os escravos e trabalhadores rurais, elevando-se progressivamente pelos artesãos e mercadores, letrados e funcionários, ministros e altos funcionários, nobres e príncipes, até o imperador, que domina a pirâmide hierárquica” (Aymard, 1957).

Foi, porém, um momento de refinamento e desenvolvimento para a cultura: os Zhou eram apreciadores da música, da literatura e das belas artes. Mantiveram, sem grandes modificações, a organização econômica Shang, implementado a cobrança dos impostos sobre a utilização do território.

Novos tipos de produção agrícola foram introduzidos, bem como o artesanato e a manufatura foram estimulados, pela primeira vez, num sentido de exportação: “A invenção tecnológica foi, uma vez mais, tão útil à agricultura quanto era na guerra. Nessa época; foi inventado o arnês de peitoral, ou coelheira, que aumentava a eficiência, seguindo-lhe pouco depois, já no século V d. C., um novo tipo de coelheira rígida. Esses dois tipos de arreios permitiram a um único cavalo fazer o que dois ou até quatro faziam antes, quando o arnês de pescoço ameaçava estrangular o animal se tivesse de deslocar um peso excessivo no tiro. O maior avanço técnico de todos foi a introdução dos processos de fusão e fundição do ferro, mencionados pela primeira vez em 513 a.C. O ferro fundido é encontrado em objetos que datam de 400 a. C., época em que o uso desse minério já entrara em uso bastante generalizado. Um dos primeiros usos conhecidos do ferro na China era como revestimento das bordas cortantes de pás de madeira, e para outros implementos agrícolas como enxadas, facões e foices” (Morton, 1986).

A intelectualidade deveu muito às primeiras épocas Zhou, sobre as quais sabemos pouco, porém. Existem indícios sobre como seriam os primeiros sistemas de pensamento desenvolvidos na época. No entanto, estes foram filtrados e modificados na época das Cem Escolas. No campo religioso, vemos sumir no meio das classes abastadas o politeísmo folclórico, que dá lugar a uma concepção mais abstrata de metafísica, baseada em princípios ecológicos das noções de Céu e Terra, ligadas ao Ser humano.

Nos discursos taoístas e confucionistas observamos claramente que os Deuses não aparecem: o Céu, esta entidade sem forma, é que governa os destinos da civilização. Era ele quem gerava o Mandato Celeste, atributo de uma dinastia para realizar a conexão entre o mesmo Céu, a Terra e a Humanidade, gerando a Harmonia universal (Smith, 1969).

O Advento dos Estados Combatentes

O início dos Estados Combatentes é marcado pelo fim da capacidade de arbítrio dos Zhou sobre os problemas internos e a concentração de força em apenas sete principados: Qi, Qin, Chu, Zhao, Han, Yen e Wei. Cada qual, com sua força militar e seu próprio corpo de funcionários, encetou um processo de guerra ininterrupta que culminou com a vitória do melhor organizado (e cruel) Estado Qin, em 221 a.C. O novo soberano decide, após a vitória sobre os Zhou, assumir o título de Primeiro Grande Imperador Amarelo, ou Qin Shi Huang Di, marcando, para a historiografia moderna, a fase do Imperium real na China; "O início do declínio do feudalismo, bem como o movimento no sentido da unidade, é visível no período da Primavera e Outono (770-481 a. C.), nome que recebeu de anais assim chamados. É nesta altura que se verifica o primeiro enfraquecimento do princípio da hereditariedade, sendo a própria casa real dos Zhou a vítima mais visível dessa mudança. O Livro da História dá-nos uma visão clara das circunstâncias de extrema carência em que ficou o Filho do Céu depois de, em 771 a. C., os nobres se terem aliado contra os invasores bárbaros. Apesar de todos os grandes senhores terem declarado a sua lealdade ao trono, o novo rei não pôde deixar de reconhecer a dependência em que ficara da «benevolência de todos, sem a qual a Terra não goza de paz». As ofertas de arcos e flechas que fez aos mais destacados membros da nobreza são sinal duma flagrante falta de força, na medida em que representam o reconhecimento do direito a punir quem desobedecesse a ordens reais. A pouco e pouco, esta devolução de autoridade deixou os reis Zhou com uma função apenas religiosa e um reino empobrecido a rodear Luoyang. Com efeito, os achados arqueológicos mostram o crescimento de centros de poder independentes nas grandes quantidades de bronzes descobertos em diversos pontos da cidade fortificada e nos túmulos sumptuosos, cujas inscrições não se referem já ao monarca Zhou, mas proclamam os nomes dos nobres para os quais foram feitos. Com o declínio das obrigações feudais e a erosão do poder central, os chefes dos estados emergentes lutavam entre si pela conquista de território e competiam para atrair artífices e agricultores. A oeste, os primitivos Qin incentivavam a imigração de estados rivais oferecendo casas e isenção do serviço militar. Um estado de guerra permanente, ora entre os próprios Chineses, ora com os Bárbaros invasores vindos das estepes do Norte, provocou uma redução substancial no número de estados. Segundo o Livro dos Ritos (Liji), existia durante o período da Primeira Dinastia dos Zhou (1027-771 a. C.) um total de 1763 feudos. No princípio do século vii a. C. já só havia 200 territórios feudais; por volta de 500 a. C., esse número tinha caído para menos de 20. Durante o período dos Reinos Combatentes (481-221 a. C.), as lutas intestinas tornaram-se tão ferozes e intensas que só sete estados feudais conseguiam reunir recursos suficientes para fazer a guerra. Impotente, o monarca Zhou, via duas grandes potências, Qin e Chu, ainda incompletamente sinizadas, conquistarem território tirando partido das lutas entre os estados feudais mais antigos. Em 221 a. C., a força de Qin foi suficiente para destruir todos os seus rivais e unificar toda a antiga China num só império. Em 256 a. C., o último rei Zhou foi brutalmente expulso do trono pelas tropas de Qin.(Cotterel, 1987).

