Anselmo estreou na imprensa com um piedoso artigo sobre os velhos negros. Antes de o mandar para a tipografia quis ouvir a opinião do Patrocínio. O jornalista, às últimas frases do escrito patético, atirou-se ao escritor aos beijos, sagrando-o em presença do vesgo que redigia o noticiário, cujas notas um magro repórter ia cavar nas delegacias trazendo-as esparsas pela camisa, nos punhos, no peito porque, com a precipitação, nem tempo lhe sobrava para procurar papel. Anselmo esperou, com ânsia, o jornal e, quando o primeiro rolo apareceu no escritório, avançou, sôfrego, para o balcão, tomou uma folha e saiu triunfante indo para o Pascoal ler aos do grupo, os "períodos dourados".
Justamente nesse tempo a campanha abolicionista chegara à sua maior intensidade. À luz do sol, nas ruas, concitava-se à revolta. Para os lados da Gávea, em frente ao mar livre, no Leblon, havia um quilombo mantido pela Confederação Abolicionista e, no escritório da Gazeta da Tarde, que era o grande homizio de Chan, negros e negras, sentados melancolicamente, fumavam esperando que lhes dessem destino. Eram constantes os conciliábulos, falava-se em furtos de escravos; e gente de todas as castas prova os redatores denunciando crimes de escravagistas despeitados. A polícia punha em campo os seus esbirros mais sagazes mais atrevidos capoeiras para desfazerem as reuniões e interromperem as conferências espavorindo o povo.
Patrocínio, convidando outros chefes da propaganda, resolveu um grande comício no Politeama, à noite. Todos os jornais abolicionistas anunciaram e, no dia aprazado, à tarde, um homem misterioso apareceu na redação para prevenir o intrépido jornalista: "que uma grande malta estava assalariada para invadir o teatro no momento em que o primeiro orador aparecesse na tribuna".
Patrocínio transmitiu o aviso aos companheiros e à noite, com estandartes, seguiram todas as sociedades abolicionistas para rua do Lavradio.
O imenso barracão regorgitava quando assomou à tribuna Quintino Bocayuva, calmo, dirigindo-se ao povo em frase sóbria e ponderada. Repentinamente, porém, uma grita, à porta, alvoroçou o auditório. Eram os capoeiras comandados por Benjamin.
Aos gritos da malta respondeu o povo com assuada tremenda. Anselmo estava em um dos camarotes da entrada e, num ímpeto, tomou uma cadeira arremessando-a no meio da farândola. Foi o sinal da luta. O povo avançou em coluna e começou o combate.
Navalhas reluziam, tiros estrondavam, cadeiras entrebatiam-se, partindo-se no ar, violentamente arremessadas. Em pouco os destroços formaram alta barricada por trás da qual o povo continuava a defender-se heroicamente. Anselmo, já rouco, bradava contra a infâmia. De repente, empunhando um pé de cadeira, atirou-se arrojadamente do camarote caindo no meio do grupo a desancar, amouco. Vários populares seguiram-lhe o exemplo temerário e, na estreita passagem, travou-se uma luta tremenda sendo os capoeiras repelidos.
Só então apareceu a polícia azafamada, atirando os cavalos sobre o povo. Houve protestos, ameaças: por fim, na platéia, uma voz bradou possantemente: "Abaixo o rapa-côco! Morra o escravocrata!" E um clamor tormentoso de duas mil vozes furentes atroou "Morra!" Mas vários "psius" silvaram. Voltaram-se todos para a tribuna: Quintino Bocayuva, calmo, ereto, alisava a barba. Palmas estrepitaram e, o orador, retomando serenamente o fio do discurso, continuou a demonstrar que a causa dos escravizados, que todo o Brasil adotara, havia de vencer, embora a polícia, pactuada com os fazendeiros, procurasse, por meios criminosos, sustar a marcha vitoriosa da idéia. Seguiu-se com a palavra José do Patrocínio que lançou um repto à monarquia: "Ou cede à vontade do povo ou cai. Citou Quinet, reproduzindo a imagem do oceano que se vai impondo a pouco e pouco, subindo degrau a degrau, ameaçador e sinistro e, terminando, anunciou, para muito breve, a Redenção da Pátria Brasileira."
À saída, como circulasse o boato de que a malta estava à porta armada, para desfeitear os oradores, o povo reuniu-se e desfilou arregimentado, levantando vivas aos heróis da noite.
