Três dias depois, realizando o que havia imaginado, Anselmo instalava-se em casa de Pedroso. O professor recebeu-o com alegria e, como ele levava apenas a canastra e alguns livros, tendo deixado o mais com o alemão, não houve necessidade de modificar a disposição móveis, que eram poucos. Viviam na pequena casa, além de Pedroso, o macambúzio Alfredo que, sendo irmão do professor, parecia-se tanto com ele como com o terceiro, um hóspede, o Raul, rapaz de vinte anos, que era uma montanha de carne. Com uma decidida vocação para o teatro estreara, aos dezoito anos, na Fênix Dramática, com o Galvão, fazendo pequenos papéis com discrição e suor à ufa.
Lembrava-se, com orgulho, de um "salteador" que interpretara com tanto talento que o empresário, depois da primeira récita, para animá-lo, disse:
— Raul, não fosse a tua corpulência e irias longe no teatro, mas assim, filho, com tanta enxúndia, cansas depressa.
Efetivamente cansou; ou antes: desanimou. A gordura caminhava com tamanha pressa pandeando-lhe o ventre, enchendo-lhe as coxas e os braços que, se uma peça lograva fazer carreira, à vigésima representação Raul era forçado a recorrer ao alfaiate para que lhe alargasse as roupas. Retirado do teatro, com o qual o toucinho o incompatibilizara, vivia melancolicamente, engordando e recitando monólogos pela casa, quando não ia para a cozinha aguar o ensopado ou salgar a sopa.
Mas a alma era grande e, não raro, rebentava-lhe dos olhos em ternura lacrimosa ou expluia-lhe do peito largo em suspiros estéticos sobre algum papel tonitroante de tirano, em peça truculenta. Sentia-se-lhe na melancolia do olhar a nuvem de um pensamento triste que se poderia traduzir livremente nesta lamentação: "Que grande artista se perde neste jacá de toucinho..." Em verdade, era um jacá e atochado.
Pedroso conhecera o Raul na caixa da Fênix, quando por lá andara enamoradamente, com grandes ramos de rosas, seguindo os passos de uma atriz. O professor tinha também certa "queda" para o palco. Não fossem delicados escrúpulos: a família, os alunos... e teria aceitado um convite que lhe fez o Galvão no tempo do idílio, mas o macambúzio Alfredo chamou-o à ordem salvando-o, em tempo, de uma queda fatal no conceito do público e na comparsaria. Consolava-se fazendo "galãs" em teatrinhos particulares. Era melífluo, ajoelhava-se, com muita expressão, aos pés das damas, rente da caixa do ponto para falar com segurança do seu amor. Alfredo era circunspecto — estudava ciências exatas, não fumava, recolhia-se muito cedo e evitava os olhares das mocinhas da vizinhança. Comiam em casa: o Raul cozinhava por economia e, à mesa, os companheiros, gratos, ouviam a história dos seus triunfos no teatro da rua da Ajuda.
Anselmo, posto que não tivesse os cômodos que sonhara, viveu com certo conforto, dormindo à sombra do Raul que roncava como um vulcão.
Foi nesse homizio que ele fez os seus melhores estudos literários. O Raul, que o admirava, ficando em casa enquanto os dois irmãos iam explicar os substantivos e os teoremas, metia-se num canto com um maço de comédias e lia, rindo às gargalhadas, enquanto Anselmo, de papo para o ar, devorava Shakespeare, Dante, Ariosto e quantos poetas lhe caíam nas mãos, por empréstimo, porque os seus livros estavam lidos, relidos e vendidos.
À noite, às vezes, serenatas passavam pela rua silenciosa enfurecendo os cães que investiam e Pedroso, sempre jocundo, abria as portas da casa ao grupo ou seguia com ele a percorrer o bairro adormecido. Anselmo nem sempre o acompanhava, preferia ficar preguiçosamente em casa lendo ou palestrando.
Raramente descia à cidade. Refazia-se física e espiritualmente preparando-se para o grande dia em que tencionava aparecer sobraçando os originais do primeiro volume da grande série.
Os rapazes falavam do seu sumiço, faziam conjecturas e ele continuava tranqüilamente os seus estudos.
Ruy Vaz, instalado definitivamente no palacete do visconde, engordava e tinha quase concluído o seu romance. Um incidente, porém, alvoroçou o estudante: o Alfredo, sempre taciturno, descobriu, uma manhã, na fronha alva do travesseiro, uma mancha de sangue e, como houvesse na família vários casos de tuberculose, ficou alarmado decidindo, desde logo, mudar-se para o campo onde houvesse ar puro e árvores e, com precipitação, não querendo dar tempo à moléstia, meteu-se num trem e foi correr os subúrbios achando uma casa modesta, de feição campestre, com muito terreno arborizado e uma cacimba, em Cascadura, numa larga estrada quase deserta que levava aos montes.
A mudança foi feita num dia. Anselmo, à lembrança de viver em tão arredado sítio, hesitou antes de permitir que a sua canastra fosse despachada, mas Raul e Pedroso convenceram-no, falando-lhe do silêncio do campo, propício à meditação e ao estudo, bom ar saudável, da água excelente, dos saborosos frutos e Anselmo deixou-se levar, não prometendo demorar-se porque tencionava arranjar um lugar na imprensa que, ao menos, lhe desse para casa e comida.
A casa era realmente pitoresca. Toda branca na verdura de um pomar e única na estrada areenta onde andavam soltos carneiros, cabras e grandes cevados grunhidores. Nas dimensões era um cacifro.
