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A conquista

Coelho Neto

Capítulo V

A casa estava em silêncio. A candeia, diante da escada, espichava uma chama comprida e fumarenta alumiando os primeiros degraus, o resto do lance perdia-se na escuridão e foi aí, nesse tenebroso e arriscado sítio, que o primeiro beijo longo selou o juramento passional feito no bonde. Ruy Vaz e Toledo dormiam a sono solto quando os dois atravessaram a sala em passos surdos, a caminho do quarto do misantropo. Anselmo ia riscando fósforos pelo corredor por onde os ratos fugiam atropeladamente.

Oh! Essa primeira noite, desde que um sopro extinguiu a luz! Ó ardentíssimo Bartriari. Ó penseroso Babravia e tu, voluptuoso brâmine Vatsyayana, autor dos shastras fesceninos; e tu, Ovídio; e tu, Propércio, vós todos quantos cantastes o delírio erótico em estrofes mais estimulantes do que a decocção afrodisíaca da Uchala ou do que o mel do Hymeto, doce e rejuvenescedor, que admiráveis páginas daríeis se pudésseis, de um canto, velando, como velaram Anselmo e Amélia, ouvir as entrecortadas palavras trêmulas, ouvir os beijos alucinados e...

Se conhecêsseis a qüinquagésima estrofe do 8o canto do poema do Ariosto:

"Tutti le vie, tutti li modi tenta; Ma quei pigro razzon non peró salta: Indarno li fren gil scuote e lo tormenta; E non puó far que tenga la testa alta. Alfin presso alla donna s'addormenta. ..........................................................."

Imaginai o oposto dessa miseranda cena entre o eremita e Angélica, na praia; imaginai e tereis o que aquelas paredes graves da alcova ascética do triste não viram, mas ouviram, se, em verdade, as paredes têm ouvidos.

Depois dessa noite febril, Anselmo, como se houvesse perdido a noção do seu destino, esqueceu os livros à poeira e à traça, esqueceu sobre a mesa desordenada as primeiras tiras do romance, que tão interessadamente começara por uma larga descrição da vida rural com muita bucólica, sob um sol abrasado, entre cabanas e matas virgens, louros canaviais e águas fugitivas e os dias, ou passava-os molemente estirado na cama, a repousar da noite esperando a noite, ou ia gastá-los em casa de Amélia, muito lúbrico, enquanto Ruy Vaz, em excitada febre de trabalho, mal aparecia aos amigos e o Toledo, com todos os ossos do crânio na cabeça, passava à coluna raquidiana, passeando pelo corredor com vértebras na mão e vértebras nos bolsos.

Amélia mudava-se paulatinamente para a rua Formosa. Alta noite, um tílburi parava à porta e Toledo, o paciente anatomista, era despertado para ceder o quarto e, sem queixa, com os retratos respeitáveis e o seu lençol, transferia-se para a cama de Anselmo; e a atriz instalava-se. Já no mirante, ao sol, vestidos tufavam-se, meias de seda rolavam pela casa; nos cabides, juntamente com os paletós e as calças, havia camisas e saias rendadas, um chapéu, cercado de plumas, enfeitava, como um ornato extravagante, a mesa do autor de A Profecia e, nos róis de Anselmo apareciam, na promiscuidade das ceroulas e dos colarinhos, calças de senhora, saias brancas, camisas e outros panos adjacentes.

Pelas paredes eram sem conta os retratos da atriz em diferentes peças: ora de fada, ora de pajem, ora de escrevente. Aqui, com ares régios de soberana; ali, risonha, mostrando os dentes, numa garridice de soubrette e um, maior que todos, no qual era vista deitada sobre um divã, olhos semicerrados, fumando. Ruy Vaz achava aquilo imoral e o Toledo, para que os seus progenitores não aparecessem em companhia tão desbragada, trazia os dois retratos no bolso recatadamente.

Dona Ana, encontrando uma manhã Amélia no corredor, plantou-se de mãos à cinta no patamar trincando os beiços e, logo que a atriz desapareceu, esbravejou com todo o poder dos seus pulmões.

— Que não queria gente daquela laia na sua casa, aquilo não era zungu! Que os sem-vergonha vissem que ela tinha uma filha solteira. E jurou que, se encontrasse outra vez a sirigaita, agarrava a pelo gasnete e atirava-a da escada abaixo. Anselmo, melindrado, quis descer para fazer calar a viúva, mas Ruy Vaz acalmou-o:

— Que vais fazer, desgraçado? A mulher tem razão. Pensas que é pela moralidade da casa toda essa cólera? Estás enganado — é pela decepção. Para Dona Ana, Amélia não é uma devassa: é uma rival da filha. Ela contava contigo para Vidinha e, como vê a rapariga entrar e sair, vocifera desesperada compreendendo que ela vai desviando um partido. Eu já tinha percebido as intenções da velha, calava-me porque entendo que nunca se deve matar uma ilusão, que é a matéria-prima da esperança. Pensas que esses alguidares de arroz, esses pratarrazes de ensopado, esses assados, mais altos do que o Himalaia, e esses lagos de consomê e esses outonos que enchem as fruteiras e tudo mais que vem das cozinhas de Mme. Gargamela são por conta da minguada mensalidade que lhe damos? Engano: são engodos, são como presentes de núpcias, é a corbeille com batatas, é um trousseau de cebolada, é o enxoval do estômago, o morghengabe adiantado. Ela seduz o ventre, suborna a pança. A mulher quer prender-nos pela boca, é uma pescaria em regra. Vamos comendo a isca que é excelente em qualidade e em tempero e não nos preocupamos com o anzol. Compreendes: ela sabe dos meus amores com Elvira, já a viu entrar aqui mais de uma vez e a Elvira é mais tapageuse do que a Amélia; ela sabe que o Toledo só ama os pais e os ossos do seu esqueleto... contava contigo e, justamente quando temperava com mais ciência os escabeches e vestia com mais luxo a filha, eis que lhe surge o contratempo. É mesmo para uma mãe de família perder a cabeça, pensa bem. Que te custa fazer um sacrifício...?