O arcabouço gerado pelos Zhou foi a base sobre o qual os Qin pensaram uma nova estrutura de governo. Influenciados pela escola legista e, temerosos de criarem um sistema político falho, os Qin promoveram uma proposta centralizadora e unificante, pautada numa lei rígida, que eficazmente colocou este principado na ponta pela corrida do poder. Souberam aproveitar as experiências negativas da intelectualidade Zhou em resgatar o passado e elaboraram um projeto novo de governo, naquela época contestado por suas características novas e desvirtuado das antigas tradições. No entanto, o pragmatismo dessas propostas de criação de um novo império vingou, gerando uma estrutura política na China que seria milenar.

Período Qin

Relativamente bem documentado, o período Qin - Han estabelece as bases sobre as quais as dinastias posteriores iriam governar a China. A estrutura construída era tão sólida que não só resistiu ao tempo quanto foi capaz de converter dinastias estrangeiras aos modos chineses (como os Yuan e os Qing, da época medieval e moderna).

Os Qin empreenderam uma reforma completa na sociedade e no governo, utilizando-se das teorias legistas para tal fim. Unificaram o poder em torno da figura do Imperador Qin Shi Huang Di, suprimindo grande parte da influência e dos direitos nobiliárquicos. Centralizaram a administração pública nas mãos do corpo burocrático, estabelecendo as diretrizes funcionais dos cargos e atributos das posições. Como afirma J. Gernet; “o que importa é que o príncipe seja a única fonte de benfeitorias e de honras, de castigos e de penas. Se delega a menor parte que seja do seu poder, corre o risco de criar rivais, que cedo tentarão usurpar-lhe esse poder. Do mesmo modo, é necessário que as atribuições dos funcionários do Estado sejam estritamente definidas e delimitadas para que não surja nenhum conflito de alçada e para que os funcionários não se aproveitem da imprecisão dos seus poderes para se arrogarem uma autoridade ilegítima. Mas, acima de tudo, o que deve assegurar o funcionamento do Estado é a instituição de regras objetivas, imperativas e gerais. [...] Não só deve a lei ser pública, conhecida por todos, não consentindo qualquer interpretação divergente, mas também a sua própria aplicação deve ser independente dos juízos incertos e variáveis dos homens.A idéia era impedir a superposição e a concentração de poder nas mãos de elementos discordantes do governo, o que poderia criar novas sublevações” (Gernet, 1969).

O regime centralizado possuía caracteres despóticos, e essa era a real intenção dos Qin. Através do controle burocrático estatal, diminuía-se a capacidade de afirmação das elites de cada um dos principados, filtrando a participação das mesmas no regime através da atuação junto ao governo.

No campo econômico, as mudanças políticas também surtiram efeito junto à produção agrícola, manufatureira e nas obras públicas. Houve uma reformulação na arrecadação de impostos, no recolhimento de reservas em grãos para as épocas de carestia, crise ou guerra, e o estímulo ao comércio externo. Grandes obras de irrigação, barragens, arroteamento de novos terrenos e fortificação de cidades foi empreendida, ao custo de milhares de escravos, servos e camponeses livres convocados para o trabalho compulsório.

A Grande Muralha é um dos demonstrativos do projeto megalômano de Qin Shi Huang Di: construída pela união de várias outras pequenas muralhas locais, seu objetivo era regular a presença dos nômades do Norte nas fronteiras chinesas (Shiji, 88).

