No dia seguinte, às onze horas da manhã, sem almoço e sem esperança de encontrá-lo, Anselmo assumia o posto honroso de redator-chefe do Diário Ilustrado com um repórter, o Franco, e um contínuo, o Maia. O escritório era na rua da Uruguaiana, um sobrado novo, com duas janelas de frente, claro e arejado.
Anselmo, muito grave e sisudo, conferenciou com os proprietários da folha sobre o programa político que devia traçar no artigo de fundo e sobre as idéias financeiras que havia de propugnar. Quanto à política percebeu que os homens entendiam que a monarquia era o ideal, que o imperador era o único monarca decente do universo, que S. Cristóvão era a suprema corte, que a princesa era uma santa e o conde d'Eu, um sóbrio. Das idéias financeiras nada percebeu porque os homens falaram tanto em cambiais, em estoques, em avos e em outras coisas estranhas ao seu ouvido que ele saiu do gabinete tão alheio a tudo como se acabasse de conversar com dois japões. Todavia comprometeu-se, com muita gravidade, a promover a alta do café e a cimentar o trono com a lógica formidável da sua pena. Os proprietários saíram satisfeitos e Anselmo passou à sala da redação para distribuir o serviço. O Franco, de mãos nos bolsos, passeava pela sala, fumando. Anselmo chamou-o:
— Seu Franco, o senhor tem alguma coisa?
— Não tenho nada, disse o repórter continuando a passear. Estou fazendo horas para ir às secretarias.
— Quem vai à polícia?
— O moleque. O moleque era o Maia. Eu não tenho botas de sete léguas. Mande o moleque. Que custa? As notas estão prontas. Eu cá não vou.
— Mas vai às secretarias?
— Sim senhor, posso ir. E, à noite, aos teatros.
— E redige as notícias?
— Deus me livre! Não faltava mais nada! Por sessenta mil réis. Ora! Não redijo nada. Quem quiser que redija, eu não.
Anselmo exacerbou-se e, de pé, franzindo a fronte, com a espátula em punho:
— Mas afinal: que faz o senhor?
O Franco voltou-se.
— Que faço? Vou à secretaria do império, vou a secretaria da fazenda, vou à secretaria da justiça, vou à secretaria da guerra, vou à secretaria da marinha, vou à secretaria das obras públicas, vou à secretaria dos estrangeiros, vou à câmara municipal... ao diabo! E então? Pensa o senhor que sou de ferro? Isso não! Com o senhor Steel éramos dois, eu e o Reis; agora sou eu só para tudo... Isso não! Então paguem mais. Saio daqui estrompado para ganhar sessenta mil réis. Não está direito. Mande o moleque. Que fica ele fazendo aqui? É um vagabundo que passa os dias cochilando e chupando balas; que vá. Eu não vou, já disse, nem que me rachem.
Anselmo, mais calmo, resolveu entender-se com o Maia e chamou-o. O continuo era gago e, para dizer uma palavra, contorcia a face, escancelava a boca como em acesso epiléptico.
— Seu Maia, você sabe ir à policia?
— Se... e... e... i... e sim se... nho... o... o... or...
— Não sabe outra coisa, um bêbedo como esse, rosnou o Franco.
O Maia lançou-lhe um olhar feroz.
— Então dê um pulo até lá e veja se há alguma coisa.
— À noite, aconselhou o Franco. É melhor que ele vá à noite, porque traz tudo de uma vez.
— Eu vou... ô... vou sem... empre à noi... te, disse o Maia.
— Pois então à noite. Mas não se esqueça.
— Nã... o es... que ... e... ço nã... o... se... e... nhor.
— Pode ir.
O Maia retirou-se e o Franco, puxando uma cadeira, repoltreou-se diante da mesa de Anselmo.
— Então é o senhor só que vem fazer o jornal?
— Eu só.
— E agüenta?
— Não sei, vou ver.
— O senhor não agüenta. Olhe que esta folha come matéria que não é graça. A gente escreve, escreve, escreve e, quando pensa que tem muito, meu amigo, nem meia coluna. Vai ver. Sem um companheiro o senhor não faz nada.
— Quem sabe!
— Vai ver. Ah! Eu sei bem como se faz um jornal.
— Também eu.
— Pois não parece. O senhor arria... Se não chamar um companheiro não faz nada. Depois, meu amigo, quando a gente trabalha e vê cobre ainda vale a pena, mas aqui...?!
— Não pagam? — perguntou Anselmo sobressaltado.
— Ora! Uma ninharia. Eu ganho sessenta mil réis: e o senhor?
— Duzentos.
— Não é dinheiro.
— É pouco, concordo, mas, em todo o caso, já se vive.
— Qual! Um homem não vive decentemente no Rio de Janeiro com menos de quinhentos mil réis. Quanto pensa o senhor que eu gasto por mês? Pensa que eu vivo com esse cobre magro que levo daqui? Pois sim... Eu regulo gastar quatrocentos a quinhentos mil réis. Ah! Faço a minha feriazinha todas as noites: vou a um bico, vou a outro e pingando aqui, pingando ali, arranjo a minha feriazinha. Se eu só contasse com o jornal estava bem aviado.
— O senhor joga?
— Jogo, não por vício, por necessidade: sustento minha mãe e uma irmã. Só de casa pago quarenta mil réis e, com vinte hei de dar de comer a duas pessoas e roupa e calçado e botica, mais uma coisa, mais outra? Atirou uma cusparada por entre dentes, silvando. Faço a minha feriazinha e vou arranjando a vida. Não vale à pena ser jornalista no Brasil, não vale, repetiu meneando com a cabeça desoladamente. Gosto aí de uma moça, queria casar, mas tenho lá coragem de pedir a menina com essa bagatela? Eu, não! Quando casar quero que minha mulher apareça, não há de andar como muitas que conheço, isso não. Estou aqui esperando negócio melhor. Vim para a imprensa porque pensei que isto era outra coisa, mas logo que ache um empregozinho aí numa secretaria, musco-me. Fincou os cotovelos na mesa e, com as mãos no rosto: O senhor não se dá com o ministro do império?
— Não.
— Mas conhece alguém que seja boa cunha para ele?
— Não, não conheço.
— É o diabo! Se eu arranjasse um lugarzinho de amanuense... Não digo que deixasse a imprensa, não, porque, enfim, isto é uma cachaça. Podia, de vez em quando, escrever o meu folhetim, o meu sonetozinho... mas contando com o ordenado certo no fim do mês. Deixe lá! Não há como a gente ser empregado do governo. No fim do mês o cobre está cantando e isso é que serve.
— E o senhor escreve folhetins?
— Não sabia?
— Não.
