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Indústria de Transformação de Alimentos

 

 

A tecnologia de alimentos é definida pela Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia como a aplicação de métodos e técnicas para o preparo, armazenamento, processamento, controle, embalagem, distribuição e utilização dos alimentos.

Através da tecnologia empregada, pretende-se que os alimentos se conservem pelo maior tempo possível, evitando as perdas decorrentes de um sistema de abastecimento deficiente e da sazonalidade. Em vista disso, o setor que mais se desenvolveu nesta área da ciência moderna foi o de métodos de conservação de alimentos.

Com base na microbiologia, descobriu-se que existem microorganismos que proliferam também em ausência de oxigênio. São as bactérias anaeróbicas, que têm a capacidade de deteriorar os alimentos industrializados enlatados (fechados a vácuo), como também, dependendo do grupo, de transformá-los em perigo para a saúde do ser humano. O grupo Clostridium sobrevive no alimento processado na forma de esporos, alojando-se no intestino do homem, produzindo a toxina causadora do botulismo. O botulismo, quando não diagnosticado a tempo e não ocorrendo a devida medicação, leva à morte. A solução encontrada pela indústria, para destruir tanto a flora deteriorada quanto a patogênica foi a esterelização (destruição pelo calor). O alimento é submetido a um tratamento no vapor por tempo e temperatura determinados. No entanto, nem todo alimento resiste a temperaturas mais elevadas sem perder sua consistência normal. Nesse caso, a indústria é obrigada a utilizar outros meios para impedir a germinação do esporo, como a diminuição do pH com auxílio de aditivos.

Cientificamente, está provado que o calor reduz o valor nutricional dos alimentos; sua ação se verifica na alteração da estrutura dos aminoácidos, provoca a complexação dos sais minerais (junção de diferentes moléculas) diminuindo sua disponibilidade e a perda de vitaminas importantes como a tiamina (B1) e o ácido ascórbico. Do ponto de vista nutricional, portanto, o consumo de enlatados, apesar de sua praticidade, constitui uma desvantagem devido às perdas que ocorrem no processo e à alteração das propriedades organolépticas dos alimentos.

A melhor recomendação é a de equilibrar ao máximo a alimentação, isto é, evitar excessos. A ingestão constante de alimentos industrializados, consumir um produto em grandes quantidades, são circustâncias que podem facilitar ou predispor a ocorrência de distúrbios na saúde, muitas vezes difíceis de serem percebidos no diagnóstico das possíveis causas. Buscar, na medida do possível, privilegiar o consumo de alimentos frescos e produzidos sob manejo orgânico ou processados sem o uso de aditivos sintéticos é uma maneira simples e eficiente de diminuir à exposição às substâncias potencialmente prejudiciais à saúde.

Indústria de Transformação de Alimentos
A melhor recomendação é a de equilibrar ao máximo a alimentação, isto é, evitar excessos

Aditivos Químicos Sintéticos

Dificilmente, hoje em dia, o consumidor encontra nas prateleiras dos supermercados e entrepostos de comercialização, um alimento processado que não contenha nenhum tipo de aditivo químico sintético.

A indústria de alimentos e a química cresceram e se interligaram de tal forma que um complexo sistema de pesquisas científicas se dedica a buscar novos princípios ativos que forneçam condições essenciais ao processamento, tornem o alimento mais estável e atraente e prolonguem sua vida de prateleira. Somente nos E.U.A, são produzidos mais de oito mil tipos de aditivos anualmente.

O Ministério da Saúde define que "aditivo para alimentos é toda substância intencionalmente adicionada ao mesmo com finalidade de conservar, intensificar ou modificar suas propriedades, desde que não prejudique seu valor nutritivo.

Na legislação brasileira são doze as categorias (classes funcionais) de aditivos: acidulantes, antiespumantes, antioxidantes, antiumectantes, aromatizantes, conservadores, corantes, edulcorantes artificiais, edulcorantes naturais, espessantes, estabilizantes, umectantes.