— Casar com Vidinha! — exclamou o estudante aterrado.

— Eu matava-te! Nunca! Casar... nunca! Contemporizar... sempre. Namora... que custa? Olha que estamos magnificamente instalados. Pensa no futuro! Não encontramos no Rio de Janeiro, pelo preço, casa como esta, apesar do Cranium... e dessa noiva de... Dâmocles. Pensa um pouco. A precipitação é má conselheira. Olha Safo: precipitou-se de um rochedo e foi o que sabes. Pensa.

Ouvindo os sábios conselhos de Ruy Vaz, Anselmo já se dispunha a recomeçar o flirt com Vidinha quando, uma madrugada, por volta das duas horas, a rua despertou ao rumor de tremenda matinada. Era um alarido atroador: cantavam a Marselhesa, levantavam vivas. Janelas entreabriam-se receosamente, vizinhos sonolentos espiavam intrigados.

Ruy Vaz, ouvindo da cama, deixou-se estar debaixo dos lençóis julgando, a princípio, que era alguma manifestação que se recolhia, mas subitamente saltou descalço, em camisa, assustado. Arrombavam a porta e, da rua, gritavam por eles numa fúria, como se houvesse incêndio no prédio. O estudante saltou também da cama e correram ambos à janela. Estavam à porta dois carros e um grupo de homens e de mulheres com velas em mangas de papel. Logo que os viram aparecer os da rua prorromperam em vivas! E atiravam-se à porta. Ruy Vaz murmurou:

— Estamos perdidos! Efetivamente... Dona Ana, descalça, com uma vela, entre Vidinha e Leonor, em fraldas de camisa as três, rompeu o alarido no patamar da escada:

— Súcia de vagabundos! Não abro! Vão bater no diabo que os carregue, pelintras! Isto aqui é uma casa de família. É porque não tenho um apito. Mas as pancadas na porta redobravam e o vozeirão enchia a rua:

Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé...

— Vai buscar um apito, João. Eu mostro a essa súcia. Corja!

— Ah! Mamãe, choramingou Vidinha, é melhor abrir... Eles estão furiosos, são capazes de fazer alguma coisa. Vai abrir, Leonor.

— Eu não! Pois eu hei de ir assim em fraldas de camisa para eles me agarrarem? Deus me livre! Começou um zé pereira formidável à porta, que tremia ameaçando ceder, apesar da tranca. Dona Ana irrompeu falando para o segundo andar:

— Rua! Não quero um só aqui! Rua! Isto não é estalagem, seus vagabundos! Rua! Rua! Mas Ruy Vaz, o conciliador, desceu dois degraus. As mulheres, ouvindo os passos do romancista, fugiram espavoridas bradando — que estavam em camisa!

— Não faz mal, disse ele tranqüilamente, descendo: estamos em família. Mas fecharam-se as três na sala de jantar e Dona Ana bramiu através da porta:

— Rua! Amanhã mesmo!

— Ouça, Dona Ana, disse o romancista, muito calmo.

— Não quero saber de histórias. Rua! Estou farta! Não dou mais comida! Arranjem-se!

— Isso é natural, Dona Ana. Ouça-me.

— Qual natural! Entreabriu a porta e, mostrando pela fresta o seu imenso nariz, esgoelou: O senhor acha que uma pouca-vergonha como essa é natural? Que hão de dizer os vizinhos? Que isto aqui é uma casa de deboche e que eu e minha filha somos vagabundas como essas que estão aí. Não! Rua! Amanhã mesmo... Ponham os cacos lá fora! Não dou mais comida...! Quero alugar a minha casa a gente séria.

O rumor ia em crescendo formidável. Uma mulher pôs-se a berrar:

Minha bela Florentina Sol de amor que minh'alma ilumina...

— Mas ouça, Dona Ana... O romancista tentou abrir a porta, mas a viúva rugiu:

— Eu estou em menores... Saia para lá homem!

— Ouça, Dona Ana. Realizou-se hoje o ensaio geral da minha peça e os rapazes querem fazer-me uma manifestação. Está por demais ruidosa, concordo, mas é natural... Todas as manifestações são, mais ou menos, ruidosas. O caráter da manifestação, quando é sincera, é o ruído. Não se zangue. De repente a tranca caiu com estrondo e uma horda arremessou-se para a escada com luminárias bradando:

"Viva Dona Ana! Viva a dinamite que é o princípio da igualdade humana...! Vivaa!" E uma voz espremida esganiçou: — Vii... mas não concluiu. Ouviu-se o espoucar de uma garrafa nos degraus da escada.

— Desastrado! Como é que abres mão da felicidade? — exclamou o Neiva vendo o Lins estupefato diante dos cacos da garrafa, com os pés num córrego espumante.

— É a primeira vez que o vinho me desce aos pés, disse o poeta lastimosamente. E o bando precipitou-se em tumulto, escada acima.

