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Inácio de Loyola

Com a publicação da bula intitulada "Regimini militantis Ecclesiae", "ao regime da igreja militante", datada de 27 de setembro de 1540, o Papa Paulo III – líder da Contra-Reforma católica - oficialmente aprovou a Companhia de Jesus.

Começava ali uma das mais fascinantes histórias de uma das tantas ordens religiosas cristãs. Seis anos antes, em 1534, nos altos da capela de Montmartre, em Paris, um pequeno grupo de estudantes universitários de origem fidalga oriundos da Ibéria, liderados por um homem bem mais maduro de nome Iñigo de Loyola, haviam jurado seguir o papa e defender a Verdadeira Fé. Formaram então o primeiro pelotão do que mais tarde veio a consagrar-se como o Exército de Cristo.

Curando os ferimentos

Inácio de Loyola
Inácio de Loyola ( 1491-1556)

Sem quase nada para ler, recolhido num catre do castelo da família em Loyola, situado na Navarra espanhola, o fidalgo Iñigo (mais tarde convertido para o nome de Inácio)tentava se recuperar dos dolorosos ferimentos que quase fizeram com que perdesse as pernas. Durante uma batalha travada em Pamplona, em 20 de maio de 1521, um petardo francês explodira bem perto dele quase lhe arrancando os membros inferiores. O estrago foi tão grave que ele não demorou a entender que suas ambições de moço da corte de Castela, de fazer carreira nas antecâmaras dos palácios, de conviver com belas mulheres e outros prazeres se encerrara para sempre. Mal completara trinta anos. Sobraram-lhe apenas dois livros à disposição, um era a "Vida Cristo", e o outro "A Legenda Áurea", sobre os santos da Igreja. Devorou-os. Leu e releu. Se bem que criado em meio católico, sua cabeça, como a maior parte dos nobres brigões, até então andava dominada pelas histórias de capa-e-espada e pelos feitos dos cavaleiros andantes. Tudo então mudou. Por mais que os médicos se esforçassem nunca conseguiram emparelhar-lhe as pernas. Ficara coxo para sempre. Isto foi determinante para que, uns tempos depois, se inclinasse pelos conventos e não mais pelos salões de dança e festa.

Abadia de Montserrat
Abadia de Montserrat

Portanto, se haveria no futuro algum caudilhismo a ser exercido seria por meio da religião e não mais pelas guerras. O crucifixo ao invés da lança. Como símbolo dessa definitiva conversão de cortesão-soldado em homem de Deus, na noite de 25 de março de 1522, entregue à meditação nos altos da abadia beneditina de Montserrat, na Catalunha, ele abandonou para sempre a sua espada e sua adaga no altar da Virgem Morena, abraçando a cruz. As roupas de nobre ele doou a um mendigo. Decidiu deixar de servir a um "rei temporal" para se por ao serviço do "rei eterno e universal". Como Jesus afastara-se para o deserto, Loyola encontrou o seu equivalente refugiando-se na gruta de Manresa, onde começou a redigir os Exercícios Espirituais. Quis então ir a Jerusalém, andar por onde Cristo andou, vestido como um simples pedinte, um peregrino em busca do Senhor.

Entre Erasmo e Lutero

A conversão de Loyola deu-se num momento dramático da história da Igreja Católica, visto que desde 1517 ela se encontrara desafiada pela insurgência de um monge alemão: Martim Lutero (1483-1546). Este, num ato de clara rebeldia, afixara 95 teses na porta da catedral de Wittemberg atacando diretamente a autoridade papal, transformando a Venda de Indulgência num grande escândalo nacional e europeu. A igreja germânica se dividiu. Somente o sul da Alemanha, o reino da Bavária, ficou ao lado de Roma, todo o restante abraçara a causa da Reforma. Desde então, para os católicos, Lutero representou o anti-Cristo, o agente sedicioso que viera ao mundo para destruir o edifício de São Pedro.

Paralelamente a isso, havia a obra de Erasmo de Roterdão(1466-1536), o grande humanista cristão que há muito tempo vinha por igual defendendo a necessidade de um reforma no corpo da igreja. Acreditava ele que o alto sacerdócio e os monges, principalmente esses, haviam desvirtuado a essência do cristianismo ao terem um comportamento bem pouco condizente com os ensinamentos de Jesus. Além disso, a atitude geral dos príncipes europeus, afastados da justiça e da paz, nada tinha em sintonia com as expectativas de um reino de Cristo na terra. Guerras, flagelações, usurpações, felonias, crimes de toda ordem, ensangüentavam os reinos e as cortes do seu tempo.