Para o consumidor, porém, o que é apresentado nas embalagens é uma verdadeira "sopa" de letras e números (P.I, EPX, A-I, CT II, etc.) de difícil compreensão para o público leigo que compõem a quase totalidade dos consumidores. Considerando que o Código do Consumidor garante a este o direito a uma informação clara e precisa no rótulo a respeito do que contém o alimento, ainda há muito o que se reinvindicar nessa área.

Os aditivos, quanto à sua origem, podem ser: naturais (extraídos de plantas), semi-sintéticos (obtidos a partir de substâncias naturias e sintetizados artificialmente) ou sintéticos (produzidos quimicamente em laboratórios).

Outra classificação importante, diz respeito à sua presença nos alimentos, os aditivos podem ser:

Intencionais: aqueles adicionados propositadamente aos alimentos no processamento industrial. Podem ser obrigatórios (espessantes, estabilizantes) ou opcionais (corantes).

Incidentais ou Acidentais: são resíduos de substâncias encontradas nos alimentos como os agrotóxicos e antibióticos utilizados na agropecuária convencional.

O comitê de especialistas em alimentos de vários paises ligado à Organização Mundial de Saúde, não permite o uso de aditivos incidentais nos alimentos.

Também as regras internacionais e mundiais para produtos agroecológicos além de proibirem o uso de agrotóxicos e de quaisquer outros produtos na lavoura e na criação animal que gerem resíduos potencialmente tóxicos nos alimentos, não admitem o uso de aditivos semi ou inteiramente sintéticos nos alimentos orgânicos. Desta forma, dão um passo adiante, no sentido de apresentarem um cuidado maior com a saúde dos consumidores.

Cabe ressaltar, contudo, que alguns aditivos naturais utilizados pela indústria são, inclusive, substâncias essenciais ao corpo humano, como as vitaminas A, C e E.

Outras são encontradas naturalmente nos alimentos (como o a lactose do leite e a albumina do ovo) e adicionadas a outros produtos sem riscos de gerarem efeitos colaterais. Para saber o que é permitido na produção agroecológica, é necessário consultar o Anexo V da Instrução Normativa n0 007 de 19/05/1999.

Em caso de dúvida sobre algum aditivo natural que não esteja contemplado nesta lei, o consumidor deverá entrar em contato com uma das entidades certificadoras, a fim de obter esclarecimento sobre o tema.

Veja, a seguir, os 12 aditivos sintéticos mais comuns, que devem ter um consumo restrito ou evitado e seus riscos para a saúde humana:

1 – Gorduras Hidrogenadas: riscos de doenças cardiovasculares e obesidade.

2 – Corantes Artificiais para alimentos: alergias, asma, hiperarividade, possibilidade de serem substâncias carcinogênicos (que induzem o aparecimento de cânceres).

3 – Nitritos e Nitratos: essas substâncias podem gerar nitrosaminas no organismo, que podem ser cancerígenas.

4 – Sulfitos (dióxido de enxofre, metabisulfito, e outros): reações alérgicas e asmáticas.

5 – Açúcares e Adoçantes: obesidade, cáries, diabetes, hipoglicemia, incremento de triglicerídeos (gordura na corrente sanguínea) ou candidíase.

6 – Adoçantes artificiais (Aspartame, Acesulfame K e Sacarina): problemas de comportamento, hiperativiade, alergias e possivelmente carcinogênicos. O governo desaconselha o uso de adoçantes artificiais para crianças e mulheres grávidas. Qualquer pessoa com fenilcetonúria (com incapacidade para metabolizar o aminoácido “fenilalanina” presente nas proteínas) não deve usar o aspartame.

7 – Glutamato monosódico: alergias e reações como dores de cabeça e depressão, também pode agir como uma neurotoxina.

