Que resulta da nossa aliança com a luz? Sombra, nada mais.
Alegria é luz e assim como na maior claridade as sombras tornam-se mais negras, mais a tristeza se agrava se dela, em volta, a alegria exulta,
O silêncio é alivio: calma. Na quietude em que me refugio chego a não acreditar na tua morte porque te sinto em mim, comigo, como se vivo foras.
À noite as sombras não aparecem; todas se recolhem aos corpos que as expuseram. De dia, porém, destacam-se, prolongam-se com a terra.
No apogeu meridiano, não suportando a claridade fúlgida, acolhem-se ao de que saíram, como se concentra na dor um coração ferido se, em torno dele, há expansões de vivida alegria.
Felizmente, porém, o sol pouco se demora no zênite e logo que declina projetam-se, de novo, as sombras, até que todas se fundem em uma única, que é a noite.
Isolo-me, não porque aborreça a vida e inveje a felicidade alheia, mas para forrar-me no alvoroço da alegria.
Que o coração adormeça tranqüilamente, no silêncio, e sonhe, como quem dorme.
Sonhando, anda que em vigília, - porque recordar é sonhar de olhos abertos - vê o que foi, reconstitui, um a um, os dias venturosos até aquele que ficou eterno na memória, como jazem imóveis sobre as horas que não soam mais os ponteiros de um relógio cuja máquina parou.
Seis meses já haviam passado e, todavia, ninguém ousava abrir o piano. Mais do que escrúpulo havia medo.
Como que se temia o instrumento: negro, alongado a um canto da sala, em forma de altar, tendo sempre em cima um vaso de flores.
Rondávamo-lo sem ânimo de o tocar. De quando em quando uma das meninas folheava um álbum, de preferência o colecionado por ele, com as peças de sua predileção. Marejavam-se os olhos e, em silêncio, tornavam os volumes aos seus lugares, na estante.
E o piano permanecia mudo.
Um dia, porém, com receio de que as cordas se estragassem, abrimo-lo e a enervação metálica do instrumento rebrilhou ao sol.
Levantada a tampa do teclado, como um lábio que se arregaçasse em riso irônico, o fio das teclas apareceu ebúrneo.
Acercamo-nos todos do piano, olhando-o como se o víssemos pela primeira vez e dele esperássemos pressagamente revelação de segredo sombrio. Um momento ali ficamos, tácitos e quedos.
A mãe foi a primeira a afastar-se; as meninas seguiram-na às surdas, como se temessem, com o rumor dos passos, despertar o mistério. Bem sabiam elas que o instrumento havia de as fazer sofrer e a mim, e a todos, à própria casa que ele, dantes, alegrava com as suas melodias.
Seria pelo som? Se por tal fosse por que não nos comoveriam as vozes de tantos outros pianos que soam na vizinhança e só a daquele nos havia de entristecer?
É que as outras são vozes alheias, de outros lares. Nunca soaram para ele, nunca ele as despertara fazendo-as traduzir o que trazia na memória.
Ali passava ele horas e horas recordando trechos ou, entre nós, recolhido em êxtase, ouvia a mãe repassar as melodias que tanto amava.
E como as sentia! Com que enlevo, verdadeiramente religioso, ficava a ouvi-las, quieto, imóvel, sonhando. Enfim...
Um dia - era necessário que a casa retomasse o rumo na serenidade, reentrando na vida costumeira - abriram o piano e as cordas, que dormiam, despertaram.
Um frêmito percorreu todas a casa, a própria luz tornou-se tíbia e pálida, como acontece com a das lâmpadas de vigília quando entra na alcova o sol, e todos os olhos velaram-se de lágrimas.
Foi como se ele houvesse tornado: sentimo-lo presente.
E o instrumento gemia, soluçava. A própria musica, tão alegre outrora, vinha em pranto.
Seria o instrumento que a modificava ou os nossos corações? Eles, decerto.
O mesmo seria trasfegarmos de fonte a vasos que contivessem ou houvessem contido essência a água pura que logo se infundiria em aroma.
A música, impregnando-se de saudade, recordava e, com tal transporte, já não ouvíamos o instrumento, senão a ele, a voz dele e víamo-lo, sentíamo-lo, tínhamo-lo conosco e, a cada nota que vibrava, o coração respondia com uma lágrima, mandada aos olhos.
Ó arte misteriosa, arte etérea e evocadora! De que força superior dispões para que ressuscites mortos e exsurjas do túmulo, redivivos, os que se foram; as vozes, que se calaram; o corpo, porque o sentimos; o espírito, porque o percebemos no encantamento sonoro! Será a música sortilega como os conjuros dos nigromantes, que têm poder de trazer da Morte as presas sepulcrais?
O certo é que a música realizou o milagre que os nossos corações deprecavam.
Ele veio por ela, acudiu à invocação dos sons, desceu do Além e pairou sobre nós.
E toda a casa ficou, um momento, em alvoroço como a granja da parábola, de onde desertara o filho pródigo, quando os seareiros, avistando-o na estrada, largaram o serviço e correram alvissareiramente a dar a boa nova aos pais e aos irmãos do que tornava.