— Escrevo; e faço versos. Tenho aqui um soneto, se quer. E meteu a mão no bolso fundo do casaco.
Tirou um papelucho amarelado, abriu-o lentamente, pigarreou e leu, com grandes gestos largos:
À CONSTANÇA
Constança morena tu és a aurora Do meu porvir magnânimo e sublime. Se o meu verso o meu amor exprime Eu deixo aqui o meu verso, senhora.
Ontem de tarde quando a carpidora Pomba rola, mais débil do que o vime, Cantava a sua balada, ai! eu senti-me Capaz de acompanhá-la pelos campos afora.
Porque a vida é dor, loura criança E eu choro tanto por ti que o meu peito Já está seco assim como o Saara.
Olha para mim, ó pálida Constança! Vê como estou por dentro todo desfeito Diz à minha dor duma vez: Ó dor, pára!
Dobrou o papelucho e, fitando Anselmo com ar triunfante, perguntou:
— Então, que tal?
— E o número de sílabas? E o conceito?
— Conceito! Para que isso?
— Pois não é uma charada novíssima?
O Franco bufou:
— Que charada! Trate sério. Pois eu vou lá fazer charadas à minha noiva, seu...? É um soneto e está muito bem feito. Não vejo por ai quem faça melhor. Agora, se não quer publicar é outro caso.
— Tem uns versos quebrados.
O repórter pôs-se de pé, como afrontado e, arrancando o soneto que havia descido ao bolso profundo, repetiu, com espanto:
— Versos quebrados... Onde?
— Leia lá.
E o Franco com ênfase, declamou:
Constança morena tu és a aurora
— Hum...
— Hum como? Então este verso está quebrado? Onde está a quebradura?
Constança morena tu és a aurora
— Vamos adiante.
Do meu porvir magnânimo e sublime
— Voltou-se intimativo:
— Também está quebrado?!
— Não, mas é imbecil. Porvir magnânimo e sublime é asneira.
— Asneira...! Ora tire o cavalo da chuva. Então eu não sei português! Asneira, porque...! Vamos ao dicionário. Ó Maia, que é do dicionário português? O Maia esticou o beiço e bateu com uma das mãos na outra. É, já foi para o sebo... Pois se houvesse aqui um dicionário eu mostrava.
Se o meu o verso o meu amor exprime
Diga que está também errado; e pôs-se a contar pelos dedos:
"S'o meu verso meu amor exprime..."
Ficou pensativo, depois disse:
— Tem nove, falta uma. Baixou os olhos, de repente, erguendo a cabeça, exclamou: Mas espere, há um que tem onze, tira-se-lhe uma e passa-se para este e fica tudo arranjado.
— E... disse Anselmo que já havia lançado o título do artigo de fundo, em letra caprichosa e esbelta: Caveat!
— Vai escrever o artigo?
— Sim, vou.
— Então eu vou dar um giro; posso apanhar alguma noticiazinha fresca. Olhe, hoje há uma primeira. O senhor vai?
— Vou.
— Eu posso ir, se quiser... e faço a notícia.
— Obrigado; eu vou.
O Franco foi debruçar-se à sacada e ficou a cantarolar. Por fim, resolvido, tomou o chapéu e saiu recitando:
Constança morena tu és a aurora Do meu porvir magnânimo e sublime
Anselmo dedicou-se de coração ao jornal. Morava na rua Marquês de Abrantes, numa pensão nobre, em companhia do Steel, o antigo redator do Diário. Levantava-se muito cedo, tomava o seu banho e descia para a cidade, sentando-se imediatamente à mesa de trabalho. Escrevia o artigo de fundo, a Boemia, romance au jour le jour, a crônica do dia, redigia o noticiário e todas as seções; corrigia as notas que o Maia trazia da polícia e ainda passava os olhos pelas notícias do Franco, cuja ortografia era das mais complicadas. À noite estava derreado. Mas com que prazer, na manhã seguinte, abria o jornal e revia o seu trabalho, emoldurando a gravura central que ele sempre acompanhava de algumas palavras explicativas.
Os proprietários, entretanto, não pareciam satisfeitos, porque o jornal não tinha venda e era um trabalho para o agente conseguir um anúncio. O Franco, sempre a protestar contra a miséria: -"que não havia talento possível com aquela pingadeira", aparecia, às vezes, à noite, resmungando, com a papelada numa confusão horrível e, acumulando as notas, monologava:
— Qual! Quando não se está de sorte é isto... O meu número! O meu número!... Se eu tivesse feito o meu jogo tinha estourado a banca. Mas é isso, quando não se está de sorte...
Depois o diabo daquele cabula a chorar, a chorar. Detinha-se, cravava os cotovelos na mesa, e, com as faces nas mãos, ficava olhando perdidamente: Três vezes! Parece incrível! E eu no pequeno! Pedaço de burro! É bem feito. Mas qual! Quando não se está de sorte é assim mesmo. Estão aqui as notas.
— Houve alguma coisa?
— 0 29...
— Foi preso? — perguntou Anselmo julgando que ele se referia ao idiota que escandalizava a rua do Ouvidor com os seus impropérios.
Mas o Franco amuou:
— Qual preso! Deu três vezes e eu no 8.
— Ah! Na roleta...?
— Sim, mas não jogo mais, nem uma ficha. A roleta é um jogo besta. Afinal qual é a ciência da roleta? Nenhuma, é só questão de sorte. Há três dias que não ganho um vintém, é só perder, perder. Vou dar com o basta!
— Foi às secretarias?
— Fui; pois não estão ai as notas? Não houve nada. Amanhã sim, há despacho.
— Bom, vamos trabalhar.
— Eu vou dar uma volta pelos teatros.
Saiu. Às dez horas o Maia ia ao Diário Oficial e à meia-noite, quando o paginador, saciado, declarava que o jornal estava pronto, Anselmo saía lentamente, tomava um copo de leite no Java e ia cochilando no bonde até a porta de casa e, às vezes, passando pelo quarto dó Steel, ouvia palavras sussurradas, risinhos, estrépitos de beijos e lembrava-se de Amélia com voluptuosa saudade, mas tanto que repousava a cabeça no travesseiro adormecia pesadamente como um cavador.
Apesar de todos os esforços, o jornal não lograva impor-se ao favor público e, quinze dias depois de haver Anselmo assumido á redação, os proprietários, vendo que o café continuava a baixar, zombando dos artigos violentíssimos do redator-chefe, resolveram "suspender a cesta", como disse, com muito pitoresco e muita resignação, o Franco, quando recebeu o saldo.
