Chegando à rua do Ouvidor encontrou Fortúnio macambúzio, a mascar um charuto, encostado à porta da Maison Rouge.
— Que é isso, homem? Estás fúnebre.
— Estou com a morte na alma; e suspirou profundamente: Ai!
— Mas que tens? Fala...
— Recebi uma carta do Norte... Sou um grande desgraçado! Arrancaram-me a alma! Atirou a ponta do charuto à sarjeta e, com os olhos úmidos, fitando, com desprezo, o resto do trabuco que fumegava: E ainda há quem defenda a indústria nacional... Está um homem com o coração alanceado, compra um charuto baiano para distrair-se e dão-lhe uma espiga daquela ordem. Coitado de mim!
— Mas que dizia a carta? Tens algum enfermo na família?
— Não. Eu te digo, vou contar-te a verdade, mesmo porque preciso desabafar senão estouro, estouro, palavra de honra. Estou até aqui! — e pôs um dedo na garganta. Tudo irrita-me — a alegria do céu, a alegria da terra. Eu digo como Job: maldito seja o dia... Que suplício! Um homem com o coração dolorido, com a alma despedaçada, obrigado a estar aqui contemplando a alegria dos felizes. Se eu pudesse agarrava toda essa gente e esganava. Ah! Não poder eu fazer com as minhas lágrimas um dilúvio... Ai!
— Mas conta-me a tua tristeza.
— Conto mesmo. Valha-me Deus!
— Tu não estás muito direito, Fortúnio!
— Como não estou direito?!
— Parece-me que o teu mal..
— É todo moral...
— ... e de espírito.
— Ah! Espírito... Pensas que andei pelas baiúcas. Seja tudo pelo amor de Deus! Pois vou contar-te. Vamos. Quero que me ouças religiosamente.
— Como se fosse o teu confessor.
— Não! — exclamou empertigado; não admito confessores, sou ateu. Meu confessor é o meu amigo. Entraram. Uma garrafa de Guiness...
— Vais tomar cerveja preta?
— Vou. Estou de luto: só como feijão e não bebo bebidas brancas. Já amaste, Anselmo?
— Já.
— E sofreste?
— Muito!
— Então podes compreender a minha dor. Ouve: quando saí de Alagoas deixei minha alma com uma linda moça. Ah! Não imaginas! A morena mais bela que Deus pôs no mundo. Antes de partir, chamei-a e disse-lhe: "Fulana, este meio é muito acanhado para as minhas aspirações, vou tentar a vida em outra parte, vou fazer fortuna para poder oferecer-te, com a mão de esposo, os gozos que só a riqueza dá. Somos ambos jovens. Tu, se me tens amor, como dizes, posto que venhas a sofrer saudade, não me esquecerás. Eu serei teu e, pensando em ti, redobrarei de esforços para abreviar o meu retorno. Se me prometes esperar, parto contente e, por aquela estrela clara, que nos olha do céu, juro que, em breve, estarei a teus pés depondo, não só minha alma como o fruto do meu trabalho." E ela, Anselmo, a pérfida, que é muito versada em romances de cavalaria, iludiu-me com palavras doces e com lágrimas falazes: "Por que não te hei de esperar? Não era maior que o meu o amor das damas de outrora que juravam fidelidade aos cavaleiros empenhados na guerra santa. Muitas, porque os seus noivos não tornavam, fiéis ao juramento feito, vestiam a estamenha e encerravam-se nos claustros. Queira o Senhor que eu não seja forçada a seguir esse destino, mas por aquela estrela juro, meu Fortúnio, que, se por mal do nosso amor, não tornares ou por morte ou porque me hajas esquecido, seguirei o caminho triste de um mosteiro e, na minha cela solitária, direi tanto o teu nome que os próprios muros hão de decorá-lo. Se entendes necessária a partida parte, e que o bom Deus te guie, o meu amor irá contigo. E vai! Certo de que, à tua volta, hás de encontrar-me fiel ao que prometo."
Foi isso no quintal de minha casa, perto da cerca. Selamos essa promessa com um beijo e parti. Não lhe podia escrever; ela, porém, lendo os meus versos, revia-se em todos eles porque, até hoje, outra não foi a inspiração de minha alma e, por um amigo fiel, mandava-lhe recados. Aqui, bem sabes que faço pela vida, procuro acumular fortuna — porque eu não desembarco em Maceió senão com muito dinheiro! — mas ainda não consegui ajuntar o pecúlio conveniente. Por enquanto nada tenho.
-. Nem casa.
— Nem sapatos, só tenho busto porque, enfim, o meu casaco é quase novo: mas hei de ter calças finíssimas e o resto e, quando tiver... então sim! Dirigiu-se ao caixeiro: Outra garrafa de Guiness. E continuou: Eu confiava nas palavras fementidas da ingrata e, muita noite, com os olhos no céu, contemplando os astros, pedi às estrelas mensageiras que lhe falassem em meu nome. Mas também não sei para que há estrelas no céu que nem para um recado servem. E confiava quando hoje me veio ter à mão esta carta de minha irmã anunciando-me o próximo casamento da ingrata.
— Vai casar?!
— Vai casar e com um inimigo meu. Duas afrontas! Vê como sou desgraçado! Lastima-me!
— E agora?
— Sinto não ter asas. Ah! Se eu pudesse ir a Maceió amanhã, bem cedo. Que escândalo...! Primeiro ia ter com ela, e atirava-lhe em rosto as suas palavras hipócritas, dizia-lhe horrores, humilhava-a, depois então ia ajustar contas com o patife. Dava-lhe tal tunda, Anselmo, tal tunda! Que ele nunca mais se havia de lembrar de pedir moças comprometidas. Mas não tenho asas, nem vintém. Juntou as mãos e, com os olhos altos, suspirou: Mas Deus é grande!
