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COMUNA DE PARIS

A herança da Comuna é universal e permanece com uma extraordinária actualidade. Democrática e plural, tentou no seu tempo, resolver problemas que ainda hoje nos afligem. Sem tempo, inexperiente e sem meios, a Comuna soçobrou. Mas ficou o seu exemplo e a sua obra.

PASSADOS 132 ANOS desde a sua eclosão, a Comuna assume toda a sua modernidade, perfilando-se como um referencial revolucionário para os trabalhadores de todo o mundo. Tal como hoje nos quatro cantos do planeta, nos finais do século XIX os proletários parisienses clamaram bem alto que "outro mundo era possível".

Vários factores concorreram para o desencadear do 18 de Março de 1871 - a riqueza extraordinária das tradições revolucionárias francesas (Revolução Francesa de 1789, Constituição de 1793 que proclamou o direito à insurreição, revoluções de 1830, de 1848...), a ascensão do movimento operário sob o Segundo Império Napoleónico (secção francesa da I Internacional, propagação do marxismo, poderoso movimento grevista com destaque para os operários de Creusot...), e a tremenda derrota e capitulação do exército francês de Napoleão III frente à Prússia. Procurando conservar o seu poder em perigo e com o objectivo de disputar a hegemonia na Europa, Napoleão III tinha declarado guerra à Prússia em Julho de 1870. O Imperador foi aprisionado em Sedan e os prussianos avançaram até às portas de Paris.

A 4 de Setembro de 1870 o Império foi derrubado, em grande parte devido à resistência e ao combate dos trabalhadores de Paris. O novo Governo republicano, sabotou a guerra com medo do povo em armas (a Guarda Nacional encontrava-se dotada de canhões comprados por subscrição popular). A burguesia, temendo o povo, assinou um armistício a 28 de Janeiro de 1871, cedendo a Alsácia e a Lorena à Prússia, elegeu uma Assembleia Nacional maioritariamente realista e instalou o Governo em Versalhes sob a presidência de Thiers. Na altura, o jornalista Francisque Sarcey observou de forma acertada que "a burguesia via-se, não sem uma certa melancolia, entre os Prussianos que lhe pisavam a garganta e aqueles a quem chamava vermelhos e que só via armados de punhais. Não sei quais deles faziam mais medo: odiava mais os estrangeiros, mas temia mais os de Belleville". A traição estava em marcha.

No dia 18 de Janeiro de 1871 Thiers ordenou ao exército que retirasse os canhões da Guarda Nacional das colinas de Montmartre. O povo do bairro mobilizou-se e confraternizou com as tropas. Os generais Clément Thomas e Lecomte, que várias vezes ordenaram que se disparasse sobre a multidão, foram fuzilados pelos seus próprios soldados. As forças governamentais recuaram em desordem para Versalhes. A batalha na Praça Pigalle fora decisiva. Depois da libertação de toda a cidade de Paris pelos proletários insurrectos, nos Paços do Concelho passou a flutuar vitoriosamente a bandeira vermelha da revolução.

A 21 de Março o comité central da Guarda Nacional proclamou: "Os proletários, no meio das tibiezas e traições das classes governamentais, compreenderam que chegara a hora de salvarem a situação tomando em mãos a direcção da coisa pública". A Comuna de Paris começava.

A primeira revolução operária mundial

Os trabalhadores industriais constituíam a massa dos communards. O Conselho Geral da Comuna tinha 30% de operários, um número deveras significativo. Esta classe operária revolucionária, era uma classe "filha da época", de um capitalismo em plena ascensão, por isso era uma classe operária mal estruturada, inexperiente, o que contribuiu em parte, para as rivalidades paralisantes da Comuna. Apesar das debilidades, os operários parisienses lançaram-se "ao assalto dos céus".

A Comuna tomou diversas medidas de carácter social em relação aos operários. As multas patronais e o trabalho nocturno nas padarias foram abolidos, os alojamentos vagos requisitados. As oficinas, encerradas pelos patrões que desertaram, foram entregues a operários associados que retomaram a sua laboração. Frankel, ministro do Trabalho da Comuna, frisou: "A Revolução do 18 de Março foi feita pela classe operária. Se não fizermos nada por essa classe, não vejo a razão de ser da Comuna".