Anselmo, com as roupas retalhadas, sem chapéu, vociferava e, diante do edifício da Polícia, levantou um — morra! desesperado que, por felicidade, não lhe saiu da garganta, tão rouco estava.
Na redação, onde ficaram um momento repousando, Patrocínio e outros chefes abolicionistas, comentaram a bravura do escritor: "Não o julgavam tão valente..." Anselmo estava alucinado: "Queria ir à Polícia! Queria encontrar o Benjamin para quebrar-lhe a cara." E fulo, suado, esbaforido, com os olhos coruscantes, brandindo a bengala lascada, rugia:
— Parto-lhe a cara! Se é homem também eu sou! Parto-lhe a cara! Num salto ágil quis ganhar a porta. Detiveram-no a tempo, ele, então, aos arrancos, falando para o povo que enchia o escritório, contou os seus feitos abolicionistas.
— Também acoitei escravos! Estão aqui oito que mandei de S. Paulo... e hei de acoitar. Canalhas! Parecia louco.
— A escravidão é um roubo! — esgoelou um velhote agitando o guarda-chuva.
— Apoiado! — bradaram todos e o velho, inspirado, pôs-se a esganiçar do meio da turba, espichando a cabeça, sacudindo em uma das mãos a cartola e na outra o guarda-chuva:
— Patrocínio, teu nome há de ficar gravado no Panteon da História do Brasil. Tu és a nossa esperança... Não desanima, Patrocínio, meu velho, e, no dia em que for necessário um homem para combater a teu lado, conta comigo! O Januário, Patrocínio... O Januário calafate! O guarda-chuva e a cartola dançavam acima cabeças e o velhote, frenético, energúmeno, já rouco, urrava: Conta comigo... E estentorou: "Viva José do Patrocínio... gente!" Todos bradaram. "Oôôôh!" Mas a reunião começava a tornar-se inconveniente. Gritos sediciosos rompiam por vezes: "Morra o carrasco!... Viva a República!" Patrocínio dirigiu-se povo pedindo calma. Vários vivas atroaram e a multidão foi escoando até que recaiu o silêncio. A patrulha passeava rua abaixo, rua acima.
— Menino, você é uma fúria!
Anselmo procurava compor o casaco estraçalhado.
— O diabo é que não tenho outro casaco e perdi o chapéu.
— Não tens outro casaco?
— Não.
— Quem não tem roupa não se mete em camisa de onze varas, disseram.
— Oh! És tu, Lins?
— Sou eu. Venho oferecer-te o meu braço forte.
Num rápido olhar Anselmo compreendeu que o poeta não estava em estado de lhe oferecer socorro.
— Amanhã mando levar um casaco à tua casa, disse o Patrocínio.
— E um chapéu, ajuntou Anselmo.
— Queres tomar um tílburi?
— Acho melhor.
— Toma. Tenho aqui pouco, mas chega. Não estás ferido?
— Não.
— Então vai.
— Até amanhã. Olha o casaco.
— Não há dúvida.
À porta, o Lins, agarrado ao braço de Anselmo, oscilava, risonho e baboso, oferecendo-lhe o braço forte:
— Estou danado! Sou capaz de agarrar um permanente por uma perna e bumba! Abaixo do cavalo! Não imaginas! Quando eu tinha quinze anos derrubava touros a murro. Estou danado! Perdeste o chapéu?
— Perdi.
— Queres o meu?
— O teu? E tu...?
— Eu? Já estou de touca, não faz mal. Rompeu a rir, às guinadas, pendurado ao braço de Anselmo. É isto: não posso comer feijoada, fico logo assim.
— Foi então a feijoada que te pôs nesse estado...?
— Foram os pertences. Vendo, porém, que Anselmo encaminhava-se para o meio do largo, fez um esforço e deteve-o: Onde vais?
— Vou tomar um tílburi.
— Qual tílburi! Vamos tomar outra coisa: um conhaque, por exemplo.
— Não, não posso. Olha como estou. Queres que me vejam assim roto?
— Que tem? Há razões gloriosas. Eu hoje estou danado! Vou dormir contigo. Há espaço na tua cama?
— Pois não.
— Então vou. Não posso dormir no meu quarto: é cada mosquito que parece um frango. Quando ouço a zoada vou devagarinho com a mão, agarro o bicho pelas pernas e zúquite! Dou com ele na parede e esborracho-o. Vamos tomar alguma coisa.
— Não, Lins; estou fatigado. Vamos ver se o cocheiro nos leva no mesmo tílburi.
— Eu não peso nada. Posso ir ao colo.