Qin Shi Huang Di ainda fez mais pelo império chinês: unificou pesos, medidas e moedas para facilitar o trânsito de mercadorias. Promoveu também a uniformização dos ideogramas, criando a primeira gramática-dicionário da língua chinesa, de caráter universal. Esta síntese permitiu que, nos séculos posteriores, várias outras nações pudessem falar e escrever chinês, sendo a base, ainda, dos ideogramas modernos.

Em meio a tantas medidas positivas, a dinastia Qin também foi marcada pela violência: perseguições aos sábios discordantes do regime, queima de livros, supressão de práticas religiosas, culto à imagem do Imperador, exaustão das classes baixas pela exploração do trabalho...a unificação do Império teve um alto custo social, que em breve despertou a insatisfação popular.

O reinado de Qin Shi Huang Di foi marcante, porém efêmero: em 210 a.C. ele morre, provavelmente envenenado pelos elixires que tomava para obter a imortalidade. Onde vários assassinos falharam, a vaidade enterrou o tirano. Depositado em seu fabuloso mausoléu, descoberto em 1974, foi guarnecido por soldados de terracota que, planejados para defende-lo em outro mundo, não puderam protege-lo da fúria dos camponeses. A tumba foi saqueada e enterrada na terra. Sem deixar substitutos à altura, a China foi lançada numa nova guerra civil, mas dessa vez rápida, que fez ascender ao poder o ex-camponês Liu Bang, fundador da Dinastia Han, em 206 a.C.

Período Han

Uma nova sociedade

Os Han foram ainda mais efetivos na administração do Império, embora tenham suavizado suas características autoritárias.

Preservando muito da estrutura administrativa Qin, algumas reformas foram feitas para dinamizar a burocracia: realização de exames para a admissão de funcionários, criação de escolas públicas e Universidades para formação e renovação do corpo e ampliação dos quadros. Reformaram o exército, combatendo de forma eficaz os sempre ameaçadores bárbaros do Norte. Restituíram parte dos títulos nobiliárquicos, mas sem a importância dos tempos Zhou.

No campo ideológico, a grande reforma foi a adoção do Confucionismo como doutrina oficial de Estado, o que alçou a posição desta Escola ao patamar de prática religiosa.

Foi um período fértil para a cultura chinesa: o taoísmo também se desenvolveu bastante (tanto como filosofia quanto religião) e o Império ainda recebeu a entrada dos primeiros pregadores budistas. A literatura cresceu em todos os campos, estendendo-se pela filosofia (que encontra um período de fusão incomum entre diversas correntes, dando origem aos chamados “pensadores ecléticos”), História (é a época de Sima Qian e de Ban Gu), romance, poesia, teatro, etc. Há uma renovação da arte, promovida pelo contato com novas estéticas vindas do estrangeiro. Destaca-se a inventividade da cerâmica, do bronze e o desdobramento de novas técnicas como o relevo e a pintura; “A pintura da dinastia Han inicia na arte chinesa uma linguagem verdadeiramente nova e característica. Se até agora o esplendor dos exemplares modelados no bronze ou no barro ou a preciosidade dos jades talhados nos surpreendem pela capacidade e genialidade de transmitir com extremo rigor formas puras, magníficas de cor, preciosas pelo contorno, e pela intrínseca beleza da matéria, subordinada aos valores da arte, a pintura Han apresenta-nos uma página de vida vívida e amada. [...] É um mundo em si vivido e impossível de repetir, cuja linguagem atinge uma íntima expressão de vida.

Se podemos interpretar o caráter de um rito segundo as formas do vaso, se da planimetria de um túmulo podemos deduzir a concepção social de uma civilização, a obra pictórica chinesa fala-nos uma linguagem mais universal, mais fácil e evidente: fascina-nos para nos fazer participar num instante de vida que destrói as distâncias no tempo e no espaço” (Pischel, 1963).

Política Han

Os Han desenvolveram ainda mais a expansão do Império em direção ao Oeste. Durante o reinado de Wudi (II-I a.C.) estabelecem-se contatos com os impérios do Ocidente (Roma e Partia) e com a Índia, abrindo a Rota da seda para difundir suas mercadorias em todas as partes do Mundo Antigo: “A mais importante realização do reinado de Wudi foi sem dúvida a expansão do poder chinês e dos limites territoriais da China, fatos que merecem um exame mais detido.

A expansão deu-se em três direções: para o noroeste, para o nordeste e para o sul. O primeiro imperador Han, Gao Zu (Liu Bang), como vimos, teve de enfrentar o problema - que, mesmo naquela época, não era novo - dos nômades das estepes. Os Xiong-nu haviam conseguido uma forte liderança antichinesa ao formarem uma confederação regional de tribos. Havia na corte chinesa uma corrente contrária à solução conciliatória e ao acordo, com base no fato de que as doações feitas aos líderes Xiong-nu aumentavam não só sua riqueza, mas também seu poder de oposição.

