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Missões Jesuítas

 

Missões Jesuítas
Ruínas de São Miguel

VISÃO GERAL

No Sul não existem somente praias, cidades serranas e belezas naturais únicas em todo o Brasil. No inverno ou no verão, pode ser visitado um "país" diferente, esquecido pelos livros de história, marginalizado pelos roteiros turísticos tradicionais e muito pouco conhecido em quase todo o Brasil.

Os seus contornos nunca foram muito bem definidos, embora bastante amplos. Antigamente entrava-se nele a partir do rio Paranapanema, na divisa com o Paraná, percorrendo-se suas fronteiras até o extremo meridional do continente, nas costas do atual Uruguai.

Com o tempo, porém, suas fronteiras foram sendo reduzidas e o acesso passou a se dar pelo médio rio Paraná e rio Uruguai até que, simplesmente, desapareceu dos mapas e entrou na história, como uma prematura experiência comunista, muito antes da revolução russa e do próprio Marx.

Nos tempos modernos, foi também o mais revolucionário estado teocrático, que deu início à industrialização da América Latina, reunindo, ao mesmo tempo, uma extraordinária arte musical e plástica, com uma vigorosa disposição para a luta, uma hora em defesa do Evangelho e outra ao lado das armas da Corona espanhola.

Trata-se da República Guarani, que, por cerca de 200 anos, ocupou áreas dos atuais Estados do Paraná e Rio Grande do Sul, e ainda do Paraguai, Argentina e Uruguai, onde foram edificadas dezenas de reduções - as missões -, que levaram, para as selvas do Cone-Sul, sob um duro comando dos padres jesuítas, o esplendor da arte européia e um desenvolvimento urbano que muitas cidades ainda não conhecem, já passado tanto tempo.

As reduções não eram aldeias, mas verdadeiras cidades que se instalavam nas selvas, com toda a infra-estrutura; além da igreja, que era o centro de tudo, havia hospital, asilo, escolas, casa e comida para todos e em abundância, oficinas e até pequenas indústrias. Fabricavam-se todos os instrumentos musicais, tão bem quanto na Europa, por exemplo. Imprimiam-se livros em plena selva, alguns até em alemão.

Possuíam observatório astronômico e até editavam uma carta astronômica e um boletim meteorológico. Foi nessas reduções que se começou a industrializar o ferro, a produzir os primeiros tecidos, e a se criar gado no continente.

Foi esse gado, espalhado pelos pampas de todo o Sul, que acabou definindo a vocação econômica do Rio Grande do Sul: a pecuária, de alguma forma ligada a todos os seus acontecimentos históricos.

Ocupavam essas reduções os índios guaranis e tapes - do mesmo grupo -, atraídos pela pregação do Evangelho feita pelos padres jesuítas, decididos a criar uma série de repúblicas teocráticas no continente, baseados na experiência socialista dos incas, no Peru, onde, aliás, haviam iniciado outro agrupamento semelhante, reunindo os índios chiquitos.

LENDAS

Havia uma lenda entre os índios, segundo a qual deveriam seguir os que, um dia, lhes aparecessem com uma cruz, falando de Deus. A orientação teria sido dada, no início da era cristã, por um pregador confundido com o (suposto) apóstolo Tomé, por um dos jesuítas que construiu a República Guarani. Foi o que ajudou os padres a sensibilizar os índios.

Foi feita ainda uma tentativa de catequizar os guenoas e os charruas, mas não foi bem-sucedida. Eram inimigos dos guaranis e viviam em lutas com eles.

Mas, com os guaranis, foi feita uma revolução: os mestres da pintura e da escultura eram imitados, nas reduções, com uma perfeição extraordinária, avaliada em diversas oportunidades por europeus, que se impressionavam não somente com os trabalhos de artes plásticas ali realizados, mas também com o cuidado como, em estilo gótico, os índios reproduziam documentos, igualando-se aos melhores copistas da Idade Média.

De tudo o que foi feito, resta muito pouco para ser apreciado. Mas, se é pouco, é suficiente para dar uma idéia do que aconteceu nas selvas do Sul, embora importantes sítios arqueológicos estejam escondidos sob centros urbanos e verdejantes plantações de milho e soja.

A chamada República Guarani não chegou a se tornar independente e nem havia essa pretensão, ao menos segundo os documentos disponíveis. Jesuítas e índios deviam obediência ao trono espanhol, pagavam-lhe seus impostos, e chegaram a ser importante braço armado não só para conter a expansão portuguesa, como para dominar rebeliões e ameaças de invasão, surgidas em diversas oportunidades.

Apesar disso, a possibilidade de independência da República Guarani sempre foi a grande arma dos críticos dos jesuítas. Em folhetos que circulavam na Europa, chegava a se apresentar o velho cacique Nicolau Nhenguirú, como Nicolau I, rei do Paraguai, procurando indispor o trono espanhol contra os jesuítas. Foi tanta a agressão, que os padres acabaram sendo derrotados.

Trocada a Colônia de Sacramento - que os exércitos guaranis ajudaram a conquistar para a Espanha - pelos Sete Povos das Missões, na margem esquerda do Rio Uruguai, atual território do Rio Grande do Sul, foi deflagrada a guerra guarani contra as coroas espanhola e portuguesa, porque os índios não aceitavam ter que abandonar suas terras e cruzarem o rio em direção às reduções da margem direita, na atual Argentina.

EXPULSÃO

Depois de grande conflito, com milhares de mortos, especialmente de índios, Portugal e Espanha voltaram atrás, mas logo dariam o golpe definitivo contra as reduções, expulsando os jesuítas e deixando os guaranis sem qualquer coordenação.

Seguiram-se administradores militares e os índios acabaram sendo transformados em guerreiros, nos diversos episódios militares ocorridos no Prata, sendo exterminados completamente nos 60 a 70 anos que se seguiram à expulsão dos jesuítas.

Destruídas primeiro pelos bandeirantes, depois pelas tropas de Portugal e Espanha e, no lado paraguaio, pelo próprio ditador do novo país, após sua independência, restou pouco das reduções para ser visto nos dias atuais, mas, nas ruínas que ainda são mantidas, há alguma coisa da velha república para apreciar, entrando-se num importante capítulo da história do Sul, muito mal contado em nossos livros.

Os jesuítas cerceavam completamente a liberdade dos índios, mas, à luz da pregação do Evangelho, indiretamente intimidando-os com os conceitos sobre céu e inferno e salvação da alma, conseguiram transplantar da Europa para o interior de nosso continente, há mais de 350 anos, costumes avançadíssimos, uma arte refinada e um modelo utópico de administração - com propriedade coletiva, sem classes e sem governo, e sem oposiçào entre cidade e campo -, que Clóvis Lugon, em seu livro "A República Comunista Cristã dos Guaranis", chegou a definir como "a mais fervorosa das sociedades cristãs e a mais original das sociedades comunistas". E que foi, como assinalou, "comunista demais para os cristãos burgueses e cristã demais para os comunistas da época burguesa".

A República Guarani pode ser visitada com facilidade, por estradas de asfalto. Três ou quatro dias é o suficiente para admirar o que restou. Igrejas e casas de pedra semidestruídas por incêndios, abandono e a depredação dos moradores das vizinhanças que ocorria até recentemente; algumas dezenas de imagens e de trabalhos nas pedras das construções, são as últimas evidências dessa experiência teocrática.

Passadas tantas batalhas

No sentido literal da palavra -, essas igrejas e obras de arte não têm mais a riqueza de antigamente, com trabalhos em ouro e prata, que os índios importavam do Peru, mas, com o que resta, pode se ter a certeza de encontrar na região lembranças inesquecíveis.

Missões Jesuítas
Ruínas de São Miguel das Missões
Parte interna da Igreja

A lenda de Pai Zumé

Entre Santos e Assunção (Paraguai), e o Peru, os índios diziam existir, antigamente, pegadas de um pregador carismático, a quem chamavam de "Pai Zumé", na grande província espanhola do Paraguai, e de "Pay Tumé", nas terras do atual Peru.

Contava-se que, de pai para filho, foram transmitidos alguns ensinamentos do pregador, como o de que "a doutrina que eu agora vos prego, perdê-la-ei com o tempo. Mas, quando depois de muitos tempos, vierem uns sacerdotes sucessores meus, que trouxerem cruzes como eu trago, ouvirão os vossos descedentes essa doutrina".

A citação foi feita em 1639 pelo padre jesuíta Antonio Ruiz de Montoya, que, percorrendo o sertão paraguaio e o atual Estado do Paraná, acompanhado de sua cruz, procurava remontar os passos de "Pai Zumé", visitando locais onde existiam pegadas centenárias, que ele, unindo suspeitas próprias às lendas dos indígenas, acreditava ser do apóstolo São Tomé - aquele que quis ver as chagas de Cristo na primeira aparição deste aos apóstolos, após a ressurreição, como ensina a Bíblia.

Os índios que transmitiam a lenda ao longo do tempo foram os primeiros a sensibilizar-se com a causa cristã, ao ver os jesuítas aparecerem em suas aldeias, condenando os enormes haréns e obrigando todos a se batizar, assistir missas, rezar, cantar etc.

Tendo ou não cruzado a região há quase dois mil anos atrás, pregando, São Tomé e sua lenda ajudaram em muito a implantação das primeiras reduções que iriam constituir a florescente república que atualmente poucos conhecem - a dos guaranis, nosso primeiro estado industrial, cultural e militar na América Latina, com bases teocráticas.

A chegada dos jesuítas à América

Os jesuítas chegaram à América com algum atraso em relação a outras ordens religiosas - existem registros de que aportaram pela primeira vez, em terras espanholas, na Flórida, atual Estados Unidos, em 1567, e, no Peru, um ano depois. Na Argentina chegaram em 1586 e, no Paraguai, em 1588, setenta e dois anos após o início da colonização espanhola em áreas do atual país, que, antigamente, era o mais próspero do Cone Sul.

Ao Brasil, os jesuítas chegaram pouco antes, em 1549.

Tanto quanto aconteceu depois no Brasil, os espanhóis logo se interessaram por utilizar os índios como escravos, pois ainda não se instituíra o tráfego negreiro entre a África e a América. Conta-se que somente um tenente subordinado ao governador de Assunção, Martinez de Irala, subjugou, em 1557, cerca de 40 mil índios. A caça foi tão sistemática que, em 250 anos, até ao final do século XVIII, a população indígena do Paraguai caiu de um milhão para pouco mais de 8.200 pessoas.

Os índios, obviamente, não se entregaram sem reagir. Em 1558, destruíram parte de Assunção, acabando por ser massacrados dois anos depois.

Mas distantes da capital, em local de difícil acesso que era conhecido como Guairá, numa vasta região que ia da atual cidade de Guaíra, no Paraná, à confluência dos rios Paraná e Paranapanema - ao norte das cidades de Londrina e Maringá -, subsistiam, no entanto, pelo menos mais 150 mil guaranis, que se tornavam ameaça constante, e os espanhóis admitiam não ter condições de enfrentá-los.

Quase ao mesmo tempo em que os espanhóis de Assunção chegavam a essa conclusão, o rei Felipe III, da Espanha, foi convencido pelos jesuítas a proibir a escravização dos índios, permitindo que fossem reunidos em reduções para serem catequizados. Aí eles passariam a produzir e, inclusive, a gerar impostos. Esta foi a origem das reduções e da chamada República Guarani.

Primeiras reduções

Embora a República Guarani seja a experiência mais importante de implantação de um estado teocrático em tempos mais recentes, formaram-se, no continente americano, outras reduções, sempre sob o controle dos jesuítas, que pretendiam formar um cordão de pequenas repúblicas até o Alto Amazonas.

Eles deram sequência ao seu ambicioso projeto formando as chamadas repúblicas Chiquita e dos Moxes, na Bolívia atual, outras reduções às margens do rio Mamoré, e pretendiam que houvesse uma comunicação entre os diversos grupos, o que acabou, no entanto, nunca ocorrendo.

O sistema de redução dos índios, antes mesmo da autorização real, havia sido instituído após o Sínodo de 1603, em Assunção, que reuniu, além de jesuítas, autoridades e o próprio governador Hernandárias de Saavedra.

A primeira redução, fundada perto de Assunção, foi a de San Ignácio, identificada depois como San Ignácio Guazu, pois, em 1612, os padres João Cataldino e Simão Maseta constituíram uma nova San Ignácio - desconhecendo a primeira - que, no futuro, foi identificada como San Ignácio Mini.

Na época, quase todo o território paranaense, assim como o atual Rio Grande do Sul, se encontrava sob dominação espanhola.

Na região do atual Paraná, existiam somente duas vilas, que apoiavam as frentes de colonização: Ciudad Real Del Guairá, onde atualmente se situa Guaíra, no Paraná; e Vila Rica do Espírito Santo, mais ou menos onde está a atual cidade de Fênix, no Norte do Paraná, a cerca de 90 quilômetros ao sul de Maringá.

Para ir de Guairá ou Ciudad Real até Vila Rica, seguia-se pelo rio Paraná, tomando-se o rio Ivaí, na altura da atual cidade paranaense de Querência do Norte. Os padres Cataldino e Maseta, no entanto, em vez de seguir pelo rio Ivaí, continuaram pelo Paraná até o rio Paranapanema e, por este, seguiram até a confluência com o Pirapó, próximo às atuais cidades de Teodoro Sampaio (SP) e Jardim Olinda (PR). Ali, formaram, no final de 1610, a redução de Nossa Senhora de Loreto. Como esta logo ficou superpovoada, fundaram, em julho de 1612, a redução de San Ignácio, duas a quatro léguas adiante, onde atualmente se situa a cidade paranaense de Santo Inácio, ao Sul de Itororó do Paranapanema (SP).

Expansão das reduções no Paraná

San Ignácio Guazu havia sido fundada pelos padres Marcial de Lorenzana e Francisco de San Martin, pouco tempo depois substituídos pelos padres Roque Gonzalez e João Romero, que também se encarregaram de expandir a redução dos índios nas províncias do chamado Tape, atual Rio Grande do Sul, e (do rio) Uruguai, em áreas do Rio Grande do Sul (margem esquerda) e da Argentina (margem direita). Essa expansão no Tape e Uruguai ocorreu ao mesmo tempo que, em terras do Guairá (rios Paranapanema, Ivaí, Pirapó e Tibagi adentro), se dava o desenvolvimento rumo ao Norte, comandado pelos padres João Cataldino e Simão Maseta.

Por Província do Uruguai entenda-se especialmente o Noroeste, Oeste e Sul do atual Rio Grande do Sul, onde habitavam principalmente os índios guenoas, charruas, minuanos, entre outros, que nunca foram catequizados. O Tape, reunindo os índios guaranis propriamente ditos (tapes e arachanes, principalmente), estendia-se de Norte a Sul pelo centro do atual Rio Grande do Sul, entre a Serra Geral e a Lagoa dos Patos. À direita ficava a Província de Ibiaça, concentrando diversas tribos dos índios ibirajaras - como os guaranis, um dos ramos do grupo jê -, inimigos dos guaranis, dos padres, e aliados dos bandeirantes e tupis nas bandeiras que, nos anos seguintes, devastaram as reduções.

