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A conquista

Coelho Neto

Capítulo XXVII

Foi com a violência inesperada de uma erupção vulcânica que irrompeu na Câmara o projeto de lei extinguindo a escravidão. Discutido com a urgência fogosa dos propagandistas, que o reputavam uma "necessidade nacional", venceu impetuosamente a primeira represa, subindo ao Senado onde foi acolhido com simpatia quase unânime.

Os mais ferrenhos oposicionistas, que haviam procurado travar a propaganda, sentiram-se mesquinhos diante da massa avassaladora que se impunha ameaçando, com energia, o próprio trono. O projeto da Câmara tinha, a bem dizer, a feição ostensiva de um ultimatum e os senadores mantiveram a toga suspensa.

Cândido de Oliveira, requerendo que a 3ª discussão e subseqüente votação fossem excepcionalmente feitas no domingo, 13 de Maio, precipitou o desfecho. A certeza da vitória pôs o povo em alvoroço. Os representantes da imprensa reuniram-se no Club de Esgrima para discutir o programa dos festejos comemorativos, todas as associações convocaram os seus membros, e, no dia do pronunciamento do Senado, a cidade amanheceu festiva. Às janelas de algumas casas tremulavam bandeiras. O povo afluía às imediações do Senado ocupando as ruas adjacentes, enchendo o parque, como um exército sitiante. O sol dardejava rijo sobre a multidão; as copas dos chapéus de sol moviam-se como carapaças que flutuassem, lenços agitavam-se. As janelas do Senado estavam entupidas e foi necessário que a tropa interviesse para vedar a entrada no recinto.

Esperava-se com a alegria da certeza e, com o correr das horas, mais engrossava a multidão. Havia gente nas moitas, nas grades do parque, pelos telhados, acolhida à sombra de chapéus de sol; muito longe mesmo, nos telhados das casas, moviam-se vultos. Homens agarravam-se aos lampiões, outros subiam pelos postes telefônicos. Era a cidade ansiosa que alongava os olhos para o templo de onde devia ser lançado o misericordioso perdão sobre os cativos de África.

Os bondes, parados em longa fila, traziam curiosos sobre a tolda; carros detinham-se intimados pelo povo. Os próprios soldados refreavam os animais na impossibilidade de vencer a massa compacta.

Repentinamente estrugiram brados no interior do recinto e um homem apareceu à janela afogueado gesticulando e clamando. Um pombo branco fugiu por uma das janelas, tatalando as asas, atordoado; outro, outro, outro e outro e voaram todos em direção ao parque que, com a sua verdura viçosa, resplendia ao sol.

O povo, como se visse naqueles animais inocentes um símbolo das almas que se haviam libertado ganhando, como eles, a largueza vasta das terras e dos espaços, prorrompeu em palmas e em vivas. O rumor estupendo abalou os espaços e, em vários pontos, em clangor triunfal, fanfarras atroaram.

O povo ondulava ovante e mais de vinte mil bocas, em uníssono, aclamavam; iam chapéus ao ar, lenços palpitavam e, aos arrancos impetuosos, foguetes rasgavam os ares espoucando na altura. Súbito uma detonação abalou os ecos O povo conteve, por momentos, a alacridade; outro estampido longínquo — eram os fortes e os navios saudando a Redenção da Pátria.

O entusiasmo recrudesceu chegando às raias do delírio. Mas à porta do Senado apareceu um estandarte, outros foram saindo — eram os guiões do exército benemérito e o povo recebia-os como se, efetivamente, eles voltassem gloriosos de campos cruentos de batalha. E, de tranco em tranco, asfixiado, rouco, a gesticular, chorando e rindo, vinha um homem de bronze por entre o tumulto, de braço em braço como um ídolo que todos quisessem veneradamente tocar e sentir — era Patrocínio.

E fez-se a desfilada em direção ao Paço da cidade onde a princesa regente, que descera de Petrópolis, esperava os triunfadores.

A notícia, comunicando-se aos pontos mais extremos da cidade, trouxe à rua o povo feliz e o trajeto foi lento e difícil — ia-se por entre muralhas humanas, sob uma chuva de pétalas, à luz radiosa de um dia lindo e amável.

O decreto foi assinado afluindo o povo à rua do Ouvidor, onde já aflavam bandeiras em triunfo, fazendo uma abóbada policrômica, como numa cena de lenda oriental.

O dia passou-se em delírio. Bandos percorriam as ruas, cantando. Saíram serenatas e grupos de negros com os seus maracás e os seus reco-recos e, a luz de archotes, começaram os carpinteiros a martelar construindo coretos ou fincando postes para a ornamentação.

No dia seguinte, cedo, Anselmo, que andara na véspera com o povo, apareceu na Cidade do Rio. Logo ao entrar ouviu a voz de Montezuma, que discutia acaloradamente com o paginador. O dono do althéa gesticulava frenético:

— Isso não! Pois justamente no dia da vitória é que vocês querem abandonar o homem?

— Mas, Sr. Montezuma, que posso eu fazer? O senhor compreende: os rapazes têm família e, aqui entre nós, é natural — duas quinzenas e vamos entrando na terceira.

— Ora! Duas quinzenas... A mim devem mais de cinco mil contos. Tenha paciência, vá falar aos rapazes para que façam a folha.

— Que é, Montezuma? — perguntou Anselmo.

— Greve. Não querem trabalhar porque têm na casa duas quinzenas. Se eu tivesse adiantava, mas a minha fortuna aqui está: $640 e dois gasparinhos. Logo hoje!... Mas a folha há de sair, custe o que custar. Vou ver se arranjo alguma coisa. Vai lá dentro e improvisa um discurso, trata de chamar aquela gente à ordem, eu vou por aí. Hoje há de ser difícil, mas em todo o caso... Até já.

— Até já.

Montezuma saiu gesticulando, furioso; mas deteve-se à porta e, voltando-se, dirigiu-se ao gerente melancólico, que cochilava encostado à parede, com um braço esticado sobre o balcão.

— Ó homem, tu não mandas enfeitar o jornal?

— Enfeitar o jornal... com quê, senhor Montezuma? — perguntou desolado.

— Com quê?! Com bandeiras e galhardetes, homem de Deus.

— Bandeiras e galhardetes... Mas onde vou eu buscar essas coisas?

— Também vocês não têm nada, que diabo!

— Infelizmente...! — suspirou o desgraçado, recostando-se de novo à parede com resignação. Mas o paginador reapareceu radiante e dirigiu-se a Montezuma:

— Os rapazes fazem o jornal.

— Ainda bem.

— Mas é necessário que o senhor Anselmo não escreva muito.

— Não há aí encalhes? — perguntou o secretário.

— Temos um conto.

— De quem?

— Não sei; está composto há mais de um mês.

— Dê o conto. Que mais?

— Uma poesia daquele poeta de S. Gonçalo... uma que fala em Nossa Senhora fugindo para o Egito.

— Isso não. Que mais?