Raul reclamou contra as portas estreitas. Sempre prosperando em banhas, receava que, uma manhã, acordando, fosse obrigado a demolir a parede do quarto abrindo brecha para passar. Comiam em um hotelzinho, onde a gente da Estrada de Ferro costumava fazer os seus regabofes. De manhã, saindo em grupo, iam a um quiosque para o café. À noite dirigiam-se à estação para conversar e viam chegar e partir os trens e, quando os expressos silvavam, ao longe, paravam agarrados às colunas, com os olhos além, até que, na grande sombra, luzia o olho imenso da locomotiva, e vinha crescendo, crescendo, ouvia-se o rumor e o chiado, e rápido, repentino, o comboio passava levantando um grande vento. Mal se avistavam vultos brancos e lá ia ele curveteando, era uma luzinha que fugia como um vaga-lume e desaparecia na sombra. Logo, porém, outro comboio chegava lentamente, parando junto à estação, à espera de passageiros e outro vinha da cidade, bufando. Saía gente, a locomotiva, desengatada, parda veloz para a manobra no virador e os empregados iam examinar os carros, batendo-lhes nos eixos. Na plataforma iluminada reuniam-se rapazes, moças passeavam, e uma velha negra, aleijada, cochilava a um canto diante de uma bandeja, apregoando, de instante a instante, com uma voz triste, cocadinhas e balas. Anselmo achava aquilo hediondo.
A vida insípida e monótona enchia-o de tédio e desalentava-o. Da manhã à noite era o mesmo, invariável espetáculo da natureza campestre, a mesma vida de rusticidade. Se chegava à janela, os olhos encontravam apenas a estrada larga e deserta, branca, escaldando ao sol. De quando em quando, um homem que descia da sua roça, na vertente dos morros, sozinho, cantando ou com a bestinha lenta carregada, ou negras que tinham ido às compras e tornavam aos seus casebres com embrulhos, o cachimbo nos beiços, descalças, levantando uma poeira fina e dourada
E ali ficava horas e horas, sob a ardência da luz, bocejando, sonolento e mole, ouvindo os silvos dos trens que passavam ao longe. Nos fundos, era a larga e verde planície cultivada, dividida em hortas e quintais. Laranjais de um verde forte e metálico, carregados de frutos, milhos louros, canaviais que sussurravam num mar verde e irrequieto. Um cheiro forte de seiva subia da terra morna. Aves andavam cacarejando e mariscando nos monturos e a uniformidade da paisagem dava uma impressão fatigante à vista, enfarada de arvoredo e de ervas rasas, onde não aparecia um vulto humano, como se o mesmo sol fosse o único encarregado da lavoura daquelas terras fecundas, que se estendiam dilatadamente perdendo-se num horizonte azulado de montanhas.
Anselmo vivia vegetativamente como aquelas árvores fortes que ali estavam agarradas à terra, sugando-a. Mas o que, em verdade, o prostrava era, por assim dizer, a própria fecundidade. Justamente ele estava como aquelas árvores, cujos ramos roçavam o solo vergados ao peso dos frutos; sentia a inadiável necessidade de expansão, o seu espírito começava a produzir exuberantemente, as idéias caíam-lhe do bico da pena como caem dos galhos os frutos maduros, mas a sua atividade espiritual, que se ia esperdiçando, dava-lhe grande tristeza. Tarde, às vezes, não podendo conciliar o sono, enquanto os companheiros dormiam, abria a janela à noite silenciosa e, debruçado à mesa, lia e escrevia e, quanta vez o sol o encontrou absorvido na leitura ou rematando páginas. Um dia resolveu descer. Não podia mais com aquela vida amolentadora e estéril. Pedroso tentou dissuadi-lo propondo-lhe alguns discípulos.
— Não, vou arranjar trabalho. Sinto-me morrer aqui. Esta inércia acabrunha-me, não posso mais. Preciso trabalhar...
— Mas para onde vais?
— Não sei, hei de arranjar um jornal. Que diabo! É impossível que não haja um lugar para mim. E que não haja! Aqui não fico... não posso, apodreço!
Pedroso encolheu os ombros resignado e Anselmo, resmungando, foi vestir-se.
— Vais sem almoço?
— Vou.
— Almoça primeiro, homem.
— Não.
— Que coisa! Até parece que vais daqui ofendido. Houve alguma coisa contigo?
— Não, nada.
— Então?
— Não posso com isto, Pedroso. Estou ficando neurastênico. Há ocasiões em que tenho vontade de chorar.
— Por quê?
— Sei lá, à toa. É este silêncio, é esta monotonia, é tudo isto que me enfeza, que me irrita. Demais, já é tempo de começar a fazer alguma coisa. Se continuo aqui apodreço. Preciso ir.
— Mas não vais zangado conosco?
— Zangado, por que? Vou para não morrer de tédio. Não posso ficar aqui a olhar milhos que amadurecem e galinhas que chocam. Há mais de seis meses que ando nesta vidinha lânguida de fainéant. É tempo de reagir.
— E se não achares emprego?
Com grande confiança ele afirmou:
— Hei de achar!
— Mas vens dormir aqui?
— É possível.
— Bem. Já que insistes não quero contrariar-te. Mas a quem vais falar?
— Ao Patrocínio.
— Já o conheces?
— De vista.
— Por que não arranjas uma apresentação?
— Qual apresentação! Vou e falo. Se me quiser aceitar, muito bem; se não quiser, melhor.
— Qual! Tu tiveste algum aborrecimento, Anselmo.
— Não tive, palavra.
Raul, que acompanhara toda a cena sem intervir, sussurrou humildemente:
— Comigo não foi.
— Ó senhores, pelo amor de Deus, que mais querem vocês? Estou aborrecido, mas é disto! E, avançando impetuosamente para a porta, mostrou, num gesto largo, a paisagem quieta, ao sol, e as cabras que iam lentamente com as crias ao longo da estrada deserta e sem sombra. Isto é que me enfastia, é esta coisa reles... Preciso sair daqui, senão estouro. É hediondo tudo isto. Hediondo!
