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CONTÁGIO

CAPÍTULO 8: MIASMAS OU MICROORGANISMOS?

CHEIROS, GASES E A PREVENÇÃO DAS DOENÇAS

Durante o século XVIII e início do século XIX, houve uma grande melhora da saúde pública. É curioso que essa melhora não foi produzida por nenhum conhecimento médico novo: ela se deu por medidas sanitárias inspiradas pelas velhas idéias sobre os miasmas.

Desde o fim do império romano, as preocupações com limpeza, na Europa, haviam se reduzido muito. A água era obtida de qualquer tipo de fonte, de rios, de chafarizes públicos, de poços sujos. Praticamente não existia água encanada. Também era rara a existência de esgotos. Quando existiam, misturavam-se à água que era utilizada para todos os fins domésticos.

Em algumas cidades, os excrementos eram coletados e transportados para longe em carroças, mas era mais comum que fossem simplesmente lançados à rua. O próprio chão das casas - de terra ou de madeira - ficara impregnado por urina de cães e de pessoas, cerveja e outras substâncias. Somente quando ocorriam as pestes, surgiam hábitos de limpeza, como o de varrer as casas e as ruas.

Até mesmo os médicos podiam se mostrar avessos às medidas sanitárias. Em 1760 não existiam privadas em Madrid. Os excrementos eram jogados pelas janelas das casas à noite, sendo removidos no dia seguinte pelos limpadores. O rei ordenou que se construisse uma privada em cada casa, mas o povo se opôs violentamente à medida. Os médicos protestaram, dizendo que a sujeira das ruas era útil, pois absorvia as partículas insalubre do ar. Se as ruas não fossem sujas, essas partículas atacariam as pessoas.

A limpeza corporal e das roupas era rara e precária. Os perfumes, utilizados pelos ricos, eram um substituto dos banhos, e não seu complemento. É verdade que houve épocas em que os banhos públicos eram muito freqüentados, mas com um objetivo especial: serviam de local para encontros sexuais. Proibidos os banhos mistos, o interesse pelo asseio diminuiu muito. Havia até mesmo preconceito contra os banhos, que podiam produzir enfermidades. No século XVIII, comentava-se que a peste atacava primeiramente as pessoas que lavavam suas roupas com sabão.

A situação era terrível nas residências, mas pior ainda em lugares em que se acumulavam muitas pessoas, como prisões, hospitais e instalações militares.

No fim do século XVII, mais de 1/4 dos pacientes dos hospitais de Paris e Londres morriam. Ser levado para um hospital era semelhante a ser executado. O filósofo Gottfried Leibniz chamava os hospitais de "sementeiras da morte".

Aos poucos, no entanto, foi ganhando força a idéia de que as doenças eram causadas pelo mau cheiro. Já vimos muitos exemplos disso, em capítulos anteriores. No século XVIII, torna-se bastante popular a teoria dos miasmas, para explicar não apenas as enfermidades dos pântanos, mas todas as doenças produzidas por cheiros de coisas estragadas e podres. A limpeza não é um problema estético: é uma questão de saúde, ou seja, de higiene (no sentido original da palavra). E o melhor guia para se livrar das doenças é a orientação do nariz.

Não existe nenhuma preocupação com insetos, ratos ou outros animais, pois ninguém imaginava que eles pudessem transmitir enfermidades. A importância de afastar os excrementos e o lixo das casas era apenas o seu cheiro.

A água também não devia ter cheiro. Esse era o critério principal, mais do que sua cor. A presença de microorganismos na água era conhecida e encarada com indiferença. Não se imaginava que eles pudessem ser nocivos.

Durante o século XVIII, mantinha-se a idéia de que os perfumes podiam combater os efeitos nocivos dos miasmas; mas aos poucos vai-se preferindo eliminar os próprios fedores, ao invés de escondê-los. Passa-se a dar grande importância à ventilação das residên-cias, para que seu ar seja renovado e purificado. Observou-se que vários tipos de substâncias químicas eram capazes de evitar a putrefação e podiam, assim, ser utilizados contra a produção de miasmas. Essas substâncias foram chamadas de "antissépticas", isto é, contrárias à putrefação.