— Há ainda umas coisinhas. Eu vejo. Basta que o senhor escreva um artigozinho de umas três tiras; com o noticiário e os ministérios, a folha fica pronta.

— E sai?

— Já se vê.

— Então estamos arranjados. Agora vou dar umas voltas para ver se consigo as tais quinzenas.

— Uma ao menos, senhor Montezuma.

— Vou ver. E, com desabalados gestos, Montezuma partiu, falando só, com dois pince-nez escarranchados na penca.

Anselmo subiu disposto a escrever um artigo monumental dando as suas impressões, mas diante das tiras alvas, como se uma nuvem lhe houvesse subitamente toldado o espírito, sentiu-se incapaz e, fincando os cotovelos na mesa, com o olhar disperso, ficou-se a fumar. Apesar da hora a rua começava a encher-se e a gente que passava discutia; alguns detinham-se diante do jornal, entravam no escritório e saíam à pressa, à cata de novidades. Anselmo viajava no país azul do sonho quando se sentiu agarrado por um pulso formidável. Voltou-se e deu com os olhos no poeta da Tarântula.

— Ah! Moraes, vieste salvar-me. Estou morto de fadiga. Escreve aí umas linhas.

— E eu! Pensas que tenho estado inerte? Já fiz para cima de vinte discursos. Estive com o Bivar, está sem voz. Mas que belo, hem? — exclamou o poeta com entono. Que vitória...! A conquista do talento, hem? Decididamente não há arma como esta! — e empunhou uma caneta com orgulho. Sim, senhor! Arrastou uma cadeira, sentou-se e, diante das tiras, exclamou de novo: Bela coisa!

— Pois sim, pois sim, mas escreve.

— Que diabo queres tu que eu escreva?

— Escreve sobre isso mesmo — a conquista do talento.

— Isso dá um artigo de duas ou três colunas. Queres?

— Não, filho; sê sóbrio, estamos ameaçados de greve. Sê breve e forte.

— Pois sim. E pôs-se a escrever balançando a perna. De repente, porém, uma voz rouca bradou na rua: "Viva José do Patrocínio! Viva Joaquim Nabuco!" Anselmo correu à janela, palpitante. Estava uma multidão diante do escritório e um mulato gordo, esbaforido, atirando o chapéu ao ar, fazia enorme algazarra. Anselmo desceu e, rompendo o povo, chegou ao homem que logo avançou, rouco, encharcado de suor e apertou-o nos braços, gritando com fúria: "Viva José do Patrocínio! Viva a Cidade do Rio! Primeiro jornal do mundo!" E, sem mais, arregaçando as mangas do casaco surrado, subiu para o balcão e, com grande esforço, arrancando as palavras, pôs-se a falar:

"Cidadãos, não há mais escravos no Brasil. Aqui agora todo o mundo é livre, não há negro nem branco, há brasileiros..."

Rugiram: Apoiado! E o orador, entusiasmado com o acorçoamento do povo, pôs-se nas pontas dos pés e, cada vez mais rouco, continuou:

"Ontem era o castigo: era a mãe arrancada ao filho, o filho arrancado à mãe, uma patifaria, uma pouca-vergonha...! Súcia de vagabundos que queriam viver à custa dos desgraçados. Pois agora que vão trabalhar... Cidadãos, a nossa pátria estava manchada... (Apoiado!...) a nossa pátria estava manchada, mas de hoje em diante, podemos dizer com orgulho que somos brasileiros, porque já não há escravos em nossa terra. Viva José do Patrocínio...! Viva Joaquim Nabuco...!" E saltou do balcão.

Dando com os olhos em Anselmo o mulato adiantou-se e, posto que o secretário não o conhecesse, não se revoltou com a intimidade com que foi tratado:

— Passa um cigarro. Ah! Não imaginas como estou: não tenho voz, a camisa está como uma papa, mas também ontem berrei como um danado. Que pensas? Eu cá não conto com desgraça, sou homem! Se grimparem comigo, ahn! Mas passou, hein? E atirou uma palmada ao ombro de Anselmo.

— Por quantos votos? — perguntou um sujeito magro.

— Sei lá de votos! Sei que passou e se não passasse voava a quitanda: os cabras estavam dispostos. Meti lá a minha gente e aquilo era só um grito.

— E o José?

— Que José?

— O Patrocínio...

— Sei lá. O cabra fica hoje sem costela. Ontem andava no ar que nem o Blondin. A gente só via a cabeça e os bracinhos do preto... Mas é homem, deixem lá! Homem mesmo! E sacudiu-se urrando: Viva o grande abolicionista José Carlos do Patrocínio!

O povo correspondeu com delírio.

— Qual! Quando eu digo... Há aí alguma coisa que se beba? Estou zarro. Viva Joaquim Nabuco! Diabo! Esta gente não presta. Vou ver a minha cabralhada, quero fazer hoje uns bonitos nesta cidade. Olhe! Eu não tenho nada com isso, sou mulato, mas nunca fui escravo, é preciso que se note; mas sou brasileiro, não queria a minha pátria manchada, ahn! Isso é que é.

Luiz Moraes, tendo concluído o artigo, despediu-se para almoçar e Anselmo esquivava-se ao mulato gordo quando Montezuma, amarrotado e gotejante, abrindo o grupo dos populares, apareceu no escritório com gestos largos e um embrulho:

— Então, Montezuma?

— Consummatum est. Patrocínio está imortal e aqui está o dinheiro. Suei! Agora, antes de fazer o pagamento, eu devia desafivelar uma descompostura das minhas, porque o procedimento dos tais senhores tipógrafos não tem classificação. Vamos lá para cima contar isto. E você, homem, disse, dirigindo-se ao gerente, sempre acabrunhado, mova-se, trate de arranjar algumas bandeiras e flores. É preciso que o jornal apareça digno.

— Mas como, senhor Montezuma? Tenho seiscentos réis em caixa. E uma desgraça... Mas que hei de fazer?

— Levante-se, tenha energia. Eu, no Rio da Prata, fiquei uma vez sem um níquel, pois, meu amigo, não descorçoei: pus-me em campo, furando a vida, e, à tarde, estava com o bolso cheio de duros e rodando em Palermo. Mova-se, vá aqui ao Alves sirgueiro e peça umas bandeiras, alugue-as, compre-as; vá depois à Rosenwald e diga-lhe, em meu nome, que venha enfeitar a sala de trabalho do José.

— Bandeiras de que país, senhor Montezuma?

— De todo o mundo: brasileiras, portuguesas, russas, africanas, chinesas, alemães, as que encontrar. Mas ande!... Mova-se!

— Vou calçar as botinas.

— Que botinas? Pois você está ao balcão sem botinas?

— Sim, senhor, por causa dos calos.

— Onde foi o Patrocínio descobrir este homem? Antes de ser gerente que diabo era você...?

— Condutor de bonde.

