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Claudio Tozzi

Um dos artistas brasileiros que mais se aproximou da esfera de influência da arte pop norte-americana, Cláudio Tozzi nunca negou seu profundo interesse pela obra do americano Roy Lichtenstein, nem tampouco a influência da linguagem pictórica deste na construção de sua própria linguagem. Sua grande contribuição para a arte brasileira, no entanto, fora transpor, de maneira pessoal e intransferível, este novo universo de técnicas, meios e suportes, fundado sobretudo na apropriação de imagens e estereótipos veiculados no mass media, para um tempo e espaço específicos: o Brasil nos anos 60.

Nestes anos de (in)tensos debates e agitações políticas, Tozzi, então um jovem estudante de arquitetura da FAU-USP, mas político e socialmente envolvido com sua época, dedicou-se ao trabalho - como o de um cronista quase - de realizar um levantamento iconográfico de tudo o que acontecia ao seu entorno: desde a situação política do país que era a ditadura, logo à toda opressão e repressão que envolviam a morte de estudantes e/ou opositores do regime; aos protestos contra a Guerra do Vietnã; a morte de Che Guevara; a posição do Brasil como terceiro mundo; ou a chegada do Homem à Lua.

Devido ao acirramento da censura e da repressão no país pós-68, Tozzi - que chegou a ser detido por uma semana pela Operração Bandeirantes - passa a se dedicar a um outro tipo de denúncia: questionando o próprio status da obra de arte como única e elitizada, alheia aos novos meios de linguagem e fatura publicitárias, inicia uma série de trabalhos de multiplicação e alteração de imagens, a partir de técnicas derivadas da reprodução gráfica. Incursionando também pela abstração, ao longo da década de 1970, dedica-se a uma pesquisa mais formal e sistemática dos pigmentos: seus meios de expressão e os processos perceptivos que desencadeiam na retícula humana.

Artista que se caracterizou no entanto por uma busca constante de novos resultados, em um contínuo processo de experimentação, sua produção dos anos 1980, revela-se então mais preocupada com a exploração dos problemas do espaço. E é como fruto destas pesquisas e experimentações realizadas ao longo destas duas décadas que vemos emergir um dos traços que mais caracterizaria sua produção desde então, a chamada técnica do‘pontilhismo’ reticular; posto que a substituição dos pincéis por um rolo de borracha reticulado proporciona ao espectador a visualização, a olho nu, de uma infinidade de ‘pontinhos’e/ou retículas.

Tendo alcançado o reconhecimento merecido, ainda jovem - foi considerado pela crítica como um dos dez melhores pintores da década, no concurso ‘Destaque Hilton’ de 1980 - Tozzi é ainda hoje considerado um dos mais expressivos artistas do cenário artístico nacional. Não apenas pelo exímio conhecimento e domínio do métier artístico, senão pela notável coerência formal que revela na diversidade temática do conjunto de sua obra. Voltando-se ora para composições mais geométricas, construtivistas, ora para questões referentes à comunicação direta da imagem, Cláudio Tozzi revela-se sobretudo um arquiteto construtor de imagens. E, para muitos, um marco divisório da arte contemporânea no país.

A Subida do Foguete, 1969

Claudio Tozzi

Marcadamente composta por traços negros e precisos, quase homogêneos, que (de)limitam a figura de um foguete estereotipado e familiar ao público das histórias em quadrinhos; mas que no entanto parecem se submeter à sua composição cromática - de cores fortes e industriais; esta obra é registro do intuito do artista de se fazer valer das técnicas e dos meios empreendidos pelas artes gráficas para o desenho comercial.

Despersonalizando seu traço, aposentando seus pincéis em prol da utilização de um rolo de borracha reticulado, apropriando-se e reproduzindo imagens de segunda mão, Tozzi cria seus ready-mades visuais; indiscutivelmente seus, no entanto.

Prêmio de aquisição da IV Jovem Arte Contemporânea do MAC-USP, este trabalho não apenas ilustra uma das fases mais conhecidas de Cláudio Tozzi, senão a utopia de toda uma época, de toda uma geração: para a qual todos os limites eram passíveis de serem ultrapassados. Tudo era possível, até mesmo a conquista da lua pelo homem.