Entre 1612 (ano da fundação de San Ignácio Mini) e 1630, os jesuítas fundaram no Guairá (atual Estado do Paraná) mais 12 reduções, além de Nossa Senhora de Loreto e San Ignácio: São Francisco Xavier (possivelmente entre as cidades de Santa Cecília do Pavão, Irerê e Londrina), Encarnación (próximo à atual cidade de Telêmaco Borba); São José (possivelmente nas imediações das atuais cidades de Bela Vista do Paraíso e Sertanópolis); São Paulo (em local desconhecido, mas possivelmente no centro do Paraná); Arcangeles (em local isolado e de difícil acesso no centro do Paraná, possivelmente à leste de Ivaiporã); São Miguel (possivelmente nas imediações da localidade de Laranjeiras, ao noroeste de Castro, já próximo a Ponta Grossa, no Sul do Estado); Santo Antônio, São Tomé, São Pedro (possivelmente nas imediações dos municípios de Ivaiporã, Manoel Ribas e Grandes Rios); Jesus Maria (possivelmente entre Portos Planaltina e São Carlos, às margens do rio Ivaí); e, finalmente, Santa Maria a Maior e Natividad, únicas no rio Iguaçú e muito afastadas das demais. Estas foram as últimas a serem fundadas, em 1630, pouco antes das Cataratas do Iguaçú, certamente em áreas do Parque Nacional do Iguaçú.

Acredita-se que, em 1630, as 14 reduções do Guairá (ocupando, com suas estâncias, quase todo o Estado do Paraná) reuniam entre 70 e 100 mil índios.

Na primeira fase da República Guarani, antes dos ataques dos bandeirantes ocorridos ao Norte e Sul de suas reduções, a formação de aldeamentos em áreas do atual Paraguai e da Argentina, foi pequena.

Entre 1615 e 1627, graças, principalmente, à ação do padre Roque Gonzalez, foram formadas entre os rios Uruguai e Paraná somente umas poucas reduções: Encarnación ou Itapua, que, pelos mapas disponíveis, se situaria na margem esquerda do rio Paraná, mais ou menos onde atualmente está a cidade argentina de Posadas.

Do outro lado do rio, em território paraguaio, existe hoje a cidade de Encarnación, onde, numa fase posterior, se formou outra redução. Além de Encarnación fundou-se ainda Corpus Christi, que, pelos mapas disponíveis, estaria no lado paraguaio e não à margem esquerda do rio Paraná (em território argentino), onde no momento se encontra a cidade de Corpus, local a que foi transferida a redução numa fase posterior.

Já na margem direita do rio Uruguai, em atual território argentino, surgiram, ainda na primeira fase das reduções, os aldeamentos de Concepción (próximo a San Javier) e Yapeyu (ou Los Reys, na foz do rio Ibicuí), onde ainda existem localidades com esses nomes.

As reduções fundadas no Rio Grande do Sul

No território do atual Rio Grande do Sul foram fundadas, entre 1626 e 1634, dezoito reduções, sendo a primeira delas a de São Nicolau, em 1626, seguindo-se, ainda na área de influência do rio Uruguai, às margens dos rios Ijuí e Piratini, as de São Francisco Xavier, Candelária do Piratini, Todos os Santos do Caró ou Mártires, Assunção do Ijuí, Apóstolos e São Carlos do Caapi.

No Tape propriamente dito, na área de influência dos rios Ibicuí e Jacuí, foram fundadas, à margem do Ibicuí e afluentes, as reduções de Candelária do Ibicuí, São Tomé, São José, São Miguel (que não é a redução de São Miguel das Missões, da qual ainda existem ruínas, no atual município de São Miguel das Missões, próximo a Santo Angelo, e que é da segunda fase da expansão das Missões no Estado); e São Cosme e São Damião.

Às margens do Jacuí e afluentes, foram fundadas Santa Teresa (a mais setentrional), próximo à atual cidade de Passo Fundo), São Joaquim (mais ou menos próxima ao atual município de Barros Cassal), Sant'Ana, Jesus Maria e São Cristóvão - na área compreendida entre os atuais municípios de Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Cachoeira do Sul -, sendo a de São Cristóvão a última a ser fundada, e também a mais avançada para leste, a menos de 200 quilômetros da atual Porto Alegre.

Quase todas as reduções do Tape repetem nomes que já haviam sido dados a reduções no Guairá, mas essa não é somente uma coincidência. Quase todas foram destruídas por bandeirantes nos anos seguintes e os índios sobreviventes deslocaram-se para novos lugares, concentrando-se especialmente entre os rios Uruguai e Paraná, em território argentino, onde poderiam proteger-se melhor e estariam mais bem garantidos pela Coroa espanhola. Com isso iniciou-se a segunda fase dos aldeamentos, a mais próspera economicamente, e da qual existem ainda algumas ruínas.

Os últimos vestígios da primeira fase talvez possam ser encontrados apenas na cidade paranaense de Santo Inácio, ao Norte de Maringá. Nos outros locais foi tudo destruído e, possivelmente, para as populações dos municípios onde antigamente se situaram as reduções, será uma novidade a informação de sua inclusão, no passado, em áreas da chamada República Guarani.

O início do ataque dos bandeirantes

A formação das reduções não livrou os índios dos ataques dos chamados "encomenderos" que, no lado espanhol, procuravam aprisioná-los para reforçar os contingentes de escravos, especialmente de Buenos Aires e Assunção. E ainda atraiu os bandeirantes, que, procedentes de São Paulo, também procuravam escravos para trabalhos no campo e nas cidades. Atacadas por todos os lados, as reduções não resistiriam muitos anos em sua primeira fase, tendo que alterar a sua geografia.

Os índios não eram "bons" escravos. Historiadores da época calculavam que, de cada cem aprisionados, não mais do que um era de alguma utilidade. A maior parte morria no caminho entre as missões destruídas e São Paulo. Outra parte expressiva não resistia a pestes e doenças e, dos sobreviventes aos primeiros tempos do cativeiro, poucos se prestavam a algum serviço.

Para não se tornarem escravos, recorriam, às vezes, a gestos desesperados, como o verificado nos arredores de Buenos Aires, na primeira metade do século XVI: um grupo de guerreiros refugiado numa fortaleza, matou com as próprias mãos esposas e filhos, lançando-se depois para a morte, do alto de alguns rochedos.

Como os ataques se intensificaram depois dos primeiros agrupamentos em reduções, os próprios jesuítas, em determinada época, passaram a ser vistos pelos índios com muita desconfiança.

Mas a história registra um episódio que eliminou completamente essas suspeitas: depois da destruição, em 1630, das reduções de Santo Antônio, São Miguel e São Francisco Xavier - todas elas na então Província do Guairá, atual Estado do Paraná -, os padres Simão Maseta e Justo Marsilha decidiram acompanhar a caminhada de cerca de 15 mil índios que eram levados como escravos para São Paulo, procurando obter sua libertação e socorrendo os necessitados.

Salvaram apenas alguns, que devolveram às reduções, mas prosseguiram a caminhada. Nos contatos que fizeram em São Paulo, não conseguiram libertá-los; no Rio, quando o governador e capitão-geral do Brasil mandou que fosse feita "imediata justiça", os índios já haviam sido vendidos. Procuraram ainda o governador-geral, na Bahia, mas também sem sucesso. De volta às missões, o problema cresceu.

Os ataques de bandeirantes às reduções jesuíticas no Guairá - ou seja, em território do atual Paraná - começaram em 1618, apenas seis anos após a formação dos primeiros povoamentos. A partir de 1628, no entanto, os ataques passaram a ser feitos por verdadeiros exércitos, devastando-se primeiramente a redução de Encarnación (uma das mais próximas São Paulo, mais ou menos onde se localiza a atual cidade de Telêmaco Borba, na região central do Paraná), seguindo-se as demais.

Como consequência dos ataques, dos cerca de cem mil índios que estavam reduzidos não restaram mais do que 12 mil, concentrados principalmente nas reduções de San Ignácio Mini e Nossa Senhora de Loreto - que não chegaram a ser atacadas -, as mais afastadas. Com a ruína das missões, também as povoações espanholas de Vila Rica e Ciudad Real não resistiram aos ataques e foram devastadas, passando todo o território paranaense ao controle da Coroa portuguesa. Vila Rica foi refundada próximo a Assunção, onde ainda permanece.

A epopéia, Paraná abaixo

Para salvar o que restava dos índios, os jesuítas, sob o comando do padre Antônio Ruiz de Montoya, realizaram, em 1631, uma das mais dramáticas e extraordinárias fugas, para levar os mais de 12 mil sobreviventes das missões, no atual Paraná, para terras da atual Argentina.

Eles foram transportados inicialmente por cerca de 700 canoas, que, no entanto, não puderam transpor as quedas (inundadas para a formação do lago da hidrelétrica de Itaipu) existentes no rio Paraná, na atual cidade de Guaíra.

Com a aproximação dos bandeirantes, as canoas foram lançadas nas quedas, e os índios seguiram a pé, dividindo-se em dois grupos: o mais numeroso foi para as reduções de Santa Maria a Maior e Natividad, às margens do Iguaçú, próximo à atual cidade de Foz do Iguaçú, aumentando a miséria que já existia por ali.

O outro seguiu para a atual Argentina, reconstruindo as reduções de Loreto e San Ignácio Mini às margens do rio Jubaburu, depois de andarem entre 1.500 e dois mil quilômetros.

Os índios que ficaram em Natividad e Santa Maria a Maior também tiveram que migrar pouco tempo depois, deslocando-se para as margens do rio Uruguai, em retirada menos dramática que a anterior, mas também muito difícil, formando uma nova redução de Santa Maria, no atual território argentino, próximo a San Javier.

A causa da migração foi a mesma: ataques dos bandeirantes.

Muito bem sucedidas em seus primeiros ataques aos índios, as bandeiras continuaram rumando para o Sul. Em território do atual Rio Grande do Sul - nas antigamente conhecidas províncias da margem esquerda do Uruguai e do Tape -, os ataques dos bandeirantes começaram em 1636, quando foi tomada e totalmente destruída a redução de Jesus Maria, a mais avançada para Leste, contendo o projeto dos jesuítas de ligar a Província do Uruguai ao litoral.

O padre Cristóvão de Mendoza, que também havia participado da organização dos índios no Guairá, e da dramática fuga para a atual Argentina, encontrava-se nessa época no Tape e tentou organizar uma resistência em Jesus Maria, mas foi morto e trucidado perto da atual cidade de Caxias do Sul pelos índios ibianguaras, da tribo dos ibirajaras, que dominavam a chamada Província dos Ibiaças.

Por nova coincidência, Raposo Tavares, comandante das bandeiras que destruíram as reduções no Guairá, também estava à frente da bandeira que destruiu Jesus Maria, onde foi instalado uma espécie de quartel-general dos bandeirantes, do qual se comandou a destruição de São Cristóvão, São Joaquim, Sant'Ana; e, pela bandeira de André Fernandes, as reduções de Santa Teresa, Apóstolos, São Carlos e Candelária, embora os jesuítas tivessem ameaçado e depois concretizado a excomunhão de todos os os envolvidos nos ataques.

Destruição completa no Tape

Praticamente todas as reduções do Tape foram destruídas entre 1636 e 1639, quando os indígenas conseguiram organizar-se melhor e terminar por derrotar os bandeirantes.

Antes, porém, transferiram-se maciçamente para o atual território argentino, formando novas reduções, algumas vezes com o mesmo nome, das quais ainda podem ser vistos vestígios no quadrilátero entre San Javier, Apóstoles, Posadas e San Ignácio Mini, entre os rios Uruguai e Paraná, localização que os jesuítas consideravam mais segura e fácil de proteger dos ataques vindos de São Paulo.

Os povos das reduções do Tape começaram a cruzar o rio Uruguai em 1637, formando, do lado argentino, as reduções de Apóstolos, Candelária, São Pedro e São Paulo, São Carlos, São José, São Miguel, Sant'Ana, São Tomé, La Cruz (ou Santa Cruz) e Santos Mártires do Japão.

A grande desvantagem dos índios nos enfrentamentos com os bandeirantes era a falta de armas. Em 1639, no entanto, o padre Antonio Ruiz de Montoya resolveu solicitar, diretamente de Madri, autorização para armar os índios, que foi conseguida ao mostrar que a própria Coroa espanhola vinha sendo prejudicada com o que acontecia, na medida em que perdia terras para a Coroa portuguesa.

Armando um primeiro contingente, os jesuítas conseguiram, ainda no mesmo ano, reverter a situação, e venceram a terceira bandeira enviada contra as reduções do Tape, comandada por Fernão Dias Paes. A resistência indígena foi dirigida por Nicolau Nhenguirú, nome dado, em diversas gerações, a alguns dos mais bravos caciques da República Guarani. A primeira batalha vencida por eles ocorreu em Caaçapaguaçu. A segunda, mais importante, foi em Mbororé, depois da qual as reduções não foram mais perturbadas por cerca de cem anos.

As reduções fundadas no atual Paraguai

Oe jesuítas também procuraram formar algumas reduções no Norte do atual Paraguai, próximo às regiões do Chaco e Pantanal, ao mesmo tempo que realizaram a expansão rumo a Guairá e Tape, sofrendo a resistência de "encomenderos", que dificultaram a implantação do primeiro aldeamento em Guarambaré.

Continuaram os esforços nos anos seguintes e, quando, em 1633, estavam prestes a formar quatro reduções na chamada Província do Itatim, houve o ataque da bandeira de Ascenso Quadros, auxiliada por moradores locais de Santiago de Xerez, descontentes com o abandono do governo de Assunção. Muitos índios foram aprisionados, mas os padres conseguiram a libertação de um dos principais líderes e, em 1634, formaram as reduções de Nossa Senhora da Fé e San Ignácio de Caaguaçu (diferente de San Ignácio Guazu, a primeira a surgir), por sua vez atacada em 1657 pela bandeira de Raposa Tavares, numa incursão que tinha o objetivo de chegar à região amazônica passando pelo Peru. Foi novamente grande o número de índios aprisionados e outros fugiram, agraupando-se nas reduções próximas daquelas.

Sem o apoio do governo de Assunção, que retirou os jesuítas do comando dessas reduções, colocando em seus lugares padres seculares, praticamente desapareceram os aldeamentos do Itatim, cujas reduções somente ressurgiram em 1669, mas mais ao Sul, próximo a San Ignácio Guazu, com os nomes de Santa Maria da Fé e Santiago.

Ainda em território do atual Paraguai foram constituídas por volta de 1637 as reduções de La Santíssima Trinidad e San Cosme y San Damian, com indígenas oriundos das reduções do Tape, no atual Rio Grande do Sul.

Em 1685 foi fundada a redução de Jesus, mudada de local quatro vezes; e, em 1698, a de Santa Rosa de Lima, com índios que se separaram de Santa Maria da Fé.

Anos antes, a redução de Encarnación, Itapua ou Nuestra Señora de la Encarnación de Itapua, que originalmente se situou na margem direita do rio Paraná, no atual território argentino, se mudou para a margem esquerda, no atual território paraguaio, ficando assim completado o leque das oito reduções que se fixaram no Paraguai, com as quais se deu entrada, em áreas do atual país do Paraguai, à segunda fase das reduções, mais calma e prolongada. Foi ainda nesse período que a redução de Corpus passou de um lado ao outro do rio Paraná, deixando o atual Paraguai e se instalando na atual Argentina.

Os ataques dos bandeirantes, todavia, já haviam feito grande devastação em toda a área - destruíram pelo menos 30 reduções no Guairá, Tape, Uruguai e Itatim, escravizando ou matando, até 1650, pelo menos 300 mil índios, segundo cálculos oficiais citados nos editos do rei espanhol Felipe V, em 1639 e 1668. A partir desse grande rombo é que se construiu a segunda fase, não tão preocupada com expansão, concentrando-se mais na consolidação e fortificação dos lugares conquistados.

Começa a Terceira Fase das Missões

Com a derrota dos bandeirantes em Mbororé e o período de calma que se sucedeu, a República Guarani passou a ganhar nova geografia, com parte dos povos que se situaram no atual território argentino (margem esquerda do rio Uruguai) voltando às terras de origem, no lado brasileiro (margem direita).