— Ahn! E querem que este jornal ande para diante com um condutor ao balcão! Pois sim! Vamos lá para cima.

E Montezuma avançou para a escada seguido de Anselmo, sempre a resmungar contra os compositores e contra o gerente. Diante da mesa do Patrocínio deteve-se meneando com a cabeça. De repente, resoluto, atirando o chapéu ao divã, arregaçou as mangas e, ordenando a Anselmo que fechasse a porta, pôs-se a rasgar os papéis que encontrava, pondo em ordem a mesa do herói.

— Montezuma, não rasgues os papéis. Olha que aí há coisas necessárias.

— Mais necessária é a ordem. Quer você que o povo que aí vem veja esta vergonha? Não, senhor. Que é do servente?

— Deve andar por aí.

— Pois é preciso que ele passe uma vassoura nisto. Vai chamá-lo e vê lá se esse condutor já foi ver as bandeiras e as flores. Um condutor na gerência de um jornal!

Anselmo saiu e, quando tornou com o servente estremunhado, ainda vestindo o casaco, Montezuma, de pé, admirava o trabalho que fizera e resmungava contra o gerente:

— Ao balcão, sem botinas! Falta de vergonha! Num dia como o de hoje! Então não está melhor assim?

— Parece.

— Parece não, está magnífico, tem aspecto. Vamos, homem, varra este gabinete.

— Já foi varrido.

— Como já foi varrido?!

-. Sim, senhor, de manhã.

— Pois não vês que está cheio de papéis?

— Mas eu varri.

— Pois varra outra vez. E leve aquela cesta lá para dentro. Sempre atarantado, Montezuma desfez o pacote e notas rolaram sobre o canapé. Vá chamar o paginador. Que venha cá em cima. Já tinha um maço contado e amarrado. E pôs-se a contar as outras notas.

— Estás rico, Montezuma?

— Rico, hem?... Foi uma campanha para arranjar dois contos de réis. Tudo fechado. Enfim... Vamos agora ver se enfeitamos isto. O gerente já foi?

— Creio que sim.

Vivas atroavam e, através do altissonante clamor do povo, distinguia-se o nome de José do Patrocínio.

— Está fresca a redação. Pois o José sabia disso e por que não mandou arranjar convenientemente o jornal? Que me falasse, que diabo! Se me houvesse dito, ontem mesmo, com dois homens, eu punha esta casa como um brinco. Mas não, é tudo para a ultima hora. Está fresca...

O paginador apareceu em mangas de camisa, radiante.

— O senhor Montezuma chamou-me?

— Sim, estão aqui as quinzenas — isto é: uma quinzena; vou ver se posso arranjar a outra para amanhã. Que esperem, eu também espero; todos esperam. E a folha?

— Está pronta.

— Pois é pô-la na rua.

— Já está rodando.

— E o gerente?

— Saiu.

— Ora graças a Deus! Que é do servente?

— Estou varrendo. O senhor não mandou varrer?

— Sim, mas depressa! Que diabo! Estás dormindo em pé!

— Eu não sou máquina.

— Bem vejo que és um pedaço de idiota, mas anda com isso.

O homenzinho resmungou e Montezuma ia dar uma ordem, quando o povo, que se havia ajuntado diante do jornal, prorrompeu em vivas. O grande velho ficou atordoado: ia e vinha com o pacote de notas, gesticulando, sem saber que fizesse, quando, da rua, começaram a bradar por alguém. Voltou-se impetuosamente para Anselmo; ia dizer-lhe alguma coisa, mas resoluto, avançou para a sacada, sendo recebido com uma prolongada salva de palmas. Pigarreou e, gesticulando desabaladamente, sempre com o pacote de notas na mão direita, disse:

— Meus senhores... Depois, voltando-se, chamou o secretário, que ria a bom rir, vendo-o naquela entalação: Toma conta deste dinheiro enquanto eu digo duas palavras ao povo.

Entregando o pacote declarou, muito rouco, atirando os braços como se nadasse:

— O Patrocínio não está e eu... em nome da Cidade do Rio, só posso dizer... Pigarreou, passou o lenço pela fronte, fez um aceno de adeus e disse naturalmente com os olhos no La Paix: Como vais, Coutinho?... Depois, lembrando-se do discurso, concluiu-o: Viva a Liberdade!

O povo aclamou-o delirantemente e Montezuma, recolhendo-se, depois de agradecer, perorou vitorioso:

— Isto é assim... A gente diz duas coisas e está acabado. O povo não há de ficar aí a ver navios.

Mas a onda, que avançava compacta, atroava os ares com uma grita estentorosa. Anselmo chegou à janela comovido. A rua estava apinhada, densa e fervilhando, e todos os olhos fitavam a tabuleta do jornal que fora o reduto da abolição. O dia, muito azul, concorria para a imponência da festa e o povo, frenético, agitava-se com um sussurro perene. As bandeiras balouçavam-se, estouravam foguetes, vivas estrugiam.

Da janela de O Paiz um redator, purpúreo e suado, arengava. Mas o povo reclamava a presença de Patrocínio e foi necessário que Anselmo, comovido, repetisse o que já havia dito Montezuma — que o chefe da propaganda não se achava presente. Mas o entusiasmo ia-se comunicando. Logo que o secretário, terminando sua explicação, levantou um viva à Pátria livre, unissonamente respondido pelo povo, da janela do hotel La Paix, um mocinho de bigode ruivo bateu as palmas e, assomado, começou um discurso retumbante, no qual, de mistura com deuses da mitologia grega, passou à figura ensangüentada de Marat, cantaram "jandaias em frondes de carnaúbas", deslizaram igaras, rebentaram grilhões. Como o orador tinha magníficos pulmões o povo, que não se preocupava com a forma e muito menos com a substância das orações, contentando-se com palavras que explodissem, rompeu em aplausos delirantes e, em seguida ao mocinho, outro começou adiante e, em pouco, em todas as janelas da rua do Ouvidor braços agitavam-se convulsivamente como se todos os moradores da apertada passagem houvessem enlouquecido.

Por fim, do meio da rua, apertados, constrangidos, agoniados, oradores começaram aos berros furibundos, fazendo a apologia do grande libertador, pedindo uma estátua, outros contestando, "que não! não havia necessidade de estátua, porque o vulto do grande homem havia de ficar no coração dos brasileiros e nas páginas da história".

Grandes e descabeladas hipérboles jorravam da boca dos tribunos, roxos de calor e de entusiasmo e o povo sempre a aplaudir com frenesi, batendo palmas. Montezuma, entusiasmado, queria, a todo o transe, fazer outro discurso; ia e vinha ao longo da sala com derramados gestos e o nariz carregado de pinces-nez, quando o Neiva irrompeu trovejando:

— Temos uma pátria! E atirou o chapéu sobre uma das mesas.

— O Neiva, vens a propósito. Vê se nos salvas.

— Que há?

— Dize da janela duas coisas ao povo, implorou Montezuma.