Fonte: www.mac.usp.br

Claudio Tozzi

O processo de trabalho de Cláudio Tozzi é configurado por fases que, muito embora pareçam ser bem distintas uma das outras, vêm de processos que despertam no desenvolvimento do próprio trabalho.

Nos primeiros trabalhos a linguagem era muito semelhante à pesquisa de imagens de um jornalista. Tratava-se de uma época de efervescência política em que a sua produção estava voltada para uma discussão com estruturas já organizadas, trabalhando com colagens, placas de trânsito, fotos de jornais etc. O trabalho já redundava, no entanto, em uma elaboração formal quase geométrica que se mantém ainda nos seus trabalhos recentes.

A seguir vem os parafusos como tema central, a partir da idéia de um parafuso apertando um cérebro. Deste ponto, o artista volta-se para uma pesquisa mais aprofundada, no que se refere a cromaticidade e a técnica. É nesta época que Cláudio Tozzi começa a trabalhar com superfícies reticuladas.

Em sua crítica Mario Schenberg ressalta que esta fase da obra do artista está por demais ligada à anterior, posto que baseada em imagens gráficas. Segundo Schenberg: “o pontilhismo das obras de Tozzi é uma elaboração da retícula da sua gráfica, que por sua vez já se baseia em imagens fotográficas.”(1).

O próprio artista reitera esta continuidade, distanciando-se da influência do pontilhismo de Seurat: “ (...) a intenção não era trabalhar de forma realista ou de forma simbólica, mas construir esta imagem com pequenos pontos como se estivesse fazendo o projeto de um edifício.”(2)

As temáticas das escadas de “Passagens” também é advindo de um processo de pesquisa com imagens, processo que se esgota e induz o artista a levantar outras questões.

Em “Expansões orgânicas”, formas se superpõem em uma estrutura de polietano. A distinção cromática entre elas provoca a desconstrução do fundo mediante a expansão disforme daquelas que se põem adiante. Assim, na execução deste trabalho o artista foi como que tomando detalhes para a partir deles destruir certas formas e construir outras, formas que parecem emergir organicamente de suas estruturas.

Metodologia

Ao visualizar um quadro, o artista percebe algumas formas que saltam em sua retina, recortadas da obra que lhe dera origem. Esta imagem é desenhada e reinserida em um encontro do bidimensional com o tridimensional, já que, para o artista, dado o processo que acompanhou o desenvolvimento destas formas, o resultado é uma obra que é meio pintura, meio escultura (3).

É como se a própria escada, as suas formas, o desenho mesmo, estivesse se movendo, e de uma situação imaginariamente construída o artista extraísse formas autônomas que dessem origem a esta série: “(...) o artista preocupa-se com a desconstrução da estrutura, através do gesto, que a superpõe e a deforma. A superposição cromática de cada forma desintegra a cor e a decompõe em tons, para ser novamente estruturada na retina do espectador.”(4).

Especificidade Arte e Ciência

Há que se relevar aqui a indissociabilidade na produção do artista da intuição mais imediata com um projeto de pesquisa mais apurado, no sentido de construção de um projeto a partir de uma proposta mediada pela imaginação.

Segundo o artista “(...) a preocupação inicialmente é meio inconsciente, muito espontânea, depois com o próprio trabalho ela vai se tornando mais clara, mais precisa até como meta essencial mesmo do trabalho...”(5). Na análise da produção de Cláudio Tozzi, Mario Schenberg já chamava atenção para a combinação de elementos conscientes e inconscientes no processo criativo deste artista, muito parecidos com o processo de produção na ciência moderna.

Aliado a isso existe o cuidado com um equilíbrio formal numa preocupação construtiva sempre constante na obra de Tozzi. Também o uso dos materiais e das cores é submetido a uma pesquisa prévia. Cada cor é estudada de forma a ter-se em mãos as várias tonalidades, as relações destas umas com as outras e principalmente as relações das cores com as linhas gerais já estruturadas da obra.

Cláudio Tozzi, ainda que comungando do espírito arrojado que caracteriza a pós-modernidade no experimentalismo material e formal, não abre mão de uma análise mais comedida, uma sistematicidade na aplicação experimental. O artista afirma mesmo ser incapaz de partir de uma tela branca para a execução de seu trabalho.

