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E Se Todos Tivessem o Segundo Grau?

Jantar com velhos amigos, muita risada e uma doce nostalgia. Moqueca de camarão, caldinho de feijão para rebater uma boa garrafa de vinho tinto Miolo. Sobremesa de goiabada cascão, "appelation controlée", de Ponte Nova. Previsivelmente, seguiu-se um sono tranquilo e feliz.

À mesa do café no dia seguinte, passo os olhos nas manchetes do jornal. Há as inevitáveis comemorações do quinto centenário do país. Há outra notícia que chama a atenção: virtualmente toda a população brasileira, ao escoar cinco século do descobrimento, já tem o segundo grau completo. Não duvido do resultado do último censo demográfico. Deve ser isso mesmo. Mas, e daí?

Que tanto isso adianta?

Encontro na mesa do café um bilhete da faxineira: havia recebido uma ligação de Buenos Aires, dizendo que minha reunião havia sido adiada e que, por favor, ligasse para acertar a nova data. Pelo visto, entendeu o sotaque portenho.

Quando levo a xícara à boca, toca a campainha. Vai esfriar a torrada, resmungo caminhando para a porta. É o pintor que vai fazer um orçamento para pintar alguns quartos.

Enquanto resolvo se jogo fora a torrada fria ou esquento de novo, o pintor puxa sua trena, caderno de notas e calculadora. Põe-se a trabalhar, medindo as paredes, calculando as áreas e somando tudo. Ao terminar, mostra-me a soma das superfícies a serem pintadas e o rendimento esperado de uma lata de galão. Sugere comprar duas latas, ficando a pequena sobra para retoques eventuais. Soma então o preço da mão de obra e entrega-me o orçamento por escrito. "Qualquer coisa, deixe recado no meu bip, aqui está o número no meu cartão".

Concordo e despacho o pintor, ficando já acertado o dia do início da obra.

Mas o destino não quis que minha torrada fosse comida quente. A torradeira entra em greve. Chamo o eletricista que por acaso estava saindo de casa e promete passar logo. Entra o eletricista com suas ferramentas, introduz um teste na base da tomada e sugere que a torradeira deve estar bem, foi o disjuntor que caiu.

Mas por que haverá caído? Alguma sobrecarga? Vai então somando os watts de consumo dos aparelhos ligados naquela linha.

Conclui que com aquela carga, é natural que caia um disjuntor de 15 amperes. Imagina que a cafeteira elétrica, com cara de nova, está sobrecarregando a linha. Puxa então um gabarito para medir a espessura do fio. Consulta uma tabela e conclui que sendo fio 12, pode aumentar o disjuntor para 20 amperes, sem risco de aquecimento excessivo. Pago a conta e vou fazer outra torrada. Obviamente, o café está frio.

Torrada quente e café frio tomados, passo pelo jornaleiro. Como já conhece meus gostos, vai logo dizendo: "Doutor, a última Popular Computing tem um artigo grande sobre computadores na educação. Entendi mais ou menos o inglês, é coisa que o senhor vai gostar". De fato, não resisto tentação.

Vou caminhando, impressionado com a competência do jornaleiro. Vendeu a revista cara. Mas logo topo com um antigo conhecido, entrando na farmácia. Alguém doente, pergunto? Responde-me que acaba de receber um email do seu caseiro de Correias, dizendo que a cadelinha está doente. Mas que não houvesse preocupação, os sintomas eram os mesmos que da outra vez. Já havia lido a bula do remédio velho e verificou a dosagem. Mas notou que o prazo estava vencido, pedindo que comprasse outro vidro e levasse no fim de semana.

Pouco adiante, sou agredido por um cheiro forte. De fato, quebrou o caminhão de lixo. Enquanto esperam pelo reboque, os lixeiros estão sentados no meio fio. Um deles faz palavras cruzadas e consigo ver que há outro lendo um livro sobre cultivo de tilápias.