— Estou estafado. Venho falando desde o Largo de São Francisco até aqui. Deixem-me descansar um momento.

Da rua começaram a reclamar o Neiva, aos gritos; e o boêmio, levado aos empurrões por Montezuma, apareceu à janela sendo recebido com uma salva de palmas. O discurso que pronunciou, inspirado na religião, foi vivamente aplaudido. Ia ele perorando quando, pela travessa do Ouvidor, uma grande massa precipitou-se e Montezuma, com a sua carga de lentes, reconheceu, no meio do povo, José do Patrocínio. Então, acenando com um lenço roxo, o bom velho, em lágrimas, pôs-se a aclamá-lo.

O povo, que enchia aquela parte da rua do Ouvidor, com risco de sufocar alguns entusiastas, movendo-se aos recuanços, abriu alas ao herói.

Patrocínio vinha carregado e arquejante e, ao chegar à frente do seu jornal, aclamado por todos os seus companheiros de trabalho, inclusive os compositores que se apinhavam às janelas, não pôde conter as lágrimas.

O povo, vendo-o, prorrompeu em vivas e os populares que o carregavam, asfixiados pela multidão, reclamavam caminho, aos berros.

Um velho negro ajoelhou-se e, de mãos postas, com o pranto nos olhos, dirigiu-se ao libertador, e parecia que rezava diante de um santo.

Respeitoso silêncio permitiu que fosse ouvida a oração do infeliz:

"Nhô Patrucinu... Deu du ceu bençôe suncê. Eu, pobre véio, já não se importava co cativêro. Morte tá i módi libertá corpu di negru, cançadu di trabaiá, má zêre, nhô: fio, fia, neto piquinino, esse sim, i parceru turu... rapaziada moça, esse sim, vai pruvêtá liberdade. Nossinhô tá lá in cima; ele ha di óiá suncê, nhô Patrucinu. Antonce não hai Deu nu ceu? Viva o sarvadô di nóis! Viva!" e o negro, trêmulo, foi-se arrastando para beijar os pés do redentor da sua raça.

Patrocínio, porém, arrojando-se da charola humana, chegou-se ao negro, apertou-o nos braços e, em pranto, enquanto o povo comovido parecia petrificado, entrou correndo na Cidade do Rio.

Estava exausto e, quando viu os companheiros no patamar da escada, pediu que o deixassem em paz:

— Pelo amor de Deus, meus amigos, já não tenho costelas, estou macerado. Deixem-me!

— Não, tenha paciência.

E todos quiseram abraçar o valente propagandista que gemia.

A multidão bradava por ele e o herói, bambeando nas pernas, foi à janela corresponder à manifestação que lhe faziam. As suas palavras roucas mal chegavam aos mais próximos e, de longe, os que não o ouviam, bradavam, agitavam lenços, e de um a outro extremo da rua, o seu nome estrondava.

Até à noite, de quando em quando reclamado pelo povo, apareceu à janela. Fez discursos, levantou vivas, foi comprimido em braços, foi beijado. Se o viam na rua rapazes avançavam, atirando-se-lhe aos botões da sobrecasaca e do colete, disputando-os como relíquias. Às dez da noite — a cidade fulgurava iluminada -, tendo de sair para jantar, pediu uma guarda.

— Venham comigo, pelo amor de Deus. Imaginem vocês que um homem teve a idéia extravagante de pedir-me um fio de cabelo para um relicário. Se pega a mania, pelam-me. Tenham paciência!

Para garantir a barba e os cabelos do herói formou-se um grupo que o conduziu ao La Paix, onde foi servido o jantar. Logo à entrada os criados do hotel, desfolhando rosas, fizeram tamanho alarido que os que comiam avançaram pressurosos e, dando com o propagandista, foi tamanha a atroada que Montezuma, receando ensurdecer, espalmou as mãos nos ouvidos, declarando que nem no Paraguai ouvira rumor como aquele.

À mesa, mal havia tempo para levar-se à boca duas garfadas — de todos os cantos surgiam oradores com taças de champanhe, e eram discursos em todas as línguas: em inglês, em alemão, em italiano, em espanhol; houve um em turco e outro em grego e uma senhora, rubicunda e anafada, exprimindo-se em francês, fez estalar nas bochechas do tribuno um beijo sonoro "au nom de la fraternité". Explodiram urras! E como houvessem pedido uma omelette, o tostado apareceu, enorme e trêmulo, com as iniciais de Patrocínio muito espoucadas e uma rosa repolhuda espetada no meio.

Foi uma surpresa do maitre d'hótel que, por sua conta, muito generoso e comovido, mandou abrir uma garrafa de champanhe e bebeu à la liberté, muito rouco.

A retirada foi lenta e difícil. Havia gente de sentinela na escada e, quando Patrocínio, derreado e com fome, porque mal "'dera tocar nos pratos, apareceu no patamar, um rapazola esgoelou:

— Aí vem ele! E uma avalanche precipitou-se. E o mísero grande homem foi, de novo, comprimido e beijado e, por maiores que fossem os esforços empregados pelos companheiros para o arrancarem à turba, nada conseguiram. Patrocínio foi rolando na multidão como uma rolha no oceano e desapareceu. Viam-se-lhe, apenas, o braços que se debatiam aflitamente. Estaria agonizando? Pedindo socorro ou aplaudindo? Mistério. O Neiva, lembrando-se da promessa que fizera, dirigiu-se aos companheiros:

— Nós não podemos ficar aqui de braços cruzados quando o nosso chefe corre tamanho risco. Se não acudimos imediatamente, levam-lhe os cabelos e a barba. O povo está com delírio epilatório. Vamos! E, corajosamente, meteram-se pela multidão.

Para caminharem da travessa do Ouvidor à Cidade do Rio foram necessários dois aflitíssimos quartos de hora. Montezuma perdeu um pince-nez e bramiu de cólera, defendendo os cinco que lhe restavam. Anselmo, asfixiado, queria usar da força e já estava disposto a fazer rolo para conseguir caminho, quando um compositor, homem de músculos, meteu os ombros e, como um Hércules, foi abrindo passagem, apesar dos protestos. Quando chegaram à Cidade do Rio a sala da redação estava apinhada de gente ansiosa, que reclamava o redator-chefe. Os rapazes pasmaram: Patrocínio não estava.

— Oh! — exclamou Montezuma.

— Oh! — repetiu o Neiva.

Anselmo balbuciou:

— Hom'essa! E todos, com terror, perguntaram: "Onde andará ele?"

O retranca, que tudo vira, declarou que o povo havia levado o chefe em triunfo, rua acima.

— É necessário salvá-lo! — bradou o Neiva.

E Pardal, que surgira, segredou: "Que estava armado para o que desse e viesse."

— Mas como havemos de vencer esse mundo que enche a rua? — perguntou o velho. Estou moído, pisado, sem pernas, com um pince-nez só. Não me atrevo.

— Mas havemos de deixar sozinho o desgraçado?