Antes desses movimentos, a situação era a seguinte:

GUAIRÁ, ATUAL PARANÁ: nenhuma redução. As que não foram destruídas, San Ignácio Mini e Nossa Senhora de Loreto, ao Norte, e Santa Maria a Maior e Natividad, ao Sul, mudaram-se para território argentino.
TAPE, ATUAL RIO GRANDE DO SUL:
nenhuma redução. Foram todas destruídas pelos bandeirantes e os índios sobreviventes migraram para a margem direita do rio Uruguai, e margens esquerda (Argentina) e direita (Paraguai) do rio Paraná.
MARGEM DIREITA DO RIO PARANÁ, ATUAL PARAGUAI:
de Assunção, a capital, no sentido da atual cidade de Encarnación, foram constituídas, após os diversos movimentos entre a formação de San Ignácio Guazu, a retirada do Itatim e a transmigração do Tape, as seguintes reduções - além de San Ignácio Guazu, as de Santa Maria de la Fé, Santa Rosa de Lima, Santiago, Jesus, La Santíssima Trinidad, San Cosme y San Damian e Nuestra Señora de la Encarnación de la Itapua ou, simplesmente, Encarnación ou Itapua.
ENTRE-RIOS (ENTRE OS RIOS URUGUAI E PARANÁ), ATUAL TERRITÓRIO ARGENTINO:
além de San Ignácio Mini e Nuestra Señora de Loreto, transmigradas do Guairá (Paraná) e Santa Maria la Mayor, transmigrada do Iguaçu, existiam as reduções de Concepción de Nuestra Señora ou Concepción, San Miguel, Corpus ou Corpus Christi, Candelária, San Javier ou San Francisco Xavier; Santos Apostoles ou Apostoles San Pedro y San Pablo; Mártires ou Santos Mártires do Japão; La Cruz ou Santa Cruz; San Carlos, San José, San Thomé, Yapeyú ou Nuestra Señora de Yapeyú ou Nuestra Señora de los Três Reyes de Yapeyú e Assunción de Nuestra Señora de Mbororé ou Assunción.

Por que surgiram os Sete Povos das Missões

Antes de se mostrar o retorno de parte dos povos ao território do atual Rio Grande do Sul, dando origem aos chamados Sete Povos das Missões, é importante mostrar algumas das causas e justificativas possíveis para esse novo grande movimento populacional comandado pelos jesuítas.

Em todas as reduções implantadas no Tape e na margem esquerda do Uruguai, havia já, quando da transmigração, boa infra-estrutura montada, especialmente a formação de enormes estâncias, que se estendiam até próximo de Montevidéu, capital do Uruguai, com a criação de milhares de cabeças de bovinos e eqüinos, especialmente bovinos.

O gado foi introduzido no Paraguai por volta de 1555, procedente de São Vicente, no Brasil, no início de sua formação. Chegou a ser levado para as reduções ao Norte do rio Uruguai nos primeiros anos de seu desenvolvimento, mas as primeiras cabeças somente foram introduzidas na margem esquerda, ou seja, em atual território brasileiro, por volta de 1629, de acordo com a versão dos jesuítas. Alguns historiadores acreditam que a introdução tenha sido feita por João de Garay, um dos primeiros governadores do Prata, e ampliada por seu genro Hernando Artas de Saavedra, ou Hernandárias, depois governador do Paraguai, mas os jesuítas desmentem essa versão.

Seja cmo for, os rebanhos cresceram muito. E, procriando nas grandes estâncias das reduções que, efetivamente, se aproximavam de Montevidéu, proliferaram tranqüilamente após a transmigração para a margem direita do rio Uruguai. Mesmo depois da transmigração, os jesuítas continuaram enviando reprodutores para as estâncias das antigas reduções, proibindo que os índios vaqueassem nessas áreas, para que pudesse aumentar a reprodução. Somente a partir de 1677 os jesuítas permitiram que os índios das reduções da margem direita do Uruguai começassem a se abastecer com o gado da outra margem, nas pradarias do atual Rio Grande do Sul. Apenas os índios e jesuítas conheciam o potencial das chamadas vacarias, mas logo o segredo foi descoberto.

Em 1680 Portugal fundou a Colônia de Sacramento, no atual Uruguai, defronte a Buenos Aires, criando um território totalmente isolado de sua Colônia do Brasil, visto que o atual Rio Grande do Sul era área da Coroa espanhola.

Concretizada a fundação, a fortificação dos portugueses foi cercada por tropas espanholas enviadas de Buenos Aires, que ficaram ali por longo tempo, até receberem a ordem de ataque, afinal determinado e bem-sucedido.

Durante o cerco, no entanto, as tropas de Buenos Aires tiveram contato com o enorme potencial bovino da região, ao descobrirem como os portugueses atendiam em parte suas necessidades alimentares: eles compravam gado dos índios charruas (inimigos do grupo guarani), que conseguiam burlar o cerco da parte oponente.

Nos anos seguintes houve grande pressão para exploração do potencial bovino da região e, em 1716, os jesuítas tiveram que começar a dar concessões a espanhóis, para captura de seus rebanhos.

Graças a isso, Montevidéu, Buenos Aires, Santa Fé e outras povoações já eram abastecidas com o gado das vacarias das reduções nos anos que se seguiram, e até os portugueses da Colônia de Sacramento, auxiliados por tribos de índios minuanos, se dedicaram à exploração e passaram a exportar, inclusive para a Europa, graxas obtidas a partir do gado capturado.

A Colônia de Sacramento mudou de mãos diversas vezes. Depois de ser tomada pelos espanhóis, voltou a ser devolvida aos portugueses em 1683, devido ao interesse das duas coroas em evitar uma guerra de maiores proporções.

Quase ao mesmo tempo, como conta Alfeu Nilson Mallmann, em seu livro "Retrato sem Retoque das Missões Guaranis", houve "a decisão dos jesuítas de novamente ocuparem as terras da margem esquerda do Uruguai, numa aparente atitude de se contrapor à permanência daquele enclave português no Prata (a Colônia de Sacramento) e que tornava clara a política de Portugal em querer ocupar todo o litoral atlântico até o estuário". Ele mesmo levanta a possibilidade de que as autoridades espanholas podem ter forçado os jesuítas a adotar essa atitude, de forma a que os índios missioneiros fossem um obstáculo ao avanço português.

Atendendo ou não ao pedido da Coroa Espanhola, ou simplesmente retornando às terras que julgavam de suas reduções e foram abandonadas depois dos ataques dos bandeirantes, os jesuítas comandaram o retorno à margem esquerda do rio Uruguai (Rio Grande do Sul) de parte dos povos transmigrados, em 1687.

Nesse ano fundaram a redução de São Francisco de Borja, atual cidade de São Borja, com índios oriundos da redução de São Tomé, do outro lado do rio, fundando, ainda no mesmo ano, as reduções de São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel, com índios oriundos de Apóstoles, Conceição e São Miguel, na margem direita.

São Miguel foi a única que transmigrou totalmente, ocupando, no entanto, área diferente daquela onde se situam as ruínas de São Miguel, as quais ainda podem ser visitadas. Estabeleceu-se inicialmente nas margens do rio Jaguari, mas ainda antes de 1690 foi para sua última localização, em razão de uma "praga de tigres". Em 1690 parte da redução de Santa Maria la Mayor, na margem direita, forma na margem esquerda São Lourenço Mártir; em 1697, parte de São Miguel, que já estava superpovoada na margem esquerda, forma São João Baptista; e, em 1706, parte dos índios de Concepción forma Santo Ângelo Custódio (atual cidade de Santo Angelo).

São esses os chamados Sete Povos das Missões, no lado brasileiro: São Francisco de Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau, São Miguel, São João Baptista, São Lourenço Mártir e Santo Ângelo Custódio.

Em meados do século XVIII ainda foram formadas mais três reduções ao Norte de Assunção, no Paraguai, completando o mapa da República Guarani numa terceira e derradeira fase.

Essas reduções, de acordo com os objetivos dos jesuítas, deveriam servir de apoio para a ligação com a chamada República dos Chiquitos, no Peru, e existem muito poucas informações sobre elas. Tratam-se das reduções de São Joaquim, Santo Estinislau e Belém, fundadas, respectivamente, em 1746, 1749 e 1760.

Completadas as implantações dessas reduções, o mapa da República Guarani em sua terceira fase era o seguinte, em meados do século XVIII:

NO ATUAL PARAGUAI, AO NORTE: Belém, São Estanislau e São Joaquim; ao Sul, Santa Maria da Fé, Santa Rosa, San Ignácio Guazu, Santiago, São Cosme, Jesus, Trinidad e Encarnación ou Itapua.
NA ATUAL ARGENTINA: Corpus, San Ignácio Mini, Loreto, Sant'Ana, Candelária, São Carlos, São José, Apóstoles, Concepción, Assunción, Santa Maria, San Javier, Mártires, São Tomé, La Cruz e Yapeyú.
NO ATUAL RIO GRANDE DO SUL:
São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São Borja, São Miguel, São João e Santo Ângelo.

A vasta área da República Guarani

Cada redução tinha as suas estâncias, onde havia plantações e se criava gado, o que ampliava consideravelmente a área sob seu controle. Para que se tenha uma idéia dessa vastidão, as reduções mais ao sul, em território do Rio Grande do Sul - São Borja e São Miguel -, se encontravam perto do paralelo 29, mas suas estâncias entravam em território do atual Uruguai, até os limites do rio Negro, na altura do paralelo 32. A estância da redução de Yapeyú - a mais meridional, em território argentino - passava um pouco da atual cidade de Paysandu, além do paralelo 32.

A República Guarani estendia-se, assim, do Norte do Paraguai, próximo à fronteira com o Mato Grosso do Sul, no Brasil, até o meio do território uruguaio, enquanto, de Leste a Oeste, ia da bacia do Jacuí, no centro do Rio Grande do Sul, até o Norte da Argentina. Essa era uma área de cerca de 400 mil quilômetros quadrados, tendo sido, no entanto, bem maior, quando, com as reduções do Guairá, na primeira fase, ainda abrangia praticamente quase todo o território paranaense.

No extremo meridional, a área da República Guarani se aproximava da Colônia de Sacramento, uma espécie de cabeça-de-ponte colocada por Portugal no Prata, o que acabou tumultuando as relações de nossa antiga metrópole com a Espanha.

Desde o início as forças espanholas utilizaram exércitos guaranis para derrotar e expulsar, por diversas vezes, os portugueses, e isso acabou levando as duas coroas a responsabilizarem os jesuítas, que terminaram sendo expulsos dos dois impérios.

Com isso, decretou-se o fim da República Guarani, que ainda agonizou por algumas dezenas de anos, sendo completamente desmantelada já no século XIX, e quase todos os seus índios exterminados.

No final do século XVIII, a população indígena das reduções se aproximava de 600 mil pessoas. Depois da guerra guarani, em 1768, os cálculos oficiais indicavam menos de 300 mil. Em 1801, a população oficial era de 42.885 índios.

Somente no lado brasileiro, havia 30 a 40 mil índios quando do Tratado de Limites e, em 1827, não mais do que 1.874.

O Tratado de Limites e o desmantelamento das Missões

A tumultuada Colônia de Sacramento, fundada por tropas portuguesas em 1680, tomada e devolvida em 1681 por forças espanholas, voltou a ser atacada a partir de Buenos Aires em 1703, depois da deflagração da guerra entre Espanha e Portugal.

Como em todos os demais episódios militares do Prata desde meados do século anterior, os índios missioneiros tiveram papel decisivo, lutando sempre ao lado das forças espanholas, visto que deviam obediência e, inclusive, pagavam tributos à Coroa de Espanha.

Tendo cercado completamente a Colônia durante quatro meses, os espanhóis e guaranis receberam-na, sem luta, em março de 1705.

Mas, em 1716, foi novamente devolvida, e sem um encerramento dos incidentes: por ordem do governo de Buenos Aires, os índios missioneiros atacaram a Colônia nos anos seguintes e em 1735 voltaram a cercá-la, tomando-a dos portugueses e procurando, nesse meio tempo, impedir que estes também colonizassem Montevidéu.

Os índios missioneiros não só impediram a aproximação dos portugueses da atual capital uruguaia como ajudaram a construir a cidade para a instalação de casais oriundos das Ilhas Canárias. Não puderam impedir, no entanto, que os portugueses se fortificassem na cidade de Rio Grande e, a partir da colonização de casais açorianos, passassem a ocupar todo o atual litoral gaúcho.

A maior ameaça contra a República Guarani, porém, ainda seria a Colônia de Sacramento.

Em 1750 uma filha do rei da Espanha casou com um filho do rei de Portugal, união suficiente para colocar um fim às hostilidades entre os dois países.

Antes mesmo da concretização do casamento, a celebração do chamado Tratado de Madri, em janeiro de 1750, assegurava a paz com uma troca que colocaria abaixo a república dos índios: a Espanha ficaria com a Colônia do Santíssimo Sacramento, uma pequena área de terras com uma fortaleza e modesta povoação, e dava em troca os chamados Sete Povos das Missões, no atual Rio Grande do Sul, compreendendo sete cidades, algumas com indústrias primitivas formadas pelos jesuítas e índios.

Migração e guerra

O ponto mais importante do Tratado foi o que obrigou jesuítas e índios a abandonarem suas povoações e, mais uma vez, cruzarem o rio Uruguai para se instalar novamente no lado da atual Argentina, podendo levar pertences, gado e o que conseguissem carregar.

Nem os jesuítas nem os povos das reduções foram consultados, mas Portugal e Espanha não queriam esperar muito para concretizar a troca e, de imediato, nomearam comissões para iniciar a demarcação de limites.

Alguns dos povos das missões chegaram a deslocar-se para território argentino, de onde foram repelidos por índios charruas. Nesse meio tempo, a redução de São Nicolau rebelou-se, as outras terminaram por segui-la e os índios, já então muito desconfiados com os jesuítas, decidiram assumir a responsabilidade pelo ataque contra as tropas portuguesas e espanholas.

O primeiro confronto ocorreu em território do atual Uruguai, pouco depois da atual localidade de Chuí. Em 1753, no entanto, os comissários português e espanhol decidiram unir seus exércitos para enfrentar os índios, deflagrando-se a guerra em 1756.

Os índios enfrentaram os exércitos português e espanhol completamente desorganizados, sem um comando único, e não conseguiram resistir muito tempo.

Seu principal líder, o corregedor e alferes real de São Miguel, capitão José ou Sepé Tiarajú, morreu numa das primeiras batalhas e tornou-se um mito, que, no entanto, não deu mais sorte a seus seguidores: utilizando somente lanças, arcos e flechas, e umas poucas "bocas de fogo", eles sucumbiram na batalha de Caibaté ante o poderio dos exércitos das coroas, armados com inúmeros canhões.

Seguiu-se a ocupação dos povos das missões, que os índios, ao abandonar, procuravam destruir, colocando fogo em tudo. Vitoriosos, portugueses e espanhóis é que comandaram a transmigração dos povos para o outro lado do rio Uruguai, mas, então, confiscando quase todos os seus pertences.

A expulsão dos jesuítas

Já estavam os Sete Povos quase todos devastados, boa parte de seus guerreiros mortos e mulheres e crianças transmigradas, quando, em 1761, Portugal e Espanha decidiram anular o Tratado de Madri, fazendo cessar todas as providências para sua implementação.

Puderam, então, índios e jesuítas voltar a cruzar o rio Uruguai, retornando aos Sete Povos, que ficaram, todavia, somente com metade de sua população.

Começavam a reconstruí-los, nos mesmos lugares onde os haviam assentado, quando é dado o golpe derradeiro na República Guarani: a expulsão dos jesuítas.

Veja as razões. Quando eclodiu a chamada Guerra dos Sete anos, a Espanha ficou em posição contrária a Portugal. Como a Colônia de Sacramento havia sido devolvida a Portugal com o fim do Tratado de Madri, o governador do Prata recebeu ordens de atacá-la, assim que irrompeu o conflito, o que foi feito, novamente, com envolvimento de índios missioneiros, que mais uma vez deram a vitória à Coroa espanhola.