Em torno de 1750, o cirurgião-geral do exército inglês, John Pringle (1707-1782), conseguiu uma significativa queda da mortalidade nos hospitais militares, através da limpeza e de uma melhor ventilação. A reforma das prisões inglesas foi obra do filântropo John Howard (1726-1790), que conseguiu diminuir a incidência de tifo, tuberculose e febre tifóide.

John Pringle, cirurgião-geral do exército inglês em 1750.
John Pringle, cirurgião-geral do exército inglês em 1750.

A situação nos hospitais era escandalosa. Doentes de todos os tipos ficavam misturados, em grandes salões, muitas vezes com dois ou três ocupando a mesma cama. Apenas após 1780 foram criadas as primeiras alas hospitalares separadas para doentes com enfermidades contagiosas.

Esse amplo movimento higienista, que continuou durante o século XIX, não dispunha de nenhum conhecimento novo. A teoria básica era a dos miasmas. Havia apenas um interesse real em utilizar os conhecimentos disponíveis na melhoria da saúde pública e na prevenção das doenças. Mais necessária do que a pesquisa médica, foi a decisão política de mudar a situação existente, fazendo o melhor que se podia fazer. Por isso, os homens que contribuiram para a grande redução de mortalidade nos séculos XVIII e XIX não são conhecidos por suas teorias ou idéias. São médicos, escritores, políticos e administradores, muitas vezes desconhecidos, que uniram seus esforços tentando diminuir as enfermidades que matavam o povo.

Foi graças a essa nova atitude que começaram a ser escritos livros especificamente dedicados à conservação da saúde - ou seja, à higiene, no sentido original da palavra . Antes do século XVIII, existiam nos tratados médicos menções aos modos de se conservar a saúde, mas, em geral, a ênfase era no tratamento e não na prevenção de doenças. A exceção principal eram os livros sobre os modos de evitar as pestes, que surgiam em meio às grandes epidemias. Mas não se considerava que, em condições normais de vida, fosse necessário dedicar tanta atenção à saúde.

É curioso assinalar que, entre os meios para conservar a saúde popularizados na época, surgiu o tabaco. Sua fumaça parecia servir para proteger contra os ares infeccionados pelas doenças e até mesmo pela peste. Um dos que defendeu seu uso foi o médico holandês Diemerbroeck:

Com relação aos antídotos, recomenda-se entre os simples (..) o tabaco tomado como fumo, que se expira depois de ter ficado um pouco na boca, como costumam fazer os fumantes profissionais. Nesta peste, eu próprio experimentei sobre mim e sobre outras pessoas, os bons efeitos desse remédio.

É interessante descrever os cuidados que esse médico tomava durante uma epidemia, em meados do século XVIII.

Pela manhã, às quatro ou cinco horas, em jejum, mastigava alguns grãos de cardamomo (uma especiaria de cheiro agradável), depois ia visitar os doentes; depois (às seis horas) engolia um pouco de teriaga ou de diascordium, ou três ou quatro pequenos pedaços de casca de laranja em confeito, ou raízes de helenium em confeito. Às sete ou oito horas, fazia o desjejum com um pequeno pedaço de pão coberto de manteiga ou de queijo verde de cabras, tomando um corpo de cerveja e um copo de vinho de absinto. Parecia-lhe essencial manter-se sempre alegre, sem temor, cólera ou tristeza. Para isso, tomava de vez em quando três ou quatro copos de bom vinho.

Às dez horas, se tinha tempo, fumava um cachimbo de tabaco, e depois da refeição mais dois ou três outros. Fumava duas ou três antes do meio-dia, nas horas de intervalo. Também recorria ao tabaco a qualquer hora, quando se sentia incomodado pelo mau odor dos doentes. Considera o tabaco como o melhor preservativo.

Contágio

Até o século XVIII, as idéias sobre miasmas e sobre a transmissão de enfermidades pelo ar eram apenas hipóteses. Na verdade, pouco se sabia a respeito da própria natureza do ar. Apenas no final do século XVIII foram feitos os primeiros estudos de caráter científico moderno sobre a composição do ar e sobre seu papel na doença e na manutenção da vida.

