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A conquista

Coelho Neto

Capítulo XXIII

A idéia da abolição ia ganhando terreno: a palavra "escravocrata" tornou-se um labéu, até fazendeiros faziam garbo em dizer-se abolicionistas e, quase diariamente, chegavam cartas do interior e notícias que eram publicadas nos jornais, precedidas de comentários lisonjeiros anunciando que fulano ou beltrano libertara todos os seus escravos, conservando-os na fazenda como colonos.

Com a partida do imperador para a Europa, começando a regência da princesa Isabel, logo correu que o monarca, compreendendo que a idéia republicana começava a impor-se, ameaçadora e forte, deixara a filha no poder com instruções para que assinasse o decreto que o povo, do Norte ao Sul, reclamava, julgando que, assim, criando uma corrente simpática, manteria a dinastia ameaçada pela temerária propaganda republicana que tinha em Silva Jardim o principal campeão.

Aos domingos o povo enchia o "Recreio", onde os mais ardentes abolicionistas iam protestar do palco e dos camarotes em discursos inflamados contra o cativeiro reclamando, com ameaças ao trono, a abolição imediata e incondicional.

Patrocínio, com a sua palavra, fogosa, em reptos de eloqüência, fazia a descrição da vida infeliz dos escravos. "Nos verdes pastos ubérrimos andavam as ovelhas com as suas crias, as mães negras entanto, eram separadas dos filhos, que ficavam vagindo no fundo das senzalas enquanto as miserandas, com os peitos pojados e os olhos inundados de lágrimas, ao sol inclemente, zurzidas pelo vergalho do feitor, iam capinando as ruas dos cafezais. O esposo negro sofria calado todas as injúrias, até a desonra. Alguns, mais violentos, arremetiam armados caindo sobre os miseráveis que os infamavam e, ensangüentados, fugiam para as brenhas, onde levavam vida selvagem, de feras, encurralados em cavernas; outros buscavam a morte e, as vezes, quando as turmas seguiam para o serviço, estacavam perto de uma árvore de onde pendia, oscilante, o corpo de um parceiro.

Nos 'troncos' gemiam vítimas; e muitos caminhavam arrastando algemas pesadas e, com gargalheiras, como galés, trabalhavam pela frutificação, fecundando a terra que iam regando com suor e lágrimas."

Quantas vezes era a palavra flamejante do tribuno cortada pelos apartes dos secretas, que se metiam entre o povo para perturbar o propagandista com assuadas e ameaças. Quase sempre, porém, eram repelidos à bengala, à pedra, às vezes à bala, abandonando o teatro diante da fúria da multidão e o orador, serenando o tumulto, continuava, anunciando para muito breve "a grande misericórdia".

Todos os moços acompanhavam-no: Octavio Bivar, Luiz Moraes, Fortúnio, Neiva, Ruy Vaz, Anselmo e Pardal que chegara do Recife com dois romances, uma gravata sangüínea, idéias explosivas e a carta de bacharel.

Era um tipo romântico de mosqueteiro, um d'Artagnan de olhos azuis, pele branca e macia, mãos delgadas, cabelos louros, violentamente atirados para trás, bigodes impertinentes, espichados em duas pontas finas, compridas e rijas e a mosca que ele retorcia amiúde, rindo sarcasticamente, em rinchavelhada irresistível, riso percuciente, satírico que valia por uma vaia quando irrompia da platéia ou do fundo de um camarote.

Era ousado e, como brandia a bengala nodosa, esgrimindo, tinham-no por espadachim, um cavaleiro de Eon, e temiam-no.

Era um anjo, dizia o Neiva: — O Pardal anda a provocar duelos e quer sangue, quer devastação, tem fome de fígados humanos, pois mostrem-lhe aí um velho enfermo ou uma criancinha com frio e hão de ver como se desfaz em lágrimas. É até capaz de empenhar os bigodes.

Pardal não ia às conferências sem o seu revólver e uma faca na cava do colete. Todos falavam, o povo já os conhecia: eram os discípulos do Messias da raça negra.

Entre os artistas a idéia tinha fanáticos. Os Bernadelli eram dos mais entusiastas. No teatro: Dias Braga, Vasques, Guilherme de Aguiar, Arêas, Galvão, Peixoto, Mattos, Eugênio de Magalhães, Maia, Ferreira, André, Castro, Suzana, Oudin, Balbina, Clélia. Entre os músicos Pereira da Costa, Miguez, Tavares, Nascimento, a doce Luíza Regadas, alma meiga, o rouxinol da propaganda e Francisca Gonzaga, a maestrina.

O Amazonas já se havia libertado. Não se contava mais um escravo nas margens do rio-mar e o Ceará, seguindo o exemplo da sua irmã do Norte, concluiu, num dia, a obra intrépida dos jangadeiros, iniciada nas águas pelo valoroso caboclo Nascimento.

Na serra paulista, entre as grandes árvores, crescia o quilombo de Jabaguara, engrossado diariamente por bandos foragidos que chegavam dos mais longínquos municípios da terra dos Andradas.

Era impossível sustar a marcha triunfante da idéia que vencera as represas. A tropa confraternizava com o povo e, nas duas câmaras, era grande a maioria dos abolicionistas a cuja frente destacava-se, como a de um Apolo, a válida e simpática figura de Joaquim Nabuco.

Patrocínio, desligando-se, com saudade, da Gazeta da Tarde, havia fundado a Cidade do Rio chamando Anselmo, que andava em disponibilidade, sem casa e sem botinas, escrevendo contos e fantasias à mesa dos cafés, jantando, nem sempre, parcamente, na rua Nova do Ouvidor, onde, de quando em quando, havia lautos banquetes, com discursos, a 500 réis por boca, duas moringas de água inclusive.

Esse hotel módico e discreto, pelos grandes e inolvidáveis serviços que prestou à literatura, às Artes e ainda ao funcionalismo, merece menção especial e honrosa.

Dava almoços e jantares a quinhentos réis. Mas que almoços! E que jantares! O primeiro prato era: um começo; o segundo: uma continuação; o terceiro: um último. Enquanto os Ugolinos devoravam ouviam os caixeiros que, em mangas de camisa, vociferavam: "Dois começos...! Olha três últimos...! Duas continuacões...!" Não eram abundantes os pratos nem saborosos, mas nutriam, e tanto bastava. Como havia um gabinete reservado eram ali realizados, de tempos a tempos, suntuosos festins.