Mas Espanha e Portugal voltaram a acertar-se, com Portugal recebendo de volta a Colônia de Sacramento, em 1763, e os jesuítas acabaram sendo responsabilizados pelo último ataque, não obstante o apoio dos índios tenha sido expressamente solicitado.

A verdade é que a República Guarani já indomodava muita gente: era apresentada na Europa pelos opositores da Companhia de Jesus como uma área independente, podendo resistir aos melhores exércitos espanhóis e portugueses, armada e capaz, inclusive, de tomar as principais cidades da colônia. Folhetos apócrifos chegavam a fazer menção a um suposto Nicolau I, rei do Paraguai, referindo-se a um já velho cacique Nicolau Nhenguirú; e na própria colônia espanhola havia muitas resistências contra os índios, as reduções e os jesuítas, pelo fato de terem lutado a favor da Espanha para desmantelar movimentos de emancipação, de impedirem a entrada de espanhóis e colonos nas áreas das reduções e, enfim, por terem eliminado a grande fonte de escravos em toda a região.

Estrutura urbana e código penal

Embora seus exércitos tenham se envolvido em quase todos os incidentes militares ocorridos no Prata, sempre em defesa da Coroa Espanhola, a República Guarani não tinha, entretanto, objetivos militares. A militarização foi uma decorrência, primeiro, do ataque dos bandeirantes, e, posteriormente, da própria solicitação geralmente do governo de Buenos Aires, uma hora para atacar revoltosos em Assunção, outra retirar os portugueses da Colônia de Sacramento, e, em outras oportunidades, inclusive, para a defesa da própria Buenos Aires.

As reduções geralmente se situavam à margem de rios, devido à facilidade de comunicação entre uma e outra, em pontos estratégicos e com solos bons para cultivos. Todas elas obedeciam a um plano básico, e tornaram-se verdadeiras cidades, com ruas em linhas retas, e se expandindo a partir da igreja. Ao lado da igreja geralmente se situava um asilo para velhos, o hospital, cemitério, escola, alojamento dos padres e a casa das viúvas, que moravam juntas.

Próximo dali, oficinas para os mais diversos serviços e, às margens da praça central, defronte à igreja, as casas dos índios: de um lado os casados, de outro os solteiros. No início das reduções, as casas e as demais construções não eram de pedra, mas, no correr do tempo, passou-se a utilizar esse tipo de material, graças ao que as ruínas puderam chegar aos dias atuais.

Clóvis Lugon, em seu livro "A República Comunista Cristã dos Guaranis", mostra que, embora a coordenação das reduções fosse dos jesuítas, cabia aos índios a ação de administração, através de um conselho, eleito em cada redução, compreendendo um corregedor, que seria o presidente ou cacique; um comissário administrativo; dois alcaides que exerciam o papel de "juízes em matéria criminal" e outros dois como oficiais de polícia, entre outros assessores.

Possuíam uma espécie de código penal, que previa, como pena máxima, a prisão perpétua, depois reduzida para um máximo de dez anos.

Se, nesse aspecto, o código era relativamente brando, não o era para crimes de aborto e incesto: além de dois meses a ferros, os implicados ainda eram submetidos a três séries de 25 açoites, no período.

O uso do solo era comunitário

As áreas de cada redução eram demarcadas e, em caso de conflito de limites, a decisão cabia a uma junta de três padres ligados a um provincialato diferente daquele onde o problema ocorria.

Havia dois provinciais: um ficava em Candelária, próximo a San Ignácio Mini, na atual Argentina, e o outro em Yapeyú, na costa do rio Uruguai. O solo pertencia à comunidade e era indivisível. O mesmo ocorria com a produção e todos os bens, que eram fornecidos a cada família segundo suas necessidades, sistema que sempre funcionou muito bem. Percebia-se, aliás, que o índio necessitava trabalhar em comunidade, situação em que sua produtividade era muito melhor. Quando colocado para produzir em pequenas áreas que eram postas à sua disposição, para o atendimento das necessidades da família, a produtividade não era a mesma.

Primeiro estado industrial da América Latina

Também as oficinas e meios de transporte eram comunitários. A República Guarani foi o primeiro estado industrial da América Latina. Na redução de São João Baptista (atual RS) foi forjado o primeiro ferro das Missões, e temperado o aço depois utilizado na fabricação de sinos para as igrejas.

Nas reduções às margens dos rios Uruguai e Paraná, havia estaleiros para a construção dos barcos de transporte. Eram inúmeros os teares, moinhos, serrarias e curtumes. Os trabalhos com ferro acabaram evoluindo para a produção de todo o tipo de armas, inclusive canhões, para serem utilizados por seus exércitos.

Ainda de acordo com Lugon, havia nas reduções inúmeros profissionais, formados a partir da orientação dos padres: douradores, pintores, escultores, ourives, relojoeiros, serralheiros, carpinteiros, marceneiros, tecelões, fundidores, sapateiros, alfaiates, padeiros, açougueiros, toneleiros, torneiros, corruiros, telhadores, violeiros, fabricantes de implementos agrícolas, ceramistas etc. O historiador conta que fabricavam relógios, clarinetes, trombetas e outros instrumentos tão bem quanto os melhores da Europa e com excelente acabamento. Os trabalhos dos copistas guaranis chegaram a ser comparados aos melhores produzidos pelos monges da Idade Média, em caligrafia gótica perfeita.

Em 1705 foi instalada na redução de Nossa Senhora de Loreto (atual Argentina) uma gráfica, cujo primeiro livro foi "Temporal Y Eterno", de Euzébio Nieremberg. Outras gráficas foram instaladas posteriormente nas reduções de Candelária, Santa Maria e San Javier, também na atual Argentina. Alguns trabalhos linguísticos preciosos que foram impressos nas reduções, ainda podem ser encontrados no Museu Histórico de Buenos Aires.

Há informações de que na Biblioteca da Universidade de Munich (Alemanha) há um exemplar de uma obra do padre Antonio Sepp sobre o Paraguai, impressa na época. Eram impressas cartas astronômicas, tendo sido montado em San Cosme y San Damian, inclusive, um observatório; e as reduções produziram ainda um boletim meteorológico, que chegava a ser utilizado no Peru.

Música como nas catedrais

Em meados do século XVII foi formada uma escola nacional de música. Existiam, nas reduções, cerca de três mil músicos. Os índios utilizavam o órgão, violino, violoncelo, contrabaixo, clarinete, flauta, harpa, guitarra, violão, trombeta, trompa e tambor, instrumentos feitos por eles nas próprias reduções.

Um viajante espanhol, citado pelo historiador Lugon, escreveu, após ouvir a música dos índios, que "dificilmente creio que se escute com maior prazer a música das catedrais da Espanha, ainda as mais célebres".

Voltavam cantando dos trabalhos nos campos (para onde chegavam a levar imagens). De manhã, eram acordados com tambores, e chamados para a missa. No crepúsculo, ao retornarem dos campos, rezavam o rosário e, depois, participavam da distribuição de carne às mulheres, anunciada também por tambores.

O ódio do Marquês

A guerra guarani levou o Marquês de Pombal, em Portugal, a odiar os jesuítas - contam os historiadores -, responsabilizando-os por todos os incidentes.

Em 1759 ele expulsou a Companhia de Jesus de terras portuguesas e, em 1767, foi a vez da Espanha seguir essa atitude, concretizando a retirada dos jesuítas da área das Missões em 1768.

Como eram os jesuítas que comandavam a vida nas reduções e não prepararam os índios para sobreviver sem sua orientação, destruiu-se em poucos anos o que se levou quase um século e meio para construir.

Quando isso ocorreu, as reduções da Argentina e do Paraguai - que anteriormente integravam a Província do Prata - ainda estavam intactas, mas isso duraria pouco. Depois da saída dos jesuítas, foi proibido o comércio entre as reduções (que lhes dava auto-suficiência), abertas suas fronteiras à entrada de espanhóis, que ocuparam as terras, corromperam e embebedaram os índios, levando-os à pilhagem, deserção e abandono completo das reduções.

Os guaranis foram semi-escravizados num primeiro momento e, a seguir, transformados em soldados e envolvidos em todos os conflitos do Prata.

A destruição completa

A decadência foi de tal ordem que, em 1801, quando eclodiu nova guerra entre Portugal e Espanha, o fazendeiro Manoel dos Santos Pedroso e o contrabandista José Borges do Canto, à frente de somente 40 homens, conseguiram conquistar para Portugal os Sete Povos, na margem esquerda do Uruguai, atual Rio Grande do Sul. As Missões passaram a ser governadas por militares.

Depois que em 1815 foi proclamada a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata, tendo Buenos Aires como capital, a Banda Oriental, ou seja, o atual Uruguai, rebelou-se sob o comando de José Artigas. Durante a campanha contra Buenos Aires, Artigas conheceu em São Borja um índio daquela redução, Andrés Guacurari, que tornou seu filho adotivo e passou a ser conhecido como Andresito Artigas, nomeado por Artigas para o comando das Missões, que pretendiam tornar independentes.

Ocorreram inúmeros conflitos entre forças de Artigas e portugueses, em território das Missões, de onde Andresito também partiu para atacar o Paraguai. A essa altura as reduções já não se caracterizavam como tal. Não tinham nada dos antigos aldeamentos e não passavam de quartéis e os índios estavam transformados em soldados, uma hora lutando a favor de um, outra de outro.

Como represália às hostilidades de Andresito no lado brasileiro, em janeiro de 1817 o brigadeiro Francisco das Chagas Santos cruzou o rio Uruguai e destruiu completamente as reduções - que foram demolidas até os alicerces e saqueadas - de Yapeyú, La Cruz, San Thomé, Santa Maria, San Javier, Mártires e Concepción, saqueando ainda San José, Apóstoles e San Carlos, depois também destruídas. Em carta ao Marquês do Alegrete, seu superior, o brigadeiro Chagas Santos, em fevereiro desse ano, orgulhava-se: "... percorremos e devastamos todos os campos adjacentes a esses povoados, num raio de 50 léguas ...".

Em 1818 Andresito foi derrotado e preso em São Nicolau. Levado para o Rio, apareceu morto na Fortaleza de Santa Cruz. Em 1820, José Artigas também foi vencido pelos brasileiros e refugiou-se no Paraguai, onde foi acolhido pelo ditador José Gaspar de Francia, um antigo aluno dos jesuítas.

Quando foi proclamada a independência da Argentina, ficaram sob o controle de Francia - segundo acordo que chegou a ser firmado - as cinco reduções que estavam na margem esquerda do rio Paraná (atual território argentino), as oito da margem direita e as três situadas ao Norte do Paraguai (as chamadas reduções do Tarumá).

Em 1817, no entanto, quando o brigadeiro Francisco das Chagas Santos arrasou as reduções na margem direita do rio Uruguai, Francia, que não queria complicações próximo ao Paraguai e também não pretendia vê-las cair em mãos de Andresito Artigas, tomou a iniciativa de mandar arrasar completamente as cinco reduções da margem esquerda do rio Paraná, sob o seu controle: Corpus, San Ignácio Mini, Loreto, Sant'Ana e Candelária.

Restaram, assim, as 11 reduções ao Norte do rio Paraná, em território paraguaio, que eram governadas por um mordomo, o qual também descaracterizou completamente o sistema de administração dos jesuítas, a exemplo do que ocorrera nas margens esquerda e direita do rio Uruguai, respectivamente Brasil e Argentina atuais.

Rebeliões surgidas foram esmagadas em 1832 nas reduções de Belém e Santa Rosa e os índios remanescentes foram levados ao sacrifício, em massa, durante a chamada Guerra do Paraguai, empreendida nos anos seguintes pelo ditador Solano Lopez. Em 1848, Lopez tornou as reduções "cidades livres", expropriou os índios e entregou-lhes unicamente um lote de terras. Os lotes foram abandonados, pois os índios não se acostumavam à exploração capitalista. As antigas reduções transformaram-se em cidades e, delas, restou pouca coisa.

Os Sete Povos terminam com uma nova república

Nas margens do rio Uruguai, os Sete Povos das Missões ainda não estavam completamente destruídos. Os caudilhos da atual Argentina sempre pretenderam ocupar essa área, antes sob domínio espanhol, entregando a missão ao general Frutuoso Rivera, que, em 1827, a concretizou, sem nenhuma reação das forças brasileiras (o Brasil já era independente).

Mas, antes de ocupar as Missões, Rivera terminou perseguido pelo próprio Exército argentino, e, assim, ao invés de incorporar à Argentina a área conquistada, constituiu nas Missões (do lado brasileiro) um governo regular, pretendendo fazer o projeto evoluir para a República Riograndense, que os liberais gaúchos também queriam estabelecer.

O sonho durou oito meses, depois dos quais Rivera foi forçado a deixar a região, o que, no entanto, somente fez depois de saquear tudo, inclusive igrejas, levando o que restava.

As populações missioneiras transmigraram com Rivera para o atual Uruguai, onde, com esses índios, em 1829, ele fundou a cidade de Bella Union. Os índios, porém, terminaram por se organizar em bandos armados e passaram a invadir o território brasileiro, de Quaraí ao Alegrete, no Rio Grande do Sul, para assaltar fazendas.

Parte deles foi morta por Manuel Luiz Osório, que era tenente em Quaraí. Em 1831, os restantes sublevaram-se contra o próprio Frutuoso Rivera, que então presidia a constituída República do Uruguai. Um grupo de índios chegou a deixar Bella Union para enfrentar Rivera, mas foi destroçado e os sobreviventes distribuídos entre os moradores de Montevidéu e de outras cidades do Uruguai, para serem "educados" e voltaram a ser "cristianizados". Alguns ainda ficaram em Bella Union, e em 1834 foram enviados para as imediações de Durazno, também no Uruguai, fundando um povoado que denominaram São Borja, mas que não durou muito. Era o fim melancólico dos remanescentes da República Guarani.

Pintura, riqueza e controle de estranhos nas reduções

Os guaranis eram excelentes pintores e escultores. Faziam cópias perfeitas, segundo os padres.

Muitas das estátuas ainda podem ser vistas em museus nas ruínas das reduções que subsistem no Paraguai, Argentina e Brasil, imitando o estilo grego antigo e do Renascimento.

Suas igrejas eram ricas e imponentes, tendo sobrado delas muito pouco, permanecendo uma parte maior de sua estrutura em somente quatro reduções: São Miguel (Brasil), San Ignácio Mini (Argentina) e Trinidad e Jesus (Paraguai) - esta última nem chegou a ser concluída, pois estava em obras quando os jesuítas foram expulsos.

Em todas trabalhadas e decoradas com objetos de prata e ouro. O ouro era importado do Peru, para onde as reduções vendiam outras mercadorias. Circulavam muitas lendas de que nas reduções existiam grandes minas de ouro e prata, mas não era verdade.

Não havia uma moeda nas reduções. O fumo, mel e milho faziam, às vezes, o papel de mercadoria-moeda, o que, no entanto, era dispensável, pois todas as necessidades dos índios eram atendidas pelos centros comunitários de distribuição, por setor ou bairro.

Permitia-se a entrada nas reduções somente de mascates estrangeiros, por um período máximo de três dias. O comércio exterior, todavia, era inexpressivo, mas feito através de mercados implantados nas reduções de San Ignácio Guazu, Santa Maria da Fé, Santiago, Santa Rosa (Paraguai), San Carlos, Yapeyú e San Cosme (Argentina), e dos entrepostos de Buenos Aires e Santa Fé. Com os lucros das vendas, pagava-se o imposto à Coroa Espanhola e compravam-se materiais para as igrejas e instrumentos agrícolas.

Produtos exportados, principalmente para buenos Aires (dali para a Europa), Corrientes, Santa Fé, Assunção e Vila Rica: mate, fumo, algodão, açúcar, tecidos, pavios, círios, mesas, armários, baús, esculturas, peles, mel, frutas, tinturas, cavalos, mulas, carneiros etc.