— Então? Eu não posso.

O Neiva, porém, atirando uma palmada ao peito, declarou com ênfase:

— Pois vou eu.... e hei de achá-lo!

Enterrou o chapéu na cabeça e ia já perto da escada, quando Anselmo declarou que o seguia, jurando com solenidade: "Para a vida e para a morte!" Pardal acompanhou-os.

— Para a vida e para a morte! — disse o Neiva; e desceram. Montezuma ficou para fazer as honras da casa.

De vez em quando surgia uma leva, subia as escadas com fragor, dando vivas a Patrocínio e, em cima, encontrava o velho. O intérprete dos sentimentos do grupo não esfriava e, avançando uma perna, esticando um braço derramava a eloqüência, entrecortada a urras pelo auditório. Montezuma ouvia com muita dignidade e, para corresponder, dizia algumas palavras atirava violentas braçadas, equilibrando o pince-nez que saracoteava. Isso começou às dez horas e até à meia noite, sem descontinuar, subiram comissões com oradores. Montezuma, de pé, com um fio de voz, roxo e hirsuto, foi respondendo, arrependido de não haver seguido com os rapazes, porque já se sentia exausto e com a língua mais seca que a de um papagaio.

Quando tornaram à redação Neiva, Anselmo e Pardal, acompanhados de Patrocínio, encontraram o bom velho estendido em uma cadeira de lona, em mangas de camisa, a abanar-se com um jornal.

— Que é isso, Montezuma!

— Estou liquidado! Vocês arranjaram-me bonita! Cheguem-se mais, porque já não tenho voz: foi-se toda em eloqüência. Fiz para mais de quarenta e cinco discursos! Eram tantas as comissões que, duma vez, subiram quatro com oradores e então, imaginem vocês, tive de responder aos quatro. Fiz como os padres, no tempo do cativeiro, quando tinham de batizar moleques — com um só discurso respondi a todos, foi só o trabalho de mudar o rótulo. Mas estou morto... E o José?

De um canto saiu um gemido esganiçado: era o propagandista, rouco, que explicava com um dedo na garganta, que estava sem voz.

— E tu não fizeste quarenta e cinco! — exclamou Montezuma.

Patrocínio tocou castanholas.

— Mais, homem!?

Novas castanholas de Patrocínio, seguidas de um assobio.

— Então foi um horror!

Sinal afirmativo de Patrocínio.

Estavam nessa discussão, castanholada e assobiada, quando uns rapazes, que haviam visto o jornalista entrar, invadiram o escritório, galgaram a escada e começaram aos vivas e logo um orador, diante da porta fechada, desfechou a primeira bomba:

"Prometeu, tu que roubaste o fogo sagrado da liberdade para alumiar a alma escura do cativo..."

Patrocínio caiu de joelhos, de mãos postas, como uma vítima. Montezuma vestiu o casaco, correu para a janela gesticulando desesperadamente. E o povo na rua prorrompeu em aclamações e palmas. Debalde o bom velho apertou a garganta, espichou o pescoço, explicando, com uma complicada mímica, que estava esgotado. O povo bramia, urrava, queria, a todo o transe, um discurso. Montezuma, desalentado, voltou-se para os companheiros:

— Como há de ser?

— Dize qualquer coisa.

— Como? Se não tenho voz.

— Com esforço.

E o velho pôs-se a rebuscar o pince-nez no bolso, achou um apenas, acavalou-o na penca. O povo continuava a reclamar, ele fez um gesto solene, espalmando a mão — que esperassem, abriu a boca e começou a tossir. Tossiu, descansou e disse o que lhe veio à cabeça adubando a facúndia com as palavras liberdade, reabilitação, misericórdia, hegemonia. Foi um delírio e da multidão saiu uma voz aguda e vibrante. Era outro orador.

Montezuma exaltou-se, enfureceu-se e, atirando grandes braçadas, declarou colérico:

— Não! Agora é demais! Não respondo...!

O "órgão" da comissão que subira, ululava à porta e Anselmo, que fora nomeado para representar a folha, ouvia impassível. Quando o homenzinho, afogueado, suando em bicas, deu por finda a arenga, o secretário respondeu: mas querendo dizer quatro palavras, foi alongando o discurso, arrastado pelo entusiasmo.

O Neiva, vendo tamanha prolixidade, indignou-se.

— Ora, estão vendo seu Anselmo! Pois não é que o homem está esperdiçando discursos. Em vez de poupar, porque vamos ter trabalho como o diabo, está a esticar a oração, e vai longe. Vou arrancá-lo.

— Não, deixa.

— E se vier outra comissão?

— Que se arranje.

— Mas é que o povo fica mal habituado. Já o tínhamos na dose das quatro palavras e agora vem esse Demóstenes com uma enxurrada de períodos. É um desperdício!

Foram necessários meios violentos para que o Neiva se contivesse — estava possesso. Felizmente Anselmo pôs remate ao discurso. Estalaram palmas. Montezuma e Patrocínio respiraram. Mas não foi longa a tranqüilidade: os rapazes começaram a bradar: "Queriam ver o grande homem, queriam abraçar Patrocínio" e foi mister dar-lhes caminho. A onda precipitou-se, invadiu o gabinete.

Patrocínio, muito mole, ergueu-se e, passivamente, deixou-se abraçar por vinte e tantos moços robustos, que o apertavam com entusiasmo, que o levantavam, sacudiam. E o mísero, risonho, guinchando, com muita emoção: "Obrigado! Obrigado!", soltava gemidos, de quando em quando, como se lhe estivessem a afundar as costelas.

Tudo parecia ter acabado quando um dos moços arremeteu, estirando o braço e bradou:

— Patrocínio, és um novo Cristo...

— Estamos perdidos, sussurrou Montezuma.

Patrocínio tomou um ar resignado e o orador prosseguiu, comparando-o a Jesus, dizendo, porém, que a cruz que lhe estava reservada não era a do suplício, mas a da história.

O Neiva fez uma careta à comparação, mas o orador, que a percebeu, quis explicar o seu pensamento, e embrulhou-se de tal modo que os próprios companheiros, querendo salvá-lo, romperam em palmas, e, de novo, foi Patrocínio apertado, beijado, levantado, sacudido; dando-se por muito feliz quando um dos rapazes disse estrondosamente:

— Vamos à redação d'O Paiz. Joaquim Nabuco e Quintino devem estar lá. Vamos!

— Pois sim, disse baixinho Montezuma, guardando o pince-nez, vocês hão de achar o Nabuco e o Quintino. Nem todos são tolos como nós.

Quando os rapazes, com um último viva estrepitoso, deixaram o escritório, Patrocínio, derreado, gemeu:

— Não posso mais. Essa gente não vê que eu sou um pai de família...

— E eu! — esgoelou Montezuma. Só lhes digo que com outra noite como a de hoje entisico. Estou com os pulmões em estado lastimável. Apre! Também tanto não... Quarenta e seis! Nem no Paraguai!