Como meu comromisso é longe e não sei onde fica a rua, arrisco tomar um taxi. Confesso logo minha ignorância e espero a resposta típica: "também não sei, mas a gente vai perguntando". No entanto, o chofer puxa um guia da cidade e pede para esperar um momento. Acha a rua no índice, busca o mapa pelo número mencionado, a localização na quadrícula certa é imediata. Podemos ir, proclama com orgulho.

No rádio do taxi ouço um noticiário. A única notícia que me lembro foi alguma coisa sobre a favela da Rocinha. A associação de moradores reclamava que a instalação de fibra ótica estava demorando muito. Com 67% das casas "plugadas" no Internet, estava havendo congestionamento nas linhas analógicas.

No elevador, ouço o ascensorista perguntar ao colega se achava que seria melhor tirar sua poupança de um fundo de renda fixa e transferi-lo para um fundo de ações. Com a queda dos juros anunciada pelo Banco Central, disseram-lhe que o rendimento das obrigações ia cair. Fingi que não ouvi e desci no meu andar.

As seis, passo pelo mecânico para buscar meu carro. Surpresa! Está pronto, justinho no dia em que ele marcou no seu calendário. Explica-me que o computador de bordo registrou uma falha no medidor de pressão do óleo. Contudo, mostrou o último boletim de serviço da fábrica indicando que esta peça seria substituída gratuitamente, pois tem um defeito de fabricação.

Paro em um sinal da Avenida Atlântica e vejo um guarda de trânsito dando instruções a uma família japonesa que queria ir ao Maracanã. O inglês do guarda era sofrível, mas o do japonês não era melhor.

Pensando no jantar da véspera, decido passar no supermercado. Afinal, é preciso reabastecer a despensa. Uma família, visivelmente muito modesta, comprava os seus suprimentos da semana. Perguntava a filha: "Mamãe, podemos comprar um refrigerante? A mãe, com um ar meio triste dizia: "Seria bom, mas temos pouco dinheiro, a revista diz que primeiro temos que garantir as proteínas de vocês que estão crescendo. Vamos comprar arroz com feijão que é uma ótima combinação de proteínas. Refrigerante é pura água com açúcar. E além disso, faz mal aos dentes".

Começo a ouvir um alarme intermitente, procuro ver de que carro viria tão desagradável ruído. Neste momento, minha consciência se confunde. Não vejo mais o carro. Tudo está meio escuro, a cabeça pesada. Continuo procurando a buzina. Está do meu lado esquerdo, esfrego os olhos, vem da direção de um número vermelho que lentamente se revela: 7:00. É o despertador. Levanto e, pela milésima vez, não me lembro onde está o botão que silencia o maldito. Mas vai ficando claro que estava sonhando.

Enquanto espero o café, folheio o jornal. Manchetes sobre o quinto centenário. Há uma nota do MEC, falando dos progressos mostrados pelo último censo: pouco mais da metade da população completa o primário. Porém, estima-se que será preciso mais de meio século até que todos os brasileiros tenham o segundo grau completo.

Nisso entra a empregada: "Dotô, alguém ligou ontem e disse que era muito importante. Mas como não sei escrever, esqueci o nome e o telefone".

Minha raiva é atenuada pela fofura e aroma da broa de milho que ela acaba de fazer e chega quentinha à mesa. Começo então a entender meu sonho. A empregada nem pode ler a receita de uma broa de mandioca (estando portanto escravizada pelo que pode aprender vendo) e nem pode comunicar-se formalmente com o mundo. As habilidades para usar as mãos podem ser aprendidas com pouca ou nenhuma educação. Todos os casos que vivi no sonho se contrastam com o nosso mundo real onde aprende-se a parte manual da ocupação (dirigir, desmontar, dar paulada com o cassetete etc) mas isso é cada vez mais insuficiente para operar em um mundo moderno. Que pena que falta tanto para chegar ao mundo dos meus sonhos.


Claudio de Moura Castro

Educador, economista, presidente do Conselho Consultivo da Faculdade Pitágoras, autor de trinta e cinco livros e mais de trezentos artigos científicos, é articulista da revista "Veja" e membro do Conselho do Instituto Social Maria Telles (ISMART).

Fonte: Rede Pitágoras

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