Por outro lado, a política exterior chinesa de caráter pacífico havia conseguido tirar proveito dos acordos de paz com os nômades, da seguinte maneira: os reféns das tribos que eram enviados à corte chinesa como garantia de bom comportamento não só eram tratados magnificamente, mas também recebiam educação chinesa e até postos nas funções palacianas. Assim, quando voltavam a seus lares, incentivavam amizade com a China e davam oportunidade de os chineses intervirem na política local, quando fosse o caso” (Morton, 1986).

Alguns desses soberanos Han se excederam, porém, permitindo o surgimento de um movimento restaurador chefiado por Wang Mang, que entre 9-22 d.C. fundou a rápida dinastia Qi. (51) Sua proposta de retomar a antiguidade só funcionou durante algum tempo, e após sua morte, a dinastia Han retomou o poder, mantendo-o até o século III d.C.

A vida dos Han testemunhou uma série de progressos notáveis também na economia e na tecnologia: "O mundo chinês manifesta, a partir da segunda metade do século II a.C., uma vitalidade notável, confirmada pelos testemunhos concordantes dos textos e da arqueologia. Beneficia dos progressos conseguidos no decurso desse período, tão rico em inovações, como foi o dos dois séculos que precederam o Império, e das vantagens proporcionadas pela unificação política.

Durante a época dos Han continuaram a registrar-se progressos na metalurgia do ferro. Sem dúvida que será necessário esperar pelo século VI para se encontrar descrito um processo de co-fusão, antepassado do processo moderno Siemens-Martin, mas os Chineses souberam produzir aço desde o século lI a.C., aquecendo e trabalhando, em conjunto, ferros com diferentes teores de carbono. Desde esta época, as armas de aço substituem as armas de bronze, as únicas que, segundo parece, foram conhecidas na época dos Reinos Guerreiros, altura em que a fundição de ferro servia sobretudo para a produção de utensílios agrícolas. São de ferro as espadas, as alabardas e os mecanismos de bestas da época dos Han, encontrados nas escavações. O testemunho de Plínio, o Antigo (37-39), que elogia a qualidade do ferro produzido pelos Seres, corrobora as alusões dos textos chineses às exportações clandestinas de ferro e à difusão das técnicas siderúrgicas, durante a época dos Han, nos oásis da Ásia Central. O fabrico do ferro é, de resto, o mais ativo e o mais importante deste período. Na altura da instituição do monopólio do Estado sobre a produção de ferro e de sal, em 117 a.C., foram criadas pela administração 48 fundições, empregando cada uma delas um pessoal que ia de algumas centenas a um milhar de operários. Designados nas fundições privadas pelo nome de tongzi - termo que se aplica aos adolescentes e que evoca um estado servil -, estes operários eram conscritos ou condenados cujas condições de vida levaram muitas vezes à sua revolta. Para além destes dois grandes setores do sal e do ferro, onde o monopólio do Estado só foi, de resto, aplicado de modo estrito durante menos de um século, coexistiam empresas privadas e públicas. As grandes oficinas do Estado, cujo funcionamento acarretava pesados encargos e cuja produção se destinaria em grande parte aos presentes feitos a populações estrangeiras, localizavam-se na capital Chang An e nas províncias. Em Lizi, antiga capital do reino Qi, no noroeste de Shandong, essas oficinas vários milhares de operários. Mas existiam também empresas privadas criadas por famílias de ricos mercadores. Acontecia o mesmo com as lacas, fabricadas sobretudo no Sichuan e no Henan. Algumas peças encontradas em estações arqueológicas trazem o nome do artífice que dirigiu o seu fabrico e outras não trazem nenhuma marca e poderiam provir de oficinas particulares. As descobertas arqueológicas e as alusões de certos textos deixam supor que as empresas privadas tiveram um papel importante na economia da China dos Han.

Um outro artesanato importante era o do cobre, cujos produtos principais eram as moedas (a sua fundição por particulares foi proibida desde muito cedo), e os espelhos de bronze. No primeiro séculos da nossa era, estes espelhos tornaram-se um artigo de exportação e nota-se que os seus motivos e o tipo das suas inscrições se modificaram a partir desta época. Descobriram-se numerosos exemplares desde a Sibéria ao Vietnam e, até mesmo, na Rússia Meridional.