Era uma invasão. Rompia a marcha Anselmo que fora abrir a porta dando os braços à Amélia e a uma rapariga tímida que atordoada, com um sorriso imbecil nos lábios descorados. Seguiam-se o Neiva, com um grande embrulho; o Lins com uma bojuda garrafa; Duarte com um pão, grande como uma massa de sílex e dois outros, Crebillon, conterrâneo de Anselmo e de Ruy Vaz, ruivo, de cavanhaque flamejante, portador de duas garrafas, e o Martins, ex-colega de Anselmo em S. Paulo, de óculos escuros, com uma valise.

Chegando ao patamar atroaram a casa com um hurra! que fez saltar de um canto, espavorido, o gato venerando de Dona Ana, que se pôs a miar arranhando à porta da sala de jantar.

Ruy Vaz, vendo a corte, saiu-lhe ao encontro para pedir compostura, mas ao darem com ele, os noctâmbulos irromperam em saudações frenéticas, mostrando os presentes e não houve meio de convencê-los de que estavam em um quarteirão pacato, em casa de uma família de hábitos patriarcais, às duas horas da manhã. O Neiva berrava como um energúmeno, comandando a expedição, e foram pelo segundo lance da escada com estridor. Ao alto estava o Toledo enrolado no robe de chambre, com uma vela, alumiando. O Neiva bradou:

— Bravos ao Hamlet! E o Lins levantou um viva ao "Farol da civilização!" Logo que chegaram à sala, depondo os embrulhos, enquanto o Duarte, desfazendo um pacote de velas, distribuía uma iluminação profusa, aproveitando igualmente os cotos que haviam trazido resguardados em mangas de papel, o Lins fazia questão do robe de chambre do Toledo e Amélia punha-se à vontade. Ruy Vaz quis conhecer o motivo daquela manifestação noturna e o Neiva, tomando a palavra, explicou, facundo:

— O Acaso, que é o título com que a Providência passeia incógnita entre os mortais, fez com que nos reuníssemos hoje na Maison Moderne. A Fortuna dispensara-nos vários dons da sua cornucópia abundante e o bom-humor foi o arco de aliança que nos uniu. Tomamos conta da mesa maior, que foi franqueada a quantos apareciam famintos ou sedentos. A sala parecia, mal comparando, um quartel de eleitores em dia de eleição. A cozinha e a adega passaram por nós em procissão pantagruélica. Foi uma festa digna de Sardanapalo. À falta de assuntos para brindes, como fazia parte do grupo o nosso precioso Crebillon, glória do Norte, travamos uma luta como a de Watburgo, tomando por tema o cavanhaque flamejante do valente abolicionista e correram rios de Bourgogne, rolaram catadupas de Champanhe. À meia-noite surgiu o Martins que aí está de guarda-pó no braço e valise à mão, procurando a matalotagem que encomendara, porque vai hoje para o Friul Paulista. Tomamo-lo e a ceia foi por diante. Já empazinados, lembramo-nos de vocês e houve um clamor geral, um clamor altruísta, digno de Comte: "Pobres homens! Enquanto aqui nos banqueteamos copiosamente, eles dormem sem ceia, num quarteirão obscuro da rua Formosa. Façamos uma carga e parta-mos para esse retiro... Eles terão um alegre sonho, o Martins, a dois passos da estação, poupará o dinheiro que reserva para o tílburi e nós outros veremos o rosto cor de rosa da aurora quando ela vier correr o reposteiro da noite diante do sol." Como não há prazer completo sem mulheres, arrancamos a Amélia às garras de um comendador lascivo lembrando-lhe os juramentos de fidelidade e mostrando-lhe o caminho do dever honesto e raptamos esta "sabina" pudica, que está em caminho do escritório do Silva Araújo. Viemos cantando e rindo e aqui estamos nesta bastilha feroz. Tenho dito.

Mal o Neiva terminou a sua oração, o Duarte pôs-se a desfazer os embrulhos e apareceram lascas de fiambre, fatias de mortadela, ostras e camarões recheados; pimentões rolaram sobre a mesa e um fornido roast-beef reluziu gorduroso, cercado de farofa, como uma pirâmide num areal revolto. Havia três copos, dois foram oferecidos às damas e o terceiro foi posto à sorte cabendo ao Lins. Mas onde estava ele? Roncos tremendos vinham da alcova da sala. O poeta, enrolado no robe de chambre, como uma múmia nas suas tiras, dormia com a bojuda garrafa aconchegada ao seio.

Puseram-se à mesa, mas com tão estrondosas gargalhadas que Dona Ana recomeçou os bramidos na escada protestando contra o escândalo, ameaçando com a polícia. Crebillon, torcendo o cavanhaque rutilante, propôs uma descida ao primeiro andar, comprometendo-se a trazer a senhoria e a filha. Era curado, as cobras não lhe faziam mal, podia, sem receio, lidar com a jararaca. Ruy Vaz, afagando as mãos grosseiras da jovem "sabina", prometia-lhe amor eterno e um chapéu. Anselmo fazia uma cena de ciúme com Amélia por causa do comendador, enquanto o Duarte, sempre dado às musas, completava um soneto entre as vitualhas, quando Neiva, Crebillon e Martins desceram solenemente para buscar Dona Ana e Vidinha. Mas a viúva correu a trancar-se na sala de jantar arrastando a mesa para junto da porta, a bradar: que iria para a janela pedir socorro se continuassem. Vidinha soltava agudíssimos gritos invocando santos e João explodia em obscenidades e ameaças. Os três desistiram da empresa e, quando subiram, o Duarte recitava ao Toledo o soneto que concluíra e mais ninguém havia na sala. Pasmaram e Crebillon, assomado, quis dar uma busca na casa quando um grito horrível repercutiu no corredor e a "sabina", lívida e trêmula, com os olhos enormes e as roupas em desordem, apareceu na sala, rolando, sem forças, sobre o canapé. Acudiram com vinho mas a pobre rapariga tremia com os olhos na porta que abria para o corredor, batendo os dentes, num pavor inenarrável.