A idéia de que o ar pode conter substâncias maléficas à saúde ganhou bastante apoio através de estudos feitos no final do século XVIII. Entre 1774 e 1777, o naturalista Joseph Priestley (mais conhecido pelos químicos do que pelos biólogos e médicos) fez estudos sobre o ar e a vida.

Já se sabia que, quando se coloca uma vela acesa em um recipiente fechado, no qual exista um pequeno animal vivo, a vela logo se apaga e o animal morre. Se um outro animal vivo for colocado nesse ar, ele morrerá quase instantaneamente. Priestley estudou esse tipo de fenômeno. Ele observou que o animal morre tendo convulsões, e que o mesmo acontece quando é colocado em outros gases recentemente descobertos: "ar fixo" (gás carbônico), "ar inflamável" (hidrogênio), ar cheio de fumaça de enxofre queimado, e também ar infectado com matéria podre.

Priestley imaginou que a respiração dos animais desprendia alguma substância maligna:

Como o ar que passou pelos pulmões é a mesma coisa que o ar impregnado pela putrefação animal, é provável que uma das utilidades dos pulmões é retirar um eflúvio pútrido, sem o qual, talvez, um corpo vivo poderia apodrecer tão depressa quanto um morto.

A linguagem utilizada por Priestley é a mesma da maioria dos médicos da época: ele acredita que a putrefação produz um gás ou vapor venenoso, capaz de produzir enfermidades. Priestley comparou vários tipos de ar entre si, concluindo que o efeito da respiração animal no ar era igual ao do apodrecimento:

O ar impregnado com putrefação animal ou vegetal é a mesma coisa que o ar tornado nocivo pela respiração animal (...). Que esses dois tipos de ar são, de fato, a mesma coisa, eu concluo por eles terem as mesmas propriedades notáveis em comum, e por não diferirem em nada que eu tenha sido capaz de observar. Eles extinguem igualmente as chamas, são igualmente nocivos a animais, são igualmente desagradáveis ao olfato, ambos precipitam igualmente o carbonato em água de cal e são restaurados pelos mesmos meios.

Priestley tentou purificar o ar que havia se tornado mortal, através de vários processos. Manteve o ar em contato com água pura ou salgada, durante meses, e ao invés de notar alguma melhora, o ar parecia pior do que antes. Como os raios solares eram considerados benfazejos, imaginou que poderiam purificar o ar mortal. Expondo o frasco com ar nocivo à luz, durante meses, também não foi notada nenhuma melhora.

Como se acreditava que a queima de enxofre era capaz de impedir a propagação das epidemias, Priestley experimentou adicionar um pouco de fumaça de enxofre ao ar nocivo, para ver se ele melhorava; mas continuou igualmente mortal. Tentou também aquecer o ar a uma alta temperatura, pois acreditava-se que o fogo podia destruir os venenos do ar; mas ele continuava mortal.

Priestley observou, no entanto, que esse tipo de ar não era nocivo às plantas. Colocando ramos de menta dentro de recipientes com água e o ar nocivo, ele observou que os ramos se desenvolviam de forma vigorosa, crescendo mais depressa do que no ar comum. Imaginou então que esse ar putrefato pudesse ser benéfico e útil para as plantas, assim como os excrementos também são úteis para elas. Fez então um experimento para verificar se as plantas retiravam do ar sua parte nociva.

Para determinar isso, tomei uma quantidade de ar, que se tornara nocivo por ratos que restiraram e morreram nele. Dividia em duas partes. Uma delas foi colocada em um frasco imerso em água. Na outra (contida em um frasco de vidro, de pé sobre a água), coloquei um ramo de menta. Isso foi no início de agosto de 1771. Após oito ou nove dias, descobri que um rato vivia perfeitamente bem na parte do ar em que havia crescido o ramo de menta, mas morria no momento em que era colocado na outra parte da mesma quantidade original de ar e que eu havia mantido sob a mesma exposição, mas sem plantas crescendo dentro dela.

Repeti várias vezes esse mesmo experimento, algumas vezes usando ar no qual animais haviam respirado e morrido, e outras vezes usando o ar impregando com putrefação vegetal ou animal. Geralmente houve o mesmo sucesso.

Priestley concluiu que as plantas são capazes de viver no ar pútrido e retirar do ar o eflúvio pútrido, do qual se alimentam, tornando o ar adequado para a respiração dos animais.