— E que pretendes fazer?
— Vou andar, andar por aí até não poder mais.
— Queres que te acompanhe?
— Não, vou só. Preciso estar só com minha alma. Adeus! És feliz: não amas. Ai!
Levantou-se, acendeu um cigarro e encaminhou-se para a porta. Lá estava o Neiva, num grupo, rugindo, e, mal avistou os rapazes, levantou a bengala:
— Hoje, no Lucinda, a postos!
Eu não vou, disse Fortúnio.
— Por quê? Estás incomodado? — perguntou o Neiva com interesse e meiguice.
— Sou um desgraçado! — e foi-se lentamente rua abaixo, fumando.
— Que tem ele? — perguntou o Neiva a Anselmo.
— Paixão.
— Ah! Também dá para isso? Está arranjado. Logo, porém, mudando de tom: À noite, no Lucinda. Conto contigo.
— É hoje a entrega da jóia?
— Sim, é hoje. E não tenho concorrente. Ah! Todas as noites eu lá estava pedindo a um e a outro. Dei excelência a muito sevandija, mas tenho dois mil e tantos cupons. Não faltes.
— Não falto.
Tratava-se da entrega de um adereço, avaliado em oitocentos mil réis, ao freqüentador do teatro que mais cupons de entrada apresentasse. O Neiva, desde a primeira noite, mal jantava, corria para o Lucinda e, postando-se junto à tábua de anúncio, pedia a todos os espectadores que entravam o cupão que o porteiro havia destacado. Aos conhecidos dizia intimamente: "Dá cá o bilhete para a minha coleção." Aos desconhecidos dirigia-se com cortesia senhoril, de chapéu na mão: "Boa noite cavalheiro... Se V. Exa. não faz grande empenho em guardar esse papelucho ceda-mo." "Pois não..." diziam quase todos, muitos porque ignoravam a utilidade do destacado, outros porque não contavam com a prometida jóia. Raros resmungavam, negando. O Neiva, então, empertigava-se e fulminava o avaro com uma sátira.
Dias antes da contagem dos cupons já era certa a vitória do Neiva, "único campeão que se apresentara para disputar o adereço".
O teatro regurgitava quando Anselmo entrou. Estava toda a "boemia" a postos. De um lado e de outro da platéia, nas alas da feira que ali fora exposta em barracas onde havia a jóia, o brinquedo, a perfumaria, o charuto, a seda, verdadeiros mostradores que anunciavam grandes casas das ruas comerciais do Rio, o povo apertava-se com um zunzum incessante.
Noite quente, de luar. No jardim, a palmeira solitária tinha a folhagem triste prateada e, em torno do seu tronco enfezado, sob as estrelas vivas, ao ar tépido, bebia-se avidamente, com algazarra. As cocottes batiam com os leques nas mesas de ferro, tiniam copos, estouravam rolhas e da platéia apinhada vinha um hausto quente de fornalha.
A uma das mesas o grupo, unido para aquela prova suprema da tenacidade do companheiro, bebia. Mas o pano subiu. O espetáculo correu sem interesse, porque todos esperavam o momento da "jóia".
Foi no intervalo do segundo para o terceiro ato que Furtado Coelho, em cena aberta, anunciou que ia fazer entrega do adereço a quem maior número de cupons apresentasse. Houve um silêncio largo e, de repente, o Neiva saiu dentre os bastidores sobraçando um grosso embrulho. Desatou o barbante que o apertava e, estendendo a mão com solenidade, disse:
— Eis aqui o fruto das minhas economias. Depois, voltando-se para a platéia, acrescentou: Creio que não há concorrentes?! Houve uma estrepitosa gargalhada e o artista, tomando o escrínio, abriu-o para que fosse vista a jóia e, abraçando o boêmio, fez a entrega prometida. Nova gargalhada irrompeu. O Neiva, porém, muito grave, dirigiu-se a Furtado Coelho e, logo às primeiras palavras que pronunciou, todo o público entrou a agitar-se, surpreso.
"Meu caro Furtado. A pilhéria de um mês tem hoje o seu remate. Assiduamente, quer jorrassem aguaceiros, quer a inclemência da canícula entrasse atrevida e indebitamente pelas horas da lua fria, muitas vezes enfermo, todas as noites eu aqui estava, de chapéu na mão, recolhendo os cupons que o generoso público, com raríssimas e indignas exceções, me entregava. Reuni dois mil e tantos, não sei bem o número porque a paciência foi curta para tamanha soma, e sou agora o possuidor do adereço que foi pelos peritos avaliado em oitocentos mil réis. Não o quero para mim: não tenho colo para colares, nem punhos para pulseiras e, se me quisessem furar a orelha para ornamentá-la com pingentes, eu bradaria pela polícia. Enquanto nos divertimos há os solitários que não tiveram o afago maternal, há os anônimos do berço que não conhecem os prazeres do mundo e vivem, como penitentes, guardados pela caridade, no limbo que se chama o orfanato. A jóia que conquistei, a rir, destino-a à órfã que mais se distinguir pela virtude e pela aplicação até ao fim do corrente ano. Que o prazer de muitos, proporcionado pelo teu talento, meu velho Furtado, concorra para a alegria de uma criança infeliz. E tu mesmo Podes encarregar-te de dar o devido destino ao prêmio que conquistei com o suor do meu rosto e com muita zumbaia e algumas descomposturas. Tenho dito."