Verificaram-se nítidos progressos no domínio da produção e das técnicas agrícolas. Os instrumentos de ferro são de melhor qualidade que nos séculos IV e III e o uso do arado puxado por bois generaliza-se. Na época do imperador Wu, foi empreendido um enorme esforço para aumentar a superfície das terras regadas e para valorizar novas terras na China do Norte. Agrônomos experimentados são encarregados de difundir novos métodos de cultura e, a partir de fins do século I a.C., certos funcionários esforçam-se por converter à cultura dos cereais as tribos nômades estabelecidas aquém das Grandes Muralhas. A partir de 85 a.C., difunde-se um tipo de afolhamento em faixas de terra onde as culturas são alternadas (daitian). Mas os principais cereais continuam a ser os da Antiguidade - cevada, trigo e milho miúdo -, culturas às quais se torna necessário juntar a soja e o arroz que tinham então uma importância relativa. A partir de fins do século II, a luzerna (a erva musu), importada das regiões ocidentais, permite alargar à China do Norte a criação de cavalos.[...] Verdadeiramente, mesmo na época em que o controle do Estado sobre a economia do Império era mais eficaz, o governo central contou sempre com os notáveis locais. Uma das particularidades sociais da época dos Han no seu conjunto é, com efeito, a existência de famílias riquíssimas que dirigem simultaneamente empresas agrícolas (produção cerealífera ou agrícola, pastorícia, piscicultura, etc.), industriais (fiação, fundições, lacas, etc.) e comerciais e que dispõem de uma abundante mão-de-obra. Nas regiões onde a agricultura é o recurso principal, estas famílias ricas limitam-se a exercer pressão sobre os camponeses pobres praticando preços usurários e levando os devedores a alugar-lhes as suas terras ou a vendê-las. É, sem dúvida, o caso daqueles mil notáveis, espécie de déspotas rurais, que Wang Wenshu, funcionário de tendência legista, mandou prender e julgar em 120 a.C. Mas, em todos os lugares onde as condições econômicas o permitem, outros recursos vêm juntar-se aos rendimentos agrícolas" (Gernet, 1979). Tais evidências sobre o processo constante de evolução econômica, política e tecnológica advém de um intenso controle que o império buscara exercer sobre as atividades produtivas - uma marca, evidentemente, do período legista, mas fundamental para compreender a estrutura do pensamento estatal chinês deste período.

Por conta disso, a experiência dos Han foi definitiva para o estabelecimento do Império chinês. Foi neste momento que a sociedade constituiu a estrutura mais duradoura de sua existência, encontrando seu apogeu, no período clássico, na mesma época Han e depois, com os Tang (618-907 d.C.). Nunca, depois do terceiro século, a China criaria outro sistema imperial que não fosse diretamente inspirado no antigo regime Han. Este foi o marco da antiguidade chinesa, sobre o qual a civilização iria se desenvolver posteriormente.

Conclusão

A China Antiga, de constituição social e política imóvel e prolongada é, antes de tudo, uma construção histórica recente. Esta civilização possuiu na antiguidade um dinamismo todo próprio, sobre o qual observamos o desenvolvimento e a evolução de práticas culturais e econômicas derivadas, por um lado, dos tempos proto-históricos e, por outro, da interação com povos estrangeiros, em geral de ascendência étnica sino-mongólica. O Mundo chinês era essencialmente agrícola e artesanal e esse modo de vida, que tanto combateu para dominar e se harmonizar com o meio ambiente se contrapunha, culturalmente, ao sistema de vida nômade do norte, onde havia a prática intensiva da pecuária, criando a dicotomia “sedentário - civilizado” X “bárbaro - nômade”.

Como forma efetiva de transmissão dos conhecimentos, os chineses desenvolveram a ritualização das técnicas produtivas e interativas com a natureza, característica fundamental desta civilização. Na época de Confúcio, muitos desses rituais já haviam perdido seu sentido original, mas continuavam a ser defendidos como modelos ideais de conexão com a natureza (Lunyu, 3). Como afirma Granet, "A vida das aldeias está submetida ao ritmo das estações.

No outono e na primavera, realizam-se as assembléias populares reunindo homens e mulheres que se entregam conjuntamente a brincadeiras e orgias: concursos para tirar dos ninhos os ovos das aves migradoras, lutas, perseguições, danças e cantos, colheita de plantas silvestres, batalhas de flores, justas em que se defrontam moças e moços numa dança ritmada por meio de canções improvisadas etc.; comedeiras e bebedeiras encerram tais jogos, enquanto se concluem trocas e vendas, à semelhança da própria feira.Quando o ano agrícola termina, efetuando-se então a volta à aldeia, os homens festejam entre si o fim da colheita; a celebração é feita com torneios de prendas. A estação morta vai começar; é ela inaugurada pela cerimônia do Grande No que anuncia a hibernagem dos homens e dos animais; disto participam apenas os homens; há danças com disfarces animalescos, ao som de um timbale de argila, os exorcistas exibem seus talentos, come-se e bebe-se, fazem-se apostas, adormece-se, enfim, na embriaguez, depois de amplas despesas, cabendo aos anciãos a presidência da agitação geral. A festa de Paqa fecha o período ativo que precede imediatamente o inverno; é celebrada pelos velhos da aldeia que, em vestes de luto e com o bastão na mão, convidam os homens a dar início ao retiro, a fim de preparar a renovação de outro ano" (1930/1979).

