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Cuidado!

O Barulho faz Mal à Saúde

A poluição sonora em algumas escolas é tanta que pode levar ao estresse e até à perda de audição. Mas, com medidas simples, é possível diminuir a barulheira na classe

Cuidado!
Ilustração: Orlando Pedroso

Barulho ensurdecedor não é só um jeito exagerado de falar. Com o passar do tempo, uma pessoa exposta diariamente a sons muito altos pode ter a audição comprometida. Máquinas, veículos e aglomerações tornam a poluição sonora cada dia mais intensa. E no ambiente escolar a situação não é das melhores. Se você acha o barulho da sala de aula natural, é bom ficar alerta. A gritaria da turma, somada aos ruídos que vêm da rua, prejudica o bem-estar de todos e deve ser evitada.

Sons e vibrações que ultrapassam os níveis previstos pelas normas legais e que podem causar problemas auditivos irreversíveis ou perturbar as pessoas é o que se chama de poluição sonora. Apesar das leis e das políticas públicas para controlar o problema e dos alertas feitos por especialistas, a poluição sonora ainda não sensibiliza tanto como a do ar ou a da água.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite suportável para o ouvido humano é 65 decibéis. Acima disso, o organismo começa a sofrer. Para salas de aula, a Associação Brasileira de Normas Técnicas estipula que o limite tolerado é de 40 a 50 decibéis. Esse índice, aprovado por resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), tem força de lei.

Muitas classes, no entanto, atingem os 75 decibéis, principalmente as que têm mais de 25 estudantes. O som do pátio na hora do recreio pode chegar a 70 decibéis, causando diversos males ao organismo (veja quadro abaixo).

Ruído alto libera adrenalina

"Orelha não tem pálpebra", brinca o engenheiro ambiental Eduardo Murgel, especialista em acústica, de São Paulo. "Enquanto outros órgãos do sentido descansam durante o sono, os ouvidos se mantêm em estado de alerta", explica. A audição funciona como um alarme, e isso tem explicação antropológica: quando o homem vivia em cavernas, ficava atento para ouvir quando um animal se aproximava. Ao perceber o perigo, seu cérebro produzia quantidade extra de adrenalina, deixando o corpo preparado para o combate ou para a fuga.

O barulho sempre foi associado a circunstâncias que causam temor . Hoje o homem não precisa mais se defender de predadores, mas seu sistema de defesa continua o mesmo: sempre que ouve um ruído alto, o nível de adrenalina aumenta, fazendo subir a pressão arterial e gerando estresse instantâneo.

Barulho causa doenças

A longo prazo, o ruído excessivo pode causar gastrite, insônia, aumento do nível de colesterol, distúrbios psíquicos e perda da audição. Provoca ainda irritabilidade, ansiedade, excitação, desconforto, medo e tensão.

Na sala de aula, o professor faz tamanho esforço para ser ouvido que acaba gritando sem perceber. Com isso, fica vulnerável ao aparecimento de laringites e calos nas cordas vocais. Os efeitos da poluição sonora prejudicam a aprendizagem: quando todo mundo fala alto, ninguém ouve nada direito e é difícil prestar atenção.

De acordo com Eduardo Murgel, o primeiro problema das escolas é a planta: não se desenham edifícios escolares levando em conta as condições acústicas. "Se a lei determina um nível de 40 a 50 decibéis por sala de aula, os arquitetos deveriam colocar o prédio no fundo do terreno, longe da rua e fazer o pátio na frente", afirma o engenheiro. Ele aconselha aos professores que trabalham em lugares ruidosos reivindicar da direção da escola e da secretaria de Educação salas com tratamento acústico - forros e pisos que absorvam o som - ou um sistema de alto-falantes e microfone em ambientes maiores.

Falar baixo é uma saída

"Quanto mais alto falam os alunos, mais alto fala o professor e maior é o barulho", diz Eduardo Murgel. Ele recomenda discutir a questão com a turma para que o problema seja resolvido. Uma prática enriquecedora é criar a cultura da "fala mansa". No início da aula, peça alguns minutos de silêncio à turma. Mostre como a classe fica mais acolhedora sem ruídos.

É importante que a garotada entenda o conceito de círculo vicioso - cada vez que um levanta a voz, o colega ao lado vai falar mais alto, o próximo vai berrar e ninguém vai ouvir nada. Para que esse hábito seja modificado, proponha um pacto a partir do qual todos falem sem gritar, de mansinho.

A Escola Estadual Amaro Cavalcanti, no Rio de Janeiro, tem cerca de 2700 alunos, 900 por período. As classes abrigam 40 estudantes, em média. A situação é agravada pelo projeto arquitetônico do prédio. "As paredes das salas que dão para o corredor não vão até o teto, o que leva o ruído a níveis críticos", conta a coordenadora Sandra Linhares de Britto.

Para atenuar esses efeitos, a escola orientou professores e funcionários a não se reunir nos corredores, espaços em que todos deveriam falar baixo. A forma de ocupação das salas sofreu alterações. As turmas não permanecem na classe se não tiver aula: elas vão assistir a vídeos em sala reservada para isso ou praticar esportes na quadra.

Alunos ajudam na solução

O arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo João Gualberto Baring coordenou, em 1998, um projeto de conscientização para diminuição do ruído na escola. A iniciativa foi fruto de uma parceria entre o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. "A gritaria em classe é tal que concluímos que sem disciplina nada se resolve."

Uma das soluções foi a dramatização dos efeitos do barulho. As turmas mais velhas foram convocadas a escrever o texto de uma peça e a chamar os menores para representá-la. Outra iniciativa bem-sucedida foi a criação de semáforos de papelão feitos pelos alunos. A idéia era indicar o volume de som na classe por meio das cores: verde (pouco barulho), amarelo (alerta) e vermelho (barulho excessivo).

Quem mudava as cores era a professora, auxiliada por alunos eleitos pela classe. Eles se baseavam na compreensão da fala da professora pela turma. Quando o vermelho aparecia, todos verificavam por que o barulho tinha atingido o nível crítico. De acordo com Baring, a turma se sentia estimulada e respondia bem por ter participado do processo. "Sem que ocorressem mudanças no prédio da escola, a solução veio com técnicas criativas", conclui o arquiteto.

Qual o impacto do som na saúde
Volume* Até 50 de 50 a 65 de 65 a 70 Acima de 70
Locais Rua sem tráfego Sala de aula onde o professor fala sem grita e os alunos ouvem quietos Pátio na hora do recreio Praça de alimentação de shopping centers; ruas muito movimentadas
Reação Confortável A pessoa fica em posição de alerta O organismo reage para se adaptar ao ambiente Perigo de estresse degenerativo e abalo da saúde mental
Efeitos Negativos Nenhum Cai a capacidade de concentração Sobe o nívle de cortisona no sangue, diminuindo a resistência imunológica; o cérebro libera endorfina, tornando o corpo dependente químico dessa proteína; a pressão arterial sobe por causa da liberação de adrenalina; aumenta o colesterol Risco de enfarte

Ilustração: Orlando Pedroso

Fonte: revistaescola.abril.com.br

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