Furtado Coelho, comovido, estreitou o boêmio ao peito e todo o povo, de pé, saudou com uma prolongada salva de palmas, tão generoso quão inesperado procedimento. Fora, porém, quando o abraçaram, o Neiva irrompeu:
— Eu conheço a cabilda em que vivo! Estava tudo de orelha em pé e rosnava-se que eu, mal recebesse a jóia, correria direitinho para o Leitão ou para o Cahen. Estão enganados! — bramiu com a bengala erguida. Eu não seria capaz de perder as trinta noites de um mês ouvindo declamações enfáticas, humilhando-me diante da imbecilidade para pagar-me uma ceia. Fiz esse grande sacrifício à estética e ao meu orgulho para dar uma lição a esta horda. Pensava que eu ia beber, não é? Pois sim... Garçom, um grogue a crédito. E sentou-se a uma das mesas, esbravejando, furioso, assomado, a brandir a bengala. Anselmo apartou-se do grupo e, chegando ao fundo, junto ao balcão, deu de face com Fortúnio, sempre triste, mordendo os lábios. Duas grossas lágrimas rolavam-lhe pela face morena.
— Ai! Ai!
— Que é isso! Pois ainda estás assim?
— Como queres que eu esteja firme se sou tão desgraçado! — e desatou a chorar. Só então Anselmo percebeu que a dor abalava tanto o poeta que ele mal se podia ter de pé.
— Ó Fortúnio, tu não estás firme.
— Como queres que eu esteja firme se perdi o esteio do coração!
— Só o conde de Matozinhos poderá salvar-te, dando-te uma passagem para o Norte.
— É verdade... Ai! Ai!
Mas terminara o espetáculo, o povo saía atropeladamente e Anselmo convidou o poeta:
— Vamos, anda daí. Onde estás morando?
— Não sei, não me perguntes. Não sei nada. Sou um desgraçado!
— Mas onde dormes?
— Eu não durmo: meu coração está tão agitado que me não deixa dormir. Valha-me Deus! Uma menina que se criou comigo, tão falsa!
— Deixa, homem; não te preocupes: há um Deus no céu...
— Qual Deus...! O que há é um grande patife em Maceió, mas palavra de honra! — eu ainda parto-lhe a cara. Ele casa, casa porque, enfim, já estão correndo os proclamas, mas o casamento há de custar-lhe caro.
Saíram. Anselmo queria, à viva força, levar o poeta para o Ravot; ele, porém, resistia:
— Não, tem paciência, preciso de ar; se entro num quarto de hotel sufoco. Ah! Como eu compreendo o Otelo...! E não haver um Shakespeare para mim!... Vou tomar uma canja, depois atiro-me por essas ruas até cair estafado. Quero que ela saiba que morri nas ruas, como um cão! Há de ter remorsos, e, no dia do casamento, quando estiver nos braços daquele grandíssimo sem-vergonha, há de ver-me lívido, abrindo o cortinado para dizer-lhe quatro coisas bem duras e com uma voz...!
Entraram na Maison. O poeta, apesar do sofrimento moral, engoliu, com apetite, uma canja, um espesso churrasco, dois ovos quentes, uma talhada de queijo, vinho, café e conhaque; depois convidou Anselmo para uma partida de bilhar que se prolongou até às quatro da manhã. Foram os últimos a sair da casa, e na rua, ao luar, Anselmo, que sentia os olhos ardidos, propôs de novo que fossem para o Ravot.
— Qual! Eu agora hei de ver o sol: vou para o Boqueirão. Vou confiar as minhas mágoas ao mar. Quero que as brisas levem um dos meus suspiros àquela ingrata.
— Enfim, já agora... É quase dia. Pois vamos!
No grande silêncio soavam fortes os passos lentos dos dois. Ao longe os combustores apagavam-se como se a treva viesse devorando, uma a uma, todas aquelas gotas de ouro. Turmas de italianos desciam a caminho do mercado com os cestos pendentes dós paus e oscilando como duas conchas de balanças; alguns cantavam, outros riam ao ar fresco da manhã nascente.
Todas as casas fechadas, apenas um botequim, com uma luz triste e baça como de vigília, tinha as portas abertas e um negro, de calças arregaçadas, despejava baldes de água pelo soalho, enquanto um caixeiro sonolento ia empilhando cadeiras sobre as mesinhas de márvore.
Uma carroça pesada, rangendo, passou vagarosamente tirada por um touro robusto, cheia de capim que se levantava nos ângulos em pontas e, sobre os molhos, deitado, ia um homem cantando. Os dois seguiam calados, embebidos em pensamentos diversos, quando ouviram uma alegre cantilena, à maneira singela do campo nortista.
— Ai! Ai! — suspirou Fortúnio. Quem me dera a minha terra!
— Ora! A tua terra...! Por que vieste?
— Sei lá!
— Vieste atraído pela vida. Que diabo querias fazer em Maceió? Nós temos muita saudade da terra em que nascemos, por chic: a prova é que nenhum de nós pensa em tornar aos penates natais. A vida é aqui, meu amigo. Também eu tenho saudade do meu sertão, mas que poderia eu fazer se lá vivesse? Estava em plena natureza, nos campos gordos, vendo o gado e vendo as culturas, trabalhando como um campônio. A esta hora, junto do alpendre da casa, o cavalo de sela escarvando a terra e eu, com uma malga de café no bucho, o rebenque enfiado no punho, pronto para partir a galope, pelos campos, ouvindo o mugir dos touros, aspirando o aroma das silvas e ao sol violento idas e vindas do algodoal à malhada, da malhada ao algodoal, até à hora da tarde, para recolher-me estafado à minha rede e procriar bestamente como os rebanhos, como a terra, dando filhos com a mesma regularidade com que o algodoeiro dá o algodão, o arroz dá a sua espiga e a ovelha põe em terra o anho. É hediondo! Aqui não.
— Ora, aqui não! E que diabo fazemos nós aqui?
— Trabalhamos.
— Morremos de fome e de fadiga porque nem cama temos.
