Nos séculos XVI e XVII, o Brasil foi palco de incessantes lutas entre portugueses e franceses pelo controle desta parte da América. No Rio de Janeiro, Cabo Frio, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, enfim por toda parte, comerciando com os índios, os portugueses topavam com navios mercantes normandos e bretões, a ponto de Capistrano de Abreu afirmar que "durante anos ficou indeciso se o Brasil ficaria pertencendo aos Peró (portugueses) ou aos Mair (franceses)" (1988: 74). O historiador franco-canadense Marcel Trudel enfatiza o mesmo ponto ao dizer que, durante o século XVI, é no Brasil que se deve buscar a presença francesa no Novo Mundo (1963: 181). Além dessa atividade mercante que enriquecia cidades normandas e bretãs, o Brasil foi, como se sabe, o alvo de duas tentativas de colonização por parte dos franceses. A primeira, bem conhecida, França Antártica, na baía da Guanabara, concebida para servir de refúgio para os huguenotes, foi conquistada pelas armas portuguesas1 em 1560. Nas décadas seguintes, a costa brasileira seria paulatinamente ocupada pelos portugueses.
No início do século XVII, a França faria sua segunda tentativa de colonização no Maranhão, que a colonização portuguesa ainda não tinha atingido. Essa França Equinoxial é bem menos conhecida do que a tentativa anterior, embora tivesse um caráter mais oficial, na medida em que era apoiada diretamente pela Coroa e tenha constituído, naquele momento, o esforço colonial mais importante da França, que após sua derrota voltaria finalmente suas atenções para o norte do continente, para cuidar, depois de um século de quase total abandono, do estabelecimento de uma Nova França no Canadá.
Dessa onipresença francesa em nossas costas, nesse período, restaram duas imagens. A primeira delas, alimentada pelo registro oficial português, é a de corsários. No decorrer das discussões diplomáticas ocasionadas pela presença francesa no Brasil, François reforçaria2 uma nova concepção dos direitos territoriais europeus sobre o Novo Mundo, baseada na ocupação efetiva e não em direitos concedidos pelo Papa. Apoiados no direito de ocupação, François e seus sucessores promoveriam a instalação de súditos franceses em regiões ainda não “ocupadas por príncipes cristãos”, como aconteceria no Rio de Janeiro, no Maranhão e, mais tarde, na América do Norte, nos vales do São Lourenço e do Mississippi (cf. Julien, 1976). Tais atitudes já os tornavam insuportavelmente insolentes aos olhos dos portugueses, mas os franceses não paravam por aí: diz o registro que, além disso, praticavam, contra os legítimos donos da terra, atos tão selvagens quanto os de seus aliados, ignorando as mais elementares regras da guerra entre povos civilizados. Os documentos portugueses chamam a atenção para a facilidade com que os franceses se instalavam nas aldeias de seus aliados, onde acabavam tornando-se tão selvagens quanto estes. Lá constituíam família, andavam uns, pintavam-se para a guerra como seus anfitriões, faziam guerra com eles e a seu modo e, mais grave, eram acusados de, como eles, comer os inimigos. Nos relatos portugueses, a antropofagia, que era marca da selvageria entre os selvagens, aparece, assim, como cúmulo da selvagização dos franceses. E mesmo os franceses que não viviam à moda selvagem costumavam, dizia-se, dar a seus aliados indígenas prisioneiros cristãos para serem comidos.
Essa profunda selvagização dos franceses e a intimidade com os indígenas que supunha eram reconhecidas, já na época, como indispensáveis para o sucesso – evidente – do comércio entre a França e o Brasil. Nos documentos e na historiografia, ficou pairando uma impressão, vaga demais para ser qualificada de imagem, de um relacionamento melhor dos franceses com os povos indígenas quando comparados aos portugueses. Impressão positiva que a qualidade dos relatos deixados por franceses sobre os indígenas da costa brasileira viria reforçar.
Aquilo que parece ser reconhecido como característico dos franceses em relação aos povos indígenas encontra-se, por exemplo, nas cartas de José de Anchieta. Mais próximos dos índios, franceses são encontrados nas aldeias, onde desempenham o papel de conselheiros dos chefes (Anchieta, 1988: 217), instigadores e participantes das guerras indígenas, parentes (Anchieta, 1988: 215). Completamente adaptados aos modos indígenas, parecem ter perdido qualquer traço de sua origem européia: “vivem conforme aos Índios, comendo, bebendo, bailando e cantando com eles, pintando-se com suas tintas pretas e vermelhas, adornando-se com as penas dos pássaros, andando nus às vezes, só com uns calções, e finalmente matando contrários, segundo o rito dos mesmos Índios, e tomando nomes novos como eles, de maneira que não lhes falta mais que comer carne humana, que no mais sua vida é corruptíssima, e com isto e com lhes dar todo gênero de armas, incitando-os sempre que nos façam guerra e ajudando-os nela, o são ainda péssimos”, escrevia Anchieta em 1565 (1988: 219).
As referências à participação e auxílio franceses nas guerras são constantes: forneciam aos índios espadas e armas de fogo (Anchieta, 1988: 209, 313), pólvora, barcos (Anchieta, 1988: 240), instruções para sua utilização e participação ativa (Anchieta, 1988: 246). Ainda mais importante do que essa proximidade e envolvimento, a fidelidade que as cartas jesuíticas atribuem aos franceses em relação a suas alianças com os povos indígenas os contrapõe aos portugueses: em 1584, Anchieta escrevia que os Tamoios de Cabo Frio e do Rio de Janeiro, tendo já sofrido maus tratos por parte dos portugueses (violências, traições e escravização), acolheram bem aos “Franceses, dos quais nenhum agravo receberam” (1988: 319).