— Esta mulher viu alguma coisa séria, disse Crebillon sisudamente e o Neiva, com o copo nos lábios da "sabina", enquanto ela bebia, tocando com os dentes um trêmulo no cristal, afirmou:

— Coisa muito séria! Para um susto como este! E indagou: Mas que foi? Que viu você lá dentro? Não me consta que esta casa seja mal-assombrada.

— É! — exclamou ela.

Mas Ruy Vaz entrou indignado:

— Ora, seu Toledo, por mais que eu diga que não deves andar com aquele estafermo de um lugar para outro, é escusado. Aí tens... Não é a primeira peça que me prega o tal arcabouço.

— Que estafermo? Que arcabouço?...

— O esqueleto. Imaginem vocês: um esqueleto, de paletó saco, sentando diante da mesa com ares de quem vai compor um poema macabro. Isto é até profanação...

— Eu não o sentei nem tampouco o vesti.

— Está sentado e de casaco, afirmou a "sabina". Está sentado, muito teso, com as pernas esticadas e os braços na mesa. Parece até que está escrevendo.

— É a mão do finado, disse o Neiva e a "sabina" continuou:

— Eu fui em cima dele no escuro e, tateando, senti a dureza dos ossos, depois uma coisa redonda, lisa, gelada que parecia uma melancia. Desconfiada, pedi ao senhor Ruy Vaz que riscasse um fósforo e, quando ele riscou... Nossa Senhora! Escondi o rosto nas mãos, aterrada. Por que não mandam enterrar aquilo? É de seu pai?

— Não, senhora, aquilo é a base da ciência.

— Que ciência! Aquilo é osso de defunto. Ainda se fosse de algum parente seu, mas não sendo... Deus me livre de ter uma coisa daquelas no quarto, perto de minha cama. Até era capaz de vir uma noite dormir comigo! Cruzes!

— Isso não, cabocla, disse o Neiva: o esqueleto deu baixa. Àquele é que tu não apanhas. Contenta-te com a carne, filha, não queiras ainda roer os ossos.

— Deus me livre de voltar aqui!...

Eram dez horas da manhã, o sol entrava em grandes jorros pela sala quando o Duarte, espreguiçando-se, bocejou alto; vendo, porém, a luz, ergueu-se de um salto do monte de jornais que lhe haviam servido de leito, bradando pelo Martins:

— Levanta-te! São horas! Olha que perdes o trem! Procurou pela sala, que estava numa desordem lamentável. No canapé dormia o Neiva com a cabeça sobre dois grossos relatórios. Crebillon roncava espichado na cadeira de balanço e o Toledo, com a cabeça repousada nos braços, sobre a mesa, parecia de pedra. E o Martins? Havia desaparecido. Teria ele passado a noite em claro para não perder o trem, escapando-se sub-repticiamente à hora? O Duarte alarmou a casa e todos despertaram amarrotados, com escancarados bocejos.

Sendo a descida ao Cranium mais arriscada para as damas do que foi, para os argonautas, o desembarque em Colchos, considerados, com o devido respeito, o pulso masculino da viúva e a fúria que nela tomou a feição ameaçadora de loucura, constituiu-se um corpo de proteção que, em caso de necessidade, reagisse energicamente defendendo as costelas delicadas de Amélia e os delgados braços da "sabina". Por decência, porém, não querendo que se reproduzisse a cena indecorosa do areópago, sem os nobres intuitos que levaram Hipérides a desnudar Frinéia, a falange, que tinha no Lins o seu Tirtéu, ficou à distância enquanto o fragilíssimo sexo desbesuntava as carnes pecadoras.

Depois de Eva foi içado o Lins porque, com a perna mais rija do que o braço da figura principal de A Barricada, não podia galgar as bordas da cuba. E seguidamente, um a um, com trabalho, aspergiram-se todos com as gotas avaras do reservatório. Refrescados, esperavam pacientemente que Leonor, como de costume, subisse para estender a toalha, mas as horas iam passando lentas sem que a negrinha aparecesse. O Lins foi examinar a chaminé — fumegava, mas era tão tênue o fio de fumo que o poeta, em grande desânimo, atirando-se a uma cadeira, balbuciou:

— Não é possível que tenhamos bife. Pela fumaça calculo o almoço que lá estão cozinhando em dois pratos minguados. E Ruy Vaz suspirou:

— Dona Ana cumpre a palavra: estamos sitiados pela fome. Que havemos de fazer?

— A guarda rende-se, mas não morre à míngua! — exclamou o Neiva. Vamos depor as armas. Quem há de ser o parlamentar?

— Eu vou! — disse Anselmo.

— Não! — bradaram todos, aclamando Ruy Vaz, por ser o mais prudente e o mais conceituado. Ruy Vaz resignou-se e desceu. Em cima os rapazes ficaram catando migalhas da ceia e, quando o romancista apareceu, avançaram todos perguntando com ansiedade:

— Então?!

