Os condores são aves de rapina gigantescas encontradas apenas no hemisfério ocidental. Duas espécies são reconhecidas: o condor-dos-andes (Vultur gryphus) na América do Sul e o condor-californiano (Gymnogyps californianus) na América do Norte.
O condor-dos-andes é maior em tamanho, com uma envergadura de até 3,2 metros, comparado aos 2,7 metros do condor-californiano (Houston, 1994). Embora os condores sejam diferentes o suficiente para serem classificados em dois gêneros, eles estão mais proximamente relacionados entre si do que outras aves (Sibley e Alquist, 1990) e sua ecologia é similar.
Os condores pertencem à família de aves Cathartidae (também chamada de Vulturidae). Esta família é conhecida popularmente como “urubus-do-novo-mundo" porque todos os seus membros são encontrados apenas no hemisfério ocidental. A Cathartidae inclui o conhecido urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) e o urubu-preto (Coragyps atratus), além de três outras espécies. Todos têm aparência de ave de rapina e são especializados em encontrar carne de animais mortos, da qual se alimentam. Entretanto, diferentemente dos parecidos urubus-do-velho-mundo, os quais são relacionados aos gaviões e águias, os urubus-do-novo-mundo são relacionados às cegonhas (Sibley & Alquist, 1990).
Neste relatório, analisamos as várias maneiras pelas quais os condores interagem com outros organismos e o ambiente, e explicamos por que estão ameaçados de extinção.
Ambos os condores se alimentam principalmente da carniça de mamíferos. Geralmente constroem ninhos em penhascos escarpados, embora ocorram algumas exceções (veja abaixo). A ninhada geralmente é de um ovo, entretanto, se algo ocorrer, um ovo é posto em substituição. Pelo fato de os pais condores levarem mais de um ano para criar um filhote, a taxa de reprodução é extremamente baixa: geralmente de apenas um filhote, em média, a cada dois anos.
Os condores-dos-andes em reprodução procuram alimento a 200 km de seus ninhos, enquanto os condores-californianos o fazem a 180 km (Wallace & Temple, 1987b; Meretsky & Snyder, 1992). Entretanto, quando o alimento está concentrado numa pequena área, o raio de forragem do condor é menor. Por exemplo, na árida costa do Peru, onde o oceano despeja um "suprimento de alimentos impressionantemente constante" de mamíferos e pássaros marinhos mortos, alguns condores-dos-andes limitam sua alimentação às "trechos de praia de vários quilômetros de extensão (MP Wallace em Snyder & Snyder, 2000)."
Snyder & Snyder (2000) listam três exigências de habitat para os condores: (1) ventos ou termais razoavelmente confiáveis para voar alto, (2) um habitat de alimentação suficientemente aberto para que se possa descobrir e acessar alimentos putrefatos e (3) suprimentos adequados de carniça. Um estudo sobre os condores-dos-andes no sul do Chile constatou que esses pássaros voavam alto com mais freqüência sob ventos moderados (25-48 km/h), e menos freqüentemente sob ventos fortes, isto é, acima de 64 km/h (Sarno et al., 2000).
No início do século XIX, os condores-dos-andes reproduziam-se ao longo de toda a cordilheira dos Andes, desde o oeste da Venezuela até a Terra do Fogo. Embora ainda sejam encontrados na maior parte desta cordilheira, sofreram intensa perseguição dos seres humanos e foram exterminados de muitos locais (Ridgely & Greenfield, 2001).
Segundo Murphy (1932), o condor-dos-andes é “um pássaro da montanha”, que permanece em altas elevações em "partes chuvosas e cobertas de florestas da América do Sul", mas que "regularmente desce até o nível do mar em distritos desertos", como por exemplo ao longo da árida costa pacífica do Peru e ao norte do Chile, e também ao longo da árida costa atlântica da Patagônia, desde o sul do Rio Negro até o Estreito de Magalhães (Murphy, 1936).
Além de ocorrer nas principais cadeias da cordilheira dos Andes, o condor-dos-andes também é encontrado em algumas cadeias montanhosas próximas. Por exemplo, ocorre nas zonas temperadas e nos páramos da Serra Nevada de Santa Marta na costa caribenha da Colômbia (Norton, 1975; Hilty & Brown, 1986), na Serra de Perijá na fronteira da Colômbia com a Venezuela (Calchi & Viloria, 1991; Hilty, 2003) e na Serra de Córdoba no centro da Argentina (Hendrickson et al., 2003). Também adentra o território brasileiro, no estado do Mato Grosso, especificamente na “região do Rio Jauru a oeste de Cáceres (Sick, 1993)”.