Os estudos de Priestley tinham como ponto de partida a hipótese de que havia alguma semelhança entre os efeitos da respiração e os efeitos nocivos de materiais podres. No entanto, estudos posteriores levaram simplesmente à descoberta do papel do oxigênio e do gás carbônico, na respiração, e da fotossíntese nas plantas. Esses estudos não levaram, portanto, a nenhum esclarecimento das causas de enfermidades que pareciam se propagar pelo ar.

Apesar disso, o estudo químico do ar e dos diferentes gases, no final do século XVIII, trouxe uma maior respeitabilidade às considerações sobre diferentes tipos e características da atmosfera. Compreendeu-se que uma parte do ar puro (oxigênio) é essencial para a vida dos animais e do homem; que a respiração e a combustão consomem oxigênio e produzem gás carbônico; que existem diferentes gases, que podem produzir efeitos especiais nos seres vivos. Embora muitas idéias antigas permanecessem ativas e influentes, a física e a química voltaram a ganhar um papel relevante na Medicina.

É interessante observar a influência dessa renovação parcial de conceitos em obras do início do século XIX. Vamos tomar como exemplo o livro "Elementos de higiene", publicado pelo médico português Francisco de Mello Franco em 1814.

Note-se, em primeiro lugar, que o próprio título mostra ser um livro dentro do novo espírito: dedicado à conservação da saúde e não à cura das doenças.

De acordo com as tendências da época, Mello Franco discute em detalhe as características do ar, levando em conta algumas das novas descobertas. Pode-se notar uma mistura de novas e antigas idéias e o reaparecimento da crença de que a supressão da transpiração é perigosa para a saúde:

O ar da noite é em geral mais úmido do que o de dia. Consideramos esta umidade da noite de dois modos; o primeiro é quando o vapor aquoso, que se acha no ar, pela frescura, que ela traz, cai à maneira de orvalho mui sutil, e lhe chamamos sereno. Este faz mal aos que pouco acautelados o apanham estando mal cobertos, e principalmente parados, expondo-se deste modo a doenças catarrosas pelo embaraço da transpiração. O segundo é quando este vapor, ou orvalho sutil não vem da atmosfera imediatamente, mas que é a evaporação de águas estagnadas, e corruptas; a qual chegando a pequena altura, se precipita, e difunde os miasmas malignos, que com ela subiram. A esta umidade chamamos cacimba, tão conhecida nas vizinhanças de Roma, e em muitos lugares da África, e tão receada pelos seus perniciosos efeitos, quais são as febres disentéricas, remitentes, e intermitentes muitas vezes de péssimo caráter. Em Portugal mesmo há sítios infeccionados destes miasmas por causa da estagnação das águas do inverno; as quais misturadas com as do mar, quando se comunicam, exalam de si veneno ainda mais danoso, do que se fossem simplesmente as da chuva.

É interessante essa sobrevivência do conceito de miasma, já que nenhum químico tinha sido capaz de identificar esse tipo de substância no ar.

Mello Franco descreve as propriedades do oxigênio e do azoto (nitrogênio). Critica ajuntamentos de pessoas em locais fechados, onde o ar não circule, pois a respiração consome o oxigênio e produz gás carbônico. Mas novamente precisa recorrer aos miasmas para falar do contágio:

Nas masmorras, e nos hospitais mal construídos há, além da alteração do ar de que acabamos de falar, os miasmas, que se exalam dos corpos, os quais atacando os nervos, tendem a aniquilar a vida, e dão lugar a estas febres malignas, e contagiosas, conhecidas pelo nome de febres de hospitais, de prisões etc.; as quais levam mui longe o seu contágio.

O autor comenta sobre o perigo do ar das igrejas, porém sem dar tanta importância ao número de pessoas. O problema principal é que, até essa época, era comum enterrar os sacerdotes e fiéis nos porões da própria igreja ou em volta dela. Mello Franco critica e propõe a abolição desse costume. "As exalações pútridas, e mefíticas, que lançam de si tantas sepulturas, são causas poderosas de muitas moléstias, principalmente para as pessoas, que vão às primeiras missas, logo que se abrem as igrejas, tempo em que o ar não renovado, conserva em si reunidos aqueles vapores, por assim dizer, pestilentes".