E quando a mais triste das mães se assentou ao piano, abriu o álbum que ele lhe dera e começou a executar débil, tremulamente e chorando, foi ele quem mais atentamente a ouviu, porque todos nós o sentimos, não aqui, ali, mas em nós mesmos, como todos vêem e sentem a luz ou o perfume em uma sala, se nela há sol ou flores vivas.
Ó arte miraculosa! E nós que temíamos ouvir-te! Nós que tanto tempo evitamos o altar da ressurreição, de onde ele saiu nos sons, como se evola o aroma nas espiras de fumo dos incensórios, vindo a nós, envolvendo-nos, visitando-nos com a sua presença imaterial, enchendo com ela o grande vazio da nossa saudade, imenso, sem termo como o infinito.
Já agora que importam as lágrimas! sabemos como atraí-lo. Ele adorava a música, buscava-a onde ela soasse. Por que não o havemos de chamar aos nossos corações com a voz harmoniosa?
E o piano, outrora temido, é hoje o nosso companheiro e confidente.
Abrimo-lo, e, em contraste com o sepulcro, que não nos restitui o que, avaramente, guarda, ele, com a vibração das suas cordas, traz-nos o espírito adorado, atrai-o do Além e fá-lo vir até nós, conviver conosco, senão em corpo carnal, na essência que dele se acha integrada em Deus, da qual conservamos a lembrança na memória do coração, que é a saudade.
Dantes não havia homem mais rico do que eu, e o meu tesouro chamava-se – memória.
O que eu tinha ali acumulado o com que ordem! Desde a infância a ajuntar por dia...
E tanto era eu desejar como ser logo atendido.
No dia último dos dez do meu martírio quando me convenci que morrias, não sei que se passou em mim.
Foi como se reduzissem a cinzas todo o meu tesouro.
Falando ou escrevendo esquecem-me as expressões, faltam-me os termos. Só tu ficaste, tu só, tudo mais se esvaiu.
Assenhoreaste-te da casa das relíquias e nela imperas, solitário e dono.
E, agora, se recorro à memória por um nome, é o teu que, de pronto, me responde; se procuro recompor uma imagem, é a tua que se me afigura; se atento a um som remoto, ouço-te voz; se insisto em recordar uma cena, vejo te, e como? Infante, menino, adolescente ou jovem, como te perdi? Brincando, estudando, na arena, no trabalho, à mesa, na alegria da família, forte, feliz em suma? Não! Vejo-te sempre na hora extrema, estendido no leito arfando encarado em mim, com o crucifixo ao peito, entre as mãos gélidas, diluindo o derradeiro olhar em lágrimas.
Que alivio seria para mim perder o que me resta da memória!...
Mas não! Perder esse pouco, que é tudo. seria esquecer-te, nunca mais sentir-te, proceder com a tua lembrança como faz o túmulo com o teu corpo.
Não! Pereça tudo! Esqueça eu tudo, contanto que fiques no fundo da memória, tu, como fica a esperança no coração do mais desventurado.
Fica-me em caminho a casa em que nascente. Vejo-a diariamente e, olhando-a, lembro-me da manhã de alvoroço quando dissipaste o silêncio daquele lar com a alegra do teu primeiro choro.
Como me ecoou no coração a tua voz deserta: sons apenas, vazios; espaços em que deviam, com o tempo, desabrochar palavras, flores que não se trazem do céu, por serem efêmeras, próprias da terra.
Lembro-me de ti ao colo de tua mãe, tão pequenino e tão chegado ao seio como se fosses o seu próprio coração.
No breve instante que dura a minha passagem por esse oriente toda a tua vida passa-me pela alma, atravessa-a de golpe, cinde-a com a velocidade da luz.
Quantos sonhos ali entretecemos com idéias felizes, desenrolando infindavelmente o novelo de ouro das nossas esperanças!
Sete irmãozinhos teus já nos haviam deixado sós. Sete vezes, chorando, foram levar os enjeitadinhos da vida à roda lúgubre dos que, expostos na terra, são recolhidos no céu.
Sete vezes havíamos perdido os bens que Deus nos dera.
Temendo que te acontecesse o mesmo redobrávamos, à noite, a vigilância para que a Morte, ladra dos nossos amores, não nos entrasse pelo sono furtando-te também.
Se te aquietavas serenamente desconfiávamos da tranqüilidade; se te agitavas temíamos que fosse de febre. E tanto desvelávamos em volta do teu berço que despertavas assustado aos gritos.
Que alegria quando te ouvíamos chorar!
E tua mãe, sorrindo, dava-te logo o seio e, inclinada sobre ti, mais do que o leite, o que te oferecia era a própria alma. Tais eram as cenas de amor, iluminuras da minha felicidade.
Aconselharam-me a mudar-me para casa mas desafogada, que tivesse jardim onde respirasses ar livre, pudesses gozar o sol, passar as manhãs entre árvores.