No século XIX, o condor-californiano era encontrado ao longo da costa oeste da América do Norte, desde o sul de British Columbia até a Serra San Pedro Martir ao norte da Baixa Califórnia (Snyder & Snyder, 2000). Nessa época, o pássaro também foi encontrado em Alberta, Montana, Idaho, Utah e Arizona, mas se desconhece se os indivíduos observados estavam nidificando no interior desses estados ou simplesmente passando por lá (Snyder & Rea, 1998; Snyder & Snyder, 2000). Os primeiros ornitólogos nunca tentaram encontrar ninhos do condor-californiano ao norte de São Francisco ou fora da Califórnia; por esse motivo, o exato alcance das áreas de reprodução das espécies no século XIX é desconhecido.
Tradições orais dos índios Blackfoot relatam a observação ocasional e possíveis ninhos do condor-californiano em Montana e Alberta durante o século XIX, e sobre as visitas desse pássaro às matanças de bisões nas planícies (Schaeffer, 1951). A confirmação da ocorrência de condores em Alberta foi dada por Fannin (1897), que observou dois indivíduos entre Calgary e as Montanhas Rochosas. Em Idaho, o condor foi relatado como "não incomum" próximo a Boise antes de os pecuaristas começarem a "envenenar carcaças para matar lobos (TE Wilcox em Lyon, 1918)”.
Durante a primavera, ao longo do Rio Columbia, o condor-californiano foi “particularmente vinculado às proximidades das cascatas e cachoeiras, sendo atraído pelo grande número de salmões mortos”, dos quais se alimenta (Townsend em Audubon, 1831-39) . Ao longo do mesmo rio, o condor também foi visto “próximo a vilas indígenas [norte-americanas], tendo sido atraído pelos restos de peixes jogados próximos a suas habitações (Townsend em Audubon 1831-39)”. No Arizona, muitos ornitólogos renomados, como Elliott Coues por exemplo, observaram condores-californianos entre 1865 e 1924, e consideraram que estariam nidificando naquele estado (Snyder & Rea, 1998).
No final dos séculos XIX e XX, o envenenamento e a caça dos condores causaram um declínio maciço de muitas populações, resultando no desaparecimento dos condores de ambas as espécies de muitas partes de suas antigas áreas. A situação tornou-se especialmente difícil para o condor-californiano, que tornou-se extinto na natureza entre 1987 e 1992.
Felizmente, a reprodução em cativeiro e os programas de libertação começaram a restituir os condores à natureza em algumas áreas das antigas cadeias (por exemplo, Califórnia, Arizona, Baixa Califórnia, Colômbia e Venezuela). Contudo, pelo fato de os casais de condores em nidificação de ambas as espécies criarem apenas um filhote a cada dois anos em média, e também porque o envenenamento e a caça ainda continuam a causar a morte dos condores a índices alarmantes, serão necessários muitos anos antes que o número de condores selvagens retorne aos níveis do século XIX. Até então, as populações de ambas as espécies de condores continuarão ameaçadas.
Ambas as espécies de condores eram mais abundantes nos períodos pré-históricos do que no século XIX. Durante o Pleistoceno nas Américas do Norte e do Sul, por exemplo, os condores parecem ter se distribuído por ambos os continentes, desde o Atlântico até o Pacífico, ocorrendo em muitas áreas onde não se encontram hoje.
Uma possível explicação para o florescimento dos condores nesta época é que grandes manadas de ungulados, bem como outros grandes mamíferos, tais como preguiças e elefantes, cruzavam as Américas naquela ocasião, fornecendo aos condores uma abundância de carniça das quais se alimentavam. Muitos desses mamíferos pré-históricos estão em extinção, portanto a redução dos grupos de condores pode de certa forma ser relacionada a este fato (Emslie, 1987; Steadman & Miller, 1987).
Entretanto, outras explicações também são possíveis. Por exemplo, a matança de condores pelos índios americanos para fins cerimoniais (McMillan, 1968; Snyder & Snyder, 2000) pode ter aumentado desde o Pleistoceno, e apenas esta atividade pode ter causado a extinção dos condores em partes significativas de suas áreas de abrangência. Alternativamente, as condições dos ventos, que permitem que esses pássaros voem alto, podem ter ficado menos favoráveis em algumas regiões, resultando no abandono dessas áreas (Tonny & Noriega, 1998).