8 – Conservantes (Butil Hidroxitolueno – BHT; Butil Hidroxianisol – BHA; Cálcio Dissódico – EDTA, entre outros): reações alérgicas, hiperatividade, possibilidade de causar câncer. O BHT pode ser tóxico para o sistema nervoso.

9 – Flavorizantes Artificiais: alergias e alterações no comportamento.

10 – Farinhas refinadas: baixo teor de calorias, desbalanceamento de carboidratos, alterações na produção de insulina.

11 – Sal (excesso): retenção de líquidos no corpo e aumento da pressão arterial.

12 – Olestra (um tipo de gordura artificial): diarréia e distúrbios digestivos.

Radiações Ionizantes

Após a descoberta da radioatividade em 1896, por Henri Becquerel, verificou-se em laboratório que as radiações ionizantes afetavam os sistemas biológicos.

Por meio delas, organismos vivos podiam ser exterminados e a estrutura dos tecidos alterada. Na década de 50, a Comissão de Energia Atômica e o Exército Americano financiaram pesquisas sobre o uso de radiações ionizantes para preservação dos alimentos. Em 1963, a FDA (Food and Drug Administration) permitiu seu uso no trigo e derivados, assim como no bacon. Posteriormente, vários países como a URSS e Israel, passaram a realizar pesquisas na área, objetivando o seu emprego.

Atualmente, as radiações ionizantes são utilizadas com os seguintes objetivos: esterilização, pasteurização, desinfestação e inibição da germinação. Os níveis de radiação envolvidos compreendem uma faixa entre 5 mil e 4 milhões de "radios" (uma medida padrão para mensurar a radiação absorvida). Para se ter uma idéia dessa radiação, os aparelhos de raios X emitem menos que um radio por sessão.

Apesar de os especialistas afirmarem que não há intenção de uso de radiações com alta energia como a dos nêutrons, que tornariam os alimentos radioativos, é fundamental uma análise crítica sobre o seu uso, uma vez que, até o momento, não existem estudos suficientes que garantam sua inocuidade; isto, por si só, é suficiente para avaliação do binômio risco-benefício.

Cabe salientar que as radiações, conforme já foi comprovado, destroem tecidos vivos e impedem a germinação.

O valor nutricional do alimento também é afetado: vitaminas A, C, E, K, B12, B6 e o ácido fólico são inativadas ou destruídas no processo. Proteínas são desnaturadas e as gorduras tendem à rancificação (se oxidam), pela destruição dos antioxidantes. Considerando que o principal objetivo da alimentação é nutrir o organismo, torna-se altamente questionável o uso de um processo de conservação de alimentos que destrói tantos nutrientes essenciais ao corpo humano.

Apesar de já existirem normas e padrões para alimentos irradiados com a aprovação do Ministério da Saúde, o uso dessa tecnologia envolve questões sociais mais complexas. É imprescindível analisar de que forma este e outros métodos empregados hoje na indústria de alimentos para sua conservação contribuem verdadeiramente para tornar o alimento mais saudável, seguro e barato para a população. Essa questão é fundamental quando sabemos que boa parte dos alimentos industrializados perdem seu valor nutricional, em função dos métodos de conservação empregados. Ou quando consideramos que o baixo poder aquisitivo da população restringe seu acesso a alimentos mais elaborados; sem mencionar os desperdícios que ocorrem devido à ineficiência do atual sistema de abastecimento.

Outro aspecto fundamental é o acesso do consumidor à informação. Devido ao desconhecimento, alguns produtos são rejeitados devido à sua aparência, como é o caso do iogurte de morango, originalmente branco, que o consumidor só o aceita com o acréscimo de corantes artificiais. Assim, para reconhecer o valor biológico e nutricional dos alimentos como dimensões prioritárias na construção de uma boa saúde, o consumidor necessitará conhecer os riscos e inconvenientes de diversos processos de industrialização de alimentos para realizar uma escolha criteriosa do que levará para casa.

