A partir de então, Semmelweis modificou seu procedimento: era necessário desinfetar as mãos com o cloreto de cálcio depois de qualquer contato com alguém que tivesse feridas ou alguma doença de onde pudesse sair algum material pútrido. Posteriormente, como mesmo essa medida não se mostrou sufiente, ele adotou o procedimento de isolar das demais pacientes qualquer pessoa que tivesse alguma doença que pudesse infectá-las.
Após a adoção desses cuidados, a mortalidade permaneceu baixa (geralmente entre 1 e 2%). A comparação entre as duas clínicas foi a seguinte:

Aparentemente, a febre puerperal havia sido superada.
Note-se que não há qualquer menção, aqui, a estudos microscópicos ou químicos, nem discussão sobre a natureza do material cadavérico infeccioso. Semmelweis não discute se a causa da febre puerperal é algum tipo de germe vivo ou qualquer outro tipo de agente. De fato, Semmelweis nunca estudou esses aspectos. Seu objetivo principal era a prevenção da febre puerperal e, tendo atingido esse fim, sua maior preocupação era que o método se difundisse e fosse usado em outros hospitais.
A recepção da descoberta de Semmelweis foi muito lenta. Em parte, pode-se entender isso como uma reação à compreensão de que os próprios médicos eram responsáveis pela morte das pacientes - e ninguém queria admitir isso. Por outro lado, a difusão das idéias de Semmelweis foi muito imperfeita. Ele próprio demorou vários anos para publicar seu trabalho. Outras pessoas divulgaram aquilo que ele estava fazendo, mas às vezes de modo incompleto. Difundiu-se a idéia de que ele explicava a febre puerperal apenas através da infecção por matéria proveniente de cadáveres. No entanto, em vários hospitais europeus, as pessoas que atendiam aos partos não praticavam autópsias - e, apesar disso, havia muitas mortes por febre puerperal. Isso parecia indicar que Semmelweis estava errado.
Na Inglaterra, acreditou-se que Semmelweis havia simplesmente redescoberto
a hipótese do contágio da febre puerperal. No entanto, as idéias
de Semmelweis eram muito diferentes das dos ingleses. Esses acreditavam que
a febre puerperal era uma doença particular, como por exemplo a varíola,
que podia ser transmitida de um doente de febre puerperal a uma pessoa sã,
através de contágio pelo ar. Semmelweis, pelo contrário,
acreditava que qualquer material em putrefação podia infectar
as parturientes e produzir a febre puerperal; e que a transmissão da
enfermidade não era, em geral, pelo ar - e sim pelas mãos e
utensílios dos médicos.
Em Viena, a oposição de importantes médicos fez com que
Semmelweis fosse perseguido. Em 1850, ele abandonou a Áustria e foi
para sua terra natal - a Hungria. Lá, começou a trabalhar no
hospital de Budapeste - inicialmente, de graça. Lá ele também
conseguiu reduzir a alta mortalidade a cerca de 1%.
Embora o principal trabalho da vida de Semmelweis tenha sido o combate à febre puerperal, ele também aplicou idéias semelhantes à cirurgia. As operações simples, como a retirada de pólipos do útero, eram geralmente seguidas pela morte da paciente por piemia. No entanto, tomando os mesmos cuidados de desinfecção que já foram explicados, ele fazia essas operações sem perder uma só paciente. E comenta: "Eu atribuo esses resultados favoráveis apenas ao fato de que opero com as mãos limpas".
Como foi mostrado no início deste capítulo, outras pessoas antes de Semmelweis já haviam sugerido idéias muito parecidas com as suas. No entanto, não basta sugerir uma idéia: é necessário examinar as várias sugestões existentes, testá-las, ir eliminando as alternativas até isolar uma hipótese que explique todos os fatos conhecidos. Apenas Semmelweis se deu ao trabalho de fazer esse trabalho cuidadoso de experimentação e de análise.
Depois que seu trabalho teve sucesso, Semmelweis procurou difundi-lo, mas de forma pouco hábil, conseguindo mais inimigos. Seu estilo era agressivo, como se pode ver por esta pequena amostra: uma carta aberta, escrita em 1861, dirigida a um médico, lembrando o que havia ocorrido no Hospital de Viena, onde haviam morrido quase 2.000 mulheres de febre puerperal, depois de sua saída.
