"Em toda obra dessa grande escritora alguma coisa íntima está sempre queimando: suas luzes nos chegam variadas e exatas, mas são luzes de um incêndio que está sendo continuamente elaborado por trás de sua contenção. Esse fogo é o segredo íntimo e derradeiro de Clarice. É o seu segredo de mulher e de escritora."
Lúcio Cardoso.

"Nasci para escrever. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que chamo de viver e escrever."
A década de 60 principia com a publicação do livro de contos Laços de Família. Seguiriam-se as publicações de A Maçã no Escuro, em 61, livro que recebeu o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, A Legião Estrangeira, em 62, e A Paixão Segundo G.H., em 64.

"Eu...é curioso, porque eu estava na pior das situações tanto sentimental como de família, tudo complicado, e escrevi A Paixão..., que não tem nada a ver com isso."
Uma escultora de classe alta, que mora num apartamento de cobertura num edifício do Rio, resolve arrumar o quarto de empregada, cômodo que supõe, seja o mais sujo da casa, o que não é verdade. O quarto é claro e límpido. Entre várias experiências desmistificatórias, a crucial: abre a porta do guarda-roupa e se vê diante de uma barata.
"É, fugiu do controle quando...eu de repente percebi que a mulher de G.H. ia ter que comer o interior da barata. Eu estremeci. De susto!"
Embora afirme que o livro não tem nada de experiência pessoal, admite que a obra fugira do seu controle...
"Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém. Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber no sistema. Terei de ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? - assim como uma criança pensa para o nada - e correr o risco de ser esmagada pelo acaso."
Paixão Segundo G.H.
"É um romance com uma personagem de nome desconhecido, indiciado apenas pelas primeiras letras, e que, como freqüentemente acontece nos textos de Clarice, representa a questão do nomear e do percurso que se experimenta nessa procura do nome ou da própria identidade. Esse percurso doloroso e prazeroso, espécie de via sacra que se chama paixão, estende-se até um ponto máximo, na união temporária entre o eu e o outro. Apenas G.H., que conta a alguém o que lhe aconteceu no dia anterior, criando um interlocutor imaginário como recurso que lhe dê coragem para fazer o relato."
Nádia Gotlib
"É preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem é o que eu preciso. Sinto-me tão desamparada, preciso tanto de proteção...porque parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei lá porque escrevo! Que fatalidade é esta?"
Entre 65 e 67, Clarice dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros, a situação econômica de Clarice é muito difícil. Em setembro de 67, acontece o acidente que deixa marcas no corpo e na alma da escritora - um incêndio no quarto que ela tenta apagar com as mãos. Fica gravemente ferida, passa 3 dias entre a vida e a morte. Três dias definidos por ela como "estar no inferno."
"A galinha olha o horizonte como se da linha do horizonte é que tivesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender, se ela é a contradição de um ovo?...E me faço rir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio e não um fim tem me dado a mais maliciosa das liberdades. Não sou boba e aproveito, inclusive. Faço um mal aos outros que... francamente!" O Ovo e a Galinha
Em 69, publica o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Em 71, a coletânea de contos Felicidade Clandestina, volume que inclui O Ovo e a Galinha, escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro.
Os últimos anos de vida são de intensa produção: A Imitação da Rosa (contos) e Água Viva (ficção), em 1973; A Via Crucis do Corpo (contos) e Onde Estivestes de Noite, também contos, em 74. Visão do Esplendor (crônicas), em 75. Nesse ano, é convidada a participar, em Bogotá, do Congresso Mundial de Bruxaria. Sua participação limita-se à leitura do conto O Ovo e a Galinha. No ano seguinte, Clarice Lispector recebe o 1° prêmio do X Concurso Literário Nacional, pelo conjunto da obra.
Em 77, concede entrevista à TV Cultura, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Ela antecipa a publicação de um novo livro, que viria a se chamar A Hora da Estrela, adaptado para o cinema nos anos 80 por Suzana Amaral.
"É a história de uma moça tão pobre que só comia cachorro- quente. Mas a história não é isso. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Eu morei no Nordeste... eu me criei no Nordeste e depois no Rio de Janeiro... tem uma feira dos nordestinos no campo de São Cristóvão, e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a idéia. Depois eu fui a uma cartomante e imaginei as coisas boas que iam me acontecer. E imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um táxi me atropelasse e eu morresse, depois de ter ouvido todas essas coisas boas. Então daí foi nascendo também a trama da história."