Importava-se ouro, prata, cobre, aço, ferramentas, agulhas, anzóias, sal, papel, seda, vinho etc. Em meados do século XVIII as importações já eram muito pequenas e as reduções se tornaram praticamente autosuficientes.

Controle de mercadorias

As reduções podiam comerciar entre si, mas os valores das trocas não incluíam lucros, levando em conta, unicamente, a soma de trabalho, necessária para sua produção. Os regulamentos que disciplinavam a ação dos padres jesuítas nas reduções eram muito rigorosos e, o mais detalhado deles, de 1689, chegava a fixar os valores dos produtos que os padres poderiam pagar aos índios pelos excelentes de sua produção individual, quando fosse o caso.

O regulamento também fixava quais as reduções que poderiam se relacionar socialmente entre si. Nas festas, nunca poderia haver mais do que quatro danças, às quais era proibido o acesso das mulheres. Os padres, a propósito, eram proibidos de falar às mulheres, e nunca poderiam ficar a sós com uma delas.

Muitos incidentes armados no final da República

As reduções possuíam condições de vida muito superiores às de cidades que ainda existem na região onde se desenvolveram: as estradas eram bem conservadas, havia esgoto em algumas das cidades, todas as construções incluíam varandas, eram arejadas, não faltavam casas e nem alimentos.

Atacadas pelos bandeirantes "encomendeiros" e tribos inimigas, as reduções acabaram armando-se, graças ao que se tornaram um importante braço da Coroa Espanhola para intervenção em diversos conflitos do Prata.

Cada redução tinha um corpo de cavalaria, armado com sabres, lanças e mosquetes; e outro de infantaria, com espadas, fuzis, fundas, arcos e flechas e macaná.

Seiscentos a mil cavalos estavam sempre preparados, em cada redução, para utilização imediata, e, em pouco tempo, poderiam ser mobilizados ao menos 30 mil índios, todos a cavalo, para qualquer tipo de operação ofensiva ou defensiva.

Quando houve a revolta da chamada Comuna de Assunção, as reduções, durante algum tempo, mantiveram permanentemente mobilizado um grupo de 12 a 14 mil homens, preparados para intervenção imediata, em defesa da Coroa Espanhola.

Os incidentes ocorreram entre 1721 e 1735. Dom José de Antequera, que poderia ser considerado o chefe do primeiro partido de independência formado na América Latina, queria que os colonos tivessem declarada sua liberdade em relação à Espanha. Como não pretendia o mesmo para os índios, os jesuítas das reduções ficaram contra ele, e apoiaram a candidatura de dom Balthasar Garcia Ros para governar o Paraguai.

Este acabou sendo preso e os jesuítas foram expulsos de Assunção. Um pequeno exército guarani de quatro reduções próximas foi atraído para uma cilada nas proximidades da capital, e todos os índios foram mortos, o que chamou a atenção da Coroa. As autoridades coloniais nomearam um terceiro nome para governador, prenderam Antequera e o condenaram à morte no Peru, o que resultou em forte reação popular na capital do Paraguai, onde os revoltosos formaram uma comuna e armaram um contigente que passou a atacar as reduções próximas. Nos anos seguintes mataram um novo governador que pretendia restabelecer relações com os guaranis, e, nesse momento, as autoridades espanholas decidiram enviar um exército de Buenos Aires para dominar os paraguaios. Até a chegada do corpo armado, Assunção foi cercada por 12 mil índios das reduções, o que levou os revoltosos a se entregarem.

Em 1702 os guaranis conseguiram impedir que os ingleses invadissem Buenos Aires, transportando, com suas barcas, todo um exército de Corrientes para a futura capital argentina.

Pouco antes, foram os índios missioneiros que patrulharam todo o litoral na altura da atual Montevidéu, para impedir a entrada de portugueses em direção à Colônia de Sacramento.

Em 1772, também foram os ganranis que construíram os fortes de Santa Teresa e Santa Tecla, ainda hoje existentes, próximos à fronteira com o Brasil, pouco além do Chuí, procurando, igualmente, impedir a entrada de portugueses a partir do atual território brasileiro.

Fonte: www.riogrande.com.br

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HISTÓRIA DOS JESUÍTAS

No dia 15 de Agosto de 1534, Inácio de Loiola, estudante da Universidade de Paris, juntamente com seis companheiros vindos de Espanha, Portugal e França (Francisco Xavier, Nicolau de Bobadilla, Diogo Laínez, Afonso Salmerón, Simão Rodrigues e Pedro Fabro, o único que era sacerdote), fizeram voto de pobreza, de castidade e de dedicação à causa da Igreja Católica.

Santo Inácio de Loiola

Em 1537, juntaram-se a este grupo três novos companheiros, Pascássio Broet, João Codure e Cláudio Jay.

Dirigiram-se a Roma, puseram-se à disposição do Papa e dedicaram-se a obras de caridade. Em 1539 decidiram criar uma Ordem religiosa e Inácio de Loiola começou a escrever as Constituições que só ficaram prontas 16 anos mais tarde.

Em 27 de Setembro de 1540, o Papa Paulo III, pela Bula "Regimini Militantis Ecclesiae", aprova a constituição da nova Ordem também denominada Companhia de Jesus, então contando apenas 10 membros.

A Companhia de Jesus surgiu com o objetivo missionarista de espalhar a fé cristã, não estando então previsto que fosse uma ordem religiosa especialmente consagrada ao ensino.

Como Inácio de Loiola e os outros membros da Companhia tinham frequentado a Universidade, pensaram abrir "Casas" ou "Residências" junto das Universidades onde se formariam os novos membros da Companhia. Assim aconteceu em Paris em 1540, e posteriormente em Coimbra, Lovaina e Pádua. Só mais tarde é que essas "Residências" se transformaram em "Colégios".

Na impossibilidade de converter a população adulta, os jesuítas perceberam que é pela educação das crianças que se pode fazer a renovação do mundo. Nesse sentido, e aproveitando o esforço expansionista dos dois maiores impérios da altura, o português e o espanhol, os jesuítas vão estar presentes nos novos mundos desde o início da colonização.

S. Francisco Xavier percorre a Índia, a Indonésia, o Japão e chega às portas da China. Manoel da Nóbrega e José de Anchieta ajudam a fundar as primeiras cidades do Brasil ( S. Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro ).

João Nunes Barreto e André de Oviedo empreendem a fracassada missão da Etiópia.

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Quadro de autor desconhecido, Escola Portuguesa, Séc. XVII - XVIII, existente na Capela do Centro Universitário P. António Vieira, Lisboa.

S. FRANCISCO XAVIER

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S. FRANCISCO XAVIER

Em 1545, S. Francisco Xavier, em carta dirigidada Índia a Jerónimo Nadal, seu contemporâneo na Universidade, convida-o a aderir à Companhia de Jesus.

Jerónimo Nadal vai ter uma grande influência na definição da vocação docente da Companhia na medida em que é ele que vai ser incumbido de introduzir nos Colégios Jesuítas o Modus parisiensis e de elaborar os primeiros programas de ensino. A vocação docente da Companhia acentuar-se-á com o decorrer dos anos de tal maneira que passará a ser a característica principal das atividades da Companhia.

Apesar de inicialmente os Colégios aceitarem apenas alunos que eram candidatos a jesuítas, passaram posteriormente a aceitar também alunos que não pretendessem seguir a vida religiosa. Assim, eram admitidos gratuitamente nos Colégios estudantes pobres e também filhos de ricos e de nobres ficando no entanto a cargo destes o pagamento dos seus estudos. Tanto uns como outros se deveriam sujeitar às mesmas regras dos candidatos a jesuítas, se bem que se devessem vestir de maneira diversa e residissem numa parte diferente do Colégio.

Foi em Messina, na Sicília, que em 1548 Inácio de Loiola abriu o primeiro Colégio da Companhia, aquele que inspirou todos os outros. Para o Colégio de Messina foram escolhidas pessoas com uma excepcional preparação. Jerónimo Nadal era o reitor e professor de hebreu, Pedro Canísio professor de retórica, André des Freux professor de grego, Isidoro Bellini professor de lógica, Giovanni Battista Passerino, Hannibal du Coudret e Benedetto Palmio, professores respectivamente das 3ª, 2ª e 1ª classes de gramática. À excepção de Pedro Canísio que havia estudado em Colónia, todos estes professores, de várias nacionalidades, tinham em comum o fato de terem estudado na Universidade de Paris, razão que explica a adopção pela Companhia do Modus Parisiensis.

O êxito do Colégio de Messina levou Inácio de Loiola a pensar na criação de um Colégio em Roma que servisse de modelo aos outros e onde se podessem formar os futuros professores da Companhia. Uma doação de Francisco de Bórgia, duque de Gandía, permitiu que o Colégio Romano, mais tarde Universidade Gregoriana, começasse a funcionar em 1551. Dois anos mais tarde, em 1553, já com algumas centenas de alunos, esse Colégio começou a ensinar, além da Gramática e da Retórica, a Filosofia e a Teologia. Para além dos alunos externos, estudavam ali os futuros jesuítas oriundos de Itália, Espanha, Portugal, Bélgica e da Alemanha. Em dez anos, o número de professores elevou-se a mais de 200.

Tendo por base este importante centro pedagógico, os jesuítas empreenderam uma implementação sistemática da sua atividade docente cuja lei orgânica é consagrada na publicação, em 1599, da Ratio Studiorum, . Os seus esforços dirigiam-se preferencialmente para França e Alemanha onde os movimentos protestantes iam tendo uma maior penetração.

Em 1759, o Marquês de Pombal, com o pretexto de um atentado contra o rei D. José, expulsou os jesuítas de Portugal e das colónias. A Companhia de Jesus foi também expulsa de França em 1764 e da Espanha e das suas colónias em 1767. A pressão das monarquias destes países foi-se intensificando e o Papa Clemente XIV dissolveu a Companhia de Jesus no ano de 1773 em todo o mundo, com excepção da Prússia e da Rússia Branca.

Em 1814 o Papa Pio VII, através da Bula Sollicitudo Omnium Ecclesiarum, restaurou a Companhia de Jesus. Durante todo século XIX, a vida da Companhia foi muito atribulada. Quando os governos eram conservadores, os jesuítas eram chamados e exaltados, quando os governos eram liberais, os jesuítas eram perseguidos e expulsos.

No século XX a Companhia acompanhou de perto os grandes conflitos internacionais: duas guerras mundiais, a revolução russa e sua expansão nos países da Europa oriental que abalou dez vice-províncias da Companhia. O triunfo de Mao-Tsé-Tung na China arrasou a estrutura missionária construída durante um século de trabalho. O nacionalismo dos povos de África e da Ásia, lutando contra as potências colonizadoras, criou dificuldades para os missionários estrangeiros.

Quando Inácio de Loiola morreu em 1556, existiam 40 Colégios aprovados, mas só 35 é que estavam em funcionamento. A Companhia tinha cerca de 1000 membros, distribuídos em 110 Casas e 13 Províncias, sendo a de Portugal a primeira a ser criada. Em 1615, quando Acquaviva faleceu, os jesuítas eram mais de 13.000 e os Colégios eram 372. Em 1773, quando a Companhia foi extinta, contava com 23.000 membros e dirigia, na Europa, 546 Colégios e 148 Seminários e, fora da Europa, 123 Colégios e 48 Seminários, num total de 845 estabelecimentos de ensino. Aquando do Concílio do Vaticano II, entre 1962 e 1965, o número de jesuítas era de 36.000, mas nos anos 80 passou a 26000.

HISTÓRIA DOS JESUÍTAS EM PORTUGAL

A história dos jesuítas em Portugal está dividida em quatro períodos: o primeiro vai de 1540 a 1759, o segundo de 1829 a 1834, o terceiro de 1848 a 1910, e o quarto e último do exílio à atualidade.

PRIMEIRO PERÍODO ( 1540 a 1759 )

A vinda dos jesuítas para Portugal deve-se ao rei D. João III a quem Diogo de Gouveia indicara a existência de um grupo de clérigos capazes de converter a Índia. Então Inácio de Loiola enviou para Portugal o navarro Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues.

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Simão Rodrigues Pintura a óleo sobre tela existente na Residência de S. Roberto Belarmino (Casa de Escritores), Lisboa.

O primeiro partiu no ano seguinte para a Índia enquanto que o segundo ficou encarregue de criar a Província de Portugal, que foi criada em 1546 tendo sido a primeira província da Ordem.

Foi graças a alguns benfeitores, com especial destaque para a família real, que o crescimento da Companhia de Jesus em Portugal se deu de uma maneira extremamente rápida. Em 1542, foi fundado o Colégio de Jesus em Coimbra que tinha como objetivo a formação dos membros mais novos da Ordem.

À esquerda o antigo Colégio de Jesus ou das "11 mil Virgens", hoje Sé Nova e edifícios universitários; à direita o famoso Colégio das Artes (que foi a primeira Faculdade de Filosofia dirigida pela Companhia de Jesus em Portugal) e o Noviciado.

Foi no entanto em Lisboa no ano de 1553 que foi inaugurado o primeiro Colégio no qual os jesuítas deram aulas públicas: O colégio de Santo Antão.

Em 1559, foi fundada pelo Cardeal D. Henrique a Universidade de Évora e entregue à Companhia de Jesus.

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UNIVERSIDADE DE ÉVORA Fotografia existente no Arquivo da Cúria Provincial da Prov. Port. da Companhia de Jesus.

Com o decorrer do tempo, a ação pedagógica dos jesuítas foi-se espalhando a outras cidades do país como Braga, Bragança, Funchal, Angra, Ponta Delgada, Faro, Portalegre, Santarém, Porto, Elvas, Faial, Setúbal, Portimão, Beja e Gouveia.

À medida que iam aumentando o número de casas, ia também aumentando o número de jesuítas: 400 em 1560, 620 em 1603, 662 em 1615, 639 em 1639, 770 em 1709, 861 em 1749 e 789 em 1759.

Os jesuítas em Portugal chegaram a dirigir cerca de 30 estabelecimentos de ensino que formavam a única rede escolar orgânica e estável do País. O ensino era gratuito e aberto a todas as classes. Em meados do século XVIII, o número total de alunos rondava os 20000 numa população de 3000000 de habitantes.

Mas, em Portugal, os jesuítas não estavam só ligados à educação. Também davam catecismo e entregavam-se aos ministérios sacerdotais e a obras de caridade. Ocupavam-se dos presos, visitavam hospitais, assistiam os condenados à morte e, indiferentes aos perigos, excediam-se em generosidade por ocasião de epidemias e calamidades.

Uma das prioridades da Companhia de Jesus era a atividade missionária. Assim, à medida que os portugueses foram chegando cada vez mais longe, os jesuítas acompanharam a sua expansão. Em 1542, Francisco Xavier desembarcou em Goa com dois companheiros e, depois de percorrer várias regiões da Índia, esteve em Malaca e nas Molucas, chegando ao Japão em 1549. Veio a falecer em 1552 quando estava prestes a entrar na China. Apesar disso, as missões continuaram e os jesuítas chegaram a Macau, ao império do Grão Mogol, à China, a Pegu, a Bengala, à Cochinchina, ao Cambodja, ao Tibete, a Tonquim, ao Sião e ao Laos. Em África, os jesuítas estiveram no Congo, em Angola, na Etiópia e em Moçambique. Mais tarde iniciaram uma missão que passava por Cabo Verde e que os levaria depois à Guiné e à Serra Leoa. A primeira expedição ao Brasil deu-se em 1549 e, a partir daí, verificaram-se numerosas levas de missionários.