O senhor, Professor, participou deste massacre. O homicídio deve cessar,
e com o objetivo de terminar com esse homicídio, eu vigiarei, e todo
homem que ousar propagar erros perigosos sobre a febre puerperal encontrará
em mim um oponente ativo. Para mim não há nenhum meio de impedir
o assassinato a não ser desmascarando sem piedade meus oponentes. E
ninguém que tem o coração no lugar certo me censurará
por utilizar esse meio.
A aceitação das descobertas de Semmelweis foi lenta. Apenas
depois de sua morte, na década de 1880, se generalizaram os cuidados
de limpeza no tratamento obstétrico. Isso ocorreu lentamente, em geral
sem se reconhecer o valor do trabalho de Semmelweis, que foi criticado em
vida e esquecido após sua morte.
Quando se pensava no contágio indireto das enfermidades, quase sempre se imaginava que ele ocorria através do ar. Foi em meados do século XIX que se descobriu que uma das mais terríveis doenças da época - o cólera - podia ser transmitido através da água.
O cólera foi uma doença pouco conhecida na Europa até o século XIX. Existiam notícias sobre ela na Índia, onde ocorria sempre, com maior ou menor intensidade. No século VII, um médico indiano, Sushruta, descreveu uma epidemia de cólera. Os portugueses entraram em contato com essa enfermidade durante o século XVI. No século XVII, um escritor holandês, Bontius, descreveu a ocorrência da doença na Índia. Aparentemente, na região do Ganges, essa enfermidade sempre existiu, de forma endêmica, com maior ou menor intensidade.
Apesar de ser conhecido, o cólera era algo remoto e de pequena importância para os europeus, até que, em 1814, um batalhão inglês foi dizimado pela enfermidade, na Índia. Havia, na época, dois batalhões em marcha de Jaulnah para Trichinopoli. Um deles nada sofreu, mas o outro teve grande número de mortos pela doença. Na época, os indianos acreditaram que a epidemia era uma conseqüência da ira dos deuses, que haviam sido insultados pela poluição de certos tanques sagrados na aldeia de Cunnatae. Esses tanques haviam sido utilizados pelos soldados para se banharem. Dois dias depois, centenas deles morreram.
Em 1817, o cólera aumentou de intensidade na Índia. Em agosto desse ano, houve dez mil mortos na região do Behar e Jessore. Em setembro, matou 20.000 homens da armada inglesa. Ainda no mesmo ano, o cólera matou cerca de cem mil habitantes de Java e Malaca - um décima da população. Durante o inverno, a enfermidade ficou "adormecida", mas reapareceu em março de 1818 por toda a Índia. Daí, espalhou-se por outros países da Ásia, atingindo gradualmente, atingindo a China, as Filipinas, o Japão, a Síria e a Pérsia em 1822; daí passou para a Turquia e chegou à fronteira da Rússia em 1823. No entanto, não penetrou no resto da Europa.
Houve uma grande preocupação com essa epidemia de cólera, na Europa, pois pela primeira vez se presenciava a expansão quase ilimitada de uma doença que se pensava só ocorrer na Índia, no verão.
Não se compreendeu a causa da enfermidade, nessa época. Ela não parecia associada a deficiências alimentares, pois atingia toda a população de diferentes regiões. O clima também não parecia ser determinante, já que a epidemia atravessou diferentes épocas de vários anos, sem se extinguir. Havia indicações de que a doença era contagiosa, pois sua expansão seguia as rotas comerciais. No entanto, observou-se que a remoção dos habitantes de uma aldeia atingida pelo cólera para um novo local eliminava a epidemia, o que parecia indicar que era o próprio lugar que produzia a doença, e que ela não era transportada com as pessoas. Por esse motivo, imaginou-se que eram inúteis medidas de quarentena. Nessa época, surgiram explicações como a do médico inglês Reginald Orton, que afirmava que o cólera era "devido a uma ação nervosa deficiente produzida por uma aeração reduzida do sangue, que por sua vez depende de um clima desequilibrado que se segue a uma deficiência de fluido elétrico na atmosfera".

"A morte chegando em navio": A expansão do cólera
seguia as rotas comerciais.
Outra onda dessa doença se iniciou em 1826 e seguiu aproximadamente o mesmo caminho, espalhando-se depois da Rússia para a Polônia, Alemanha e pelo resto da Europa. Daí, espalhou-se depois pela América. Essa "pandemia" - que atingiu o mundo todo - somente cessou em 1837.