— Mas havemos de ter.
— Na Santa Casa de Misericórdia.
— Qual Santa Casa! Então não esperas vencer?
— Eu, não. Que público temos nós? Pensas que se prepara um povo em dez ou vinte anos? Qual! Havemos de viver sempre como vivemos. Quando vierem os cabelos brancos, se a morte não tomar a frente ao tempo, aquela estrela que lá está no céu há de ver-nos como agora nos vê: caminhando sem destino e rimando sonhos.
— Não há de ser tanto assim.
— O Brasil nem daqui a cem anos compreenderá a obra de Arte.
— Ora!
— Ora?! Queres fazer uma aposta?
— Para daqui a cem anos? Não. Espero não viver tanto.
— Dizem que a população do Brasil é de treze milhões.
— Mais ou menos.
— Pois bem: doze milhões e oitocentos mil não sabem ler. Dos duzentos mil restantes, cento e cinqüenta lêem apenas jornais, cinqüenta lêem livros franceses, trinta lêem traduções, quinze mil lêem a cartilha e livros espíritas, dois mil estudam Augusto Comte e mil procuram livros brasileiros.
— E os estrangeiros?
— Não lêem livros nacionais.
— Ora, não lêem.
— Não lêem! Isto é um país perdido.
Chegaram ao Largo da Carioca. Em torno de um quiosque iluminado homens apinhavam-se e discutiam alegremente chuchurreando café. Uma negra, sentada nos degraus do chafariz, apregoava, em voz lamentosa, prolongando muito as palavras: "Miiingau de ta... pioca... tá... quentinho, freguês." Homens dormiam estirados na pedra, de papo para o ar. Dois cães corriam polo largo perseguindo-se. Longe, em tons finos, vibrantes, uma corneta soava.
O dia raiava. Uma luz tênue vinha caindo do céu largo e puro e, como se um véu se fosse afastando da terra, descobrindo as casas e as montanhas, tudo ia aparecendo indistintamente, vagamente a princípio.
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono. Os bondes desciam cheios, transbordavam no largo; subiam quase vazios.
Na esquina da rua de S. José um pequeno, ajoelhado na calçada diante de uma pilha de jornais, dobrava folhas, às pressas, amontoando-as, e a casa da Ordem, alta, enorme, como uma imensa e formidável muralha, tinha ainda uma luz, a claridade passava por entre as frinchas da persiana de uma das janelas: alguém que morria, talvez.
E no alto, muito branco, como um castelo antigo no seu rochedo, o mosteiro dormia.
Seguiram e, quando chegaram ao Boqueirão o céu, ao longe, estriado sangüineamente, estava cor de bronze. Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:
— Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido, e, quando o disco do astro, imenso e translúcido, fulgindo como uma pátena polida que girasse vertiginosamente, apareceu acima dos montes longínquos de Niterói, houve uma chuva mirífica e dourada, todas as eminências foram polvilhadas, o espaço e as águas ficaram como Danae na hora amorosa do lentejo do ouro; mesmo para o fundo a serra, acidentada de Teresópolis que, de tão azul, quase se confundia com o céu, teve a áurea bruma da manhã triunfal. E o sol subia, a luz alastrava. A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes e o Pão de Açúcar e os fortes ficaram sobre um mar de ouro.
A luz chegou às árvores do Passeio e as folhas, galvanizadas, rebrilharam, o mesmo bote fúnebre, negro, que ia e vinha com a lentidão de um esquife, teve a sua orla de luz e refletiu-se na água espelhenta e mansa.
Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe, enorme e escuro, fumegando, com uma bandeira trêmula solta às brisas, um paquete saía sereno, sem oscilação, fechado, em direitura à barra por onde vinha entrando, rebocado, um brigue, de velas ferradas, os mastros secos, vagaroso e pesado.
A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças. Uma menina aleijada desceu ao colo de um banhista, esperneando, aos gritos, e, diante desse rumor de vida, nessa azáfama jocunda, Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:
— Ah! Pudesse eu ir ali!
— Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.
O primeiro número de A Vida Moderna, apesar das esperanças de Luiz Moraes, não conseguiu abalar a alma do povo. O poeta contava com um êxito ruidoso porque os jornais, anunciando o aparecimento da publicação, haviam mencionado, como garantia do seu valor literário, os nomes laureados dos redatores, mas debalde os garotos rouquejavam apregoando o hebdomadário, debalde faziam ver a gravura terrífica da primeira página, o povo passava indiferente, discutindo valentia de potros de raça, discursos altiloqüentes de deputados ou escândalos, sem dar ouvidos à atroada dos pequenos que iam e vinham, com os jornais, desanimados.
À tarde desapareceu da circulação a notável revista, sendo substituída pela Gazeta de extração mais fácil. Moraes, cofiando os espessos bigodes, desceu a rua do Ouvidor, contando não encontrar um só número da folha na qual havia dado prodigamente todos os sonoros versos de um poemeto e achou um negro triste, à esquina da rua dos Ouvires, já em voz, quase derreado, murmurando, com desfalecido esforço: "A Vida Moderna..." Assomou-se e, sacudindo o tíbio pregoeiro pelos ombros, disse-lhe furente:
— Grita, homem! Berra! Estás aí com uma voz de recém-nascido que ninguém ouve! Não comes? O negro abriu muito os olhos, e balbuciou surpreso: Que ninguém queria...
— Qual ninguém quer! Estás mais morto do que vivo. Grita! Com tal intimação o negro resolveu fazer um escarcéu atroador e, escancelando a boca, soltou tamanho berro que o próprio poeta, atordoado, apressou o andar para não ensurdecer.