Felizmente Anselmo encontrou um cocheiro amável. Mas que trabalho para acomodar o Lins!
— Para onde vamos?
— Rua do Riachuelo.
— Olhe, cavalheiro, vá devagar porque a rua está jogando muito. Decididamente não posso comer feijão. Estou danado! Que morro é aquele alto?
— Onde?
— Ali! Não estás vendo as luzes?
— Que morro? Que luzes? Não vês que são estrelas?
— Estrelas?! É verdade! Estrelas... Mas como o céu é alto, hein...! Que horror! Mais devagar, cavalheiro. Queres saber? Há dias, quando eu voltava para casa, às cinco da manhã, encontrei um cavalo de tílburi deitando fumaça pelo nariz. O seu cavalo fuma, senhor? Mais devagar... Homem, tu moras na rua do Riachuelo ou na estação do Riachuelo? Parece que estou andando desde o princípio do mês.
— E tu pesas, Lins!
— Não sou eu, filho, é a cabeça... Uma feijoada completa, imagina!
— Aí! Pare.
Que trabalho para descer o Lins e para deitá-lo, que trabalho!
Uma tarde, terminado o trabalho da redação, Anselmo descia a rua do Ouvidor quando se sentiu agarrado por um pulso formidável. Voltou-se impetuosamente e deu com Luiz Moraes, sempre carrancudo:
— Onde vais?
— Não tenho destino. Estou arejando o cérebro.
— Dize-me cá: Fortúnio falou-me de uns contos teus que foram rejeitados por certo jornaleco.
— Sim, não são propriamente contos: são umas ligeiras fantasias. Por quê?
— Eu te digo. Vamos aqui um instante. Tenho de esperar o Artur. Já conheces o Artur?
— De vista.
— Excelente rapaz e magnífico poeta. Seria um dos primeiros líricos americanos se, por vezes, não rebaixasse a lira a violão zangarreando chulas para o populacho. Um poeta não deve descer à multidão, a multidão é que deve subir ao Parnaso para ouvi-lo. Tomarias a sério Petrarca ou Musset tocando na orquestra para ritmar o passo bambo de uns tantos saltimbancos? Não, por certo. A arte é hierática. O poeta é sacerdote: oficia para o coração e o Artur não é só um poeta, é um grande poeta: natural, correto, suave e brilhante. Acho que não devia escrever para o teatro. Ficasse nos sonetos.
— Il faut vivre, mon ami.
— Ora! Il faut vivre! E eu? Não estou aqui? E Deus me livre de escrever uma linha para o teatro, não que deteste a literatura dramática, mas não temos intérpretes. Um poeta não deve descer à imbecilidade erótica do maxixe. Faça versos honestos, escreva poemas, isso sim. Vamos tomar alguma coisa.
Entraram na Maison Rouge. A casa era sombria e lúgubre como uma adega. Estava deserta; tomaram uma das mesas e Anselmo, puxando uma cadeira, disse em tom sentencioso:
— Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, disse o Cristo. Ao povo dá ele as revistas, à Arte dá os esplêndidos versos que tanto exaltas.
— E com razão porque são admiráveis. Mas eu fico indignado quando ouço um bom verso estropiado por um palhaço. Um alexandrino na opereta! Sabes que me lembra? Um leão das montanhas com a sua juba dourada, virando cambalhotas num circo ou correndo cavalgado por um macaco. O verso alexandrino é nobre, fez-se para os lábios de um Leconte e não para a boca desdentada de um histrião de feira.
É natural que a Sarah recite as estrofes do grande "Impassível", mas um clown que declamasse Bhagavat faria estourar de riso um frade de pedra. Senhor, poeta é poeta! Só então o Moraes viu que o caixeiro estava de pé, junto à mesa, esperando ordens: Homem estavas aí...? Está bem; não perdeste o teu tempo, sempre ouviste alguma coisa aproveitável. Dá-nos cerveja.
E, cuspinhando, continuou:
— Tenho dito ao Artur: Que diabo! Tu que tens tanto talento por que não deixas essa borracheira de teatro? Escreve versos, que os fazes admiráveis, lida com a tua musa delicada e abandona de vez esse rancho de cabotinos... Mas o homem está viciado. O escritor habitua-se com o meio que o aplaude e, para o não perder, vai cedendo à larga, até que um dia nivela o seu espírito com o da gente ignóbil e adeus! Foi-se! Perdido. E como o homem que se vicia com a morfina. Há glórias afrontosas, eu penso assim. O Artur é homem para ser aplaudido por nós, e prefere ao nosso julgamento o barbarismo idiota das platéias. Vício.