Em certa ocasião, sendo a fortuna do grupo limitada e havendo-se um dos convivas excedido em libações, Fortúnio lembrou-se de substituir com água da Carioca a quantidade de outra água que havia sido ingerida; mas o caixeiro, dando pela fraude, protestou e exigiu o que não havia, porque todos os poetas juntos não valiam 220 réis. Houve larga discussão e uma bengala ficou como refém nas mãos do hoteleiro, representando um extraordinário de seis cálices. Ruy Vaz, que não se podia habituar com aquela casa sórdida, freqüentada pelo que havia de pior na cidade, rejeitava os convites que lhe faziam os companheiros.

— Não, ao Quinhentão não vou. É detestável, repugnante, cheira à graxa. Depois aqueles caixeiros irritam-me os nervos — de tamancos, imundos, sempre a bradarem continuações, como folhetins encarnados. Prefiro ficar in albis. A mesa para mim não é apenas o comedouro, deve ter algum encanto aprazível à vista. Os olhos também comem, comem os ouvidos, o nariz come e o tato igualmente. Não dispenso a baixela, os cristais, as flores e gosto de sentir nos dedos uma toalha lustrosa e um guardanapo liso... O guardanapo ali tem a cor de um esfregão, a toalha parece um pano de açougue; as moscas vêm comer com a gente à mesa e, às vezes, com tanta gana, que nos entram pela boca, e lá ficam.

— Oh! Não é tanto assim, Ruy Vaz!

— Como não é tanto assim? Aquilo é horroroso!

— Como sabes?

— Por informações. Um amigo meu, que ali jantou, comeu tais imundícies que, no dia seguinte, teve de ir ao escritório de um médico lavar o estômago com sabão.

— As feijoadas são excelentes, Ruy Vaz. Já uma vez comi chispes maravilhosos!

— Eram pés de algum dos caixeiros.

— Ora... hás de lá ir comigo.

— Eu?

— Tu, sim.

— Estás enganado.

— Pois eu vou todos os dias.

— Tu? — perguntou Ruy Vaz com espanto.

— Então?

— A que horas almoças?

— Às dez.

— Ah... — fez o romancista. Pois só te digo que é uma imundície. Prefiro a fome.

— Pois eu não.

Uma manhã, como de costume, entrou Anselmo no Quinhentão. Às mesas os fregueses habituais devoravam: caixeiros de casas vizinhas, em mangas de camisa, sem gravata, mastigando com fúria, operários, estudantes. Ouvia-se o rechino das frigideiras e as moscas voejavam pousando em enxames, nas toalhas, no chão, e atirando-se à boca dos que comiam, como abelhas que investissem a aivados.

Anselmo, para não ser visto da rua, procurava sempre uma das mesas do fundo e, dando as costas à porta, empanturrava-se, ouvindo as chalaças dos caixeiros e as estrondosas gargalhadas do dono da casa, tipo acabado de Sileno, ventrudo, com uma papada roxa que se lhe derramava pelo colarinho, dando uma impressão de sórdida fartura. Quando ria toda a casa atroava. Anselmo ia sentar-se quando, olhando para um dos ângulos, rompeu a rir vendo Ruy Vaz inclinado, a devorar, com grande convicção e apetite, um último, que era o clássico bifezinho tênue, com três batatinhas mirradas. Caminhou e, diante da mesa do romancista, cruzando os braços, perguntou:

— Que é isto? Tu? Ruy Vaz levantou a cabeça e, dando com o companheiro, sorriu sem vexame. Então, sempre te resolveste?

— Ah! Meu amigo, eu faço tudo pela Arte. Senta-te. Vens almoçar?

— Sim, venho.

— Pois aqui estou. Decididamente não se pode amar a Verdade. Se o público soubesse quanto custa ser naturalista pagava os meus romances a peso de ouro. Vou às estalagens apanhar em flagrante a grande vida de tais colméias e, para que a gente não se perturbe com a minha presença, visto-me de carregador, meto-me em tamancos. Subo às pedreiras, penetro, com risco de vida, as reles tavolagens, passo horas e horas entre a gente tremenda dos trapiches, converso com catraieiros e, finalmente, venho comer nesta baiúca, como vês.

— Mas, então, não foi por fome?

— Qual fome! Eu podia ter ido almoçar ao Globo, mas ando acompanhando um tipo.

— E onde está ele?

— Comeu e saiu. Para que não desconfiasse, porque ele já deve ter notado que o sigo, pedi um almoço e pus-me a comer... maquinalmente.

— Quiseste também fazer um estudo do bife que aqui se dá?

— Homem, não estás muito longe da verdade. E queres que te diga? Não é tão mau como eu imaginava. É pequeno, uma amostra, mas passa. Tenho comido piores em hotéis de primeira ordem.

— As aparências iludem.

— Estou convencido. Vou agora provar o chá. Que tal?

— Hediondo e tóxico!

— Já agora... E, chamando o caixeiro com superioridade: Arranja-me um chá, com pão quente.

— Pão quente é extraordinário.

Ruy Vaz pasmou e, depois de encarar o caixeiro, que se pôs a torcer a toalha imunda:

— Extraordinário, hem!? Extraordinário és tu! E pão frio...?

— Ah! Pão ao natural?

— Ao natural?! Que diabo é pão ao natural?

— É pão que não vai ao forno.

— Homem, esse é que é extraordinário. Pois há aqui um pão que não vai ao forno?

— Para ser aquecido. Ora! O senhor está caçoando! Vá lá, diga de uma vez: Quer ou não o pão torrado?

— Não, quero ao natural, sou naturalista. Francamente, Sr. Anselmo, isto é hediondo! É medonho! E almoças e jantas nesta casa? Quem é o teu médico?

— Não tenho.

— Pois quem come em alfurja como esta deve sempre ter um médico à cabeceira.

Anselmo sentou-se e, almoçando, expôs a Ruy Vaz o plano de um romance que tencionava publicar na Cidade do Rio: O Rei Fantasma, cuja ação se desenvolvia num reino imaginário da África.

— Por que não deixas essa mania de orientalismo, homem?

— Gosto.

— Ora, gostas... Trata de aplicar o teu espírito ao meio. Podes fazer obra magnífica sem sair da tua terra. Tens natureza, tens almas, que mais queres? Preferes lidar com títeres a lidar com homens. Nunca farás um livro verdadeiro, sentido, farás sempre obra convencional. Deixa em paz os deuses gregos e as odaliscas turcas, não te preocupes com os templos da Hélade nem com os minaretes de Stambul: põe-te em relação com a natureza da tua pátria. Tens um campo vasto de explorações — desde o sertão, quase virgem, até a rua do Ouvidor, que é o círculo central das almas brasileiras. Deixa-te de Oriente.