Encontraram-se todos na Maison Rouge: Ruy Vaz, Fortúnio, Anselmo, Patrocínio. E Moraes recebeu os aplausos entusiásticos pela sua vitória, principalmente depois que recitou o poemeto estampado na revista. Patrocínio, com os olhos em alvo, confessou que nunca ouvira versos de tal quilate: "Era a imaginação de Hugo trabalhada pelo cinzel de Leconte." E, no fundo lôbrego da casa, que era o cenáculo da boemia, o poeta da Tarântula declarou solenemente, como um áugure que, dentro em pouco, o Brasil, analfabeto e ignaro, seria um país de grandes luzes porque as liras, vibradas como a de Orfeu na Trácia agreste, haviam de agitar as almas, conclamando-as para a vida intelectual.
— Meus amigos, se não temos aqui a tríplice Hecate com as suas sacerdotisas truculentas, temos a ignorância que é um pouco pior. Comecemos a campanha, tenhamos a audácia de Orfeu, que o Ideal seja a nossa Eurídice. O artista é um iniciado, deve ter a coragem da sua crença e, se for preciso, façamos como o grande hierofanta que, de lira em punho, atravessou o campo dos trácios chegando corajosamente à presença temerosa de Aglaonice para dizer-lhe em face todas as verdades, embora lhe custasse a morte, como lhe custou, mas, sucumbindo, não deixou de ser a representação espiritual da primitiva Grécia.
Nós somos os precursores — alhanemos o caminho para os que vêm. Eu não descorçôo, tenho como certa a vitória. Que diabo! Pois então este povo há de viver eternamente chafurdado na ignorância? Não, senhores! Abram escolas, eduquem a infância, ponham a criança em contato com os heróis da pátria, apontem-lhe os episódios gloriosos da nossa história, dêem-lhe os poetas vernáculos e o homem do futuro não será francelho como esses que por aí andam algaraviando "Bonjour, comment ça va?" e dizendo desfaçadamente, apesar dos diplomas e dos anéis inúteis: "Me dê isso, me dê aquilo... quero que faça-lhe" e outras sandices idênticas. Nem vendedores há neste país...! Encontrei um negro apregoando A Vida Moderna com uma vozinha tão fraca, tão tênue, que o diabo parecia estar nas últimas. Dei-lhe tamanho safanão que ele foi parar no meio da rua e berrando como uma locomotiva. Energia! — é o que eu digo. Sem energia nada se faz.
Fortúnio, passando os dedos pela penugem do buço, sempre cético, disse displicente:
— Isto há de ser sempre o que é. O povo não tem tradições e, sobretudo, é a gente mais melancólica do mundo. Você vê um grupo de brasileiros é fúnebre, parece que estão sempre discutindo Um enterro.
— Ou segredando pornografia, acrescentou Ruy Vaz.
— Ou falando mal da vida alheia, ajuntou o Neiva.
— Nem tanto, corrigiu Patrocínio. Nem tanto. Há brasileiros de espírito.
— Ora, brasileiros de espírito... Quais são? Aponte-os!
— Nós, por exemplo...
— Ah! Sim... Mas nós não entramos em conta.
— Perdão, interveio o Moraes. Já vocês começam com as discussões fúteis, tratemos de coisas sérias.
O Neiva inclinou-se sobre a mesa:
— Eu tenho uma comunicação a fazer.
— Se é pilhéria.
— Não é pilhéria, homem.
— Que é? — perguntaram todos.
— Vocês, em tempos, pensaram em fundar um clube literário.
— Aí vem a mania.
— Perdão, não é mania; ouçam primeiro. Eu estou organizando as bases de uma sociedade artística e literária. Não temos um centro de reunião, não temos uma sala onde possamos conversar um minuto em intimidade. Vem um estrangeiro aqui, é uma vergonha: temos de recebê-lo em um botequim ou em um hotel, se há dinheiro. Somos tantos, reunamo-nos e, contribuindo cada um com uma quota mensal, podemos ter perfeitamente uma sala para discussão de teses, palestra, recepção de confrades, etc. Tenho em vista o primeiro andar de um prédio magnífico na rua do Hospício. Aluga-se aquilo, instalamo-nos e, à proporção que for entrando dinheiro, iremos dando expansão ao clube até que, com o tempo, possamos editar as obras dos sócios. Conto com uns vinte e tantos membros, tenho os nomes aqui na minha lista. Que dizem?
Patrocínio achou a idéia excelente e todos aplaudiram, ficando imediatamente convocada a primeira reunião para a quinta-feira próxima. O título "Grêmio de Letras e Artes" proposto pelo Neiva foi aceito sem discussão.
Patrocínio e o Neiva despediram-se: o primeiro tinha reunião na Confederação Abolicionista, o segundo ia mandar arranjar a casa, encarregando o Teixeira de entender-se com o senhorio. Ruy Vaz pouco se demorou tendo um negócio com o Garnier. Ficaram os três: Fortúnio, Moraes e Anselmo.
Anselmo estava macambúzio, de cenho carregado, silencioso e, recaído sobre a bengala, que metera debaixo do braço, balançava a perna com desalento. Fortúnio atirava baforadas para o teto e o Moraes, preocupado, tamborilava no mármore da mesa.
— Que diabo! Vocês estão tristes, disse por fim o poeta da Tarântula. Que tens, Anselmo? Já brigaste com o Patrocínio, aposto! Anselmo resmungou. Homem, também não fazes outra coisa. Quantas vezes tens saído da Gazeta? Mais de vinte. O José já sabe — quando lhe apareces enfarruscado, anunciando que vais deixar a folha, ele pergunta logo quanto queres, e está a questão liquidada. Se precisavas de dinheiro por que não falaste enquanto ele aqui estava?
— Não se trata de dinheiro.
— Então que há?
— Divergência política, aventurou Fortúnio.