Voltaram os dias difíceis. Forçado a abandonar a casa da rua Marquês de Abrantes, onde se achava tão confortavelmente instalado e podendo dispor do magnífico guarda-roupa do Steel, que era janota e franco posto que, algumas vezes, franzisse o nariz encontrando na rua do Ouvidor as suas calças cobrindo as pernas magras do companheiro, Anselmo partiu à aventura como o moço Perceval, não à conquista do santíssimo cálice, mas em busca de um teto e de uma sopa que o resguardasse da intempérie e lhe saciasse a fome.
A boemia parecia haver emigrado — só o Neiva e o Lins apareciam. Ruy Vaz anunciava um romance. Havia também abandonado, não por gosto, o palacete das Laranjeiras, o amorável e penseroso arvoredo e os jantares pantagruélicos e vivia num sótão modesto com a sua musa e um cachimbo. Fortúnio também andava afastado. Bivar, com idéias científicas, ia, de quando em quando, dar uma vista de olhos ao anfiteatro e compunha poemetos. O Duarte, sempre apaixonado, contava a toda gente os seus infortúnios. O Moraes e o Artur laboravam. A Vida Moderna, em luta aberta com a Semana, saía aos sábados, tremenda, com a sua gravura pantafaçuda e os formidáveis artigos do poeta da Tarântula.
Estava travada a batalha, e, uma tarde, como se encontrassem dois grupos num botequim, correu copiosamente o caldo de cana que foi o hidromel do festim espiritual, e, diante dos burgueses aterrados, poetas de um e do outro partido recitaram, como em Wartburgo quando os bardos, tendo à frente o grande Wolfran, empenharam-se na grande luta lírica.
O Moraes, assomado, lembrava aos do seu bando o que deviam recitar e Fortúnio, com uma voz branda, disse uns versos repassados de melancolia, o Alberto respondeu-lhe com um soneto admirável. Moraes ergueu-se e os alexandrinos fortes da Guerra atroaram com o fragor de catapultas. Outro poeta bucólico veio trazendo por uma rechã, ao romper do dia, um carro de bois rangendo aos solavancos e Anselmo frenético, com os olhos despedindo raios, arregaçando as mangas do casaco, despejou sobre a mesa a sua cornucópia helênica e, de mistura com pastores que sopravam syrinx, saíram hoplitas e deuses, hetéros e pallakai, filósofos e poetas, Eschylo às voltas com Aristeu, Menandro de braço com a lúbrica Lycenion, Laís e Minerva, as bacantes e as coéforas, as eumenides e as tesmofórias e às cinco e meia da tarde, encharcados de caldo de cana, abalaram triunfalmente os daquele Parnaso onde havia um moinho de café e um homenzinho, corcunda como Thersito, que apregoava bilhetes de loteria.
A vitória ficou indecisa, mas o Moraes, querendo dar uma batalha decisiva, no número seguinte da Vida Moderna, atirou-se, com a fúria de um Ajax, sobre um dos grandes poetas do outro lado e desancou-o.
A resposta seria violenta se houvesse saído, mas o jornal contrário apareceu calmo, sem referir-se à questão, e os da Vida Moderna entoaram o péan da vitória.
Por esse tempo o Grêmio de Letras e Artes, que já havia conseguido reunir no seu seio oito sócios dispostos a tudo, anunciou a segunda sessão. À noite, onze letrados assinaram o livro de presença e o presidente declarou que ia dar começo aos trabalhos. Fez-se um grande silêncio e foi lida a ata da sessão anterior. Logo em seguida um poeta de Niterói, já avô, pediu a palavra e, desatando um grande embrulho, anunciou a leitura de um poema.
Um calafrio percorreu a sala. Vagarosamente, o relógio da Torre de S. Francisco bateu oito badaladas quando o venerável poeta disse, com uma voz circunspecta e o gesto sóbrio de quem vai tomar uma pitada: Canto primeiro...! Às dez e meia da noite, num silêncio fúnebre, o gênio, depois de haver engolido dois copos de água gelada, anunciou: Canto segundo. O Lins dormia profundamente; Duarte, recostado, fazia castelos; Moraes arrancava fios do bigode; o presidente estava sucumbido, um dos secretários havia abandonado a mesa e, ao fundo, o Teixeira, empoado de caspa como se tivesse sobre os ombros um arminho, passeava resmungando. À meia-noite a voz do poeta anunciou: Canto terceiro. Era demais!
O Neiva deu um salto feroz:
— Hem! Canto terceiro!? Não! Você está enganado.
O Moraes rugia e Fortúnio, muito calmo, estirou os braços bocejando.
— Vou-me embora! — disse o Moraes.
— Faltam apenas quatro cantos, explicou timidamente o poeta.
— Quatro cantos! — exclamou o Neiva. E o cavalheiro pensa que eu não tenho trabalho para ficar aqui até depois de amanhã às suas ordens? Ora, meu amigo.
— Mas eu estou com a palavra.
— O senhor está com a palavra e eu estou caindo de sono.
— Senhor presidente, decida: Os meus dignos consócios entendem que a hora vai muito avançada.
— A hora está correndo... para fugir do poema, disse Fortúnio.
E o poeta continuou:
— Peço a V. Exa. que me garanta a palavra para a sessão seguinte.
— Não apoiado! — exclamou o Neiva e outros bradaram:
— Não apoiado!
— Como não apoiado? É do regimento...
— Qual regimento. Para um caso como este só um regimento de polícia. Peço a palavra, Sr. Presidente.
Mas o presidente dormia e foi necessário que um dos secretários o sacudisse para que ele desse atenção ao Neiva que gesticulava, trepado em uma cadeira.
— Tem a palavra o Sr. Francisco Neiva.
— Sr. Presidente, peço a V. Exa. que suspenda a sessão. É mais de meia-noite, as nossas famílias já devem estar alarmadas, e eu estou com fome. Não jantei ainda, saí da Ilha das Flores e vim logo para aqui. Mas se soubesse que havia uma cilada, palavra de honra: não me apanhavam.
— Cilada?!
— Pois não, Sr. Presidente: três cantos de um poema maior do que a paciência de um santo. É necessário que V. Exa. ponha cobro a tais escândalos. Se começam a fazer pilhéria como a de hoje, não dou nada pelo grêmio. Eu serei o primeiro a pedir demissão... Ah! Não há dúvida!
— Eu não sabia que os senhores não gostavam de versos.
— Perdão, gostamos de versos, mas detestamos essas coisas que o senhor fez com o propósito criminoso de destruir a obra do nosso esforço.
— Como?!
— Como!? Dando cabo da paciência dos sócios. Olhe, ali naquele quarto há dois dormindo a sono solto, aqui dormiram todos, menos eu porque queria ver até onde ia a sua coragem: foi até ao canto segundo e iria ao décimo se não protestássemos. Ora, meu amigo, ao menos por condescendência...