— Mas que há de ele fazer se os nossos teatros não aceitam peças literárias? Consta-me que ele tem uma tradução magnífica de Molière, em verso.
— Uma não, várias.
— Então...
— Mas escreve revistas.
— Para ganhar.
— Faz mal! Um poeta como ele não transige.
— Mas... E sobre os contos?
— Ah! Sim. Vamos fundar uma revista literária. Temos aí homem que está entusiasmado e quer tentar a aventura... Vai ganhar dinheiro, afirmou o poeta torcendo os fartos bigodes. Estamos resolvidos a trabalhar de graça nos primeiros tempos, mas depois ele há de entrar com o cobre... O caso é este: Resolvemos, o Artur e eu, fazer um jornal novo, com idéias novas... Nada de antigualhas, e queremos arrebanhar todos esses rapazes que andam por aí cheios de talento, mas repelidos, porque ninguém quer tentar a experiência. Aqui é assim — só têm talento os de um certo grupo da rua do Ouvidor. Ali estão os romancistas criadores, os poetas incomparáveis, os mestres da crítica... Uma súcia de bestas que vive num elogio recíproco, escancarando as mandíbulas em hiatos encomiásticos, ao coxear dos versos cambaios ou ao chirinolar do período fanhoso e vazio do primeiro mu que zurra. Uma cáfila! Vamos cair sobre a súcia a golpes de talento. E havemos de desbaratá-la, porque não vale nada. Gente que não lê, gênios sem sintaxe, águias com penas de ganso. O Artur está disposto a começar a razia. Vais ver o estouro e eu quero os teus contos.
— Pois não.
— Publico-os e fico à espera da crítica. Também se vier algum, dou-lhe tamanha tunda que ele nuca mais se mete em coisas de Arte.
— Que título tem a revista?
— Vida Moderna. Vai sair magnífica, hás de gostar.
— Você e o Artur?
— Eu e o Artur.
— Pois trago amanhã os contos.
— Quantos tens?
— Cinco ou seis.
— Pois traze todos amanhã e vais ver como se desmantela uma igrejinha. Conto com pouca gente, mas sou como Gedeão: nada de fracos na falange, nada de exércitos de Xerxes — um pugilo de espartanos. Eles lá têm gente a valer... Mas que gente! Enfim, trazes amanhã sem falta?
— Sem falta.
— O jornal deve sair no sábado.
— Trago amanhã.
Anselmo ia levantar-se quando apareceu o Artur. Gordo e sangüíneo, o rosto largo, expressivo, apresentava-o como um perfeito exemplar dos filhos da Provença dourada do Brasil, que é o Maranhão, terra de sonhadores, onde as lendas pululam e a poesia é a linguagem comum dos que vivem nos campos largos, à grande luz do sol, ou ao pálido luar sem névoa. Os olhos vivos pareciam guardar ainda um pouco de cintilação dos dias equatoriais, a fronte vasta, os cabelos negros, violentamente atirados para trás, reluzindo com brilho próprio. Sentou-se acaçapado, olhando por cima das lentes do pince-nez de tartaruga que lhe escorregava do nariz. De quando em quando erguia a cabeça com ímpeto, como se o ar lhe faltasse, com a mão espalmada derreava os bigodes ou alisava os cabelos. Moraes balançava a perna, passando o índex pela mesa.
— Então?
— Aqui estou. Que há de novo?
— Está tudo feito.
— Falaste ao Lombaerts?
— Para quê? Pois ele não te disse que podíamos mandar originais?
— Sobre o formato do jornal, sobre a escolha das gravuras?
— É ilustrado? — perguntou Anselmo que se havia conservado calado.
— Ilustrado. Homem, vocês não se conhecem ainda.
O Artur encarou Anselmo.
— Anselmo Ribas, foi companheiro de casa de meu irmão.
— Pois não. Trocaram um aperto de mão.
— Vem trabalhar conosco, disse o Moraes, acrescentando: Tem talento. Mas vamos ao caso. Estás disposto a abrir luta?
— Acho que não convém.
— Ora! Não convém... Mas, seu Artur, nós havemos de deixar que um bando de imbecis viva por aí, com muita empáfia, inculcando-se diretor do movimento intelectual? Sujeitos sem valor, rimam baboseiras e escrevem uma prosa mais chata do que o diabo?
— Que temos nós com isso?
