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Império Inca

Império Inca

Os Precursores dos Incas:

Com o recuo das geleiras e conseqüente desertificação do litoral ocidental da América do Sul, algumas tribos nômades começaram a circular por aquelas regiões. Tal fato ocorreu há cerca de 14 mil anos. Essas tribos erravam por caminhos tortuosos, em busca de frutas, raízes, água doce e caça.

Império Inca
Estátua de pedra
de Tiahuanaco,

700d.C. Foi nesse contexto que surgiram os primeiros indícios de civilização na América do Sul. Ao que parece, pequenas tribos começaram a avançar tecnologicamente, desenvolvendo a agricultura e criando cidades prósperas e relativamente grandes no final do terceiro milênio antes da era Cristã.

Esses povos não tinham muito em comum, apenas um traço muito marcante: a religião. Todos os povos adoravam uma divindade zoomórfica, com a forma de um jaguar ou puma. A adoração dessa divindade foi a responsável pelo maior legado arqueológico dessa época, a construção do centro cerimonial de Chavin (não se sabe ao certo como se chamava na época esse centro, devido à inexistência da linguagem escrita; portanto, ele foi batizado com o nome de um povoado localizado próximo a suas ruínas, Chavin de Huantar), por volta de 1800 a.C.. Esse centro cerimonial não consistia numa cidade propriamente dita, mas em uma espécie de sede oficial da religião daqueles povos (bem como o Vaticano é a sede da Igreja Católica). Não se pode chamar Chavin de cidade, pelo fato de que no local não residia ninguém além de sacerdotes e seus criados.

Todos os anos, Chavin era visitado por milhares de pessoas, que segundo consta se ofereciam para sacrifício em honra do Deus Jaguar. Alguns eram sacrificados e a multidão, depois de alguns dias, voltava para suas respectivas cidades. Esse processo desencadeou a expansão da divindade do Jaguar por todos os povos dos arredores da cordilheira dos Andes.

As diversas sociedades andinas, por meio de sua unidade religiosa, mantiveram relações ideológicas comuns, sendo orientadas pelos sacerdotes de Chavin.

Entretanto, por motivos ainda obscuros para a Arqueologia, a cultura Chavin entrou em decadência no início da era Cristã, e desapareceu ainda no século I d.C..

Para ocupar o lugar deixado pela centralização anterior, os diversos povos andinos iniciaram pequenos reinos, dos quais alguns se expandiram para formar verdadeiros Impérios.

Alguns desses reinos têm muita relevância para que se compreenda o quão desenvolvidas foram as civilizações pré-colombianas da América. É o caso de Nazca, que apesar de estar radicada numa região de clima hostil conseguiu realizar construções que só uma civilização muito bem organizada poderia realizar.

É o caso dos chamados Puquios, poços em forma de espiral, que se destinavam a fornecer água potável para as diversas regiões da civilização Nazca. Esses Puquios eram ligados uns nos outros por gigantescas galerias subterrâneas, que conduziam a água pelo sistema de vasos comunicantes (nos quais a água sempre desce), ou seja, o princípio da gravidade. Até hoje foram encontrados 13 desses Puquios, os quais ainda não formam um consenso entre os especialistas se teriam mesmo sido construídos pelos Nazquenhos ou se são obra dos espanhóis durante o período colonial. Porém, a coisa que mais nos intriga quando se diz respeito a Nazca são as linhas de Nazca. Tais linhas representam entidades que inexistem na região da cidade, como macacos, aranhas e outros. Consistem em grandes linhas entalhadas no chão que só podem ser observadas por via aérea. Porém, até o presente momento, não se tem conhecimento de nenhum método de vôo inventado por povos da América pré-colombiana.

Outros dois povos de suma importância que existiram nesse período foram os Tiahuanaco e os Wari, respectivamente localizados nas margens do lago Titicaca e no vale médio do Mantaro. Juntos, esses povos conseguiram reconstruir a unidade do fragmentado mundo andino. Tiahuanaco foi pouco estudada pelos arqueólogos até hoje, mas sabe-se que sua expansão dirigiu-se essencialmente para o sul, tendo sido iniciada no século VIII de nossa era. Os legados mais fantásticos dessa civilização são as grandes construções em pedra, como Machu Picchu, e também a chamada Porta do Sol, situada numa ilha do lago Titicaca. Aliás, a respeito do lago Titicaca é interessante dizer que Tiahuanaco era uma cidade que se situava a sua margem. Digo era não porque a cidade está em ruínas, mas sim porque o lago está diminuindo gradativamente ao longo dos anos, e hoje a cidade dista 20 km dele. Titicaca é o lago mais alto do mundo, estando situado a um altitude média de 4000 m acima do nível do mar. Seu nome significa “mar do alto”, pois suas águas são salgadas e sua largura máxima chega a 60 km por 250 km de comprimento.

O Império Wari teve sua expansão no século IX, sendo portanto mais tardia do que a expansão de Tiahuanaco. Sendo assim, a cultura Wari levava em si forte presença cultural de Tiahuanaco, podendo-se dizer que ambos os Impérios difundiram a mesma cultura. O período em que esses dois povos brilharam parece ter sido de grande vigor militar, principalmente no que diz respeito a Wari. As cidades do Império eram construídas geralmente em locais onde fosse possível construir apenas um muro reto, que protegesse a cidade, uma vez que as outras quatro paredes seriam substituídas por uma montanha. Ou seja, as cidades Wari eram construídas em reentrâncias de montanhas.

O território influenciado pelos Impérios Wari e Tiahuanaco, no que diz respeito à sua cultura, não corresponde ao território por eles dominado politicamente, pois sua influência atingia até mesmo regiões livres de sua dominação. Porém, ambas as cidades foram capitais de grandes Impérios andinos, precursoras de fato dos Chimu e dos Incas, alvo deste trabalho.

O Império Chimu:

No século XII, os Impérios Wari e Tiahuanaco entraram em decadência. O motivo disso, também devido a não existência de linguagem escrita, é desconhecido até os dias de hoje.

O fato é que a decadência desses novos centralizadores andinos abriu novamente caminho para o surgimento de pequenos reinos, dos quais três tornar-se-iam grandiosos, tornando-se dois deles, com efeito, Impérios.

Esses três reinos a serem destacados são os Chanka, os Chimu, e os Incas. Como se sabe, os Incas constituíram um império e, como nos diz o título desta parte do trabalho, os Chimu também o fizeram.