— Vá ser poeta assim para o diabo! — rosnou o Moraes.
— Meia resma de papel!
— Mas eu pedi licença.
— Pediu licença para ler um poema, mas não disse que era um absurdo, uma cacaria métrica.
— São alexandrinos.
— Alexandrões! Há versos ai que têm mais pés do que uma escolopendra. Senhor Presidente, meus senhores, boa noite!
Diante da disposição do Neiva o presidente suspendeu a sessão.
Para Fortúnio e Anselmo o Grêmio foi uma instituição providencial: não lhes deu glórias literárias, mas que sonos magníficos ali dormiram os dois! Certa noite, depois de uma tumultuosa sessão, como chovesse a cântaros, foram os dois entender-se com o Teixeira, chamado o "mar Cáspio", título alusivo à carambina que lhe caía da cabeça branqueando-lhe o casaco, para que lhes permitisse ficar em um dos quartos, que era chamado o arquivo e onde apenas havia jornais, um almanaque de Laemmert e uma Igta pequena a um canto. O Teixeira, que era o zelador do Grêmio, não o queria ver transformado em albergue noturno e resmungou. Mas os dois boêmios, com argumentos fortes e pondo-se logo à vontade, convenceram-no. O arquiteto saiu recomendando o maior cuidado e que não acendessem cigarros com os preciosos autógrafos que havia na pasta.
— Não há dúvida, Teixeira: dormiremos tranqüilamente e, se não houver um terremoto, hás de encontrar amanhã a casa como nola confias e Deus no céu levará ao teu ativo dois sonos repousados que vão dormir um poeta e um prosador.
— E de manhã, quando saírem, puxem a porta.
— Puxaremos a porta, Teixeira. Vai com Deus!
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Sós, com todo o gás da casa aceso, sentaram-se nas cadeiras dos "imortais" e Fortúnio, acendendo um cigarro, estirando as pernas, rompeu o silêncio.
— Ora muito bem. Já é alguma coisa a literatura: fornece hospedagem. Graças ao nosso talento temos uma casa para dormir. Verdade é que não há cama, mas também Roma não se fez em um dia. Contentemo-nos com o quarto, amanhã virá o resto.
— Mas, a propósito, onde vamos dormir...?
— No chão.
— Com este frio!?
— Temos ali jornais, podemos forrar o soalho com jornais.
— E para nos cobrirmos?
— O Jornal do Commercio é um magnífico lençol.
— Então vamos arranjar isso, porque eu estou a cair de sono.
— E eu também, disse Fortúnio: passei ontem uma noite de cão.
— Onde?
— Na praia de Botafogo.
— Em casa de quem?
— Numa estação de policia.
— Foste dormir em uma estação!?
— Fui, não: levaram-me.
— Por quê? Que fizeste?
— Eu? Nada, mas o Duarte é louco. Era uma hora da madrugada, íamos os dois pela rua de S. Clemente, quando o Duarte viu uma barrica abandonada. Quis fazer de Diógenes e pôs-se a rolar a barrica e teria ido com ela ao Jardim Botânico se um soldado não lhe embargasse o passo. Nós, para dizer a verdade, não estávamos muito direitos e começamos a discutir com a polícia e o resultado da discussão foi o homem zangar-se ameaçando-nos com o rifle. Diante da atitude bravia do permanente, Duarte, que não é mole, espalhou-se e atirou tal cabeçada que o soldado virou de pernas para o ar e nos... é por aqui! Mas o homem levantou-se e, apitando, lançou-se desesperadamente atrás de nós e, quando íamos tomando um bonde que passava, fomos agarrados. Ah! Meu amigo, que noite! Na estação protestei, quis resistir, mas havia tantas espingardas... Quando me pediram o nome tive uma esperança e disse com arrogância:
— Fortúnio, jornalista. Mas o cabo rosnou: "Hum! É a mania de todos... Já apareceu aqui um que disse que era Fagundes Varella, outro que era o barão de Cotegipe e estava numa mona que não se lambia. Pois sim... Meta os homens no xadrez!" E lá fomos de cambulhada. Vociferei, jurei vingar-me, agarrei-me às grades, mas tive que resignar-me e fiquei com o Duarte entre uma negra bêbeda e um italiano feroz, que rangia os dentes e jurava por todas as madonas do Paraíso. Noite medonha! Às três horas entrou um sujeito que fora encontrado tentando arrombar um quiosque. Que lamúria! Esse não esteve calado um segundo. "Aí está, um homem vai com o seu dinheiro procurar alguma coisa para comer e vem um camarada dizendo que a gente está arrombando o quiosque... Eu, ladrão! Seja tudo pelo amor de Deus! Ai! Ai! E ainda por cima trazem a gente para um chiqueiro destes, cheio de pulgas... Isto até faz mal. É por estas e outras que há tanta febre amarela no Rio de Janeiro, pois não limpam o xadrez como é que a gente há de ter saúde? Um homem sai daqui direitinho para o Caju. Ai! Não é pela prisão... Quantos homens importantes têm sido presos? O Tasso... E o Tasso era um poeta supimpa! Eu só me zango porque me tomaram por gatuno. Há muita injustiça neste mundo de Deus! Um homem velho, doente, arrombando quiosques..." Depois implicou com o italiano que, cochilando, caía sobre ele: "Chega pra lá, mussiú..." E, de uma vez, atirou tamanho murro repelindo o dorminhoco que, se um soldado não acudisse, teria havido uma cena terrível, talvez sangue. Por fim, cansado, adormeci. Mas de manhã, quando tivemos de subir à presença do delegado, entre praças, no rol dos vagabundos, pela praia de Botafogo... Ah! Anselmo, quase morri de vergonha. Bondes passando, gente conhecida... Um horror! felizmente o subdelegado conhecia o Duarte, depois de muitos conselhos, mandou-nos em liberdade, mas eu fiquei sem quinze mil réis que levava.
— Furtaram-te?
— O escrivão pediu-mos sob promessa de liberdade. Estou morto.
— Vamos dormir.
Estenderam os jornais, um ficou com o almanaque de Laemmert e, cobrindo-se com as largas folhas do Jornal do Commercio, adormeceram profundamente sobre a imprensa da capital.
Acordaram com o rumor das carroças que desciam a rua, aos trancos. Fortúnio estirou os braços preguiçosamente e saiu em exploração pela casa, com esperança de encontrar um banheiro; mas apenas existia uma bica avara e os dois resignaram-se a uma fusão ligeira, dizendo Anselmo, com mau humor, sacudindo a água do rosto, como quem sacode o suor:
— Bem se vê que esta casa foi construída pelo Teixeira. O monstro é tão entranhadamente patriota que, apesar de viver no Brasil há trinta e cinco anos, ainda tem no corpo terra de Portugal. Vejam isto — um prédio, com pretensões a palácio, sem banheiro.