— Que temos?! Se não aparecer um homem de coragem que se ponha à dominação da grei dos turiferários ficamos reduzidos a quê, faça favor de dizer, a quê? Não, senhor: vou ser implacável. Se tivessem talento, muito bem, mas são todos uns nulos, sem originalidade, sem estilo e pretensiosos como tudo. Chefes...! Ora pelo amor de Deus!
— Mas, Luiz, eu não te entendo. Combates agremiações literárias, achas, e com razão, que a coterie esteriliza...
— É indecente!
— É indecente, e alicias um grupo, organizas uma coterie, respondes ao mal com o próprio mal. É esquisito. Vamos trabalhar sem idéias preconcebidas; nada de lutas. Para que nos havemos de indispor com os rapazes que não nos fazem mal? Não há razão...
— Pois eu rompo! E começo pelo chefe: derrubado o bonzo vem abaixo o pagode. Seu Artur, eu não sou literato de catálogo — estudo e não ando por aí a apregoar que os meus versos são os mais belos da língua portuguesa e aqui ninguém os faz melhor, nem aqui nem lá... nem lá! Entanto estou calado, não ando a esmolar elogios. Se aparecem artigos nos jornais a meu respeito são escritos espontaneamente pelos que se impressionam pelo meu verso. Por que não fazem eles o mesmo? Não! E um nunca acabar de elogios, é um Te-Deum laudamus que não tem fim. Rompo! Rompo e esbodego aquilo tudo!
— Faze o que entenderes: eu não concordo.
— Pois concordo eu.
— Ah! Sem dúvida: hás de concordar contigo. Mas vamos a saber: já tens o artigo?
— Que artigo?
— De apresentação?
— Qual artigo de apresentação: digo duas coisas: os intuitos literários do jornal e nada mais.
— Pois é isso.
— E tu?
— Eu dou a crônica, um soneto...
— Podias dar um trecho da tua revista.
— Como? Pois não te cansas de dizer que devo abandonar esse gênero e queres dar, no primeiro número do jornal, um trecho da ignomínia?
— Perdão, eu digo mal das revistas, mas elogio incondicionalmente o teu verso. Aquele monólogo do Prólogo é um primor. Não concordo com as cantorias, isso não, mas dou o justo valor à obra da Arte.
— Bom, estamos combinados.
— Perfeitamente.
Artur voltou-se para Anselmo:
— Em que jornal está escrevendo?
— Na Gazeta da Tarde.
— Faz uns folhetins aos sábados. Tem talento, mas abusa muito do adjetivo e tem a mania do Oriente.
— É a coqueluche literária.
— Mas vicia.
— Não, é um meio fácil de fazer vocabulário: ensaio-me no descritivo para ganhar vigor, colorido e ductilidade.
— Não, você é exuberante, é excessivo. Senhor, o ideal do artista deve ser a simplicidade. Há a simplicidade-pobreza, que facilmente se reconhece e há a simplicidade-distinção; e é mais fácil ser sóbrio do que ser abundante. A idéia só se manifesta num termo, o resto, versas. Mas vocês não entendem assim: para exprimirem a coisa mais comezinha deste mundo deitam abaixo dicionários, é uma mania. O Artur levantou-se: Já vais?
— Já, tenho ainda a minha seção.
— Então não queres romper?
— Não, não vejo motivo.
— Ah! Não vês?
— Não vejo. E uma agressão injustificável.
— Pois sim.
O Artur levantou-se, ofereceu a casa a Anselmo e, despedindo-se do Moraes, disse sorrindo:
— Então estás decidido a demolir?
— A arrasar!
Ainda o Artur não havia desaparecido, quando Anselmo se pôs de pé, resolutamente:
— Adeus! Não me posso demorar mais. Tenho um amigo à minha espera.
— Quem é?
— O Estêvão.
— Que Estêvão?
— O pintor.
— Ora! Deixa o pintor, vamos conversar.
— Não posso; e já vou tarde.
— Que horas são?
— Três e meia.
— Chii! Adeus! Até amanhã. Olha os contos.
— Não esqueço.
Saiu apressado porque, efetivamente, prometera estar às três horas com o pintor para ver a sua última composição.
O atelier era na rua General Câmara, um pardieiro sombrio e lôbrego. Subia-se por uma velhíssima e desconjuntada escada que rangia e estalava, ameaçando ruir. Ao alto tomava-se um corredor onde nunca havia entrado raio de sol, direito aos aposentos do artista negro.
