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O Pai de Todos Nós

No meu tempo, a gente o chamava de "pai dos burros", sem se dar conta de que burro era esse tempo, pois o dicionário sempre foi uma indispensável e esclarecedora companhia para qualquer homem inteligente. Mesmo nas redações de jornais de antigamente, ele era objeto raro: preferia-se perguntar discretamente ao vizinho "como se escreve perturbar?" do que passar a "vergonha" de ser apanhado em plena consulta a quem de fato sabe o que diz.

Se agora os dicionários viraram até motivo de disputa comercial, o fenômeno pode ser considerado um bom indício, sinal de inteligência dos leitores brasileiros, não de burrice. Temos deles pelo menos três monumentais exemplos: o "Aurélio", com mais de 20 anos de existência, o "Michaelis", que se atualizou depois de quinze anos, e o "Houaiss", o caçula, com mais ou menos a idade do novo século. Os três juntos já venderam cerca de 15 milhões de exemplares. É ou não é um bom indício cultural? A lexicógrafa Marina Baird Ferreira, viúva de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, acha que se os dois amigos estivessem vivos, Antonio Houaiss e seu marido, eles estariam satisfeitos com a saudável discussão para saber qual é o melhor entre os nossos excelentes dicionários.
O dicionário é um objeto lúdico que se presta a muita brincadeira. Como as palavras têm vida _ nascem, envelhecem e, ao contrário da gente, podem renascer, uma boa diversão intelectual é observar como elas crescem, se desenvolvem, desaparecem, voltam. Quando em 1992 Dodô Brandão estava filmando "3 Antônios & 1 Jobim", um documentário sobre Tom, Houaiss, Cândido e Callado, assisti a uma cena memorável.

Tanto quanto Houaiss, Tom adorava as palavras e freqüentava assiduamente os dicionários (orgulhava-se da coleção que tinha em português e inglês). Como se esperava, a conversa entre os quatro começou por etimologia, semântica, lexicografia, radicais de nomes etc. Foi quando o compositor resolveu contar a história de alguém que numa churrascaria (certamente ele mesmo) queria provar a origem da língua portuguesa. O relato foi um show hilário de erudição vocabular:

"E rodava mais um chope", Tom começou. "E cada um tinha que dizer uma palavra de origem árabe: álgebra, alfarrábio, alcachofra, alcaparra, alcova, almofada, alcaide, almoxarifado, almoço, armazém, agulha, algibeira, alface, alfafa... E o negócio ia correndo bem, o chope era muito, o cara não estava agüentando mais... E tome chope, tome chope, então ele disse: 'com licença, eu vou al banheiro'."

Houaiss ficou impressionado porque Tom não errou uma só palavra, e elas saíram sem hesitação. Aliás, foi nessa entrevista que o nosso erudito professor se definiu, a si e à obra que já vinha desenvolvendo e que era sua paixão: "Sou um operário da palavra, aquele que pega os tijolinhos e constrói o edifício, que se chama dicionário".

Além de edifício, o dicionário é também uma espécie de mapa vocabular do tempo. Pela posição de uma palavra num verbete, pelo espaço que ocupa, pelo destaque que recebe, pode-se deduzir como o mundo e as coisas mudaram. Possuo o último "Aurélio", o "Houaiss" e uma edição do "Michaelis", de 1987, bem antiguinha. Comparar como certos termos se comportam em um ou outro dicionário ajuda a entender a época.

Tome-se, por exemplo, uma das palavras que mais metem medo hoje, pois dá nome a um dos piores flagelos de nosso tempo: síndrome. No meu exemplar de 14 anos atrás, ela ocupava não mais que duas linhas: "Conjunto de sintomas que se apresentam numa doença e que a caracterizam". Era isso e não mais que isso.

Hoje, "Síndrome" ocupa 73 linhas no Aurélio e 97 no Houaiss. O mais sintomático não é nem a extensão, mas a variedade do conteúdo. Além da Síndrome de imunodeficiência adquirida (a Sida, como se diz em Portugal e na França, ou Aids, como é conhecida aqui e nos países anglo-saxões), aparece no "Houaiss" uma diversidade assustadora dessas patologias. Há mais de dez para atormentar o homem moderno: de Estocolmo, Down, angústia respiratória, Adams Stokes, pânico, adaptação, abstinência, menopausa.
Nessa categoria de palavras que metem medo, há ainda outras, como vírus, seqüela, overdose, tráfico, tsuname, maligno, vaca louca, que são também sinais do tempo. "Bala perdida", por exemplo, não aparece no "Aurélio", mas já é uma acepção no "Houaiss". Nas próxima edições, corre-se o risco de que a expressão seja incorporada como mais uma síndrome.

Zuenir Ventura

Jornalista e colunista da Revista Época, do Jornal O Globo e do site NoMínimo. Escritor, autor dos livros "1968, o ano que não terminou", "Cidade Partida", "Inveja", "Mal Secreto" e "Crônicas de Um Fim de Século". Professor aposentado da UERJ e ex-professor da Escola de Comunicação da UFRJ.

Fonte: Rede Pitágoras