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O Turbilhão

Coelho Neto

Capítulo XV

No jardim do Recreio, ainda úmido, com poças d'água rebrilhando, a banda dos bombeiros estrondava requebrados tangos. Frias lufadas balançavam as lanternas, enfunavam as bandeiras, retorciam as flâmulas que faziam uma aléia triunfal à entrada e circulavam a pátio, subindo às negras folhagens das árvores raquíticas como estranhos frutos d'oiro e farrapos espadanando, alongando-se no ar, coleando, tufando.

A multidão, refluindo, em levas densas, do recinto iluminado e quente, fervilhava galrando. O mulherio alegre, em esgargalada e provocadora ostentação de carnes, saracoteava, abaixo e acima, às gargalhadas estridentes, roçando pelos rapazes com afetada lascívia.

Explodiam garrafas, tiniam copos, os caixeiros acudiam com pressa estonteada, aos berros, às rijas bengaladas que estrondavam nas mesas, aos tinidos das garrafas, às palmas estraladas com que os chamavam de todos os lados. E a murmúrio arrastado e incessante dos passos dava a impressão dum grande vento a vergar frondes, a torvelinhar folhagens.

Eugénie, conhecedora do seu "mundo", atraíra à sua festa, como engodo, todo o parasitismo galante. Fora, à gandaia, circulava a miuçalha, a fina flor impunha-se nos camarotes fazendo, em lento passeio, a volta da varanda ou em palestra junto à balaustrada.

O botequim transbordava e por toda a parte era um sussurro de festa, uma alegria estróina, risadas, gritinhos ou, modestamente, em algum recanto mais calmo, em penumbra, um casal em colóquio, sorvendo licores - ela a fazer-se ingênua, tímida, d'olhos baixos; ele todo inclinado, meigo, segredando com doçura.

Quando Paulo e Aurélio chegaram, a orquestra atacava, com fragor, uma sinfonia e o jardim esvaziava-se, todos corriam para o recinto ou iam tomar lugar à volta da balaustrada que circula a platéia, com curiosidade de ouvir a Eugénie, que devia abrir a segunda parte. Os floristas levantavam as varas apinhadas de ramos, oferecendo-os; de longe em longe, à mesa de indiferentes, rolhas espocavam ou era um cão, tosado á feição leonina, que se punha a ganir, de rojo pelo chão, aos rebolos.

Os dois rapazes deram volta, olhando friamente. Aurélio notou o grande número de cocottes:

— Como está isto! Nem uma família... Enoja! Fez um momo e cuspiu.

Paulo, sem responder, varava a multidão, levando, de vez em vez, a mão ao peito para apalpar, sentir o dinheiro no bolso interior do casaco abotoado. Aurélio queixou-se do frio. "Estava picante..." e propôs uma dose de whisky e Seltz, ali fora, longe daquele tumulto sórdido que tresandava. Mas o pano ia subir.

Fez-se um movimento de atenção; as curiosos apertavam-se, oprimiam-se, espichavam-se, d'olhos alongados, à espera da beneficiada. Subitamente a pano enrugou-se, subiu. Houve uma explosão de palmas, voaram ramos e flores soltas ao palco e, sorrindo, com os dedos apinhados em beijos, viva, duma graça desembaraçada de efebo, muito escorreita num costume de jóquei, Eugénie desfazia-se em galanteios, comovida, atendendo a toda a sala, avançando, recuando, o busto curvado, pisando ligeiramente, com as botas muito lustrosas, o boné junto ao seio, a cabeleira loura toda arrufada em cachos.

O regente ergueu-se no estrado e ofereceu-lhe uma corbeille cheia de fitas esvoaçantes, com um casal de inquietos pombos brancos batendo as asas entre rosas. De novo as palmas estrondaram, e das torrinhas, num delírio, aos berros, o nome da cocotte era aclamado.

De repente, dum lado e doutro, em palpitante revoada, papéis esvoaçaram. Braços levantavam-se, esticavam-se colhendo-os no ar, amarfanhando-os, disputando-os; alguns ficavam em pedaços, mas continuamente, em torvelinho, vinham outros baixando a granel, e no recinto frufrulhava alegremente aquele perene rumor de vôos. Aurélio conseguiu apanhar um dos papéis e, lançando os olhos ao texto, arrevessou:

— Súcia! versos a uma biraia como esta... e assinados, Quem é o animal? Conheces?

— Não.

— É por infâmias tais que a Poesia tem baixado tanto. Besta!

E, furiosamente, rasgou a papelucho. Eugénie começara a cantar, numa vozinha infantil, com muitos rr e sorrisos.

— Vamos ao nosso whisky?