Portanto, só nos restam os Chanka, que não conseguiram formar um Império. Os Chanka eram um povo guerreiro, muito violento, daqueles que na Europa de sua época seria chamado de bárbaro. Eles tinham algumas características que os assemelhavam aos Dórios (último povo a invadir a Grécia no período pré-homérico), pois também cultuavam a guerra e não costumavam fazer prisioneiros, matando os derrotados em batalhas e com o costume de fazer guerras constantes para obter melhores terras. Não me aprofundarei muito por hora no estudo dos Chanka, pois tornarei a falar neles mais adiante, quando sua história se misturar a dos Incas.

Retomando, os Chimu foram um pequeno reino que surgiu no litoral do atual Peru (aquele mesmo que no início do item 2 foi descrito como muito seco, até desértico). Os Chimu são oriundos da baía de Guayaquil.

Em embarcações de bambu, eles alcançaram por via marítima os vales de Chicama, onde fundaram sua primeira cidade. Esta região, na época da cultura Chavin, foi dominada pelo povo Mochica, que devido a várias guerras foi obrigado a abandonar a área. Os Chimu aproveitaram muitas ruínas Mochicas no início de sua ocupação. Eram ruínas de construções, mas principalmente de redes de irrigação. Os novos habitantes reativaram tais redes de irrigação e as ampliaram, começando assim, no século XIII, a desenvolver na região uma nova cultura.

Talvez influenciados pelas estruturas encontradas, os Chimu iniciaram sua expansão, no século XIV, tornando-se um Império que, apesar de conterrâneo e contemporâneo dos Incas, tinham mais semelhanças com as civilizações desenvolvidas na Antigüidade por Egípcios e Mesopotâmicos. É simples: o Império Chimu tinha muitas, senão todas, as características das chamadas civilizações hidráulicas ou ribeirinhas da Antigüidade Oriental. Podemos comparar (para um efeito de compreensão), os Chimu com os antigos Egípcios. Assim como os Egípcios iniciaram seu desenvolvimento nas imediações do Rio Nilo, os Chimu iniciaram o seu próximo aos rios que nascem na cordilheira dos Andes e descem sua encosta ocidental.

Os Egípcios expandiram seus domínios por meio de guerras, e para evitar que os inimigos outrora derrotados retomassem as posições construíam fortificações nas cataratas do Nilo. Os Chimu também realizaram sua expansão pelas guerras, e para impedir a reconquista dos territórios por parte dos inimigos erigiam fortalezas (que acabavam se tornando cidades). Bem como os Egípcios, os Chimu também criaram sistemas de irrigação muito avançados (chegando a irrigar uma área muito maior do que a que é irrigada hoje na mesma região), a partir dos quais expandiram seus respectivos Impérios para regiões naturalmente desérticas ou muito secas.

Porém, havia uma grande diferença entre os Egípcios e os Chimu. Ela consiste no fato de que o Nilo é um dos maiores rios do mundo, e que portanto nunca secaria, enquanto que os riachos dos quais dependia o Império Chimu não ofereciam tamanha segurança.

Os Chimu chegaram a dominar quase todo o litoral daquele que posteriormente foi o Império Inca. Faremos agora uma pausa na descrição do Império Chimu para retornar a ela quando a história deste se cruzar com a dos Incas.

Os Incas:

Esta é de fato a parte inicial do trabalho, constituindo as anteriores apenas um grande prólogo para esta e as próximas. Ela se encontra dividida em sub-itens, pelo fato de ser muito extensa. Esta divisão proporcionará maior clareza na compreensão dos fatos.

Inicialmente é bom que se explique que o nome do Império Inca era Tawantinsuyu, uma palavra Quechua que significa “As quatro Terras”, ou também “Os Quatro cantos do Mundo”. Mas por que esse nome? A resposta é simples, mas será dada aos poucos, à medida que se avança na história desse povo maravilhoso que habitou as regiões hoje ocupadas por Peru, Bolívia, Colômbia, Chile e Equador.

A Colcha de Retalhos Étnica:

Até agora, estudamos vários Impérios que existiram na América do Sul, antes dos Incas. Percebemos que esse Impérios não eram Impérios no sentido clássico da palavra, pois na verdade eram apenas grandes reinos.

Antes de continuarmos, é bom que se esclareçam os conceitos. Reino é uma extensão de terra, contínua ou não, que se encontra sob a autoridade de um monarca. Um bom exemplo de Reino é a Inglaterra, que apesar de todas as suas terras não serem contínuas, elas estão sob a autoridade de seu monarca.

Entretanto, Império é a designação de uma extensão de terras, contínuas ou não, a qual está dividida por vários monarcas que juram vassalagem a um, o Imperador. Um bom exemplo de Império foi o Sacro Império Romano-Germânico, aonde os vários senhores feudais, muitas vezes reis, juravam vassalagem ao Imperador. Baseados nesses critérios, podemos concluir que o Império do Brasil na verdade não foi um Império, mas sim um Reino, pois toda a extensão de terra estava sob as ordens do Imperador.

Pois bem, o Império Inca, como perceberemos, foi talvez o melhor exemplo de Império que já existiu. A etnia Inca, cuja origem é a cidade de Cuzco, realizou sua expansão, dominando outras cidades e povos, sendo estes subjugados e obrigados a jurar lealdade ao Imperador (que no Império Inca, recebia o nome de Inka (na verdade, a grafia poderia ser com “C” também, mas optamos aqui por escrever com “K”, para facilitar a compreensão)).

Entretanto, os antigos governantes dos povos conquistados não eram depostos de seus cargos, uma forma de o Inka demonstrar sua bondade. Os governantes tribais (chamados de caciques entre os índios brasileiros, eram conhecidos como kurakas entre os índios andinos), passavam a ser uma espécie de prefeito da nova cidade conquistada pelos Incas. É claro que com essa política os Incas mantiveram as diversas tribos que compunham seu Império fortes, com a manutenção de seus costumes antigos. Isso também alimentava as esperanças dos kurakas de obter seu antigo domínio de volta, como era antes, e não sob tutela Inca. Por isso, quando os espanhóis chegaram os kurakas se uniram a eles contra os Incas e a anexação do Império tornou-se mais fácil do que seria se a política fosse diferente.