Fósseis de condores do Pleistoceno foram encontrados em vários locais fora das áreas de distribuição de ambas as espécies no século XIX. Por exemplo, restos de um condor-dos-andes de 13.000 anos de idade foram encontrados em cavernas em Lagoa Santa, Minas Gerais, Brasil (Alvarenga em Sick, 1993), enquanto restos do condor-californiano de 9.500 a 16.000 anos foram descobertos em Nova Iorque, Flórida, Texas, Novo México e Arizona, bem como na Califórnia e em outros estados da região oeste (Emslie, 1987; Snyder & Snyder, 2000).
Os fósseis do condor-californiano descobertos a oeste do estado de Nova Iorque, próximo à vila de Byron, no condado de Genesee, são especialmente interessantes porque datam de uma época (9.000 A.C.) quando a flora e a fauna estavam reocupando a terra após o derretimento dos glaciares. A vegetação conífera e boreal, caracterizada por píceas (Picea sp.) e pinheiros (Pinus banksiana), dominava a área naquela época e acredita-se que o clima fosse frio. Os fósseis encontrados em associação aos do condor-californiano neste local incluíam os extintos mastodontes (Mammut americanum), renas (Rangifer sp.) e veados (Cervus elaphus).
Essas constatações demonstram que o condor-californiano "conseguia viver em um clima mais frio e num ambiente boreal e conífero numa época em que o alimento adequado (carniça de mamíferos de grande porte) estava disponível (Steadman & Miller, 1987)." Synder & Snyder (2000) ressaltam que a presença dos fósseis de condores-californianos em locais tão afastados uns dos outros, como Nova Iorque, Flórida, região sudoeste e nordeste do Pacífico, sugere que esta espécie apresenta "tolerâncias climáticas e habitats muito amplos”. Sua conclusão também é apoiada pela vasta distribuição do condor-californiano no oeste da América do Norte no início do século XIX, uma extensão que incluía a região costeira do Pacífico, desde British Columbia até a Baixa Califórnia, e no interior até as regiões do Grand Canyon e das Montanhas Rochosas (veja a seção anterior).
Ambas as espécies de condores nidificam principalmente em penhascos. Entretanto, informações detalhadas sobre as características do local dos ninhos estão disponíveis atualmente apenas em relação ao condor-californiano.
Os condores-californianos constroem ninhos desde a proximidade do nível do mar até uma altitude de 1.830 metros (Snyder et al., 1986). Os locais para ninhos em altas elevações diferem daqueles em baixas altitudes, uma vez que estes geralmente estão voltados para o sul; contudo não se sabe se os penhascos voltados para o sul são utilizados com maior freqüência porque são mais aquecidos ou simplesmente porque são mais abundantes (Snyder et al., 1986).
Embora a maioria dos ninhos dos condores-californianos seja construída em penhascos (em buracos, fendas, fissuras ou saliências suspensas), alguns são montados em fendas entre grandes blocos de pedra arredondadas em encostas escarpadas e em cavidades naturais de grandes árvores (Snyder et al., 1986). Na Serra Nevada, por exemplo, os condores não apenas nidificam em penhascos, mas também em cavidades da sequóia-gigante (Sequoiadendron giganteum), a maior espécie de árvore do mundo (Koford, 1953; Snyder et al., 1986). Um ninho construído numa sequóia ficava a 29 metros acima do solo, enquanto outro, situado em uma sequóia diferente, estava a 30 metros (Snyder et al., 1986). Ambos foram colocados em cavidades “produzidas pelo desgaste de ramos nos principais troncos das árvores (Snyder et al., 1986)”.
Numa pesquisa com 96 sequóias-gigantes, Snyder et al (1986) constataram que 20% dessas árvores apresentavam cavidades naturais, todas produzidas por desgastes semelhantes, demonstrando a dependência dos condores-californianos em relação aos fogo selvagem para produzir buracos para ninhos nessas árvores. Nas Montanhas de Santa Lucia na costa da Califórnia Central, um ninho de condor foi encontrado “no oco de um antigo e alto carvalho, num íngreme barranco, próximo ao cume de um dos picos mais altos (Taylor, 1859)”.