Na historiografia, é comum encontrar menção a uma “preferência” dos índios pelos franceses, que ameaça a empresa colonial portuguesa “nas terras brasílicas, conciliando as simpatias dos naturais, que os agasalhariam com maior carinho, poupar-lhes-iam traições e aleives, dariam preferência nos carregamentos e se habituariam às mercadorias francesas” (Abreu, 1988:73). Se os franceses se adaptavam tão bem aos usos e costumes indígenas, segundo Anchieta, que só faltava tornarem-se antropófagos, em Capistrano eles aparecem, definitivamente, como canibais: "aventureiros conhecedores da língua geral", os franceses estavam "identificados aos índios a ponto de lhes não repugnar a iguaria da carne humana" (1988:92). No mais, os fatos são os mesmos: metidos com os índios da costa por toda parte, os franceses os incitavam e auxiliavam na guerra (Abreu, 1988: 102 ss), casavam-se com suas mulheres (Abreu, 1988: 103).
Não que inexistissem portugueses familiarizados com a língua e costumes dos índios ou a eles ligados por laços de família. Havia muitos, e foram de inestimável auxílio ao longo de toda a colonização. Mas, aparentemente, a diferença estaria na residência: os portugueses costumavam levar suas mulheres índias para viver com eles nos povoados portugueses, e houve casos de guerras deflagradas pela fuga de casais mistos de aldeias indígenas, encarada, pelos índios, como uma traição. Enquanto isso, muitos franceses iam para as aldeias, e nelas permaneciam, mesmo quando poderiam ter ido viver nos fortes ou povoações construídos por seus compatriotas.
Mais “hábeis” do que os portugueses para fazerem-se aceitar entre os Tupi, diz Trudel, os franceses viviam com os índios, e se, continua o autor, estes nunca perdiam a ocasião de devorar os portugueses, a condição de francês era um salvo-conduto garantido (1963: 180). Fato que, diga-se de passagem, permitiu a Hans Staden escapar do moquém tupinambá... Por uma razão ou por outra, delineia-se um francês mais aberto do que os outros colonizadores, mais inclinado à convivência diária com os índios ou pelo menos mais condescendente. Oscilante e fragmentária como a própria experiência colonial francesa na América, paira uma imagem de bom francês.
Mas não foi apenas no Brasil que os franceses deixaram essa imagem de bons parceiros comerciais, mais próximos de seus aliados indígenas e mais respeitosos para com eles. No outro extremo da América, na Nova-França, a imagem é exatamente a mesma. Numa tradição já longa e rica de estudos consagrados à presença francesa na América do Norte, vários especialistas afirmam uma especificidade positiva dos franceses quando comparados a ingleses e espanhóis. Afirmam nos franceses mais simpatia e respeito em relação aos ameríndios seus aliados, relações mais estreitas e mais “igualitárias”, enfatizam a ausência de escravidão indígena e o especial cuidado com a manutenção das alianças.
Essa idéia, que se convencionou chamar de tese do génie français, reconhece como origem o historiador norte-americano Francis Parkman, que afirmara, categoricamente, em 1867: “A civilização espanhola esmagou o índio; a civilização inglesa desprezou-o e abandonouo; a civilização francesa adotou-o e amou-o”.
Os fatos relatados, assim como os comentários, fazem eco ao que se viu no Brasil: vida selvagem, domínio das línguas e culturas, adoção de técnicas e hábitos indígenas, participação direta nas guerras. E também descrições consideradas mais ricas do que as dos ingleses no tocante aos povos ameríndios, e menos preconceituosas. As referências ao sucesso comercial dos franceses, que se encontravam nas fontes portuguesas, agora se encontram em documentos ingleses.
Assim, The American Gazetteer, publicado em Londres em 1762, declarava: “os franceses descobriram algum segredo de conquistar o afeto dos selvagens, que nossos comerciantes parecem ignorar, ou pelo menos não se preocupam em colocá-lo em prática” (apud Eccles, 1987: 87). A mesma constatação seria feita por um inglês em 1765, que considerava seus compatriotas “muito pouco hábeis” em suas relações com os índios: “devido ao comportamento de todos os súditos franceses, sejam oficiais, agentes ou comerciantes, os índios irão bem mais longe para comprar seus bens e pagarão bem mais caro por eles” (apud Eccles, 1987: 88). W. J. Eccles, a quem devemos essas referências importantes, é um dos expoentes da tese do génie français; comentando tais documentos, este autor afirma que “a maior parte dos fatos indica claramente que, não havendo desvantagens, os índios preferiam comerciar com os franceses” (1987: 189). Como ele, M. Wade fala (1969: 67) de uma “tendência francesa de se adaptar aos modos dos nativos”, de uma “ausência de preconceito racial que seria um dos grandes trunfos dos franceses na América do Norte” (idem: 68) e de alianças “firmes e duradouras” entre franceses e ameríndios. Afirmações desse tipo se multiplicam na historiografia.