Sol, sempre o Sol:

Em muito povos antigos, o Sol se tornou um dos principais, senão o principal Deus. Foi assim com os indígenas brasileiros, que tinham em Tupã, seu Deus máximo, sendo que este simbolizava o Sol; com os Astecas, que tinham em Uitzilopochtli, o Sol, sua divindade suprema; os Egípcios, que tinham em Ámon-Rá, o Sol, e Áton, o círculo solar, algumas de suas principais divindades.

Não poderia ser diferente com os Incas, que consideravam o Intip (Sol), o Deus supremo de seu panteão. Bem como os faraós Egípcios, os Inka também era uma divindade, sendo portanto o Império uma Teocracia (forma de governo característica da Antigüidade, em que o chefe de governo é considerado uma divindade).

O Inka era o filho do Sol (Intip churin), e como tudo pertencia ao Sol, então tudo pertencia ao Inka. Desde as terras, até a vida das pessoas. Ninguém podia tocar no Inka, nem sequer fitar seus olhos. Quando ele fazia alguma aparição pública, todos, exceto aqueles a quem ele próprio liberasse da obrigação, deviam deitar-se no chão, com a cabeça voltada para este.

Quando os Incas conquistavam novos povos, assim como obrigavam seu governante a jurar lealdade ao Inka também sobrepunham Intip aos deuses locais, criando então uma hierarquização religiosa própria em cada lugar. Assim, a única coisa que todas as diversas organizações religiosas tinham em comum era o Intip como Deus principal.

As demais divindades da etnia Inca eram em sua maioria as montanhas. Cada montanha simbolizava um Deus, como se dentro de cada uma existisse uma divindade. Os Deuses montanhas eram chamados de Apus (a palavra Apu, quer dizer rico. Portanto, além dos Deuses montanhas ela também designava os quatro Reis do Império, cuja função explicaremos mais adiante).

Além do Intip, uma divindade comum a quase todas as culturas andinas da época Inca era Wiraqocha. Ele é o Deus do mar, sendo representado pelas espumas marítimas. É uma divindade muito antiga, provavelmente uma herança da Cultura Chavin. Existia uma crença no Império Inca de que um dia o Deus Wiraqocha viria para trazer a paz e a justiça ao Império; por isso, sempre eram feitas oferendas, inclusive na forma de sacrifícios humanos, para apaziguar o Deus.

O Tawantinsuyu:

Império Inca
O Tawantinsuyu e suas quatro regiões

Como já referimos em um momento anterior, o nome do Império Inca era Tawantinsuyu. Uma vez que já também já foi mencionada a tradução da palavra, vamos agora desmembrá-la, para explicar a divisão Imperial. Tawantin significa quatro, o número 4, e suyu significa terra, ou terras (nas vezes em que coloco a letra “S” no final de palavras quechuas. Fazemos isso apenas para facilitar a sua leitura, pois o plural nessa língua não era feito dessa forma).

Depois que Pachukuti, o nono Inka, iniciou de fato a expansão territorial do Reino de Cuzco, o Tawantinsuyu começou a se formar. Sua divisão é simples. Os Incas consideravam Cuzco, sua capital, como sendo o coração do mundo. Sendo assim, pela cidade passavam duas linhas imaginárias em diagonal: uma que ia de noroeste para sudeste, e outra que ia de nordeste para sudoeste dos seus domínios. Sendo assim, o Império ficava dividido em quatro partes (suyus).

O suyu do norte recebia o nome de Chicasuyu; o do sul era chamado Kollasuyu; o do leste, Antisuyu e o do oeste chamava-se Kuntinxuyu. Cada suyu era considerado um Reino independente, sendo governado por um Apu.

Existiam portanto quatro

Apus, que deviam obediência ao Inka, constituindo-se assim, um Império na concepção exata da palavra.

Os suyus eram divididos em províncias, como grandes estados. Cada província era administrada por um governador, chamado Tukriquq. Ele morava na cidade principal da província, que era dividida em diversas regiões. Cada região tinha o governo de um kuraka (antigo chefe da etnia conquistada, a área ocupada anteriormente pela etnia seria a área que o kuraka controlaria; assim, os diversos kurakas se hierarquizavam de acordo com as antigas posses de sua etnia).

As regiões eram divididas em partes: podiam ser cidades ou aldeias. Geralmente eram aldeias, pois havia poucas cidades, normalmente uma por região, na qual morava o kuraka. Aldeias e cidades eram habitadas por ayllus. Estes formavam a base do Tawantinsuyu, representando a união de familiares e amigos numa espécie de clã que se unia para viver junto e trabalhar com mais eficiência, tanto para viver melhor quanto para servir melhor.

No Tawantinsuyu não havia ninguém que não tivesse terra. Quando alguém nascia, recebia das mãos do kuraka, um topo, quantidade de terra considerada suficiente para sustentar uma pessoa. Sendo assim, se a família fosse composta por três pessoas, teria três topos, e assim por diante. Quando uma pessoa morria, seu topo voltava para as mãos do kuraka, para que ele sempre tivesse terras disponíveis para dar aos recém-nascidos. A riqueza de um família era indicada pela quantidade de pessoas que ela tivesse, ou seja, quanto maior a família, mais topos e mais riqueza.

Os três principais pontos de importância dos ayllus, e consequentemente da sociedade Inca, eram a mita, a minga, e principalmente o ayni. Para este último faremos um sub-item especial.

Primeiramente falemos da menos importante das três: a minga. A minga era um costume popular que até hoje é de certa forma utilizado não só no Peru, mas também em vários países, o Brasil inclusive. Ela consiste num trabalho pago com uma festa. Daremos um exemplo atual. Suponhamos que em um conjunto habitacional brasileiro de classe humilde é realizado um mutirão para a construção da casa de alguém. Quando esta fica pronta, o dono geralmente dá uma festa de inauguração da casa, onde fornece comes e bebes para agradecer aos amigos que o ajudaram a construir a nova moradia. Isso no Tawantinsuyu era chamado de minga, muito usada como forma dos membros de um mesmo ayllu se ajudarem.