— Mas o romance está quase pronto.

— Pois publica-o. Mas fica nesse, não escrevas outros.

— E os contos?

— Também os contos. Queres assuntos deliciosos para contos admiráveis? Estuda o povo. A alma moderna é mais sofredora do que a antiga e a Dor é um manancial inesgotável. Deixa-te de ninfas e de faunos, trabalha com homens. Queres saber a razão por que muitos escritores preferem o orientalismo? Porque é mais fácil fazer a pompa do que a verdade: são como o discípulo de Apelles. Manda à fava essa mania e trata de fazer obra sentida.

Anselmo começava a irritar-se com essa observação que lhe soava aos ouvidos com a insistência de um remorso. Diziam-lhe todos a mesma coisa. Protestou:

— Que diabo! Vocês falam tanto contra a mania do orientalismo e admiram Salammbô.

— Perdão, Salammbô não é apenas uma obra de ficção: aquela tela deslumbrante é feita com verdadeiros fios de ouro. Há ali, a par do quadro histórico de uma civilização, um largo estudo de caracteres. Salammbô tem alma. Hamilcar vive, Spendius é uma figura palpitante e o povo de bárbaros, assim como a gente púnica, não é um ajuntamento de títeres. Há naquela obra lapidária uma alma forte que vitaliza os tipos. Ainda assim, apesar de mestre Flauberv haver trabalhado aquele mármore africano com o mesmo escrúpulo com que Fídias burilava as suas figuras imortais, prefiro à grandeza deslumbrante do rútilo poema a simplicidade de Mme. Bovary. Lança os olhos à obra de Balzac. Tudo nela é humano, desde Eugenie Grandet e o Pêre Goriot até o Le lys dans la vallée. Tu mesmo, no dia em que começares a lidar com almas, hás de convencer-te da verdade. Vê a obra do que copia uma academia como se amesquinha diante de um estudo do natural. Posso falar-te assim porque conheço ambos os processos, sei quanto custa transportar para o livro uma alma surpreendida na grande vida e quanto é fácil fazer obra maravilhosa. Experimenta.

— E tu, por que escreves páginas de ficção?

— Por desfastio. Tenho uma válvula de expansão de sonhos.

— Pois é o que se dá comigo. A minha faculdade essencial é a imaginação. Vivo a sonhar, as idéias pululam no meu cérebro e sinto que são as sementes antigas que se fazem floresta. Comecei a estudar em livros orientais. Foram as Mil e uma noites a obra que mais funda impressão deixou em meu espírito quando se ia formando, depois as histórias que me contavam nos serões tranqüilos e, finalmente, as leituras. Eu procurava, de preferência nos poetas, as descrições da vida levantina — em Byron o D. João, A noiva de Abydos, o Giaour; em Gautier o seu grande mundo fantástico; em Flaubert Salammbô e assim sucessivamente. A minha imaginação, assim fecundada, foi-se desenvolvendo nesse meio e hoje sinto que, se deixar o Oriente, fico como um homem que, trazido vendado, se achasse, de repente, como por encanto, num intrincado labirinto de onde não pudesse sair por desconhecer os meandros.

É possível que, mais tarde, consiga livrar-me do que chamas a minha mania, mas deixa-me extravasar. É necessário que eu alije de mim todos os sonhos para poder empreender nova carreira. Por enquanto é impossível e não quero contrariar as tendências do meu espírito. Demais, quer-me parecer que se pode fazer obra verdadeira com o cenário faustoso. Um homem, pelo fato de andar vestido com uma cabala de seda oriental e de trazer à cinta alfange e turbante à cabeça, não deixa de ser homem. Gautier vivia em Paris vestido à oriental. A alma é como a luz: pousa em toda a parte.

— Mas queres convencer-me de que podes descrever a vida de Bassora ou de Cachemira como descreverias a vida do Rio Janeiro? Podes fazer o estudo sincero de um homem de Bombaim como farias de um dos sujeitos que encontramos a todo nas ruas? Podes analisar a alma de um pária?

— Posso.

— Como?

— Imaginando.

— Ah! Imaginando... E por que não hás de descrever vendo a dor triste de um homem que sofre a teu lado, cujo pranto vês cair gota a gota, cujas lamentações escutas? Não achas que assim farás obra mais completa, mais viva, mais duradoura?

— No fundo do sonho há sempre a verdade.

— Preferes então sonhar?

— Prefiro.

— Pois meu amigo, acho que fazes mal.

— Pode ser.

— Queira Deus que te não arrependas.

— Não me hei de arrepender.

— Veremos.

— Pois sim.

— Bem, vamos sair. O hotel começa a tornar-se insuportável.

— Para onde vais?

— Para a Cidade do Rio.

— Estás outra vez com o Patrocínio?

— Como secretário da folha.

— Então, até logo. Vou retocar umas páginas. Adeus.

— Adeus, Ruy Vaz

Capítulo XXIV

A Cidade do Rio tornou-se "o estuário do gênio indígena" como bramia o Neiva atirando bengaladas ferozes às mesas dos cafés.

Para o órgão da propaganda abolicionista afluía a flor da inspiração. Luiz Moraes era assíduo, ora entrava levando uns formidáveis alexandrinos, que ressoavam tonitruosamente como carros de guerra; ora, a pedido do Patrocínio, sentava-se a uma das mesas e escrevia o artigo de fundo, com mais imagens do que uma igreja, reclamando, em nome do coração e em nome da Justiça e... de Spencer, a liberdade dos que sofriam. Octavio Bivar, ou mandava uma das suas poesias finamente buriladas ou, com a pena incandecida, rendilhava sátiras. Pardal, sempre irônico, enchia tiras e tiras com os seus paradoxos ou bradava por sangue e fígados com a mesma calma com que, no Londres, à tarde, pedia o seu absinto. Fortúnio, Duarte, o próprio Ruy Vaz, sempre atarefado, parando um instante, escrevia algumas linhas rápidas sobre a questão palpitante ou sobre um livro que aparecia, aproveitando o ensejo para expor a sua estética, defendendo o naturalismo.

A Vida Moderna, apesar das grandes esperanças dos seus redatores, desaparecera da circulação e a "alma literária", como dizia o Luiz, andava errante, esvoaçando estonteada pelo sarçal do jornalismo mercenário como a ave que perdeu o ninho, piando aqui uma elegia, chilreando além um ditirambo, sem abrigo certo, peregrina e dorida.