O silvo de uma locomotiva atravessou os ares mornos. Anselmo tomou o chapéu:
— Adeus.
— Então até logo.
— Até logo.
— Não vais zangado?
— Não vou, homem.
— Palavra?
— Palavra. Adeus, Raul! E, tomando a bengala, como a casa distasse muitos metros da estação, deitou a correr pela estrada poenta ao sol dourado e quente da manhã gloriosa.
Chegando à cidade, ao influxo da grande vida, resfolegou desafogadamente. Saía como de um balseiro ganhando a corrente impetuosa de caudaloso rio que o levava para o além, no curso formidável e irredutível das suas águas e seguiu com a multidão, no enxame fervilhante dos que se encaminhavam pressurosos para o trabalho, à luz alegre de um sol vivo de janeiro.
Para chegar mais depressa ao seu destino, tomou o primeiro bonde que descia, cheio. Estava desconfiado, tímido como se entrasse em país estranho. Parecia-lhe que comentavam a sua pessoa e pôs-se a evitar os olhares, vexado. Devia ser por causa do cabelo muito crescido, que lhe chegava ao colarinho. Passou a mão pela nuca disfarçadamente, mas ninguém lhe prestava atenção E o bonde rodava rápido.
No largo de S. Francisco a multidão atarantou-o. Esperou que o povo escoasse e seguiu atordoado para a rua do Ouvidor. No escritório da Gazeta da Tarde, perguntando por Patrocínio, Um homenzinho magro, de olhos miúdos, fez um aceno preguiçoso com a cabeça como a dizer-lhe que subisse.
Empurrou a porta gradeada e passou, subindo à redação. Um rapaz alto, vesgo, caído sobre a larga mesa central, consultava uma coleção de jornais, outro revia notas, de pé diante de uma secretária. Ambos voltaram-se ouvindo-lhe os passos.
— Senhor José do Patrocínio?
— Está ocupado, disse o vesgo. Quer alguma coisa da redação?
— Desejava falar com ele mesmo.
— Está escrevendo o artigo. Em todo o caso entre... É ali ao fundo, uma salinha.
Agradeceu e encaminhou-se. Subiu dois degraus que levavam à salinha indicada e deteve-se surpreso. O jornalista estava diante de uma pequena mesa, terminando o almoço. No chão jazia uma lata aberta e, sobre a mesa, ao lado dos pratos, a pasta, os livros, um maço de tiras, cigarros. Dando com Anselmo, o jornalista passou rapidamente o guardanapo nos beiços e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.
— Ah! Meu amigo, desculpe-me. Estou hoje nos meus dias de trabalho, nem tempo me sobra para almoçar... depois, nos hotéis perde-se tanto tempo! Mandei vir isto e aqui, neste refúgio onde me escondo dos cacetes, fiz o meu almoço. Derreou-se na cadeira de mola: Cesário! Traze daí uma cadeira. Então, que há de novo? Como vamos de versos?
— Não faço versos.
— Ah! Pois não... Pensa que não leio? Sei dividir o meu tempo, meu amigo, também nem só de política vive o homem, sentenciou. Também leio. Com licença. Levantou-se, impaciente, foi à sala da redação e voltou com uma cadeira. Isto aqui é assim. O meu criado sou eu. Sente-se. Ofereceu cigarros e, muito amável, cruzando as pernas, tornou, desmanchando um cigarro:
— Então...? Que há de novo?
— Vim pedir-lhe um lugar na redação da Gazeta, se for possível.
— Se for possível...? — exclamou.
— Posso escrever umas crônicas ligeiras, um ou outro artigo...
— Quê! Um ou outro...?! Você vem mas é substituir-me, isto sim!... Eu mesmo preciso de um homem que me descanse porque, com essa história do artigo diário, nem tempo me sobra para cuidar dos interesses da folha. Chego de casa às oito da manhã e aqui fico até às duas da tarde enchendo tiras e aturando um mundo de importunos. Agora com você aqui a coisa vai ser outra... olá! Escrevo o artigo, entrego-te a folha e vou cuidar da vida. Inclinou-se e, atraindo Anselmo, disse-lhe, como em segredo: Isto é jornal para dar uma fortuna, mas eu não posso fazer nada, estou preso... Tendo, porém, um homem que queira trabalhar comigo, que queira trabalhar...! — repetiu arregalando o. olhos e concluiu: fazemos fortuna! Você quer trabalhar?
— Quero.
— Pois vamos fazer uma folha. Quando começas?
— Amanhã.
— Está feito. Onde estás morando?
— Em Cascadura.
— Que é isso, homem de Deus!?
— Que quer? Tenho lutado com as maiores dificuldades. Estou lá com amigos.
— Não, mas precisas descer.
— Vou ver um cômodo.
— E a questão do dinheiro? Anselmo sorriu dando de ombros. Não, é essencial — um homem de talento como você precisa de dinheiro. Eu, com o bolso vazio, sou incapaz de escrever uma linha. Isto de fingir indiferença pelo dinheiro é esnobismo. Por enquanto não te posso dar muito, mas... duzentos mil réis, servem?
— Perfeitamente.
— Vê lá!
— Perfeitamente.
— Bem, eu mesmo vou escrever a notícia da tua entrada para Gazeta. Tu tens talento... Eu não me engano. Lembras-te daquela noite no Príncipe Imperial?
— Dois dias depois da minha chegada de S. Paulo.
— Que discurso!
— Qual! Foi uma explosão de entusiasmo.