Mello Franco reconhece que o uso de substâncias aromáticas ou de vinagre não destroi os vapores nocivos, apenas os disfarça e torna, por isso, ainda mais perigosos às pessoas desavisadas. Também afirma que o fogo é inútil, pois apenas produz correntes de ar; "mas os miasmas pestíferos ficam intactos."

Embora a idéia dos miasmas em si própria não tivesse evoluído com os estudos químicos, haviam sido encontradas novas substâncias, capazes de impedir a putrefação e que deviam ser também capazes de destruir os miasmas invisíveis. O autor utiliza especialmente os estudos de Louis Bernard, barão de Guyton de Morveau (1737-1816), companheiro de pesquisas de Lavoisier.

Guyton de Morveau estudou ácidos minerais em forma gasosa, concluindo pela grande eficácia antisséptica dos mesmos. Recomendava-se especialmente o "ácido muriático oxigenado", obtido pela reação de sal comum (10 partes), óxido negro de manganês (2 partes) e ácido sulfúrico (oito partes). Mello Franco aconselha o uso desse gás nas enfermarias dos hospitais e nas casas em que haja moléstias contagiosas, como meio de destruir os vapores nocivos. Ele chega a dizer que esse ácido gasoso é também benéfico para as próprias pessoas que já estejam doentes:

Este facílimo expediente é infalível, não somente para atalhar o progresso do contágio, mas também para diminuir os seus efeitos nos indivíduos já atacados. São tantas as experiências feitas por homens consumados em Química, e Medicina a este respeito, que nenhuma dúvida pode já restar aos mesmos incrédulos.

A certeza, infelizmente, é muito perigosa na Medicina. Vapores ácidos, pelo que sabemos atualmente, podem ser excelentes desinfetantes, mas não são úteis às pessoas doentes.

Ao falar sobre as águas de lagoas e pântanos, Mello Franco defende uma interpretação química dos miasmas. Ele supõe que a causa das febres palustres seriam simples compostos de nitrogênio (azoto) e hidrogênio:

As águas das lagoas, e charcos são turvas, grossas, amareladas, limosas, e com cheiro semi-pútrido. Não podem servir para a bebida dos animais; mas os agricultores reputam-nas excelentes para a rega. Nestas águas, em particular no verão, continuamente apodrecem vermes, insetos, e vegetais; e delas exala-se sempre amoníaco, e gás hidrogênio azotizado, que parece ser o princípio das febres remitentes, e intermitentes, e das desinterias biliosas, e podres, que reinam nos sítios cobertos de águas encharcadas.

Embora a interpretação puramente química não nos pareça atualmente ser correta, Mello Franco, como outros higienistas da época, apresenta recomendações de bom senso: seria necessário, para evitar as enfermidades palustres, acabar com os pântanos, secando-os e cultivando a região.

É muito interessante que Mello Franco recomende que se ferva a água impura, quando for necessário utilizá-la para beber. Para nós, esse tipo de procedimento é justificado pela destruição dos microorganismos vivos que podem existir na água. Na época, no entanto, a justificativa era outra: libertar a água de sólidos dissolvidos nela e, principalmente, produzir a evaporação dos miasmas.

Resta-nos advertir, que quando formos obrigados pela necessidade a usar de águas menos boas, a que costumam chamar cruas, devemos faze-las ferver, e deixá-las depois ao ar livre por 36 a 48 horas em vasilhas de barro largas, para que a água apresente ao ar uma grande superfície. Por este meio os sais se depositarão, e os miasmas nocivos se volatizarão.

Nem sempre era possível purificar a água pela fervura. Nas longas viagens de navios, por exemplo, a água guardada durante semanas ou meses em tonéis de madeira costumava se estragar, ficando com um cheiro podre. Era impossível ferver essa água. Nesses casos havia sido desenvolvido um outro procedimento: a purificação por pó de carvão (ou seja, o "carvão ativado" que se utiliza hoje em dia nos filtros domésticos de água) e a acidificação da água

Quando [a água] já está corrompida, joga-se em cada tonel 6 a 8 arratéis de carvão pulverizado, até que se dissipe o mau cheiro. Depois, coa-se e acrescenta-se ácido sulfúrico (óleo de vitríolo).