Detestava aquelas inúteis polêmicas teológicas nas quais os doutos, em escrita complicada, publicavam imensos tratados que ninguém lia e que de nada serviam a boa causa da fé, propondo como remédio o retorno às lições simples do evangelho, afinadas com a idéia de um Cristo tido como um "Rei-pastor", um "Condutor pacífico", adrede para arrancar o mundo profano dos seus desatinos e conduzi-lo ao reino dos bem aventurados. Acusaram Erasmo, devido ao seu espírito crítico e ao seu tom literário jocoso, de "ter chocado o ovo do protestantismo", mas a expectativa dele era que a necessária reforma partisse de dentro da Igreja, que fosse assumida pelo alto clero e pelos príncipes e não por um monge desconhecido, indignado e furioso (*)

Assim posto, Loyola construiu sua formação de homem de fé em meio ao embate entre as exigências de uma reforma da cristandade conduzida por uma humanista (que pregava pela paz) ou pelas mãos de um monge alemão radical (que não hesitaria em ir à guerra).

(*) Tanto assim que dois do seus ensaios mais populares são dirigidos à correção das elites: Enchiridion Militis Christiani (O Manual do Cavaleiro Cristão, de 1503) e Institutio Principis Christiani, (Instituição do Principado Cristão, de 1516) para servir de orientação ao jovem rei Carlos, mais tarde imperador Carlos V).

A Sorbone e o juramento de Montmartre

Retornando da sua peregrinação à Terra Santa, Loyola voltou com fome de leituras, de saber gramática e de dominar a literatura teológica. Quis inteirar-se dos autores latinos. Depois de uma estada na sua Espanha natal, de 1522 a 1526, onde freqüentou os bancos escolares no Estudio General de Barcelona, em Alcalá e Salamanca, marchou para Paris, para a Universidade de Sorbone, tida como grande templo da teologia, espaço reservado aos grandes mestres do pensamento cristão. Causou estranheza aquele homem maduro, marcado pela vida, um tanto soturno, estar em um meio dominado por imberbes, matriculados no College de Saint-Barbe que acolhia os latinos da Ibéria .

Uns tempos antes, em 1523, ele havia redigido os "Exercícios Espirituais", manual de auto-adestramento de um homem de fé, um roteiro a ser cumprido ao longo de um certo período para afinar as certezas e expungir as dúvidas de um crente, pequena peça de devoção que iria se tornar obrigatória na formação de todos os jesuítas no futuro e que ele insistia em que seus colegas da universidade praticassem. (*)

A capela da Nossa Senhora, à esquerda, local do juramento de Loyola(15/8/1534)
A capela da Nossa Senhora, à esquerda, local do juramento de Loyola(15/8/1534)

(*) Exercícios espirituais: os exercícios verdadeiros, que ele distingue dos exercícios físicos, dividem-se em quatro semanas, entendidos como assuntos a tratar e não segundo o número dos dias.

São assim 4 etapas, que podemos lembrar com quatro tradicionais palavras latinas (deformata, reformata, conformata e confirmata), cada qual expressando uma finalidade determinada:

Iª Semana (etapa)

"Deformata reformare", eliminar da alma as deformações causadas pelo pecado. E’ um modo de se conhecer a nós mesmos e a grave desordem criada pelo pecado em nossa vida, além do perigo de danação ao que fomos expostos! Para não cair na desconfiança, Inácio nos faz contemplar a imagem do Crucificado, morto para nos salvar da morte eterna.

IIª Semana (etapa)

"Reformata conformare". Somos convidados a nos revestir do Cristo e de sua armadura. O homem "reformado" deve "se conformar" ao Cristo: pobre como ele; ardente de amor para o Pai e os irmãos. É o tempo da "reforma" ou da opção do estado de vida: como eu, na prática, preciso seguir Cristo?

IIIª Semana (etapa)

"Conformata confirmare". Isto é, fortalecer os propósitos de adesão a Cristo,por meio da contemplação de Aquele que foi obediente até a morte na cruz. Nesta etapa nos confirmamos nas decisões tomadas.