Diante delas, Jaenen, outro grande especialista da colonização francesa da América do Norte invoca o bom senso: não existe colonizador “bom”, todos os europeus buscavam na América o seu próprio lucro e essa aparente simpatia dos franceses não passa, na verdade, de uma tática para atingir esse objetivo comum a todos.
De qualquer modo, os franceses exibem uma série de técnicas que lhes são particulares. Entre elas, a instituição dos intérpretes – truchements – ocupa um lugar central, tanto no Brasil quanto no Canadá. Sabe-se que os franceses costumavam deixar jovens marujos ou rapazes recrutados na França, especialmente com esse propósito, nas aldeias de seus aliados ameríndios, que por sua vez lhes entregavam alguns de seus jovens, para que fossem conduzidos à França, onde poderiam ver o mundo de que lhe falavam. Os intérpretes permaneciam nas aldeias durante anos, aprendiam a língua e os costumes de seus anfitriões e se “indianizavam”.
O caráter central e indispensável de seu papel para o sucesso do comércio franco-ameríndio é reconhecido por todos os autores que se consagram a essa questão. Em 1541, Cartier deixara em Achelacy (no vale do rio St. Laurent) dois rapazes que seriam futuros intérpretes, “inaugurando, diz M. Trudel, o sistema que seria o do século XVII” (1963: 150).
Tal sistema já havia, contudo, sido “inaugurado” pelos franceses, na América, no início do século XVI, nas costas brasileiras, como bem mostra O. P. Dickason (1984). Na França Antártica, os intérpretes entram em conflito com Villegagnon, e permanecem entre os tupinambá após a derrota deste, lutando contra os portugueses. A França Equinoxial nasce e toma forma graças às informações e conhecimentos de um intérprete.
Os intérpretes (ou línguas, como se dizia em português) participam ativamente de todas as atividades que parecem singularizar os franceses: o intercâmbio de pessoas, a prática da aliança e do comércio segundo o protocolo indígena, o profundo conhecimento das culturas indígenas, o envolvimento direto na vida cotidiana e na guerra.
Os intérpretes eram trocados, como foi mencionado, por jovens dos grupos aliados que eram levados à França, com o propósito simétrico de aprender a língua e a cultura. Cabe lembrar aqui que estes, após terem sido recebidos na corte com toda pompa e circunstância, eram trazidos de volta, a não ser que morressem antes disso. As exceções, isto é, casos em que os franceses, como seus congêneres europeus, levavam indígenas para a Europa à força, como curiosidades e/ou escravos, são, justamente, consideradas como exceções. O. P. Dickason (1984), por exemplo, registra sua surpresa diante do fato de Cartier ter sido capaz de agir desse modo, logo ele, que tendo já estado no Brasil, deveria ter aprendido as “lições brasileiras”. Os exemplos citados mostram que atos desse tipo, “agravos”, como diria Anchieta, costumeiramente cometidos por europeus de outras nacionalidades, são chamados a explicar a surpreendente preferência dos indígenas pelos franceses.
A prática da aliança segundo o protocolo indígena, que os franceses respeitavam, supunha a realização de longos e complexos rituais, sem os quais o comércio propriamente dito não podia ser praticado. Porque aliança e comércio eram indissociáveis na América, este exigia a participação ativa nas guerras indígenas, que confirmava aquela. Os franceses lutaram ao lado dos Tupinambá contra seus inimigos, portugueses ou indígenas. No Canadá, engrossavam igualmente as fileiras dos povos aliados contra os inimigos, sobretudo Iroqueses. Uma diferença notada, inclusive, pelos Mohawk, um dos principais inimigos iroqueses dos franceses e seus aliados, que, em 1659, reclamavam dos holandeses por não lhes darem soldados para lutar junto com eles, ao contrário do que faziam os franceses em relação a seus aliados (cf. Trigger, 1986: 311).
A reputação francesa nem sempre foi tão positiva na América. Nos pontos em que sua imagem é negativa, percebe-se que eles justamente não puseram em prática ou desrespeitaram abertamente esses princípios comprovados de convivência amigável. Na Flórida, romperam alianças antes mesmo de tê-las confirmado; nas Antilhas, simplesmente não houve aliança, já que os povos indígenas foram aniquilados.
A boa reputação que une o Brasil e o Canadá está certamente relacionada a uma característica, fundamental e comum a ambas as experiências. Trata-se de relações baseadas no comércio, um comércio que depende do conhecimento e do auxílio efetivo dos habitantes da terra (que recolhiam a matéria-prima de exportação em ambos os casos). Da cooperação e boa vontade destes dependia o sucesso da empresa comercial que fundamentava a presença francesa. Nesse sentido, vários autores chamam a atenção para a inevitabilidade da aliança.
Afirmam, assim, que os franceses não tinham escolha: ou se aliavam ou não comerciavam. Já foi suficientemente demonstrado que o comércio de fato favorece as relações pacíficas e amigáveis entre europeus e indígenas, ao passo que a instalação de grandes plantações, exigindo terras e mão-de-obra escrava, tenderia, inevitavelmente, a torná-las conflituosas. Durante a primeira metade do século XVI, chamada era do escambo, os portugueses praticavam o mesmo tipo de comércio que seus concorrentes franceses, marcado igualmente pelo bom entendimento com os povos indígenas.
A imagem do colonizador fraternal permanece, contudo, colada aos franceses, nos dois extremos da América. Mestres da diplomacia indígena, profundos conhecedores das línguas e culturas ameríndias, capazes de compreendê-las e respeitá-las, e não-praticantes da escravização dos índios, deixaram boas lembranças.