Em outras palavras: atualmente, saber o que se come é tão importante quanto saber comer.

Fonte: www.planetaorganico.com.br

Indústria de Transformação de Alimentos

PADRÕES INDUSTRIAIS, CULTURA TÉCNICA, MODOS DE VIDA E OS PROBLEMAS AMBIENTAIS MODERNOS

A organização do meio ambiente acompanha a evolução da indústria. A intervenção da indústria por intermédio da sua escala de tecnologia é uma remodeladora do entorno ambiental, reordenando-o espacialmente sob diferentes formas. Por longo tempo na história, a indústria seguia os traços gerais desse entorno, remodelando-o sem alterá-lo fortemente. Nos últimos séculos, entretanto, desde a revolução industrial, esta relação se torna desfavorável para o meio ambiente, a indústria alterando-o e mesmo destruindo-o drasticamente.

As relações espaciais da indústrias e o meio ambiente

A indústria é uma atividade de transformação, residindo nesta característica sua distinção entre as demais atividades, seja da agropecuária e seja de prestação de serviços. Ela divide com a agropecuária e as diferentes formas de extrativismo as funções de produção numa economia. A agropecuária e os extrativismos formam o setor primário, a indústria o secundário e os serviços o terciário. A indústria divide com a agropecuária e as diferentes formas de extrativismo as funções de produção. As atividades primárias respondem pela produção de alimentos e matérias-primas e a indústria pela transformação desses alimentos e matérias-primas em produtos manufaturados, cabendo ao setor terciário o papel de correia de transmissão entre aqueles dois setores de produção, exercendo a função da circulação e ligando e organizando o intercâmbio de produtos entre os setores primário e secundário.

A indústria existe e interage com o meio ambiente assim dentro de uma vida mais ampla de relação, desempenhando sua relação espacial com o meio ambiente junto com as atividades dos demais setores.

Até a revolução industrial, era o setor da circulação o elemento dinâmico e integrador dos espaços, cabendo-lhe o papel de elo de ligação entre as atividades econômicas entre si a partir dos seus diferentes pontos de localização geográfica. Com a revolução industrial a indústria assume o papel de centralidade dinâmica, fazendo do setor da circulação um braço a seu serviço. É assim que desde então a indústria potencializa sua relação espacial com o meio ambiente, ganha o poder de transformação que conhecemos e se torna o vilão do meio ambiente.

A tecnologia, as formas históricas de indústria e a relação ambiental industrial

Todavia o teor qualitativo dessa relação com o meio depende mais do padrão de tecnologia usado pela indústria que dessa centralidade espacial que ela adquire com a revolução industrial. O problema ambiental não está relacionado em si com a indústria ou seu papel central na modelagem das relações da economia com o espaço, mas desse padrão de tecnologia. Vale dizer que também não é a tecnologia o problema, mas o padrão com que vem investida no âmbito da organização da indústria e da relação desta com o meio ambiente.

A tecnologia pode ser definida como o modo como se define a relação ambiental do homem em suas atividades econômicas através dos recursos mecânicos. É parte intrínseca da história da relação ambiental de um lugar. As máquinas são artefatos potencializadores da capacidade de realização de trabalho do corpo do homem. São prolongamentos dos braços, das pernas, da energia vital do homem, amplificando a potencia transformadora se suas forças. São a multiplicação da complexidade da relação do corpo do homem com os demais corpos do meio ambiente.

A cada período da história econômica, variam os padrões dos artefatos mecânicos. Em geral, variam segundo o tipo histórico de indústria.

São conhecidas três formas históricas de indústria no tempo: o artesanato, a manufatura e a fábrica.