No caso da obra tomada aqui como objeto de estudo, não existe um plano inicial de produzir uma escultura, a espontaneidade inicial do desenvolvimento do processo vai sendo organizado em pequenas anotações, estudado detalhadamente, até surgir efetivamente um projeto para a realização da obra.

Contexto

Cláudio Tozzi inicia sua atividades como artista nos anos 60. Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 68, naquela época sediada na rua Maranhão, o artista vivencia os debates políticos e culturais que se davam naquele momento.

Emergia nos Estados Unidos a Pop Art, e no Brasil Hélio Oiticica contextualiza a vanguarda brasileira nas propostas da nova objetividade em que novas ordens estruturais retransformam o conceito de pintura e escultura.

A preocupação com o coletivo é algo contundente na época e os primeiros trabalhos de Cláudio Tozzi não se alijam desta temática. “Guevara Vivo ou Morto” é um bom exemplo deste engajamento artístico, que se aliava também a um compromisso cultural. Assim, ainda que dentro do espírito inovador da Pop Art, o artista se apropria deste discurso impregnando-o de um tom muito mais crítico, quase panfletário, que a proposta original americana não trazia.

No final dos anos 60, com o acirramento da postura ditatorial no país, os trabalhos perdem o tom panfletário e demonstram uma preocupação maior com a elaboração visual. São desta época “Astronauta” e “Futebol”.

Os anos 70 marcam esta preocupação com novas possibilidades gráficas e metafóricas que um mesmo tema permite.

De qualquer forma, resiste ainda a objetividade profunda de sua linguagem. Não é difícil referir a série ”Parafusos” ao período de profunda retaliação política no qual o país está imerso e ao discurso tecnocrata que o acompanha.

Mesmo com o emprego da cor reticulada, intensa e vibrante, suas obras continuam a fugir de qualquer apelo emocional, a leitura que ela propõe é sempre de ordem intelectual. O tema já não é mais dominante na produção de suas obras o que lhe permite trabalhar com maior autonomia as questões da pintura em si. Característica dos anos 80, o artista aparece cada vez mais envolvido com as questões da plasticidade, buscando outras possibilidades de perscrutação sensorial e visual.

A obra de Cláudio Tozzi se encaminha para os anos 90 buscando outras propostas que não depõem de forma alguma com o que o artista produziu até então, ainda que de forma extremamente distinta. Esta recente fase poderia ser entendida como uma “(...)tentativa de superposição de duas vertentes sem que elas briguem entre si”(6), de forma que, derivado de elementos figurativos, as formas abstratas resultantes se instalem em uma dialética cromaticamente construída.

Conclusão

A produção atual de Claudio Tozzicontempla um percurso de grande investigação e integridade formal. Artista de produção extremamente profícua, conseguiu consagrar um estilo absolutamente particular na utilização de retículo sobre superfície. O “cromatismo festivo” atual estimula a percepção, sem colocar em risco o construtivismo intelectual que sempre o caracterizou.

O artista se mostra interessado em manter um relacionamento amplo com o grande público, estabelecendo contatos mais pessoais que as obras expostas em locais abertos (como a do Metrô Sé em São Paulo, ou o painel exposto no programa “Metropolis” da TV Cultura) lhe permitem.

O histórico de suas atividades expõe que a respeitabilidade alcançada no meio foi construída a partir de um itinerário de pesquisa de valores plásticos sempre ascendente.

A opção atual por uma estética “atemática” não rivaliza em nada com a competência do período anterior, em que a aplicação de temas o colocava em dia com aquilo que lhe era contemporâneo tanto em termos culturais quanto artísticos. Não se trata apenas de uma questão de tendências, pelo que podemos visualizar na retrospeção geral de sua obra, mas de inovar a partir de referências estimulantes internas à própria obra.

Os trabalhos recentes contêm muito de reminiscências das fases anteriores. Tozzi é, nas palavras de Frederico Moraes, um “construtor de imagens” e, neste sentido, sua obra sempre em construção aponta para caminhos surpreendentes pela novidade de sua constante transformação/síntese.

Fonte: www.eca.usp.br

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