Voltando ao quarto rasgaram as camas e os lençóis e Anselmo teve curiosidade de ver o que havia na lata.
— Há ali alguma coisa, Fortúnio; vamos ver?
— Cuidado! Talvez sejam ossos de algum parente do Teixeira.
— Se forem ossos põe-se ali um epitáfio. Vou ver... E, sem mais hesitar, abriu a lata, lançando aos ares uma exclamação ruidosa.
— Que é? Ouro?
— Roupa branca, meu amigo! Roupa branca: uma camisa, um par de meias, ceroulas e dois lenços... Ó maravilhoso achado! Eu devia hoje mudar o meu linho e foi Deus que me inspirou.
— Pois queres vestir a roupa do Teixeira, homem?!
— Certamente.
— Mas desapareces e vai ser um trabalho para eu encontrar-te. É uma loucura.
— Qual loucura! Antes de mais nada a limpeza. Bem vês que a minha camisa está ganhando uma cor neutra, porque não é branca nem cinzenta e esta é alva como a inocência. O diabo é a gola. Ora! Ao menos andarei folgado. E, atirando para um canto a camisa neutra, vestiu a do Teixeira que rescendia suavemente a erva de S. João. Mas a gola...! Se Anselmo baixava a cabeça ia-se-lhe o queixo pelo abismo, se a levantava aparecia-lhe metade do peito. "Mas o ar penetrava livremente... era como se estivesse nu..." — disse o boêmio arregaçando as mangas compridas. Valente pescoço, sim, senhor! Valente pescoço!
— Anselmo, tira essa camisa, está indecente.
— Qual indecente! Uma camisa que cheira como o mês de Maio. Ó inveja, bem te conheço.
E vestiu as ceroulas. Fortúnio não se conteve — desatou a rir vendo o companheiro naquelas amplas bombachas. As meias cobriam-lhe o pés e ainda sobraram, como etc., etc., duas pontas indefinidas.
— O pé do Teixeira vale bem os versos do Silva. As meias parecem folhetins... com o "continua". Tanto melhor: quando estiver suja uma metade calço o resto.
— Não são meias, são inteiras.
— Em compensação, os lenços são magníficos.
— Mas tu pretendes sair assim, Anselmo?
— Por que não?
— Estás hediondo.
— Mas limpo.
— Procura um espelho.
— Qual espelho! O meu espelho é a consciência. Vamos tomar café. Se eu desaparecer na camisa, puxa-me.
— Não olhes para baixo.
— Por quê?
— Por causa da gola: podes ter a vertigem do abismo.
— Descansa — olharei para diante.
Contendo o riso, Fortúnio saiu com o companheiro. Na rua várias pessoas olharam, com espanto, a imensa gola por onde o vento entrava uivando como por um túnel. Mas o boêmio, de cabeça alta, seguia para o Java, onde fez um almoço de assobio em companhia de Fortúnio.
Às duas horas estavam no Pascoal, discutindo a literatura do Norte, quando o Teixeira rompeu, fulo de ira:
— A minha roupa, senhor Fortúnio. Pois os senhores pedem-se o Grêmio, transformam-no em hospedaria e, ainda por cima, carregam a minha muda de roupa?
— Perdão, disse Fortúnio sisudo, eu não tenho a sua roupa.
— Eu não sei quem a tem, o caso é que ela desapareceu da lata. Então está com o outro.
Anselmo, que vira entrar o Teixeira, alteou a voz, falando dos russos, mas o arquiteto interrompeu-o:
— Minha roupa! Vendo a imensa camisa, reconheceu-a imediatamente e, de braços cruzados, meneando com a cabeça, exclamou: Ora, seu Anselmo... pois você!
— Que é?
— Que é! É a minha camisa que o senhor tem no corpo.
— É tua?
— De quem há de ser?
— Pois olha, não sabia.
— Ah! Não sabia? Pois saiba então. A camisa, as meias, as ceroulas, tudo que o senhor tem no corpo.
— Perdão: as calças são minhas, o colete, o casaco, a gravata, o chapéu, as botinas...
— Eu falo da roupa branca.
— Branca é um modo de dizer: amarela, porque está encardida. Tens uma lavadeira detestável.
— Não sei, vamos ao Grêmio porque eu preciso da roupa. Quem o alheio veste...
— No Grêmio o despe, concluiu o boêmio, e fleumaticamente: Mas eu não dispo.
— Como não despes? Então pretendes ficar com o que é meu? Achas que devo andar com um colarinho amarfanhado e você aí muito janota...
— Janota com esta gola? Ora seja tudo pelo amor de Deus! Teixeira, deixa-me com a roupa. Eu quero devolver-te lavada pela minha lavadeira, que é uma artista.
— Mas eu não quero! — rugiu o arquiteto.
Das outras mesas já olhavam curiosamente quando o Patrocínio e o Moraes decidiram intervir na questão, responsabilizando-se, o primeiro pela camisa e por um pé de meia; o segundo, pelas ceroulas e pelo outro pé de meia. E o Teixeira foi convidado para a mesa tomando furiosamente uma cajuada, enquanto o queixo de Anselmo aparecia e desaparecia no abismo do colarinho.
Quinze dias depois o Grêmio de Letras e Artes, esperança do Brasil literário, fechava as portas depois de renhida discussão, que ia degenerando em pugilato. Os ilustres fundadores do grande cenáculo saíram pesarosos e convencidos de que, entre homens de letras, não há espírito de associação.
— "Não coadunam, dizia o louro secretário, homens de talento não fazem liga, é escusado. Um poeta e um romancista podem engalfinhar-se, ligar-se é que não. Isso nunca!"
E durante um mês, aos jantares, não apareceu proposta alguma para fundação de clubes literários.
Fortúnio e Anselmo sentiram profundamente, porque perdiam uma casa magnífica, posto que o Teixeira, escarmentado, não quisesse mais permitir dormidas no santuário do espírito. Resignaram-se e atiraram-se ao mundo com coragem e fé.
Uma manhã, Anselmo rondava os cafés lançando olhares compridos, quando o Neiva apareceu esbaforido:
— Ó homem! Madrugaste?!
— Não dormi.
— Como, não dormiste?
— Não, passeei: fui a Botafogo a pé, fazer horas.
— Deves estar estafado.
— E louco por uma xícara de café.
— Vamos tomar. Entraram no lava e o Neiva, servindo-se de açúcar, disse de repente: Homem, queres uma impressão?
— Preferia um par de sapatos.