O condor-californiano macho encontrou um local para construir o ninho na cavidade de uma sequóia-gigante, sendo que, no ano anterior, havia nidificado com outra fêmea a 150 km de distância num buraco em um penhasco, demonstrando que pelo menos alguns indivíduos diversificam a escolha dos locais para nidificação (Snyder e Johnson, 1985).
Os condores-californianos parecem evitar construir ninhos em áreas onde as águias-reais (Aquila chrysaetos) são comuns (Snyder & Snyder, 2000). Entre os vários locais de nidificação estudados nos anos 80, apenas um estava situado num território onde a observação de águias-reais era freqüente (Snyder & Snyder, 2000). Felizmente para os condores, este território também apresentava numerosos ninhos de falcões-da-pradaria (Falco mexicanus), que protegiam o ninho do condor contra a predação das águias ao espantá-las (para obter mais informações, consulte a próxima seção: Associações de Ninhos para Proteção).
Conforme mencionado anteriormente, o condor-dos-andes também constrói ninhos principalmente em penhascos, entretanto, de maneira semelhante ao condor-californiano, é adaptável e pode nidificar em outros lugares. Por exemplo, ao longo da costa árida do Peru, onde o terreno é relativamente plano, alguns locais de ninhos dessa espécie são “pouco mais do que fendas parcialmente cobertas por sombra pegadas a grandes blocos de pedra arredondados em pequenas inclinações (MP Wallace em Snyder & Snyder, 2000)."
Os condores e os grandes falcões às vezes constroem ninhos próximos uns dos outros. Embora os falcões sejam menores do que os condores, são melhores defensores de seus ninhos. Conseqüentemente, quando os falcões afastam agressivamente outros predadores de seus territórios de nidificação, também os afastam dos ninhos dos condores nas cercanias e, portanto, aumentam as chances de sobrevivência dos ninhos e filhotes do condor (Snyder & Snyder, 2000).
Na Califórnia, o corvo (Corvus corax) é o principal predador dos ovos do condor, enquanto a águia real é o principal predador dos filhotes dessa ave (Snyder & Snyder, 2000). Um território de nidificação do condor-californiano foi monitorado por vários anos e, durante um ano, constatou-se que pelo menos cinco casais de falcões-da-pradaria construíram ninhos "dentro de um raio de 2,4 km do centro do território", afastando a maioria dos corvos e águias-reais que o invadiram (Snyder & Snyder, 2000). Não é de se surpreender que o ovo e o filhote do condor tenham sobrevivido nesse território durante a estação de nidificação. Dois anos mais tarde, entretanto, os falcões-da-pradaria construíram ninhos mais afastados dos ninhos do condor e, conseqüentemente, não propiciaram defesa para os ninhos dos condores. Durante esta estação, os corvos invadiram o território e construíram ninhos próximos aos dos condores. Não surpreendentemente, esses corvos motivaram os "dois insucessos consecutivos da nidificação dos condores (Snyder & Snyder, 2000)”.
Obviamente, nidificar próximo aos falcões também é dispendioso para os condores, uma vez que os falcões mergulham agressivamente sobre os condores, fazendo-os perder tempo e energia para se esquivarem desses ataques. Entretanto, o custo vale a pena para os condores caso seus ninhos estejam sob a ameaça de águias e corvos (Snyder & Snyder, 2000). Para obter mais informações sobre como os pássaros aumentam o sucesso de reprodução ao construírem ninhos próximos a falcões e outras aves de rapina, leia nosso artigo especial “Gaviões, Corujas e Falcões que Protegem Ninhos de Pássaros”.
Quatro ninhos de condores-californianos também foram encontrados próximos aos ninhos ativos de abelhas mamangaba (Bombus spp.) ou abelhas melíferas (Apis melifera - Snyder et al., 1986). Não se sabe se essas abelhas protegem os ninhos dos condores contra predadores ou não, mas essa proteção tem sido reportada em relação a muitas outras espécies de pássaros que nidificam com abelhas (Haemig, 2001).
Os condores se alimentam de mamíferos mortos de qualquer tamanho que encontrarem. Por exemplo, os condores-californianos se alimentam de mamíferos de porte pequeno como ratos-canguru, esquilos e coelhos, médio como coiotes (Canis latrans), lobos, pumas ou suçuaranas (Puma concolor) e grande como veados, ursos e baleias (Koford, 1953; Collins et al., 2000). A carniça de gado doméstico também serve de alimento extensivamente para os condores, uma vez que é tão abundante hoje em dia.