Paulo não respondeu - estava lívido, imóvel, d'olhos cravados num camarote, insensível a tudo, vivendo apenas para aquela visão.

Aurélio seguiu-lhe o olhar e murmurou, com enlevo:

— Bela mulher! Quem é?

O outro não respondeu, estatelado, como de pedra. De repente, recuando sem atender aos protestos dos que lhe ficavam em volta, afastou-se. Aurélio estranhava-o: "Que tens?" Ele encolheu os ombros, sacudiu o braço, nervoso, e distanciou-se da companheiro, mas hesitando, deteve-se, ficou a pensar, d'olhos em terra e, numa resolução, retrocedeu. O poeta seguia-o com o olhar, intrigado.

— Olha, Aurélio, preciso ficar só, deixa-me - é um caso. Se queres alguma coisa...

— Não, filho. Mas que diabo tens? Que foi isso? É com a rapariga?

Depois dum instante, forcejando um sorriso, Paulo afirmou: que era. Aurélio, maravilhado, riu daquela ingenuidade.

— Pois que... com dinheiro no bolso? Ainda estás muito peludo, homem. Aquilo é só abordar. Se queres, apresento-te.

Paulo fitou-o com um grande espanto nos olhos que faiscavam:

— Conheces?

— Não, mas é o mesmo. Isso a gente chega, fala e está pronto. É como um tílburi que se ajusta, que diabo...! Pareces criança. Queres?

— Não. Até amanhã.

Vendo-o decidido a deixá-lo, Aurélio reteve-lhe a mão e sussurrou:

— Tens aí uns miúdos?

— Tenho.

— Pouca coisa. Aquela infame batota deixou-me a tinir e estou com um apetite de canja que não te digo nada.

Paula passou-lhe uma nota.

— Obrigado. Então até amanhã e bonne chance!

Romperam aplausos estrondosos e a poeta, esticando-se nas pontas das pés, pôde ainda ver Eugénie, toda inclinada e risonha, a atirar beijos, perdendo-se, aos recuanços, por trás do pano que descia.

Paulo afastou-se caminhando para a larga escada dos camarotes e, já com o pé no primeiro degrau, hesitou pensativo. Estrugiram novas palmas recebendo um equilibrista famoso. "Que é ela, não há dúvida..." foi, escada acima, degrau a degrau, receoso, com o coração oprimido, imaginando escândalos: um ataque, uma desfeita ruidosa, uma gargalhada cínica. E a outra? Quem seria?

Uma rapariguita loura e fina, debruçada à balaustrada, cantarolava, alheia às palavras amuadas de um bonifrate de chapéu branco e polainas. Paulo passou pelo "arrufo" vexado, pisando de leve e, à medida que se aproximava do camarote, mais lhe cresciam os receios. Sentia as pernas frouxas, trêmulas, a boca seca e revoltava-se contra aquela covardia, reagindo, avançando sorrateiramente, a relancear as olhos pelos camarotes, vendo, pelas frestas, bustos graciosos, eretos, plumas petulantes, brilhos de jóias. Chegando ao camarote alvejado, dando com a porta largamente aberta, esteve para voltar.

Correu por todo o teatro o murmúrio de uma emoção malcontida, palmas isoladas vibraram, mas foram instantaneamente abafadas por psius! enérgicos e impôs-se súbito silêncio. Ele adiantou-se e, parando, ficou pregado ao soalho, a olhar, comovido e medroso.

As duas mulheres, entretidas, não davam por ele. Uma gorda, flácida, com as carnes moles esparrimadas e a espocarem, os cabelos ralos, grisalhos, dando-lhe um tom cinzento à nuca, era uma sombra que fazia realçar, com mais esplendor, a graça da companheira, delicada e esbelta, de ombros largos, colo farto, cinta delgada, braços roliços, pele alambreada e fina.

Os cabelos, muito negros, reluziam à claridade sob as gazes e as flores do chapéu que lhe tombava sobre os olhos, como um alparluz. e o pescoço, sem uma ruga, dum torneado irrepreensível, subia direito, altivo, da gola de veludo branco.

Era ela, Violante, mais desenvolta, mais forte, em pleno viço, sem a suavidade da graça virginal, mas com o encanto das linhas acentuadas da mulher que desabrochou para o amor.

Tinha-a ali ante os olhos, a dois passos; podia falar-lhe, ouvi-la, conhecer todos os pormenores daquele drama que trazia em pena a pobre velha, àquela hora, talvez, ajoelhada, debulhada em lágrimas a pedir por ela aos santos.

Bravos frenéticos atroaram a sala. Paulo continha o hálito, temendo denunciar a sua presença e ansiava, ao mesmo tempo, por um lance do acaso, que o descobrisse à irmã.