IVª Semana (etapa)

"Confirmata transformare". "Eu não morro: entro na vida", escreveu S. Teresa de Lisieux ouço antes de morrer. A morte de Jesus na cruz coincidiu com o começo do Cristianismo. "Quem perde sua vida por causa de mim, a encontrará", diz Jesus no Evangelho. E a vida do Ressuscitado é a esperança de quem faz os Exercícios nesta etapa final.

No final, Inácio propõe uma contemplação para alcançar o Amor puro de Deus (chamada "contemplatio ad amorem"). Com o pensamento se volta à Criação e à Redenção, para descobrir como e quanto Deus nos ame! E alma, purificada pelos exercícios, fica com um único desejo que se expressa na oração: "Oh Senhor, dá-me teu amor e tua graça: isto me basta!

Não demorou para que Loyola, mais velho e mais experiente, terminasse por exercer a liderança frente a um grupo de rapazes vindos da Espanha como ele: Pedro Faber, Francisco Xavier, Alfonso Salmeron, Jacob Laines, e Nicolau Bobedilla, espanhóis, e Simão Rodrigues, o único português. Conduziu-os então, em 15 de agosto de 1534, à capela de Santa Maria, na colina de Montmartre, comprometendo-os a jurar "efetuar trabalho missionário e de apoio hospitalar em Jerusalém, ou para ir aonde o papa quiser, sem questionar." Chamaram-se "Os amigos do Senhor". Havia neste ato uma clara alusão à retomada do espírito das Cruzadas, e, como conseqüência disso foi inevitável que a futura Ordem assumisse um regimento orientado segundo as normas militares fixadas pelo Geral da Companhia de Jesus. Todos eles in perinde ac cadaver, disciplinados como um cadáver.

Bem que se poderia cogitar estar pairando por detrás de Loyola o espectro de Jacques de Molnay, o derradeiro Grão-Mestre dos Cavaleiros Templários, a organização dos monges guerreiros que havia sido suprimida à força por Filipe, o belo, ainda em 1307, expondo o desejo de ver a sua Ordem reconstruída pelas mãos do fidalgo espanhol. Seja como for a empresa de Loyola, a mais bem sucedida ação da Contra-reforma católica, tornou-se de fato no escudo e na lança do catolicismo ameaçado.

Os sete companheiros iniciais, transformados em dez, aguardaram por um tempo a licença para partirem para Jerusalém, então nas mãos de Solimão o Magnífico, cujo governo mostrava-se avaro em conceder visitas a peregrinos cristãos, até que desistiram da aventura. Inácio, eleito como Superior da Ordem, os arregimentou então para servirem ao papado na Itália mesmo, dedicando grande parte da sua atividade em estabelecer uma estratégia de catequese para a conquista espiritual de lugares remotíssimos, tais como o Novo Mundo e os impérios da Ásia, ao tempo em que redigia as famosas Constituições da Companhia de Jesus.

Provavelmente viu-se como um cavaleiro cruzado vestido a roupeta preta, usando a palavra de Cristo como seu grande instrumento de persuasão e a Bíblia como arma da conversão. Algo assim como um Cortês, um Pizarro, um Almagro, que optara por outros instrumentos que não a violência da conquista para aumentar o rebanho cristão profundamente abalado pela reforma de Lutero. Inácio de Loyola faleceu aos 65 anos, no ano de 1556, ocasião em que a Ordem já contava com um exército de mil jesuítas espalhados por casas e colégios que se estendiam num arco que ia do Japão ao Brasil.

Fonte: educaterra.terra.com.br

Inácio de Loyola

Inácio de Loyola
Inácio de Loyola

Santo Inácio de Loyola

Santo Inácio de Loyola ou Loiola (31 de maio de 1491 - 31 de julho de 1556) foi o fundador da Companhia de Jesus, conhecida como os Jesuítas, uma ordem religiosa católica romana estabelecida com o fim de fortalecer a igreja, inicialmente contra o Protestantismo.

Nascido possivelmente a 24 de Dezembro de 1491, recebeu o nome de Íñigo López e nasceu na localidade de Loiola (em castelhano Loyola, no atual município de Azpeitia (a cerca de vinte quilómetros a sudoeste de São Sebastião no País Basco.

Inácio foi o mais novo de treze irmãos e irmãs. O seu pai morreu quando Inácio tinha sete anos de idade. Em 1506, ele tornou-se pagem ao serviço de um familiar, Juan Velázquez de Cuellar, tesoureiro (contador mayor) do reinado de Castela. Como cortesão, levou uma vida leviana.