Patrocínio, sempre sonhando, depois de pronto o jornal, procurava os rapazes à hora do vermute e, arrebatado, expunha os seus planos maravilhosos:

— Rapazes, vamos fazer a Cidade do Rio. Aquilo não é meu, é nosso... e é uma mina! Aquele jornal é uma mina! Tudo está em saber explorá-lo. Que diabo! Não basta ter talento, é preciso também um pouco de senso prático. Andam vocês numa vida de eterna contingência: Um, não tem sapatos, como o Fortúnio que, há dias, recordava, com saudade, o tempo em que descia as escadas a correr sem receio de que as solas lhe ficassem nos degraus, porque não eram cosidas com barbante, como agora. Outro, Bivar, anda com um chapéu de palha que parece uma cesta de compras. Anselmo apareceu-me com umas calças cor de telha que quando ele as tirava, ficavam de pé no meio do quarto como se fossem de barro. Entanto, se vocês quisessem trabalhar comigo, em um ano... em um ano não digo, mas em dois, levantávamos uma fortuna e abalávamos para Paris. Ali, ali sim! Ali poderiam vocês cultivar a grande Arte. Paris é uma cidade, não é esta choldra onde a gente, aos vinte anos, tem a cabeça branca e aos trinta é ruína, a cair. Começo a sentir-me cansado, já não sou o mesmo homem. Há ocasiões em que fico debruçado à mesa, com a pena sobre o papel, a rabiscar, a rabiscar, e nada de sair o artigo...

— Ah! Mas quando sai, exclamou o Moraes bambaleando-se, quando sai é... como o corpo de bombeiros.

Houve uma gargalhada estrepitosa, porque o Moraes, juntando o gesto às palavras, derrubou copos, garrafas e teria estourado um sifão se Ruy Vaz não acudisse ligeiro.

Foi em uma dessas palestras que Patrocínio revelou o seu grande segredo: "Tinha resolvido o problema da direção dos balões."

— Já sei que vocês vão sair daqui comentando as minhas palavras com pilhéria. Pois meus amigos, é a verdade: tenho o segredo de Dédalo.

— As asas de cera.

— Perdão, não ria. Falo sério e vocês não têm o direito de duvidar da minha palavra, porque ainda não dei provas de loucura ou de imbecilidade.

— Então vai tudo agora pelos ares?

Patrocínio não respondeu a Anselmo e continuou:

— Tenho estudado a questão com empenho e posso exclamar: Eureka! Trabalho lentamente, porque aqui no Rio de Janeiro não há um fundidor que execute um molde perfeito. Dá-se-lhe um desenho e o bruto faz coisa inteiramente diversa. E a gente que se lembre de protestar. Vocês sorriem? Pois sim... Eu hei de rir lá de cima quando, depois do meu banho frio e de um cálice de conhaque, sair daqui no meu balão, às seis da manhã, para almoçar, às onze, em Lisboa.

O sonho empolgou-o e o intrépido propagandista, o destemido tribuno, o polemista audaz pôs-se a falar com enternecimento, inclinando-se para que as suas palavras não saíssem do círculo dos amigos que, impressionados, já não sorriam, ouvindo, com enlevo, a narração maravilhosa do grande homem:

— Imaginem vocês a coisa nos ares, nós todos na barquinha, porque havemos de ir todos...

— Só se for uma das barcas Ferry, adiantou Fortúnio.

— Espera, homem... A ascensão, bem? E foi levantando as mãos e batendo o espaço com elas como se fossem duas asas. Rápido, jogou o braço e, inclinado, surdamente, explicou: Depois, ganhando a linha desimpedida, a vasta e livre estrada aérea, voando, voando, voando, vendo a terra como um nevoeiro, como a viu Menippo, o mar como uma mancha lúcida, depois as brumas inferiores, brumas, brumas, brumas e nós, como deuses, navegando em nuvens, numa celeridade vertiginosa, fazendo versos ao grande vácuo, falando onde só os trovões atroam, rindo onde só riem as madrugadas e orvalhando a terra vil com champanhe... Hem? Que dizem vocês? E quando chegarmos a Paris, diante do mundo pasmado e ouvirmos, nos Campos Elíseos, as aclamações do povo magnífico da cidade por excelência... Vocês não pensam nisso? Que diabo! Vocês não têm sangue! Não têm nervos...!

— É belo, não há dúvida, disse Fortúnio, mas receio que nos aconteça o mesmo que aconteceu a Faetonte.

— Qual Faetonte! Faetonte era uma besta! Você então não toma a sério a minha idéia?

— Como não tomo?

— E se visses o balão não entravas nele?

— Conforme: amarrado e com garantia de vida.

— Pois eu vou. Vou e vocês hão de ficar aqui de boca aberta, torcendo-se de inveja. Faço a volta do mundo em uma semana e depois...

— Depois...?

— Depois, descanso. Tenho a minha obra. Achas pouco a conquista do espaço?

— Eu não acho pouco: acho muitíssimo!

— Então por que ris?

— Não estou rindo.

— Watt também passou por louco.

— Mas ninguém te julga louco.

— Nem eu admito. Afirmo que resolvi o problema e, dentro em breve, vocês terão a prova. Um dia, acordando, hão de vocês ver um pontozinho fugindo no espaço, fugindo, fugindo e, quando perguntarem, aterrados, à gente do observatório: "Que meteoro é aquele que vai pelos ares fora vertiginosamente?" ouvirão dos sábios as palavras solenes: "É o Patrocínio que está passeando em balão. Vai jantar no Cáucaso." E então... rira bien qui rira le dernier. E com esta, meus amigos, até logo. Tenho hoje uma conferência no Club Tiradentes. E saiu justamente quando entrava Montezuma, o velho, o amável Montezuma, o grande historiador do Rio da Prata, portador do althéa providencial.

Capítulo XXV

Montezuma, oficial de marinha reformado, apesar dos cabelos brancos e da feição venerável de patriarca, conservava no coração todo o viço dos vinte anos. Alma que se não regelava, longe de agregar-se às neves da ancianidade, chegando-se aos homens do seu tempo, que andavam curvados, entristecidos, à espera do vencimento da letra da vida, buscava a companhia dos rapazes, vivendo nela muito à vontade e com estos nada inferiores aos do mais ardente boêmio.

Como o Timon de Luciano andara com Pluto e com a Miséria, sendo íntimo de ambos: esbanjara milhões e tivera dias sem lume, longe da pátria, em terras sopradas pelo minuano.