Durante essa segunda pandemia, em Paris, houve 34.000 doentes em 1834. Isso
correspondia a 4% da população da cidade. Mais da metade dos
doentes morria. Estima-se que, nas duas primeiras grandes epidemias, houve
mais de 40 milhões de vítimas, em todo o mundo.
O caminho do cólera seguia as vias de comunicação: aparecia
primeiramente nos portos, depois se espalhava seguindo as estradas e rios.
Era por isso provável que estivesse passando de uma pessoa para outra.
Mas ninguém sabia o modo exato como essa enfermidade se transmitia,
e os lugares onde se estabelecia a quarentena dos navios eram tão atingidos
como os demais. Acreditava-se que a doença se espalhava pelo ar; também
se supunha que pudesse haver a produção de um veneno no solo,
que impedia a transpiração, congestionava os intestinos e levava
à inflamação do corpo.
Seguiram-se outras duas pandemias, de 1846 a 1863 e de 1854 a 1875. Pode-se dizer que nenhum outro tipo de epidemia causou tantas mortes e tanto terror no século XIX quanto o cólera. Durante o período de 1847 a 1848, adoeceram na Rússia 1.700.000 pessoas, havendo cerca de 40% de mortes. Em Paris, em 1848, houve 11.000 vítimas. A epidemia chegou ao Rio de Janeiro em 1854, matando 3.400 pessoas em quatro meses.
No Brasil, onde esta enfermidade reapareceu em torno de 1990, depois de ter desaparecido por muito tempo, a população sabe hoje vagamente que é um problema grave, que pode matar as pessoas. As campanhas sanitárias nunca informam sobre os sintomas dessa doença, por medo talvez de chocar as pessoas. Mas é importante saber como é o cólera, para compreender por que é tão importante evitá-lo. Vamos descrever a evolução dessa terrível doença, de acordo com informações de obras de 1855.
Uma pessoa acometida por essa enfermidade sente, inicialmente, uma indisposição geral, às vezes tendo vertigem, desfalecimento sem causa aparente, sensação de estar afundando. Logo depois, surgem os primeiros sintomas mais graves: diarréia e vômitos. Nessa fase inicial há falta de apetite, fraqueza, sensação de frio nos pés. Sente-se às vezes dores acima dos olhos, dor no ventre sem diarréia, sensação de aperto nas pernas, como se houvesse alguma coisa prendendo a circulação. Essa primeira fase pode durar alguns dias, mas em geral é curta.
No segundo período, há uma diarréia abundante, súbita, sem ardor, sem contrações. O doente é repentimanete atacado e evacua primeiramente as matérias fecais contidas nos intestinos. Logo depois sobrevém uma diarréia líquida, de cor branca, leitosa, sem cheiro forte, semelhante à água em que se lavou arroz e contendo grumos. A evacuação é acompanhada por muitos ruídos no ventre. Há uma leve dor e os líquidos são expelidos de modo quase constante, sem que o doente tenha consciência disso. Surgem náuseas e, às vezes, vômitos, que também são leitosos.
A diarréia e os vômitos produzem uma grave desidratação do doente, que fica rapidamente magro, como se estivesse secando. Os alimentos e líquidos ingeridos não são absorvidos pelo organismo.
Os doentes sentem frio e as extremidades dos membros ficam pálidas.
O pulso se enfraquece, desaparece pouco a pouco e só é sentido
no meio do braço. O ventre fica mole, vazio. Podem aparecer câimbras
muito fortes. Há violentas contrações musculares dos
membros e do tronco, que parecem formar nós e causam dores muito vivas.
O pulso se acelera. A face fica pálida, os olhos se afundam, cercados
por uma auréola roxa. A voz se torna rouca.
Essa segunda fase pode durar apenas algumas horas, ou prolongar-se por até
três dias.

Gravura japonesa ilustrando os sintomas da cólera: dierréia
e vômitos.
Na terceira fase, continuam as dejeções e os vômitos aquosos. Como conseqüência da perda de líquido do organismo, há uma extrema fraqueza, o sangue se torna espesso e escuro, a circulação fica fraca, a pele fica insensível. Há febre, transpiração, sensação de falta de ar, a urina desaparece ou diminui muito. As câimbras continuam. O doente sente muita sede e pede bebidas frias. Tenta constantemente se descobrir. A respiração é difícil e ansiosa. As mãos, pés e o fundo da face adquirem uma cor azulada. Os pés e mãos ficam frios.