Já a mita não era uma instituição tão simples. Sua abrangência poderia chegar a todo o Tawantinsuyu. Poderia ser convocada pelo kuraka, Tukriquq, Apu ou até pelo próprio Inka. Uma mita consistia num grande conglomerado de pessoas reunidas com o intuito de realizar uma grande obra estatal (as mitas Incas se assemelham ao costume que os Egípcios tinham de, em certas épocas do ano, pagar seus tributos oferecendo-se para a construção de grandes obras para o Estado). Quando os espanhóis conquistaram o Tawantinsuyu, eles mantiveram ativa a tradição da mita, pois assim poderiam utilizar os índios ao invés de ter que buscar negros na África para trabalhar em suas minas de ouro e prata.

O Ayni:

O ayni era a principal virtude dos ayllus. Sua descrição pode parecer muito simples, como realmente é, mas nem por isso ele é menos importante. Graças ao ayni, a grande maioria dos kurakas aceitava sem maiores problemas a condição de súdito do Inka.

É simples: ayni significa reciprocidade. Mas não uma reciprocidade do tipo toma lá, dá cá, uma vez que isso constituiria um comércio, e não existia comércio no Tawantinsuyu. Tal reciprocidade funcionava da seguinte maneira: para pagar um favor que lhe foi feito, você tem que fazer o favor em dobro para a outra pessoa. Por isso, os kurakas sempre se mostravam prontos para servirem ao Inka, pois sabiam que receberiam em dobro tudo o que fizessem. Mas o ayni não funcionava apenas entre as autoridades do Tawantinsuyu, mas entre toda a população do Império.

Império Inca
Casas de camponeses peruanos atuais, semelhante às
utilizadas durante o Tawantinsuyu

Controle do máximo de níveis ecológicos:

Império Inca
Corte transversal do Tawantinsuyu,
no atual Perú, direção leste-oeste

O Tawantinsuyu estendeu-se por uma vasta área que ia desde a floresta Amazônica até o oceano Pacífico. Sendo assim, nele existiam vários tipos de climas e solos, bem como uma variedade muito grande de recursos minerais. É claro que não existia em todo o Império uma só região que fosse auto-suficiente, por isso era necessário um grande intercâmbio de gêneros alimentícios. Ou seja, cada região se empenhava em produzir muito daquilo que estava mais habilitada a produzir, havendo assim grande excedente a ser enviado para outras regiões do Tawantinsuyu.

Mas como esse excedente seria enviado para a região que de fato precisasse dele? É resposta dessa pergunta é o que realmente afirmava o poder do Inka. Todos os anos, todos os kurakas do Tawantinsuyu se dirigiam para Cuzco levando consigo os excedentes de suas regiões. Na capital, eram recebidos pelos Inka, e ficavam hospedados em suas próprias casas na capital (cada kuraka tinha uma casa na capital para ficar nestas viagens e em eventuais outras). Realizava-se então o Intip Raymin (Festa do Sol), principal festa Inca, quando o Inka sacrificava uma lhama para o Sol em troca de mais um ano de fartura e prosperidade (essa festa ainda ocorre todos os anos, no dia 24 de junho, em Cuzco). Depois das festividades, o Inka dividia a comida entre as regiões de forma que todas recebessem tudo o que não produzem. As festividades se encerravam e os kurakas iam-se embora. Alguns aproveitavam para dar presentes ao Inka ou para fazer algum pedido ou reclamação.

Tudo isso só eram possível porque os Incas tinham o ideal de controle do maior número de pisos ecológicos, desde as montanhas mais altas até as praias, passando pela floresta.

Cuzco:

A cidade de Cuzco foi a capital do Tawantinsuyu durante sua época de expansão, deixando de sê-lo na época de seu maior esplendor. Inicialmente a cidade era apenas um caótico vilarejo fortificado e dividido em duas partes compostas por quatro sub-partes. Ela permaneceu nessa condição até que Pachakuti (que já foi citado anteriormente) realizou com perfeição o plano de reurbanização de Cuzco.

A nova cidade projetada por Pachakuti, e que teve sua reforma continuada por seus sucessores, consistia numa miniatura do Tawantinsuyu. Ela era dividida em quatro partes. Cada Apu morava na parte que governava; em cada parte existia uma casa para cada Tukriquq e para cada kuraka do suyu correspondente. Em Cuzco também se localizava o templo máximo da religião Inka, o Coricancha (lugar do ouro). Inicialmente o Coricancha chamava-se Intipcancha (lugar do Sol), mas depois da reforma de Pachakuti o lugar ficou totalmente coberto de ouro, e o Inka achou por bem passar a chamá-lo de Coricancha. O Templo era o centro da cidade, e sobre ele é que se cruzavam as linhas imaginárias que dividiam o Tawantinsuyu; com efeito, o Coricancha era o “umbigo” do Império.

O culto ao Deus Jaguar, de Chavin, parece não ter sido esquecido ao longo do tempo, pois a reforma de Pachakuti fez de Cuzco, uma cidade em forma de jaguar sentado sobre as patas traseiras, olhando para o Antisuyu.

Os altos funcionários:

Além dos já mencionados Tukriquqs, também existiam outros funcionários da maior importância: os Wakas e os Kipukamayoqs. Os primeiros eram os sacerdotes da etnia Inca, e tinham ente si diversos graus de hierarquia, sendo que o Grande Sacerdote era o responsável pela transmissão do poder Imperial ao próximo Inka. Os Kipukamayoqs eram os recensiadores do Tawantinsuyu, responsáveis não apenas por contar a população mas também por contar tudo: a quantidade de ouro extraída de determinado lugar, madeira cortada, comida produzida etc. Eles realizavam tais contas através dos Kipus (forma de contagem Inca. Já que não conheciam a escrita, os Incas desenvolveram uma maneira de contar sem ela: consistia em nós dados em cordas amarradas a uma corda maior, semelhante a um ábaco oriental).

Além desses funcionários, devemos destacar alguns outros de importância menor mas realmente fundamentais. Atuavam como os historiadores, responsáveis apenas por transmitir a cultura, as tradições Incas antigas e a trajetória dos antepassados às próximas gerações. Sua memória tinha que ser impecável, já que não existia a escrita para auxiliá-los em seu trabalho. É graças a esses historiadores Incas que hoje nós conhecemos a história desse povo. Caso contrário teríamos um conhecimento muito inferior de seu glorioso Império, pois este seria fruto apenas da Arqueologia e da tradição oral de pessoas comuns.