Toda esta atividade foi bruscamente interrompida por decisão do Marquês de Pombal em 1759 ao decretar a expulsão dos jesuítas de todos os territórios portugueses. As causas desta decisão foram sobretudo de ordem ideológica e política. Para A Companhia de Jesus constituía um obstáculo à implementação do seu projeto político iluminista e centralizador.

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MARQUÊS DE POMBAL

Uma vez que os jesuítas dominavam o sistema de ensino em Portugal e no Ultramar e tinham um património cultural invejável, eles constituíam um motivo mais do que suficiente para se tornarem uma ameaça para a implementação do sistema. Foi então que o Marquês de Pombal iniciou uma campanha anti-jesuítica tendo feito uma série de acusações contra os jesuítas que foram espalhadas por toda a Europa.

SEGUNDO PERÍODO ( 1829 a 1834 )

Em 1814 a Companhia de Jesus foi restaurada pelo Papa Pio VII. No entanto, os jesuítas só regressaram a Portugal em 1829. Por intermédio do rei D. Miguel, chegaram a Lisboa oito jesuítas que traziam como superior o belga P. Filipe José Delvaux. Abriram um noviciado e iniciaram atividades apostólicas entre a população de Lisboa e dos arredores. Em 1832, D. Miguel entregou-lhes o Colégio das Artes, em Coimbra, mas devido à guerra civil as aulas só se iniciaram no ano seguinte. Em 1834 o exército liberal ocupou Coimbra e os jesuítas foram presos e escoltados até Lisboa tendo ficado presos no forte de S. Julião da Barra donde partiram para Itália.

Nesta curta passagem por Portugal, o número de jesuítas foi de 24 e para além de terem retomado as atividades escolares, estiveram também empenhados em dar assistência aos feridos da guerra civil e às vítimas da epidemia de cólera que ocorreu em 1833.

TERCEIRO PERÍODO ( 1848 a 1910 )

O principal responsável por este regresso a Portugal foi Carlos João Rademaker, que tinha entrado para a Companhia de Jesus em Itália, em 1846.

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Carlos João Rademaker

Rademaker veio para Portugal com o intuito de restaurar a Província de Portugal. Em 1858, deu início ao Colégio de Campolide, tendo tido a colaboração de mais dois jesuítas, um português ainda dos tempos de D. Miguel e um espanhol. Nos anos seguintes juntaram-se mais jesuítas principalmente vindos de Itália e abriu-se um noviciado no lugar do Barro. Em 1863, foi constituída oficialmente a Missão Portuguesa que teve como primeiro superior o italiano P. Francisco Xavier Fulconis. Ainda em 1863, os jesuítas tomaram conta do Orfanato de S. Fiel que transformaram em Colégio.

No início de 1880, a Missão contava nove comunidades com 137 jesuítas. Estavam reunidas então as condições para ser restaurada a Província de Portugal da Companhia de Jesus.

Os dois Colégios, Campolide e S. Fiel, além de outros importantes estabelecimentos de ensino, foram locais de intensa atividade científica. Em S. Fiel, em 1902, foi criada a revista Brotéria que, dirigida pelos professores do Colégio, publicava artigos de investigação nomeadamente nas áreas da botânica e da zoologia.

Em relação à atividade missionária, os jesuítas tiveram uma difícil missão na Zambézia para onde foram enviados entre 1880 e 1910. Os jesuítas da Província de Portugal estiveram também presentes na Índia, Macau e Timor.

Em Outubro de 1910 a Companhia de Jesus foi pela terceira vez expulsa e espoliada dos seus bens em Portugal. O ambiente de perseguição existia desde os últimos anos da monarquia, mas foi depois da revolução republicana que o governo provisório da República restaurou a lei pombalina de 1759. Os membros da Província de Portugal eram nessa altura 360.

QUARTO PERÍODO ( DO EXÍLIO À ATUALIDADE )

Depois de consumada a expulsão, a política seguida teve duas vertentes: em primeiro lugar, conservar na Europa o núcleo central da Província de Portugal, constituído pelas casas de formação e algumas residências. Em segundo lugar, reforçar as missões na Índia que, por se encontrarem em território inglês, podiam ser mantidas e, simultaneamente, procurar novos campos de atividade, principalmente no Brasil.

Depois de temporariamente se terem instalado na Holanda e na Bélgica, as principais casas estabeleceram-se em Espanha: o noviciado, o juniorado e filosofado em Santa Maria de Oya, na Galiza, o Colégio para os alunos portugueses em La Guardia, no lado espanhol do rio Minho, a Escola Apostólica em S. Martinho de Trebejo e a redação da revista Brotéria e do Mensageiro do Coração de Jesus em Pontevedra.

Apesar do exílio, a Província de Portugal aumentou os seus efetivos. Em 1925 eram 380, 179 sacerdotes, 84 irmãos e 117 estudantes. A partir de 1923, abriram algumas residências em Portugal. As casas de formação e o Colégio de La Guardia regressaram em 1932. A Constituição de 1933 aboliu as leis de excepção por motivos religiosos, e o decreto de 12 de Maio de 1941, que reconhecia a Companhia de Jesus como corporação missionária, permitiram normalizar a situação jurídica dos jesuítas em Portugal.

Durante os anos quarenta e cinquenta, os principais centros da presença dos jesuítas adquiriram o estatuto que ainda mantêm. Nos anos setenta, apesar de terem diminuído o número de efetivos, aumentaram a sua presença a Sul do Tejo, principalmente em zonas pobres e pertencentes à classe operária.

Para além da educação, os jesuítas continuaram a publicação regular da Brotéria e surgiram novas revistas de investigação como a Revista Portuguesa de Filosofia e Economia e Sociologia. A publicação da Verbo. A Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, resultou da colaboração entre a editorial Verbo e as instituições culturais da Companhia de Jesus.

Em relação à atividade missionária, os jesuítas estiveram sempre presentes na Índia portuguesa, até à anexação pela União Indiana, em 1961 de Goa, Damão e Dio. Expulsos da Índia, os jesuítas foram para Macau, Moçambique, Timor e Angola. A descolonização abalou profundamente a atividade missionária tendo muitos missionários, vítimas de inúmeras perseguições, tido que regressar à Europa.

Fonte: www.educ.fc.ul.pt

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Ruínas da igreja de São Miguel, Rio Grande do Sul. Essa igreja, edificada pelos arquitetos jesuítas, tinha por modelo a igreja de Gesú em Roma. Os guarani participaram como mão-de-obra na construção e muitas vezes eram os autores das esculturas e dos frisos decorados.

Em Portugal a Companhia de Jesus havia sido favorecido desde 1540, durante o reinado de D. João III, e graças a ele puderam os jesuítas estabelecer-se na América portuguesa sem encontrar os impedimentos colocados aos jesuítas espanhóis por Filipe II e pelo Conselho das Índias.

Junto com o primeiro governador-geral vieram para o Brasil os primeiros jesuítas: os padres Manuel da Nóbrega, Leonardo Nunes, Antônio Pires, Aspicuela Navarro, Vicente Rodrigues e Diogo Jácome.

Anchieta, um rapagão de dezenove anos, veio na leva seguinte.

Nóbrega, que viera à frente dos demais, tornou-se Provincial com a fundação da província jesuítica brasileira, em 1553. Apesar de não ter sido a primeira ordem a aqui se instalar (aos franciscanos coube também no Brasil essa precedência), tomou-se a mais importante e a que maior influência teve na vida colonial brasileira.

Para os jesuítas tanto tinha importância a conversão das almas quanto a utilização econômica daquela mão-de-obra disponível; ao passo que aos colonos não interessava mais que a exploração da força de trabalho indígena, sem que se interpusesse a isso o empecilho da catequização.

As missões geralmente acompanharam as migrações dos indígenas à medida que estes fugiam dos principais centros de colonização, tentando escapar da escravização a que os colonos os submetiam. Dessa forma fixaram-se principalmente no sertão, em regiões que não apresentavam atrativos de exploração imediata, o que não quer dizer que estivessem isentas de investidos, que não formassem elas mesmas um alvo de cobiça dos colonizadores, pela quantidade de índios domesticados que aldeavam. Seus principais redutos localizaram-se no deserto do norte do México, nas orlas da floresta amazônica e no interior da América do Sul. Pela forma com que se organizaram, evoluíram como economias voltadas para a produção de excedentes comercializáveis pelos religiosos.

Vale a pena citar um trecho de um estudo recente sobre o assunto: "Este modo de produção subsiste teve uma gravitação decisiva na extensa região que atualmente compreende a República do Paraguai, grande parte das províncias argentinas de Missões, Corrientes, Santa Fé, Chaco e Formosa, o Estado brasileiro do Paraná e os departamentos de Artigas, Salto, Paissandu, Rio Negro e Tacuarembo na República Oriental do Uruguai.

Como se pode apreciar, a difusão geográfica deste modo de produção foi bastante ampla. Com relação a suas características geográficas, chegou a compreender, durante o século XVIII, a uns 130 000 indígenas, cifra muito alta se recordarmos as da população total da região."

A ação dos missionários

A atitude dos jesuítas e de outras ordens missionárias foi dúbia em relação à questão indígena. Se de um lado se posicionaram contra a escravização indígena, por outro confinaram os indígenas nos chamados aldeamentos cristãos, onde, través da catequeses, obrigavam esses povos a abandonar seu modo tradicional de vida, suas andanças pela mata, suas lideranças, substituindo suas crenças e cerimônias pelos ritos católicos. Confinados em populosos aldeamentos, os indígenas estavam sujeitos com mais freqüência às doenças trazidas pelos brancos, como foi o caso de repetidas epidemias de varíola. Em 1562, Anchieta escreve que 30 mil indígenas morreram em menos de 3 meses em decorrência de doença.

A rigor, apesar da copiosíssima legislação garantidora da liberdade dos índios, se pode afirmar que o único requisito indispensável para que o índio fosse escravizado era ser, ainda, um índio livre. Mesmo os já incorporados à vida colonial - como ocorreu com os recolhidos às missões - inúmeras vezes foram assaltados e aacossados. Isso foi o que sucedeu, por exemplo, quando Mem de Sá autorizou uma guerra de vingança para escravizar os índios Caeté por haverem comido o bispo Fernandes Sardinha. Os colonos, com base nessa ordm de vingança, caíram aobre as missões jesuíticas e dos 12 mil catecúmenos sobraram apenas mil, quando a ordem foi revogada.

Também foi nefasto o papel dos jesuítas, retirando os índios de suas aldeias dispersas para concentrá-los na reduções, onde, além de servirem aos padres e não a si mesmos e de morrerem nas guerras dos portugueses contra os índios hostis, eram facilmente vitimados pelas pragas de que eles próprios, sem querer, os contaminavam. É evidente que nos dois casos o propósito explícito dos jesuítas não era destruir os índios, mas o resultado de sua política não podia ser mais letal se tivesse sido programada para isso.

A atuação mais negativa dos jesuítas porém, se funda na própria ambigüidade de sua dupla lealdade frente aos índios e à Coroa, mais predispostos, porém, a servir a esta Coroa contra índios aguerridos que a defendê-los efiscazmente diante dela. Isso sobretudo no primeiro século, quando sua função principal foi minar as lealdades étnicas dos índios, apelando fortemente para o seu espírito religioso, a fim de fazer com que se desgarrassem das tribos e se atrelassem às missões. A eficácia que alcançam nesse papel alienador é tão extraordinário quanto grande a sua responsabilidade na dizimação que dela resultou.

No segundo século, já enriquecidos de seu triste papel e também representados por figuras mais capazes de indignação moral, como Antônio Vieira, os jesuítas assumiram grandes riscos no resguardo e na defesa dos índios. Foram, por isso, expulsos, primeiro, de São Paulo e, depois, do estado do Maranhão e Grão-Pará pelos colonos. Afinal, a própria Coroa, na pessoa do marquês de Pombal, decide acabar com aquela experiência socialista precoce, expulsando-os do Brasil.

Então, ocorre o mais triste. Os padres entregam obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e recolhidos à Europa, para amargar por décadas o triste papel de sujigadores que tinham representado.

O Patrimônio jesuítico

O vulto do patrimônio jesuítico, ao tempo do seu confisco (1760), era enormíssimo. Estendia-se de norte a sul do país, na forma de missões e concessões territoriais concedidas pela Coroa, onde instalavam suas cinqüenta missões de catequese, cuja base material eram engenhos de açúcar (dezessete), dezenas de criatórios de gado, com rebanho avaliado em 150 mil reses, além de engenhos, serrarias e muitos outros bens.

A Companhia seria também a maior proprietária urbana, pelo número de casas nas cidades que abrigavam os colégios, os seminários, os hospitais, os noviciados, os retiros, regidos por 649 padres e irmãos leigos. Só na Bahia, eles possuíam 186 casas, no Rio setenta e em São Paulo lhes restava ainda cerca de seis, e muitas mais no Maranhão, Recife, em Belém e por toda a parte,das quais fluíam altas rendas de aluguel.

A cobiça que provocou tamanha riqueza era, pelo menos, proporcional a ela, fazendo crescer a cada dia os que exigiam sua desapropriação, com esperança de apropriar-se, eles próprios, de tantos bens. A necessidade dessa desapropriação era defendida peal burocracia, revoltada contra o privilégio fiscal de não pagar impostos nem dízimos. O sonho dos burocratas e dos colonos acabou por alcançar-se e alguns deles se locupletaram como "contemplados" com os bens dos padres e dos próprios índios, declarados livres, mas, de fato, submetidos ao cativeiro, tão rígido como a escravidão dos negros.

Fonte: geocities.com

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JESUÍTAS NO BRASIL

Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, na expedição de Tomé de Souza, tendo como Superior o Pe.Manuel da Nobréga. Desembarcam na Bahia, onde ajudaram na fundação da cidade de Salvador. Atendiam aos portugueses também fora da Bahia, percorrendo as Capitanias próximas. Com o 2º Governador Geral Duarte da Costa (1553), chega o jovem José de Anchieta. Em 1554, no dia da conversão de São Paulo, funda em Piratininga um Colégio, o qual sustentaria durante dez anos. Aprendeu logo a língua dos índios, da qual escreveu a primeira gramática, dicionário e doutrina.

O Governador Geral Mem de Sá, em 1560 e 1567 expulsa os franceses do Rio de Janeiro e com seu sobrinho Estácio de Sá funda definitivamente a cidade. Em todas essas empresas estavam presentes os jesuítas. Episódio heróico é o desterro de Iperuí (atual Ubatuba) em que Nóbrega e Anchieta são feitos reféns de paz dos índios Tamoios. Nesta ocasião Anchieta escreveu seu célebre Poema à Virgem Maria. Até o fim do séc. XVI, os jesuítas firmam sua ação através dos seus três maiores colégios: Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco. Nesse tempo deram seu sangue por Cristo o Irmão João de Souza e o escolástico Pedro Correia (1554), mortos pelos carijós em Cananéia; o Beato Inácio de Azevedo e 39 companheiros, Mártires do Brasil, foram afogados no mar pelos calvinistas perto das ilhas Canárias (1570). Outros 12 missionários jesuítas que vinham para o Brasil sofreram o mesmo martírio um ano depois (1571). No princípio do séc. XVII os jesuítas chegam ao Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e daí para toda a Amazônia.

As duas casas, fundadas em São Luís (1622) e em Belém (1626), transformaram-se com o tempo em grandes colégios e em centros de expansão missionária para inúmeras aldeias indígenas espalhadas pelo Amazonas. Antônio Vieira, apesar de seus triunfos oratórios e políticos, em defesa da liberdade dos indígenas, foi expulso pelos colonos do Pará, acusado e preso pela Inquisição.