Achei perto o que desejava. Casa ampla, terreno vasto, arvoredo e flores. Ali sim! Acordavas com o canto dos passarinhos.
Eras pequenino, de colo, quando me apartei de ti. Durante sete dilatados meses, errando por brenhas, correndo o mar e rios, parando em vilas sertanejas e em cidades, acompanhei o dealbar da tua vida pelas cartas de tua mãe.
Em uma anunciou-me ela os teus primeiros passos; em outra o teu primeiro dente; em outra a tua primeira palavra. E eu via-te no meu pensamento, sentia-te dentro de mim.
Quando regressei contavas um ano e três meses.
Ao entrar em casa, vendo-te formoso, com os cabelos em cachos, os dentinhos alvos à flor do sorriso, como se acabasse de mamar e trouxesse ainda a boca cheia de leite, olhando-me espantadamente, com a inocência a brilhar dentro dos olhos, fui-me direito a ti de braços estendidos.
Refugiste arisco para junto de tua mãe, com um beicinho de choro, que me fez sorrir.
Não me conhecias. Era natural. Pouco a pouco porém, fui conquistando a tua confiança e já na tarde desse venturoso dia éramos amigos íntimos.
E tu, tomando-lhe pela mão, levaste-me a percorrer o teu pequenino paraíso, a chácara em que te criaste, entre árvores, uma das quais a ameixieira, foi a tua ama mais solícita, dando-te os frutos dos seus galhos e agasalhando-te à sua sombra, onde brincavas, e, quanta vez! dormias.
Desde então até o dia triste se nos separamos foi por ausências breves.
Cuidava eu, na minha confiança, que assim seria sempre até que me soasse a hora de sair na viagem infinita.
S foste tu que partiste!
Eu deixei-te pequenino, quando não sentias ainda a minha falta: deixei-te, mas regressei. Tu me deixaste cheio das tuas raízes, já me havias tomado todo o coração... e não voltas, não voltarás nunca mais!
Passo diariamente perto da casa em que nasceste, olhando-a, porém, logo me lembro do túmulo em que jazes. Tu, não: teu corpo criado por nós, a nossa parte humana, que a divina foi por Deus reavida e lá está com Ele, longe de nós, longe da terra, tão longe!
Longe, todavia está o sol e aclara-nos; longe estão os demais astros, e vemo-los. Só tu não nos dás sinal de ti a não ser pela saudade em que te transformaste e que não nos deixa, tão viva em nós que eu, às vezes, tenho medo de que te estejamos a prender conosco, privando-te do Paraíso, encarcerado, como te trazemos, em nossos corações.
Mas se deles saíres que nos ficará neste mundo, perdida a única consolação que nos resta, que é a tua, lembrança?
Vive, vive em nós, no mais íntimo da nossa alma: vive na saudade como antes vivias, em esperança, no mais profundo do nosso amor.
A súbitas, sem causa, constringe-se-me o coração. Enche-se-me o peito de ânsia. Trava-se-me a respiração em angústia asfixiante.
Abre-se-me um hiato na existência como se fendem abismos na terra quando a convulsionam cataclismos.
Deve ser assim o morrer, o instante em que a alma, soltos os liames que a retém ao corpo, emerge em surto demandando o espaço para ascender ao céu, liberta.
O que se passa em mim em tais momentos lembra-se essas bolhas de ar que afluem na profundeza dos lagos e, mal chegam à tona, dissolvem-se integrando-se na atmosfera.
Sinto que alguma coisa se desprende do meu ser, como se desprende uma pétala da flor.
Arrasam-se-me os olhos de água e o coração, em sobressalto, precipita as pancadas.
És tu que passas por mim. És tu que me fazes vibrar de comoção. És tu que me atravessas instantaneamente a memória como um pássaro, em vôo de frecha, corta, alígero, o espaço.
Pássaros...! E que são as saudades senão aves de arribação? Ao invés, porém das andorinhas, que, a maneira dos heliantos, andam sempre procurando o sol e, as primeiras brumas, reunidas em caravanas, partem, céus em flora, em busca de climas tropicais, elas emigram no estio e é justamente no inverno que nos chegam.
Coração alegre não lhes serve: gostam de fazer os ninhos à sombra da melancolia e aí vivem e procriam.
No mais rigoroso da tristeza, quando as lágrimas são mais copiosas, levantam-se em revoadas e escurecem e entristecem ainda mais o que, já de si, é lúgubre: o coração magoado.
Se no momento, tais evocações excruciam-me, deixam-me depois a alma aliviada, como certos bálsamos que, no instante em que são aplicados às feridas, exacerbam-lhes as dores para as lenirem depois!
E por que assim se converte a angústia em conforto? Porque, por ela, me convenço da tua sobrevivência.
Se tornas, posto que só em espírito, é porque existes.
O nada não se levanta, não atende, não se manifesta. E tu surges, vens a mim, anuncias-te presente, ainda que invisível.
Caminhando ao longo do silvedo eis que nos chega um aroma. Senti-lo e logo saber que flor o exala é tudo um instante. E a flor ? Onde? Escondida na balsa, oculta nas frontes ou refolhada nos aningais do lago, algures, invisível, mas presente.