Na sala, iluminada por duas janelas, tinha ele o cavalete e o banco. As paredes estavam literalmente cobertas de trabalhos: eram telas de gênero, algumas em moldura, esboços a carvão, manchas, desenhos, caricaturas, vários estudos do natural, entre os quais uma expressiva cabeça de lazarone. Mas o que atraía os olhares era a grande quantidade de frutas: abacaxis, mangas, algumas descascadas mostrando a polpa dourada, racimos de uvas, pencas de bananas, cachos de ameixas, corbelhas de morangos, cajus, melões, melancias, todos os dons de Pomona ali estavam esplendidamente copiados. O Lins costumava dizer, quando ia ao atelier do artista: "Vou hoje à quitanda."
Quando Anselmo entrou, o pintor, de pé no meio da sala, cujo soalho desaparecia entulhado de papéis, contemplava o quadro que terminara.
— Cá estou.
O pintor voltou-se surpreendido e, dando com o rapaz, avançou sorrindo, de mãos estendidas. Estava em mangas de camisa, descalço.
— Oh!
— Já não contava comigo?
— Não, contava.
A sala tresandava a terebintina. Um gato gordo, deitado sobre larga pasta atochada, lambia as patas preguiçosamente.
— Está aqui a obra, disse o pintor timidamente. Era uma grande tela de um metro: frutas — enorme cesto transbordante: mangas, abacaxis, laranjas, uvas, pitangas. As cores eram admiráveis e sentia-se a pubescência dos pêssegos, as pitangas eram como grossas gotas de sangue — uma maravilha! Anselmo teceu os mais vivos elogios ao artista.
— Magnífico! O Lins já me havia falado.
— Ah! O Lins é muito meu amigo. Anselmo sentou-se no tamborete diante da tela e o artista continuou, sorrindo: O Lins, grande pândego! Já me pregou uma peça...
— Que foi?
— Ora! Troça. Encomendaram-me um quadro — o Lias estava passando uns dias comigo, depois da cena em casa do Madeira. Tratei de escolher as frutas. Como o amador era inteligente e rico escolhi o que havia de melhor: pêras, uvas, mangas, marmelos, metade de um melão que arranjei, por muito favor, num hotel conhecido, figos e por aí... Fiz um embrulho cuidadoso e trouxe tudo para a casa. Como era tarde não quis começar o trabalho e saí para jantar. Levaram-me ao teatro, andei em pagode até às tantas! Quando cheguei à casa já o Lins dormia profundamente. Acordando, tratei de ver se as frutas haviam sido tocadas pelos ratos e achei apenas os marmelos e duas talhadas de melão. Eu não tinha mais vintém... Imagine! Fiquei desesperado. Despertei o Lins.
— Foste tu que comeste as minhas frutas?
— Hein?
— As frutas.
— Comi ontem.
— Ora, Lins... Eram os modelos.
— Que modelos, homem?
— Para o meu quadro.
— Eu logo vi que eram frutas de quadro porque as mangas sabiam horrivelmente à tinta a óleo.
— E agora? Como há de ser?
— Não pintes frutas: apodrecem depressa. E voltou-se para a parede.
— E como te arranjaste?
— Fui ao amador e pedi que me adiantasse alguma coisa para comprar outras frutas. Comprei e o Lins, logo que as viu, muito guloso, pediu-me que, ao terminar o trabalho, não me esquecesse de lhe dar os modelos. Terrível!
— E o caso do Madeira?
— Não conhece?
— Não.
— Esse é mais sério. Custou-lhe uma sova.
— A quem? Ao Madeira?
— Não, ao Lins.
— Como?!
— O Madeira é um velhote alegre que costuma festejar o S. João com fogueira e comeizana, no seu chalé da rua dos Coqueiros. Tem em sua companhia uma irmã solteira, dama quarentona, de muita virtude. Pelo que ela diz: está solteira, não por falta de noivo, mas porque fez voto de castidade: apareceram-lhe vários partidos, alguns vantajosos e ela sempre firme no seu voto. Vive com o irmão e com a cunhada. O Lins foi levado a uma das tais festas de S. João à casa do Madeira e portou-se galhardamente. Ali pelas tantas da noite, se o não agarrassem, teria saltado a fogueira, apesar da perna dura e da vinhaça: estava como louco.