"Me chamam de hermética. Como é que se pode ser popular, sendo hermética? Eu me compreendo. De modo que eu não sou hermética para mim"
Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário. Queria ser enterrada no Cemitério São João Batista, mas era judia. O enterro aconteceu no Cemitério Israelita do Caju.
Postumamente, foram publicados Um Sopro de Vida, Para Não Esquecer e A Bela e a Fera.
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
"Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro". Paixão Segundo G.H.
"Uma personalidade lisérgica. Para ela se abriam as portas da percepção, de modo a transformar-se o mundo num espetáculo de vertiginosa complexidade, profundidade e vigor. Clarice via demais, e o sofrimento lhe brotava da crispação das suas retinas expostas às agulhas de luz que saltam do coração selvagem da vida... Vidente e visionária, Clarice era fustigada, crucificada pelo excesso de estímulos, conscientes e inconscientes, que tinha de domar." Hélio Pelegrino.
"Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude... Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais."

"Eu acho que, quando não escrevo, estou morta."
Fonte: www.tvcultura.com.br
Nascida em 1920, na Ucrânia e falecida em 1977, no Rio de Janeiro. Ela veio para o Brasil aos dois meses de idade, criou-se no Recife e mudou-se para o Rio de Janeiro aos doze anos. Formou-se em Direito e, aos dezessete anos, escreveu seu primeiro livro, o romance "Perto do Coração Selvagem".
Na obra de Clarice Lispector, a caracterização das personagens e as ações são elementos secundários. Importa-lhe captar a vivência interior das personagens e a complexidade de seus aspectos psicológicos. Daí resultam uma narrativa introspectiva e o monólogo interior, em que muitas vezes percebe-se o envolvimento do narrador, ficando difícil estabelecer as fronteiras entre narrador e personagens. Essa centralização na consciência contribui para a digressão, a fragmentação dos episódios e o desencadeamento do "fluxo de consciência", isto é, a expressão direta dos estados mentais, nos quais parece manifestar-se diretamente o inconsciente, do que resulta certa perda da seqüência lógica.
Na trilha filosófica do existencialismo, Clarice enfatiza a angústia do homem diante de sua liberdade para escolher o curso que deseja dar à sua vida. Essa escolha é necessária, já que sua existência não está predeterminada, e a maneira de cada indivíduo ser e estar no mundo e entendê-lo resulta de sua própria opção. Assim, ele tem a liberdade de optar por uma vida autêntica e questionadora, mas isso provavelmente o levará a enxergar um mundo absurdo em que nada faz sentido e, conseqüentemente, a afundar-se num abismo de perplexidades. Por outro lado, pode refugiar-se na banalidade do cotidiano e nos ;interesses imediatos, limitados e efêmeros, os quais certamente nunca o deixarão plenamente satisfeito.
As narrativas de Clarice Lispector quase sempre focalizam a epifania, um momento de revelação, um momento especial em que a personagem defronta-se subitamente com a verdade.
1920. Nasce Clarice Lispector em Tchechelnik, uma pequena aldeia na Ucrânia(Rússia), a 10 de dezembro de 1920. É filha de Pedro e Marieta Lispector, que já tinham duas filhas: Elisa e Tânia. A família de migrantes estava já em viagem, a caminho das Américas. Da Rússia passam, provavelmente, pela Romênia e pela Hungria, até a Alemanha. Em Hamburgo tomam o navio que os levaria ao Brasil.
1921. Chegam à Maceió( Estado de Alagoas) onde permanecem por dois anos e meio.
1924. A família muda-se para Recife( Estado de Pernambuco). O pai é pequeno comerciante. A doença da mãe, que sofre de paralisia progressiva, agrava-se.
1928. Com sete anos aprende a ler.
1930. Morre a mãe, Marieta Lispector. Com nove anos, assiste a uma peça de teatro no Teatro Santa Isabel, no Recife e, inspirada, escreve “Pobre menina rica”, peça em três atos cujos originais acaba perdendo. Nessa época, envia contos para o Diário de Pernambuco, mas nenhum deles é publicado.