É o que se dá quando meu coração se retranse de saudade. Entristeço-me, logo, porém, consolo-me sentindo-te.
Melhor seria que eu te visse, que vivesses conosco. Mas o maior tormento, depois que te partiste, era imaginarmos que te havíamos perdido para o sempre. Não!
Estás longe, mas existes, não desapareceste porque o essencial de ti a parte eterna do que foste, vive.
O que lá está, na terra, é o casulo: a borboleta voa livre, na luz, e, de quando em quando, saudosa, baixa do céu à terra e pousa de leve em nossos corações.
Noite lúgubre.
Estortegam-se agoniadamente as árvores ao vento. Bátegas rufam nas telhas. Por entre as frinchas das janelas afuzilam clarões.
Rápido esfria em regelo. À rajada mais forte o arvorado rumoreja estabanadamente. A enxurrada chofra, gorgoleja torrencial, rasgada, de quando em quando, por automóveis que passam.
Troam, estrepitam, ribombam trovões.
No bater das portas e das janelas tem-se a impressão de que andam a forçar a casa.
Acendem-se luzes. São as crianças que despertaram sobressaltadas com os fragores.
A estampido mais rijo ei-las de pé, espavoridas. Correm a refugiar-se junto a nós.
E o estridor aumenta.
Deflagram explosões seguindo-se-lhes silêncio pávido.
De repente a chuva jorra cheia e grossa estalando na rua.
O vento uiva rondando o espaço; distancia-se, torna, envolve a casa como matilha que se encarniça furiosamente em presa.
Luzem relâmpagos mais freqüentes. A própria luz das lâmpadas vasqueja, freme em crispações de espamo e, a súbitas, apaga-se.
E a escuridão, que amedronta, laiva-se de livores convulsos.
Penso nos que se acham lá fora, à intempérie. Quantos!
Penso em ti!
Sentirás no teu túmulo o rigor da tormenta? Não creio.
Se tal se desse com mais razão terias sentido a que se desencadeou em nossos corações quando, com a respiração já flébil, nos arquejos dos últimos anélitos, tinhas em nós os olhos fitos e marejados de água.
Nada sentias - nem os soluços, nem as deprecações, nem as vozes desesperadas com que, através de lágrimas, bradávamos para que não partisses.
Se não sentiste naquele angustioso instante, quando ainda te não arrancaras de todo a nossa esperança. preso à vida pelo olhar, que poderás sentir agora, silêncio cm que jazes, nessa profundidade, a maior de todas as profundidades, onde, se riso chega o nosso amor, não chegará, decerto, a raiva das tempestades!
Como explicar tais surtos?
A mim mesmo, surpreso, lanço esta pergunta.
Que ele venha, invocado pela saudade, quando o coração, que se não resigna, o chama, é natural. Não há túmulo que resista a tal reclamo, pesem-lhe, embora, em cima, mármores e granito, metais e terra fúnera: o prestígio do amor tudo consegue.
Se a gota de água perene abre sulcos e atravessa penhascos, que não farão as lágrimas, muito mais poderosas, por virem de fonte divina?
Assim, compreende-se que a invocação do amor consiga trazer da morte, em espírito, aqueles que desaparecem, mas que, de improviso, espontaneamente, eles nos surjam, entrem-nos pelo coração... só se neles também perdura o amor, se a saudade insiste em os prender à vida para que, por ela, tornem, como a andorinha regressa do exílio ao ninho antigo, mal se dissolve a neve que a repeliu para outro clima.
Ainda que o não esqueça instantes há, porém, em que o não sinto, tanto ele se aquieta como adormecido no fundo da memória. Basta, porém, um rumor leve de lembrança, uma subtil reminiscência para que ele desperte.
Assim, porém, como na vida quando os trabalhos nos solicitam e saímos por eles, deixando em casa os filhos, cada qual naquilo que lhe consente a idade - um, no estudo; outro, brincando e o pequenino no berço ou no aconchego do colo maternal, sem que deles nos esqueçamos, posto que os não tenhamos presentes, assim, também horas há em que nos abstraímos dos mortos e se isso importasse em esquecimento da mesma ingratidão se poderiam igualmente queixar os vivos.
Em tais momentos quem nos encontra no giro do trabalho, falando a um e outro, rindo com eles, não dirá que toda essa aparência de alegria ou indiferença assenta em melancolia.
Profundezas, quem as sonda? Penetrais, quem os alcança?
Julgue-se o oceano pela superfície que rebrilha ao sol em frisos ondulantes, riso efêmero das águas que se desfaz em espumas.
Julgue-se a brenha pelo que dela se avista, verdura matizada pela florescência dos ramos.
Julgue-se o infinito pelo azul que o olhar abrange. Quem sabe lá o segredo do abismo, o mistério da selva, o arcano da altura.
O coração é a profundeza em que jazem os sentimentos, em que se ocultam as paixões: amor e ódios, saudades e remorsos, todo o bem e todo o mal.
A noite é bem a imagem da morte.