Se o comércio é parte importante da explicação desse fenômeno, ao que se poderia acrescentar o fato de os franceses serem o colonizador que deixou de ser, o que certamente favorece sua mitificação, em contraposição aos “maus” colonizadores que ficaram (portugueses e ingleses), o “mistério” persiste. Se são os próprios franceses os grandes propagandistas do mito, o fato é que seus concorrentes confirmavam-no, e a historiografia recuperou-o. Para praticar o mesmo tipo de comércio que outros europeus na América, os franceses utilizavam técnicas próprias e que teriam até mesmo sido copiadas por comerciantes de outras nacionalidades, dado seu evidente sucesso junto às populações indígenas.7 Dizia-se que eles detinham um segredo, o de atrair a amizade dos índios.
Diz-se atualmente que foram os primeiros a compreender que o sucesso do comércio, e, conseqüentemente, o lucro, dependia do conhecimento profundo dos parceiros, e de sua aliança política. Fato ou boato, existe um mito do bom francês e este tem efeitos reais sobre o modo como se concebem hoje determinados capítulos da história da colonização da América. Segredo ou esperteza, a “simpatia” que Lescarbot qualificava de “natural”, entre franceses e ameríndios, merece ser olhada mais de perto.
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Fonte: www.iea.usp.br
A presença francesa em Pelotas
A imigração francesa foi de grande importância na região do município de Pelotas, pois deu contribuição inestimável ao seu de-senvolvimento. Na zona rural, através das plantações de uvas e fabricação de vinhos e na zona urbana com o desempenho principalmente no comércio, educação e cultura, sempre com grande benefício à cidade.
A presença francesa em Pelotas é antiga e deu-se inicialmente com a passagem de viajantes que não se fixaram aqui, como no caso de Auguste de Saint-Hilaire (1820), Arsène Isabelle (1834) e Conde d’Eu (1865), que deixaram suas observações, ou profissionais liberais como o engenheiro Gregório Howyan, com o projeto de saneamento para Pelotas, e os arquitetos Dominique Pineau e Dominique Villard, responsáveis pela construção do prédio da Escola Eliseu Maciel.
Saint-Hilaire, que visitou Pelotas em setembro de 1820, nos fala de dois franceses que aqui viviam: um era cirurgião e o outro era professor; talvez sejam os primeiros franceses em solo pelotense (SAINT-HILAIRE,1987; p.82). Com a visita de Conde d’Eu, se cogitou pela primeira vez a idéia de estabelecer na região de Pelotas uma colônia de franceses, o que irá ocorrer pela iniciativa privada em 1880 (LEÓN,1994; p.206).
Houve também os que por imigração espontânea se fixaram na cidade ou no campo: os citadinos tiveram talvez maior influência porque estavam mais perto das decisões e das áreas de convivência social, como foi o caso dos franceses Leopoldo Jouclá, um dos diretores do Clube Comercial e por muitos anos agente consular francês; Ambrósio Perret, introdutor de um viveiro de plantas e árvores frutíferas vendidas para várias regiões do Rio Grande do Sul e do Brasil (BEAUX,1976; p.86); Alexandre Gastaud, responsável pela instalação da energia elétrica na Santa Casa de Misericórdia em Pelotas (BEAUX, 1976; p.50); e o dentista Amadeu Gastal, pioneiro no fabrico de compotas de pêssego e no plantio de eucaliptos, iniciado por ele em 1876 (BEAUX, 1976; p.99); podemos citar ainda um nome (que lembra ser de origem francesa) do fotógrafo Baptiste Lhullier que já trabalhava em Pelotas em 1875.
Famílias abastadas de Pelotas mandavam vir da França professores para os filhos, entre eles: Charles Bachelléry que fundou um dos colégios mais famosos de Pelotas e do Rio Grande do Sul onde se fazia até exercício de tiro (BEAUX, 1976; p.53); Afonso Emílio Massot e Luís Carlos Massot que em 1886 fundam o colégio Evolução fechado em 1893 com a guerra civil, Aristides Guidony que fundou o colégio Francês com aulas de esgrima, ginástica e dança1; Berta Jeaneret com um colégio para meninas; e Carlos André Laquintinie que, entre outros, ministravam nas residências aulas particulares, lecionando as primeiras letras, gramática, aritmética, geografia, história, matemática, latim, francês, artes, bordados, croché, piano, pintura, boas maneiras e caligrafia. Trazer professores franceses para ensinar aos filhos da terra nos indica que a cultura francesa era bem aceita entre as famílias pelotenses.
E mesmo os estrangeiros que se fixaram no campo não ficaram totalmente isolados pois devido à proximidade com a cidade podiam fazer uma pequena atividade mercantil, onde também vinham buscar gêneros que não podiam produzir na colônia como tecidos e açúcar.
Segundo Klaus Becker, Pelotas, que no século XIX retomou seu crescimento após a Revolução Farroupilha, recebeu bom número de franceses a partir de 1843 (BECKER,1956; p.322-324). Estes franceses, segundo Fernando Osório, teriam fundado a primeira loja maçônica que se organizou nesta cidade, aparecendo aqui mais um lugar de atuação dos franceses em Pelotas (OSÓRIO,1962; p.191).