— Sim, uma explosão... Foi o melhor discurso da noite. Fiquei assombrado, tanto que perguntei ao Sena quem eras e foi quem me apresentou. Não te lembras?
— Lembro-me.
— Então? Tens muito talento. Vais fazer um carreirão. O diabo é a Cascadura...
— Mudo-me.
Um rapaz apareceu à porta e Patrocínio, encarando-o, perguntou:
— Que é?
— O artigo...
— Tem muita pressa? Pois eu não tenho. Quando estiver pronto irá. Olhe, leve daqui esta louça e diga lá ao Silva que não me mande mais bifes como o que veio hoje. Tornou a Anselmo:
— Então amanhã...?
— Amanhã. A que horas...?
— Às nove. Basta que estejas aqui às nove.
— Muito bem. Então até amanhã. Levantou-se e o jornalista, lançando-lhe os olhos à cabeça, perguntou: Você fez algum voto?
Anselmo, compreendendo, disse:
— De pobreza.
— Que diabo! Parece que trazes contigo todas as matas dos subúrbios. Corta esse cabelo. Estás sem dinheiro, não é? Anselmo sorriu. Ah! Queres fazer cerimônia comigo? Estás arranjado. Tirou do bolso uma nota e entregou-a a Anselmo sem olhar. Estamos então combinados: amanhã...
— Às nove.
— Vou escrever a notícia e, com um forte aperto de mão:
— Vamos fazer uma fortuna!
— Até amanhã.
— Até amanhã. Olha o cabelo.
— Vou já ao cabeleireiro. E, com o coração aos pulos, Anselmo desceu as escadas.
Fora, deteve-se algum tempo à porta, indeciso, vendo a gente subir e descer na faina do trabalho ou lentamente, lançando olhares curiosos às vitrinas, com grandes pausas, os desocupados que faziam a sua volta elegante, com ostentação e garbo. Depois lançou-se à rua, seguindo para um cabeleireiro. À entrada, porém vendo a sala cheia, recuou tímido. Não tinha ânimo de sentar-se diante de tanta gente, com uma viçosa cabeleira de nabi.
"Não, corto lá em cima..." disse descendo as escadas. Logo à porta encontrou o Neiva com um rapaz moreno, ereto, muito grave num terno que tinha todas as cores do íris e um chapéu branco que começava a ser cinzento, gravata azul, salpicada de ouro, em grande laço fofo que se derramava, com escândalo, sobre o peito, bengalão, ou antes, cajado e sapatos fuscos. O ar era o de um diplomata, mas o terno... O Neiva abriu os braços exclamando:
— Salve! Onde tens andado, homem de Deus?! Que é feito de ti? Amélia anda inconsolável. Creio até que já se cobriu com um crepe.
Anselmo contou a sua odisséia e o moreno, sempre firme como um poste, enrolando um cigarro, perguntou:
— É o senhor Anselmo Ribas?
— Sim, senhor.
— Não se conhecem?! — exclamou o Neiva.
— Não.
— Ora! Pois então vamos ali ao Cailtau, quero fazer a apresentação em regra.
Caminharam e, ao chegarem à escura confeitaria, o Neiva, batendo em uma das mesas, encomendou três grogues. Sentou-se e, alongando o pescoço, rompeu a rir com grande espanto dos dois rapazes.
— Que é? — perguntou o moreno.
— Que diabo têm vocês na cabeça?
O moreno estava nas mesmas condições em que se achava Anselmo: as cabeleiras desafiavam-se.
— Eu só corto os cabelos no dia em que me empregar, porque então poderei comprar um travesseiro.
— Pois eu vou cortar hoje a minha grenha, porque estou colocado. Podem dispor de mim na Gazeta da Tarde.
— E de mim urbi et orbi, disse o moreno.
— Mas, que diabo, ainda não fiz a apresentação. Este senhor que aqui está, açafroado e firme nos seus princípios, é Fortúnio, de Maceió, poeta lírico em disponibilidade. Morria de tédio na província quando, vendo um paquete prestes a levantar ferro para o Rio, resolveu meter-se a bordo. Como sabe de cor todos os versos que tem escrito, como Bias, não se preocupou com a bagagem. Na Bahia comprou duas laranjas e, a bordo, nem ele sabe como (proteção de Apollo Musagetes), nunca lhe pediram contas. Fez-se amigo de todos e, chegando ao Faroux no bote de uma família, encaminhou-se para a rua do Ouvidor com as duas laranjas.
— Que eram lindas! — exclamou o moreno.
— E vendeu-as no O braço de ouro por mil réis.
— E com esse dinheiro comecei a minha vida.
— E onde foste morar? — perguntou o Neiva.
— Na rua do Regente, com uns amigos de Alagoas.
— E ainda mora lá? — perguntou Anselmo.
— Não, agora não moro. As casas custam um horror.
— O senhor tem um soneto...?
— O Lenço. Já sei que vem falar do verso:
Pando, enfunado, côncavo de beijos...
— Justamente.
— É isso!... Tenho publicado não sei quantos sonetos e só me falam desse...
— É belo!
— E o senhor? Que faz? Quando pretende publicar o seu volume?
— Quando Deus quiser.
Falavam quando Patrocínio apareceu afogueado, rindo. Dando com os rapazes, arrastou uma cadeira e sentou-se à mesa, respirando cansado:
— Ah! E você ainda não deitou abaixo a floresta! — disse vendo os cabelos de Anselmo.
— Parte, tornou o Neiva, o cabeleireiro disse que Roma não se fez em um dia. Ele volta amanhã para concluir a derrubada.
Patrocínio sorveu um gole e, depondo o copo, disse recostando-se molemente:
— Leiam a Gazeta amanhã: Sansão faz a sua estréia.
Fortúnio, placidamente, alisando as calças, perguntou:
— Queres um soneto, José?