A democracia - o verdadeiro poder do povo

Proclamada a 28 de Março na praça dos Paços do Concelho, (a 26 o povo de Paris elegeu os membros da Comuna em eleições democráticas sem precedentes na história), perante uma multidão de milhares de pessoas que agitando bandeiras gritavam freneticamente "Viva a Comuna!", o seu exemplo foi seguido pelos operários de Saint-Étienne e de Lyon, que se rebelaram contra o poder e proclamaram igualmente a Comuna.

A Comuna de Paris instaurou a mais autêntica das democracias, o verdadeiro poder do povo. Além das medidas de âmbito social já enunciadas, o programa dos communards também reivindicava a organização do crédito, da troca e da associação, a fim de assegurar ao trabalhador o valor integral do seu trabalho. A instrução gratuita, laica e integral. O direito de reunião e associação, a liberdade da imprensa, bem como a do cidadão. A organização do ponto de vista municipal dos serviços de polícia, forças armadas, higiene, estatística, etc.

Os eleitos da Comuna encontravam-se sujeitos a um mandato imperativo, respondiam pelos seus actos e eram revogáveis. Os juízes e funcionários também eram eleitos e revogáveis. A Guarda Nacional, que acumulava as funções de exército e de polícia (o exército permanente foi suprimido), elegia os seus oficiais e sargentos. Os próprios membros do Conselho da Comuna auferiam um salário equivalente ao salário médio de um operário.

A Comuna inventou a educação popular, procurando alargar os horizontes culturais do povo. Foram reorganizadas as bibliotecas e reabertos os teatros e as óperas. Instaurou os cursos públicos, levando Louise Michel a evocar com entusiasmo: "Queríamos tudo de uma vez, artes, ciências, literatura, descobertas, os nossos olhos cintilavam". Para o estabelecimento de uma escola laica e gratuita, a Comuna apelava à participação dos professores, pais e alunos e da sociedade para uma Educação Nova.

As mulheres tiveram um papel de destaque na Comuna. Louise Michel esteve na linha da frente em Montmartre, a russa Elisabeth Dmitrieff e a operária encadernadora Nathalie le Mel animaram uma União das Mulheres, organismo essencial para a emancipação da mulher, libertando-a assim das superstições e do poder da Igreja. Importantes conquistas foram conseguidas por este primeiro movimento feminino de massas, como a obtenção de salário igual para trabalho igual.

Os próprios estrangeiros adquiriram a cidadania de pleno direito, ocupando cargos dirigentes mesmo sem estarem naturalizados, o que não deixa de constituir um exemplo para os dias de hoje. Estão neste caso o judeu húngaro, Leo Frankel, operário joalheiro, ficando à frente do ministério do Trabalho; Elisabeth Dmitrieff dirigiu a União das Mulheres; os generais polacos Dombrowski e Wroblewski assumiram comandos militares.

A democracia communard funcionou com uma autêntica democracia, como o verdadeiro poder do povo, embora à escala de uma cidade e durante apenas 72 dias.

A Semana Sangrenta

Durante a Semana Sangrenta, 21 a 28 de Maio de 1871, os revolucionários da Comuna tiveram de enfrentar o poderoso exército versalhês de Thiers, que aumentou consideravelmente com a cumplicidade dos prussianos, já que estes libertaram o exército francês de Bazaine. As classes dirigentes, francesas, prussianas ou outras, nutriam um ódio visceral aos proletários de Paris, que pretendiam construir um outro mundo, mais justo, fraterno e solidário. Por esse facto, erigiram a República Universal como bandeira da Comuna e demoliram a coluna Vendôme que simbolizava o militarismo de Napoleão e o chauvinismo da burguesia.

Milhares de operários, mulheres e filhos, enfrentaram as tropas versalhesas que cercaram a Comuna. Trabalharam dia e noite para cavar trincheiras, ergueram barricadas, consolidaram fortes e muralhas, distribuíram canhões e munições. As trabalhadoras de Paris também pegaram em armas para participarem no combate. O Corpo Voluntário dos Cidadãos desempenhou um importante papel na luta para a defesa da Comuna.