Até o hálito fica frio. A língua fica lívida e fria. A mucosa da boca e das gengivas se torna fria e arroxeada. A pele das mãos se enruga como quando é deixada muito tempo dentro da água. O círculo em volta dos olhos se afunda mais ainda, tornando-se escuro. Fica difícil ver os olhos do doente. Os olhos ficam secos, e se não forem umidecidos, pode-se produzir a cegueira, se a pessoa não morrer.
Essa terceira fase pode durar poucas horas, ou prolongar-se por até
dois dias.
Se o organismo não começar a se recuperar, segue-se o período
final. A carne fica mole como massa de pão, nas mãos, pés
e sobre o abdômen. A pele se torna violeta. Formam-se equimoses que
vão aumentando e se reunindo até formar placas escuras. A respiração
é demorada, os batimentos do coração ficam fracos. O
sangue é viscoso, negro, coagula-se lentamente, tem a aparência
de uma geléia grossa e escura. Quem chega a essa fase não se
salva. A morte ocorre em poucas horas.
Toda essa terrível seqüência pode durar menos de um dia. Uma pessoa pode se sentir bem ao se levantar, e estar morta à noite. Em outros casos, a doença é mais lenta, podendo durar mais de uma semana, mas não é mais suave. A duração média, desde os primeiros sinais, era de dois dias.
A mortalidade variava entre 1/3 e 2/3 dos doentes. Quando a enfermidade surgiu na Europa, eram utilizados os tratamentos conhecidos para outras doenças: clisteres para "limpar o intestino", sangrias "para retirar o sangue doente". Quando se percebeu que a absorção de líquidos cessava e que isso produzia a maior parte dos sintomas, surgiu a idéia de injetar diretamente água nas veias dos doentes. Posteriormente, o método foi aperfeiçoado e levou ao soro moderno. Atualmente, se o tratamento é iniciado logo no início, quase todos os doentes podem ser salvos.
Não se conhecia nenhum remédio eficaz para as pessoas que já estivessem doentes; e também não se sabia exatamente como a enfermidade se espalhava, sendo por isso impossível evitá-la.
Foi durante uma das epidemias, em meados do século XIX, que se começou a compreender o modo de transmissão do cólera. Um dos pesquisadores que contribuiu para essa compreensão foi John Snow, médico inglês, que descreveu suas observações e conclusões em um livro intitulado "Sobre o modo de comunicação do cólera", publicado em 1855.
Snow estuda o modo como apareceu e se espalhou a doença, para tentar compreender o modo de transmissão. Ele conta que, em 1832, o cólera apareceu em uma aldeia inglesa, em York, aparentemente sem causa nenhuma. No dia 28 de dezembro desse ano, um lavrador, John Barnes, teve forte diarréia, convulsões, e no dia seguinte estava morto. A esposa do lavrador ficou doente, mas não morreu. A sua mãe, que cuidou dela e lavou suas roupas, ao voltar para casa, sentiu tonturas e caiu. Dois dias depois, ela, o marido e a filha morrem. Aparentemente, a doença de John Barnes havia sido transmitida à esposa e à sogra, e desta à sua família. Mas como o próprio John Barnes havia adquirido a doença, se ninguém na região tinha tido cólera? A investigação do caso mostrou que a irmã de Barnes havia morrido de cólera, 15 dias antes, em Leeds. Como ela não tinha parentes na cidade, suas roupas haviam sido colocadas (sem serem lavadas) em um baú e haviam sido enviadas para o irmão, John Barnes. Ao receber o baú, ele o abriu e examinou as roupas. No dia seguinte ficou doente e, no outro, morreu. "Alguma coisa" que havia ficado nas roupas deve ter produzido a morte de Barnes, 15 dias depois. E "alguma coisa" deve ter depois passado de Barnes para a esposa, desta para a mãe, etc.
Em seu livro, Snow conta que o primeiro caso de cólera em Londres, na epidemia que começou em 1848, foi de um marinheiro, chamado John Harnold, que havia chegado de Hamburgo, onde a enfermidade já havia se espalhado. O marinheiro morreu no dia 22 de setembro de 1848, em uma hospedaria, com todos os sinais do cólera. Durante alguns dias, não houve outros casos. Mas na semana seguinte, uma pessoa que se hospedou no mesmo quarto em que Harnold morreu, ficou doente, morrendo no dia 30 de setembro. "Alguma coisa" devia ter ficado no quarto, produzindo a morte da segunda pessoa.