Ela moveu-se lentamente, inclinou-se para a companheira, com o leque à boca, risonha, segredando uma confidência. O busto tremeu-lhe de leve sacudido por um risinho, a outra reboliu-se, a rir grosso. Ele hesitava sufocado, d'olhos fitos, quando Violante, como fascinada, voltou a rosto e descobriu-o.

Empalideceu, os olhos abriram-se-lhe desmedidamente, a boca ficou em hiato de espanto e, medrosa, achegou-se à companheira numa necessidade de socorro, compondo o chapéu, alisando o vestido, incerta e trêmula. De novo, rápida, lançou um olhar à porta como para certificar-se e puxou uma tosse seca, logo abafada no lencinho,

Era ela, mais linda! Animado com aquela turbação, forte diante da inesperada covardia da irmã, Paulo adiantou-se até à porta do camarote e, em voz surda, que tremia, pediu licença. A gorda voltou-se, mirou-o d'alto, mas Violante levantou-se arrebatadamente e, antes que a companheira interviesse, rompeu numa exclamação de surpresa feliz:

— Oh! Paulo!... - e, afastando, de repelão, uma cadeira, saiu à varanda.

O estudante recuou até á balaustrada do fundo, carrancudo. Os dois irmãos encararam-se em silêncio, numa comoção que os enleava e foi ela quem primeiro falou, precipitando as palavras, em voz surda e difícil, que lhe saía aos arrancos:

— Como soubeste que eu estava aqui? Quem te disse? Estás magro! Que é isso?

Mirava-o com um sorriso forçado. Ele conservava-se de cabeça baixa, verrumando a botina com a ponteira da guarda-chuva.

— Tens estado doente? Fala!

Um risinho alegre ressoou-lhe na boca vermelha e fresca.

— Olha, não te ponhas com amuos agora. Temos muito tempo para brigar, ouviste? Como vai mamãe?

Ele resmungou:

— Ainda perguntas...!? Mamãe está à morte.

— De que, meu Deus! - exclamou num doloroso espanto, juntando as mãos enluvadas.

Paulo levantou a cabeça de ímpeto e, cruzando os braços energicamente, interrogou-a em murmúrio:

— Mas tu estavas doida, Violante?

Ela baixou o olhar, encolhendo os ombros.

— Não sei. Agora está feito. Não falemos nisso.

— Ah! não falemos nisso... E nós? mamãe, eu,..? Depois duma pausa perguntou: Onde estás morando?

— Em Botafogo.

— Onde?

— Na praia.

Deu-lhe o número, descreveu-lhe a casa, entre árvores, ao fundo de um jardim.

— Desde quando?

— Há uns quinze dias.

— E antes?

— Cheguei de Buenos Aires no sábado.

— De Buenos Aires!

— Sim.

— Grande doida! E agora?

— Agora quê?

— Pretendes ficar aqui?

— Então? Onde hei de ficar?

Lançou um olhar ao camarote e, vendo a companheira voltada para a cena, chegou-se mais ao irmão.

— Nós aqui não podemos conversar. Aparece amanhã lá em casa.

— Eu?

— Então? Que tem? Olhem o inocente... - fez ela com um beicinho.

— Pensas que não tenho vergonha...?

— Vergonha de quê? Eu moro só. Vai amanhã.

— A que horas?

— Às duas.

— E mamãe?

— Mamãe... Se ela quiser ir contigo...

O bonifrate de chapéu branco encaminhava-se para o ponto em que se achavam os dois. Ela despediu-se.

— Até amanhã. Olha, o melhor é não dizeres nada a mamãe por enquanto, tem tempo.

Caminhou para a camarote, com um ruflo de sedas, mas retrocedeu, sorrindo, e segredou-lhe:

— Olha, a meu nome é Diana... não te esqueças.

— Diana!

E ela, já a entrar no camarote, afirmou de cabeça, sorrindo. Paulo contemplava-a e, quando a viu de novo sentada, repuxando o chapéu, indiferente, sorrindo para a companheira, teve um assomo de revolta e esmoeu um insulto. Por fim seguiu, e pôs-se a percorrer a varanda a lentas passadas, até que, enfarado, e com uma ponta de despeito por haver sido despedido, ele, o irmão, desceu sorumbático, sentou-se a uma das mesas, pediu cognac e ali ficou a divagar, imaginando as múltiplas aventuras daquela rapariga que, depois de errar em terras estranhas, reaparecia, mais vela e mais forte, sem mácula do vício, triunfante, gloriosa na miséria infame.