Império Inca
Organograma do Império Inca

Por fim, devemos ressaltar a importância do sistema de correios do Tawantinsuyu. Era um sistema muito mais eficiente do que qualquer outro que lhe foi anterior ou contemporâneo, em qualquer parte do mundo. Vários homens chamados chaskis se distribuíam ao longo das estradas e cada um cobria uma área de aproximadamente 3 km. Quando era preciso enviar alguma informação, ia-se até o chaski da cidade e dizia-se-lhe o que era e a quem se destinava. O chaski pegava a mensagem, corria até o próximo chaski na estrada e transmitia-lhe a informação, que ia sendo passada de um para o outro até chegar ao seu destino final, como na brincadeira do “telefone sem fio”.

Os Yanas:

Muitos pensam que o Tawantinsuyu foi um grande Império escravista. Isso porque os espanhóis, quando o descobriram, pintaram essa imagem para o mundo, uma vez que cerca de 5% da população imperial Inka era composta por Yanas. Mas o que eram de fato os Yanas?

Os Yanas eram realmente escravos; não tinham direito nem sequer ao topo de terra que todos tinham, eram obrigados a servir até a morte em um região totalmente desconhecida daquela que habitava inicialmente e não podia ter nenhum bem pessoal. Eles não eram escravos particulares, mas sim escravos do Estado.

Mas se eles eram assim, então por que não podemos dizer que o Tawantinsuyu foi um Império escravista?

É porque nos Impérios escravistas a produção da mão-de-obra escrava torna-se indispensável para o andamento do Império.

No entanto, no Tawantinsuyu a condição de Yana era mais um castigo para a pessoa do que uma necessidade produtiva do Império.

Quando e por que uma pessoa se tornava um Yana?

Era condenado à condição de Yana aquele ou aquela que se revoltasse contra o Inka. Vejamos: um kuraka que se negasse a obedecer ordens do Tukriquq, do Apu ou do Inka poderia ser destituído de seu cargo e mandado para uma região bem distante da sua, para servir de Yana por um certo tempo, ou (na maioria das vezes) até a morte. Esse castigo também era usado para todos os líderes militares (que não morressem na batalha) de um povo recém dominado. Somente o kuraka era poupado, e isso se aceitasse o domínio do Inka. A pessoa era enviada para um região distante, pois assim não conheceria o dialeto local (o quechua era o idioma da etnia Inca; a maioria das etnias tinha um idioma próprio, porém o quechua era o idioma universal do Império), tendo dificuldades em se expressar. Além disso, na maioria das vezes a pessoa condenada a ser Yana era um líder em seu povo, e se permanecesse no local a punição poderia não ser cumprida.

A condição de Yana, diferentemente da de escravo, não era hereditária; ou seja, a pessoa transferida para outra região iria ser Yana até a morte, mas seus descendentes estariam livres para recomeçarem vida nova, no novo lugar. Às vezes, quando o Inka percebia a possibilidade de um levante iminente em determinada região, fazia uma transferência dos ayllus quebrando-os e sem transformar seus membros em Yanas. Assim, caso as pessoas quisessem se reencontrar, demorariam meses, e o levante estaria esmagado antes de principiar. O Inka que mais utilizou esta chamada política de deslocamentos foi Wayna Kapaq, o décimo primeiro Inka.

As Panakas:

As Panakas eram as famílias nobres do Tawantinsuyu. Os membros dessas famílias tinham laços de parentesco em maior ou menor grau, mas todas as Panakas eram rivais. Quando um Inka ascendia ao poder, ele se auto-declarava um wakcha (órfão, ou pobre). Isso consistia numa tradição, pois o pai do Inka era o Sol, não um Inka anterior a ele. Sendo assim, sua família passaria a ser composta por ele, seus filhos e suas esposas. Quando de sua morte, um de seus filhos o sucede no poder, (escolhido de maneira que citaremos mais à frente), declarando-se wakcha também. Então, suas mulheres e os filhos que não foram escolhidos como Inka, mumificam seu corpo e passam a morar em seu palácio, com a missão eterna de proteger o corpo. Se este for uma vez for profanado, ou destruído, a família deixará de ser nobre.

Em contrapartida, o novo soberano, por ser wakcha, ou seja, pobre também, recebe apenas o trono. Assim, tem que construir um novo palácio, que será o lar de sua Panaka e de seu corpo por toda a eternidade.

Império Inca
Pirâmide socio-econômica do Império

As múmias tinham suas cabeças raspadas, pois seus cabelos eram colocados em estátuas de barro feitas à imagem e semelhança do soberano morto; estátuas estas que ficavam expostas à visitação pública no hall de entrada do Coricancha e eram vestidas com as roupas do Inka morto.

Os Inkas e seus feitos:

Esta é a parte em que contaremos a história da civilização Inca propriamente dita. Para fazê-lo, a melhor maneira que encontramos foi por meio da biografia dos Inkas, pois a história desse povo se confunde, e muito, com a história de seus governantes.

Antes de começar é interessante que se observe o sistema de sucessão do Inka.

Como já foi dito, o novo Inka declara-se wakcha e forma sua própria Panaka. Mas qual dos filhos do antigo soberano é o escolhido para sucedê-lo?

Bem, primeiramente, é bom que se ressalte que o parentesco por parte de mãe é importante na decisão. Como já mencionamos, todas as Panakas têm laços de parentesco entre si. Isso porque um Inka não se casa com uma mulher do povo, mas somente com uma nobre, ou seja, com uma pertencente de Panaka. Como o Inka podia ter várias mulheres (a poligamia só era permitida ao Inka, sendo a monogamia a regra no Tawantinsuyu), cada filho dele poderia ser descendente de uma Panaka diferente. Quando o Inka morria, os seus filhos maiores de dezoito anos reuniam as Panakas das quais eram representantes (sendo que cada Panaka podia ter no máximo um representante) e requeriam apoio militar junto a elas. Estas forneciam tal apoio, e os príncipes iam para a guerra. O Tawantinsuyu chegava a ficar vários anos mergulhado numa anarquia profunda, enquanto os príncipes guerreavam. Nesses períodos, a maioria dos povos conquistados se rebelava, sendo depois reconquistada pelo novo Inka.

Depois que um dos príncipes matava os demais concorrentes, provava que era o escolhido, e recebia a Maskapaicha (símbolo de poder dos Incas, representada por uma franja escarlate que o soberano coloca no cabelo, deixando-a cair sobre a testa. Recebê-la é ser consagrado como o novo Inka) das mãos do Grande Sacerdote. Os príncipes que não haviam participado da disputa, juntamente com as esposas do Inka morto, abandonam suas antigas Panakas e formavam uma nova, com o nome do soberano morto.