A 28 de Maio, entrincheirados no cemitério de Père Lachaise, os últimos communards, cerca de 200, combateram corajosamente contra 5 000 soldados inimigos. Nenhum depôs as armas ou se rendeu. Foram fuzilados contra o muro do cemitério, gritando "Viva a Comuna!". Este muro, chamado mais tarde como o "Muro dos Federados", lembra os princípios da Comuna aos proletários e ao povo de todo o mundo, encorajando-os a combater até ao fim pela libertação do género humano.

Os versalheses transformaram Paris num matadouro, com a orgia de horrores, execuções sumárias, incêndios e pilhagens. As casamatas das fortificações, cheias de cadáveres, funcionaram como fornos crematórios. Foram enterrados communards vivos. Foi um autêntico banho de sangue entre os proletários parisienses - cerca de 30 000 fuzilados, 42 522 presos, 13 440 condenações em conselhos de guerra, entre as quais 270 a pena de morte (26 execuções) e 4 586 deportações para a Nova Caledónia, entre homens e mulheres. Depois de todo este banho de sangue, o tenebroso Thiers declarou: "Livrámo-nos do socialismo".

O significado e a modernidade da Comuna

Conforme nos diz o grande escritor Prosper-Olivier Lissagaray em a História da Comuna de 1871, "o massacre dos comuneiros não é um momento de loucura de um punhado de reaccionários; pelo contrário, é uma daquelas "horas da verdade" da luta de classes, quando vem ao de cima o ódio latente dos que permanentemente vigiam, com um misto de desprezo e receio, aqueles sobre cuja desgraça constroem os seus privilégios". Tratou-se de um furor colectivo de uma classe que reagiu de forma planeada à ameaça ao seu estatuto. Só assim se compreende que, na época, intelectuais, escritores e artistas tenham coberto os communards de insultos.

À excepção de Courbet, Verlaine, Rimbaud, e até certo ponto Victor Hugo, a grande maioria reagiu com ódio profundo à Comuna. Grandes escritores como George Sand, Alphonse Daudet, Gustave Flaubert, Emílio Zola, Théophile Gautier e Dumas filho , aplaudiram a repressão e lançaram infames calúnias contra quem apenas pretendia construir um mundo novo. O jornal Figaro aplaudia: "Nunca mais teremos ocasião igual para curar Paris da gangrena mortal que a corrói desde há vinte anos (...) Hoje, a clemência seria demência (...) Vamos, gente honesta! Ajudai a acabar com a praga democrática e social!".

Afinal, quais foram os crimes da "canalha" à solta que motivaram toda esta febre de vingança? A Comuna de Paris foi mais que uma insurreição. Foi o surgimento de um princípio novo e a afirmação de uma política nunca antes conhecida. Começando pela defesa da República, evoluiu inexoravelmente para a procura do socialismo. A Comuna baseava-se na gestão colectiva e considerava que o Estado devia emanar directamente do povo e manter-se sob o seu permanente controlo. Defendia a colectivização dos meios de produção como uma condição prévia para a igualdade social, em que o trabalhador devia beneficiar do produto do seu trabalho por inteiro.

Derrotada, a Comuna não morreu. Victor Hugo, dirigindo-se-lhe, referiu: "O cadáver está na terra, mas a ideia está de pé". Pottier cantou: "Não importa, a Comuna não está morta". O expectro da Comuna além de perseguir os "realistas" e impedir a restauração monárquica em França, inspirou o movimento operário mundial.

A herança da Comuna é universal e permanece com uma extraordinária actualidade. Democrática e plural, tentou no seu tempo, resolver problemas que ainda hoje nos afligem. Sem tempo, inexperiente e sem meios, a Comuna soçobrou. Mas ficou o seu exemplo e a sua obra. A Comuna passou a ocupar um importante lugar na evolução do socialismo. Lénine disse que a Comuna "é a forma "enfim descoberta" pela revolução proletária, que permite realizar a emancipação económica do Trabalho".

Além da modernidade da Comuna de Paris, também é verdade que tempos novos requerem novas soluções, num mundo onde domina o Império global das injustiças. Por isso, continua a ser ainda muito actual o lema "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".

Fonte: geocities.yahoo.com.br

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