— Nada, meus amigos! Inflexível como a espada de Rolando.

— Mulher sem entranhas! — rugiu o Neiva. Nem parece mãe! E agora? Que se há de fazer?

— Vamos a um hotel, propôs Crebillon. — Quotizemo-nos e a caminho para a primeira baiúca que tenha um fogão. O Neiva opôs-se, espichando-se no canapé: "Não saía, estava sem forças. Mandassem vir o almoço, concorria com alguma coisa. Sair, nunca! Preferia acabar como Ugolino roendo o crânio do esqueleto." Correu a espórtula e Crebillon teve de entrar com a maior parte, sendo ainda, por um capricho da sorte, obrigado a ir ao primeiro hotel da vizinhança encomendar o repasto.

Amélia e a "sabina" encarregaram-se de arranjar a mesa e, à falta de toalha, estenderam um lençol de linho que o Toledo desencafuou das profundezas da canastra.

Quando o almoço apareceu, numa lata, à cabeça de um negro, romperam as exclamações e Crebillon eleito, por unanimidade, presidente da mesa, ocupou a cabeceira. Foi durante o almoço que ele, indignado com o procedimento da viúva, mulher de maus bofes, propôs organizar uma "república" modelo, em prédio de aparência, em bairro nobre, com todo o conforto e uma adega. Adiantaria o dinheiro para a instalação e tomaria a seu cargo a administração. Como o negro portador do almoço tinha uma fisionomia simpática e sisuda, Ruy Vaz lembrou baixinho ao futuro presidente da república ideal:

— Quem sabe se não temos neste africano grave um excelente cozinheiro...? Crebillon lançou um olhar perscrutador ao negro, que, de pé, os braços caídos ao longo do corpo, acompanhava o almoço prestando-se gentilmente a ir rapar os pratos no mirante para que servissem a outras iguarias:

— Sabes cozinhar, rapaz? O negro, timidamente, sussurrou: Que arranjava, menos mal, um bife e ovos e fazia canjas. A sua especialidade, porém, era o vatapá.

— Muito bem. Queres ser o nosso cozinheiro? O africano sorriu, torcendo as franjas do pano que lhe servia de rodilha. Quanto queres ganhar? Crebillon falava num tom cheio de tanta soberania que o negro não se achou com coragem de impor preço: deu de ombros, confiado na generosidade do seu futuro patrão.

— Bem, ficas desde já ao nosso serviço. Como te chamas?

— João de Deus.

— João de Deus! O nome é místico, disse Anselmo; talvez nos ponha em boas relações com a Providência. E, de pé, com solenidade:

— João de Deus, toma: bebe à tua fortuna! E passou-lhe um copo de vinho que o negro engoliu avidamente. Terminado o almoço os ossos foram todos atirados à área, o que provocou um rugido de Dona Ana. À tarde saíram, ficando de guarda à casa o fidelíssimo africano.

Enquanto Crebillon procurava a sonhada casa de aparência, em bairro nobre, a vida foi um suplício no segundo andar. Nem a vassoura, ao menos. Dona Ana mandava para sacudir a poeira do soalho e, como a bolsa não tinia, todo um longo dia escoou sem que os três fizessem passar alguma coisa pela boca, a não ser o fumo dos cigarros. Só o esqueleto, livre da contingência da fome, não suspirava. O próprio João de Deus, não farejando almoço pediu licença para ir fazer uns carretos que havia tratado e saiu.

— Ah! Não torna mais! — suspirou Anselmo quando viu o negro desaparecer, com a rodilha e uma fome de náufrago; mas enganou-se porque, à noite, cedo, lá estava ele, farto e fiel.

Para que não desconfiasse da abstinência Ruy Vaz levou-o ao mirante e, misteriosamente, fez uma preleção religiosa, explicando-lhe as razões secretas daquele sistema:

"Observavam um rito antigo, de muita severidade, que impunha, como principal sacrifício, o jejum, de quando em quando, para moderar os ímpetos da carne." E o romancista, com argumentos sutis, mostrou ao negro como a carne (sobretudo a fresca) conduz ao pecado e ao crime quando não é sofreada prudentemente. Falou dos ascetas, citou Gringoire e Santo Antão, Murger e S. Paulo, o eremita Elias e o Dr. Tanner e o negro, convencido, admirava aquelas almas temperadas de fé e de resignação que resistiam, com tanto fervor, às exigências da matéria. Anselmo tinha surdas revoltas vendo que, em todas as casas, as chaminés fumegavam.

— Mas que tens tu com o fumo dos lares? — perguntou Ruy Vaz.

— Detesto-o!

— És o único. Os poetas celebram a espiral que sobe dos telhados como uma prece demandando a altura.

— Sim, os poetas celebram quando têm o estômago saciado. Põe-me aqui um poeta faminto a olhar todos esses tubos que falam de ensopados, de omeletes, de frituras e de bifes com batatas, e hei de ver a estrofe que lhe sai dos lábios. Há de sair uma invectiva... Isso tantalisa! Saber a gente que em todas essas casas come-se, que em todas elas há almoço e jantar...

— E dores e remorsos e angústias.

— Ora! Infamíssima criatura! — murmurou entre dentes, pensando em Dona Ana. À noite, porém, já desanimados, dispunham-se a fazer uma desgraça quando o Toledo apareceu com um embrulhinho oloroso, oferecendo timidamente aos companheiros.

— Que é? — perguntou Ruy Vaz lançando um olhar de desprezo ao presente.

— Fígado frito.