Todas essas tradições têm um precedente histórico, e os únicos Inkas que não tiveram que lutar com seus irmãos pelo poder foram Tupa Inka Yupanki e Pachakuti, além de Manko Kapaq, o fundador de Cuzco e primeiro Inka. Como veremos a seguir, são baseadas na história de Manko Kapaq a maior parte das histórias que se tornaram tradições Incas.

Manko Kapaq (Ayar Manko) <1300 a 1320>:

Segundo as tradições dos povos andinos, cada povo tem um ancestral. Este homem, ou às vezes mulher, teria surgido como num passe de mágica em um determinado lugar, o qual era denominado paqarina (local mágico, onde o antepassado de um povo, e seus familiares, brotava do chão); deste lugar ele e seus familiares (que também teriam surgido no mesmo lugar) teriam saído, e depois de vagar como errantes por um determinado tempo acabariam encontrando um lugar, o qual julgariam ideal para viver. Neste lugar, a pessoa considerada como sendo o ancestral do povo teria fundado uma pequena cidade ou aldeia, tornando-se o chefe local. Esta tradição é uma forma de os povos criarem para si um princípio de história, uma vez que não sabe realmente de onde seus ancestrais provêm. Isso acontecia porque os povos só adquiriam a noção de que desconheciam seu passado depois que este já se tornara um tanto longínquo, e as tentativas de resgatá-lo, baseadas apenas nas tradições orais do povo, acabavam, muitas vezes por formar histórias divergentes e confusas no que diz respeito a um mesmo fato da história de um povo.

Mas o que isso tem haver com os Incas?

A verdade é que, como a maioria dos povos andinos, senão sua totalidade, os Incas também baseavam seu surgimento em um ancestral, Ayar Manko. Ele teria como paqarina a caverna (ou gruta) de Paqariqtampu (situada a cerca de 30 km ao sul de Cuzco).

De acordo com o imaginário popular Inca, além de Ayar Manko teriam surgido em Paqariqtampu outros três ancestrais de três povos. Esses homens seriam todos irmãos de Ayar Manko, e se chamariam Ayar Kachi, Ayar Uchu e Ayar Awka. Os quatro não teriam surgido no mesmo momento, assim como também não teriam surgido já como adultos. Segundo reza a tradição, teriam surgido um de cada vez, ainda bebês, de dentro da rocha da caverna; junto com eles também surgiram algumas irmãs (que acabaram por não ser ancestrais de nenhum povo), e teriam vivido juntos na caverna até que num dado momento resolveram sair de lá e explorar o mundo.

Para os Incas, ao sair de Paqariqtampu os irmãos rumaram para o norte, mas na viagem Ayar Kachi, o mais velho, regressou para a caverna matricial, tornando-se naquele lugar um Waka, ou sacerdote. Os outros irmãos marcharam até chegar ao cume do monte Wanakawri, situado no vale do Huatanay. No topo desse monte, Ayar Uchu teria se petrificado, enquanto que Ayar Manko laçava seu bastão de ouro repetidas vezes do alto do monte para, onde ele se fincasse, fundar seu povoado. O bastão de Ayar Manko se fincou nas terras de Wanaypata, onde o primeiro Inca desceu e tomou posse do território. Ayar Manko adotou o nome de Manko Kapaq e, casando-se com sua irmã Mama Oqllo, iniciou o povoamento da região. O ancestral convenceu populações nômades locais a se fixarem naquela região sob sua autoridade, e assim teve início a etnia Inca. Como líder da etnia, Manko Kapaq recebeu o título de Inka. Porém, a cidade de Cuzco ainda não estava construída.

As tradições Incas acima expostas tornam-se muito confusas quando sobrepostas às tradições dos outros povos que já habitavam a região quando da chegada dos Incas. Eram três povos: ao que parece, um deles considerava como ancestral Ayar Kachi; o outro a Ayar Uchu, e o terceiro a Ayar Awka. Mas como é possível que os irmãos de Manko Kapaq sejam ancestrais de outras etnia, sendo que dois deles abandonaram sua marcha (Ayar Kachi, que retornou a Paqariqtampu, e Ayar Uchu, que se petrificou sobre o monte Wanakawri)?

Segundo essa história (a dos Incas), somente seria possível que Ayar Awka fosse ancestral de um povo. Mas vejamos como era a tradição desses outros três povos, pois assim é mais fácil explicar o que possivelmente ocorreu. O povo que considerava Ayar Kachi como seu ancestral era o que estava há mais tempo no local e chamava-se Sawasiray. Ele eram aliados dos outros dois povos da região: os Allkawisa, que tinham em Ayar Uchu seu ancestral (porém, segundo as tradições desse povo, o ancestral não provinha de Paqariqtampu, mas tinha como paqarina o monte Wanakawri); e os Maras, que acreditavam descender de Ayar Awka.

Na realidade, é possível que, na história inicial dos Incas, Manko Kapaq tivesse realmente feito o que foi descrito acima. Porém, ao encontrarem aqueles povos já radicados na região, os Incas tenham mudado deliberadamente o nome de seus ancestrais (dos outros povos), de modo que sua história se encaixa na deles. Mas, como já foi referido, tudo isso não passa de uma especulação sobre um passado tão longínquo que se torna desconhecido. O que na realidade aconteceu foi o que será descrito agora.

Quando os Incas chegaram à região encontraram os três povos referidos lá radicados. Estavam muito perto um do outro e partilhavam, entre outras coisas, o mesmo idioma: o quechua (como nos referimos anteriormente, o quechua tornou-se posteriormente o idioma oficial do Tawantinsuyu, mas não era o idioma originário dos Incas. Eles o aprenderam com os povos aos quais se aliaram, e apesar de depois terem-no aceitado como idioma oficial conservaram até o final do século XVI o seu idioma originário (que segundo alguns lingüistas espanhóis assemelhava-se muito a um dialeto falado na Amazônia; talvez os Incas sejam provenientes da Amazônia)).