Nem sempre, no entanto, era necessário um contato direto com um doente ou com seus objetos para que o cólera fosse transmitido. Em alguns casos, a doença atingia muitas os moradores de várias casas vizinhas, sem que tivesse havido contato direto entre eles. Parecia que o agente causador do cólera podia se transmitir até uma certa distância dos doentes.
A partir de muitos casos como esses, as primeiras conclusões que se tirava, na época, era que o cólera pode passar de uma pessoa para outra; mas nem sempre o contato com um doente, ou ficar no quarto de um doente, produzia a enfermidade.
A partir de alguns poucos casos iniciais, a doença se espalhou pelo
país. Em 1849, morreram em Londres 53.000 pessoas de cólera,
de uma população de cerca de 2.000.000 de pessoas.
O que era essa coisa que transmitia o cólera? Ninguém sabia
exatamente o que poderia ser, mas como a doença pode ir passando de
uma pessoa para várias, e atingir milhares ou até milhões
de pessoas, era algo que podia ir aumentando em quantidade. Para nós,
isso é um sinal evidente de que se trata de um microorganismo que se
reproduz e multiplica. Mas, na época, a conclusão cautelosa
de John Snow era bastante vaga: "Doenças transmitidas de pessoa
a pessoa são causadas por alguma coisa que passa dos enfermos para
os sãos e que possui a propriedade de aumentar e se multiplicar nos
organismos dos que são atacados por ela".
Como já vimos, nessa mesma época Félix Pouchet havia encontrado os vibriões nos dejetos de doentes do cólera; mas essa descoberta não teve grande repercussão.
Surgiu a hipótese de que um "veneno mórbido" se espalhava pelo ar, em volta dos doentes, transmitindo o cólera aos que estivessem próximos. Snow, no entanto, não considerou essa explicação boa. Se a enfermidade fosse adquirida pela respiração, deveria surgir algum tipo de sintoma ligado aos pulmões. Mas o cólera se manifesta basicamente no canal alimentar e não no sistema respiratório (ao contário da gripe, por exemplo). Por isso, Snow supôs que o agente produtor do cólera é introduzido primeiramente no canal alimentar: é alguma coisa que é engolida acidentalmente, que se reproduz no estômago e nos intestinos e que produz todos os distúrbios observados.
John Snow raciocinou que, se essa causa é introduzida e se multiplica no canal alimentar, seria razoável supor que ela também sai e se espalha com os dejetos (vômitos e fezes) dos doentes e não com sua respiração, suor ou outro veículo.
É claro que ninguém ingere os dejetos de um doente conscientemente. Mas ocorre que as evacuações dos doentes de cólera não possuem a cor nem o cheio de fezes, podendo passar despercebidas em lençóis e roupas brancas. Outras pessoas poderiam sujar as mãos sem notar e, se não lavarem as mãos antes de comer, irão ingerir uma pequena quantidade desses dejetos, que será suficiente para produzir a doença. Snow indica que alguns fatores agravantes da transmissão eram quando várias pessoas dormiam no mesmo quarto, quando comiam no próprio cômodo em que estava um doente, quando não havia água disponível para o asseio, etc.
Note-se que, embora Snow estivesse se baseando no conhecimento de um grande
número de fatos, ele não podia ver nem reconhecer a causa da
enfermidade, e por isso sua explicação era apenas uma hipótese
engenhosa, mas sem possibilidade de comprovação direta.
Essa hipótese de Snow explicava como a doença podia passar de
uma pessoa para outra, ou como podia acometer pessoas que tivessem contato
com as roupas ou objetos de um doente. Mas, às vezes, a enfermidade
se espalhava sem contato direto. Como isso poderia ocorrer?
Snow imaginou que a água utilizada na lavagem das roupas sujas dos doentes e mesmo as suas dejeções poderiam se misturar à água utilizada por outras pessoas para uso doméstico e contaminá-las. Isso poderia ocorrer tanto pela infiltração dos dejetos no solo, atingindo poços; ou pelos esgotos lançados em rios, de onde a água fosse retirada para ser utilizada nas casas. Isso explicaria o motivo pelo qual as famílias que moravam em casas próximas e que utilizavam a mesma água podiam adquirir o cólera ao mesmo tempo, sem contato direto com os doentes.