O artesanato é a forma mais antiga de indústria. É uma indústria de pequenas dimensões e em geral embutida em prédios que são as habitações dos artesãos, que dedicam alguns compartimentos à atividade da transformação industrial, ocupando os cômodos restantes como sua residência familiar. É o tipo comum de indústria, por isto mesmo chamada indústria caseira, das antigas áreas rurais, fazendo o papel de uma atividade ancilar das atividades agrícolas, de criação e extrativistas e confundindo-se com sua paisagem. Sua tecnologia resume-se a ferramentas simples, manipuladas pelos braços e pernas do artesão, de cujo corpo é um mero prolongamento e dependente do uso da energia muscular do homem. Seu alcance de transformação espacial e ambiental reduz-se a essas proporções de escala técnica.

A manufatura é um artesanato de maiores proporções. Historicamente, coexiste com os antigos artesanatos nas sociedades rurais da Antiguidade, podendo às vezes ganhar a dimensão de uma atividade de alta especialização econômica na sociedade de que faz parte, a exemplo da sociedade cartaginesa contemporânea do império romano, mas vai tornar-se a forma de indústria por excelência nas sociedades modernas nascidas do Renascimento, nas quais vai substituir fisicamente os artesanatos nas suas relações com o mercado e vir a ser a forma histórica de indústria característica da Idade Moderna. Sua organização já pede um prédio com função específica, em geral consistindo de um galpão adaptado aos fins industriais, onde são reunidos artesãos de habilidades diferentes e intercomplementares, formando no conjunto com eles uma divisão de trabalho dentro da indústria, e levando-os a atuar num sincronismo de tempo e espaço mais sofisticados. De modo que sua tecnologia implica já numa escala de organização mais avançcada, consistindo de um verdadeiro sistema de maquinismo.

As ferramentas do artesanato são reunidas em máquinas de estrutura mais complexa, ultrapassando de alguma forma seu caráter de puros prolongamentos corporais e requerendo uma forma de energia de forças maiores que a do músculo humano, em geral mobilizando animais de maior poder de movimentação a energia eólica e mesmo a energia hidráulica. Embora seja já uma indústria destinada a produzir bens para o mercado e suas relações espaciais tenham já um alcance que transborda seu ponto de localização, faz parte entretanto de mundo que econômica e socialmente segue sendo rural, com cuja paisagem ainda se confunde. É nesse período que o papel da circulação torna-se o fundamento da organização espacial, o comerciante ocupando um papel proeminente na organização da vida econômica e societária da nova sociedade, servindo-se dela mais que servindo à indústria no mister de organizar os espaços em proveito da expansão do comércio, de que a manufatura na verdade é fruto histórico e meio. Todavia, já estamos diante de uma indústria de relação ambiental mais impactante que a artesanal, de vez que sua performance vai exigir uma reorganização mínima dos setores agrícola, pecuário e extrativista no sentido de reorientarem suas produções para a geração de alimentos e matérias primas para o mercado industrial em formação de demanda.

A fábrica é a forma atual de indústria, nascida da revolução industrial. Apoiada numa tecnologia de escala crescentemente mais elevada e na centralidade de uma economia literalmente voltada para a demanda do mercado e altamente consumidora de bens industriais que lhe conferem uma escala de organização dos espaços de abrangência ilimitada, junta nessa escala da ação espacial, que vai até onde chegam o alcance da tecnologia e das relações de mercado, o enorme poder de impactação do meio ambiente que a difere das formas históricas de indústria pretéritas. A rigor, é essa combinação escalas de tecnologia e produção para os fins do mercado que faz da indústria o moderno vilão do meio ambiente, de vez que é este o motor que leva o consumo industrial de matérias primas e alimentos a buscar estes recursos em escala planetária de mundo, nenhum ponto da terra ficando com o tempo fora do âmbito de sua intervenção modificadora. E é esta combinação de tecnologia, espaço e objetivo do mercado a fonte de uma uniformização técnica da organização que é a causa dos efeitos ambientais conhecidos.]