Mas a busca incessante por modelos efetivos de subsistência é que articulou, nos tempos remotos, as idéias de uma ciência chinesa primitiva que seria re-sistematizada no tempo das Cem Escolas. Isso resplandece, também, na forte atribuição que as técnicas tiveram no desenvolvimento material da civilização, contribuindo para os avanços inúmeros obtidos no campo da metalurgia, cerâmica, trabalho artesanal, fabril, etc. E todas essas conquistas foram alcançadas tendo por raiz os sistemas cosmológicos naturais, que sobreviveram até hoje na forma de teorias elementares sobre o espaço, o corpo e a natureza; "Com a civilização chinesa, chegamos a um panorama do mundo e da ciência diferente, em muitos aspectos, daquele característico do Ocidente. [...] Mas para entender bem suas realizações devemos ter em mente que, desde os tempos mais primitivos, os chineses encaravam o universo como um vasto organismo, do qual o homem e o mundo natural representam apenas uma parte. Esse ponto de vista influenciou profundamente o modo pelo qual eles explicavam os fenômenos naturais; em alguns casos, isso os ajudou a se antecipar ao Ocidente na busca de explicações para muitos fatos; mas, em outros, impediu-os de achar a verdadeira interpretação para o comportamento do mundo. Um segundo fator que também desempenhou papel importante foi a rejeição - ou sua falta de crença - de toda espécie de divindade pessoal onipotente como um poder mais alto a governar o universo. Algumas conseqüências desse fato serão consideradas mais adiante. Os chineses sempre demonstraram um extraordinário senso prático, uma imensa habilidade em aplicar todos os conhecimentos a fins práticos. Entre os povos primitivos, eles eram cientistas práticos par excellence, [...] como veremos claramente, não foi apenas em tecnologia que os chineses mostraram seu pioneirismo; eles tinham alguns pontos de vista científicos que eram muito avançados para a época, embora freqüentemente os formulassem em termos práticos". (Ronan, 1986).

É o caso dos avanços obtidos no desenvolvimento da produção que culminaram, por exemplo, com o domínio fabuloso das técnicas de irrigação, principalmente no final dos Shang, quando se tornam uns dos fatores primordiais na estruturação das vidas comunitárias. Igualmente, estas concepções sobre o natural sofriam (e se reproduziam) no campo ideológico, influenciando as organizações sociais.

A China Antiga era um lugar onde o poder político se exercia, antes de tudo, pelo atributo cósmico da execução da força. A concepção de Estado, no entanto, significava ideologicamente uma entidade regularizadora da vida cotidiana, cuja função era permitir a reprodução da sociedade e assegurar as ligações com o Céu. Embora responsáveis pelo povo, as diversas formas de governos chineses antigos não inibiram a tirania, mas criaram a consciência da existência de segmentos sociais que haviam de ser observados e, em certa medida, atendidos, sob o risco de revolta e corrupção dos costumes.

No texto A Grande Declaração, do Shujing, esta concepção já está manifesta: “O Céu se compadece do povo. O Céu realiza aquilo que o povo deseja”.

A manipulação do Calendário, por exemplo, é um desses atributos de poder. Desde os Zhou, (mas com uma maior intensidade na época Han) os monarcas se encarregavam de promulgar as datas de plantio, colheita, regulação de atividades econômicas e sociais, etc.; "Durante cada mês de primavera, o Filho do Céu ocupa um dos três quartos do Mingtang situados a leste e neles circula ritualmente num carro em forma de fênix ornamentado de bandeiras verdes, ao qual se atrelam dragões verdes. O Soberano veste-se de verde, cor da Primavera, e adorna-se de jade, a fim de estar em harmonia com a cor dos bosques. Nos meses de verão, o Filho do Céu passa a morar nas salas do lado sul do Mingtang (na China antiga, a posição do sul era invertida em relação à. que lhe atribuímos no Ocidente, isto é, os aposentos do sul, no Mingtang, ficavam no ápice do quadrilátero do edifício). O carro em que circula é então vermelho, bem como as vestes do Soberano e os jades ornamentais. Os cavalos são ruços, de caudas negras.