1932. Clarice que estudara no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Idiche-Brasileiro, ingressa no Ginásio Pernambucano, após exame de admissão prestado em final do ano anterior. Lê muitos livros, entre eles Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
1934. A família, composta pelo pai e três filhas, muda-se para o Rio de Janeiro. A adolescente Clarice cursava, nessa época, a treceira série do curso fundamental (ou ginasial).
1936. Final do ano, completa o Curso Fundamental, no Colégio Sílvio Leite, que funcionava na rua Mariz e Barros, na Tijuca.
1938. Cursa o segundo ano do Curso Complementar, já no Colégio Andrews.
1939. Inicia o Curso de Direito na Universidade do Brasil.
1940. Morre o pai. Publica o seu primeiro conto na imprensa, intitulado “Triunfo”, na revista Pan, no dia 25 de maio. Inicia sua carreira de jornalista, trabalhando na Agência Nacional e na empresa A Noite. Data desse período sua grande amizade por Lúcio Cardoso. Conhece também, entre outros jornalistas, Antonio Callado e Francisco de Assis Barbosa.
1943. Casa-se a 23 de janeiro, com Maury Gugel Valente, seu colega na Faculdade de Direito. Ambos formam-se na Faculdade no final deste ano, quando Clarice lança seu primeiro romance: Perto do Coração Selvagem.
1944. Muda-se para Belém(Estado do Pará) com seu marido, que segue a carreira diplomática, onde permanecem por seis meses. Em seguida, viaja para Nápoles(Itália), onde o marido assume a função de vice-cônsul do Brasil. De Belém e de Nápoles Clarice recebe as críticas que são feitas ao seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, que, aliás, ganha o Prêmio Graça Aranha. E mantém correspondência com seus parentes e amigos que ficaram no Brasil.
1946. Muda-se para Berna(Suíça). Publica seu segundo romance, O Lustre. E escreve o terceiro romance.
1949. Publica A Cidade Sitiada, seu terceiro romance.
1950. A família permanece algum tempo no Rio de Janeiro, antes de embarcar para nova estada no exterior, agora na Inglaterra. E escreve contos, como “Amor”, “Começos de uma fortuna”, “Uma galinha” e que, com outros, anteriormente escritos, serão publicados no seu primeiro volume de contos, dois anos mais tarde. A família muda-se para Torquay, na Inglaterra, onde permanece por seis meses.
1952. Passa algum tempo no Brasil, antes de partir novamente para o exterior. Colabora no “Comício”, dirigido entre outros, por Rubem Braga, assinando página feminina com o título “Entre mulheres”, que escreve com pseudônimo de Tereza Quadros, de maio a setembro deste ano. É publicado seu primeiro livro de contos, Alguns Contos. No dia 3 de setembro embarca para os Estados Unidos, onde permanece até o final da década.
1953. Nasce o seu segundo filho. Paulo, em Washington. Continua a escrever, com dificuldades, A Maçã no Escuro. E escreve outros contos.
1954. Clarice vem ao Rio de Janeiro, em viagem rápida. É publicado seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, em francês.
1956. Finalmente termina seu romance A Maçã no Escuro, que já iniciara há pelo menos três anos atrás, quando tinha por título ainda “A Vela no Pulso”. Escreve mais contos como “O búfalo”. E os amigos do Brasil, como Fernando Sabino e Rubem Braga, tentam publicar tanto o seu novo romance como o volume de contos.
1959. A revista Senhor, dirigida entre outros, por Paulo Francis, publica contos de Clarice Lispector, divulgando assim, a escritora para um público maior. Separa-se do marido, depois de um casamento que durou 15 anos, e volta para o Brasil, com os dois filhos.Colabora, até 1961, em página feminina do “Correio da Manhã”, em coluna intitulada “Correio feminino- Feira de utilidades”, sob o pseudônimo de Helen Palmer.
1960. Publica Laços de família, pela Livraria Francisco Alves. Colabora no “Diário da Noite”, como "ghost writter" da atriz Ilka Soares, em sua coluna intitulada ”Só para mulheres”, até março do ano seguinte.