A história da sua vida, narrada miudamente, daria um copioso romance de aventuras, qual mais extraordinária, umas felizes, outras desastrosas. Vogara nas águas do Sul governando um navio carregado de gêneros e outro transformado em hospital, que ardeu sobre as águas paraguaias quando os nossos guerreiros desafrontavam a bandeira que os guaranis de Lopez ousadamente ultrajaram. Foi ele quem, a 11 de Junho, tendo a notícia da vitória do Riachuelo, saiu a anunciar o feito pelas terras do Prata, transmitindo a nova ao Brasil com abundância de hipérboles. Íntimo de todos os grandes homens das Repúblicas do Sul, falava dos ditadores como de companheiros de noitadas. Empenhara capitais em revoluções, comprometera-se em golpes de Estado e, depois de haver dissipado milhões, vivia das suas glórias, não como o misantropo de Atenas, encolhido e bilioso, mas sonhando com empresas complicadas, sempre a somar milhares.

Homem de casos análogos e de sátiras, tinha sempre uma anedota a propósito e um comentário cáustico para todos os acontecimentos políticos.

A mulher era a sua intemperança e raro era encontrá-lo sem "uma senhora virtuosíssima, esposa, viúva ou filha de um amigo do Rio da Prata".

Com essas Penélopes Montezuma aparecia no Pascoal e gastava largamente, não em linho para que fiassem honestamente, mas em sedas, em carros, em champanhe.

Muito amigo dos rapazes, além de outras virtudes, possuía um talismã inestimável: o althéa. Era um guarda-chuva de cabo branco que, nos momentos precários, passava das mãos do seu dono para o prego. Às vezes entretido em grupos políticos, Montezuma discutia, com azedume, questões financeiras quando sentia que lhe puxavam o guarda-chuva. Era algum dos boêmios.

— Estás com fraqueza pulmonar? Queres o chazinho de althéa? E, rindo, lá o entregava e o rapaz corria ao Hoffmann que, por conhecer intimamente o "objeto", dava os cinco mil réis, que era tudo quanto conseguia arrancar o precioso talismã. Quantas e quantas vezes, sob aguaceiros torrenciais, Montezuma, encolhido em algum vão de porta, lamentava o seu guarda-chuva:

— É isto! Tenho um guarda-chuva que é um tapa-misérias. Nem sei em que prego está... E, se via um dos rapazes, ia imediatamente perguntando: Foste tu que penduraste o althéa?

— Não.

— Quem foi?

— Não sei.

— Nem sabes em que casa está?

— Não. E bem necessitado ando eu dele.

— E eu! Vou tirá-lo amanhã.

— Olha, se o tirares e se não chover, empresta-mo porque estou precisado de uma gravata.

— Pois sim. E lá ia o Montezuma encharcado, à procura do homem que havia empenhado o guarda-chuva providencial.

Estimado por todo o grupo o velho boêmio, que era incapaz de negar auxilio a quem o procurava, só era avaro das relações femininas. Se alguém se aproximava "das honestas senhoras", que ele ocultamente protegia, abespinhava-se, declamando grandes moralidades e saía furioso, com desabalados gestos: "Que não havia respeito! Pessoas de tão reputada virtude não mereciam a menor consideração."

Como uma personagem de lenda Montezuma andava quase sempre a tinir. Um dia, porém, irrompia a notícia de que havia comprado carruagem e parelhas caras e, efetivamente, à tarde, gente acudia à rua Gonçalves Dias para ver o homem tomar o landau e bater para Botafogo com muitos embrulhos e vários pince-nez no nariz. Dias depois reaparecia com o althéa, murcho, contando que vendera a equipagem e que viera a pé da praia de Botafogo ao Catete, para pedir a um velho amigo dez tostões para o bonde.

Nesse tempo, porém, andava ele em boas relações com a Fortuna: a sua carteira mal fechava, engorgitada de cédulas e ele sabia de cor o número das apólices que possuía.

Vendo os rapazes aproximou-se e, logo de longe, como Anselmo afastasse uma cadeira, declarou que não se queria sentar. Andavam pessoas acompanhando-lhe os passos e tudo quanto fazia era sabido em casa, de sorte que vivia em constante guerra civil. Era forçado a retrair-se para que não se desse com ele o caso de... fulano, que tanto alvoroçara Montevidéu em mil oitocentos e tantos. E, para contar o caso, sentou-se, pediu um vermute e esqueceu-se da guerra civil, pondo-se a falar do imperador com irreverência:

"Que era um velho mentecapto que vivia a quebrar versos e a espiar os astros para fingir de poeta e de sábio. Neto de Marco Aurélio... Neto de D. João VI, o suíno, isso sim." Profetizou a abolição com energia: "Ou vem ou escangalhamos essa caranguejola em dois tempos. A América deve ser livre. Olhem para as Repúblicas do Prata, vejam como nadam em prosperidade, sem precisar de escravos para as suas culturas. Isto é uma vergonha! Confesso que, às vezes, tenho pejo de dizer que sou brasileiro. Pois havemos de viver sempre no último plano, e por quê? Porque temos um rei de burla. Está enganado: ou acaba com a escravidão, realizando a vontade do povo, ou vai passear; não precisamos de figura de proa na nau do Estado. Sou republicano, não de hoje. Já na escola de marinha escrevia manifestos republicanos. Posso lá com isso! Sinto não ter fortuna, senão... ah..." Mas apareceu à porta uma das "senhoras virtuosíssimas", acenou com o leque a Montezuma e o velho, muito comovido, pondo mais um pince-nez no bico, despediu-se para receber dignamente a dama "viúva de um ilustre comodoro".

O grande acontecimento dessa época foi, sem dúvida alguma, o estabelecimento da cozinha na Cidade do Rio. Atendendo às queixas dos redatores, que viviam lívidos e magros, mal nutridos no sóbrio Quinhentão, Patrocínio resolveu realizar um dos seus ideais que era ter a mesa das refeições ao lado das mesas de trabalho, de modo que os seus prestimosos auxiliares, mal pingassem o ponto final no artigo, subissem a curta escada que levava à sala dos repastos, quente como uma fornalha e sem luz.

A mesa era vasta e ocupava toda a sala. Um cozinheiro, mestre perito em adubos, homem de alto poder inventivo em matéria de iguarias, tomou conta do fogão e, nas suas vestes rituais, amplo avental e o competente boné, apareceu, num radioso dia de março, tresandando à cachaça e bambo. Foi justamente no dia em que se inaugurou, com urras! e um peru de forno, a prestimosa inovação.