Entre estes franceses, chegados a partir de 1844, poucos requereram naturalização brasileira, como podemos conferir no livro de Registro de Naturalização de Estrangeiros da Câmara de Pelotas, que hoje está no Museu da Biblioteca Pública em Pelotas. E mesmo com a grande naturalização que ocorreu com a proclamação da República em 1889, muitos estrangeiros se fizeram registrar dizendo não aceitar a naturalização, havendo um livro próprio para tal fim, também hoje encontrado no Museu da Biblioteca Pública Pelotense.
Em 1875, segundo dados da Repartição das Terras Públicas, somam-se 648 colonos franceses na Província (BEAUX,1976; p. 86). A presença de franceses antes de 1874, data de sua entrada como colonos, era feita de caráter espontâneo e geralmente buscavam habitar as vilas porque eram em sua maioria professores, artistas e comerciantes. E Pelotas, com certeza, estava entre as cidades mais procuradas pelos imigrantes, primeiro por ser um dos maiores núcleos urbanos e também por ser uma cidade onde a cultura européia era marcante, onde havia muitas inovações que, comparadas com outras cidades da Província, demonstravam seu desenvolvimento e modernização. Entre estes acréscimos estavam a iluminação a gás, as linhas de Bonde, o serviço de águas e esgotos com a vinda de chafarizes franceses em 1873, o calçamento das ruas centrais, a desobstrução do canal de São Gonçalo permitindo o ingresso de navios maiores em nosso porto. O historiador Mario Osorio Magalhães, conta-nos que Pelotas se autodenominava 'Princesa do Sul' considerando-se diferente em meio a campanha e "(...) não era só para os pelotenses que Pelotas se afigurava a 'Princesa dos campos do Sul' (...) chamava a atenção da Província e para a Província" (MAGALHÃES,1993; p.106).
Nosso município abriga a única colônia francesa existente no Rio Grande do Sul, este fato torna a colônia de Santo Antônio, no distrito do Quilombo, um rico exemplar desta colonização no Estado e também um recanto peculiar para a história da imigração gaúcha. As famílias francesas foram a base para a origem de quatro núcleos coloniais (GRANDO,1986; p.103) na Província do Rio Grande do Sul, porém apenas em Santo Antônio um núcleo com franceses encontrou condições de se reproduzir e se manter economicamente.
Nos outros núcleos, os franceses, não encontrando um apoio muito forte por parte do governo, tiveram de lutar muitas vezes sozinhos para sobreviver e em pouco tempo acabaram sendo envolvidos por uma massa ítalo-germânica que dominou as correntes imigratórias na Província. Estes núcleos foram as colônias de Conde d'Eu e Isabel em 1870, chegando 48 franceses em 1872, segundo uma declaração do secretário da Intendência Municipal de Bento Gonçalves, (SPALDING,1956; p.175-206). Ainda segundo Spalding, soubemos que sua presença foi percebida num terceiro núcleo, no município de Montenegro (BEAUX,1976; p.51).
Em 1857 foi criada a colônia de São Feliciano, atual município de Dom Feliciano, mas que só passou a receber imigrantes em 1873 quando o agrimensor e diretor da colônia Auguste Napoléon de Saint Brisson terminou a medição dos lotes. Os colonos para lá enviados eram extremamente pobres e o diretor auxiliou-os com o próprio dinheiro.
Esta colônia, quarto e último núcleo de franceses na Província, não era uma colônia somente de franceses, havia outras nacionalidades. Mas ela passou a atrair quase todos os colonos franceses chegados na Província, onde se mantiveram mais isolados e evitaram a miscigenação com outros colonos como ocorreu nos outros núcleos. Resistiram por mais tempo, até abandonarem-na para fundarem uma colônia de iniciativa privada, chamada Santo Antônio, no município de Pelotas, o nosso principal objetivo.
No ano de 1877, um equívoco administrativo entre a Província e o Império dá por extinta a colônia de São Feliciano. Pelo quadro vemos que os franceses começam a abandonar São Feliciano, enquanto os que ficam não ganham mais nenhum apoio do governo.
Habitantes
da Colônia São Feliciano |
Ano
1874 |
Ano
1876 |
Ano
1878 |
Ano
1881 |
Moradores
Franceses |
80 |
147 |
96 |
40 |
População
total |
84 |
167 |
165 |
188 |
Em 1881, a Província volta a inteirar-se de São Feliciano, contratando o barão Von Kalden, para examinar se era viável manter a colonização naquele lugar (RELATÓRIO, 1881). O Barão encontra uma colônia isolada no mato, em completa estagnação, não existindo casa de comércio, moinho ou ferraria.
Os moradores habitam ranchos de capim, as picadas do interior da colônia são veredas estreitas, em que mal passam um cavalo, não há potreiros (terras cercadas para pastagens) e nem vacas de leite. Dos 159 lotes provinciais, 54 estavam ocupados e 105 estão disponíveis, sendo que 87 nem chegaram a ser distribuídos. Kalden conclui, em seu relatório de 1881, que a terra é de boa qualidade, própria para agricultura e em quantidade suficiente para ser colônia. Mas a colônia deve receber algumas melhorias para se desenvolver, o que irá acontecer quando da chegada em 1890 de colonos poloneses custeados pelo governo. Em 1894, não há mais nenhum francês na colônia de São Feliciano (TWORKOWSKI,1984; p.12).