1961. Publica A Maçã no Escuro, para o qual tomara notas ainda na Inglaterra e o qual começara a escrever nos Estados Unidos e que já havia terminado a cinco anos.
1962. Viaja para a Polônia, com os filhos, em visita ao ex-marido,que, na época, ainda era embaixador. Recebe o Prêmio Carmen Dolores, em São Paulo, pelo seu quarto romance.
1964. Publica a novela A Paixão Segundo G.H., um dos seus textos mais densos. É publicado também o volume A Legião Estrangeira, que reúne, numa primeira parte, contos maiores e, numa segunda parte, intitulada “Fundo de gaveta”, fragmentos de tamanho variado, incluindo aí alguns sob a forma de crônicas.
1967. Na madrugada de 14 de setembro, Clarice sofre acidente que quase lhe causa a morte: trata-se de um incêndio que lhe deixa marcas na mão direita e que exige algumas cirurgias. Publica O Mistério do Coelho Pensante, história que contara, em inglês para o filhos Paulo, quando ainda estava nos Estados Unidos.Escreve crônicas no “Jornal do Brasil”, aos sábados, em colaboração que irá prolongar até 1973.
1968. Publica na revista Manchete, em seção intitulada “Diálogos possíveis”, entrevistas que faz com personalidades sobretudo do mundo político e artístico. Participa de manifestação política contra a ditadura militar, em caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro, ao lado de artistas e intelectuais brasileiros. Ganha o Prêmio Calunga, no Paraná, com o livro de literatura infantil publicado no ano anterior.
1969. Publica A Mulher que Matou os Peixes, segundo livro de literatura infantil e o romance Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, com o qual ganhara o Prêmio Golfinho de Ouro.
1971.Publica Felicidade Clandestina, volume que traz os contos de memória de infância do Recife, além de outros.
1973. Publica Água Viva,em texto reduzido de versões anteriores: uma primeira tinha por título “Atrás do pensamento: Monólogo com a Vida”; e uma outra, “Objeto Gritante”. Neste ano sai publicada também uma antologia de contos, com seleção que não inclui nenhum conto inédito, no volume “A Imitação da Rosa”.
1974. Publica dois volumes de contos: um, por encomenda, sobre o tema do sexo, intitulado A Via Crucis do Corpo; outro Onde estivestes de noite. Neste ano publica ainda seu terceiro livro de literatura infantil : A vida Íntima de Laura.
1975.Participa do congresso de Bruxaria, na Colômbia, ocasião em que lê o seu conto “O Ovo e a galinha”. Publica Visão do esplendor ou, segundo a autora “Impressões leves”. E De Corpo Inteiro, com algumas das entrevistas publicadas anteriormente na imprensa carioca.
1976. Ganha o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra.
1977. Em fevereiro concede entrevista para a TV2-Cultura, em São Paulo em programa que pede para ir ao ar apenas após a sua morte. Em início de novembro é hospitalizada, por causa da doença: cáncer no útero, que se generalizou. Publica A Hora da Estrela, reunindo, com dificuldade, os fragmentos que compõem o livro. Falece no dia 9 de dezembro, às vésperas de completar 57 anos. Foi enterrada no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.
1978. É publicado Um sopro de vida, que ela considera “pulsações”, fragmentos que foram reunidos por sua amiga Olga Borelli. Também sai publicado seu quarto livro de literatura infantil.Quase de verdade. A segunda parte do volume A Legião Estrangeira é publicado em volume autônomo, com o título Para não esquecer.
1979. É publicado o volume A Bela e a Fera, com alguns dos seus primeiros e últimos contos ainda inéditos.
1984. É publicado o volumeA Descoberta do mundo, que reúne parte das crônicas anteriormente publicadas no JB.
1987. É publicado o livroComo nasceram as estrelas.12 Lendas brasileiras,com as histórias que serviram de ilustração para o caledário encomendado a Clarice pela fábrica de brinquedos Estrela.
Fonte: www.beatrix.pro.br
Quem se atreve a definir esta mulher? Enigmática, para Antônio Callado. Um mistério, para Carlos Drummond de Andrade. Insolúvel, para o jornalista Paulo Francis. Ela não fazia literatura, mas bruxaria, disse Otto Lara Resende.