— Ora! Fígado frito... Sem pão, aposto?

— Com farinha.

— A farinha faz mal, está provado. Enfim... Queres, Anselmo?

— Eu não sei se o fígado me faz bem: tenho uma hepatite...

— Ora, dentada de cão cura-se com o pêlo do mesmo cão.

— Similia similibus curantur, ajuntou o Toledo.

— É exato. E empanturraram-se. Tarde, João de Deus apareceu estafado e abarrotado: lavara uma casa na vizinhança e comera uma feijoada completa. Teve horríveis pesadelos no corredor — sonhou com um esqueleto, fardado e de mitra, equilibrando-se em uma bola que ia e vinha, pesada e ansiante, sobre o seu estômago. Acordou arquejando e o Toledo diagnosticou um ameaço de congestão, fazendo com que o negro saísse ao mirante com um dedo na goela para aliviar-se. João de Deus urrava e, de manhã, com uma enxaqueca feroz, teve de levar uma carta de Anselmo a um fabricante de águas gasosas que respondeu com muita lamúria, referindo-se às dificuldades da vida e à concorrência das águas estrangeiras que inundavam o mercado, comprometendo-lhe a fonte de renda. Estava a liquidar, concluía, desejando venturas ao estudante. Todas as venturas e nem uma xícara de café ao menos! Foi então que decidiu sair atrás do Acaso. Mas era domingo, o Acaso não aparecia e, se o Toledo, sempre cuidadoso, não houvesse recorrido a um primo, homem que tinha cozinha em casa, levando um bom pedaço de assado e quatro almôndegas num papel pardo, esse triste dia talvez houvesse sido último da vida de Anselmo, que já se dispusera a estourar o crânio, se tivesse um revólver... a estourar o crânio, talvez não, mas a vender o revólver com certeza.

Capítulo VI

E assim passaram lentas duas semanas avaras. Todos os dias, como oração matinal, injuriavam Crebillon que lhes havia mentido e pediam a cólera dos céus para Dona Ana, a inflexível, depois reuniam-se em conselho discutindo meios de conseguir almoço e, como era mais difícil arranjá-lo para todos, tomava cada qual o seu destino, despedindo-se à porta da rua, com tremuras na voz e os olhos úmidos. Toledo, porque tinha o primo, dirigia-se logo para Santa Teresa subindo a montanha penosamente, ao sol, certo, porém, de que ia regalar o estômago com os acepipes do parente, que tinha orgulho em possuir um cozinheiro perito e magníficos charutos. Ruy Vaz seguia a pé para as Laranjeiras e, tonificado pelo bom ar da manhã, saudável e aperitivo, empurrava o pesadíssimo portão do palacete do visconde de Montenegro.

Era um sombrio prédio entre velhíssimas árvores copadas, cujos ramos altos faziam uma abóbada impenetrável ao sol. As paredes, pintadas de um verde amarelado, pareciam cobertas de limo. Os canteiros esquecidos estavam invadidos pelo mato, as aléias eram úmidas e tinham placas lutulentas, de um aveludado fino.

Velho negros, encolhidos pelos cantos, cochilavam preguiçosamente e, dia e noite, como em Scylla, era um uivar dolorido e longo, porque o visconde, grande amador de montarias, quando descia da sua fazenda, em Pinheiros, para passar no Rio os curtos invernos, trazia as suas trelas famosas que davam trabalho a dois negros e a um veterinário, sempre bêbedo e armado de lanceta, contra o qual os animais investiam, apavorados, quando o viam aparecer cambaleando.

Dois cavalos de sangue, altos e esgalgados, passeavam pelas aléias levados por um moço de estrebaria que os preparava, havia anos, para disputarem o grande prêmio, posto que o fidalgo já estivesse resolvido a metê-los nos varais do carro.

Nesse casarão, que tinha a gravidade claustral de um mosteiro antigo, dormindo um sono pacato à sombra quieta do arvoredo, vivia o visconde durante os meses chamados de inverno. Casto e sóbrio desde que, na Alemanha, ganhara certo mal que o trazia constantemente pelos consultórios e sempre a bradar contra as mulheres, observava rigorosa dieta, não indo além da canja, do frango e de um regrado copo de Bourgogne. Era um asceta elegante.

Para que o não vencesse a sedução demoníaca, atordoava-se à mesa, que era lauta e franca. Não queria ouvir rumor de saias; as próprias negras, que passavam como fugitivas sombras pelos imensos corredores reboantes, colhiam cuidadosamente os vestidos para que nem roçassem nas tábuas enceradas. O fidalgo detestava a mulher, tinha horror ao feminino, à sua mesa só homens apareciam e tantos que, dois expeditos copeiros, alípedes e solícitos, eram constantemente reclamados de um extremo a outro e acudiam com as imensas travessas e com as terrinas incomensuráveis. Não raro um conviva desconhecido fartava-se e saía sem ter trocado uma palavra, sem mesmo saber a qual daqueles homens, que chalravam e devoravam, devia a fineza de tão delicado almoço e o visconde, achando aquilo patriarcal, ficava satisfeito, ria, chupando, com ares saciados, a asa loura do frango.

Ah achava Ruy Vaz conforto e fartura. Entrava de fronte alta e os convivas acatavam-no, porque o visconde o considerava, não o dispensando à mesa, querendo-o sempre perto para as tremendas discussões.