A Colônia Francesa de Santo Antônio
Em fins de 1879, os franceses de São Feliciano buscavam novos lugares para morar. Sabe-se de um documento onde há uma relação de colonos que querem comprar terras em outras colônias.2 Eles saíram em busca deste lugar e a região de Pelotas parecia atraente. Entraram em contato com um comerciante atacadista de nome João Antônio Pinheiro, que havia comprado umas terras na Serra dos Tapes, antigas doações feitas a Francisco Gouveia da Silva em 1818. Nesta data de terras que comprou, e que perfaziam inicialmente 2.500 hectares, o tenente coronel Pinheiro, depois de negociar com os franceses, organizou um núcleo agrícola.
João Antônio Pinheiro (nascido em 19/09/1837; em Piratini) se empregou ainda jovem na casa comercial de Lázaro Soares Viana, pai de Joaquina das Chagas Soares com quem veio a casar mais tarde e de quem teve um único filho: Augusto Leão Pinheiro (nascido 11/04/1863; em Piratini).
Pinheiro (nascido 11/04/1863; em Piratini). Em 1874, a família vem para Pelotas onde teria mais condições de dar melhores estudos para o filho que depois exerceu atividade no comércio fundado por seu pai em Pelotas. Esse comércio era inicialmente apenas de materiais de construção, mas depois foi aumentado com um depósito de ferros importados da Europa.
Entre 1885 e 1886, pai e filho se alistam no partido de propaganda republicana de Pelotas, sendo sócios fundadores do Clube 20 de Setembro. João Pinheiro, assim como seu filho, foi membro de várias associações como a Santa Casa de Misericórdia e a Associação Theatro Sete de Abril.
Após ter fundado a colônia que posteriormente os franceses chamaram de Santo Antônio, Pinheiro fundou outra colônia em terras próximas a Estação Rio Negro; fundou a Quinta Aliança, que era uma granja em Pelotas para a exploração da viticultura; criava gado em Bagé e São Lourenço. Em 1886, empreendeu outra colônia, desta vez em Mato Grosso, e para lá mandou os primeiros gaúchos, mas não obteve êxito, devido a problemas com a burocracia governamental. Também tentou explorar uma mina de cobre, no município de Lavras, mas os gastos eram muitos e causavam prejuízos.
João Pinheiro vendeu os primeiros lotes por 800$000 réis, para serem pagos com ótimos prazos. Adiantou dinheiro aos colonos lhes proporcionando ajuda para os primeiros tempos. Tornou-se amigo dos colonos e de muitos se tornou 'compadre'. A escola que existe na colônia de Santo Antônio, hoje infelizmente desativada pela Prefeitura porque dizem não ter crianças suficiente para poder funcionar, tem o nome da primeira esposa do fundador, chama-se Escola Joaquina Soares Pinheiro e foi construída depois da Festa do cinqüentenário em 1930, graças a união dos colonos, que doaram o terreno para isso.
Aspectos de sua estrutura
Até 1886, novos lotes foram sendo incorporados ao núcleo francês inicial, desta vez juntando-se os seguintes alemães: Hannemann, Konrad, Mielke, Reinhardt, Mohnsan, Milach, Schiller, Schubert, Klug, Berg, Felbilac, Ulrich, Ehlert, Ketz, Erbitch, Gueiritch, Tessmann, Bernt e Lange. Também algumas famílias italianas: Ferrari, Peverada, Larroque, Cazari, Romano e Bachini. E uma família de moradores das Ilhas Canárias: Postigos. Ainda soubemos de outras famílias francesas, suíças e italianas que teriam passado pela colônia mas que não se fixaram, entre elas algumas também vindas de São Feliciano: Eugênio Vannuer (francês), Augusto Cousie (francês), Emílio Cousin ou Chosen (francês), José Rosso, italiano nascido em 1839, viúvo de Ana Francisca Duranda. Mudaram-se para a colônia Maciel ainda no início da colônia francesa, João Rosso (italiano), Domenico Duranda (italiano) e Clemente e José Zurschmitten (suíços).
Segundo Ullrich a colônia de Santo Antônio estava localizada entre os arroios Quilombo, Andradas e Pelotas, até a encosta dos Três Serros. Conta Ullrich que o local era de mata virgem quando os franceses chegaram, e estes foram abrindo a mata e fazendo suas plantações (ULLRICH,1984; p.57-74).
Originalmente, a colônia foi dividida em 3 seções: 2 para franceses e 1 para alemães, mas que depois foi desaparecendo porque colonos de outras nacionalidades foram comprando as terras, o que também alterou hábitos e costumes locais, igualando a colônia de Santo Antônio às outras colônias da região.
Na parte francesa há duas picadas: a dos Andradas e a francesa. Em 1897 a picada dos Andradas continha 19 lares com 100 moradores aproximadamente. Lá moravam, entre outras, as seguintes famílias3: Charnaud: François Charles Charnaud, vindo da França com a esposa Amelie Josephine Renault, viveu na colônia Santo Antônio e decidiu voltar para a França.
Quando estavam no Rio de Janeiro para embarcar, a esposa morreu com febre amarela e François resolveu retornar para a colônia em Pelotas onde casou em segundas núpcias com Fanie Bernard, natural dos Hautes Alpes na França de onde veio com a irmã Marie Bernard casada com Pierre Escallier. François e Fanie tiveram os filhos: Maria Agostinha, Luiz Romeu e Alfredo.