Saíram todos os convidados, ele foi o último a despedir-se. Na ocasião de retirar-se, não conhecendo bem o chalé, em vez de tomar pela porta da rua, meteu-se por outra. Fechada a casa, quando a irmã do Madeira, em camisa, recolheu-se ao leito, deitou-se em cima de um homem. Um grito de pavor e de pudor ofendido alarmou a casa — acudiram todos: o Madeira com uma bengala nodosa, a mulher com uma vela e a pequenada berrando. A pobre senhora, trêmula e pálida, olhava assombrada, encolhida, tiritando a um canto. Quando o Madeira entrou, o Lins estava sentado na cama, também assustado.
— Que é isto, senhor? — urrou o Madeira indignado. Pois eu recebo-o na minha intimidade, com toda a delicadeza, para o senhor ultrajar uma senhora respeitável, que podia ser sua mãe?
— Ultrajar?! Como? Eu ultrajei! Eu não ultrajei... não me lembro!
— Não se lembra?! Com que intuitos procurou o senhor este leito cândido?
— Eu não procurei nada, eu achei.
— E com que intenção se deitou?
— Eu? Sei lá!
— Ah! Não sabe? Pois sei eu. E o Madeira vibrou a bengala. O Lins, sentindo a bordoada, levantou-se de um salto:
— Espere! Não bata! Não bata! Espere, eu explico-me. Não bata assim, eu sou seu hóspede...
— Então explique-se.
— O senhor disse que eu ultrajei a senhora...?
— Sim, senhor!
— Pois não briguemos por isso: se eu ultrajei, caso. Disse-me o velho Madeira que custou a conter o riso, mas para manter a força moral, agarrou o Lins por um braço e levou-o até à porta da rua. A pobre senhora ficou de cama e mandou rezar uma missa em ação de graças por ter escapado com o seu voto incólume.
— É fantástico!
— Isso não é nada. O Lins tem casos interessantíssimos: é a vida mais cheia de peripécias cômicas que conheço. Sabe que ele anda agora apaixonado...?
— Por uma menina, uma vizinha.
— Sim, que tem a perna direita como ele tem a esquerda. Diz ele que vai casar para estabelecer o equilíbrio.
Riram, mas Anselmo levantando-se, lançou um olhar de inspeção às paredes do atelier e, plantando-se no meio da sala, perguntou:
— Então já se pode viver da pintura no Brasil?
O pintor encarou-o com espanto e baixando a cabeça, sorriu tristemente.
— Não entremos nesse particular, meu amigo. Se alguém vive de quadros no Brasil não é propriamente o artista, é o dourador. Vou contar um fato significativo e perfeitamente característico. Um dos homens que, entre nós, passam por entendidos em Arte, encomendou-me um quadro para a sua galeria, mandando-me, num envelope, um barbante que era a medida da tela e explicava: "Faça-me o quadro pela medida que aí vai, nem mais, nem. menos, porque é o espaço que tenho na parede." Comecei o trabalho e confesso que não fui de todo infeliz... se as frutas não eram como as do Paraíso nem por isso mereciam ser atiradas ao lixo. Envernizada a tela, mandei um aviso ao homem que, três dias depois, apareceu aqui. Mostrei-lhe o trabalho. Ele, com um ar entediado, pôs o pince-nez e, sem dar atenção à tela, fitou-me o olhar sobrecenho:
— Mas não está pronto.
— Sim, senhor.
— Como! E a moldura?
— Ah! O senhor queria que eu pintasse a moldura?
— Não que a pintasse, queria uma moldura dourada de um palmo. Não veio a medida?
— Não, senhor, talvez tenha ido para a casa do Vieitas.
— Ah! Bem... E, sem mais preocupar-se com o trabalho, contando as notas, insistiu: E o senhor cingiu-se à medida?