Vai-se o sol e as sombras parciais desaparecem, fundindo-se na escuridão universal, que é a Treva. Vai-se a alma, que é luz, e o corpo, sombra da terra, torna ao de que veio: a Terra.
E, assim como o sol, e retorno, refaz o dia, assim a alma, depois do tramonto e da depuração, regressa à vida e ilumina outro ser, efêmero como o dia.
Mas essa luz instantânea, luz que brilha e extingue-se, relâmpago que apenas serve para mostrar-me o deserto, claridade que fulgura tão só para que eu veja toda a imensa extensão da minha desventura, quem a acende, e por que?
Como explicar tais surtos, esse ressurgimento do morto dentro da minha saudade? Quem o invoca e que chamado atende? Será Deus que o mutila para consolo da minha alma ou será ele próprio que se desprende da Eternidade e, a súbitas como para certificar-se de que não morreu no meu amor, desce em visita ao coração, que era o seu ninho? Não sei.
Na maior serenidade, tudo em calma: o céu azul! com o sol em pleno, as árvores imóveis nos ramos as aves alacres cantando. De repente, sem nuvem que a anuncie, sopra de longe, das montanhas, frias, ríspida rajada.
Curvam-se as frondes, sobe a poeira em torvelins, abrumam-se os ares, negros bulcões empastam, escurecem o céu em cariz de borrasca.
Mas o sol esgueira um raio, abre, por fim, a larga alara de ouro. Reacende-se a claridade, limpa-se de todo o azul, tornam os pássaros ao vôo e a vida serenamente continua.
Assim, por vezes, no meu coração.
Trabalho na quiete do meu gabinete ou cruzo a multidão nas ruas: movimento ou placidez, rumor de vida ou silêncio. Atento em dar forma a uma idéia, torturando, polindo e repolindo a frase eu sigo distraído do turbilhão tumultuário, tanto como folha morta levada ao léu da correnteza. Nele não penso. Acha-se onde o amor o recolheu quando a morte o prostrou, no mais recôndito do coração, onde a saudade conserva carinhosamente o seu tesouro.
De repente o coração me estremece, como abalroado e, no alvoroço que o agita, transbordam os seus veios sentimentais e logo se me marejam de lágrimas os olhos.
Que encontro tê-lo-á abalado assim, ao pobre coração tão quieto, para que dele tanto se ressinta? Que rajada passou por ele toldando-lhe a alegria, perturbando-lhe a tranqüilidade, como esses improvisos ventos das montanhas frias que, inopinadamente, se levantam, sopram ríspidos carreando nuvens que escurentam o sol, retorcem angustiadamente as árvores e tomam um céu claro acumulado bulcão de cúmulos tempestuosos?
Rajada de saudade, vinda não se sabe de onde nem por que. De onde? senão da morte; por que, senão por ciúme, desconfiança, talvez, de que haja sido esquecido para surpreender a alma, apanhá-la distraída e ver se nela o lugar que era, outrora, seu foi ocupado ou esquecido, enchendo-se de nova alegria ou deixando em indiferença como os terrenos que, por abandono, desaparecem em maninho agreste.
Como te enganas, espírito amoroso!
Vem! E sempre que apareças, baixando de onde assistes, acharás o teu lugar florido de saudades, flores que não morrem nunca porque, para regá-las, há no coração uma fonte que não cessa de correr e cada vez em maior cópia.
Vem na vigília ou no sono, vem! e acharás o teu lugar tal como o deixaste, e verificarás que és nele dono e único senhor; que nada do que te pertencia, e te pertence, foi ali tocado que continuas a ser nele quem dantes foste e agora és mais que nunca e vives e sobre o que de ti ficou não tem poder a morte, porque é a mesma Vida, que não perece, Vida como a da Eternidade, por ter a sua origem em Deus: a alma.
Vem ou como quando atendes carinhosamente ao apelo da minha a saudade ou surgindo, em meio da minha alegria ou do afã do trabalho, como costumas aparecer inesperadamente, sempre bem-vindo, para consolo e martírio da minha saudade.
Como se há de esquecer toda uma vida, que se prendia a nossa, se o operado, a quem amputam um membro, durante muito tempo guarda a impressão de ainda o possuir?
Se as dores ficam assim vivas, como se alguma das suas raízes não houvesse sido extirpada, se o sofrimento persiste em reminiscências, ainda depois de curado, como se não há de perpetuar, mesmo que a morte a leve?
Geme o enfermo dores que o não pungem só pelo hábito, em que estava, de as sofrer; e não há de chorar o que não se conforma com a desdita de haver perdido um ser amado?
Se de um membro apenas fica tão viva recordação no corpo como não há de subsistir em saudade na alma a lembrança de um ente estremecido?
O que se levanta do leito e dá pela ausência do que lhe foi amputado custa a convencer-se do que vê, porque continua a sentir, posto que em ilusão, o que, dantes, o atormentava. E o que perde um amor há de esquecê-lo? Não!
Sinto-te como se estivesses comigo. Levaram-te de mim, a todo o instante, porém, tenho-te presente.