Em 1517, Inácio tornou-se guerreiro. Severamente ferido na batalha de Pamplona (20 de Maio de 1521), ele passou meses como inválido, no castelo de seu pai.

Aspiração religiosa

Durante este periodo de recuperação, ele leu numerosos textos religiosos sobre a vida de Cristo e dos santos da igreja. Tornou-se empolgado com a ideia asquética de uma vida de auto-abnegação, emulando os feitos heróicos de Francisco de Assis e outros líderes monásticos. Ele decidiu devotar a sua vida à conversão dos infieis na terra santa.

Durante este periodo, Inácio desenvolveu os primeiros planos dos exercícios espirituais (Ejercicios espirituales), que iriam adquirir uma grande influência na mudança dos métodos de propaganda da Igreja; "o moinho para onde todos os jesuítas são atirados; eles emergem com carácteres e talentos diversos, mas as marcas imprimidas permacerão indeléveis" (Cretineau-Joly).

Após ter recuperado a saúde, ele visitou o mesteir dominicano de Montserrat (25 de Março de 1522), onde pendurou o seu equipamento guerreiro perante uma imagem da virgem. Em breve entrou no mosteiro de Manresa (ele apenas morou em um quarto do mosteiro como hóspede, mas não era monge), na Catalunha, onde praticou a mais rigorosa ascetismo

Diz-se que ele teve visões. A virgem tornou-se objecto de uma devoção cavaleiresca. Imagens militares tomaram grande relevo nas suas contemplações religiosas.

Estudos em Paris

Em 1528 entrou para a Universidade de Paris, onde ficou sete anos e estendeu a sua educação literária e teológica tentanto cativar o interesse dos outros estudantes para os seus exercícios espirituais. Em 1534 tinha seis seguidores - Pedro Faber, Francisco Xavier, Alfonso Salmeron, Jacob Laines, e Nicolau Bobedilla, espanhóis, e Simão Rodrigues (português).

Fundação da Companhia de Jesus

A 15 de Agosto de 1534, ele e os outros seis, fundaram a Companhia de Jesus na Igreja de Santa Maria, em Montmartre, "para efectuar trabalho missionário e de apoio hospitalar em Jerusalém, ou para ir aonde o papa quiser, sem questionar". Em 1537 eles viajaram até Itália para procurar a aprovação papal da sua ordem. O papa Paulo III concedeu-lhes uma recomendação e permitiu que fossem ordenados padres. Foram ordenado em Veneza pelo bispo de Arbe (24 de Junho).

Devotaram-se inicialmente a pregar e em obras de caridade em Itália. A guerra reatada entre o imperador, Veneza, o papa e os turcos otomanos, tornava qualquer viagem até Jerusalém pouco aconselhável.

Na companhia de Faber e Lainez, Inácio viajou até Roma em Outubro de 1538, para pedir ao papa a aprovação da nova ordem. A congregação de cardinais, deu um parecer positivo à constituição apresentada, e em 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III confirmou a ordem através da Bula "Regimini militantis Ecclesiae", que integra a "Fórmula do Instituto" onde está contida a legislação substancial da nova Ordem. O número dos seus membros foi no entanto limitado a 60. Esta limitação foi porém posteriormente abolida pela bula Injunctum nobis de 14 de Março de 1543.

Superior-Geral dos Jesuítas

Inácio foi escolhido como o primeiro superior-geral. Enviou os seus companheiros como missionários para criarem escolas, liceus e seminários por toda a Europa.

Em 1538 foi impressa a obra Exercícios espirituais, a qual foi objecto de inspecção pela Inquisição Romana, tendo sido no entanto autorizado.

Inácio escreveu as Constituições Jesuítas, adoptadas em 1554, que criaram uma organização hierarquicamente rígida, enfatizando a absoluta auto-abnegação e a obediência ao Papa e os superiores hierárquicos (perinde ac cadaver, disciplinado como um cadáver, nas palavras de Inácio). O seu grande princípio tornou-se o lema dos jesuítas: Ad Majorem Dei Gloriam (tudo por uma maior glória de Deus). Os Jesuítas foram um grande factor do sucesso da Contra-Reforma.

Morreu em Roma e foi canonizado a 12 de Março de 1622 pelo Papa Gregório XV. O seu dia festeja-se em 31 de Julho.

Fonte: pt.wikipedia.org

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