Capítulo XXVIII

Quando deixaram o escritório da Cidade do Rio, lentos, curvados como enfermos, ainda erravam entusiastas e alguns tão desequilibrados que começavam um viva numa calçada e iam terminá-lo na outra.

Sentados nas soleiras das portas, populares estafados faziam guarda às botinas ou resmungavam cabeceando. Como em cidade que se prepara, às pressas, para um assédio, em todas as esquinas havia montes de sarrafos e de tábuas; homens subiam por escadas altas e à luz fumarenta e escura de candeias, martelavam com fúria, cantarolando, assobiando.

No Largo de São Francisco um grupo, com violas e flautas, em zangarreio jocundo, atraía a atenção dos retardatários; e como uma voz fanhosa, que acusava zangurriana, levantasse um viva a José do Patrocínio, o abolicionista tremeu aterrado, e para que não fosse conhecido acolheu-se escondidamente aos companheiros, assombrado, pedindo, em voz surda, que não o deixassem exposto, o livrassem de mais um discurso e demais abraços. Passaram sem que os da serenata vissem o tribuno. Junto, porém, ao pátio exterior da Escola Politécnica, um noctâmbulo. reconhecendo-o, levantou o chapéu acima da cabeça e escancelou a boca, mas não pôde gritar: Montezuma, furente como Ajax, agarrou-o pelo colete e, com voz temerosa e rouca, ameaçou-o:

— Se grita, morre!

Mas o homem, de olhos esbugalhados, explicou que ia levantar um viva ao grande brasileiro.

— Aqui não há grande brasileiro, não há nada. Só te digo que se gritas morres...

— Então a gente não pode ter opinião?

— Não... Quarenta e seis! Sabes tu que são quarenta e seis discursos?

— Não, senhor.

— Pois sei eu que os fiz. Vai e lembra-te das minhas palavras: Nem um viva...!

— Pois sim, senhor... Boa noite. E desculpe.

— Está desculpado.

O pobre homem afastou-se intrigado com aquela agressão. Caminhava; mas, como se o entusiasmo o picasse, de quando em quando voltava a cabeça e lançava um olhar ao grupo em que se achava o abolicionista. Perto da rua da Conceição não se conteve — preparou-se para a corrida e, a plenos pulmões, lançou aos ares sossegados um estrondoso: "Viva José do Patrocínio!" Montezuma sapateou de cólera e quis sair em perseguição do recalcitrante, mas os amigos opuseram-se. Felizmente ninguém ouvira o grito. Ao longe a serenata continuava, lânguida.

— Queres saber, José? Acho melhor tomares um tílburi.

— Mas não há.

— Eu vou ver, disse Anselmo.

— E eu, ajuntou o Neiva.

— Então depressa.

Partiram os dois; e Montezuma ficou acompanhando o amigo e escondendo-o.

Pouco depois dois tílburis chegavam à disparada. Patrocínio precipitou-se para o primeiro, dizendo desafogadamente:

— Estou salvo!

— Boa noite!

— Dize antes: bom dia, emendou Anselmo, porque os galos começam a cantar.

— Bom dia então. Até logo.

— Não venhas hoje à cidade.

— É melhor.

— Eu, por mim, declaro que, enquanto houver festejos, não ponho os pés na rua. Estou com a garganta em mísero estado. Deixa-te ficar em casa. Já fizeste a grande obra; está a pátria livre; não queiras tu ser o cativo. Não venhas!

— Pois sim. Adeus!

E o cocheiro fustigou o cavalo, que partiu a galope. Pardal, que estava fatigado e ameaçado de enxaqueca, despediu-se também.

Diante do outro tílburi ficaram os três, Neiva, Anselmo e Montezuma, discutindo o grande fato. Montezuma, porém, não achava extraordinário o acontecimento: parecia-lhe muito mais importante a sua eloqüência.

— Meus amigos, a libertação dos negros era coisa esperada, a campanha havia de ter um desfecho, mas quarenta e seis discursos de improviso... ufa! No Rio da Prata, em presença do Urquiza, numa festa política, fiz quatro brindes e todos declararam, assombrados, que eu era um fenômeno. Os jornais comentaram, e, nos salões, durante mais de um mês, o assunto das palestras foi a minha exuberância. Que diriam aqueles homens se soubessem que, num dia e sem jantar, pronunciei quarenta e seis discursos com imagens? É um absurdo.

— E eu? — exclamou o Neiva. Cheguei a fazer dois discursos a um tempo, para andar mais depressa. E Patrocínio...?!

— Ah! Mas o Patrocínio tem o hábito da tribuna.

— O hábito não faz o monge, observou Anselmo.

— Aí vem você com os disparates. Vamo-nos embora. É tarde.

— Acho que é muito cedo. Começa a amanhecer. Se fossemos às ostras, no Mercado?

— É uma idéia.

— Toca para o Mercado.

E os três, despedindo o tílburi, desceram a rua do Ouvidor, que começava a enfeitar-se azafamadamente para a celebração da grande festa. E romperam a cantar, roucos, de braço dado, seguindo a passos largos:

Alions enlants de la Patrie Le jour de gloire est arrivé...

Um bêbedo, cambaleando, levantou um viva ao Brasil e começou a algaraviar um discurso. Tiniram campainhas e, no silêncio da rua, a voz de um tropeiro, que vinha tangendo a récua, rompeu afinada e dolente:

Eh! dona do xale branco,
Cumu é seu coração?
S'é máu, porque me buscou,
S'é bom, porque me diz não?
Eh! dona, eu não comprendo
Tamanha vacilação!...

— Deixemos passar a bucólica, disse o Neiva encostando-se à parede.

E a tropa, com um alegre tinir de campainhas, passou a trote lento.

Quando chegaram à rua Direita ainda havia sombra noturna. Italianos seguiam em grupos com os cestos pendentes dos paus. Carroças rodavam vagarosas, parando aqui, ali. Os três tomaram pelo largo do Paço. Montezuma, enfezado, resmungava:

— Que já não era homem para aquelas estroinices, estava com cinqüenta anos, era tempo de tomar juízo. Que havia de dizer em casa quando aparecesse? Contava com a guerra civil. Sempre que fazia alguma ao voltar caíam-lhe todos em cima: a mulher e os filhos, e era uma grita de enlouquecer. E com razão. Um homem como ele devia dar-se a respeito. Que diriam se o vissem, àquela hora da manhã, batendo a calçada, em troça?

— Ora, Montezuma! Deixa-te de escrúpulos. A vida é isto.

— Pois sim.

Chegavam ao largo do Paço.