O visconde era lido em Cantu e discutia, com ardor, a história, tendo grande simpatia pelos tiranos. Luiz XI era o seu homem. À mesa a sua opinião era como um oráculo. Luiz XI era o homem da mesa e como, entre os comensais, havia um dotado de excelente voz de barítono, não raro o nome do rei carola era retumbantemente apregoado em uma ária escrita expressamente por um músico misterioso para o possante cantor. Só Ruy Vaz condenava o companheiro fiel de mestre Jacques Coictier. O visconde rugia, espumava; o casarão retumbava e os criados, tremendo, juntavam-se à porta, curiosos daquela desusada cena.

Purpúreo, brandindo a carcaça do frango, o fidalgo citava opiniões e Ruy Vaz invocava autores. Às vezes tornava-se necessária a intervenção de amigos para que os dois homens chegassem a um acordo, ficando, porém, o visconde na sua frase: que Luiz XI era o seu homem e insistindo Ruy Vaz em dizer que ele não passava de um grandíssimo patife.

E o visconde adorava o romancista, justamente porque nele encontrava um adversário. Sucedia-lhe com as opiniões o que a Polícrates sucedia com a fortuna — nunca era contrariado, como o tirano nunca teve desejo que não fosse satisfeito. E o fidalgo revoltava-se, tinha cóleras surdas, não podia sacudir a poeira que pousado sobre a sua erudição, tinha de roer em silêncio o seu frango.

— Homero foi uma besta! — exclamava o visconde; e a mesa em coro: "Uma veneranda besta!"

— Shakespeare foi um plagiário! — e o uníssono dos quarenta talheres: "Foi sim, senhor!"

Era horrível. Ruy Vaz indignava-se:

— Besta! Homero...? Besta é quem o chama. E travava-se a resinga, mas o visconde sentia-se aliviado, aquilo fazia-lhe bem. Ruy Vaz era um homem bem diferente do barítono. Ah! O barítono...! Certa vez, depois do jantar, sentindo-se o visconde indisposto, chamou-o e disse-lhe:

— Ó coisa, dá umas voltas aí pelo parque, correndo, para ver se faço a minha digestão, que está hoje morosa. Contava o fidalgo com um protesto enérgico, mas desiludiu-se vendo o cantor atirar-se, pelo parque, às pernadas, como um gamo, bufando, perseguido pelos cães. E o visconde, triste quando o viu roxo e gotejando como um chuveiro, chamou-o:

— Obrigado, meu amigo. Sempre me fez bem essa corrida. Hás de fazer agora o mesmo todos os dias depois das refeições. Os médicos recomendaram-me exercícios. E o barítono, esfalfado, ofereceu-se para fazer mais algumas voltas se S. Exa. quisesse.

Ruy Vaz, não — era um amigo leal e um adversário teimoso como convinha.

Anselmo, esse, sem amigos influentes, lançado no grande desconhecido, passeava com orgulho a sua fome. Enquanto o estômago se lhe contraía, em rodas literárias, no fundo obscuro dos cafés, discutia os dramas de Shakespeare, os poemas de Byron, a prosa sonora e rútila de Flaubert, a fina argúcia de Balzac e o sentimentalismo de Musset.

Em torno dele andavam os caixeiros conduzindo pratos que exalavam suavemente e ele, lançando os olhos para as mesas próximas, só via gente comer e aquelas mandíbulas pareciam trincar-lhe o coração. Eram tenros churrascos, entrecostos com batatas; era o rim, era a costeleta, eram ovos e o generoso vinho que passava com um grugulejo por aquelas voracíssimas goelas... Ah! Como ele continha os ímpetos sanguinários! Engolia em seco e continuava:

... Quando foi representado o drama Romeu e Julieta, Shakespeare... E o estômago a pensar em costeletas enquanto o espírito rememorava episódios da vida acidentada do poeta de Stratford. Consolava-se com certo desvanecimento lembrando-se de quantos, no começo da vida literária, haviam sofrido as mesmas torturas e em climas ásperos, tiritando, tarantulamente, à neve. Ele ao menos, tinha a benignidade do clima paradisíaco, sem invernias que o encarangassem ou congelassem, como acontecera aos soldados de Napoleão na Rússia, e tinha a esperança de vencer grandes prélios literários, impondo-se à Pátria e ao mundo com os períodos da sua pena.

Datam dessas duas famintas semanas os primeiros cantos do "deslumbrante" poema em prosa: Guanabara, mito da criação do mundo americano segundo a tresloucada imaginação de Anselmo.

Num domingo, à tarde, reunindo os companheiros no mirante, o autor procedeu à leitura do poema magnífico, estrondoso de adjetivos. Lins comparou-o à Teogonia de Hesíodo, Duarte colocou-o a par da Divina Comédia. Ruy Vaz, entretanto, desafinou no coro encomiástico, emitindo um juízo severo, que foi a condenação da obra-prima.

Quando Anselmo terminou a leitura, o romancista, acendendo um cigarro, ponderou:

— Acho o teu poema por demais cerebrino; não é propriamente uma concepção, é um delírio intelectual ou antes: não é o produto de uma emoção estética, é a resultante mórbida de uma superexcitação. Em palavras mais claras: o teu protagonista, esse Anhangá merencório, subiu do abismo do teu estômago. Um bife com petits pois bastava para fazer desse revoltado o mais pacífico dos anjos. O cérebro, meu amigo, é escravo do estômago. Do nada só pode sair o nada, disse o velho Lear a Cordélia. A crítica, mais tarde, quando analisar o teu poema, se tiveres fome bastante para o concluir, há de dizer, com azedume, que eras um pessimista da casta biliosa dos Schopenhauers, sem perceber que a tua filosofia sinistra não veio de uma interpretação sistemática, Senão de uma fome implacável e desesperada. Lê Epicuro e aprende os segredos do bem viver. O teu poema tem belezas, mas atordoa.