Magallon: Auguste François Magallon casou em São Feliciano com Marie Françoise Colomby e eram proprietários de 22 hectares. Tiveram uma menina falecida em São Feliciano, Cecília Emabelie, Maria Agostinha, Augusto (que herdou as terras do pai, do sogro e adquiriu outras totalizando 65 hectares), Maria Luiza e Leontina.
Conte: Jean Conte, nascido na Itália, mas considerado imigrante da França, veio para o Brasil com pelo menos um irmão. Casou em São Feliciano com Josephine Isabelle Gerard vindo para Pelotas onde tiveram os filhos: Luiz falecido criança e duas filhas casadas: Sophia com Augusto Magallon e Maria Francisca com Francisco Ney.
Ney: Victor Ney casou em Camaquã com Alexandrine Colomby. É provável que Vitor Ney tenha vindo solteiro para o Brasil, sabe-se que deixou um irmão que era militar na França. Foram pro-prietários de 40 hectares em Santo Antônio. Tiveram os filhos: Francisco, Alexandrina, Luiz, Vergínio, Eugênia casada com o italiano Nicolau Larroque Filho, Augusto, Maria casada com um alemão, Victor Francisco e José casado com Angelina Colomby.
Gerard: Saturnen Gerard, italiano, viúvo de Sophia Mési, veio para o Brasil com três filhas: Josephina Isabelle, Maria Agatha e Angelina, pelo menos duas eram casadas. Saturnen era um leigo que às vezes fazia a encomendação de corpos nos enterros pois não havia padres na colônia, e somente Saturnen sabia rezar em latim.
Tourin: Isidore Tourin, francês, adquiriu 6 hectares de terras na colônia, depois desta já ter alguns anos de formada, mas acabou vendendo as terras ao antigo dono e ainda solteiro retornou a França logo após terminada a Primeira Guerra Mundial. Segundo Lino Ribes, um morador na Colônia francesa, ele ainda escreveu algumas vezes para os franceses em Santo Antônio.
Colomby: Joseph François Andre Colomby casado na França com Marie Angelique Thoby, emigraram pelo porto do Havre em 1873, sendo um dos primeiros a chegarem em São Feliciano. Tiveram os filhos: Marie Françoise casada com Auguste Magallon, Louis Alexandre casado com Angeline Gerard, Alexandrine casada com Victor Ney, Augusta casada com Bichet, Louis Theóphilo casado com uma brasileira, Marie Angelea e Andre Thomaz.
Bichet: Claude François Bichet, natural do departamento de Doubs na França, casou em Camaquã com Augusta Colomby, moraram em Santo Antônio, mas mudaram-se em 1899 para a Colônia Maciel. Tiveram os filhos: Luiz, Eduardo, Luiza casada com o francês Emílio Guiot que também moraram algum tempo em Santo Antônio; Eloy; Ernesto; Josephina casada com o italiano Ricardo Aldrighi; Julia e Izolina.
Lahut: Emile Lahut ou Lahude casou na França com Cezarine Beauvalet, provavelmente uma irmã de Arthur Beauvalet. Lahut era proprietário de 32 hectares em Santo Antônio e aqui chegou com os filhos: Jean, Amelie e Marguerite. Ainda não nos foi possível rastrear seus paradeiros, sabe-se apenas que saíram ainda no início da colônia.
Beauvalet: Arthur Achilles Beauvalet, casado na França com Louise, tudo indica que não passaram por São Feliciano pois em 1873 já viviam em Pelotas.
Sendo jardineiro, Achilles fez um bom trabalho de embelezamento da praça da cidade (hoje Praça Coronel Pedro Osório). Costumava comentar que fez um trabalho onde ninguém mais poderia ter feito, provavelmente dizia isso porque o vão central onde hoje é a praça era um local muito alagadiço e intransitável. Os Beauvalet possuíam 36 hectares na colônia Santo Antônio e para cá vieram trazendo os filhos: Blanche, Edouard e Ernesto que trabalhou como jardineiro na Quinta de Ambrósio Perret.
Bétemps: Jean François Bétemps, natural da Savóia italiana, viúvo de Marie Monique Claudine Claupe-Vevey, veio para o Brasil na companhia dos filhos: Melanie; Alexis, casado com uma catarinense, esteve por vários anos morando na Argentina antes de vir para o Brasil; Jermain; Felix, casado em São José do Patrocínio com Maria Francesca Fiou, mudaram-se para Pelotas em 1881, fabricava vinho e registrou sua cantina em 1924; Baptistine, Joseph; Marie; e Victor Jean, que casou com uma brasileira e moraram na cidade de Rio Grande.
Bertholon: Eram dois irmãos, Alexandre e Felix Bertholon. Chegaram da França em 1873 e vieram diretamente para Pelotas, onde trabalharam como ferreiros nas 'Três Vendas' antes de irem plantar parreiras na colônia francesa.
Faleceram solteiros e suas terras foram herdadas por Jean Capdeboscq. Raffi: Jean Raffis, ou Raffy, como ficou o nome, ao aportar no Brasil, depois de ter estado em Buenos Aires. Casou em São Feliciano com a brasileira Generosa da Silva. Em Santo Antônio, adquiriu 30 hectares onde viveu com os filhos: Flor casada com Hermenegildo Pinheiro Cardozo, e Modesto casado com Alexandrina Ney.