Anselmo quis escrever um estirado artigo, muito burilado, proclamando a generosidade do redator-chefe, vários poetas rimaram sonetos, a alma lírica expandiu-se largamente com o aroma sedutor dos refogados. Nessa apetitosa manhã a inspiração nobre não surgiu do cérebro, mas da cozinha que perfumava toda a casa.

Ao meio-dia, descendo o último original, Patrocínio, muito grave, recebendo os representantes dos jornais, convidou-os para o primeiro almoço.

Passaram todos à sala que havia sido ornamentada vistosamente e as cadeiras foram todas ocupadas. No centro da mesa uma dourada maionese rutilava. Era um prato digno do triclínio de Apício, não só pela beleza com que o mestre o dotou, mas pelo cheiro que dele se desprendia, que era de pôr em risco de pecado o mais abstinente monge da Thebaida.

Os frios foram desprezados todos os olhos, como os dos Argonautas, estavam voltados para aquele Pactolo saboroso de sorte que, quando o copeiro, que era o mesmo servente da redação, começou a servir, houve um alegre sussurro entre os convivas, cujos olhos faiscavam. E, bravamente, com famosa gana, a maionese foi atacada ficando um dos revisores com a boca cheia de água porque, por imperícia do copeiro, na distribuição nada tocara ao infeliz que teve de se contentar com três douradas e oleosas sardinhas de Nantes. Houve depois um peixe admirável e, seguidamente, as carnes e por último o peru, que arrancou aplausos. Ao estouro do champanhe, Patrocínio, muito comovido, taça em punho, explicou, em brinde magistral, o motivo daquela inovação:

"Senhores: instituindo os almoços e os jantares da Cidade do Rio não tive em mente concorrer com o Jornal do Commercio que era, até hoje, o único órgão brasileiro que fornecia comida aos seus redatores. Não! Quis apenas dar o bem-estar aos meus companheiros de trabalho e, como entendo que a primeira condição para que um espírito produza é a saciedade do estômago tomei um cozinheiro e, ao lado da oficina tipográfica, estabeleci a despensa.

Saco vazio não se põe em pé, diz a sabedoria popular. Com fome não há talento. É preciso que haja carvão na fornalha para que se gere vapor na caldeira. Quanto tempo perde um redator em andar procurando hotel? Que riscos tremendos corre a vida de um desses rapazes, que são a glória futura da nossa pátria, entregando-se aos cozinheiros mercenários dos hotéis à la carte, onde a limpeza é um problema e a virgindade dos vinhos tão suspeita como a da Rússia imperatriz famosa?! Não, com a cozinha em casa tenho certeza de que todos os gêneros são de qualidade e os vinhos serão analisados cuidadosamente por meu compadre, o ilustre químico Campos da Paz. Este é o primeiro passo.

Começo a reforma pela cozinha e espero poder, em breve, ver realizado o meu grande e nobre ideal. Dentro em pouco os redatores da Cidade do Rio terão coupé, palacete e o edifício do meu jornal será o primeiro da América do Sul. Para isso, porém, é necessário que todos me auxiliem, porque a glória e o conforto que procuro não são para mim somente, todos terão a sua parte." Houve alarido e palmas.

Anselmo, magnificamente repastado, prometeu concorrer com o seu talento para o brilho da folha e manutenção da respectiva cozinha e Octavio Bivar, enternecido, fez o mesmo protesto. O mestre cozinheiro foi aclamado com delírio por quantos haviam saboreado as finas iguarias que ele, com tanta arte, recamara de folhas tenras e temperara com sabedoria incomparável.

Instalada a cozinha, o perfume dos guisados atraiu à Cidade do Rio, que se tornou o Hymetto das abelhas líricas, toda a poesia perambulante. Às onze horas começava invariavelmente a entrada, como no castelo de Wartburgo, não para o repto poético, mas para a manducação: e, ao meio-dia, tendo Patrocínio terminado o artigo de fundo, dirigiam-se todos para a mesa, e quanto folhetim foi ali improvisado entre um prato e outro!

O jornal dava apenas para a boca e mal, às vezes sem vinho. Anselmo andava farto, mas com os pés em petição de miséria e o Oliveira estava tão atrasado com a lavadeira, que, em certa ocasião, puxando um punho diante de Fortúnio e pedindo um lápis, o poeta perguntou pasmado:

— Para quê?

— Para tomar uma nota.

— Onde?

— Aqui no punho.

— O filho, pede antes um giz.

Ah! O pobre Oliveira, Oliveira, o troglodita, que morava em uma verdadeira caverna, em Paula Mattos: era o "speleo" da imprensa. Dele contava Ruy Vaz que, tendo mandado à lavagem química, no S. Mauncio, um paletó cor de castanha, quando o foi buscar, com a cautela, recebeu apenas os botões... porque o mais dissolvera-se na lixívia. Pobre Diógenes que trazia no corpo o azeite da sua lanterna. Fortúnio, sempre que o via, com as calças enlameadas, o paletó poeirento, o chapéu como um canteiro, dizia-lhe compadecido:

— Que a terra te seja leve!

Mas havia alegria e Patrocínio, pressentindo próxima a vitória da sua idéia, trabalhava empenhadamente para a batalha definitiva.

Efetivamente alguma coisa andava no ar. A princesa governava fragilmente, pensando mais em sermões e nos acordes do violino do White do que nos negócios do Estado e os republicanos solapavam o trono invectivando a regente.

Patrocínio, entanto, domando a sua pena tremenda, aparava os golpes que eram vibrados contra a princesa pelos republicanos que, com Silva Jardim à frente, começavam ostensivamente a propaganda, na tribuna e na imprensa. Contra o redator da Cidade do Rio avançava toda a legião, ele, porém, como se não sentisse os golpes, continuava sereno, impassível, pregando o seu programa, como se apenas escutasse o lamento dos escravos, tão alto, que não lhe deixava ouvir o rumor do tumulto dos novos combatentes que o injuriavam.

Uma manhã, porém, Anselmo invadiu a sala particular do redator-chefe, com um número de O Paiz, onde Silva Jardim havia publicado um artigo, violento e injurioso, no qual Patrocínio era tratado de traidor.

— Já leste este artigo?

— Que artigo...?

— Do Silva Jardim.

— Quem é?

— Homem, falo sério.

— Que diz ele?

— Um pavor. E deves responder.

— O filho, tenho hoje tanto trabalho!.

— Mas queres deixar tais acusações de pé?

— Que acusações!? O homenzinho entende que sou um infame, deixemo-lo com a sua ilusão. Atualmente não me pertenço: José do Patrocínio não é um homem, é uma causa. A minha pessoa não vale a minha idéia. Que me insultem à vontade, orgulho-me disso. Olha que tenho dado assunto, hein?