— Qual política! Bem me importa a mim a política. Aquele gerente da Gazeta julga-me, ao que parece, um menino de doze anos. Se lhe peço dinheiro vem sempre com cinco mil réis, dez, quando muito. Estou com os sapatos neste estado, já não têm sola, o casaco é uma nódoa, o chapéu é isto; não tenho meias, não tenho camisas, devo dois meses de casa. Que diabo! Assim não há talento, não há estilo, não há nada que resista.
— É o que eu digo, rosnou Fortúnio.
— Mas não te pagam? — perguntou Moraes.
— Aos pingos: não é um gerente, é um conta-gotas.
— E que vais fazer?
— Vou tomar conta do Diário Ilustrado. O Henrique Steel vai deixar a redação e os proprietários convidaram-me.
— Aquilo dá alguma coisa?
— Sei lá.
— E quando começas?
— Talvez amanhã.
— Já disseste ao Patrocínio que ias deixar a Gazeta?
— Já.
— E ele?
— Pôs-se a rir.
— Homem, queres um conselho? Fica na Gazeta e não vás atrás de promessas enganadoras. Esse Diário Ilustrado não vive um mês.
— Como não vive!?
— Não vive. Qual é o teu programa político?
— Eu sou oportunista.
— Qual oportunista! Tu não és nada.
— Ou isso.
— Ou isso.
— E é com tais idéias que vais escrever artigos de fundo?
— Qual artigo de fundo! Isso é chapa. O jornal vive muito bem sem artigo de fundo. Tenha ele noticiário variado, uma parte literária, esporte e charadas e vai longe. Hás de ver.
— Pois sim.
— E tu, Fortúnio?
— Eu? Eu vivo perfeitamente. Tenho a cidade por menagem, que mais quero? Isso de comer e dormir só me preocupa quando tenho fome ou sono. Faço os meus versos e escrevo-os em qualquer mesa de café, tenho como alampadários as estrelas do céu, amo todas as mulheres belas, a rua do Ouvidor é a minha sala de visitas; o meu quarto só Deus conhece! Vivo muito bem.
— E se adoeceres?
Fortúnio encolheu os ombros e atirou uma baforada.
— Que diabo! Vocês não pensam...
— Felizmente! Que seria de nós se pensássemos?
— Pois eu acho que devias procurar alguma coisa.
— Queres que me empregue no Pascoal? Queres que me faça condutor de bonde ou que vá rolar fardos na Alfândega?
— Não digo isso, mas podias arranjar lugar num jornal.
— Ora, Luiz, eu sou brasileiro e tu sabes que os nossos jornais sãos empresas estrangeiras criadas com o intuito prático de explorar comercialmente o sentimento público, com discrição ou às escâncaras. Um jornal é um escritório de comissões... de idéias. Quando leio um estirado artigo tratando das glórias da pátria, invocando a alma da nação, com muita retórica e muita hipocrisia, tenho vontade de rir porque penso imediatamente nesses prestidigitadores que algaraviam para iludir o público enquanto preparam as sortes, enquanto fazem os passes. Qual imprensa brasileira, qual história! Meu amigo, Portugal está com o grito do Ipiranga atravessado na garganta, ele não nos perdoa a independência e, como não se pode assenhorear da terra, apodera-se do espírito do povo. A escravidão é muito pior. Agora não é o território que pertence à Lusitânia, é o povo que se sente oprimido pelo reinol, dono da imprensa, e por isso mesmo, senhor da opinião pública. Ele faz a política como faz o câmbio e, para que vejas o cúmulo, basta que eu te diga que há empresários que mandam contratar jornalistas em Portugal para virem dirigir a opinião brasileira. Vivemos sob a tutela de feitores. Aqui só há um jornal brasileiro: é a Gazeta da Tarde...
— Estás exagerando.
— Estou exagerando...? Mostra o exagero. Eu sei por que falo. Não, deixem-me com a minha liberdade. Prefiro dormir debaixo da ramaria de uma árvore da minha terra a ouvir increpações de um sapateiro qualquer que, por haver enriquecido, na tripeça, entendeu fazer-se proprietário de folha. Deixem-me cá com as minhas idéias, podem parecer ridículas, mas são sinceras.
— Que diabo! Vocês estão hoje azedos.
— Eu não, disse Anselmo.
— Nem eu, ajuntou Fortúnio.
— Olha, o Anselmo vai dirigir um jornal e não consta que ele tenha nascido na outra banda.
— Sim, vai dirigir... Mas quais são os proprietários do jornal? Dois comissários de café, portugueses.
— Mas que ódio é esse a Portugal, homem de Deus?
— Perdão, eu não tenho ódio algum, estimo e admiro Portugal, mas como brasileiro não devo deixar sem protesto a intervenção do estrangeiro na vida nacional. Você não vê um francês intrometer-se conosco, nem um inglês, nem um alemão — é só o português.
— Mas há as afinidades de origem, a língua, os costumes.
— História, homem! É que quem foi senhor entende que há de sempre dominar, esta é a verdade.
— Estás bilioso.
— Não estou tal.
— Estás. Vamos sair. A tarde está linda.
— Não, eu despeço-me. Vou ver um patrício. Até amanhã.
— Não queres jantar comigo?
— Não.
— Olha que lá em casa só o vinho é português, mas excelente.
— Perdão, pensas que sou inimigo dos portugueses? Não há tal, já expliquei a minha opinião. Que farias tu se um hóspede começasse a dar leis em tua casa?
— Quebrava-lhe a cara.
Riram-se todos e, sem mais explicações, apartaram-se.