Os Incas, para poderem se radicar na região, tiveram que aliar-se a esses três povos, formando a chamada Confederação Cuzquenha. Manko Kapaq construiu o Intipcancha (que já mencionamos) e fez dele ao mesmo tempo palácio e templo. O povoado Inca se aglomerava ao seu redor. Por serem os mais novos membros da Confederação Cuzquenha, os Incas ocupavam uma posição inferior em relação aos demais três povos. A Confederação dividia-se em duas metades: Hanan e Hurin.

Hanan era a metade de cima, rica, forte e poderosa. Faziam parte delas os povos Sawasiray, Allkawisa e Mara. Já Hurin era a metade de baixo, pobre, fraca e subalterna. Esta metade era composta pelo povo Inca. Ao que parece, Hanan desempenhava as funções político-religiosas de Cuzco (a Confederação Cuzquenha com efeito se tornou a cidade de Cuzco), enquanto que Hurin era responsável pela defesa da Confederação. Sendo assim, os primeiros Inkas utilizaram o título de Sinchi (general), sendo chamados de Inka apenas pela metade de Hurin. Ou seja, Manko Kapaq, apesar de ser o fundador dos Incas, não passou de um Sinchi da Confederação Cuzquenha.

Sinchi Roka <1320 a 1335>:

Antes de descrever este Inka, é interessante que se faça um observação no que diz respeito às datas colocadas após os nomes dos soberanos. Estas datas só serão precisas de Wayna Kapaq em diante. Nos Inkas anteriores, as datas servem muito para situar o leitor no tempo apenas como noção, não sendo portanto exatas.

Sinchi Roka era filho de Manko Kapaq, e como seu próprio nome nos diz também foi um Sinchi, não tendo assim muito poder dentro da Confederação Cuzquenha. Seu governo foi relativamente longo, mas não realmente importante no que diz respeito à história Inca.

Lloki Yupanki <1335 a 1355>:

Já havia duas Panakas Inkas, quando Lloki Yupanki recebeu a Maskapaicha.

A exemplo de seus predecessores, que não se sabe se foram seus parentes, também foi um Sinchi de Cuzco. Não fez nada além do que seus dois anteriores fizeram. Como eles, Lloki Yupanki seguiu as ordens de Hanan e garantiu o direito do povo Inka a prestar culto a Intip no Intipcancha.

Mayta Kapaq <1355 a 1375>:

Não foi um Sinchi muito relevante, assim como nenhum outro antes dele. Ocupou seu posto por cerca de vinte anos. Nesse tempo, apenas deu continuidade ao trabalho dos Sinchis anteriores. Mayta Kapak, assim como os sinchi antriores a ele, fez campanhas militares para saquear os povoados vizinhos em busca do butim oriundo do saque, e também rechaçou ataques que Cuzco sofreu em tempos muito hostis.

Kapaq Yupanki <1375 a 1385>:

Kapaq Yupanki teve um governo dos mais efêmeros. Não realizou nada em especial, mas também não ficou devendo nada em relação a seus precedentes.

Ele foi o último Inka de Hurin a ser submisso a Hanan. O poder militar adquirido por Hurin, graças a seus cinco Sinchis, colocava a metade outrora fraca e pobre em condições de contestar o domínio dos sacerdotes de Hanan sobre a Confederação Cuzquenha.

Inka Roka <1385 a 1415>:

Inka Roka é um dos mais importantes Inkas da história Inca. Ele inicialmente foi escolhido como Sinchi de Hurin, porém a força que esta metade adquirira durante as chefias dos Inkas anteriores colocou o Sinchi numa posição muito confortável.

Por volta de 1395, Inka Roka reuniu seus soldados e liderou uma expedição que atacou e dominou as três tribos formadoras de Hanan. Depois, o Inka levou a estátua de Manko Kapaq para a parte de cima da cidade, obrigando os antigos dominadores a prestarem culto a Intip e reverenciarem Manko Kapaq.
O Sinchi acumulou as funções que pertenciam aos chefes das outras três tribos e unificou-as sob seu domínio. Podemos considerar que, a partir daí, a Confederação Cuzquenha acabou para dar lugar a cidade de Cuzco. Aos poucos, os povos de Sawasiray, Allkawisa e Mara foram se fundindo aos Incas de maneira que passaram a constituir uma única etnia.

Inka Roka foi o primeiro Inka a merecer esse título em sua íntegra. Depois de unificar Cuzco sob seu domínio, partiu em campanha para aumentar a extensão territorial de seu poder. Ele chegou a tomar várias aldeias e pequenas cidades próximas a Cuzco, como Muina e Pinawa.

Yawarr Waqaq <1415 a 1417>:

Sem dúvidas, Yawarr Waqaq foi o mais inexpressivo de todos os soberanos Incas. Além de ter tido o mais efêmero de todos os governos, seu único feito relevante foi a perda de todos os territórios que Inka Roka havia anexado. As atitudes erradas do Inka desencadearam uma crise sem precedentes na cidade, fazendo com que, pouco antes de seu governo completar dois anos, ele fosse assassinado por conspiradores.

Wiraqocha Inka <1418 a 1438>:

Este pode ser considerado o ponto de partida do Tawantinsuyu. Quando Wiraqocha Inka assumiu o poder em Cuzco teve de combater um verdadeira rebelião na cidade. As etnias internas estavam lutando entre si, e havia a freqüente ameaça de uma invasão externa. Justamente por causa da situação periclitante em que se encontravam seus domínios, ele adotou o nome de um Deus, Wiraqocha (já fizemos menção a este Deus anteriormente), o Deus do Mar.

A adoção do nome fez com que muitos, inclusive os conspiradores que mataram Yawarr Waqaq, acreditassem que se tratava do próprio Deus encarnado. Por isso, as coisas para este Inka tornaram-se mais simples. Ele apaziguou as revoltas internas, deteve as tentativas de invasão e iniciou a expansão de Cuzco anexando diversas regiões próximas, num raio de 40km. Chegou até a dominar o famoso lago Titicaca.

Ao que tudo indica, o período de anarquia que se instaurava após a morte de um Inka teve seu princípio na ascensão de Wiraqocha Inka, pois devido ao tumulto causado pelo assassinato de Yawarr Waqaq a anarquia se instaurou e o novo Inka, para poder chegar ao poder, teve que derrotar os conspiradores. Temeroso de que com sua morte ocorresse um novo período de anarquia, Wiraqocha começou a preparar seu filho mais velho, Urqu, para ser seu sucessor.