— Então não respondes?

— Não. Vou escrever um artigo sobre o quilombo de Jabaguara.

Curvou-se, tomou a pena, mas, de repente, aprumando-se, rugiu:

— Não respondo! Insultem-me! Ameacem-me! Tenho o meu programa traçado e não será a pena romba desse merovíngio que me há de fazer abandonar o roteiro. Justamente quando se vem anunciando a grande aurora é que eles querem que eu, esquecendo e abandonando um trabalho quase concluído, vá cuidar de outro. Não faltava mais nada! República numa pátria escrava! Que rosne! Que vocifere, tenho mais que fazer. E sentou-se.

— Queres que eu diga alguma coisa?

— Nada; nem uma palavra.

E, placidamente, continuou a escrever o artigo.

Capítulo XXVI

Uma tarde, já Anselmo havia "encerrado o expediente" do jornal e passeava pela rua do Ouvidor, o seu jardim, admirando a "mancenilha humana" quando o servente da Cidade do Rio, que o procurava em todas as confeitarias, entregou-lhe uma carta do Neiva, com a nota de urgência. Abriu e leu, comovido, estas palavras rápidas e tristes: "O Lins está agonizando. Vem!" e o endereço do moribundo.

Anselmo ficou um momento hesitante. Talvez fosse pilhéria do incorrigível boêmio, mas... se fosse verdade? Desceu a rua e encontrou o Duarte que subia carregado de embrulhos.

— Sabes? O Lins está agonizante, disse-lhe ex-abrupto.

— Como?! Não é possível! Quem te disse?

— O Neiva. Escreveu-me. Está aqui a carta.

— Não creias, homem; é troça. Ainda anteontem estive com o Lins numa cervejada. Não creias.

— Que horas são?

O Duarte arrancou do bolso um monstruoso relógio de níquel e, consultou-o, dizendo:

— Cinco mil e quinhentos.

— Hem?

— Cinco mil e quinhentos.

— Que história é essa?

— É simples. Este relógio custou-me doze mil réis, a mil réis por hora, assim eu, em vez de dizer, como toda a gente: São quatro, são duas horas, dou o preço correspondente ao tempo, que é dinheiro, como sabes. Em vulgacho são cinco e meia.

— Pois eu vou à casa do Lins. Pode ser verdadeira a comunicação do Neiva e não quero ficar com um remorso eterno. Queres vir comigo?

— Não posso, tenho uma irmã que faz anos hoje. Não vês como vou aqui carregado? Em todo o caso, se houver alguma coisa, manda-me um recado ao largo dos Leões, onde vivo, atualmente, como Daniel.

— Então, adeus!

Apartaram-se. Anselmo desceu a rua para tomar o bonde que o devia deixar à porta da casa do Lias, à rua Senador Pompeu. Era uma casa assobradada, bateu. Uma mocinha veio recebê-lo e, tanto que o viu, posto que não o conhecesse, acenou convidando-o a entrar e perguntou com uma vozinha branda:

— O senhor vem ver meu primo?

— Sim, senhora.

— Entre.

Levou-o pelo corredor sombrio. Na sala de jantar já o gás estava aceso. Havia gente conversando surdamente em torno da mesa redonda alegrada por um vaso de flores. Burburinhou um sussuro de vozes e Anselmo, sempre guiado pela mocinha, passou a outro corredor, entrando em um quarto, cuja porta ela abrira conservando-se fora.

Numa cama de ferro, ao fundo do quarto triste, sem móveis, iluminado por um bico de gás, agonizava, anquilosado, o poeta paraibano. As mãos cruzadas sobre o peito magro, as faces cavadas os olhos fundos, movendo-se sinistramente, eles apenas, em toda a imobilidade rígida daquele corpo, como se fossem os primeiros vermes que se houvessem alojado nas órbitas e andassem a roer em silêncio. O resto de vida refugiara-se-lhe nas pupilas negras, último reduto da alma, de sorte que eram os olhos que falavam, que sorriam, que perguntavam, que respondiam, que vertiam lágrimas dizendo adeus para o sempre, despedindo-se pelo coração que batia ainda, lentamente, flébil.

Agonizava quando Anselmo entrou e o Neiva, soluçando, com a vela na mão, tomou-lhe o braço, puxou-o para o peito de modo que ele pudesse empunhar o círio alumiador da última hora.

Vendo Anselmo fez um gesto desanimado, trincando os lábios e, mostrando, com um olhar, o companheiro que acabava. Fora houve um surdo rumor de passos, gente chegava à porta como para ouvir o sarrido da dispnéia e o soluço final do que atravessara a vida atordoando a agonia com o estrépito das gargalhadas. Num derradeiro esforço o moribundo volveu os olhos para Anselmo, parando-os, fitos nele. Veio um resto de luz à tona, mas foi, aos poucos, minguando, minguando até que as pálpebras caíram como duas tampas de esquife.

Nem um frêmito: extinguiu-se preso na paralisia. Alguns soluços quando correu a notícia; vozes abafadas, passos leves, segredos. Vieram os círios que põem quatro lágrimas de fogo junto aos mortos, veio a água benta com um ramo de alecrim num vaso de cristal.

Um Cristo de bronze, secular, gasto de muitos beijos, foi pousado à cabeceira do poeta. Neiva e Anselmo guardaram o corpo do companheiro, vestiram-no chorando. Os de casa pareciam desafogados, choravam por obrigação: deixavam a gota crescer nos olhos até que se precipitava pelas faces, punham-na, então, em evidência para que vissem que sabiam ser delicados, que conheciam as regras convencionais do sentimento, como depois provaram indo à missa e vestindo o luto.

Eram oito horas da noite quando o Neiva, atarantado, chamou Anselmo ao vão de uma janela para falar-lhe em segredo, porque os parentes do poeta suspiravam no quarto, esfregando os olhos secos.

— Não saias daqui; eu vou aos teatros. À meia-noite virei render-te.

Anselmo recuou assombrado:

— Pois vais aos teatros hoje!?

— Então, homem? Que queres? Vou arranjar algum dinheiro para comprar duas ou três coroas: uma por mim, outra por ti e outra pela imbecilidade humana. Que os idiotas prestem, ao menos, este culto a um poeta que teria sido genial se nascesse em outra terra. Até já.