Lembrou-se do dinheiro, apalpou-o, sentiu-o em volume cheio e mole. E, sacudindo a perna, ficou a banzar, inerte, numa apatia, cortada de acessos de furor. Mas aquela temerária aventura da irmã, apenas indicada em um nome - "Buenos Aires", a viagem, a instalação, o gozo bem desfrutado na opulenta cidade, a vida entre beijos e flores, em palácios monumentais, as suas noites de amor mercenário nas braços dum e doutro, foram-lhe, a pouco e pouco, despertando um árdego desejo carnal.

E admirava aquela audácia feminina, decompunha aquela vida, seguindo mentalmente todos os passos da irmã; a bordo, na terra estrangeira, pompeando em luxo régio nas frisas deslumbrantes, rodando em carruagens de molas flácidas, tiradas por parelhas de raça, esplêndida, sedutora nas suas formas rijas, mal desabrochadas, rolando em leitos forrados a seda, à luz velada de lâmpadas coloridas, em quartos nobres de palácios.

Uma mulher percorria vagarosamente o jardim em passos sutis, sacudindo o leque. Olhou-a; os olhares encontraram-se. Era alta, robusta, loura, dum louro claro e quente que fulgurava. Esteve para chamá-la, oferecer-lhe qualquer coisa, tomar-lhe a noite. Mas a mulher passou, indolente, deixando na ar a toada suavíssima dum doce canto, uma canção do seu país, talvez.

Não se resolvia, indeciso, hesitando entre recolher-se a casa e ficar na cidade, pernoitando em companhia duma daquelas andejas que enxameavam o jardim, imiscuindo-se nos grupos, sentindo o fim da noite vazia.

Passavam rindo, chalrando, d'olhos aguçados, à caça de homens, procurando ajoujar-se a qualquer; umas, desenxabidas, desanimadas, outras trêfegas, de uma alegria canalha, empurrando-se, travando dos braços dos rapazes, fazendo voltas de dança ao estridor clangoroso das metais da banda, encostando-se às mesas, reclamando bebidas, propondo ceias, ou evitando, às rabanadas, os beliscões lúbricos da rapazio.

Paulo fugiu à multidão e seguiu, ruminando idéias extravagantes, incerto da seu destino naquela noite. Achou-se, com surpresa, parado junto à escada, a olhar para a varanda. Teve um movimento de repulsa, raspando a asfalto com a guarda-chuva. "Agora espero. Quero vê-la sair. Hei de ver quem é a sujeita."

Passou-lhe pela mente a figura da Junqueira; depois desenhou-se a do Messias, d'olhos finos, em dois talhos, as pés enormes, esparrimados. Ele falara dum compromisso no Recreio, uma pessoa que a esperava. Não, não podia ser... - Então, encolhendo as ombros com indiferença, afastou-se, em andar vagaroso, medindo os passos. "Ora!" Achando-se na aléia da entrada, em súbita resolução apressou o andar e saiu.

À porta cambistas cercaram-no, pedindo a senha. Carros reluziam estacionados na rua escura; doceiros apregoavam e, na taverna da esquina, um ror de homens cercava o balcão, bebendo em estridente algazarra.

Foi-se, rua abaixa. "Ora! que se arranje!" Deteve-se surpreendido, olhando uma aguazinha que rebrilhava entre as pedras da rua.

"Só, hein?! Sozinha pela Prata... é coragem! E nós aqui, como idiotas, perdendo tempo, amofinando-nos. Eu bem dizia. E mamãe a orar..." Serenou, porém, a um pensamento iníquo e a frase que o exprimia saiu-lhe da boca docemente, regozadamente: "Mas está bonita!..." Foi-se.

À porta da Maison Moderne sorriu descobrindo Messias e Junqueira, muito juntos, encapotados. Saudou-os e entrou.

À luz intensa da sala teve um deslumbramento, e, abancando a uma das mesas mais discretas, sacou do bolso um maço de notas, escolheu uma de cem e esperou a caixeiro. "Água de Seltz..." Recebendo o troco, separou uns miúdos para o tílburi. "Até que enfim!" exclamou pondo-se de pé e, acendendo um cigarro, caminhou vagarosamente a porta.

A noite desanuviara-se. A lua, num recorte esguio, luzia no céu ponteado de estrelas.

— Vamos ter amanhã um dia magnífico! - disse alguém tocando-lhe no ombro; voltou-se e viu Narciso todo atrapalhado com um embrulho e o capote.

— Oh!... boa noite. É verdade.

— Esteve na Recreio?

— Um instante.

— Um casão, com certeza?

— À cunha!

— Pudera!

Já à porta, perguntou risonho:

— E os versos do Aurélio... Que tais? Não foram distribuídos?

— Sim, espalharam uns versos; um soneto, creio... Mas a assinatura é doutro.