E a ti não são dores que te recordam a minha alma, mas venturas, pelo que sofro ainda mais o bem perdido.
Se o operado não esquece o que o fazia gemer, como me não hei de eu lembrar do que me fazia sorrir?
Tanto se me fixou na mente o episódio lúgubre daquele imenso instante que, todas as noites, mal apago a lâmpada à minha cabeceira, a escuridão acende-se em luz lívida e nessa claridade fátua, instantaneamente, a cena reproduz-se vem projeção fantástica.
Triste ressurreição da morte!
Vejo-o no leito, tal como o tive ante a minha impotência desgraçada, extinguindo-se pouco a pouco, flébil: de olhos abertos, fitos, lábios hiantes, mudos.
Tão grande era o silêncio no aposento como só mesmo pode ser nos túmulos. Era a morte que entrava com ele, como a noite entra com a treva e a madrugada com a luz.
Abraçado com o moribundo eu sentia-o ir pouco a pouco esfriando. O silêncio já o havia penetrado parando-lhe o coração.
Pois assim havia de cessar aquela vida em flor?
Como prendê-la a mim? Como defender aquele ser querido que me era arrebatado dos braços sem que toda a minha força, toda a minha fé, que explodia em clamores a Deus, e o espanto em que se petrificara a pobre mãe surpresa, o pudessem reter?
Quem há capaz de suster a luz ou a sombra, deter o dia ou a noite?
Pobre filho! De que lhe valia a mocidade? Vinte e quatro anos! Plena juventude! E ali jazia, mais frágil do que quando eu o vira, recém-nascido, naquele mesmo leito, entre os braços daquela mesma criatura que o encarava extática sem compreender que ele, seu filho, sempre tão meigo, nem sequer se voltasse para olhá-la, a ela, sua mãe, que o chamava em desvairo, docemente, baixinho, com uma voz que lhe saia trêmula, débil, chorando, do mais fundo do coração.
E tudo, em volta, parecia sentir: as próprias paredes, os móveis, a mesma luz que tremia, como se soluçasse.
Sobre o peito robusto do jovem atleta, como em calvário, alguém pousara um crucifixo de bronze.
Soluços faziam a pulsação do silêncio,
A vida, entanto, prosseguia fora no seu afã ruidoso e, indiferente, contínuo, acompanhando o tempo, o relógio picava os segundos como se desfiasse um rosário, conta a conta.
E o corpo juvenil imobilizou-se de todo, adormeceu sereno e fechou-se sobre ele a vida como se unem as águas sobre o náufrago que afunda.
O pranto desatou-se em volta.
Ela só não teve lágrimas: estava como árido deserto, ardendo em sede, na sua infinita e estéril desventura.
A dor imensa que me enchia todo o coração não achava passagem bastante para expandir-se, salvo se o rebentasse.
E assim, enclausurada, mantinha-a naquela aparência de impassibilidade pétrea, igual a que estatelou Maria junto à cruz.
E, todas as noites, é certo reproduzir-se a cena lúgubre. Eu já a espero e mal apago a lâmpada à minha cabeceira, preparo-me para o triste transe que se renova na escuridão, dentro dum halo feral, que outra coisa não e senão saudade, luz que alumia os mortos.
Através dos minutos como em poeira de entrada, os dias giram velozes na vertigem do Tempo.
Dealba, fulge o sol; empalidece a tarde; cinza-se o crepúsculo e a noite obumbra-se. Treva, de todo negra ou cravejada de astros.
Eis, de novo. a manhã clara. Sob o dia, reluma; logo, porém. começa a declinar e enubla-se. Anoitece.
E não cessa o movimento: dias sobre noites, noites sobre dias.
Aquele instante, porém, subsiste eterno, o mesmo em que para mim, encerrou-se o ciclo da ventura.
Dias e noite são raios da roda que não pára; o lúgubre momento é fixo, como o eixo em volta do qual o Tempo célere circuita.
Anos que eu viva, séculos que vivesse, ainda que, por desdita, me tornasse eterno, toda a minha existência os meus dias, anos, séculos infindos haviam de girar em torno do minuto trágico em que o vi tombar da juventude no túmulo, como flor talada em pleno viço que caísse num lago e, ferindo as águas nelas abrisse círculos progressivos, até os extremos das margens.
Assim também chegará até o fim da minha vida a lembrança do instante em que o perdi de mim em torno do qual os dias passam, passam os meses, hão de passar os anos sem que eu os sinta, porque todo me concentro no momento em que ele caiu para o sempre, eixo de onde partem, abrindo-se infinitamente e, cada vez maiores, as saudades no meu coração, como as enciclias se frisam e dilatam na água ferida em um ponto, pela flor decídua.
Sentem-na os míseros leões cativos; sentem-na nos eflúvios; sentem-na no aroma que lhes chega com a aragem; sentem-na no cheiro cálido da terra adusta; sentem-na, a era da explosão da seiva, era em que se enfeita e alegra a selva. Sentem-na e fremem de nostalgia.