— Achas que não presta?

— Não, acho-o superabundante: tem a desconexão de um delírio

— E se eu retocá-lo?

— Come primeiro. Antes de tomar o buril procura um talher; em vez do pó de diamante, atira-te à farinha seca. Come. Com a digestão tranqüila estou certo de que hás de ver as agudas arestas do teu poema. Vai a um frege! A inanição alucina. Não tomes por inspiração o que é apenas desvairo de inanido. Vai a um frege.

— Sim, isso é bom de dizer. Como queres que eu vá a um frege, se nem cigarros tenho?

— Eu tenho, toma; ofereceu o Toledo.

— Grande coisa o talento! — exclamou Anselmo atirando uma baforada ao ar.

— Grande coisa! — repetiu Ruy Vaz.

Toledo arregalou os olhos e meneou com a cabeça.

O céu estava cor de chumbo. Nuvens grossas, pesadas, rolavam com lentidão, amontoando-se; um vento morno soprava e, como se não bastasse aos pulmões, tinha-se uma sensação abafada de asfixia como se aquela abóbada viesse caindo pouco a pouco, sufocando, oprimindo.

Nuvens de poeira encobriam a cidade sob um véu denso. Pombos voavam atordoados, fugindo à tormenta próxima. Os silvos das locomotivas vibravam com maior intensidade. E surdos, longínquos, ameaçadores, trovões roncavam.

A Tijuca estava nublada, nuvens fluíam em névoa tênue como fumo esgarçado e a montanha ia aos poucos desaparecendo como se o céu houvesse baixado sobre ela.

Coriscos zebravam a densidão do espaço e escurecia rapidamente em crepúsculo sinistro. O ar tornava-se mais pesado, rarefazia-se, posto que, de ponto em ponto, em revoluteio, uma tromba de poeira espiralasse.

Vinham, de muito longe, os sons de um sino. Pelos quintais mulheres recolhiam, à pressa, a roupa que espadanava nas cordas. A cidade foi desaparecendo encoberta por uma bruma pesada que vinha avançando rápida. Toledo, com os olhos alongados, estendendo a mão, anunciou:

— Aí vem a chuva.

Ouvia-se como um ruflo e, quase no mesmo instante, grossas gotas bateram nos telhados secos, depois a chuva caiu a jorros, com rumor e um cheiro forte de terra ardente subiu.

Os rapazes precipitaram-se para a sala borrilados e um formidável trovão estrondou reboando longamente. Rajadas violentas batiam nos vidros, invadindo a sala. O vento rugia.

Toledo, mais cuidadoso, correu a descer as vidraças da sala da frente e a tempo porque já andavam papéis voando.

Dona Ana, em baixo, bradava à Leonor, que limpava o ralo do quintal para que as águas não empoçassem e a escuridão fez-se mais densa, alumiada, de quando em quando, pelos lívidos relâmpagos.

As gárgulas jorravam com ímpeto, a rua começava a encher-se quando Anselmo, encostando o rosto aos vidros empanados pela chuva, pôs-se a pensar na terrível noite que lhe estava reservada. Como havia de ficar sem uma xícara de café, ao menos, e adoentado, febril, sentindo tamanha fraqueza que as pernas tremiam-lhe e um suor viscoso ressumbrava-lhe das mãos?

Olhava, mas não via aquela torrente que desabava do céu, não via os córregos que rolavam precipitados e imundos pelas sarjetas, não via os homens que, de calças arregaçadas, com as pernas atafulhadas na água lodosa, iam e vinham sob o aguaceiro violento.

Pensava nos tempos felizes em que vivera acariciado entre a mãe e o pai, velhos ambos: ela, cantarolando baixinho modinhas sertanejas, à luz do lampião, enquanto cerzia a roupa branca, lavada e cheirando a ervas da campina; o velho, estirado no canapé, enrolando a barba, a pensar nos afazeres do dia seguinte. A um canto, sobre uma cadeira, o gato doméstico, um gordo maltês, dormindo tranqüilamente e ele, com os livros abertos, a tomar notas, mas já perseguido pela imaginação, já arrebatado por essa sedutora, que, numa página de história antiga, como se animasse as letras dos livros, fazia saltarem exércitos de bárbaros, mostrava cidades em chamas, dava uma vida de sonho a todas as passagens descritas concisamente pelos historiadores.

— Ah! Tempos idos! Então não conhecia a fome nem julgava que pudesse um dia conhecê-la. Nada lhe faltava: tinha a cama Sempre feita, os seus livros sempre em ordem, o melhor prato à mesa e, se lhe achavam o pulso um pouco agitado, se lhe sentiam a fronte mais quente, quantos cuidados, e que sobressaltos: a mãe aflita, o pai indo ver o médico, e tudo quanto queria, até aquela caixa de música que lá estava calada, sobre a sua mesa, que lhe fora dada, para distraí-lo, quando uma febre o prostrou na cama.

Ah! Tempos... E via-se ali sozinho, com fome, com febre e sem esperança de poder sair, porque o mesmo Deus parecia querer martirizá-lo com aquela tormentosa noite de aguaceiro e raios.

Quando se retirou da janela tinha os olhos úmidos. Borrifos da chuva, talvez...

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