Novamente, o principal critério de salubridade da água era o cheiro e o procedimento tinha por objetivo eliminar o mau odor da água (pelo carvão) e impedir que a água apodrecesse de novo (pelo ácido). O processo é igualmente capaz de destruir microorganismos e deve ter sido útil para a conservação da saúde da tripulação.

Os vários casos aqui analisados mostram que a teoria dos miasmas foi muito útil, sem ser verdadeira. Ele conduziu a muitas medidas higiênicas que atualmente consideramos como excelentes - embora nossas teorias atuais sejam muito diferentes. No fim do século XVIII e início do século XIX, procurou-se dar uma fundamentação química à teoria dos miasmas, mas a tentativa falhou. Não foi possível encontrar os gases responsáveis pelas doenças dos pântanos ou por outras enfermidades transmissíveis.

DÚVIDAS SOBRE CONTÁGIO NO INÍCIO DO SÉCULO XIX

O século XIX é uma época em que ocorre grande desenvolvimento econômico e científico em todo o mundo. A Europa se industrializa, com todas as conseqüências positivas e negativas acarretadas pelo processo. Há empregos e há produção de bens materiais. Por outro lado, como a industrialização atrai para as grandes cidades muitas pessoas pobres há um crescimento desordenado das regiões industrializadas. Algumas delas dobraram ou triplicaram de tamanho, em poucos anos. Formaram-se bairros miseráveis, nos arredores, sem condições higiênicas: eram locais sujos e úmidos. Em cidades industriais como Manchester e Liverpool, praticamente não existiam sanitários. Os excrementos eram empilhados em montes de até cinco metros de altura, nos bairros pobres. Não existia coleta de lixo, a água era geralmente suja.

As fábricas tinham péssimas condições sanitárias, os operários trabalhavam mais de dez horas por dia e crianças pequenas eram empregadas por salários ridículos para trabalhar durante todo o dia.

A mortalidade nas grandes cidades aumentou muito, nesse período. Os cuidados de desenvolvimento da higiene que haviam progredido muito no século XVIII, sofreram um recuo. Algumas doenças aumentaram muito: febre tifóide, tuberculose, difteria. Ocorrem grandes epidemias de cólera, que se espalham por todo o mundo.

No século XIX era comum o acúmulo de sujeira em frente às fábricas, como vemos na gravura acima.
No século XIX era comum o acúmulo de sujeira em frente às fábricas, como vemos na gravura acima.

É durante o século XIX que se chega à compreensão da natureza das enfermidades transmissíveis. Mas o início do século não era muito promissor, sob o ponto de vista médico. Havia grande confusão sobre as doenças que consideramos transmissíveis: discute-se até se existem de fato enfermidades contagiosas ou não.

O conceito básico de contágio era o de transmissão de uma doença de uma pessoa para outra. Normalmente, no início do século XIX, associava-se o contágio a um virus ou veneno. Como vimos, Fracastoro admitia o contágio pelo contato direto, pelo ar e através de objetos materiais (roupas, móveis, etc.) que servissem de intermediários. Não se imaginava até o início do século XIX que pudesse haver transmissão de enfermidades pela água, nem com o intermédio de seres vivos. A inoculação era uma transmissão artificial de doença que não era considerada um contágio, propriamente dito.

A noção de infecção era mais ampla do que a de contágio. Quando se falava sobre lugares com ar infectado, isso significava que o ar era maléfico para a saúde, seja por que motivo fosse: por conter gases como o dióxido de carbono, por conter miasmas de substâncias podres, ou por conter o "virus" de pessoas doentes.

Samuel Hahnemann (1755-1843) foi o fundador da homeopatia, e teve considerável influência no início do século XIX. A principal obra em que suas idéias foram divulgadas, o "Organon da arte de curar", foi publicado em 1810. Hahnemann acreditava que não é possível conhecer as causas das doenças; sob este ponto de vista, sua abordagem é de tipo empírico. O mais importante, na Medicina, é estudar sintomas e procurar a cura - especulações sobre aquilo que não se conhece não ajudam muito.