A ânsia de rever os sítios florestais e as dunas do deserto torna-os ferozes. Então, irritados, levantam-se, de ímpeto, na jaula, põem-se a rondá-la iterativamente, chegam aos varões, tentam mordê-los, grifam-nos a unhadas e, não os podendo quebrar, arfam aos rugidos surdos.
Como a esperança não os abandona deitam-se junto aos ferros inflexíveis e ali ficam, de olhos fitos no vago, o olfato esperto, arejando nas auras a olência do que não podem alcançar, do que lhes foi tomado para o sempre.
Vêem o que olham? Não! vêem o que sentem.
E o que sentem eles, os míseros leões? Sentem o que lhes acorda na memória - a brenha verde: espessa e sombria aqui; aberta em clareira além, com os voluteios cristalinos da água, os antros obscuros onde branqueia, esparsa, a ossamenta das presas, sentem os companheiros livres: uns, deitados sob ramarias, outros à espreita, nos juncais, à margem dos rios largos; ainda outros, resupinos, brincando com os graciosos cachorrinhos.
E colham tristes, alongam infinitamente o olhar querendo ver além do seu, além da linha do horizonte a selva, as dunas, o que perderam no jamais.
Como alcançá-lo? Como sair daquela prisão alerta em grades que ainda lhes tornam mais triste o cativeiro com a ironia de lhes deixarem ver a liberdade?
Fora melhor, menos cruel, sem dúvida, prenderem-nos em ergástulo, onde não chegasse fisga de sol, onde não penetrasse o acre perfume de silvedo: ergástulo profundo, bem negro de escuridade opaca como a da cegueira; silêncios como a surdez, de onde se não vissem aspectos, nem chegasse rumor de vida e tudo se resolvesse em olvido.
Mas não! Presos em jaula, os leões olham e vêem, respiram o ar balsâmico, ouvem sussurros de árvores e aqueles mesmos ferros, por entre os quais avistam a vida, dela os separam inexoravelmente.
Míseros leões! E é no tempo em que florescem os bosques que o instinto se lhes aguça e mais os atormenta.
Assim, quando tudo é alegria e festa, na era de maior ventura para os livres, é que os leões cativos atroam as noites indo e vindo na jaula em fúria desesperada.
Melhor seria que os sepultassem em covas onde remasse escuridão eterna.
A jaula estreita, em que me agito sem sossego, é a minha angústia, agravada a todo o instante por lembranças, agora ainda mais intensas pelo tempo que se vem aproximando, florindo as árvores e desabotoando em alegria os corações felizes.
Sinto-o presente, vejo-o através dos varões da minha jaula, como os leões vêem o deserto e a selva - recordando.
Por que há de vir de tão longe, ao presídio onde peno, a lembrança constante do bem que se me foi, como chega ao faro dos felinos cativos a fragrância das florestas?
E agora, mais do que nunca, punge-me a saudade, porque os dias são de ventura.
Natal! Tempo do convívio familiar, tempo em que todos se reúnem - os que se acham fora acodem à casa pressurosos e a mesa rodeia-se e amores.
E ele?
Assim como o aroma das brenhas irrita, enfurece os leões cativos, assim essa alegria da vida aumenta o meu desespero.
Fora melhor para as feras que as encerrassem em covis subterrâneos, sem luz de sol, sem ar de silvas, onde tudo fosse negrume, umidade e bafio de sepulcro.
A nós fora melhor que Deus nos apagasse a memória.
Lembrar é como avistar através de grades, sentir o intangível, ouvir sem poder escutar; lembrar é viver no mundo das ilusões, entre espetros e sombras.
Neste tempo suave, todo do bonança, tempo em que os pais se revêem nos filhos e, com a mesma fé, no altar doméstico, comemoram a crença e o amor, o coração vibra mais sensível à ternura.
Todos os lares preparam-se para a comunhão feliz na grande noite de Cristo e, eu... Eu sofro como sofrem os beluinos sentindo na aragem o perfume das selvas que florescem.
Como poderei ter alma para celebrar um natalício, ainda o do próprio Deus, quando só penso na morte e, em vez de berço, o que se me opõe aos olhos é um sepulcro?
O aroma que respiro é de flores funerais; os sinos que tangem hosanas soam-me a finados.
O meu Natal é a saudade e, através das grades da jaula em que me agito desesperadamente, vejo o céu, o céu longínquo, o céu infinito... e nada mais!
Sete palmos exatos mede a minha mesa, tantos como um túmulo. Não lhe sabia eu a extensão e nunca atenderia a tal grandeza, para mim maior do que a do mais vasto império, se a não houvesse tomado com o teu corpo.
Não há chão mais fértil do que a tábua desse móvel, solo em que mourejo há trinta e três anos, sem repouso, granjeando a lenha, o pão e o linho e jamais deixou de medrar, ainda que o escopelismo da maldade por vezes tenha procurado abafá-la.
Por mais ásperos que hajam sido os temporais - e quantos me têm passado pela vida - nunca me sucedeu tornar desse abençoado alfobre, que rego com o meu suor, de mãos vazias.