Em uma caverna no Grand Canyon utilizada pelos condores-californianos para nidificação de 9.000 a 13.000 anos atrás, foram encontrados ossos das seguintes espécies de presas, cujos restos devem ter servido como alimento para os filhotes de condores na época: bisão (Bison sp.), zebra (Equus sp.), mamute (Mammuthus sp.), camelo (Camelops sp.) e a extinta cabra montesa (Oreamnos harringtoni; Emslie, 1987).
Da mesma forma que os condores-californianos do Pleistoceno do Grand Canyon, os condores-dos-andes hoje se alimentam da carniça de camelos, incluindo o guanaco (Lama guanicoe) (Sarno et al., 2000), a vicunha (Vicugna vicugna) e os descendentes domesticados da lhama (Lama glama) e da alpaca (Vicugna pacos). Também se alimentam de uma grande variedade de outros mamíferos mortos (Houston, 1994)
Os condores não se limitam a alimentos terrestres, nas regiões costeiras, se alimentam extensivamente da vida marinha. A carniça de animais marinhos é especialmente importante para os condores que vivem em regiões áridas porque, nessas áreas, os mamíferos que pastam são menos abundantes e o mar geralmente produz mais alimentos para os condores do que a terra.
Por exemplo, ao longo das áridas costas do Peru e do Chile, o condor-dos-andes alimenta-se extensivamente da carniça de animais marinhos trazida pelas ondas. Os alimentos registrados em sua dieta incluem as carcaças de baleias e golfinhos, leões-marinhos (Otaria byronia), lobos-marinhos-sulamericanos (Arctocephalus australis), yuncos (Pelecanoides garnotii), pingüins de Humboldt (Spheniscus humboldti), tartarugas-verdes (Chelonia mydas), peixes e algas pardas (Murphy, 1936; Housse, 1945; Wallace e Temple, 1987a).
Durante os anos do El Niño, quando ocorreu uma alta mortalidade dos vertebrados marinhos, os condores geralmente se beneficiavam do maior suprimento alimentar quando as correntes do oceano depositavam as carcaças nas praias que sobrevoavam (Murphy, 1936). Se, entretanto, as correntes do oceano levassem os animais mortos para as praias de áreas urbanas densamente populadas, as quais os condores têm medo de visitar, eles não teriam acesso a esse alimento (Wallace & Temple, 1988).
Os condores-californianos também se alimentam de animais marinhos mortos. Durante o século XIX, por exemplo, quando as baleias eram mais comuns do que atualmente, Gambel (1846) registrou que "não era incomum" observar condores-californianos se alimentando das carcaças de baleias que haviam sido jogadas nas praias da Califórnia. Próximo a Monterey, Taylor (1859b) também observou condores “se alimentando da carcaça de uma baleia na costa".
Mais ao norte, ao longo da costa de Oregon, durante o inverno de 1805-1806, Meriwether Lewis e William Clark observaram condores-californianos se alimentando dos restos de uma baleia e de peixes que foram “lançados pelas ondas na costa marítima”. Nos meses de inverno durante os quais esses renomados exploradores permaneceram próximos ao estuário do Rio Columbia, eles encontraram o condor “mais abundante abaixo do que acima do nível da maré (Lewis & Clark [1804-1806], 1990)”.
Mesmo no final do século XX, quando o condor-californiano estava quase extinto na natureza, fragmentos de moluscos marinhos, inclusive o marisco Tivela stultorum, o Chione californiensis e conchas Polinices sp. foram freqüentemente encontrados em ninhos de condores em cavernas no sul da Califórnia (Collins et al., 2000), sugerindo a alimentação dos filhotes pelos pais na zona de entremarés.
Os condores que vivem ao longo das costas áridas também voam para ilhas em alto mar para atacar os ovos e filhotes de pássaros marinhos em colônias. Por exemplo, quando Murphy (1925) visitou a Ilha Ásia na costa do Peru central, observou condores-dos-andes, urubus-de-cabeça-vermelha e gaivotas se alimentando dos ovos de uma grande colônia de biguás, chamados de guanays (Phalacrocorax bougainvilli), contendo “inúmeros ovos e filhotes”. Segundo Murphy, os condores, urubus e gaivotas eram “mais abundantes e predatórios” do que em qualquer outro lugar que ele havia visitado. Um condor ficava no meio da colônia de corvos-marinhos, “rodeado por um círculo de ninhos abandonados e saqueados”. Quando este condor era atingido e pego pelos pés, “as claras e a maioria das gemas intactas de uma dúzia de ovos frescos saíam de sua garganta". Uma vez que praticamente não havia fragmentos da casca visíveis nesta refeição, Murphy sugeriu que “os condores devem sugar o conteúdo dos ovos com sua língua em forma de calha”.