Em 1638, Pernambuco é tomada por holandeses protestantes, liderados pelo conde Maurício de Nassau. A resistência se organiza numa aldeia jesuítica. Dos 33 jesuítas de Pernambuco, mais de 20 foram capturados, maltratados e levados para a Holanda; cerca de 10 faleceram em conseqüência dessa guerra. No séc. XVII, quando da descoberta das minas e do povoamento do sertão, os jesuítas passavam periodicamente por esses locais em missão volante. Quando Mariana (MG) foi elevada a diocese (1750), foram chamados para dirigir e ensinar no seminário. Em 1749 já estavam em Goiás, fundando aldeias.

No séc. XVIII, Paranaguá tornou-se centro de atividades sacerdotais e pedagógicas, através de uma residência (1708) e do Colégio em 1755. Na ilha de Santa Catarina, visitada pelos jesuítas já desde 1635, se fundou a residência dos jesuítas (1749) e um colégio (1751). Em 1635, os missionários chegaram à aldeia de Caibi, próximo à atual Porto Alegre. Quando voltaram em 1720, já então se tratava do tratado de permuta entre a Colônia do Sacramento e os territórios das missões jesuíticas espanholas sediadas no Rio Grande. Os jesuítas trabalharam na Colônia do Sacramento desde 1678 até 1758, quando foram expulsos. Chegaram a ter uma residência de ministérios apostólicos e um próspero colégio por vários anos.

Supressão da Companhia de Jesus No Brasil (1760-1843)

Aparece nesta altura da história dos jesuítas o Marquês de Pombal. Ab-roga todo o poder temporal exercido pelos missionários nas aldeias indígenas. Para esconder os fracassos da execução do Tratado de Limites da Colônia do Sacramento, culpou os jesuítas desencadeando contra eles uma propaganda terrível. No grande terremoto de Lisboa (1755), os jesuítas foram censurados por pregarem a penitência ao povo e ao governo. Por ocasião do atentado (1757) contra D. José I, rei de Portugal, os jesuítas foram acusados de alta traição. Em fim, o velho e santo missionário do Nordeste brasileiro, o Pe. Gabriel Malagrida, foi condenado publicamente pela Inquisição como herege, e queimado vivo em praça pública de Lisboa. Preparado o terreno, veio a lei de expulsão dos jesuítas dos domínios de Portugal. Foram postos incomunicáveis, condenados e privados de todo o direito de defesa. Do Pará e de outros portos, foram embarcados e encarcerados em Lisboa. Naquele momento havia no Brasil 670 jesuítas. De Portugal alguns foram transladados para os Estados Pontifícios, onde o Papa Clemente XIII os recebeu com afeto e hospedou em antigas casas romanas. Com a morte de D. José I em 1777 e a subida ao poder de Dona Maria I, o Marquês de Pombal foi processado e condenado. Só escapou à prisão e à morte por respeito à sua idade e achaques.

Restauração da Companhia e Nova Vitalidade no Brasil (1843- )

O Papa Pio VII restaurou a Companhia de Jesus em 1814. Alguma influência exerceu no ânimo do Papa a amizade de um jesuíta brasileiro, o Pe. José de Campos Lara, que profetizara sua eleição papal. Em 1842 os jesuítas espanhóis que trabalhavam na Argentina, começaram a ter dificuldades com o ditador Rosas. Em 1845, expulsos da Argentina, abriram um colégio em Florianópolis, que prosperou rapidamente. Em 1847 abriram uma escola de latim em Porto Alegre. Em 1849 constituíram residência entre os índios Bugres, Coroados e Botocudos. Em 1858 começaram a chegar jesuítas alemães em S. Leopoldo e outras vilas do interior gaúcho. Também vieram alguns padres jesuítas italianos. Em 1862 chega outro grupo de padres italianos e alemães. Em 1865 funda-se de novo o colégio de Florianópolis, que, por diversas circunstâncias, não vingou. Os religiosos se retiraram, pouco a pouco, para Nova Trento, terra habitada por colonos italianos. Em 1867 funda-se o Colégio S. Francisco Xavier do Recife, fechado em 1873 por causa das perseguições da Maçonaria, pois os jesuítas apoiavam o bispo D. Vital, nas questões religiosas de então.

Neste ínterim, o Pe. Razzini, considerado o restaurador da Companhia de Jesus no Brasil, vencendo todas as oposições, começa o Colégio S. Luiz, na cidade de Itú, onde se fixara o Pe. Campos Lara. A partir daí surgiram o colégio Anchieta (Nova Friburgo/RJ) e o Santo Inácio do Rio de Janeiro. Mais tarde a missão dos japoneses com seu Colégio S. Francisco Xavier e a dos russos e lituanos em S. Paulo. Desde 1894 fundara-se o Noviciado de Campanha em Minas. Ocupando o grande prédio do Colégio Anchieta, fundava-se ao mesmo tempo a Faculdade de Filosofia, mais tarde transferida para S. Paulo, Rio de Janeiro e ultimamente em Belo Horizonte (1981). Com a Missão Alemã no sul do Brasil surgiram diversos Colégios: Anchieta (1890) em Porto Alegre; Ginásio Gonzaga (1895) de Pelotas; Sagrado Coração de Jesus na cidade do Rio Grande. O Ginásio Catarinense (1906), tornou-se centro de ensino e cultura científica. Mais tarde ainda vieram os Colégios Medianeira em Curitiba, Santo Inácio em Salvador do Sul e o Ginásio de Itapiranga. Novas gerações de jesuítas são formadas na casa de formação de Pareci Novo e no Colégio Cristo Rei (S. Leopoldo), onde brilhou a santidade do Pe. João B. Réus. Merece especial atenção o apostolado social através de cooperativas, fundadas por toda parte, entre os colonos alemães. Em 1911 os jesuítas portugueses voltam ao território norte do Brasil, formando assim a Missão Portuguesa. Fundaram logo o Colégio Antônio Vieira (1911) em Salvador e o Instituto S. Luiz de Caiteté; o Colégio Nóbrega (1917) no Recife, que preparou a atual Universidade Católica de Pernambuco. Ao mesmo tempo fundavam-se Residências importantes em Belém do Pará e S. Luís do Maranhão.

Para a formação de novos jesuítas construíram-se a Escola Apostólica e o Noviciado de Baturité no Ceará. Mais tarde fundou-se o Colégio Santo Inácio de Fortaleza. Salientemos ainda a tarefa da formação do Clero.

Desde a fundação do Colégio Pio-Brasileiro em Roma (1934) para a formação de sacerdotes, os jesuítas do Brasil fornecem seus dirigentes, muitos professores e auxiliares. Neste século, fundaram-se Casas de Exercícios Espirituais, como a do Padre Anchieta no Rio; Vila Fátima, perto de Belo Horizonte; Vila Manresa (Porto Alegre); Morro das Pedras, perto de Florianópolis; S. José (Olinda); a de Baturité, no Ceará; a de Mar Grande na Bahia. Outras, são adaptações de antigas casas, como o Centro de Espiritualidade de Itaicí (SP) e o Centro de Espiritualidade Cristo Rei, em S. Leopoldo. Dois movimentos religiosos foram especialmente promovidos pelos jesuítas do Brasil: o Apostolado da Oração e a Congregação Mariana. Quanto à obra das missões indígenas, uma das primeiras preocupações foi restaurar as missões do Rio Grande do Sul (1848-52). Outra tentativa foi feita em Goiás com os índios Apinagés (1888-91) e no Mato Grosso (1923). Mas a empresa que vingou foi a Missão de Diamantino em Mato Grosso (1927), hoje Diocese. Trabalharam aí cerca de quarenta missionários, que conseguiram a pacificação paulatina de várias tribos. Distinguiu-se o Pe. João Bosco Penido Burnier, que sofreu o martírio em 1976. Outra missão, hoje também Diocese, foi a de Ponta de Pedras na ilha de Marajó, confiada aos jesuítas da Bahia.

Os jesuítas se destacam também no apostolado intelectual, principalmente no ensino universitário.

Diversas Universidades do país são dirigidas pelos jesuítas: a PUC (RJ), a UNISINOS (S. Leopoldo) e a UNICAP (Recife). Alguns jesuítas trabalham também em Universidades do Governo e em algumas Faculdades próprias ou de outras entidades. As três antigas Missões (Alemã, Italiana e Portuguesa) passaram a ser Vice-Províncias e posteriormente Províncias. Em 1952 os estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás constituíram a Vice-Província Goiano-Mineira, confiada à Província espanhola de León. A Vice-Província do Norte tornou-se a Província do Nordeste, cedendo os estados da Bahia, Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas à Província da Bahia, constituída em grande parte por jesuítas italianos da Província de Veneza. Por seu lado, a Província do Nordeste foi ajudada por jesuítas do Canadá francês. Em 1973, tornaram-se a reunir as duas Províncias Central e Vice-Província Goiano-Mineira, formando a Província Centro-Leste. A Missão de Diamantino, fundada pela Província Central foi atribuída à Província do Sul. Em 1995 foi criado o Distrito Missionário da Amazônia, desmembrando da Província da Bahia os estados do Amazonas, Pará, Roraima, Amapá e Acre. Em 1999 foi criada a Região do Mato Grosso, desmembrando da Província do Sul os estados do Mato Grosso e Rondônia. Atualmente os jesuítas no Brasil estão distribuídos em 4 Províncias, uma Região e um Distrito.

JESUÍTAS NO MUNDO

A mudança radical de vida de um cavaleiro basco, Inácio de Loyola, em 1521, deu início a uma caminhada árdua e variada para a criação da Companhia de Jesus.

Em outubro de 1537, acompanhado por Pedro Fabro e Diogo Laynez, Inácio estava viajando para Roma, quando, numa pequena capela em La Storta, hoje situada na área metropolitana romana, teve uma visão de Cristo carregando sua cruz, e, o Pai, dizendo a Jesus: "Quero que tomes este por teu servidor".

Nesse momento, o nome da Companhia de Jesus foi confirmado e a própria Companhia começou a existir espiritualmente. Três anos mais tarde, o Papa Paulo III conferia à Companhia sua vida canônica com a Carta Apostólica "Regimini militantis eclesiae". A jovem Companhia cresceu rápida, principalmente, durante o primeiro século de sua existência. Quando Inácio morreu em 1556, o seu número contava 938 e em 1910, 19998. Ela se revelou na Contra-Reforma, avivando o catolicismo, espiritual e intelectualmente na França, nos Países Baixos, na Europa Central e Oriental. Sentiu-se sua influência no Concílio de Trento pela atuação de Diogo Laynez e Afonso Salmerón e, depois, na teologia pastoral e dogmática, com os trabalhos de São Pedro Canísio, São Roberto Bellarmino e Francisco Suárez.

Desde o início, a educação se tornou o trabalho principal da Companhia. Inácio não o tinha previsto, mas os pedidos de papas, bispos e leigos para estabelecer escolas modificaram sua opinião. E no fim de seu generalato, 75% dos jesuítas disponíveis, excluindo Irmãos e Escolásticos, trabalhavam em educação. Mais tarde, em 1749, os Jesuítas tinham 669 colégios, 176 seminários e 61 casas de estudos jesuíticos, além das 24 universidades que eram total ou parcialmente controladas pela Companhia. A maioria dos colégios jesuíticos foram para externos e seus alunos vieram de todas as classes. Não houve anuidades porque os colégios eram patrocinados pelo sistema fundacional. Neles, as humanidades predominaram e suas atividades e produções dramáticas influenciaram o desenvolvimento do teatro moderno. Os Jesuítas se destacaram, também, na educação do clero. O Colégio Romano, inaugurado em 1551 e desde o tempo de Gregório XIII conhecido como a Gregoriana, foi a instituição mais famosa e o primeiro seminário moderno. Com tanta ênfase em educação, não é surpreendente que se desenvolvesse a "Ratio Studiorum", um sistema pedagógico para todas essas entidades. Depois da educação, o apostolado das missões tem ocupado o maior número de jesuítas. A Companhia nasceu depois das grandes descobertas no fim do século XV e no início do século XVI, e a aquisição de territórios enormes, pelas nações católicas de Espanha e Portugal, fez com que a Companhia se incorporasse na colonização deles. Em 1749, 3276 jesuítas se encontravam distribuídos em cinco continentes.

Desse número, 90% estavam trabalhando nos territórios controlados pela Espanha e Portugal, nas Américas e na Ásia. Os futuros missionários recebiam treinamento especial, como aquele oferecido pelo Colégio de Coimbra onde passou a maior parte dos 1700 missionários portugueses, durante dois séculos.

Aprendiam línguas e como se adaptar às culturas diferentes. Esse método de aculturação foi realizado brilhantemente por Matteo Ricci e Roberto de Nobili na Ásia e Indonésia. Seu êxito, porém, nem sempre agradou às autoridades eclesiásticas, como fica claro através das controvérsias dos Ritos Malabares e Chineses.

As atividades missionárias foram maciças nas Américas. Nos territórios franceses, hoje Canadá e o nordeste e meio-oeste dos Estados Unidos, Santo Isaac Jogues e São João Brebéuf semearam o cristianismo nos povos indígenas e Jacques Marquette acompanhou a expedição de Joliet do Rio Mississipi até o Golfo do México. Na América Espanhola os jesuítas se estabeleceram no Peru e no México. Em 1710, eles eram 1768 e na metade do século XVIII a Companhia tinha, na América Espanhola, 2 universidades, 79 colégios e 16 seminários. Um outro trabalho famoso foram as reduções de índios. Houve cerca de 100 delas e as mais conhecidas foram aquelas dos 30 povos Guaranis, localizadas, principalmente, no Paraguai. Os trabalhos da Companhia foram interrompidos pela expulsão dos jesuítas dos territórios de Portugal decretada em 1759 pelo Marquês de Pombal. Essa expulsão foi apenas o primeiro capítulo da campanha contra a Companhia. Tudo terminou com sua supressão, em 1773, pelo Papa Clemente XIV, com o Breve "Dominus ac Redemptor".

As razões para a supressão da Companhia, contando então com 24000 membros, são variadas. A orientação do pensamento iluminista, no entanto, na sua forma mais radical, querendo eliminar o cristianismo e o catolicismo da vida cultural da Europa, foi o grande culpado. As casas reais influenciadas pelo Regalismo da França, da Europa, de Nápoles e da Áustria, faziam pressões tão intensas que Clemente XIV foi quase obrigado a decretar a supressão da Companhia. Frederico II, da Prússia, porém, só permitiu a divulgação da ordem da supressão, nos seus reinos, em 1780 e Catarina II, da Rússia, nunca a permitiu. Portanto, sempre existiu um pequeno grupo de cerca de 200 Jesuítas, até a restauração em 1814. O Papa Pio VII restaurou a Companhia, inicialmente, no Reino das Duas Sicílias, em 1804, e, na Igreja Universal, em 1814, com a Bula "Sollicitudo". Os primeiros tempos da Companhia de Jesus restaurada assemelham-se bastante aos primórdios dos anos da fundação. Foi um período heróico, rico de personalidades excepcionais no campo da ação. Na falta de pessoal para atender todas as necessidades, correm para satisfazer o mais urgente. Nesse período de restauração, o desafio do conflito de gerações entre os jesuítas da antiga Companhia e os novos está muito presente. Os jesuítas preocupam-se em adaptarem-se aos novos tempos zelando em recolher as tradições. Desde o princípio, deparam-se com uma seara abundante de perseguições e expulsões.

A nova Companhia teve progressos bem maiores que a antiga. Repôs em funcionamento pleno e normal as instituições inacianas, particularmente a formação dos religiosos, renovou o estudo dos Exercícios Espirituais de Sto. Inácio e da pedagogia inaciana e retomou a atividade missionária, adaptada às condições modernas. Viu também as perseguições golpear repetidamente a maioria das Províncias. Os jesuítas foram expulsos da Bélgica (1818) e da Rússia (1820).