Anselmo estava in albis e, como pretendia passar a noite trabalhando, porque tencionava dar começo a um romance para o rodapé do Diário Ilustrado, deteve-se na esquina da rua Uruguaiana farejando um jantar. Mas os jantares não passeiam na rua do Ouvidor e, certo disso, o futuro redator-chefe foi subindo vagarosamente, desacorçoado, quando, no largo de S. Francisco, ao dar com a estátua do patriarca, que o sol crepuscular polvilhava de ouro, teve uma inspiração feliz:
"É verdade! Por que não hei de ir jantar em uma casa de jogo? Fortúnio come regaladamente e declara que as tavolagens têm os primeiros cozinheiros desta cidade. Que mal há nisso? Vou; não jogo, mesmo porque não tenho vintém, como e ponho-me a andar antes que a polícia me apanhe na batota. O diabo é que não conheço ninguém... Se ainda pudesse encontrar o Lins... Mas onde?!" Resolveu procurar o poeta no Castelões, mas só achou o Neiva, na última mesa, diante de uma papelada esparsa, a tomar notas.
— Salve! O boêmio fitou-o com os olhos piscos, sem pince-nez.
— Oh! Senta-te. Bebes?
— Não.
— Sabes? O nosso Lins está à morte.
Anselmo deu um salto na cadeira.
— Como?! Se ainda ontem estivemos juntos.
— Pois, meu amigo, já está sem fala. Estou chegando da casa dele. Nem me reconheceu.
— Mas que tem?
— Sei lá! Congestão ou coisa assim. E, pondo o pince-nez, bramiu com os olhos rutilantes: Extravagâncias! Vocês não me querem ouvir. Vivo aqui a bradar, como um João Batista, contra as extravagâncias e todos pensam que estou a fazer pilhéria. Seu Lins é um homem fraco, doente, pois ontem, à noite, em vez de tomar o seu conhaque do costume, entendeu que devia experimentar um sorvete. Sorvete! Neste país...! O resultado aí está: não escapa. Os médicos não têm esperança de salvá-lo.
— Então é grave...?
— Se estou a dizer que já perdeu a fala.
— Vou vê-lo.
— Deves ir.
— Onde mora ele?
— Fora de portas; nos confins da rua do Senador Pompeu.
— E eu vinha aqui procurá-lo para ir com ele a uma casa de jogo.
— Hein?! Vais jogar?
— Qual jogar! Não tenho um vintém: ia jantar.
— Ias à ficha de consolação.
— É verdade.
— Janta comigo, queres?
— Onde?
— Ali defronte, no Londres.
— Pois vamos.
— Mas espera um instante, deixa-me arranjar esta papelada... Posso morrer de uma hora para outra e não quero comprometer umas tantas senhoras que me amam. Estou agora com seis complicações: duas no largo do Rocio, uma na rua do Lavradio, outra na rua do Riachuelo, ainda outra no Daury e uma senhora honestíssima em Paula Mattos...! Ah! Meu amigo, só a minha paciência, só a minha paciência! A de Paula Mattos, então, é uma fera! Quando apareço tarde desaba em cima de mim como uma avalanche, e são beijos, e são lágrimas e são dentadas. Um desespero! Tenho o corpo como um mapa-múndi. Sou um homem tatuado pelo amor. Ontem fui ao cabeleireiro e o homem esfregou-me a cabeça com uma loção não sei de que, pois, meu amigo, quase me matam, as seis! Foi um trabalho para convencê-las de que eu saíra de um salão de cabeleireiro e não da câmara de uma rival, e à noite, estava amassado, triturado... um horror! Não te metas com mulheres ciumentas, mira-te neste espelho e, arregaçando a manga do casaco, mostrou o braço manchado, denegrido. E isto não é nada, se visses o resto choravas; é um horror! Mas que hei de fazer? E a despesa? Uma quer frutas, outra quer camarotes, outra reclama um leque. A de Paula Mattos anda a perseguir-me por causa de um chapéu que viu na Douvizy e seu Neiva que cave! Já ando atordoado, não sei mais como arranjar dinheiro. Toma alguma coisa.
— Vou tomar um Xerez.
— Olha um Xerez aqui!
— E o Grêmio, Neiva?
— Vou tratar disso. Hoje mesmo decido a questão da casa. Já amanhã poderemos instalar-nos. Era uma necessidade. Em toda a parte os homens de letras têm um centro onde se reúnem. Aqui, não: ou a rua do Ouvidor ou o botequim. É uma vergonha. E querem que haja solidariedade. Vamos levar isso a efeito: é uma idéia que nos pode trazer magníficos resultados. Atirou a mão espalmada à coxa do companheiro: Seu Anselmo, nós somos uma potência. Se nos uníssemos, se não andássemos em eterno sismo provocado pela vaidade, porque cada qual se julga o maior, o pontífice das letras, já teríamos feito alguma coisa, entanto não valemos nada. Uma das causas da decadência literária, talvez a principal, é esta maldita rua do Ouvidor. Vocês mal saem do banho frio, ainda molhados, engolem, às pressas, a xícara de café e correm para aqui e aqui passam os dias bebericando, elogiando-se, discutindo sonetos e crônicas ou farejando cocottes. Que diabo! Não é assim que se faz um artista... Trabalhem, dêem algumas horas ao livro, façam alguma coisa a sério, deixem este maldito vício da rua do Ouvidor.
— E tu?
— Perdão, eu não sou escritor, nem me apresento como tal — eu sou um folhetinista oral: a rua do Ouvidor é o meu rodapé. Eu faço com a palavra o que vocês fazem com a pena, com a diferença, porém, de que eu estudo e vocês espreguiçam-se, bocejam inertemente.
— Tu estudas?