Em maio de 1976, o jornalista José Castello, colaborador de O Globo, recebe a missão de entrevistar Clarice Lispector. Corre boato de que ela não quer mais saber de entrevistas, mas Castello consegue o encontro. Dialogam:
J.C. - Por que você escreve?
C.L. - Vou lhe responder com outra pergunta: - Por que você bebe água?
J.C. - Por que bebo água? Porque tenho sede.
C.L. - Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.
Investigada por pesquisadores apaixonados no mundo todo, Clarice é uma das mais cultuadas escritoras brasileiras. Para muitos, das mais importantes do século 20, no mundo.
Clarice nasceu na aldeia Tchetchelnik, Ucrânia, que de tão pequena nem figura no mapa, em 10 de dezembro de 1920, quando os pais Pedro e Marieta, junto das filhas Elisa e Tânia, estavam emigrando para o Brasil. Pararam naquele lugar apenas para Clarice nascer. Com dois meses de vida desembarcava com a família em Maceió, onde viveu por três ou quatro anos. Mudam depois para o Recife. Em 1929, aos nove anos, perdeu a mãe.
Guardo de Pernambuco até o sotaque. Quem vive ou viveu no Norte tem uma fortuna de ser brasileiro muito especial.
A menina já escrevia suas historietas, sempre recusadas pelo Diário de Pernambuco, que mantinha uma página infantil, porque elas não tinham enredo e fatos - apenas sensações. Adolescente, segue com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro. Termina o secundário. Dá aulas de português para contornar a crise financeira da família. Entra na Faculdade Nacional de Direito em 1939. No ano seguinte perde o pai. Trabalha como redatora no jornal A noite, onde publica contos. Em 1943, casa com o diplomata Maury Gurgel Valente.
Entre muitas leituras, lia Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, Dostoievski "embora não o aprendesse em toda a sua grandeza" e descobriu por acaso Katherine Mansfield à qual foi equiparada posteriormente.
Perto do coração selvagem, o primeiro romance, escrito aos 19 anos é publicado apenas em 1944. A jovem revelação desnorteia a crítica. Há os que buscam influências, invocam certo temperamento feminino. Outros não a entendem.
Não sei o que quero e, quando descobrir, não preciso mais. Acho que quero entender. Quando escrevo, vou descobrindo, aprendendo. É um exercício de aprendizagem da vida.
Viveu em vários países, acompanhando o marido. Nápoles, Berna, Washington se revezam com passagens pelo Brasil. A vida de mulher de diplomata não lhe agradava. De Paris, em janeiro de 1947, escreve às irmãs:
Com a vida assim parece que sou "outra pessoa" em Paris. É uma embriaguez que não tem nada de agradável. Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma.
No exterior lhe nascem os dois filhos, Pedro e Paulo. Mãe, Clarice divide-se entre as crianças e a literatura, escrevendo com a máquina apoiada nas pernas enquanto cuida de seus pequenos.
Separada do marido em 1959, volta ao Rio de Janeiro com os filhos. Mais um período de dificuldades afetivas e financeiras apesar de já ser escritora famosa com obras publicadas no exterior. Nesta época publica contos encomendados por Simeão Leal na revista Senhor. Em toda a década de 1960, colabora em vários jornais e revistas para sobreviver, faz traduções. Em 1969, já era autora de obras importantes como O lustre (romance, 1946); Laços de família (contos, 1960); A maçã no escuro (romance, 1961); A paixão segundo G.H. (romance, 1964); Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (romance, 1969). Incomodava-se com sua mitificação: Muito elogio é como botar água demais na flor. Ela apodrece.
Clarice morreu de câncer em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Meses antes concedeu célebre entrevista a Júlio Lerner, da TV Cultura. Ela acabava de terminar A hora da estrela. Escrever era vital para a misteriosa Clarice. Na última entrevista confessava: "Quando não escrevo, estou morta".
Em 1975, convidada a participar do Congresso Mundial de Bruxaria na Colômbia, limitou-se à leitura do conto O ovo e a galinha, um conto que não compreendia muito bem, declarou. Na década de 1990, o escritor Otta Lara Resende advertiu José Castello, que escrevia biografia de Clarice: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria".
Fonte: br.geocities.com