Lourant: Louis Lourant ou Laurent, casado com Catarine ou Cezarine Steinner, possuíam 36 hectares em Santo Antônio, aqui tiveram três filhas: Paulina casada com Pedro Bohns; Josefina casada com Augusto Frechu; e Maria casada com Mario Sacco sendo este último proprietário de uma fábrica de 'gasosa' em Pelotas. As terras de Louis Lourant foram vendidas para Modesto Raffy. Junto com Lourant morava um cunhado, Joseph Steinner ou Steinle, natural da França que faleceu solteiro e sem descendentes.
Nesta picada ainda viviam as famílias Ferrari, Cazari e Postigos. Ao norte desta picada estava localizada a fábrica de papel, propriedade dos italianos Bonnora e Piccardo. A fábrica era movida à água e foi inaugurada em 1892, mas não foi uma empresa muito duradoura, devido a desentendimentos entre os donos.
Ao sul desta picada se encontra a picada francesa, que foi a primeira a ser ocupada, e que contava em 1897 com 22 lares e cerca de 150 moradores, sendo a maioria das casas já de alvenaria com porão. Nesta picada moravam:
Carret: Louis Modest Carret casado na França com Jeanne Micheaux. Vieram para o Brasil com a primogênita, eram proprietários de 44 hectares em Santo Antônio. Tempos depois o casal voltou para a França acompanhado do filho Augusto, mas breve retornaram ao Brasil ficando por lá o Augusto que faleceu lutando na Primeira Guerra Mundial. Tiveram os filhos: Rossete; João Luis; Emílio; Augusto; e André.
Wahast: Oscar Wahast, casado com Silvie Octavie Lesarge, veio com a família em dezembro de 1880 para a colônia Santo Antônio, onde havia comprado 30 hectares. Anos depois vendeu suas terras para Augusto Pastorello e foi morar em Sanga Funda, município de Canguçu, onde contam que ambos foram assassinados durante um assalto. Tiveram os filhos: Amelie, Oscar, que fazia serviços de enfermagem e era casado com Louise Ribes; Emílio (assassinado) e Blanche que foi noiva de François Charnaud e faleceu de sarampo aos 20 anos de idade.
Martim: Jean Martim casou com Rosa Jouglard, franceses dos Alpes, vieram para São Feliciano e dali partiram entre os primeiros para Santo Antônio, chegando nesta colônia em 19 de setembro de 1880, sendo o dia seguinte considerado da fundação da colônia. Tiveram os filhos: Jean; Marius; Rosa, casada com Julio Chollet; Pedro, casado com Amelie Wahast; Leon casado com Rosete Carret; Julio; Hipolito; Adelaide, casada com um brasileiro; e Augusto, casado com Emília Pastorello.
Escallier: Pierre Escallier casado com Marie Bernard estiveram em São Feliciano e depois em Santo Antônio onde compraram 40 hectares. Vieram da França com os filhos: Jean Joseph, Elisia Paulina, Pierre; e Marie, casada com um italiano de nome Francisco Cuoco. Em São Feliciano nasceram os filhos Josefina e Julia. Na colônia Santo Antônio nasceu outro filho: Julio Pedro, que depois se mudou para o município de Canguçu.
Crochemore: Auguste Alphonse Crochemore e Rosaline Felicite Goutier vieram para o Brasil com o filho: Alphonse Elisèe Felix Crochemore, que casou três vezes e deixou vários descendentes de seu primeiro matrimônio com a francesa Elisia Paulina Escallier, sendo proprietários, inicialmente de 35 hectares, mas no ano de 1933 já possuíam 60 hectares. Seus descendentes mudaram-se para a Vila Nova, localidade do distrito do Quilombo, divisa da colônia francesa, onde tinham uma olaria.
Ribes: Auguste Antoine Ribe, que no Brasil foi acrescentado um 's' ficando 'Ribes', partiu do departamento francês de Drome com sua esposa Eugenie Rebour e seus filhos para a colônia de São Feliciano, vindo a ocupar um lote de 20 hectares em Santo Antônio, colônia para a qual seu filho Gustave havia se transferido em 1880. Vieram da França com os filhos: Gustave; Lucie Marie, casada com o suíço Joseph Zurschmiten que veio da França, com a família Ribes e depois se mudaram para o município de Canguçu: Eugenie Louise; Alcides; Louis, que comprou terras próximo ao arroio Andrade e construiu uma represa e um moinho que acionava uma famosa serraria geradora de lucros que lhe possibilitaram erguer o único sobrado da colônia francesa; Marie Hortense; Louise e Rezeda Pauline. Em São Feliciano tiveram ainda os filhos: Dedimah e Adolpho.
Gaumme: Aristin Gaumme, francês, casou-se em São Feliciano com a brasileira Maria da Silva, eram proprietários de 8 hectares em Santo Antônio. Capdeboscq: Jean Capdeboscq, natural da Bretanha, casou em São José do Patrocínio com Marie Jeanne Renard, natural da cidade de Lion. Veio para Pelotas com outros companheiros onde comprou 33 hectares em Santo Antônio. Jean criou uma Quinta onde fabricava vinho e que depois deixou para o filho Daniel indo para a cidade de Pelotas, onde fundou o Hotel Colonial. Pais de Maria Luiza, nascida em São Feliciano e Daniel, que foi subprefeito, subdelegado de polícia, juiz distrital, fabricante de vinhos, licores e compotas. E ainda os filhos: João Luiz, Amely, casada em segundas núpcias com Rodolpho Bonat e Pedro Augusto que era afilhado de Pedro Osório, ilustre figura na política pelotense.