O espaço industrial moderno e seus efeitos ambientais

Resumindo: a natureza transformadora faz da indústria moderna o dado central da organização dos espaços no tempos atuais; a orientação do mercado leva-a a estender seu raio de ação a um limite de abrangência que a torna uma economia-mundo; e é a mesma a forma padrão de espaço que leva para toda essa extensão de abrangência; estabelece-se, assim. com a indústria fabril, o que, para fins analíticos, chamaremos de um paradigma único de tecnologia e forma de organização do espaço em escala crescentemente mundial,  que é a origem mais exata dos problemas ambientais que ao longo do tempo vão se acumulando e se manifestando na mesma dimensão da escala de espaço de incidência.

É este paradigma que determina as percepções e atitudes ambientais das sociedades industriais modernas, tornando-se também o paradigma um paradigma nesse terreno fenomenológico, numa relação utilitária e destrutiva que contrasta com as percepções e atitudes passadas.

A relação ambiental do tempo do artesanato tinha as dimensões da natureza da economia e das relações técnicas que lhe são correspondentes. Trata-se de uma economia autônoma e familiar, que não transborda os limites territoriais do entorno rural a que pertence. A tecnologia empregada só permite o uso de matérias-primas facilmente dúcteis, as relacionadas ao mundo vivo das plantas e animais, do mundo mineral quando muito a argila, para os fins da cerâmica, com algumas incursões na metalurgia de alguns poucos metais. Isto determinava o horizonte e o nível da relação com o meio ambiente, e assim o conceito de natureza e a idéia de mundo existente. O mundo coincidia com o entorno e a vida prática da transformação artesanal, levando os homens a um espaço vivido e uma relação de pertencimento em que se viam e ao mundo circundante como uma diferença e nenhuma dicotomia. O mundo era aquele formado pelas plantas e animais que formavam a lida na agricultura, na pecuária e nas atividades do extrativismo, que, no inverno, se traduziam nas matérias de transformação em produtos de artesanato em âmbito caseiro, e falava de uma natureza viva, habitada por seres que tinham como o homem uma história de nascimento, crescimento, morte e renascimento, numa perfeita identidade de acontecimentos.

A manufatura moderna vai iniciar uma mudança nessa forma de relacionamentos, trazendo o começo de uma forma de percepção e atitude novas. As relações espaciais transbordam progressivamente do entorno imediato vivido, pondo os homens numa convivência com matérias-primas e alimentos chegados de lugares cada vez mais distantes e desconhecidos, alterando as anteriores referências e o sentido de identidade de mundo. São as necessidades da manufatura e das trocas no mercado que paulatinamente comandam o cotidiano e a vida prática, alterando junto com o espaço a noção também do tempo vivido, separando espaço e tempo como dois mundos distintos. O espaço se torna o universo dos produtos e meios de consumo trazidos pela técnica da nova indústrias e da circulação nas relações de mercado e o tempo o cotidiano de trabalho do dia-a-dia do mundo manufatureiro, juntando-se um tempo-espaço de pertencimento com o qual os homens cada vez menos se reconhecem e se identificam. A presença imperiosa do maquinismo no cotidiano da indústria, da lida no campo, da circulação entre os lugares e da vida na cidade em crescimento leva a uma forma de percepção a atitudes que vai introduzindo na mente dos homens uma imagem de natureza e de mundo cada vez mais parecida com a da engrenagem das máquinas, cujo melhor exemplo é o relógio, que vai dominando o seu meio e modo de vida. O utilitarismo do mercado, impregnando a indústria e as atividades primárias do campo de sua ideologia de vida prática, propicia o surgimento de uma concepção físico-mecânica que organiza na uniformidade desse parâmetro o mundo do homem do espaço terrestre ao espaço celeste, dele fazendo uma nova filosofia e com isto uma nova forma de cultura.

Essa cultura utilitária se consolida com a revolução industrial e o advento da moderna sociedade estruturada com base na organização industrial da fábrica como um mundo da técnica, introduzindo a forma de percepção e atitudes que domina a relação de mundo que temos hoje em nosso tempo. O veículo, vimo-lo, é a irradiação que transforma o modo de vida de organização fabril no modo de vida dos homens em escala planetária, através da transformação de sua tecnologia numa forma paradigmática de ação tecnológica e arrumação dos espaços em toda a extensão do planeta.