Ao fundo, no mar, confundindo-se com as estrelas, luziam faróis de barcos e o relógio da companhia Ferry, iluminado, parecia uma grande lua muito baixa. Uma carroça, atulhada de verdura, passava aos solavancos. Tiniam campainhas e, de longe, no ar, vinha o cheiro acre da maresia. Cães rosnavam nos monturos. O mercado acordava. As diferentes barracas enchiam-se e, à luz do gás, os mercadores iam arranjando a hortaliça verdoenga, empilhando molhos de alface, de agrião, de couves. Os repolhos rolavam nos cestos, os rabanetes e os nabos confundiam-se e, constantemente, iam e vinham carregadores, com enormes cestos acogulados: arriavam, descarregavam e iam, a trote, algaraviando e rindo. Bácoros coinchavam, grasnavam patos, ganiam cães e os galos, pressentindo a manhã, cocoricavam triunfantemente. Uma negra, sentada num tamborete, mexia, com imensa colher de pau, a panelada de angu; outra adiante, cercada de negros e pescadores, enchia canecas de mingau de tapioca, respondendo, com calma, aos gracejos da freguesia. Nos açougues a carne sangrenta destacava-se: eram metades de reses, carneiros e porcos estaqueados e, no cepo, os homens iam esquartejando, espostejando a manchil e logo corriam aos ganchos espetando os grandes quartos que ficavam oscilando e sangrando.

— Onde vamos nós?

— Às ostras.

— E já haverá?

— Como não? Há ostras como há médicos: a qualquer hora do dia ou da noite, afirmou Montezuma. Eu conheço isto. Vamos ver o grego.

— Que grego...?

— Um que aqui há, do Pireu. Vende ostras quando não está na Detenção, ou no júri. É homem que abre barrigas com a mesma facilidade com que Hércules estrangulava leões. Dou-me com ele.

— Pois vamos lá ao grego.

Chegaram à praia justamente quando começava o leilão de peixe. As canoas, enfileiradas na rampa, estavam abarrotadas de pescado. Uma multidão fervilhava em volta, discutindo, berrando. Eram gritos, impropérios, pragas, ameaças e, vencendo o rumor, a voz tonitroante de um alentado cabo-verde apregoava. Em grandes cestos, em cambulhada na rampa, homens faziam escolha de ostras, abriam-nas entalando-lhes o facão entre as valvas e, arranjando-as em tampas, apregoavam: "Ostras frescas! Mariscos!"

— Vamos ao grego. E Montezuma encaminhou-se para o sítio em que estava o primeiro tabuleiro, mas deteve-se:

— Oh!

— Que é?

— Não é o grego. Querem ver que já está na Detenção?

Um homem alto, barbado, abria as ostras com um facalhão. Montezuma abordou-o.

— Bom dia, patrício.

— Deus lhe dê bom dia.

— Sabe dizer-me se o grego ainda vive?

— O grego...? Vossoria quer falar do Alexandre...

— Não sei se é Alexandre: o grego.

— Sim, senhor: o grego, é como l'o chamam. Ah! Foi filado desde pelo carnaval.

— Foi filado?!

— Sim, senhor.

— Está preso?

O homem, sempre a abrir as ostras, encolheu os ombros.

— Que quer vossoria... a polícia mete-se em tudo. A gente tem uma quistãzinha com um camarada, às vezes intê amigo e, cando mal se precata, está aí a patrulha com maus modos, azangando tudo...

— É verdade, apoiou o Neiva. Se não fosse a polícia não haveria tantos conflitos como há. O elemento de ordem é o principal desordeiro.

— Tal e qual! Vossoria fala como um adbugado.

— Mas que houve com o grego?

— Que hoube...? O que há sempre... Vossoria sabe, quem se mete com mulher fica com um pé cá fora e outro lá dentro. O Alexandre, em vendo mulher, até esquece o nome. Aqui assim ao lado ficava um rapazinho que tinha um diabo de mulata que até fazia tonteiras, palavra de honra; a gente punha-lhe os olhos em cima e aquilo era uma vez. Vossoria quer ostras? Estão frescas.

— Sim, queremos.

— P'ros três? Isto é um maná p'ro peito. Olhe, aqui vem todas as manhã um moço doutor que esteve disinganado, porque a tísica lhe comeu um pulmão, lá nele. Não tomou drogas, não Senhor, veio às ostrinhas e está que é um texugo: até parece que tem agora quatro pulmões. Se algum dos senhores tem moléstia do peito, não queira saber d'óleos de fígado, nem d'oitras mixórdias, atice-lhes... uma ou duas dúzias d'ostras pela manhã e um calixto do bom, e diga-me depois se o Timóteo tem ou não olho p'rá coisa.

— Chama-se Timóteo?

— De Azevedo e Almeida, p'rá servir a vossoria.

— Mas vamos ao caso do grego.

— Ah! Sim, ao caso do Alexandre... Mulheres, mulheres.

— O diabo são — disse sentenciosamente Anselmo.

— O caso foi o conseguinte. Os dois, o grego mal o mulato, fizeram-se de boa amizade, sempre juntos, mas não era pelos olhos do mulato que o grego andava perdido, que ele até, Deus não me castigue, tinha uma cara de desmamar crianças, o grego andava de olho mas era na cachopa, que era destorcida. E vai daqui e vai dali um dia zás! O grego meteu-se em casa e começaram os presentes e o homem ficou embeiçado duma vez, que até o serviço esquecia e, quando vinha à banca, em vez de tratar da vida, punha-se a arrancar suspiros e até tratava mal a freguesia. Estava virado duma vez. O mulato não dava pela coisa e a marosca já ia adiantada. Uma manhã, foi o diabo que se meteu no meio, o mulato estava aqui muito bem, a fazer o seu mercado quando, de repente, atirando a faca p'rá cima da banca, chamou um companheiro, entregou-lhe o negócio e coriscou por aí fora que nem um cão danado lhe tivesse ferrado os gravetos. Ainda me lembro que o Zé da Terceira perguntou se ele fugia do arrecrutamento. Eu sabia do caso, mas nunca pensei que o diabo do grego houvesse arranjado as coisas tão depressa. Eram onze horas, mais ou menos, quando a notícia bateu no mercado — que o grego havia esvaziado o bucho do mulato com uma língua de ferro.

— Por causa da rapariga? — perguntou Montezuma.

— Por minha causa não foi, isso garanto a vossoria. O mulato encontrou o grego no quente e, como dói à gente gastar o seu dinheiro com uma traidora, o rapazinho, queimado, desmunhecou com a navalha em cima do grego, que não ficou partido de meio a meio porque o diabo tem santo. Saltou da cama e, ligeiro que nem um raio, espetou o mulatinho, que ficou com tudo exposto e acabou sem ter tempo de tomar o Cristo. O grego veio logo p'rá praia, meteu-se num bote e mandou cortar para a ilha do Governador. Mas os manos foram dar com ele e lá o têm na casa-grande até que o Senhor seja servido.

— O mulato morreu?

— Se morreu!? Pois vossoria queria que um homem naquelas condições vivesse? Morreu e bonito.

— E a mulata?

