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O Turbilhão

Coelho Neto

Capítulo XXIV

Ao jantar Paulo insistiu com a mulher para que ficasse. Sentaram-se à mesa. O corpo ficou solitário na sala, entre as quatro velas, com Cristo à cabeceira.

Mamede fez pilhéria a propósito de um guisado de miolos: "Não, o que tinha na cabeça bastava, não queria mais..." e afastou, com repugnância, para a borda do prato, a porção que lhe haviam servido. E foi pretexto para que todos falassem de comidas, expondo, cada qual, os seus gostos.

Paulo apenas defendeu a cozinha francesa, mais saborosa e mais delicada. E reprovou a mania do empanturramento que caracteriza o brasileiro: um nunca acabar de pratos, tudo a esfriar. Perde-se até a vontade de comer.

— História, nhozinho. A gente vê logo tudo, come do que gosta. Eu não tenho paciência para estar esperando e quando vem a comida é um nadinha, no fundo do prato; é preciso a gente ter boa vista para enxergar um bife. Não há como a nossa mesa, deixe falar. Isso de francês pode ser muito bonito, mas ninguém come com os olhos. A moda é para a roupa, agora para o que diz com a barriga prefiro os costumes da nossa terra.

— Pois eu não.

— Ah! vosmecê é moço elegante.

A vizinha pensava como Mamede. "Nada de luxos. Comer é comer. Isso de pasteizinhos, saladinhas, não era com ela."

Escurecia. Mamede acendeu o gás. Só, então, lembraram-se da finada. Paulo propôs que o café fosse tomado na sala para que o corpo não ficasse sozinho. Ritinha, a pretexto de medo, pediu à vizinha que a acompanhasse.

— Não sou medrosa, mas hoje não que tenho - estou só vendo coisas, só ouvindo estalos. Parece que vou encontrar a maluca lá perto do fogão resmungando.

— Pois eu fico com a senhora.

— É favor. - E foram as duas para a cozinha.

Violante chegou às nove horas da noite, de carro. Ao entrar, vendo o cadáver hirto, de negro, as mãos enclavinhadas ao peito entre as quatro velas, ficou atarantada, a olhar para um e para outro. De repente, com um grito, arremessou-se para o corpo e derrubada sobre o peito, já rígido, da defunta, os braços molemente atirados, gania estorcegando-se, aos surdos arquejos trágicos, chamando a mãe em altas vozes. Um homem apareceu à porta, pedindo licença, muito cortês. Todo de flanela clara, botinas brancas, gravata frouxa com as pontas soltas, esvoaçando: deteve-se cerimonioso.

Já as duas mulheres, com muita meiguice, procuravam arredar Violante, cujos gritos longos, percucientes, vibravam. Levaram-na em braços para o quarto do irmão, deitaram-na, afrouxaram-lhe as roupas. Ela debatia-se, esperneava, escabujava rolando, a rilhar os dentes com um ofego d'agonia.

O homem, perplexo, torcia nervosamente os bigodes; sentindo, porém, a porta abrir-se com o vento logo a fechou, receoso de que o vissem da rua e, mais calmo, dirigindo-se a Paulo que o rondava, suspirando e limpando lágrimas, perguntou com interesse:

— Como foi?

O rapaz, com a voz sacolejada, descreveu a morte, toda a agonia da infeliz, lamentando a grande perda, a sua solidão no mundo. De repente, porém, a um grito mais agudo da irmã, notando que o homem afligia-se, franqueou-lhe o quarto:

— Entre, sem cerimônia. Minha pobre mãe!... - e precedeu-o, afastou-se escancarando a porta.

O homem agradeceu e, chegando-se ao leito, inclinou-se sobre Violante, chamando-a. As duas mulheres arredaram-se e Mamede, muito solícito, impondo-se, perguntou - "Se queriam alguma coisa da botica. Ia num pulo." O homem tranqüilizou-o:

— Isto passa, e sentou-se à beira da cama, afagando Violante, enxugando-lhe o rosto.

Houve um momento de calma, ela pareceu haver adormecido. De repente, porém, rompeu a chorar e todos desabafaram: "Agora sim. Era disso que ela precisava." E, discretamente, retiraram-se, deixando-a só com o irmão e o amante.

Quando ela recobrou os sentidos, quis ver a mãe, o homem opôs-se:

— Tem tempo. Estás muito nervosa. Descansa.

Ela, então, indagou como fora; e ao irmão:

— Por que não me mandaste dizer que ela estava tão mal? Coitada de mamãe! A que horas foi? E o enterro?