— História! São da Aurélio. Fê-los ontem, depois da jantar, a pedido do Messias. Um tipo! Bem, boa noite.

Paulo não conteve o riso, lembrando-se da revolta do poeta. Ficou um momento à porta olhando o céu. Súbito meteu-se num tílburi, que estacionava junto ao passeio e mandou tocar para a Lapa.

Uma densa multidão esgorjou da Rua do Espírito Santo espraiando-se no largo - era a gente que saía do Recreio. O cocheiro teve de suster o animal para deixar passar o povo e Paulo, olhando a turba que se espalhava, com uma pressa de fuga, via apenas um vulto que se afastava subindo da terra, ganhando o espaço em leve ascensão, como um anjo que remontasse serenamente.

Com o arranco do animal que partia foi de encontro ao fundo do tílburi. O cocheiro resmungou contra a "súcia". Ele conservou-se calado, imóvel, a rever a visão, que era ela, Violante, cujo perfume o cercava como se todo o ar estivesse impregnado. Dilatou-se-lhe o peito e um suspiro saiu-lhe, largo e vagaroso: "Mas como está bonita!" E sorriu deliciado recostando-se abandonadamente.

Capítulo XVI

Toda a noite, noite imensa e morosa, rebolcando-se na cama a esmagar os travesseiros ou espichado, a olhar o teto, à luz trêmula da vela, fumando seguidos cigarros, Paulo pensou em Violante com simpatia. Afinal, que podia ela esperar?

Pobre, casando não passaria da vida insípida que levam todas as mulheres, na monotonia enfadonha dos afazeres domésticos, mal-amanhada, envelhecendo, mortificando-se no trabalho insano, arrastando a fecundidade penosa, sempre rodeada de filhos, talvez brutalizada pelo marido, sofrendo privações entre as quatro paredes duma casa.

Assim, não - era livre, tinha todo o gozo, podia saciar-se à larga, sem preocupar-se com a sociedade com a qual rompera abertamente.

Era uma revoltada. Tinha, para impor-se, a mocidade e a beleza - que importava o resto? A sociedade só despreza a miséria - as desonras que vexam são a fome, a nudez e as moléstias; o dinheiro tem sempre o seu prestigio, ninguém lhe pede a origem... e ela nadava em ouro.

Resolveu visitá-la na manhã seguinte para conhecer todos os pormenores daquele romance. E gozava, imaginando a vida solta da irmã, sempre em festas, deslumbrando com a sua formosura, disputada pelos argentários, amante de influências, podendo até protegê-lo, impô-lo à fortuna.

Sentia uma ponta de orgulho comparando-a às outras mulheres fanadas que a remiravam com despeitada inveja. "Vai longe!" murmurou num bocejo, estrincando os dedos.

Lembrou-se, porém, do dinheiro que guardara na gaveta. Saltou da cama, tomou-o e, espalhando-a na mesa, com volúpia de avaro, pôs-se a contá-lo separando as notas pelas respectivas valores. E imaginava compras: um farto fornecimento para a despensa, roupa, livros, o resgate das jóias.

A vida pareceu-lhe de facilidade suave. "Agora sim, a questão era ter um pequeno capital para começar..." E pensou em Ritinha.

A mulata havia de ceder porque, afinal, a vida de expedientes de Mamede não lhe garantia a tranqüilidade. Quando ela o visse com dinheiro não relutaria. Repôs os maços na gaveta, bem acamados, deu volta à chave, deitou-se, soprou a vela e, na escuridão silenciosa, ainda pensou na fortuna, em amores, no futuro que se anunciava propício.

Já as carroças rodavam pesadamente quando adormeceu ouvindo o rumor grave, soturno das ondas aos rebolões na praia.

Acordou tarde e logo, deixando o gozo macio, a preguiçosa moleza tépida da cama, pôs-se de pé, com pressa e dirigiu-se ao banheiro. Dona Júlia falava à Felícia aconselhando-a e, quando ele reapareceu, esfregando a cabeça, a reclamar a café, ela disse-lhe que a negra se havia despedido.

— Por quê? Deve-se-lhe alguma coisa?

— Só as dias que estão correndo. Mas não é por dinheiro: Felícia está com a cabeça virada, vê coisas... Andou toda a noite pela casa resmungando. Diz que é o filho. Desde que viemos para aqui é isto. Não pode ver o mar. Se vai à rua fica um tempo enorme, às vezes volta sem as compras, perde o dinheiro. Tenho pena, coitada! mas o melhor é deixá-la ir.

— E quem há de fazer o serviço? Ela que fique até eu arranjar outra. Ponho hoje um anúncio. Mas quem sabe se não é bebida, mamãe?