Tomou o chapéu e, em pontas de pés, deixou a câmara fúnebre. A casa encheu-se, porque toda a vizinhança quis ver "o moço". As velhas chegavam ao leito de mãos cruzadas, um ar muito compadecido, a cabeça inclinada; ficavam um instante a mirar o cadáver, aspergindo-o com água benta e voltavam para o grupo, onde se discutia política e a vida livre de certa vizinha. Anselmo sentia-se mal naquele meio e, como ninguém lhe dirigia a palavra, procurava afazeres, ora espevitando os círios que crepitavam, ora arranjando a roupa com que haviam vestido o poeta, tão ancha, amarfanhada em gelhas no corpo raquítico, roupa de esmola, talvez de um tio, gordo e baixo que ia e vinha pelo corredor escarrando forte. A noite ia alta: os que faziam quarto ao morto conversavam francamente, com exceção do velho gordo que roncava numa cadeira de vime, de pernas abertas, a cabeça caída, as mãos papudas enclavinhadas no ventre rotundo, quando o Neiva entrou, de leve, com um embrulhinho e, depois de haver contemplado o cadáver, chamou Anselmo à parte sussurrando-lhe:

— Tens aqui uma porção. Come porque esta gente nem uma xícara de café é capaz de oferecer.

Anselmo, retirando-se, foi devorar deixando o boêmio à cabeceira do Lins, muito comovido, a enxugar lágrimas teimosas. Inesperadamente houve um tinir de louça e uma negrinha entrou na câmara mortuária com uma bandeja oferecendo café. O Neiva sussurrou a Anselmo:

— Teriam eles ouvido a minha observação?

— Talvez.

— Melhor. Que diabo! Não podemos passar toda a noite a fazer cruzes na boca. Nem parecem nortistas. No Norte oferecem-se ceias lautas aos que fazem quarto. E aqui mesmo, já apanhei uma indigestão em casa de uns minas no dia da morte de um deles. Foi um banquete, meu amigo! Um verdadeiro banquete! E aqui... nem um biscoito.

— Arranjaste para as coroas?

— Se arranjei! E já encomendei flores, flores em profusão; devem trazê-las aqui. Descansa: o nosso Lins não fará figura triste, isso não. Eu estou aqui!

O sono não conseguiu vencer os rapazes que viram nascer a luz coando-se pelos vidros baços da janela. O Neiva, então, sentindo-se mole, convidou Anselmo para o Ravot:

— Vamos tomar a nossa ducha para resistirmos. Estou esbarrondado. Há seis noites que não durmo.

— E eu! — exclamou Anselmo apanhando o chapéu e, sem se despedirem, foram saindo cautelosamente, deixando o morto desacompanhado, porque só uma criança estava junto dele e dormia profundamente, estirada no chão, com um braço passado pela cabeça.

Eram quatro horas da tarde, linda tarde de Setembro quando o corpo do poeta foi conduzido ao coche pelos boêmios. As coroas levadas pelo Neiva faziam desaparecer a da família do morto, feita de saudades roxas, mas tão fanadas, que o Duarte, indignado, murmurou:

— Isto até parece de aluguel.

O saimento não foi numeroso: quatro carros apenas acompanharam a S. João Batista o eterno enamorado. À beira da cova o Neiva, rompendo em soluços, despediu-se do amigo e o Duarte, com um pranto sincero, pediu ao finado que o viesse buscar, porque já estava enfarado da vida imbecil. Um velhinho abeirou-se da cova, pigarreou como se preparasse a garganta, os coveiros encostaram-se às pás, esperando o discurso, mas o velhinho meneou com a cabeça e retirou-se. A sineta tinia.

— Vamos, meus amigos; convidou o Neiva. Houve um rufo sinistro que se foi tornando soturno e abafado e a terra tomou posse do corpo amado. No carro Anselmo e o Neiva travaram uma discussão transcendente:

— Eu não temo a morte, disse Anselmo, o que me apavora é a idéia de morrer, é a certeza em que estou de que hei de acabar. O que me aterra é a sensação angustiosa do momento. Não penso na morte, penso na vida. Queres ver a coisa? Está claramente exposta em um sonho que me persegue. Vejo-me no fundo de um poço tenebroso, frio, lutando, debatendo-me, sem ar até que encontro a ponta de um cabo — agarro-o aflito e começo a guindar-me, mas, com o atrito das mãos, o cabo começa a esgaçar-se, a delir-se... Chegam-me aos ouvidos vozes, avisto a luz do sol, fraca e longínqua, sinto o perfume das flores. Já à borda do poço, vejo que o cabo está por um fio tenuíssimo — mais uma flexão e tudo estará perdido.. E ouço e sinto a vida... Ah! O instante horrível deve ser esse: a espera, sentir o estalar dás últimas fibras do cabo, estar à beira da luz e dentro da treva. À queda é uma vertigem, mas antes da queda, o momento da resistência da fibra mais forte...

Tenho passado muitas e muitas noites em claro a pensar nesse drama sinistro. A saudade da vida é que me assombra: o acabamento deve ser rápido, muito rápido.

— Não concordo contigo, disse o Neiva, não concordo.

— Como não concordas?

— Não... Medo da morte não tenho, porque sou católico — o Além não me aterra, o que me tortura é a idéia da destruição vagarosa, gradativa. Explico-me. Para mim a morte é como a lenta extinção de uma fogueira; desaparecem as labaredas, mas ficam as brasas, faíscas percorrem os troncos carbonizados, apagadas as faíscas fica a cinza quente, ainda é vida. A morte parcial... o aniquilamento das células... hum! Imagina um pobre corpo imóvel a extinguir-se: aqui um fato que se apaga no braseiro da memória, ali outro, mas crepitando ainda uma saudade e terrível, como uma formiguinha presa num recipiente hermeticamente fechado, a correr aflita de um lado para outro, a última idéia no corpo morto, a idéia ambiciosa de viver, descendo pelos nervos, do cérebro à sola do pé, subindo ao coração, indo ao fígado, aos pulmões, ao baço, aos rins, aos intestinos e achando em tudo o frio e o silêncio. A ânsia de fugir... Ah! Meu amigo, dessa sobrevivente é que eu tenho medo! Até que ela acabe, até que sucumba no grande frio mudo... Ah!...

— Pois é isso justamente o fio tênue do cabo, disse Anselmo: é o "instinto" que luta até...

— ... não poder mais! — exclamou o boêmio, com um arrancado e desesperado suspiro. E atirando os braços bradou: — Com todos os diabos, mudemos de assunto. Falemos da vida, das coisas da vida, do esplendor da vida. E o carro chegou ao Largo da Carioca justamente quando os sinos dobravam as Ave Marias!

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