Durante sua visita à Ilha Ásia, Murphy observou um mínimo de 18 condores “voando lentamente para lá e para cá” sobre a colônia de corvos-marinhos e, antes do meio-dia, assistiu a todos voltarem para o continente. Ele acrescentou que em Santa Rosita, uma ilha próxima, um informante confiável observou 36 condores descendo juntos sobre uma colônia de guanays. Em San Gallan, outra ilha na costa do Peru, Murphy (1925) constatou que os condores-dos-andes permaneciam próximos da saída das tocas dos petréis-mergulhadores-peruanos, arrebatando e comendo os que estavam saindo. Portanto, o condor-dos-andes não é apenas um animal que se alimenta de carniça nessas ilhas, mas também uma ave de rapina, que se alimenta de pássaros marinhos adultos e ovos, bem como de carne em putrefação (Murphy, 1925). Felizmente para os pássaros marinhos em nidificação, se um condor comer seus ovos e filhotes, eles podem botar outros ovos para substituir os desperdiçados.
Parece que o condor-californiano também se alimentava nas ilhas em alto mar. Por exemplo, durante o século XX, uma moradora de Oxnard, Califórnia, uma grande amiga da Professora Barbara B. DeWolfe (Universidade da Califórnia, Santa Bárbara), contou a DeWolfe que geralmente observava condores-californianos voando em direção às Ilhas Channel, presumivelmente para atacar os ninhos de pássaros marinhos e se alimentar da carniça de vertebrados marinhos ou de animais domésticos criados no local (Barbara B. DeWolfe, comentário pessoal para a autora nos anos 80). Os fósseis dos condores-californianos também foram encontrados nessas ilhas, sugerindo que exploravam recursos marinhos naquele local há milhares de anos (Orr, 1968; Guthrie, 1992, 1993).
Quando os condores descem para se alimentar de uma carcaça, geralmente encontram outras espécies de carniceiros que já estão se alimentando. Às vezes os condores se juntam pacificamente a esses outros animais, com os quais se alimentarem, porém, outras vezes, lutam para afastá-los ou aguardam até que tenham terminado de comer e saído. Felizmente para os condores, o grande corpo os ajuda a vencer os confrontos com outros urubus.
No Peru, por exemplo, Wallace e Temple (1987a) estudaram as interações dos condores-dos-andes com outras espécies de urubus nas carcaças e constatou que as espécies maiores dominavam as menores. Uma vez que os condores tinham o maior tamanho corporal, ocupavam o topo da hierarquia de dominação e os outros urubus se submetiam aos mesmos. Os urubus-de-cabeça-vermelha geralmente chegavam em primeiro lugar numa carcaça, os urubus-pretos em segundo e os condores em terceiro. Mesmo assim, quando os condores chegavam, as outras espécies de urubus geralmente se rendiam aos mesmos. Os condores venceram 100% das interações agressivas com os urubus-de-cabeça-vermelha, 94% com os urubus-pretos e 100% com os urubus-reis (Sarcoramphus papa). Um urubu-rei (a segunda maior espécie) nunca iniciou um confronto com um condor. Além disso, os condores macho, cujo sexo é mais numeroso, dominavam as fêmeas da mesma idade.
Na América do Norte, o urubu-de-cabeça-vermelha também chega antes às carcaças, geralmente em primeiro lugar devido a seu olfato bem desenvolvido. Contudo, em algumas regiões, os corvos são mais abundantes do que os urubus-de-cabeça-vermelha e, portanto, geralmente chegam primeiro na carcaça, seguidos das águias-reais e dos condores-californianos (Snyder & Snyder 2000). O condor maior domina os urubus-de-cabeça-vermelha e os corvos, fazendo-os sucumbir durante confrontos.