Em qualquer dos seus pontos pode ser posto um sacrário por que, em toda ela, não há um milímetro inquinado.
Nunca a pena com que lavro abriu sulco para má semente: cova para protérvias, esconderijo para amealhar suborno. O que dela vem a flux pouco é, mas desse pouco é puro, sem cizânia, e sempre me bastou, e jamais dele me servi com remorso.
Mal amanhece busco-a e ponho-me logo a trabalhar e, assim como o lavrador enche os carros de ceifa, assim vou enchendo páginas com os meus sonhos.
E a imaginação, como as abelhas e as borboletas, que trazem pólen para fecundar as flores, traz, igualmente, para os meus devaneios, imagens e alegorias com que se ornamenta o agro dos meus escritos.
Nessa mesa fundei alicerces e levantei construções: ela é o meu pequeno império, o meu domínio, o meu diversório e o meu celeiro, o meu retiro de paz e o meu horto de oliveiras.
Sete palmos! Toda uma vida no espaço que tomou, estendido, um corpo morto: o teu, meu filho!
Foi nessa mesa que passaste a tua derradeira noite em nossa companhia, em tua casa, casa de teus pais e de teus irmãos.
Foi nesse campo de trabalho, transformado em essa, que ficaste exposto aos nossos olhos toda uma noite, a última e definitiva, noite subterrânea, impermeável à luz.
Ficaste onde ficam meus livros, na banca em que exerço o meu labor ingrato à qual, em pequenino, vinhas engatinhando e distraias-me com os teus tartareios infantis, que eram como botões das palavras que, pouco a pouco, se te desabrochavam na boca.
Foi nessa mesa que aprendeste a ler com tua mãe e garranchastes, de mão adunca. os primeiros gatafunhos.
E, quanta vez, à noite, enquanto eu trabalhava e ela sorria, contemplando-te de longe, escondida na sombra, tu, com os teus soldadinhos de chumbo, improvisavas batalhas, e o meu tinteiro era fortaleza e eram os meus livros e mais objetos espalhados, baluartes pugnacíssimos contra os quais impelias os teus batalhões de estanho.
E eu, suspendendo o que fazia, entrava no teu brinquedo, mais pueril do que tu, porque tomava a sério os combates e, a golpes de caneta ou espátula, arrasava as hostes que sitiavam um dicionário ou que procuravam escalar o porta-cartas.
E como terminavam as guerras das tuas conquistas? Com os soldados espalhados e os tachos da cabeleira do general no campo da batalha, porque a cabecinha linda, que tantos planos terríveis engendrara, não resistia ao sono e, inclinando-se sobre os bracinhos enrodilhados, ali ficava como a dos anjos rafaelitas, até que a ama, tomando ao colo o herói, que eras tu, deixava a mesa sem o seu gracioso ornato.
Agora, quando me sento para trabalhar, o que logo me aparece aos olhos é o teu corpo imóvel, rígido, vestido de negro, cercado de flores, entre círios, com um crucifixo nas mãos enclavinhadas. E depois no caixão em que te levaram de nós... Por fim, desfeita a visão a mesa reaparece, disposta, como outrora, antes do desastre, com os apetrechos de trabalho.
Tu é que és agora a minha inspiração, tudo me vem de ti e, assim como o teu corpo enche o âmbito da cova, a tua imagem ocupa a minha mesa, como se nela houvesse ficado impressa e a saudade, que é o que me resta de ti, enche-me a alma.
E tudo quanto imagino e busco traduzir em palavras ressente-se de ti - assim a água que brota de terreno mineralizado satura-se das substâncias que nele jazem e o ar que circula em silva em flor impregna-se de aroma.
Tornaste a minha mesa um campo santo. Nela demoraste horas: toda uma noite e toda uma manhã; dela saíste para o sempre, mas o que eu nela escrevo sente-se do que de ti lhe ficou.
Às vezes, no silêncio da casa adormecida, trabalhando, ouço trepidações e uma voz que parece vir dentro de risos incitando a combate. E a mesa enche-se de soldadinhos e uma cabecinha trêfega, aureolada de cachos, agita-se nervosa... Cessa a trepidação, aquietam-se os soldados, a cabecinha inclina-se...
Ó visão do passado, espetro da ventura, saudade! E tudo se resolve; infelizmente, em tristeza e, em vez de vitória, terminada com o sono do guerreiro, sono de que ele acordava com o renascer da luz, alegrando em rumor a casa toda, o que eu, então, vejo, é a derrota, o corpo inerte que adormeceu para o sempre entre flores e círios.
E é tudo que me resta na mesa em que trabalho, mesa que era o meu império, o meu domínio, o meu alfobre feliz, toda a minha riqueza, onde eu semeava e colhia à farta.
E não havia chão mais fértil do que a tábua desse móvel.
Hoje... que se pode tirar de um cemitério?
Que se pode semear nos sete palmos de um túmulo?
Lágrimas não florescem e bom é que assim seja, porque seriam letais, como as da mancenilha, as flores que produzissem.
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br