— Ela não bebe. Está assim por causa do filho. De mais a mais foi meter-se com o espiritismo, ficou perdida de todo.

— Ah! então... Pois hoje mesmo eu ponho um anúncio, descanse.

E caminhou para o quarto.

Quando saiu esteve um momento à porta, hesitando entre ir à casa da irmã e descer à cidade. Era muita cedo. Tomou o bonde resolvido a fazer o sortimento. Foi uma prodigalidade. Queria tudo em abundância e do melhor - conservas, doces finos, vinhos, licores, queijos. Feitas as compras exigiu que lhas mandassem imediatamente a casa. Depois encaminhou-se para o hotel, almoçou desatento, com o espírito muito longe, preocupado com a visita que ia fazer.

Depois de haver percorrido lentamente a Rua do Ouvidor, parando diante das vitrinas a olhar as jóias cintilantes, os bibelots graciosos, os manequins esbeltos, resolveu-se a tomar um tílburi e mandou tocar para Botafogo.

A casa, de aspecto nobre, com todas as janelas fechadas, ficava ao lado de um jardim sombrio, de sinuosos caminhos areados de saibro escuro. Duas alvas figuras de mármore destacavam-se na sombra das ramagens. Hesitou um momento, impressionado com o silêncio, receando encontrar o "homem".

Despediu o tílburi e ficou parado ao portão a olhar, tímido, indeciso. Não aparecia ninguém; no interior, um silêncio de abandono. Seria ali? decidiu-se, por fim, a apertar a botão da campainha. Uma criada loura, de avental, apareceu à varanda, debruçou-se olhando por entre a folhagem da ipoméia que formava uma verde e florida empanada. Vendo-o, desceu ligeiramente e os seus passos vinham crepitando no saibro lucilante. Ele lembrou-se da recomendação da irmã e perguntou:

— Mademoiselle Diana?

A criada mirou-o dos pés à cabeça, e murmurou em tom de receio:

— Está; mas ainda não desceu. Pode dar-me o seu nome?

— Paulo, ela sabe.

Imediatamente a criada abriu o portão e, sorrindo, afastou-se dando-lhe passagem. Ele seguiu-a à varanda, entrou numa saleta luxuosa, que um alto tapete forrava. Pesados reposteiros coavam a luz filtrando suave claridade confidencial.

Duas cegonhas de bronze flanqueavam a otomana de damasco amarelo, vivamente ensangüentado a flores de púrpura. Pelas paredes, floridas a ouro, sobre aveludado fundo carmesim, acumulavam-se retratos, grandes quadros pendiam mostrando paisagens tristes - campos de trigo esfumados pela crepúsculo e gados que recolhiam e uma gravura idílica em que havia uma redouça, entre flores, unindo um jovem casal amoroso no mesmo balouço. O silêncio era absoluto como se tudo dormisse naquela casa. A criada reapareceu em passos surdos, como uma sombra.

— Pode subir. A senhora espera-o lá em cima.

Guiou-o ao longo de um corredor forrado de esparto e mostrou-lhe a escada.

— Sobe! convidou Violante.

Paulo sentiu viva emoção ouvindo a voz da irmã e foi com o coração aos esbarros que galgou a escada iluminada par uma clarabóia de vidros policrômicos.

— Entra e espera um instante na sala.

Dirigiu-se para o suntuoso salão atapetado.

O lustre cintilava a um raio de sol. O mobiliário era rico, adaptado à volúpia - moles divãs orientais sabre pelegos que formavam macia alfombra, de cores quentes; grandes almofadões de seda com borlas, fundas poltronas. Os consolos altos, esguios, com espelhos finos, eram todos dourados e rebrilhavam.

Cortinas escuras temperavam a luz, quebrando a violência do sol que entrava por quatro janelas abertas sobre balcões. Na mesa do centro, incrustada de marfim, dentro duma linda jarra de porcelana, morriam rosas. Aroma tépido e voluptuoso impregnava o recinto. Os rumores da rua chegavam abafados, ensurdecidos, como se viessem de muito longe.

— Espera um instantinho. Estou arranjando o cabelo. Vou já.

— Não te incomodes.

E, de pé, os braços cruzados, pôs-se a examinar os quadros, as estatuetas das peanhas. Uma sandália cor-de-rosa jazia no meio do salão embarcada. Sobre um dos divãs uma saia de rendas amarrotada parecia uma grande e estranha flor, murchando em abandono.

— Como vais?

— Vai-se indo. Estás num palácio!

— É. A casa é boa. Grande demais.

— Moras só?

— Sozinha.

Abriu a porta e apareceu deslumbrante, num penteador de rendas que a envolvia como em frocos de espuma. Os cabelos soltos cobriam-lhe as costas até a cinta. Nos braços, que as largas mangas deixavam nus, cintilavam pulseiras.