Por volta de 1437, chegou a Cuzco a notícia de que uma grande horda de guerreiros estava se aproximando dos domínios do Inka. Eram os Chanka (povo ao qual nos referimos no item sobre o Império Chimu), guerreiros natos que estavam em busca de novas terras para seu reino. Em campanha militar há pelo menos cinco anos, vinham conquistando os povos ao sul do Império Inca com muita facilidade, devido a sua crueldade e obstinação na luta. Wiraqocha, já velho (alguns chegam a dizer que Wiraqocha assumiu o poder em 1400 e não em 1418; portanto, todos os fatos teriam 18 anos, em média, de atraso, se esta corrente estiver correta), decidiu que o melhor a fazer era retirar-se com o maior número de pessoas possível para a fortaleza de Calca. Lá ele pretendia, ainda vivo, entregar a Maskapaicha para Urqu.

Sendo assim, antes que os Chanka chegassem Wiraqocha resolveu partir. Pretendia levar toda a sua família e as Panakas dos Inkas mortos, além do máximo de pessoas que pudesse. Entretanto, seu filho Cusi Yupanki resolveu não abandonar Cuzco. Pediu tropas ao pai e disse que conteria a invasão Chanka a qualquer custo. Cusi Yupanki de fato conseguiu conter a invasão e, como recompensa, Wiraqocha permitiu que ele reinasse ao seu lado, tornando o Império uma diarquia. No entanto, Cusi Yupanki não ficou satisfeito com a situação, baniu Wiraqocha e tomou para si a Maskapaicha que seria dada ao irmão Urqu.

Pachakuti Inka Yupanki (Cusi Yupanki) <1438 a 1470>:

O princípio da história deste Inka se confunde muito com o final da história do anterior. Cusi Yupanki, conforme já dito, era filho de Wiraqocha Inka, e quando os Chanka começaram a invasão ao Império ele recusou-se a deixar Cuzco com o pai. Com muito custo, conseguiu algumas tropas para poder tentar barrar a invasão Chanka. Mas esses exércitos não eram compostos por muitos homens, Cusi Yupanki precisava de uma estratégia perfeita. Não poderia apenas encarar os invasores num embate frontal.

Império Inca

Ajudado por dois Sinchi de sua inteira confiança, Cusi esperou os Chanka. Quando estes chegaram, tamanha era sua confiança na vitória, que se assustaram quando viram um grande contingente de homens (grande, porém numericamente muito inferior ao seu) sair de dentro de Cuzco disposto a lutar. O susto inicial fez com que muitos Chankas fossem mortos, expondo a estátua de seu ancestral fundador (os Chanka sacramentavam a conquista de um novo território colocando nele a estátua de seu ancestral fundador). Os Incas, mais do que depressa, apoderaram-se da estátua, e isso fez com que os Chanka fugissem aterrorizados para seu acampamento, onde certamente se reorganizariam e desfechariam novo ataque a Cuzco dentro de dois ou três dias.

Cusi sabia que, se esperasse um novo ataque, não contaria mais com o elemento surpresa. Resolveu então atacar os Chanka. Reuniu todos os homens de Cuzco que não tinham abandonado a cidade, convocou muitos homens das etnias dominadas (que haviam prudentemente se mantido neutros na batalha inicial) e marchou rumo ao acampamento dos Chanka. Estes foram novamente pegos de surpresa, e as tropas Incas destruíram suas forças. Com a destruição da quase totalidade do exército Chanka, o Reino deles ficou vulnerável. Em função disso, Cusi continuou sua marcha ao invés de bater em retirada para Cuzco, e anexou os antigos domínios Chanka aos dos Inkas. Expandiu-se, assim, os domínios de sua etnia em direção ao sul. De volta a Cuzco, Cusi foi carregado em triunfo e mandou buscar seu pai na fortaleza de Calca. Ele quis atribuir todos os méritos da conquista a Wiraqocha, apesar deste ter abandonado a cidade.

Em troca, Wiraqocha ofereceu a Cusi o direito de reinar a seu lado, transformando o Império numa diarquia. Cusi aceitou, e estava para ser consagrado como co-monarca quando soube das reais intenções de seu pai: Wiraqocha pretendia matar Cusi e depois entregar a Maskapaicha para Urqu. Tomado pelo ódio ao pai e ao irmão, então, matou Urqu e afastou Wiraqocha, assumindo a Maskapaicha com o nome de Pachakuti Inka Yupanki, ou apenas Pachakuti (nome em homenagem a um antigo monarca do Império Wari, ou então a um Sinchi de Manko Kapaq).

Depois de ser sagrado Inka, Pachakuti não parou a expansão de seus domínios. Entregou parte de seus exércitos a seu irmão Kapa Yupanki. Este terminou de anexar o território dos Chanka, além de também tomar os territórios dos Anqara, Wanka e Wayla. Enquanto isso, Pachakuti tomava os territórios dos Kolla e dos Lupaka, que viviam às margens do lago Titicaca.

Entretanto, Kapa Yupanki começou a se julgar poderoso demais, e resolveu marchar rumo a Cuzco, para tomar a Maskapaicha de Pachakuti. O Inka descobriu os planos do irmão e realizou uma campanha militar contra ele, da qual saiu vitorioso matando Kapa Yupanki. Com a notícia da batalha entre os dois irmãos, os povos que Kapa Yupanki conquistara aproveitaram para se rebelar. Atacaram inicialmente a cidade de Cajamarca, que se situava a mais de mil quilômetros de Cuzco, no meio dos domínios do povo Wayla.

Pachakuti percebeu que a batalha que estava por travar seria a mais difícil de todas, pois os Wayla estavam sendo atacados por um outro Império que desejava dominar a nascente dos rios que o alimentavam. Tratava-se do Império Chimu (o qual já mencionamos anteriormente). O Inka sabia que iria encontrar muitos problemas caso se engajasse numa guerra contra um Império tão forte. Por isso, decidiu enviar para Cajamarca seu filho Tupa Inka Yupanki. Este era o melhor homem para ser enviado, pois além de gostar das artes bélicas poderia tornar-se uma ameaça futura aos planos de Pachakuti de deixar em seu lugar seu filho mais velho: Amarru Inka Yupanki. Enviar Tupa Yupanki para o campo de batalha era enviá-lo para a morte certa, se não nas mãos dos Wayla nas dos Chimu. Com isso, Pachakuti, no velho ditado popular, “matava dois coelhos com uma cajadada só”.

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