— Isso agora é difícil.
— Dize lá.
— Vem comigo a bordo. Vou receber a primeira leva de retirantes.
— Os cearenses?
— Sim.
— É hoje?
— É agora. O paquete está entrando.
— A que horas poderemos estar de volta?
— Às duas. Se queres, decide-te.
— Vou. O diabo é que perco a hora do almoço.
— Almoçaremos a bordo.
— Mas... haverá ainda alguma coisa? Um navio que vem do Ceará...
— Ó homem, avia-te!
— Vamos lá. Seguiram.
O Neiva, muito loquaz, pôs-se a falar dos patrícios que vinham nesse êxodo triste, tocados pela fome.
— Pobre gente! É o sertanejo da minha terra, é o rústico do meu campo cearense, é o caboclo serrano, é toda a população do grande centro flagelado. Vais ver que miséria. Deus não se compadece do meu Ceará. De vez em quando é isso — um sol tremendo que bebe toda a água dos rios, que seca todas as fontes, e começa o abandono da terra. Quem anuncia a calamidade é o gado arribando das várzeas adustas com o "choro" lamentoso que se ouve à distância como um prantear da natureza sacrificada. Parece que é a própria terra que geme e clama misericórdia. Depois é o homem que, vendo mirrar a sua roça e não encontrando gota de água no açude árido, fecha a porta da cabana e emigra. Oh! A retirada...! O gado vai caindo exausto pelos caminhos e os corvos baixam sobre os bois magros e acabam-nos a bicadas, devorando-os em vida. O homem, mais resistente, caminha afundando os pés na areia adusta, com a cabeça ao sol, cantando para suavizar a marcha dolorosa. E são velhos trôpegos que mal podem mudar um passo, mulheres, crianças e moças virgens, sertanejinhas formosas, abandonados, caminhando sem ver um oásis, através da esterilidade inclemente.
Se um pântano aparece ao longe, precipitam-se atropeladamente, ajoelham-se à beira d'água morta e bebem, arrancam a taboa e envenenam-se. Alguns morrem e ficam apodrecendo nos caminhos; outros, com desânimo, deixam-se cair à sombra escassa de uma árvore sem folhas e sucumbem à míngua ou devorados pelas onças. E quanta tristeza nas cantilenas! Este, lembra a sua casinha de palha, entre os milhos; aquele, fala, com saudade, da sua roça, do lugar em que nasceu, de onde saiu pela primeira vez, expulso pelo sol. E o clamor, que é assim que eu chamo ao canto dos retirantes, o hino magoado dos banidos, ecoa de quebrada em quebrada lamentavelmente.
Mas, meu velho, mais cruel que o sol é o coração do homem. Esses infelizes são explorados na sua miséria. A virgem, quando chega à primeira vila, aparece logo o libertino propondo um punhado de farinha a troco da sua pureza, e a desgraçada, que tem fome, entrega-se, às vezes, perto dos pais moribundos, diante dos pequeninos irmãos, que olham espavoridos.
— É infame!
— É uma miséria! Mas que queres? É assim. Eu queria que me mandassem dirigir o serviço no Ceará e eu que encontrasse um desses patifes! Arregalou os olhos e bufou colérico, com os punhos cerrados: Esganava-o, palavra de honra! Esganava-o! Vais ver a miséria.
Haviam chegado ao cais Pharoux. Catraieiros avançaram de chapéu na mão, oferecendo botes:
— É para o nacional? Temos ali a Maria Flora, patrão... Olha o Ventania... É para o francês? Quer um bote, patrão? Eu tenho toldo. Podemos ir à vela... E assediavam-nos, falavam ao mesmo tempo, disputando os dois rapazes. E o Neiva, muito calmo, sem lhes dar atenção, bradou diante do mar:
— Lá está ela! Ali vem! Irrompeu então contra os homens. Pois os senhores não me vêem embarcar aqui todos os dias? Não sabem que tenho lancha? Não me conhecem? E empertigado, ameaçando com a bengala: Enquanto eu não vier um dia disposto a fazer uma limpeza neste cais isto não endireita. Os catraieiros retiraram-se cabisbaixos e o Neiva, rugindo, acompanhou-os algum tempo com o olhar chispante. Depois voltou-se para o Castelo: Lá está o sinal do paquete. Vamos, está aí a lancha. E caminharam para o embarcadouro.
Como deviam entrar dois paquetes, já assinalados no Castelo, era grande o movimento de embarcações no mar — botes que iam à vela ou a remo, lanchas que partiam sulcando fundo as águas. A baía fulgurava toda em chispas, ao sol. Gaivotas circulavam no ar puro, grasnando. Os dois tomaram a lancha que logo se pós em marcha, demandando o navio que entrava, lento e negro, vagaroso, pesado.
— Pobre gente! — exclamou o Neiva com a mão em pala diante dos olhos encandeados. Parece que vem ali um pedaço da minha terra infeliz, o meu Ceará amado. Por que há de o Senhor causticar aquela bendita região dos palmares? É uma praga! Parece que o Ceará foi escolhido pelo sol para vítima. De tempos a tempos, bumba! Lá vem a seca e é isto que estás vendo — o Sertão a emigrar, a fugir diante do incêndio e da aridez.
O paquete avançava majestoso e a lancha ia passando entre um cruzador e um pontão quando sons agudos de corneta retiniram, depois apitos e um escaler foi baixando dos turcos sobre o mar onde começou a balouçar-se graciosamente.
— Belo navio, disse Anselmo.
— É a Guanabara.
— A minha carreira...
— O homem, pois gostas disso?
— Da marinha? Não estou ali a bordo porque meus pais entenderam que eu tinha vocação para médico. Fui mesmo à escola, mas no anfiteatro, diante do primeiro cadáver, o meu estômago protestou com tanta energia que resolvi abandonar o escalpelo e o esqueleto e atirei-me à balança e à espada. Ah! Meu amigo, o mar...! Não imaginas como adoro o oceano!
— Pois eu detesto-o.
— Enjoas?
— Não, a bordo devoro como um escrivão de cartório. Mas deixa lá! Não há como a terra firme: pisa-se em cheio. Isso de saber a gente que está à mercê do vento e da vaga não é comigo. Shakespeare já disse: pérfida como a onda e eu já me vi com água pela barba, em uma viagem.
— Naufragaste?