O amante consolou-a:

— Não te preocupes, há de arranjar-se tudo à tua vontade.

Paulo esmoía desculpas, muito humilde.

Só muito tarde, providencialmente, Mamede aparecera. Não tinha uma pessoa para mandar - estavam os dois sós, acompanhando-a - ele e aquela moça; a vizinha chegara depois. Demais, fora tudo tão rápido. Ainda na véspera ela conversara até tarde, muito calma; até pedira café. Uma coisa inexplicável!... e passeava arrepelando-se. Vendo, porém, que o homem sentava-se à beira da cama, oferecendo o ombro para que Violante repousasse a cabeça, retirou-se. Chegando-se, então, ao cadáver, descobriu-lhe o rosto, inclinou-se com o cotovelo fincado na tábua, a fronte nas mãos, e ficou numa atitude desolada, imóvel, como pesando para uma alegoria fúnebre.

Quando Violante reapareceu todos se puseram de pé, olhando-a. Ela caminhou vagarosamente e, diante da mesa, com as lágrimas nos olhos, ficou esquecida, em contemplativa mudez. Paulo fitou-a e disse surdamente:

— Estamos sem mãe, Violante.

Mas o homem passou por ele, tocou-lhe de leve no braço.

— Dê-me o atestado, eu encarrego-me de tudo. O senhor, no estado em que está... Basta que vá à pretoria, é perto. - E, referindo-se à Violante: É melhor distraí-la. Vamos levá-la lá para dentro.

Ele concordou:

— Como queira; - e foi oferecer-lhe o braço.

Ritinha lembrou o café, era necessário para passarem a noite.

As dez horas o homem retirou-se. Violante acompanhou-o à porta, segredou muito tempo sobre o enterro, coroas, um vestido para mudar. E ele, afagando-a, desculpou-se:

— Bem sabes que não posso ficar contigo...

— Já fazes muito, meu velho. Vai, e não te esqueças. O vestido preto, sabes?

— Sei. Até amanhã. Cedo estou aqui. E descansa.

— Até amanhã.

— Até amanhã. - E, ao entrar no carro: Linda noite, hem?

— É verdade.

O homem fizera sensação. Quando, depois do café, de novo reuniram-se para a vigília, Violante tomou-se o alvo de todas as atenções.

Sentada no sofá, muito quieta, mal respondendo às palavras do irmão, que referia pormenores tristes, de quando em quando suspirava. As duas mulheres, muito juntas, cochichavam.

Mamede passeava ao longo da sala, parando de instante a instante junto à mesa para espevitar uma das velas ou arranjar uma dobra do vestido da finada. A rua caíra em silêncio, o próprio mar parecia dormir.

Na pequena sala, nublada de fumo, tresandando a cera, o calor sufocava. Mamede ousou propor abrir uma janela.

— Não é melhor?

Paulo consultou a irmã.

— Que achas?

Ela encolheu os ombros:

— Se quiserem...

Logo o mulato escancarou as janelas. Uma lufada de ar entrou curvando as compridas chamas das velas e enfiou pelo corredor levando papéis esparsos.

Dentro uma porta bateu com estrondo.

Capítulo XXV

Noite admirável. Nas águas mansas da baía o luar alastrava em esteira trêmula. Vultos negros de navios destacavam-se na sombra, com as lanternas altas, vizinhas das estrelas. Na fortaleza luziam focos opalescentes; longe estendia-se a iluminação do litoral fronteiro.

Um barco, todo negro, as velas abertas, deslizava. De repente entrou na zona iluminada e resplandeceu. Raro em raro um bonde passava com rumor; apitos trilavam e o murmúrio da onda na praia era suave como um respirar tranqüilo.

As velas crepitavam e, como o silêncio se fosse tomando incômodo, o mulato, mais ousado, rompeu-o:

— E é assim. A gente vai indo. Quem diria!... Parece que foi ontem que vosmecês nasceram. Eu ainda estou vendo Nhá Violante de vestido curto, puxando estica com nhozinho por causa de brinquedos. Nem vosmecês se lembram. Também eram tão pequeninos. E ela, coitada! contendo um, contendo outro, para não brigarem. Parece que foi ontem.

Violante ouvia com a cabeça inclinada ao ombro. Paulo falou lentamente:

— Tu nem te lembravas do Mamede, hem, Violante?

Ela fitou os olhos no mulato e murmurou:

— Lembrava-me.

— Qual! Estou velho.

— Nem por isso.

