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Mentira ou Fantasia?

Alunos de pré-escola vivem inventando histórias fantásticas — típicas da idade.Mas, se os maiores insistem em contar lorotas, é hora de uma boa conversa

Mentira ou Fantasia?

Você já pensou em como reagiria se fosse surpreendido por uma grande mentira contada por um aluno? O que faria se, na volta das férias, aquele garoto cuja família enfrenta dificuldades financeiras relatasse aventuras vividas em outro país sem que tivesse sido premiado em nenhum concurso? Espanto foi o que sentiu o professor de Artes Jorge Eduardo Oliveira, do Colégio Nossa Senhora das Neves, em Natal, ao ouvir a história contada por um estudante da 3ª série. "Ele disse que tinha ido à Disney e descreveu em detalhes passeios maravilhosos", lembra Oliveira. Tudo muito natural em uma turma formada por alunos de classe média alta — não fosse a dura realidade do menino em questão.

É preciso estar atento a situações como essa, comuns em sala de aula, e saber dar o peso certo a cada história. Na Educação Infantil, pode-se interpretar muitas das invenções mirabolantes dos pequenos como traços naturais do desenvolvimento humano. Cabe ao professor incentivar a fantasia nas brincadeiras e fazer valer a realidade nas tarefas diárias. Peso diferente, no entanto, deve ser dado aos casos de fantasia desenfreada, ou mentira, no Ensino Fundamental ou no Médio.

Fases de desenvolvimento

Afinal, quando uma história pode ser considerada mentira — ou engano propositado, como quer o dicionário Michaelis? Desde o nascimento, a criança passa por diferentes estágios de maturação física, intelectual e emocional e, assim como evolui da dependência total para a independência, vai aos poucos aprendendo a discriminar fantasia de realidade.

A fantasia, sonhos tecidos pela imaginação, é fundamental para o desenvolvimento. Logo, não deve desaparecer. Pelo contrário, é necessário que permaneça como um dos processos que nos mantêm em evolução constante. Mas, como diz Maria Irene Maluf, vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, ela deve gradativamente abrir espaço à noção de realidade. "É em cima da realidade que as pessoas elaboram o pensamento lógico — graças ao qual, por meio do aprendizado, conseguem incorporar a cultura e agir sobre ela."

A criança experimenta o mundo real quando brinca. Por volta dos 3 anos, diverte-se com os brinquedos e inventa histórias. Dominando melhor a linguagem falada e se apoderando de seus pensamentos, aos 4 anos passa a perceber que seu mundo interior lhe pertence e aprende a usar as palavras como brinquedos. Até por volta dos 5 anos, os pequenos não são capazes de diferenciar claramente um engano intencional dos resultantes de seu jogo de faz-de-conta. Só depois dos 6 anos é que adquirem aos poucos a capacidade de notar ou cometer um engano proposital, uma mentira. A partir daí, seu compromisso com a realidade vai aumentando. Portanto, se algum aluno, ao chegar à 3ª série do Ensino Fundamental, continua a mentir sistematicamente, está na hora de acender o sinal amarelo e tentar entender a razão das mentiras.

Os porquês da mentira

Quando alguém mente está revelando que algo dentro de si não está bem. Psicólogos relacionam a atitude à baixa auto-estima ou ao ímpeto de tirar vantagem. "Por trás da mentira há um apelo, uma defesa, um sintoma ou uma compulsão", explica a psicanalista Ruth Cohen, do Rio de Janeiro. A criança mente, de modo geral, para fugir de um castigo, porque se sente injustiçada, por achar que estão exigindo algo além de sua capacidade ou, pelo contrário, por estar querendo algo que, a seu ver, não merece. Aquelas que simulam situações inverídicas — como o garoto potiguar que garantiu ter ido à Disney — podem estar em busca de afirmação por meio de uma falsa capacidade.

Alguns estudantes, pressionados por desajustes familiares, apelos comerciais cada vez mais agressivos e mesmo por uma certa competição silenciosa estabelecida com os colegas, criam defesas e contam aos outros verdadeiras fábulas. Elas vão de resfriados fictícios para justificar uma tarefa em branco a carros potentes que os pais, na verdade, não possuem. "A orientação da família e da escola são fundamentais nesses casos", diz a terapeuta comportamental Maria Helena Izzo, de São Paulo. O importante, diz ela, é "cultivar um clima de confiança, amor e respeito que dê espaço à verdade, mesmo quando ela for desagradável".

De acordo com Maria Helena, família e escola não devem evitar fugir à responsabilidade de corrigir o mentiroso. No caso do garoto de Natal, o indicado seria uma conversa reservada, levando-o a admitir a inverdade. Ao mesmo tempo que a criança deve ser incentivada a assumir a responsabilidade por suas atitudes, seu trabalho e seus potenciais devem ser valorizados para que ela se afirme de maneira saudável perante os colegas.

Na opinião de psicólogos, o mentiroso compulsivo — que reinventa os acontecimentos o tempo todo — ou aqueles que adulteram dados, suprimem informações ou colocam em risco a integridade dos outros devem ser tratados por profissional especializado. Muitas vezes, nesses casos, ao hábito da mentira se aliam outros traços, como a frieza, o desrespeito e a agressividade.

No dia-a-dia, porém, o professor que conhece os estudantes tende a perceber quando eles se atrapalham por mentir. Um leve rubor, a gagueira, um persistente piscar de olhos, o desvio do olhar ou a fala apressada podem ser sinais dados pelo corpo do mentiroso. Mas, cuidado! Um aluno tímido, por exemplo, pode apresentar sintomas semelhantes justamente por ser vítima de uma acusação infundada. O bom senso diz que o melhor meio de chegar à verdade é, ainda, o exemplo e a conversa franca.

Fonte: www.novaescola.com.br

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