Em 1828 foram fechados os colégios na França; em 1834 e 35 foram expulsos de Portugal e da Espanha; em 1847 da Suíça. Em 1848 foram dispersos e expulsos na Itália, Áustria e Galízia; em 1850 na Colômbia e no Equador; expulsos novamente da Espanha (1868); e da Alemanha (1872). Em 1873 viram o confisco de muitas casas na Itália, especialmente em Roma; os Superiores Gerais residiram em Fiésole de 1873 a 1892. Os jesuítas foram de novo dispersos na França (1880 e 1901); expulsos do Equador novamente (1879), e de Portugal (1910); dissolvidos na Espanha (1932 a 1936).

As perseguições, geralmente oficiais, tornaram-se, muitas vezes, sangrentas: na Espanha (1822, 1836, 1932-35), em Paris (1871), no México (1927), para não falar dos mártires das missões na China (1860,1900-02), na Síria (1859-60) ou em Madagascar (1883 e 1896).

Desde a restauração a Companhia de Jesus apresenta um desenvolvimento numérico e uma complexidade de obras: em 1940 os jesuítas eram mais de 26.000 divididos em oito Assistências e 50 Províncias.

Em 1950, cerca de 5.000 jesuítas trabalhavam nas missões, continuando uma das principais atividades da Companhia de Jesus. Nas missões, como nas províncias, o ministério da educação se desenvolveu como importância de primeira ordem. Aos colégios se ajuntaram numerosas universidades. Em muitos países, o esforço educativo atingiu também a formação do clero, não só nas missões, mas ainda em Roma com a Universidade Gregoriana e os Institutos Bíblico e Oriental. O ministério dos Exercícios Espirituais tomou novo e imponente desenvolvimento. Os Exercícios Espirituais a operários não são senão uma parte do apostolado social. A velha obra das Congregações Marianas, se apresentou na primeira metade do século como uma das formas mais desenvolvidas da Ação Católica. O Apostolado da Oração, fundado no escolasticado da Companhia de Vals, na França (1844) se espalhou prontamente por todo o mundo. Daí surgiu também a Cruzada Eucarística para crianças e jovens. No campo da imprensa a Companhia dispunha de 1.100 periódicos nos mais variados ramos do saber.

Acrescenta-se outros meios de comunicação social em que damos os primeiros passos. Entre escritores de obras que se tornaram universais, destacamos o padre Teilhard de Chardin, cientista de grande influência entre os intelectuais modernos.

A Companhia participou solidariamente dos sofrimentos derivados das duas Guerras Mundiais (1914 e 1939), procurando remediar seus resultados funestos de fome, doenças, degradações morais, amarguras e desesperos. O surto do comunismo na Rússia e em todo o leste europeu, na Coréia e no Vietnã, custou à Companhia de Jesus muitos mártires e um esforço intelectual muito forte para debelar sua ideologia em todo o mundo. Durante o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-65), convocado por João XXIII e encerrado por Paulo VI, os jesuítas cooperaram para seu pleno êxito, não só pela ação de seus bispos missionários mas também pelo aporte brilhante de seus teólogos. O Concílio veio responder à necessidade de renovação interna da Igreja e de abertura para um mundo em processo de rápidas transformações. O Concílio aceitou o desafio de estabelecer um diálogo com este mundo, procurando iluminar a busca de soluções com a luz do Evangelho. A Companhia de Jesus se esforçou para acompanhar o movimento de renovação da Igreja, realizando a sua 31ª Congregação Geral (1965-66), na qual foi eleito Geral o Pe. Pedro Arrupe (1965-1983), provincial do Japão. Posteriormente, a Companhia de Jesus, como todas as outras Ordens e Congregações religiosas, sentiu pela primeira vez em toda a sua existência um decréscimo constante de vocações.

Esse fenômeno universal para os sacerdotes e religiosos da Igreja, representa uma purificação e um convite para um trabalho de seleção e de formação mais acurada e condizente com os tempos atuais. A 32ª Congregação Geral (1974) destacou como dimensão fundamental da Companhia hoje, o serviço da fé e a promoção da justiça. A 33ª Congregação Geral (1983) elegeu Superior Geral o Pe. Peter-Hans Kolvenbach. Deu forte apoio ao apostolado intelectual, urgindo a mútua colaboração entre os estudiosos da Companhia e os membros da pastoral. 34ª Congregação Geral (1995) reafirmou a missão do jesuíta como servidor da missão de Cristo, no serviço da fé que busca a justiça, dialoga com outras tradições religiosas e evangeliza as culturas.

Fonte: www.jesuitas.com.br

Missões Jesuítas

JESUÍTAS NO BRASIL

A Companhia de Jesus foi aprovada pelo Papa Paulo III em 27 de setembro de 1540.

Já em 1549 desembarcavam, no Brasil Colônia, os primeiros Jesuítas: o Pe. Manoel da Nóbrega e mais 4 companheiros. Em 1553 chegou ao Brasil o Pe. José de Anchieta, o santo da terra brasileira, colonizador, bandeirante, educador, poeta, missionário.

Outro jesuíta historicamente importante, nesse início de vida brasileira, foi o Pe. Antônio Vieira, sem dúvida o maior orador sacro do século XVII.

Foram fundados colégios, escolas, igrejas, capelas - onde os nativos e descendentes de portugueses recebiam instrução e formação. Em 200 anos de desenvolvimento pacífico, a Companhia de Jesus tornou-se a maior educadora e missionária do Brasil.

Anchieta e Nóbrega fundaram o Colégio de São Paulo, que deu origem a atual cidade de São Paulo (SP). Eles também participaram ativamente da expulsão dos franceses que invadiram a Baía da Guanabara e ajudaram a fundar a cidade do Rio de Janeiro.

No ano de 1750, a Província dos Jesuítas no Brasil contava com 131 casas, sendo delas 17 colégios.

Havia, então, 55 missões entre os índios.

É também importante destacar a presença jesuíta no sul do Brasil. Até 1734 haviam sido fundadas 21 reduções, aldeamentos indígenas, nos quais viviam mais de 100.000 índios cristianizados. No atual Rio Grande do Sul encontram-se as ruínas de Sete Povos, sendo a mais importante São Miguel das Missões. Deste grupo missionário de origem espanhola são os Santos Mártires Roque, Afonso e João, que foram mortos em 15 de novembro de 1628 e o missionário tirôles Pe. Antônio Sepp, falecido em 13 de janeiro de 1733, certamente o grande gênio das reduções guaranis. Atribui-se a ele a introdução da fundição do aço e do ferro no sul do Brasil para a fabricação de instrumentos de trabalho e de sinos.

Os jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759, pelo Marquês do Pombal, Primeiro Ministro de D. José I, rei de Portugal, e a Companhia de Jesus foi supressa em todo o mundo em 1773 pela Bula "Dominus ac Redenptor", do Papa Clemente XIV, cedendo a pressões principalmente dos governos da França, da Espanha, de Portugal e de Nápoles. Os 22.589 jesuítas que trabalhavam em 669 Colégios e Universidades, em 61 noviciados, 340 residências religiosas, 171 seminários, 1.542 igrejas e 271 missões em todo o mundo foram proibidos de viver em comunidade e, em certos casos, até de exercer o seu ministério sacerdotal. A Companhia de Jesus teve que permanecer oculta e inativa durante 41 anos.

A restauração da Companhia de Jesus se deu em 7 de agosto de 1814. Mas somente, em 1842 os jesuítas entraram novamente no Brasil (via Porto Alegre), vindos da Argentina. Em 1843 se dirigiram à cidade de Desterro (hoje Florianópolis/SC) onde constituíram sua Comunidade. A 25 de setembro de 1845 abriram o primeiro Colégio da Companhia de Jesus, após a sua Restauração, no Brasil. Foi de pouca duração. Encerrou-o a febre amarela, após ter vitimado 6 jesuítas e 3 alunos, em 1854.

Fonte: venus.rdc.puc-rio.br

Missões Jesuítas

FAZENDA DE SANTA CRUZ

Os primórdios de Santa Cruz remontam aos índios que aí habitavam até o início do século XVI. Chamavam-na Piracema que, em língua tupi, significa "abundância de peixes" ou mesmo a sua desova, subindo os rios em direção à nascente.

Santa Cruz começou a ser povoada em meados do século XVI. As terras faziam parte da antiga sesmaria de guaratiba, que foi desmembrada em nome de Martim Afonso de Souza, no dia 16 de janeiro de 1567, e para contemplar Cristóvão Monteiro, que se considerou merecedor das terras por ter ajudado na fundação da cidade do Rio de Janeiro, combatendo contra índios e franceses, e que mais tarde seria ouvido-mor da Câmara do Rio de Janeiro, instala-se na região como o primeiro proprietário português das terras que tornariam a famosa Fazenda de Santa Cruz, quando construiu um engenho e uma capela em Curral Falso, e com a morte de Monteiro as terras são herdadas por Dona Marquesa Ferreira, sua viúva e por Catarina Monteiro sua filha, com o falecimento de Cristóvão Monteiro, sua viúva Dona Marquesa Ferreira, conforme a vontade de seu esposo, doa metade de suas terras( 4 léguas em Guaratiba como era conhecida) aos padres da Companhia de Jesus, que ficaram com a obrigação de encomendarem as almas dos doadores e o termo de doação foi lavrado no dia 7 de dezembro de 1589 e a entrega feita no dia seguinte, dia de Nossa Senhora da Conceição, data memorável para os Jesuítas. Nos anos seguintes os Jesuítas anexaram a parte de Catarina Monteiro, trocando por outras propriedades em Bertioga, no caminho de São Vicente, São Paulo consolidando com a efetiva ocupação do território pelos padres jesuítas, que expandiram a área da sesmaria adquirindo terras vizinhas até alcançar dez léguas quadradas, e para assinalar a posse pacífica e ordeira das novas terras uma grande cruz de madeira foi alçada pelos Jesuítas, era a Cruz de Cristo, símbolo maior da Companhia de Jesus elevada na solidão das novas paragens.

E o símbolo lenhoso deu nome à imensa planície: SANTA CRUZ.

Na fazenda os Jesuítas construiram uma ponte sobre o rio Guandu que foi concluída em 1752, e funcionava como uma ponte-represa, dotada de um sistema de comportas que possuia quatro arcos, que podiam ser manejadas para o controle do fluxo das águas, principalmente nos períodos das chuvas mais intensas, logo após a drenagem do excesso de água plantava-se o arroz nos campos para aproveitar a fertilidade do solo deixada pelos húmus. Enquanto o arroz crescia, os pastos eram preparados nos pontos mais altos e secos, onde se distribuía o gado.

A ponte, que fazia parte de um complexo sistema de drenagem, era ornamentada por colunas de granito com capitéis em forma de pinhas portuguesas, tendo na parte central, uma espécie de brasão com o símbolo da Companhia de Jesus (IHS), com a data de 1752 e o seguinte dístico em latim clássico: "Flecte genu tanto sub nomine flecte viator". "Hic etiam reflua flectitur amnis acqua". ( "Dobra o teu joelho diante de tão grande nome , dobra-o viajante.)

Presume-se que a construção da residência (sede) da Fazenda de Santa Cruz tenha começado por volta de 1707, e no ano de 1751 estava concluída, conforme inscrição no alto de sua portada ainda existente e foi a maior do Brasil, foi a mais avançada de sua época. Possuía milhares de escravos, um grande rebanho bovino e uma agricultura avançada para a época, com um convento possuindo 36 celas, onde os Jesuítas e irmãos se recolhiam, a residência da Fazenda de Santa Cruz era constituída de igreja( Capela de Santa Bárbara ) e convento no bloco principal e outros pequenos prédios que possuía dois pavimentos. E no ano de 1759 os Jesuítas foram expulsos do Brasil por uma decisão unilateral do Marquês de Pombal. A administração da Fazenda passa para as mãos inábeis da Coroa e entra numa fase de declínio e abandono, pois os novos administradores não tinham a capacidade e os conhecimentos dos Jesuítas.

FAZENDA SÃO CRISTOVÃO

Nos primeiros mapas da Baía de Guanabara feitos pelos portugueses e nas cartas francesas, a região de São Cristóvão sempre aparece designada como um grande aldeamento dos índios, inicialmente a região parece ter sido ocupada pelos índios Tamoios que ali construíram sua "araroue" e, por serem aliados dos conquistadores franceses, acabaram expulsos pelos portugueses, e para garantir a segurança e o domínio de tal região, considerada como entrada para o sertão, ali se estabeleceu estrategicamente a aldeia de Araribóia, que tinha grande prestígio junto ao Governador-Geral devido ao fato de ser o índio grande aliado dos portugueses, tendo participado ativamente na luta para expulsar da Guanabara os Tamoios e os franceses a aldeia de Araribóia era chamada pelos portugueses "Aldeia de Martinho" em decorrência do nome cristão - Martim - dado à Araribóia por Mem de Sá por ocasião do batismo, cuja corruptela ou diminutivo era "Martinho".

Durante as lutas de reconquista do território da ocupação francesa no séc. XVI, Estácio de Sá fundou a Cidade do Rio de Janeiro em 1565 ( 1º de março), limitada ao longo de 2 (dois) anos à várzea do Cara de Cão e do Pão de Açúcar e em julho de 1565, Estácio de Sá doou à Companhia de Jesus a sesmaria, legitimada em 1568 por Mem de Sá, e durante o último quarto do séc. XVI, sem a ameaça territorial, tem início o processo de colonização no sentido do recôncavo e através do Alvará Régio de 3 de setembro e da Carta Régia de 4 de outubro de 1759, incentivado pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Rei Dom José I, determinou a expulsão dos jesuítas de todos os domínios portugueses, tendo seus bens sido inventariados e seqüestrados para serem incorporados ao erário real, e no Rio de Janeiro, o Governador da Capitania Real, Gomes Freire de Andrade, determinou o seqüestro da Fazenda de São Cristóvão tendo sido o auto despachado em 9 de novembro de 1759.

As terras da Fazenda de São Cristóvão, do Engenho Velho e do Engenho Novo foram divididas em diversas propriedades com características de quintas e chácaras com uma ocupação mais efetiva, limite e propriedades definidos, e da antiga Fazenda de São Cristóvão uma das propriedades, a Quinta da Boa Vista, foi adquirida pelo rico negociante da Rua Direita, Antônio Elias Lopes, negociante atacadista de muita iniciativa, enriquecido no tempo em que o comércio exterior do Brasil era monopólio da Metrópole, pôde Elias Antônio Lopes dar-se ao luxo de construir para o seu descanso uma casa-quinta, o terreno escolhido ficava numa elevação que se estendia das margens do rio Maracanã ao mar, entre a enseada de São Cristóvão e de Inhaúma, chamado Quinta da Boa Vista, e o casarão no qual funcionava a sede da Fazenda de São Cristóvão foi desapropriado e transformado no Hospital dos Lázaros, inaugurado em 1º de fevereiro de 1765, os jesuítas, donos da grande sesmaria que ia do Rio Comprido até Inhaúma, construíram no litoral além da Gamboa uma igrejinha dedicada à São Cristóvão, a pequena igreja ficava nas terras da fazenda do mesmo nome, a certa distância da casa grande, que ocupava uma pequena elevação próxima à entrada do chamado Saco de São Diogo, a pequena ermida ficava junto à praia até então somente habitada por uns poucos pescadores, logo passando a ser chamada de praia de São Cristóvão, e próximo à igrejinha passava o Caminho de São Cristóvão o qual, além de servir aos jesuítas, era muito utilizado como via de comunicação da cidade com o interior.

A multiplicação dos engenhos e fazendas no interior, bem como a precariedade de acessos por via terrestre para o centro da cidade, incrementaram a circulação na região, e por essa estrada logo começaram a passar os tropeiros e viajantes, aparecendo no seu entorno uma pequena povoação que passou a ser chamada de Campo de São Cristóvão, e durante muitos anos o acesso à igreja era feito pelo mar, sendo a igreja, elevada à matriz em 1865 foi reconstruída e ampliada.

Fonte: www.geocities.com

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