— Estritamente: nem mais nem menos. Aí tem o senhor. Para o homem o que ali estava eram um metro e 75 de pano, nada mais. Quem vive de Arte? Dois ou três favorecidos e não os de mais talento. O Firmino Monteiro, que é um esforçado, não consegue colocar os seus quadros e é um artista de merecimento, talvez o mais consciencioso dos nossos pintores históricos. O seu Vercingetorix lá está enrolado, a um canto do atelier, porque não há um homem que tenha uma parede bem larga para a formosa tela. Estou certo de que se o meu amador a visse mandaria retirar uns quatro ou cinco legionários dos que acompanham, à presença de César, o Chefe dos cem vales, para encravar a tela entre outras, disparatadamente. As minhas frutas estão entre a cópia de uma batalha, de Detaille e uns touros, de um pintor inglês. Por cima uma marinha do De Martino e, por baixo, uma gouache: o Rialto. Não há gosto artístico — o quadro é uma ostentação. Não há quem diga: Tenho aqui um original de fulano. Dizem todos: Estão aqui tantos contos de réis. Infelizmente esta é a verdade. É possível que venhamos a ter um público que dê apreço à obra de Arte, por enquanto temos apenas vaidosos que entendem tanto de pintura como eu entendo o grego. Agora, já que ferimos este ponto, vamos à verdade: Também não temos Escola. Aquilo que há ali na travessa das Belas Artes é um Asilo de mentecaptos. O governo, querendo proteger uns tantos homens, nomeou-os para as diferentes cadeiras do ensino artístico e, sob a cúpula daquela casa silenciosa, durante os dias lentos do ano, uma turma de rapazes desenha academias. Raramente ali aparece um modelo. Não há quem se lembre de haver feito uma excursão ao campo, de sorte que os rapazes, habituados ao exercício passivo da cópia, naquela penumbra sonolenta das salas, quando chegam ao grande ar, em face da natureza forte, cercados da luz viva, ficam encandeados e são incapazes de transmitir à tela a menor impressão de água, de céus, de campos ou de arvoredo. Uma folha que se agite basta para os desnortear, os olheirões de água dão-lhes vertigens, os matizes de uma campina deixam-nos assombrados, e o governo continua a manter aquele mosteiro de Apolo de onde saem apenas copiadores. Se um rapaz tem decidida vocação para a Arte faz como o Castagnetto — rasga a matrícula, mete-se num bote e, águas em fora, com as suas telas e os seus pincéis, uma merenda frugal e a caixa das tintas, vai pintar ao sol, sobre as águas, trazendo-nos, ainda com o cheiro das brisas salitradas do mar largo, essas esplêndidas marinhas, ou faz como Parreiras que, de quando em quando, abala para a floresta de onde volta sobraçando uma porção de estudos do natural. Há verdadeiros talentos na Academia, mas murcham logo que se habituam àquele meio merencóreo e sombrio onde há apenas cabeças pagãs estampadas em papier maché e bustos de gesso, que são verdadeiras ignomínias. O público, que vai às exposições anuais daquela casa, porque entende que Arte é o que lá está, não pede senão coisas que se pareçam com aquilo. A Academia é a mais terrível inimiga do artista.
— E afinal, como vive?
— Eu? Assim. Aqui pinto, aqui durmo; saio apenas para comer, quando é possível. Agora, felizmente, tenho dois discípulos: um dá-me o jantar...
— E outro o almoço...?
— Não, o outro paga-me.
— Então não vive exclusivamente dos frutos do seu trabalho...
— Homem, dos frutos fica-me a casca, que é amarga.
— E esse novo quadro?
— Está vendido.
— Bem?
— Nem por isso: calculo em duzentos a duzentos e vinte mil réis.
— Como isso?
— Eu digo. Sabe que estive à morte, com uma congestão pulmonar..
— Quando?
— Há uns seis meses.
— Não sabia.
— Pois estive por um fio. Estava sem vintém; pedi a um amigo que me vendesse algumas telas pelo preço que encontrasse. Mas... que deu isso? Um quadro de um metro, falo agora como o amador, foi vendido por cento e cinqüenta mil réis e as receitas sucediam-se. Já não havia meio de aviá-las quando o meu companheiro lembrou-se de pedir um pequeno crédito ao farmacêutico, tomando a responsabilidade da dívida, caso eu falecesse. O homem é generoso, aceitou. Logo que me restabeleci fui entender-me com ele sobre as condições do pagamento: "Olhe, disse-me, faça-me uma coisinha para a minha sala de jantar e ficamos quites. Agora não vá fazer um quadrinho para crianças, mesmo porque eu sou curto de vista. Faça-me alguma coisa que se veja de longe." E... aí tem.
— Mas isso é uma infâmia! — bramiu Anselmo.
— Uma infâmia? Podia ter sido pior.
— Ah! Mas eu vou escrever um artigo! Arraso o boticário! — exclamou Anselmo tomando o chapéu e a bengala. Arraso o boticário...!
— Pelo amor de Deus! Não faça tal! Eu sou um homem doente!
— Mas é uma infâmia! É uma exploração!
— Que se há de fazer?!
— É verdade! E estamos numa cidade artística, capital de um império!
— É para ver.
— Bem, adeus, Estêvão!
— Adeus! E obrigado. E, indignado, Anselmo desceu as escadas lentamente, receoso de que aquela ruinaria desabasse.