— Nem por isso? É porque vosmecê está me vendo de noite. - E, passando a mão na poupa da gaforinha: Cabelo branco aqui é mato. Vosmecê sim, é que está uma mocetona de pancas! Eu hoje, quando dei com vosmecê, palavra! até duvidei...

— Querias encontrar-me ainda de vestido curto, brincando com bonecas?

— Uai! Nhazinha, a gente fica com as pessoas no coração. Eu, quando falava em vosmecê, só via a menina que conheci no tempo do velho. De repente sai diante de mim um pedaço de moça, quase da minha altura. Fiquei tonto, palavra.

— E que faz você, Mamede?

— Eu Nhazinha? por aqui, cachimbando tristezas. Nem todo o mundo é feliz como vosmecê.

— Feliz, hem? Achas que sou feliz...

— Uai? Que mais então?

— Cada um sabe de si e Deus de todos.

— Isso é que é verdade! - sentenciou a vizinha.

E a conversa generalizou-se. Pouco a pouco a morta foi-se tornando esquecida. Entretidos com a palestra, só de quando em quando um ou outro lançava os olhos para o seu lado a ver se havia necessidade de cortar um morrão às velas ou de arranjar o lenço que o vento, por vezes, levantava.

Um carro parou à porta e a criada de Violante desceu com um embrulho - era o vestido que ela pedira ao amante.

— A senhora precisa de mim?

— Não, podes ir. Vai e vê lá aquilo...

E levava a criada, como que a expulsava para que não tivesse tempo de ver a pobreza de onde ela saíra, a casa dos seus e, como a rapariga levantasse piedosamente o lenço que encobria o rosto da finada, ela pareceu envergonhar-se da própria morta e despachou-a mais apressada: Vai!

— Deus lhe dê o reino do céu.

— Amém, - sussurraram as duas mulheres.

Já na rua a criada ainda perguntou:

— E é só?

— Só.

— Boa noite!

E o carro partiu com estrépito na rua calada e deserta.

Violante não resistiu à fadiga e adormeceu recostada ao sofá. Mamede, a pretexto de arranjar cigarros, saiu. Paulo rondava o cadáver, mas como a mulata fosse ao interior da casa, seguiu-a disfarçadamente deixando a vizinha de guarda ao corpo. Quando Ritinha o sentiu voltou-se.

— Que é que o senhor vem buscar atrás de mim?

— Você fica comigo ou não? - interpelou sem preâmbulos.

— Sei lá! Mas agora é que o senhor quer tratar disso? Vá para a sala. Temos muito tempo.

— Não, eu quero que tudo fique decidido já. Mamede está aí, ele há de querer continuar contigo e eu não estou disposto. Escolhe: ou ele ou eu.

— Já disse que temos muito tempo.

— Não, não!

A mulata quis passar, ele tomou4he a frente:

— Hás de dizer...

— Oh! meu Deus! que homem! Pois o senhor nem respeita o corpo de sua mãe!?

— Que tem uma coisa com outra? Tu o que queres é fugir do assunto, mas eu não sou tolo.

Ameigando-se sussurrou:

— Somos agora nós dois, és a dona da casa, senhora de tudo. Eu quero resolver a minha vida. - se ficas comigo, continuo aqui, se não vendo tudo isto e tomo um quarto.

— Pois deixe a casa como está.

— Ficas comigo?

— Fico.

— Então sim. E Mamede? Como há de ser?

— Como há de ser...?! Eu digo que não quero mais saber de estalagem, que estou muito bem. Isso fica por minha conta. Mas vá lá para a sala - sua irmã pode acordar e essa mulher do lado tem uma língua muito comprida.

Verdadeiramente Ritinha hesitava entre os dois homens - um atraía-a pela vida aventurosa, de ousadia e troça: sentia-o forte e lembrava-se, com saudade, dos dias felizes que passara com ele quando, com um pouco de dinheiro, entrava a alegria em casa. Tinha orgulho em ser dele, um valente de fama, chefe de malta temido. O outro era um fraco, mas dispunha de recursos, podia garantir-lhe a tranqüilidade e adorava-a. Precisava cuidar de si... Depois, se tivesse um capricho, que custava? Não fora amante de Paulo enquanto vivera com o Mamede?

O mulato não a estimava. Se a estimasse não teria procedido como procedera. Um brigador como ele que, por qualquer coisa, puxava a navalha, depois de tanto rondar a casa... nem nada. Prosa! E a mulata sentia-se melindrada com a submissão do amante - preferia, talvez, que ele a houvesse maltratado, ferido, ameaçado com armas àquela quieta, resignada condescendência com que se portara. Assim, que se arranjasse...