— Quase! Fomos sobre uma pedras e não te digo nada... que horror! Mas sabes o que mais pena me causou? Foi ver lançarem ao mar um precioso carregamento de conhaque... caixas sobre caixas. Eu quis protestar com uma objeção razoável. "Comandante, se continua a dar bebidas ao oceano então é que ele nos arranja alguma com a ressaca..." Mas o homem estava tão grave no seu posto de responsabilidade que retirei o conselho e meti-me no beliche chorando o desperdício. Nada como a terra firme, sempre há mais segurança. Em terra só naufragam empresas. Isso de ir um de nós para as areias alimentar as sardinhas não é nada sedutor. Não há como um homem sair da sua casa barbeado, vestido, em um caixão de primeira com os seus parentes e amigos para o cemitério. Sempre a gente sabe onde está... e pode ter a sua coroa no dia de finados.
— Ora, isso é uma preocupação fútil.
— Como preocupação fútil? Não acho. Eu é porque não tenho dinheiro; mas logo que arranje um cobrinho, compro quatorze palmos de terra em S. João Batista e mando edificar o meu mausoléu, tão certo como estarmos nesta lancha ronceira.
— Para que quatorze palmos?
— Porque eu conto com a família que há de querer morar comigo, mesmo algum amigo, terá casa às ordens.
— Pois eu preferia descer ao fundo do mar.
— Pois meu caro, se para lá fores não contes comigo para acompanhar-te o enterro. Ó patrão, esta lancha não anda. Parece que não saímos do mesmo lugar.
O paquete passava enorme, sereno. À proa uma multidão apinhava-se — homens, mulheres, crianças alongando olhares para a terra desconhecida.
O Neiva pôs-se de pé e, com o chapéu na mão, bradou:
— Salve, Ceará! E logo, visivelmente comovido, pôs-se a falar como se pudesse ser ouvido: Cearenses, está aqui o Neiva, vosso irmão, vosso patrício que vos veio esperar. O Neiva! E o paquete seguia para a bóia. A lancha partiu então, a toda a força, acompanhando-o e o Neiva, sempre de pé, bradava: Cearenses, aqui estou eu! Aqui estou eu!
— Vem cheio que nem um ovo, disse um dos homens da lancha.
— Gente feia! — exclamou outro.
— Feia, mas honrada, protestou o Neiva.
— Parece chim.
— Que chim?!
— É sim, seu Neiva.
— E eu? Eu tenho alguma coisa de chim?
— Vosmicê não.
— Pois eu sou cearense.
— Mas vosmicê não é arretirante, lá dos cafundós.
— Quais cafundós! Um homem daqueles vale por dez de vocês!
— Que esperança! Farinha seca não engorda. Aquilo é gente!? Barriga só.
— Pois sim. Vão lá vocês meter-se com um daqueles caboclos.
— Ora, seu Neiva! Era num tempo só... Tudo aquilo junto não dá para a brincadeira de cinco de nós.
A âncora mergulhava e a lancha avançou, manobrando atracar à escada de bombordo.
Subiram. O paquete estava literalmente tomado pelos retirantes. Era uma população que ali vinha apertada, constrangida, chorando o mesmo infortúnio. A proa úmida tresandava, redes cruzavam-se: umas estiradas, nas quais mulheres cadavéricas, macilentas, tostadas pelas grandes soalheiras dos campos largos, em mangas de camisa, com as aduelas dos peitos apontando, fumavam nostalgicamente, de olhos ao longe, perdidos num sonho. Velhos abaçanados, escaveirados, cabelos hirsutos, chapéu de coco à cabeça, a camisa de madapolão desabotoada, deixando ver os bentinhos e os amuletos pendurados do pescoço, com as mãos cruzadas nos joelhos, não se moviam como se não houvessem chegado ao termo da viagem. Rapagões sacudidos, faca à cinta, na bainha de couro, falavam em ritmo dolente de canto, num tom interrogativo. Mocinhas púberes, de olhos lindos, tez macia e rosada, cabelos de um negro de azeviche, mal levantavam as pálpebras timidamente, acotovelando-se. Crianças nuas, ventrudas como gnomos, reboleavam-se no chão; pequenitos de mama dormiam em esteiras, ao sol, nus, as mãozinhas na boca.
A um canto, sobre um rolo de cabos, um velho cego cantarolava e uma robusta rapariga cor de azeitona, de lábios grossos e sensuais, muito dengosa, fazia crivo com a almofada ao colo.
Havia um rumor indistinto: eram risadas, cantilenas, suspiros, gritos, choros, pragas. Uma viola gemia escondida. Mas dominava o grande zumbido da colméia a grasnada ruidosa dos papagaios que os retirantes traziam como lembrança da terra.
O Neiva ia de um a outro grupo, falava, interrogava, querendo saber de onde eram, se haviam sofrido muito, se a seca ainda era grande e os infelizes, como se logo, à primeira vista, houvessem nele reconhecido um patrício, uma vítima, talvez, do mesmo flagelo, cercavam-no com simpatia e confiança. Os que estavam longe avizinhavam-se de chapéu na mão, respeitosamente, narrando as suas desgraças. O Neiva afagava as crianças, animava os moços e as raparigas:
— Vocês aqui estão muito bem: a terra é boa, a gente é boa, ganha-se muito dinheiro. Depois, é o mesmo Brasil. Vocês não são brasileiros?
Um velho, com uma longa camisa que lhe descia aos joelhos por cima das calças, acenou com o dedo negativamente:
— Nhôr não.
— Como! Então você não é brasileiro, velho?
— Cearense té morrê! — disse atirando uma cusparada por entre os dentes.
— Então o Ceará não é uma província do Brasil, velho?
— Iche! Ceará é dele só... té morrê. E foi-se resmungando convencidamente. Té morrê.
O Neiva rompeu a rir e perguntou:
— Até morrer, hem?
— E o velho, de longe, sacudiu a cabeça, repetiu:
— Té morrê!
Uma mocinha mais desembaraçada interrogou o boêmio:
— Mecê é nortista?
— Cearense! Cearense da gema.
— Logo vi! Só gente do norte é que fala ansim.
O velho, como se houvesse sido interrogado, resmungou novo: Té morrê!
— Lá está ele.
Um caboclo pôs-se a assobiar uma cantilena de vaqueiro. Com que melancolia o infeliz ia rememorando o tempo feliz na terra natal: a cavalo campina fora, a vara de ferrão em punho, tocando os marroás atrevidos.
— Eh! Patrício...! Você era vaqueiro?
O caboclo acenou com a cabeça que sim, e continuou a assobiar. Anselmo apartou-se querendo ver miudamente aquele quadro sinistro de miséria. O navio lembrava a jangada da Medusa: os homens, com raras exceções, tinham fisionomias espectrais, como se viessem de urna longa tortura. Junto à amurada descobriu uma velhinha encarquilhada, encolhida nos andrajos, o cachimbo nos beiços, olhando a fito. Parecia uma bruxa em evocação.