— Não, não quero... Este idiota...! Pois então eu rejeito versos teus?
— Não sei.
— Dá cá o soneto, deixa-te de luxos.
— Vou escrevê-lo, espera. E, chamando o caixeiro, pediu uma folha de papel, pena e tinta. Enquanto escrevia, Patrocínio dirigiu-se ao Neiva:
— Se esses rapazes quisessem, que esplêndido jornal podíamos nós agora fazer, hem? Imagina! Tu, com a direção da reportagem; este, com a crônica literária; Fortúnio com a crônica mundana e eu com o artigo e o noticiário.
— O noticiário! Tu? Estás louco! — exclamou o Neiva.
— Como louco?
— Pois és lá homem para fazer notícias, José?!
— Como não? Para mim são as duas coisas sérias do jornal: o noticiário e a gerência. O artigo de fundo não é mais do que uma grande notícia desenvolvida.
— De acordo, mas queres encher o jornal com artigos de fundo?
— Não, mas quero a notícia feita com talento. É preciso que a local emocione. O público tem necessidade de choques violentos. O melhor jornal é o que mais comove, isto é: o que explora, com mais habilidade, o emocional. Queres ver? Lê o mesmo fato em dois jornais. Aqui a coisa resumida e seca: "Estando ontem a trabalhar no andaime do prédio em construção à rua tal, número tantos, perdendo o equilíbrio veio abaixo o pedreiro fulano, morrendo instantaneamente. O cadáver foi recolhido ao necrotério." Está aí tudo — o desastre, as conseqüências do desastre, o destino que teve a vítima. Pensas que isso basta ao leitor? Estás enganado. A notícia, para agradar, deve ser escrita nestes termos. E, inclinando-se sobre a mesa, Patrocínio, passando o dedo pelo mármore, como se escrevesse, exclamou: GRANDE DESASTRE! em letras garrafais... Agora o caso, com todos os temperos:
"Quando, ao romper da manhã de ontem, fulano de tal, homem laborioso e honesto, que só via Deus no céu e a família na terra, saiu de casa contente pensando nos filhinhos que haviam ficado adormecidos, mal podia suspeitar, o infeliz, que nunca mais tornaria àquele lar e aos carinhos dos seus, porque a morte insidiosa já o esperava no próprio posto do trabalho. A fatalidade..." — por aí além, em tom patético. A descrição da queda com uma onomatopéia para o bater do corpo na calçada, o esfacelamento do crânio, os miolos salpicando os paus do andaime, os olhos esbugalhados. Depois o necrotério, a chegada da viúva com os filhinhos, o enterro, o luto e a miséria no lar. Finalmente, em remate, um comentário sobre a fatalidade. Não imaginas como uma coisa dessas impressiona.
Fortúnio, que terminara o soneto, entregou-o a Patrocínio que o leu alto, com entusiasmo, estendendo a mão espalmada ao poeta:
— Obrigado! Mas continuando: o jornal substitui a bema do Pnix e a arena; se nele são discutidas as grandes questões sociais, nele também devem aparecer as grandes cenas vibrantes. O povo é bárbaro e, como não tem mais as lutas sangrentas, satisfaz-se com as descrições trágicas: o assassínio de um homem, num canto de estrada, sendo descrito com talento, agita mais a massa do que a notícia seca da derrota de um exército. Mas os meninos não querem compreender assim, entendem que o noticiário é humilhante e fazem cara quando se lhes pede uma notícia. Pois serei eu o noticiarista. Deixem-me com a gerência e com o noticiário que, em menos de um ano, ponho aí um jornal como o New York Herald. Queres tomar conta da reportagem?
— Tomo.
— Palavra?
— Palavra, homem!
Mas um sujeito aproximou-se e chamou o jornalista à parte. Estiveram algum tempo conversando, de pé. De repente o Neiva bramiu:
— Então, José!
— Já vou, espera um instante. Olha que essa despesa está paga.
O Neiva voltou-se para Anselmo:
— Então vais trabalhar com o Zé do pato?
— Vou.
— Fazes bem. Ele é o hierofanta. Considero-o o primeiro homem do Brasil. Sei que há outros mais eruditos: ele, porém, é o mais fecundo, é o de maior cérebro. Dá-me a impressão de uma selva virgem. É um espírito onde apenas trabalhou rudemente o machado do lenhador. Os artigos dos outros que por aí há são bem feitos alguns, outros detestáveis, sem bom senso e sem gramática, mas eu refiro-me apenas aos que podem resistir à análise; têm forma, mas não emocionam como os deste bruto. Posso chamar-lhe bruto porque Esquinó chamava a Demóstenes — o monstro. Mas é isto: os outros artigos são como a colheita de um campo intensivamente cultivado, são paveias; os do José, não: são como imensos jequitibás que vêm possantemente arrastados do fundo da selva virgem. São colossos cheios de seiva que passam fragorosamente, mas, dentre a folhagem verde, saem gorjeios de ninhos que vêm presos aos ramos e pios de aves que voam acompanhando a árvore que era, por assim dizer, a sua cidade. É a minha impressão.
Num artigo de José há imagens para vinte artigos. Ele não trabalha com as dinamizações: é um nababo de matéria-prima. Basta isto: a campanha abolicionista... Pois é um diabo que, há não sei quantos anos, escreve sobre este tema: o senhor e o escravo — sempre com uma imagem nova e magnífica de esplendor. Fere todos os assuntos: entende de câmbio, discute a política internacional e as filosofias, é católico e faz conferências sobre budismo; farmacêutico, trava polêmicas sobre mecânica com os engenheiros, dá planos estratégicos, escreve romances, sermões, panegíricos, libelos, é eleitor e tem voz de barítono. Não é um homem, é uma complicação genial. Para mim ele é quem há de personificar a época tremenda que atravessamos. Desse caos negro é que há de sair a luz. Se o José não tivesse nascido no Brasil, se tivesse nascido em Paris, por exemplo, seria uma celebridade universal. É um bruto! Garçom, outro grogue! Você não bebe? Fortúnio estava triste, de olhos baixos. Queres mais um grogue?