Quando tornou à sala Violante, que despertara, estava à janela olhando o mar, tremulamente de luzes. Paulo contemplava o corpo e a vizinha, acaçapada na cadeira, a cabeça descaída, a boca aberta, dormia com um silvo nasal.

À hora do enterro, quando fecharam o caixão, Violante, que se vestira de preto, um rico vestido de gorgorão, rebrilhante de vidrilhos, teve uma crise de lágrimas beijando desesperadamente a face lívida, as mãos engelhadas da finada.

A vizinha arranjava as flores, a mulata ainda compunha o vestido ruço acomodando-o. Mamede apanhava as duas coroas, uma pobre, de flores de pano, lembrança de Paulo; outra, que viera com o caixão, de biscuit, com largas fitas roxas onde, em letras de ouro, a filha mandara colar a sua "saudade eterna", quando o homem da véspera, todo de preto, saltou de um coupé e entrou com liberdade, indo direito a Violante.

Tanto que ela o sentiu, logo calou os gemidos e, erguendo a linda face, perguntou tristemente:

— Veio o carro?

— Está aí. - E baixinho, com meiguice: Então? Está a teu gosto?

Ela lançou um olhar ao caixão que Mamede ia fechando:

— Muito bom. Não sei como te hei de agradecer tanta bondade. - E olharam-se com ternura.

— Eu queria acompanhar, mas... É a minha hora de trabalho, depois... - e sorriu, um triste sorriso em que havia a leve sombra de uma contrariedade.

— Oh! já fizeste tanto...

Todos esperavam por eles e olhavam imóveis, calados. Paulo, por fim, adiantou-se:

— Vamos, Violante? Ela pôs-se de pé, choramigando, com o lenço nos olhos. Mamede saíra à porta e dois homens entraram para ajudar a levar o caixão. Paulo, atarantado, voltou e estendendo a mão à irmã: Esperas aqui?

— Não, estou com muita dor de cabeça.

— Então, adeus.

Abraçaram-se longamente.

— E aparece, Paulo. Vai lá.

O homem corroborou:

— Quando quiser. Tem uma casa às ordens. Sem cerimônia.

Ele agradeceu comovido e, como passasse perto de Ritinha, que retirava os castiçais da mesa, sussurrou:

— Até logo. Olhou em torno, apressado, procurando alguém: Que é da senhora?

— Já foi... - disse Ritinha.

— Então até à volta.

E, chamando Mamede, meteu-se com ele no único carro que havia para acompanhar o enterro. E o féretro partiu.

Violante lançou um derradeiro olhar à casa, e pondo o chapéu ao acaso, falou à Ritinha:

— Fica aí um vestido meu. Mando-o buscar logo mais.

E saiu apressada, como a fugir daquela miséria onde a morte deixara o seu fortum funéreo, feito dum misto de aroma de flores fanadas e do cheiro aborrecido das velas de cera. O homem despediu-se dela à porta do coupé que partiu. A mulata ficou a remorder-se de fúria, abriu a janela e explodiu:

— Grosseirona! Quem sabe se eu sou criada! Uma vagabunda e tão cheia de empáfia. Comigo não!

A vizinha apareceu à janela e a mulata desabafou:

— A senhora já viu? A tal sujeitinha. .. Nem para agradecer o que fiz pela mãe... como se eu tivesse obrigação.

— Já foi?

— Já, com o amigo.

— Ah! minha senhora, essa gente... Enquanto está por cima é assim: presunção até o diabo dizer basta! Mas também dura pouco. Eu é que nunca fui orgulhosa.

Calou-se, como recolhida às recordações do seu tempo de fastígio. De repente, tomando ao acaso:

— E a senhora pensa que ela sentiu alguma coisa? tudo fingimento.

— Isso sei eu... Pois não vi?!

— A pobre da velha é que se foi, coitada!

— Ora, antes assim... Está com Deus.

Depois de um silêncio a vizinha, lançando os olhos ao céu azul, ao mar luminoso, disse extasiada:

— E foi com um dia lindo!

— Muito bonito!

Calaram-se, d'olhos alongados, contemplando o mar azul palhetado de sol. Foi a mulata que interrompeu o êxtase:

— Bom, até logo. Vou varrer e defumar a casa para acabar com este cheiro de morte.

— É sim, confirmou a outra. Até logo.

E despediram-se risonhas, com adeusinhos íntimos.

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