O fogo, elemento do verão, tem a propriedade de elevar-se: proibidos são, pois, os trabalhos que impliquem em aplainar a terra, bem como em cortar árvores altas. Indultos são concedidos aos criminosos. Recomenda-se o retiro e evita-se o excesso de agitação. É o momento da separação máxima entre o Yin e o Yang e, portanto, tudo convida à meditação e não às atividades corporais. A vida sexual, própria da primavera, deve reduzir-se ao mínimo. O sopro vital deve ser conservado e não sofrer agitações através de paixões. No verão não se fazem guerras. Seguindo-se ao terceiro mês de verão, há um período intermediário em que o Filho do Céu, no aposento central do quadrilátero do Mingtang, simboliza estar no eixo de seu reino. De lá ele observa o “ciclo dos astros em torno da Viga Celeste (Tianji)”, constituída essa pela constelação da Ursa Maior. O Filho do Céu veste-se então de amarelo (cor da terra), circula num grande carro feito de uma prancha quadrada (símbolo da Terra), a qual cobre um pálio arredondado (símbolo do Céu). O Imperador, colocando-se entre um e outro símbolos, representa o Intermediário Supremo no eixo do mundo. O Outono, por sua vez, é uma estação de justiça e repressão. É quando o Yang, força positiva, declina e perde terreno para o Yin, pólo negativo. O Filho do Céu, acompanhando o ritmo natural do Universo, passa a viver a oeste do Mingtang, lado do sol poente. O gavião lança-se, no outono, à caça e à morte. O Soberano imita-o e circula no seu carro de guerra, ao qual se atrelam cavalos brancos de crinas negras. O Filho do Céu veste-se de branco, cor do luto na China. Seus jades são brancos e ele alimenta-se de plantas fibrosas e carne de cão. Impera o metal, elemento de que se fazem as armas. No Outono é propício castigar os opressores e os negligentes. As prisões são reparadas. O Céu e a Terra começam a mostrar seu rigor. A pena de morte pode, então, ser aplicada aos crimes sérios.

Não há mais liberalidade e feudos não podem ser distribuídos aos vassalos: a época é de recolher e não de conceder. Devem construir-se muralhas e edificar-se cidades. Os depósitos de cereais devem estar repletos, à espera do Inverno. No último mês do Outono, há o retorno dos campos, onde se passa a vida na primavera e no verão; o fogo, que se acendera nas regiões do plantio, “é levado às cidades e vilas”. Interrompem-se as atividades nos campos. No Inverno, o Filho do Céu retira-se para a “Sala Escura” (Xuantang) no Mingtang, situada ao norte do Palácio (isto é, na parte inferior do quadrilátero, pois como o norte corresponde ao elemento água, sua propriedade é descer e não elevar-se, como o fogo). “O Sopro Celeste ausenta-se da Terra; o Sopro Terrestre afunda num abismo”. Como no Verão, quando existe um afastamento entre Céu e Terra, também no Inverno (já que os opostos se tocam) “não há mais comunicação entre um e outro”.

“Tudo está finalizado, tudo está fechado: é então que o Inverno se instala”. Para aumentar a energia vital e renovar as alianças humanas, organizam-se grandes festas, em que todos se alcoolizam. O Soberano, no Xuantang, circula num carro de cor escura, ao qual se atrelam corcéis cinza - ferro. Suas roupagens são negras, ornamentadas de jade azul - escuro. Como no verão, o sábio, no momento em que Yin e o Yang estão em conflito, retira-se e permanece em repouso. Ele procura atingir urna paz interior que auxilia o Yin e o Yang a reencontrarem tranqüilidade. Sacrifícios são realizados no último mês de inverno, a fim de que o novo ano, já próximo, seja propício. Finalmente, o Rei promulga um novo calendário"(Jopert, 1979).

Se o Calendário falhava, a população em geral (incluindo grupos da elite) tendia a achar que os soberanos não estavam mais preparados para administrar a vida do império, o que levava a conflitos contínuos contra os piores monarcas.

De fato, o pensamento chinês sempre calcou sua alternância entre o pragmatismo necessário a sobrevivência com uma perspectiva ideal de organização natural-social. Um dos elementos fundamentais dessa civilização é sua interminável busca pela harmonia com o cosmo; sobrevivência, talvez, dos tempos em que os antigos habitantes proto-históricos lutavam para compreender o meio ambiente que os cercava e aproveita-lo da melhor forma possível.

Este pensamento, porém, como tudo mais que a China produziu, sofreu uma ação benéfica do tempo, que o aperfeiçoou e o tornou complexo e sutil. A evolução abrangente da cultura material chinesa se deu graças ao longo tempo de maturação pelo qual passou, apresentando-se ao mesmo tempo variada e uniforme em alguns aspectos.