— Não. Vou comer uma empada.
— Ainda não almoçaste?
— Almocei ontem.
— Por que não disseste, homem? Eu tenho aqui.
— Também eu, disse Anselmo.
— Então jantarei. Antes, porém, vou tirar este peso da consciência; e meteu os dedos pela gaforinha.
— Vamos juntos, convidou Anselmo.
— Ao mesmo cabeleireiro! — exclamou o Neiva. Vocês entulham o salão.
— Uma empada, disse Fortúnio, em segredo, a um dos caixeiros.
— Vais comer empadas agora? Olha que perdes o apetite.
— Quem me dera! Ainda que o perdesse ele havia de voltar na manhã seguinte, como o anel de Polícrates. Depois, eu tenho um vermute magnífico.
— Qual?
— A fome. Quem tem fome tem apetite.
— Bem, vamos sair. Que é do José?
Patrocínio havia desaparecido. O Neiva levantou-se justamente quando o caixeiro entregava a Fortúnio uma empadinha espetada num palito.
— Agora tenham paciência; deixem-me comer em paz.
Os dois esperaram e, logo que o poeta mastigou o último bocado, encaminharam-se para a porta: Fortúnio, sempre ereto, como se tivesse o rei na barriga, quando tinha apenas um grogue e uma empadinha de tostão. O Neiva despediu-se.
— Perdão. Não te esqueças do meu almoço de amanhã, disse o poeta.
— É verdade. Passou-lhe disfarçadamente uma nota e seguiu.
— Até logo!
— Até logo.
— Vais ao teatro?
— Pois onde hei de ir?
— A qual?
— A todos.
— Então encontramo-nos.
— Com certeza.
— Até logo!
— E nós agora? Vamos cortar as tranças.
— Sim, vamos. Temos ali na rua Gonçalves Dias.
— Não, nada de ostentação. Vamos à rua 7. Há um cabeleireiro que faz abatimento quando se corta em porção, como nós. O diabo é que eu fico sem travesseiro. Enfim! E encaminharam-se para a rua 7.
Jantaram juntos, no Renaissance, e, às sete horas da tarde, Fortúnio seguiu para a rua de Riachuelo despedindo-se de Anselmo que ficou na cidade, dissipando em livros, na rua de S. José, o dinheiro que lhe havia dado o Patrocínio.
Foi nessa noite que, por intermédio do Freitas, um satírico baiano, ele conheceu Octavio Bivar. Desciam a rua do Ouvidor quando encontraram o poeta diante de uma vitrina admirando os braceletes que faiscavam nos escrínios de veludo. O Freitas atirou-lhe uma palmada ao ombro. O poeta voltou-se repentinamente, espantado, dando, porém, com o amigo, tranqüilizou-se:
— Que fazes aí?
— Admiro. E tu, como vais?
— Bem. Conheces aqui o Anselmo?
— De nome.
— Este é o Bivar, o homem que ouve estrelas. Vamos tomar alguma coisa.
— Podemos ir.
— No Deroche.
— Não, aquilo é impossível; não se pode estar à vontade. Vamos ao Gambrinus, é uma bodega honesta e desconhecida ainda.
— Na rua 7?
— Sim.
Dirigiram-se pausadamente para a cervejaria e, logo que se abancaram, o Freitas atirou-se aos tremoços pedindo ao poeta que recitasse alguma coisa. Bivar desculpou-se: andava atropelado, não tinha tempo para escrever um verso, uma vida de cão, perse
guido por um senhorio inclemente. Podia recitar qualquer coisa antiga...
— Pois sim. O Julgamento de Frinéia, por exemplo. Conheces, Anselmo?
— Não.
— Uma coisinha, disse o poeta, pigarrreando.
Voltou a cadeira, fincou o cotovelo na mesa, lançou um olhar pela casa e, com os dedos enfeixados, disse solenemente, em tom profundo, balançando o corpo:
Mnezarete — a divina e pálida Frinéia - Comparece ante a austera e rígida assembléia Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira Aquela formosura original, que inspira E dá vida ao genial cinzel de Praxiteles, De Hiperides à voz e à palheta de Apeles.
Os olhos imensos do poeta saltavam à flor do rosto e rolavam num êxtase divino. Soerguia-se, como que uma força misteriosa o levantava, por vezes, e a sua voz, cava e lenta, tinha um quer que fosse de profética como se viesse de um ádito oracular. O Freitas, embevecido, dava com a cabeça, cerrava os olhos e mastigava tremoços. Anselmo fitava o poeta com admiração. Ao fundo da casa dois homens, em mangas de camisa, falavam alto. O Freitas não se conteve, voltou-se com um "psiu!" e os homens começaram a sussurrar — só a voz do poeta rolava, profunda e grave, num turbilhão de rimas sonorosas.
— Admirável! — exclamou o Freitas quando o poeta, com um gesto largo, repetiu as palavras de Hiperides, arrancando dos ombros da hetera a túnica que lhe encobria o corpo maravilhoso:
"Pois condenai-a agora!"
Não ficaram, por certo, mais maravilhados do que os dois rapazes, os velhos austeros do Areópago.
— Soberbo! — exclamou o Freitas reclamando mais cerveja. Anselmo ficou algum tempo a olhar o poeta, sem dizer palavra, arroubado.