No entanto, Snow observou que não era apenas pela água que a doença era transmitida. Pessoas que cuidaram de doentes e que não beberam água nem se alimentaram na casa desses doentes adquiriam o cólera. Como? Provavelmente, por terem tocado em dejetos do doente e depois, sem lavar as mãos, em sua casa, terem tocado alimentos.
Baseando-se nessa hipótese, Snow e outros médicos começaram a agir. Em julho de 1849, houve 80 casos de cólera na rua Silver, em Londres, em 15 dias. Dos 80 doentes, morreram 38 pessoas. Todas as pessoas bebiam água tirada de um mesmo poço. Observou-se que o esgoto passava perto desse ponto e que gotejava uma água suja no poço. Esse poço foi interditado e acabou o cólera naquela rua.
O pior caso desse tipo, que se tornou tristemente famoso, foi o ocorrido em Broad Street, em 1854. Em um trecho de menos de 200 metros dessa rua, em um intervalo de 10 dias, houve 500 mortes (um quinto dos moradores). Verificou-se que todos utilizavam a água retirada de um mesmo poço, com uma bomba manual. Próximo a esse local, havia um asilo de pobres, com 535 pessoas. Somente 5 morreram de cólera, no mesmo período, pois utilizavam outra fonte de água. Da mesma forma, os operários de uma cervejaria no mesmo local não tiveram nenhum caso de cólera, pois ao invés de tomarem água só bebiam cerveja.
Todos esses casos pareciam indicar que a água era uma das grandes responsáveis pela transmissão do cólera (embora não fosse a única). Mas a maior evidência sobre isso foi obtida por Snow em um estudo estatístico sobre o fornecimento de água de Londres. Havia, na época, duas grandes empresas fornecedoras de água encanada na cidade: a Lambert e a Southwark & Vauxhall. Durante o ano de 1854, de cada 100.000 pessoas que utilizavam água fornecida pela empresa Southwark & Vauxhall, 114 tiveram cólera. No mesmo período, de cada 100.000 pessoas que utilizavam água fornecida pela empresa Lambert, nenhuma teve cólera. Em ruas em que algumas casas recebiam água de uma das empresas e outras casas de outra, houve 60 casos de cólera para cada 100.000 pessoas. Portanto, os casos de cólera pareciam estar diretamente ligados ao fornecimento de água pela empresa Southwark & Vauxhall. Descobriu-se que essa água era coletada no rio Tâmisa, em uma região que recebia esgotos. A água fornecida pela outra empresa, pelo contrário, vinha de uma fonte pura.
Se a causa do cólera era algo que vinha pela água, devia ser possível filtar a água e separar a causa da enfermidade. Em uma penitenciária, em que havia muitos casos de cólera, experimentou-se filtrar a água através de areia e de carvão. Sabia-se que a areia retém a maior parte das impurezas sólidas e que o carvão absorve cheiros. No entanto, mesmo com a filtragem, continuou a haver o surgimento de novos casos de cólera. Quando se mudou a fonte da água utilizada, cessou o cólera. Isso confirmava a importância da água na transmissão da doença, mas ao mesmo tempo mostrava que a causa do cólera não era algo que pudesse ser filtrado e separado, por meios comuns, nem era um tipo de miasma, associado ao mau cheiro.
Apesar de todos os fatos coletados por Snow, não se pode pensar que houvesse alguma prova definitiva de que o cólera era transmitido através da água. Ele próprio cita fatos difíceis de explicar. Alguns médicos objetaram que nem todas as pessoas que bebem água supostamente contaminada ficam doentes. Por que? Talvez o tipo de água produzisse uma predisposição à doença, mas a causa fosse de outro tipo - vindo, por exemplo, pelo ar. Um caso que era citado foi o de uma pessoa que, por engano, ingeriu o líquido evacuado por um doente de cólera - e, apesar disso, não ficou doente. Houve também experimentos: Thiesch fez com que ratos brancos ingerissem as evacuações de coléricos, mas nenhum dos ratos ficou doente. As pessoas que alegavam esses fatos defendiam a idéia de que a enfermidade provinha de emanações no ar, miasmas.

Estudos realizados na metade do século XIX mostraram que o cólera
podia ser transmitido pela água.