Coerente com essa posição, a homeopatia se baseou em certos princípios que não possuiam fundamentação teórica, mas que pareciam funcionar. O principal deles era o da cura do semelhante pelo semelhante: se um remédio produz, numa pessoa sadia, certo conjunto de sintomas semelhantes aos de uma enfermidade, esse remédio pode curar aquela enfermidade. A justificativa básica desse princípio era a experiência: o princípio parecia dar certo, independentemente de qualquer justificativa teórica que se pudesse procurar.

Samuel Hahnemann, o fundador da homeopatia.
Samuel Hahnemann, o fundador da homeopatia.

Embora a teoria fosse, para Hahnemann, algo secundário e às vezes até negativo, ele apresenta algumas reflexões importante para nosso estudo. Sua posição básica é vitalista, ou seja, ele nega que se possa compreender o organismo humano apenas como um aparelho físico-químico. O que diferencia um ser vivo de um aparelho é algo que ele chama de "força vital", responsável por toda a dinâmica do organismo. As doenças provêm de um desarranjo da força vital, que se reflete no corpo como um todo, e na mente.

Essa força vital não está sujeita às leis da física e da química: ela tem leis próprias. A causa das doenças não pode ser material, pois deve atuar sobre uma força vital que não é material. Hahnemann lembra que um estado de espírito - como o medo, a irritação ou a tristeza - pode produzir enfermidades, o que parece impossível de se explicar sob o ponto de vista físico, mas que se torna compreensível sob o ponto de vista do vitalismo.

Tanto as causas das doenças, como os remédios, atuam sobre a força vital através de um poder ou dinamismo não material. Isso torna compreensível, na homeopatia, como um remédio extremamente diluído pode se manter eficaz. Hahnemann às vezes fazia com que os doentes apenas cheirassem um remédio já diluído, e isso era suficiente. Por outro lado, as influências mórbidas que produzem as diversas enfermidades também podem agir sob forma extremamente diluída ou rarefeita. Dentro desse tipo de concepção, torna-se natural aceitar a infecção e o contágio das enfermidades.

Hahnemann utiliza o conceito de miasma de um modo especial. Originalmente, a idéia de miasma estava relacionada às emanações de substâncias em putrefação, que se acreditava capazes de produzir doenças. Esse miasma seria sempre essencialmente de um só tipo, mas poderia levar a diferentes doenças, dependendo das condições específicas de sua ação e da pessoa que sofresse sua influência. Para Hahnemann, o miasma é um agente que pode comunicar a enfermidade, e que pode provir do ambiente ou de outra pessoa doente. Todas as doenças epidêmicas e o contágio se dão pelo miasma. Esse miasma, para ele, pode ser de diferentes tipos, cada um associado a uma doença diferente.

Observamos algumas doenças que sempre possuem uma mesma causa, tais como as doenças miasmáticas: hidrofobia, doença venérea, a praga oriental, febre amarela, varíola, (...) e algumas outras, que possuem a marca distintiva de sempre permanecerem doenças de um caráter peculiar. E por provirem de um princípio contagioso que sempre permanece o mesmo, elas sempre permanecem iguais (...).

O miasma pode afetar uma pessoa, e esta, por sua vez, pode transmitir o mesmo tipo de miasma a uma segunda pessoa. Cada uma das enfermidades transmissíveis é devida a um miasma particular. No entanto, a própria natureza desses miasmas, para Hahnemann, é desconhecida.

Hahnemann afirma que as pessoas podem se acostumar gradualmente às influências mórbidas e resistir à infecção dos miasmas. Seria por esse motivo que as enfermeiras, os médicos e os coveiros podem lidar com grande número de enfermos (ou cadáveres), sem ficar doentes. Nesses casos, não se notam sinais do miasma nessas pessoas. No entanto, sem serem afetadas, e parecendo totalmente saudáveis, essas pessoas poderiam transmitir o miasma a outras. Em 1831, durante uma grave epidemia de cólera, Hahnemann sugere que a doença não se propaga pelo ar, como todos acreditavam, mas pelo contato entre as pessoas; e que os principais responsáveis pela sua difusão seriam os médicos e enfermeiras: eles desenvolveram uma resistência contra o "miasma venenoso do cólera", mas o passam para outras pessoas. São os "transportadores sadios do miasma".

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