A escala de espaço assim constituída acaba por afastar totalmente os homens do entorno ambiental do seu lugar imediato, criando um espaço vivido de objetos de consumo e de valores de cotidiano vindos de todos os cantos do mundo, que abole de vez a experiência de identidade e pertencimento local que desde a manufatura vinha sendo dissolvida, introduzindo como modo de vida humano um espaço de vivência de conteúdo cada vez mais artificial e mais técnico.

A reprodução do cotidiano e a reprodução da vida deixam de ser o mesmo, deixando a vida de ser o centro de referência da percepção da natureza e do mundo, no avento do mais radical dos divórcios.

A vida deixa de ser o centro de cultura de toda a modernidade. Até que os efeitos ambientais do paradigma de cultura implementada forçam a moderna sociedade a ter de repensar-se seus parâmetros de organização e de vida.

Os novos padrões de tecnociência e a nova organização do meio ambiente

De início, foi na indústria que a crítica desse modo de vida de imediato identificou as origens dos problemas do meio ambiente. Só com o tempo foi ela deslocando o centro do seu olhar para a natureza da própria cultura técnica.

Favoreceu este deslocamento o perfil da terceira revolução industrial, fruto ao mesmo tempo das necessidades do desenvolvimento da moderna economia de mercado e das pressões da crítica sobre o modelo técnico do paradigma industrial existente. Novos ramos da pesquisa, que rapidamente se materializam em novas alternativas de relação industrial com o meio ambiente, vão assim surgindo, transformando a arma da crítica em arma de reformulação paradigmática. Reformulação que vem acompanhada do intento de estabelecimento de uma nova forma de percepção e atitudes diante do meio ambiente.

A engenharia genética é o centro do paradigma novo que surge. E a tendência de por meio dela, restabelecer-se o parâmetro da natureza como coisa viva dos tempos originários, sem que com isto um espaço vivido com os limites territoriais acanhados do passado tenha que também ressurgir. Ao contrário, sua escala ainda mais se planetarizando.

A engenharia genética é ao mesmo tempo uma ciência e uma técnica de manipulação da natureza a partir da recombinação do DNA, com possibilidade de efeitos futuros sobre o padrão de matérias-primas industriais e energéticas, rompendo com o padrão atual, todo ele vinculado a matérias-primas vindas da extração mineral. A produção de novos materiais de origem genética que vêm para substituir os tipos de material altamente consumidores de recursos esgotáveis e não-renováveis do presente, a exemplo do petróleo como fonte principal de energia, com a possibilidade da sua substituição pela biomassa, um produção da engenharia genética, inesgotável e renovável,  abre para uma nova era de paradigma não se de tecnologia, consumo e relação ambiental, mas também de organização dos espaços.

A nova arrumação espacial viria conforme com a distribuição natural dos ecossistemas, de vez que com a tecnologia da engenharia genética uma tecnologia igualmente plural nos seus padrões também pode surgir. Tende a surgir assim um espaço diverso em suas formas de organização, e um nova padrão de relação da sociedade com a natureza.

A relação ambiental que conserve a diversidade do meio ambiente em termos espaciais e de estrutura interna da natureza, assim pode surgir, baseada na combinação da biodiversidade com uma tecnodiversidade, e, assim, com uma espaço-diversidade, sem afetar a consonância com a economia industrial e de mercado.

Mas mesmo a economia de mercado deverá mudar seus parâmetros. Fortalecida com esta nova possibilidade de paradigmas, manter-se-á mundializada e determinante sobre os modos de vida, mas reestruturada nos padrões do consumo, de cuja massificação cada vez mais depende

Ruy Moreira

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Fonte: www.sescsp.org.br

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