Todavia, as interações entre o condor-californiano e a águia real são mais complexas e não seguem a hierarquia de dominância baseada simplesmente em tamanho. Os condores-californianos pesam aproximadamente o dobro das águias-reais, mesmo assim, geralmente aguardam as últimas terminarem de comer e ir embora antes de se aproximarem da carcaça, talvez temendo suas perigosas garras (Snyder & Snyder, 2000). Em algumas ocasiões, talvez quando muito famintos, os condores-californianos adultos desafiam as águias-reais e as afastam das carcaças, embora isso não tenha sido observado com condores jovens (Snyder & Snyder, 2000).
Quando os condores descem para se alimentar de uma carcaça, geralmente encontram outras espécies de carniceiros que já estão se alimentando. Às vezes os condores se juntam pacificamente a esses outros animais, com os quais se alimentarem, porém, outras vezes, lutam para afastá-los ou aguardam até que tenham terminado de comer e saído. Felizmente para os condores, o grande corpo os ajuda a vencer os confrontos com outros urubus.
No Peru, por exemplo, Wallace e Temple (1987a) estudaram as interações dos condores-dos-andes com outras espécies de urubus nas carcaças e constatou que as espécies maiores dominavam as menores. Uma vez que os condores tinham o maior tamanho corporal, ocupavam o topo da hierarquia de dominação e os outros urubus se submetiam aos mesmos. Os urubus-de-cabeça-vermelha geralmente chegavam em primeiro lugar numa carcaça, os urubus-pretos em segundo e os condores em terceiro. Mesmo assim, quando os condores chegavam, as outras espécies de urubus geralmente se rendiam aos mesmos. Os condores venceram 100% das interações agressivas com os urubus-de-cabeça-vermelha, 94% com os urubus-pretos e 100% com os urubus-reis (Sarcoramphus papa). Um urubu-rei (a segunda maior espécie) nunca iniciou um confronto com um condor. Além disso, os condores macho, cujo sexo é mais numeroso, dominavam as fêmeas da mesma idade.
Na América do Norte, o urubu-de-cabeça-vermelha também chega antes às carcaças, geralmente em primeiro lugar devido a seu olfato bem desenvolvido. Contudo, em algumas regiões, os corvos são mais abundantes do que os urubus-de-cabeça-vermelha e, portanto, geralmente chegam primeiro na carcaça, seguidos das águias-reais e dos condores-californianos (Snyder & Snyder 2000). O condor maior domina os urubus-de-cabeça-vermelha e os corvos, fazendo-os sucumbir durante confrontos.
Todavia, as interações entre o condor-californiano e a águia real são mais complexas e não seguem a hierarquia de dominância baseada simplesmente em tamanho. Os condores-californianos pesam aproximadamente o dobro das águias-reais, mesmo assim, geralmente aguardam as últimas terminarem de comer e ir embora antes de se aproximarem da carcaça, talvez temendo suas perigosas garras (Snyder & Snyder, 2000). Em algumas ocasiões, talvez quando muito famintos, os condores-californianos adultos desafiam as águias-reais e as afastam das carcaças, embora isso não tenha sido observado com condores jovens (Snyder & Snyder, 2000).
Indivíduos da mesma espécie de condores também podem lutar e afastar uns aos outros. No norte da Patagônia, Donázar et al. (1999) estudaram os condores-dos-andes nas carcaças e constataram uma hierarquia de dominância baseada em tamanho, sexo e idade. Os condores macho, cujo peso era de 36 a 37% superior ao das fêmeas, dominavam as fêmeas independentemente de idade. Além disso, dentro de cada grupo de sexo, os pássaros mais velhos dominavam os mais jovens. Portanto, os condores macho adultos ocupavam o topo da hierarquia de dominância, enquanto as jovens fêmeas ocupavam o nível inferior.
Considerando que os machos e as fêmeas mais velhas as afastavam das carcaças, as jovens fêmeas tendiam a evitar a alimentação nas montanhas, onde o alimento era mais abundante e o encontro com machos e fêmeas mais velhas seria mais provável. Em vez disso, se alimentavam mais freqüentemente nas planícies, onde era menos provável encontrar alimento, porém mais provável que se evitassem confrontos com machos e fêmeas mais velhas quando de fato encontravam alimento. Os machos e fêmeas adultas preferiam se alimentar nas montanhas ricas em alimentos.
No norte do Peru, Wallace e Temple (1987) registraram resultados um pouco diferentes. Constataram que, enquanto os machos dos condores-dos-andes geralmente afastavam as fêmeas da mesma idade nas carcaças, as fêmeas às vezes afastavam os machos um ano mais novos do que as mesmas.