Disso os chineses antigos tiraram a importante lição de articular a linguagem ao real, tendo em vista sua crença na atuação da palavra escrita e falada como reprodutoras, sucitadoras da ação mental no plano físico; "Ao analisar a ciência primitiva dos chineses, os historiadores observaram uma vantagem, ausente no estudo da ciência de qualquer outro povo: a escrita chinesa. Os ideogramas exprimem uma idéia e não o som da palavra que representa essa idéia; portanto, a escrita chinesa permanece essencialmente a mesma, desde os tempos antigos, e assim, hoje, pode-se ler um texto primitivo com a mesma facilidade com que se lê um texto moderno" (Ronan, 1986).

Diante deste quadro podemos observar, por fim, que a antiga civilização chinesa criou os necessários parâmetros pelos quais desenvolveu uma estrutura de vida que, em todo seu dinamismo, teve uma preocupação intensa em salvaguardar o antigo, fomentando a criação de um imaginário capaz de se sobrepor ao real.

As contraposições entre a cultura material e a tradição histórica clássica denotam a intensa necessidade que temos de continuar estudando a civilização chinesa em seus variados nuances que nos apresentam, acima de tudo, a possibilidade de repensarmos a nós mesmos quando defrontados com uma concepção eficaz de compreensão do mundo que diferia (e ainda, difere) em muito dos nossos métodos de percepção naturais e científicos. E, por isso mesmo, o estudo da China será sempre uma oportunidade de reavaliar as nossas opiniões em qualquer campo de estudo.

André Bueno

Bibliografia

A bibliografia que aqui apresento é temática e sucinta. Não tem por objetivo ser exaustiva ou completa, mas serve apenas para indicar textos que sejam mais acessíveis ao público em comum. Daí, também, minha opção por vincular a maior parte do material em português, salvo em casos específicos.

Manuais de História Chinesa

Gernet, J. (1969) A China Antiga, Lisboa e (1979) O Mundo Chinês, Lisboa: Cosmos; Joppert, R. (1979) O Alicerce Cultural da China, Rio de Janeiro: Avenir e Morton, W. (1986) China - História e Cultura, Rio de Janeiro: Zahar. Uma excelente introdução ao tema está presente também em Blunden, C. (1997) China, Edições Del Prado: Madrid. Sobre história a cultura na China Antiga, o insuperável Granet, M. (1979 - data original, 1930) Civilização chinesa (2 volumes), Rio de Janeiro: Ferni. Sobre Arqueologia, os livros de Watson, W. (1969) China e China Antiga (ambos) Lisboa: Verbo.

Pensamento Chinês

Granet, M. (1997) O Pensamento Chinês, Rio de Janeiro: Contraponto; Kaltenmark, M. (1982) A Filosofia chinesa, Lisboa: Gradiva e o texto de Chan Wing Tsit (1979 - original, 1939) História da Filosofia Chinesa em Moore, C, (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente, São Paulo: Cultrix-Edusp.

Traduções

Grande parte dos textos traduzidos para o português são das escolas filosóficas. Uma boa antologia é a de Yutang, L. (1957) Sabedoria da Índia e da China, Rio de Janeiro: Pongetti. Os livros clássicos do Confucionismo podem ser encontrados nas traduções do Padre Joaquim Guerra (1978-1984), editadas em Macau. Constituem-se do Quadrivolume de Confúcio, Mâncio, Escrituras Selectas (Shujing), Livro das Mutações (Yijing), Livro das Canções (Shijing) e Quadras de Lu e sua Relação Auxiliar (Chunqiu e Zuozhuan) e o Livro dos cerimoniais (Liji). Sugiro ainda a excelente versão do Lunyu de Anne Cheng (1991) Conversações de Confúcio, Lisboa: Estampa e a famosa tradução do livro das mutações de Wilhelm, R. (1986) I Ching, São Paulo: Pensamento. As traduções taoístas mais indicadas são a de Wilhelm (1988) Tao te King, São Paulo: Pensamento e a de Watson, B. (1986) Escritos Básicos de Chuang-tzu, São Paulo: Cultrix. O Neijing foi traduzido pela editora Domínio Público (Rio de Janeiro, 1991) e o livro Arte da Guerra tem uma boa tradução de Cleary, T. (2000) São Paulo: Cultrix; já o livro de Shang Yang tem uma única tradução pela editora Europa-América (Lisboa, 1999).

Referências Bibliográficas

Aymard, A. (1957) China Antiga em Crouzet, M. (org.) História geral das civilizações, Lisboa e Aymard, A. (org.)(1957) Aspects de la Chine, Paris: Puf [contém os textos de Guinard e Paul-David]; Difel; Barnes, G. (1993) The rise of civilization in east asia, London: Thames and Hudson; Escarra, J. (1939) La Chine, Paris; Palmer, M. (1993) Elementos do Taoísmo, Rio de Janeiro: Ediouro; Said, E. (1990) Orientalismo, São Paulo: Companhia das letras.

Fonte: china-antiga.com

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