— Não faço outra coisa. Os meus livros andam encadernados em cheviotes, em flanelas, em sedas; há alguns brochados: são os miseráveis. Cada tipo dá-me um folhetim, cada vida, a mais simples, dá-me assunto para falar uma hora. Vivo a dizer verdades. Bem sei que a minha obra é precária, mas há de ficar o benefício. Falo: a minha enxada está aqui e, espichando a língua, tocou-a com o indicador.
Levantaram-se e seguiram, caminho do hotel. Justamente Anselmo chegava à porta quando esbarrou com o Lins que entrava, com um grande charuto encravado nos dentes.
— Que é isto! Tu aqui?!
— Então! Onde querias que eu estivesse?
— O Neiva disse-me, há pouco, que estavas à morte, sem fala...
— Sem vintém é que estou, desde ontem.
— Mas não estiveste doente?
— Qual doente! Não tenho nada, nem ceroulas... Estou aqui sem ceroulas. É uma vergonha!
— E com os sapatos num estado...
— Um homem de espírito não olha para os pés, murmurou o poeta.
Anselmo levantou os olhos e desatou a rir:
— Onde foste buscar esse chapéu, Lins?
— Sei lá! Apareceu-me na cabeça hoje de manhã. Era um velho chapéu de palha, de grandes abas, crivado de furos. E o boêmio explicou: Creio que serviu de alvo em alguma casa de tiro. Mas assim é bom, o ar penetra livremente e, como os médicos recomendam que se deve trazer sempre a cabeça fresca, estou contente com esta peneira. O Neiva, que havia parado a conversar com um patrício, deu um salto para a calçada quando viu o poeta.
— Tu! Donde vens? Tu és o Lins?!
— Em carne e osso.
— Pois não morreste?
— Não, como vês.
— Nem esteve doente, disse Anselmo. E tu afirmaste que o havias visitado e que ele estava sem fala.
— É exato. Mas eu sou capaz de jurar... Eu não estive ontem em tua casa, Lins?
— É possível; não garanto, porque lá não fui.
— É extravagante...!
— É macabro!
— Pois eu ontem estive contigo, por Deus! Estavas agonizando, sem fala. Pensou: Onde jantei eu ontem, Francisco? Ah! No Daury... Então foi sonho.
— Com certeza.
— E tu? Que fizeste ontem?
— Homem, para dizer a verdade, não sei. Acordei hoje às 9 da manhã em casa de uns estudantes, na rua do Núncio. Não me interrogues: sou um poço de discrição.
— Queres jantar conosco...?
— Vá lá. Entraram.
— Pois olha, eu já tinha começado a recolher uns cobres para mandar rezar a missa do sétimo dia.
— E arranjaste alguma coisa?
— Seis mil e que...
— Pois vamos beber essa missa e vê se tiras depois para um Te-Deum em ação de graças pelo meu restabelecimento... e bebe-se também o Te-Deum.
Sentaram-se à mesa e iam começando a jantar quando Fortúnio apareceu rindo a bandeiras despregadas.
— Que é isso, homem?
O poeta sentou-se e contou, por entre gargalhadas, a "noite" do Duarte. Havia falecido uma das suas muitas apaixonadas — menina loura, de olhos azuis, quinze anos, com o doce nome de Carmen. Exaltado, o Duarte, para sopitar a grande dor, atirou-se à adega paterna e, durante três dias, encafuado entre os canteiros, bebeu e chorou desesperadamente. Na noite da véspera, inconsolável, resolveu ir visitar a noiva que se finara e abalou para o cemitério de S. João Batista conseguindo penetrar no Campo Santo.
Errou muito tempo entre túmulos sem acertar com o que escondia o formoso corpo da donzela até que, por fraqueza das pernas, rolou sobre um deles abraçando-se com a cruz. E começou a soluçar, blasfemando contra Deus, pedindo a morte e, tanto fez que, nem ele mesmo sabe dizer como, arrancou a pesada cruz do sepulcro saindo com ela como uma relíquia. Tomou o bonde, mas um soldado, desconfiando do fardo, que o poeta mal sustentava nas mãos, interpelou-o:
— Quem é o senhor?
— Eu sou o homem mais desgraçado deste mundo, camarada.
— Onde vai com essa cruz?
— Vou levá-la ao Calvário... e desabou sobre a praça chorando inconsolavelmente. Diz ele que o soldado ficou comovido, mas nem por isso o deixou ir em paz: convidou-o a acompanhá-lo até à estação e lá o Artur, em pranto, contou a cena noturna: Que efetivamente penetrara no cemitério e que arrancara a cruz do túmulo da sua amada para crucificar-se quando a saudade fosse muito forte. E o caso vem hoje contado na Gazeta, sob o título Profanação e o Artur viu, com pasmo, que a cruz era do túmulo de um comendador.
— O Convidado de pedra... É ele?
— Anda por aí indignado.
— E o processo?
— Qual processo! A família meteu-se no caso. Mas é doido!
— Inteiramente. Já jantaste?
— Não.
— Janta conosco.
— Não, estou comprometido.
— É caso de amor?
— Não, qual amor... Não tenho tempo para essas coisas. Vou jantar com um carnavalesco que me pediu um puff.
— Ah! Bem. Amanhã, à noite, primeira reunião do Grêmio.
— Lá estarei. E já marcaste o dia da dissolução?
— Como da dissolução? Então não acreditas que possamos manter um centro de palestra?
— Não acredito.
— Por quê?
— Porque conheço o meio.
— Pois há de viver.
— Duvido muito. Nós não temos espírito de associação.
— Mas é necessário que tenhamos.
— Não dou dois meses ao Grêmio.
— Uma aposta! — bradou o Neiva dando um salto.
— Apostemos!
— Cem mil réis!
— Está feito.
— Não dura um mês?!
— Não dura um mês, repetiu Fortúnio tranqüilamente, e, sem mais dizer, estendeu a mão aos rapazes e saiu.