— Não repares, - disse sorrindo, como vexada. - Apareço assim para não te fazer esperar. Saí do banho. Senta-te. - Sentou-se muito encolhida, cruzando as pernas com desembaraço e Paulo viu-lhe as sandálias de veludo, um pouco da perna bem feita, carnuda. - Como vai mamãe?

— Como sempre.

— E Felícia?

— Felícia... Felícia está maluca. Despediu-se hoje.

— Maluca?

— Meteu-se com o espiritismo e anda a ver coisas. Fala com o filho.

— Que filho? Ela tem filho?

— Tinha. Era marinheiro. Morreu na revolta.

— Mas doida mesmo?

— Varrida.

Houve um silêncio. Os dois olhavam-se embaraçados.

— E tu? perguntou por fim Violante.

Paulo deu d'ombros.

— Por aqui, lutando sempre. De repente: Por que não vais ver mamãe?

— Tenho vergonha. Ela fala em mim?

— Se fala em ti...!

— Coitada!

— E tu não estás arrependida, Violante?

— Eu? - acenou com a cabeça negativamente. - Arrependida, por quê? Esta vida tem as seus aborrecimentos, tem; mas a gente não é obrigada a aturar um homem de que não gosta. Serve? muito bem; não serve? adeusinho. Sempre é outra coisa. Não nasci para o casamento... - e fez um momo de enjôo.

— Afinal... com quem saíste?

— Com um moço. Não conheces. Podia ter casado com ele - era bonito, rico e adorava-me; não quis. Não imaginas - uma fúria de ciúme. Eu não tinha licença de abrir uma janela. Sofri horrores! Hoje vivo tranqüila, nada me falta e tenho o melhor que é minha liberdade. Vou aonde quero, faço a que me dá na cabeça. Os outros... - encolheu os ombros com desprezo esticando um beicinho. - Não me importo com o mundo. Sei que falam, que não me poupam: que sou isto e aquilo, mas se eu fosse pedir aos tais um pedaço de pão viravam-me as costas. Conheço essa gentinha... Oh! se conheço! Um dos que mais falaram de mim não me deixa com recados e bilhetinhos... o tal boticário que queria casar comigo. Deus me livre! São todos muito honestos, por trás da cortina vão fazendo das suas. Eu não os incomodo nem os envergonho - quando passo por eles finjo não os ver. Não nasci para mãe de família, essa coisa com que os chamados homens de bem enchem a boca. Cada qual para o que nasceu. Nem todas as mulheres têm vocação para freira.

— Lá isso...

— Eu podia fazer o que fazem muitas - casar e depois andar por aí arrastando no lodo o nome do meu marido. Preferi sacrificar-me sozinha - em vez de duas desonras já apenas a minha. Sou uma perdida, as outras são virtuosas senhoras. Que lhes saiba. A Lola, que é hoje madame não sei quê, levou toda a vida a ajuntar dinheiro para comprar virtude e consideração para a velhice. Até arranjou uma filhinha. Eu já a conheci casada, mas em Buenos Aires contaram-me toda a história. Se tiver tempo e paciência farei o mesmo. - Riu. - Queres um cálice de licor? cerveja?

— Não, nada.

— Pois é assim. Não estou arrependida. Tudo me tem corrido bem. Às vezes tenho saudade, não da vida que levava: de ti, de mamãe, mas procuro distrair-me, disfarço e as horas levam os pensamentos tristes. A vida é muita curta - quem mais vive é quem mais goza, não achas? Falam no futuro, no dia d'amanhã. Eu vejo as outras, coitadas! umas, viúvas, cheias de filhos; outras, sofrendo horrores com os maridos. O amante é um escravo, o marido é um senhor. É como dizia uma argentina que conheci: "Os homens são encantadores, o homem é insuportável." Ter de aturar um sujeito toda a vida é o mesmo que não ter senão um vestido que vai envelhecendo e ao qual é necessário a gente ir pondo e sobrepondo enfeites para esconder as manchas e os remendos. Não me serve.

— Ainda gostas muito de romances?

— Leio. E tu? A tua mania era o casamento. Já tens noiva?

— Deus me livre!

— Deus te livre?! - Fez um momo faceiro. - Pensas que não te conheço.

— Não, estás enganada. Namorei por troça, passatempo apenas, Casar! upa!

E gravemente, com a entono da responsabilidade:

— Preciso cuidar da velha. Ela não tem mais ninguém no mundo, bem sabes.

— É verdade... Eu, compreendes, não tenho coragem de oferecer-lhe a minha casa, nem ela havia de querer.

Paulo não contestou.