— A gente sabe lá dessas criaturas? Anda por aí, hoje com um, aminhá com oitro. Já me andou por aqui a fazer fosquinhas, mas eu não quero endrominas com mulher que já puxou sangue. Que se arranje por lá com quem quiser. Comigo é que não, não tenho estômbago para essas coisas. Não há nada como a gente viver com o que é seu, deixem lá.

— É casado?

— Casado? Eu! Não, senhor. Vivo como casado, mas sou independente. Quando não me servir, boa noite! Passe muito bem e venha outra. Senhor doutor, vou para os quarenta e tenho visto muita coisa. Dois homens não brigam senão por mulher. Se vossoria vir um desgraçado com um palmo de ferro no corpo pode jurar que foi por questão de mulher ou de jogo, que é outra coisa danada. Eu também já estive para me perder, cheguei mesmo a meter na cava do colete o ferro, mas Nossa Senhora alumiou-me e, em vez de fazer uma asneira fiz uma coisa de homem de juízo — fui p'rá casa, agarrei a mulher pelo gasnete, dei-lhe um pontapé e mandei-a com Deus. Foi logo p'r'uma rótula e ainda me escreveu cartas, pedindo perdão e jurando que se havia de portar como uma santa; mas eu.. moita. Não, que quem escapa duma queda não deve ir espiar o lugar donde esteve p'rá cair. Que se arranje! Vai mais uma dúzia? Estão frescas e são de rocha. Eu cá não vendo ostras de navio; não, que tenho consciência. Já um pobre senhor, por sinal que era médico, escapou da morte por ter comido umas endiabradas, que vieram do casco dum pontão. Eu cá posso garantir a minha fazenda.

— Estão boas.

— Ah! E saborosas. Afiou a faca na borda da tábua, e, com um sorriso, para continuar a palestra, disse: Antonces agora não há mais escravos?

— Felizmente! — disse Anselmo sorvendo uma ostra.

— Felizmente, diz vossoria muito bem. Eu é porque sou pobre, e não ia oferecer um rico presente ao senhor Patrocínio. Grande homem! Aquele é como o Pombal que acabou com os jesuítas. De homem assim é que nós precisamos. Era uma vergonha, isso era! Um país rico como este não precisa de escravos. Eu digo a vossoria: se fosse coisa da gente fazer com armas, eu mesmo, estrangeiro como sou, saía p'ra rua e havia de fazer o meu filé. Porque, verdade, verdade, eu, com ódio, sou homem p'ra mandar um freguês desta p'ra melhor, num tempo; mas, a sangue frio, juro por Deus! Sou incapaz de bater num cão, num cão! Que até me perco muitas vezes pelo coração, e quando lia a relação dos castigos que sofriam os pobres negros, os fígados subiam-me à goela, palavra de honra. O senhor Patrocínio ganhou o céu.

— Conhece-o?

— A quem? Ao Zé do Pato? Ora! Meu freguês. De vez em quando aqui vem. Não come muito, é de pouco comer, meia dúzia d'ostras e já diz que tem p'ra o dia todo.

Tomou um ar grave e, limpando as mãos a um pano sórdido, disse como se jurasse:

— Agora ele pode vir aqui cando quiser; não lhe cobro vintém, sim, porque é até vergonha cobrar dum homem como aquele.

— Apoiado! — afirmou o Neiva.

E Montezuma, receoso de que o homenzinho levado pelo entusiasmo, quisesse improvisar um discurso, pagou e despediu-se:

— Às ordens de vossoria, Timóteo de Almeida.

— Sim, até outra vez.

Durante oito longos e agitados dias o povo festejou, com entusiasmo, a promulgação da lei igualitária. Anselmo, que conseguira o dom da ubiqüidade para poder gozar de todas as festas suntuosas e alegres que foram celebradas, como se já se houvesse habituado àquela vida de atropelo, acordando com o silvo agudo da máquina de uma fábrica, estirou os braços e bocejou com preguiça, deixando-se ficar na cama, a olhar o papel do quarto, manchado de umidade.

— E agora, seu Anselmo? A campanha está vencida... Quererá ainda o Patrocínio continuar com a Cidade do Rio? Com que programa? Enfim...

Levantou-se molemente, foi ao banheiro e, refrescado, vestiu-se e saiu.

A vida retomara o seu curso normal: pulsavam as grandes máquinas das oficinas, caminhões rodavam carregados, turmas de crianças, com os sacos a tiracolo, seguiam a caminho dos colégios. Reviviam os pregões dos vendedores ambulantes. Nas esquinas o calçamento estava deslocado, havia pirâmides de paralelepípedos e covas fundas; pilhas de sarrafos e panos sarapintados atravancavam as calçadas — eram os restos dos coretos que os operários desfaziam com pressa como bárbaros que destruíssem uma cidade. Escudos e lanças eram levados em carroças e calceteiros andavam a reparar as ruas esboroadas. Aqui, ali, às janelas, ainda esvoaçavam flâmulas esquecidas e bandeiras, muito espichadas e encolhidas, pendiam moles, como fatigadas. A cidade tinha um ar morno de cansaço. A rua do Ouvidor, acamada de areia, era como uma estrada fofa onde o rumor dos passos morria e toda a vida parecia decorrer, morosa e derreada, de um bocejo cavo e lento, de tédio.

Entrando na Cidade do Rio Anselmo perguntou por Patrocínio. "Já ali estivera, muito cedo, com um corretor", disse o gerente. Subiu. As salas estavam ainda desarranjadas. Grandes ramos de flores murchas jaziam pelos cantos, em abandono triste; bandeiras enchiam uma grande lata; do teto pendiam sanefas esvoaçantes e corimbos e sobre a mesa central, entre jornais, havia uma corbeille atufada de rosas dentre as quais passarinhos, de asas abertas, pareciam querer fugir para o espaço luminoso.

Anselmo procurou umas tiras e, afastando velhos ramalhetes, que entulhavam a sua mesa, pôs-se a escrever maquinalmente. Embaixo, na oficina, os compositores chalravam. Justamente terminava a crônica e começava a rubricar o noticiário quando Patrocínio apareceu esbaforido com o chapéu derreado à nuca. Atirou-lhe uma palmada ao ombro e sentou-se à secretária procurando alguma coisa nas gavetas.

— Então, José... Que vamos fazer agora?

— Hem? Escrevia, muito inclinado, de costas para o secretário.

— Qual é o teu programa?

— Que programa? Ergueu-se e, sorrindo, estendeu a mão: Dá cá um cigarro. Perguntas qual é o meu programa?

— Sim. Conquistaste o teu ideal e agora...?

— Agora?... E, rindo, inclinou-se ao ombro do companheiro, dizendo-lhe ao ouvido: Agora vou ali ao banco com esta letra arranjar dinheiro. Os rapazes estão lá embaixo trabalhando e... Já almoçaste?

— Ainda não.

— Então espera-me no Globo, ao meio dia. Ia saindo, mas voltou-se: Olha, manda limpar a redação que está imunda, ouviste?

E desceu as escadas precipitadamente.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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