— E! Velha! A megera meneou com a cabeça tristemente, como se o saudasse. Você veio só, minha velha? Ela acenou negativamente. Veio com seu marido? Ela riu num pincho... Com seu filho?
— Muié... disse ela.
— Sua filha?
— Hen-hen.
— Que é dela?
— No má... eles botaram no má.
— Morreu?
— Hen-hen...
— De que, velha?
Encolheu os ombros e repetiu:
— Botaram no ma.
— E você não tem mais parentes aqui?
— Nhôr não.
— Nem conhecidos?
— Nhôr não.
— Está só?
— Nhôr sim.
— Como te chamas?
— Maria Nazareth.
— De onde és?
— De Sobrá.
— Que idade, velha?
— Não sei... não sei mais. Oie, idade tá aqui, moço. E puxou uma falripa branca.
Adiante estava um pequenote de pernas finas, quase nu, com um cachimbo nos beiços e uma mulher nova, sentada na rede, com o peito descoberto, amamentava um monstrengo encarquilhado.
Deslizando sobre a lama escorregadia que, em espessa camada, empastava o navio, Anselmo foi seguindo lentamente, detendo-se diante dos grupos, a olhar, a interrogar.
Junto à amurada uma família olhava a cidade, ao longe, muito branca, reverberando ao sol com o casario acumulado, as torres agudas das igrejas hirtas como que espetando o céu e o fundo de montanhas em recortes irregulares, sob uma pulverização de ouro. Como que vinha na brisa o grande rumor da vida agitadíssima daquele pandemônio, misterioso para os sertanejos que chegavam dos campos e das serras, tendo deixado a grande e rude natureza agreste.
No mar também era incessante o movimento de botes e de lanchas. Faluas corriam a todo o pano, outras passavam arrastadas pelos rebocadores. Um grande transatlântico saia partindo o mar, deixando um fundo sulco nas águas lisas, que logo inchavam em ondas, nas quais subiam e baixavam os leves botes mercantes. Os couraçados, quietos como ilhas, pareciam embandeirados: era a roupa da maruja que secava à proa, e as grandes barcas como casas errantes, cruzavam-se serenas em caminho para Niterói e outras para a Corte. E eram silvos e uivos e dos botes que atracavam ao paquete subia gente ansiosa. Um empregado da Alfândega, de boné, falava ao comandante e um velha mulher, que entrara com grande espalhafato, ia e vinha atordoada, fazendo momos de nojo, a olhar de esguelha os miseráveis que recordavam a terra, abandonada.
Terra simples, mas bem mais formosa para eles do que a grande cidade que aparecia além alvadia, luminosa, de uma grandeza imponente.
Anselmo deteve-se junto da família rústica e um velho, tipo patriarcal, fisionomia bíblica, longa barba a descer-lhe do rosto macilento ao peito côncavo, dando com ele, sorriu, fazendo um leve aceno de cabeça:
— Deus salve a vosmicê. Que coisa é aquela ali, moço? Aquilo no meio das casas que parece um ovo, mal comparando.
— É a Candelária.
— Cumu é, mái? — perguntou curiosamente, com os olhinhos muito vivos, uma rapariguinha já púbere, dirigindo-se à velha cabocla que, de cotovelos fincados na amurada, o rosto nas mãos, olhava perdidamente.
— Eu sei, muié...
— O moço está falando.
— Apois... E continuou na mesma posição contemplativa.
— É uma igreja, explicou Anselmo.
— Ahn...
— Igreja? — perguntou a rapariga.
— Sim.
— É igreja, mãi.
— É sua filha? — perguntou Anselmo.
— Nhôr sim, esses todos; e unzinho ficou lá. E os olhos da filha elevaram-se para o céu, como se o pequenino filho perdido lá andasse pela altura azul.
Cantavam perto uma cantilena melancólica. Ó noites serenas luar do Norte, ó ameníssimos serões nas serras, ó descantes varandas, enquanto o gado recolhido muge! Que saudade! uma voz atroou:
— Vamos, gente! Nada de choro! Isto aqui é a nossa terra, somos todos irmãos. Toca a embarcar. Vivo! Vivo! Anda, velho! Vocês nem parecem do Ceará, terra de jangadeiros. Onde se viu um cearense ter medo do mar? Vamos! Vamos! Era o Neiva.
O boêmio guiava como pastor o grande e infeliz rebanho humano. Já haviam chegado os batelões que deviam transportar a leva para a ilha das Flores. Os rebocadores faziam ruído espadanando, e a negralhada chacoteava dos batelões, rindo da pobre gente que descia aos rebolões pela escada oscilante do navio, apinhando-se nos transportes, como animais. As mulheres, sobraçando trouxas, resingavam dando safanões nas crianças que seguiam receosamente, quase de rastos. Os homens levavam as cargas: canastras, cofos, redes enroladas, gaiolas de pássaros, a viola. E todos falavam, gritavam uns pelos outros, procuravam-se com ânsia. Às vezes, do meio da escada, tornavam ao navio, gritando:
— Mariazinha! Eh, muié... caminha! E lá iam a correr precipitadamente, e o Neiva sempre a animá-los:
— Vamos! Vamos! O outro tem de atracar. Vivo com isso. Nada de choros; ninguém vai morrer. Vamos! E o rebanho infeliz descia chapinhando na lama do convés, onde havia detritos imundos, trapos, cascas de frutas e trouxas sórdidas. Vamos! Não há tempo.
Por fim o batelão cheio, entupido de gente, tão sobrecarregado que as bordas iam quase rentes de água, começou a mover-se lentamente, arrastado por um rebocador e do meio sinistro daquele povo, que o sol inclemente havia banido da terra natal, como de um só peito, foi subindo, dolentemente, uma cantiga sertaneja. E o batelão seguia. Os de bordo acompanhavam-no com os olhos entristecidos. E o canto magoado foi crescendo, tornando-se mais forte, mais forte, enchendo os ares, e, sob o azul do céu, na mansidão daquelas águas lisas, por muito tempo não se ouviu outro ruído. Os próprios catraieiros indiferentes calaram-se escutando, com piedoso interesse, a canção do êxodo, hino triste do campo abandonado, lírica suave da terra que além ficara, canto do monte e do campo, doce e rústica poesia que lembrava o para sempre perdido, a doce província das palmas verdes, dos verdes mares, inclemente e sempre amada.
E lá ia, já longe, o batelão, o canto, porém, parecia estar ali perto, dentro do navio... e estava! Porque os que haviam ficado, esperando que atracasse o outro batelão, filhos da mesma terra, vítimas da mesma dor, repetiam, como em eco, a mesma cantilena.
Ah! Seu Anselmo!... — disse apenas o Neiva com a voz presa e os olhos arrasados de água.