— Enfim, sempre posso fazer alguma coisa... A questão é saber se ela aceita.

— Por que não? Não és filha?

— Talvez tenha escrúpulos: dinheiro mal ganho.

— Qual! histórias.

— Mamãe!? Tu não a conheces.

Levantou-se e, contendo um bocejo, perguntou:

— Queres ver o meu quarto?

— Vamos.

Ela caminhou direito às portas, abriu-as de par em par e afastou-se dando passagem ao irmão que parecia embaraçado, tímido.

— Entra. Tens vergonha? - perguntou sorrindo. - É um quarto como outro qualquer.

O tapete, alto e fofo, abafava maciamente os passos. A cama estendia-se sob um baldaquino de cujo fundo, dum amarelo de ouro, irradiando em pregas, pendiam sanefas e pesadas dobras de um pano de seda púrpura. Os móveis lampejavam lustrosos, com altos espelhos que refletiam, afundavam o aposento. As paredes eram ramilhetadas de ouro.

Um perfume cálido errava na ar. Havia no silêncio um quê de sedução, um convite misterioso: era o ambiente lascivo que sugeria e vergava ao amor. Paulo não se atrevia a avançar - olhava tolhido, perturbado, sentindo o prestígio inelutável da mulher, a influência poderosa da carne como se ali não estivesse a irmã, mas uma mercenária que o fosse arrastando, vencido, para a amor lúbrico que todo aquele interior aconchegado e discreto insinuava.

Violante abriu o guarda-vestidos - evolou-se uma bafagem aromal em que havia o perfume alucinante da carne e ele viu a policromia das sedas que escorriam dos cabides em saias esguias, plumagens ondulantes, nuvens de rendas. Abriu um cofre, mostrou-lhe as jóias, umas em escrínios, outras soltas.

No psichê ainda rolavam anéis, grampos e numa concha de nácar rebrilhava um escaravelho cravejado de rubis e uma grande pérola piramidal alvejando na encarna dum broche.

Ele olhava, mas a atenção fugia-lhe para o corpo lânguido, flexuoso, cujas formas desenhavam-se sob as rendas do frouxo penteador. Recuou, sentia-se abalado, começava a fraquear diante da mulher. Respirou largamente caminhando para a sala, como a fugir:

— Sim, senhora. - Logo pensou no homem e, com os olhos incendiados, perguntou numa voz presa em que havia desejo: E ele?

— Ele!... É uma excelente criatura. Muito delicado, quer-me muito. Dá-me tudo quanto quero, faz-me todas as vontades. É como um pai. Tem ciúme, mas isto é mal de todos. Não há remédio senão aturar um pouco. Vivo aqui como vês. Pouco saio. É lendo, dormindo, conversando.

— E já apareceste na Rua da Ouvidor?

— Eu? Quantas vezes!

— Então?

— Então, quê?

— Não encontraste conhecidos?

Ela deu d'ombros.

— Já te disse que não os vejo. Quero que não me aborreçam.

Deixou-se cair em um dos divãs, em derreado abandono. Paulo contemplava-a. Parecia-lhe outra - não era a mesma Violante. Se perdera aquela graça leve e arisca da donzela, ganhara beleza mais empolgante, o olhar tornara-se mais quente, a boca mais sangüínea, as faces mais coradas: desabrochara soberba.

Se ela o fitava sentia-se acanhado, o sangue subia-lhe ao rosto incendiando-o.

— Senta-te.

— Não. Vim apenas ver-te.

— Já vais?

— Tenho que fazer.

— Onde estás trabalhando agora?

— Por aí. Topo a tudo.

— Deixaste a jornal?

— Ora! Dias depois da tua saída.

— Por quê?

— Histórias...

Estendeu-lhe a mão.

— Espera, homem. Que pressa! - Levantou-se e, a correr, com um crespo ondular de rendas, foi ao quarto e voltou, momentos depois, com um envelope. - Dá isto á mamãe e dize-lhe que não seja má, que me venha ver.

— E tu, por que não vais até lá?

— Quando?

— Quanto quiseres.

— Só à noite.

— Pois sim, à noite. Hoje, por exemplo. Por que não vais hoje?

Ela pensou um momento, mordicando o lábio. Por fim disse:

— Pois sim. Hoje à noite.

— Eu previno-a para que ela não sofra um choque. Porque ainda não sabe que te encontrei.

— Ah! não?

— Não.

— Coitada!

— Às sete horas...

— Às sete, não; é muito cedo. Às oito e meia.

— Pois sim. Mas não faltes.

— Não falto.

— Então até logo.

— Até logo.

Acompanhou-o à escada. Ainda de baixo ele insistiu:

— Olha lá!

— Não falto.

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