— Agora, o senhor: recite-nos alguma coisa.
— Isto não faz versos, disse, com desprezo, o Freitas. É só prosa chilra.
— Faz muito bem. A prosa; se não tem a nobreza do verso, é mais ampla; o pensamento move-se livremente no período sem os apertos da métrica, sem a preocupação monótono da rima. A prosa! A excelsa prosa! Não imagina como eu amo a prosa, acho-a até mais difícil do que o verso. A prosa marmórea de um Flaubert, de um Saint-Victor... oh!
— Preferes, então, a prosa ao verso?
— Prefiro.
— E por que não fazes, de preferência, prosa?
— Hei de fazê-la.
— Ora, qual!
— Hás de ver.
— Tu és poeta e hás de ser sempre poeta, quer queiras, quer não.
— De acordo, mas poesia não quer dizer rima, poeta não é o que faz estrofes. Há por aí muito animal que faz versos impecáveis e que tem tanto de poeta como eu tenho de cantor de árias. A estrofe é um excipiente, é um meio de expressão, é a plástica. O sentimento é tudo.
— A propósito de poetas: disseram-me que assassinaste aquele poeta que andava contigo?
— Que assassinei...!?
— Sim...
— Perdão... Eu conto o caso. Esse poeta, que era o meu algoz, foi jantar comigo e comeu desbragadamente. Só havia um prato, mas abundante: bacalhau. O homem empanturrou-se e, à sobremesa, que constou de uma penca de bananas, recitou-me o famoso soneto: Dor! que termina por um terceto abracadabrante:
Africana sem fim a marchar sem chapéu Cheia de mágoa e dor a mãe tonitruosa Uiva como uma cobra através do escarcéu...
Quando ouvi tais coisas tive ímpetos de o esganar, confesso, mas contive-me, fui prudente. O homem, porém, depois do jantar, acompanhou-me e quis dormir comigo. Foi. Às duas da manhã acordou ávido, pedindo água. Eu, que estava morto de sono, disse-lhe que não tinha água no quarto. Ele uivou: "Que morria!" Para livrar-me do monstro, disse-lhe, então: Vai ao banheiro, abre-o e bebe no chuveiro... Disse e voltei-me para a parede recaindo no sono. De manhã o homenzinho estava a estourar: arfava, urrava, vociferava:
Africana sem fim a marchar sem chapéu...
Foi transportado para a casa da família em carro e curou-se. Ainda, depois disso, ouvi o soneto tremendo. Ele morreu depois, de uma febre. Era hediondo!
Levantaram-se. A noite negra ameaçava.
— Parece que vem muita chuva. Parece.
— Vou já para casa, adeus! Vocês ficam ainda por aqui, não?
— Ficamos, disse Anselmo. Com uma noite destas não me atrevo a ir para a Cascadura.
— Está em Cascadura?
— Estou, mas desço amanhã. Não posso morar tão longe trabalhando em um jornal da tarde. Entrei para a Gazeta.
— Ah!
— Bem, adeus, rapazes! — disse o Freitas.
— Adeus! E nós?
— Vamos dar uma volta por aí. Adoro esta cidade à noite.
Seguiram lentamente. Fulvos relâmpagos fremiam encandecendo o céu. Raros transeuntes, pressentindo a tempestade, apressavam o andar. De espaço a espaço uma rija lufada levantava colunas de poeira; batiam janelas e rumores longínquos de trovões rolavam surdamente.
— Em que jornal trabalha? — perguntou Anselmo rompendo o silêncio.
— Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia a dia. Quando vejo um poeta ou um prosador a fazer notícias, tenho piedade. Que diria você se encontrasse o Dalou, o grande Dalou, em casa de um marmorista da rua da Ajuda, com um gorro de papel à cabeça, talhando, no mármore industrial, anjos funéreos para as sepulturas de Catumbi? É ignóbil! O jornalismo está para a Arte como um desses anjos bojudos de cemitérios estão para o Laocoonte. Eu, se me metesse a fazer notícias, enlouquecia. Sinto-me incapaz, a local aterra-me. Tentei, uma vez, redigir a mais simples das notícias: um caso banal de polícia. Pois, meu amigo, saiu-me um substancioso artigo político. Quem pode compor um período perfeito numa sala de redação, interrompendo-se, de instante a instante, para acudir à reclamação de um sujeito que pede providências contra a falta d'água? É hediondo!
— Pois eu vou trabalhar na Gazeta.
— Vai escrever crônicas...
— Não sei ainda.
— Não faça notícias; a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. Havemos de vencer, mas, para isto, é necessário que não façamos concessões. O redator não quer saber se temos ideais ou não: quer espremer. Quanto mais suco melhor. O prelo é a moenda e lá se vai o cérebro, aos bocados, para repasto do burguês imbecil e, no dia em que o grande industrial compreende que nada mais pode extrair do desgraçado que lhe caiu nas mãos sonhando com a glória literária, despede-o e lá vai o infeliz bagaço acabar esquecidamente, minado pela tuberculose.
Um homem de talento que se mete em jornais suicida-se. Já se vê que não me refiro aos agitadores da opinião, aos que fazem o fluxo e o refluxo das marés sociais, esses não têm outro campo senão o jornal. Os políticos que escrevem sobre a emoção efêmera do momento não devem fazer livros. O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político, o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro de Arte.
— Mas que se há de fazer?
— Escreva livros.
— Para quê, se não há quem os edite?
— Escreva contos, fantasias, crônicas.
— Não pagam. Fazem ainda grande favor quando os publicam.
— Pois, meu amigo, que me venham pedir versos ou prosa de graça. Quer saber? Os culpados da depreciação literária são os próprios literatos: Alencar vendia os seus romances ao Garnier por quatrocentos mil réis. Quantas edições tem O Guarani? Está ainda na primeira e é conhecido em todo o Brasil. O editor fez com o romance o milagre de Tiberíade: multiplicou-o. Se houvesse fiscalização a coisa seria outra.
Chegaram ao largo do Rocio justamente quando caíam as primeiras gotas grossas da chuva. O povo corria, metendo-se pelas casas. Tílburis passavam à disparada e a chuva ruflava, tocada pelo vento áspero, que atirava bátegas das lojas.
— Que tempo! — exclamou Bivar levantando a gola do casaco.
— Para onde vamos nós? Se fôssemos à Maison? Estamos encharcados.
— Queres afrontar a rajada?
— Vamos.
— Então vamos.
Encolhidos, rente das casas, saltando sobre os jorros das gárgulas, foram apressadamente até a rua da Carioca e detiveram-se na esquina, indecisos, sem ânimo de atravessar a rua. Já pelas sarjetas rolavam córregos grugrulhando nos ralos dos escoadouros. Relâmpagos flamejavam e os trovões, mais próximos, reboavam num canhoneio incessante.
— Um! Dois!... E Bivar atirou-se, a grandes pernadas, atravessando a rua seguido de Anselmo.
A Maison transbordava. Os dois, escorrendo, relanceavam olhares pesquisadores quando ouviram um "psiu" e logo descobriram Patrocínio, num grupo, a uma das mesas do centro.
— Eh! Cheguem-se ao Ararat.
— Ora! Apanhamos esta carga de água nas costas.
Eram do grupo o Lins, o Neiva, Ruy Vaz, o Duarte e um rapaz alto e claro, de olhos miúdos e espessos bigodes negros, muito reluzentes; largo feltro desabado escondia-lhe a fronte.
— Conhecem o Luiz Moraes? O grande poeta republicano? Anselmo Ribas, Octavio Bivar.
O poeta dos grandes bigodes entendeu a mão aos rapazes e resmungou uma amabilidade. Sentaram-se. Os caixeiros substituíam os copos e as garrafas. Patrocínio estava com a palavra.
— Falávamos do jornal...
— Novos planos?
— Novos e verdadeiros. Dizia eu que se pudesse contar com todos vocês faria o primeiro jornal da América do Sul. Com dois anos de trabalho estávamos todos ricos, fretávamos um vapor e partíamos para a Europa.
— E a abolição, José?
— A abolição está feita. E questão para mais uns meses.
— Pois sim!
— Pois sim? Mas que há de fazer o governo constrangido, como está, pela opinião pública? O Norte já se manifestou e o Sul há de acompanhá-lo. Demais, meu amigo, o escravo já não é um submisso, é um revoltado. Nas fazendas cada negro é um combatente e o êxodo aí vem. Quando começar o abandono da terra, não um a um, mas aos bandos, ostensivamente, em face dos senhores que não hão de querer jogar a vida, que há de fazer o governo? Mandar contra os que defendem um direito sagrado a tropa armada? Não! E ainda que mande: conheço o exército, sei que nenhum soldado se prestará a exercer o ofício miserável de capitão-de-mato. A abolição é uma questão vencida.
— Deus queira!
— Depois da abolição a república, rosnou Moraes.
— A república! — exclamou o Lins, assombrado.
— E por que não? A república, sim! — afirmou o poeta assomado. Quer você que continuemos com um rei de burla e com uma freira melomaníaca? Está enganado. Pego em armas, se for preciso.
Ora, Luiz... ia a dizer o Neiva, contrariando o poeta; ele, porém, atirou um murro à mesa e, erguendo-se, com os bigodes arrepiados, os olhos fuzilantes, bufou:
— Pego em armas e em você também, pelo cós das calças, está ouvindo? Em você mesmo!
Ruy Vaz interveio:
— Que é isto? Já vocês começam.
O Neiva levantou-se, distribuiu apertos de mão:
— Boa noite... boa noite. E encaminhou-se para a porta.
— Pois não! Este senhor entende que há de sempre impor a sua opinião. Onde ele está ninguém mais fala. Pego em armas! Que tem ele com isso? E se me aparecer pela frente, quando estiver defendendo os direitos do Homem, prego-lhe uma bala no fígado.
— Mas Luiz...
— No fígado, já disse. Em política e em Arte sou intransigente. Mas o Neiva voltou:
— Se não estivesse chovendo tanto eu mostrava. Sentou-se.
— Mostrava... mostrava o quê? Homem, você não me aborreça.
— Mas quê é isto, gente...
— Ó Luiz, pelo amor de Deus, deixa-me em paz.
— Pois é isto! Não me contrarie. Tome a sua cerveja muito quieto e deixe-me cá com as minhas idéias. Eu sou pior que Cimourdain. Estendeu o braço sobre a mesa e, com uma voz cavernosa, disse: — Prestigio a lei! Mas esta gente não estuda. Fala-se em evolução e ficam todos embasbacados. Leiam Spencer.
Mas o Patrocínio conseguiu desviar a conversa para a literatura, e, à meia noite, tendo cessado a chuva, quando se levantaram, o Neiva, muito misterioso, de braço com o Moraes, oferecia-se para levantar uma barricada na rua do Ouvidor, esquina do largo de S. Francisco e o poeta respondia:
— E lá me hás de achar com as armas na mão.
— Correto! Então está feito?
— Está feito, por que não? E pôs-se a cuspinhar.
— Para a vida e para a morte!
— Para a vida e para a morte!
E despediram-se. Anselmo seguiu só para o hotel, pensando nas palavras de Bivar: "Não faça notícias, a notícia embota."
Uma lua sinistra rolava entre grossas nuvens e as goteiras pingavam lentamente.