
Louis Pasteur
Na década de 1860, houve importantes avanços na compreensão do papel de microorganismos em doenças contagiosas. É nessa época que Pasteur desenvolve o seu primeiro estudo que teve relação direta com problemas médicos: a pesquisa da causa da enfermidade dos bichos-da-seda. A quase totalidade dos livros indica que, nessa ocasião, Pasteur iniciou o estudo científico da teoria microbiana das enfermidades. Como veremos, a história não foi bem essa. Pelo contrário: nesse episódio, Pasteur foi um opositor da teoria microbiana . A versão que será apresentada aqui será muito diferente daquilo que se costuma descrever sobre o episódio. Por isso, a investigação da doença dos bichos-da-seda será contada com certo grau de detalhe, a fim de não parecer que estamos falseando a história.
A criação de bichos-da-seda era de grande importância econômica na França. A produção de casulos para fiação da seda atingiu, em torno de 1850, a mais de 20.000 toneladas por ano. No entanto, a partir de 1853, a produção caiu progressivamente, chegando a apenas 4.000 toneladas em 1865, por causa de uma enfermidade que dizimava as criações. A mesma doença atingiu também, na mesma época, os bichos-da-seda da Itália, Espanha e outros países vizinhos.
Houve sucessivas tentativas governamentais de debelar a enfermidade. No final da década de 1850, Academia de Ciências de Paris constituiu uma comissão para estudar as causas da morte dos bichos-da-seda e propor meios de prevenção contra a enfermidade. O relator da comissão foi o naturalista Armand de Quatrefages de Bréau (1810-1892).
Duas décadas antes, como já foi indicado, uma doença dos bichos-da-seda (chamada "muscardina") havia sido estudada por Bassi, que descobriu tratar-se de uma enfermidade causada por um fungo microscópico. A enfermidade que afetava as criações na década de 1850, no entanto, era outra, chamada "pebrina". Os bichos-da-seda atacados pela doença apresentavam uma série de pequenas manchas negras na superfície, e corpúsculos negros dentro dos diversos órgãos. Essas partículas recebiam o nome de seu descobridor: "corpúsculos de Cornalia". Os bichos-da-seda doentes se enfraqueciam, morriam e secavam. Algumas vezes, surgiam outras manifestações patológicas, que Quatrefages interpretou como doenças ocasionais, que ocorriam por falta de higiene e que atingiam os animais já enfraquecidos. Mas os sinais acima indicados da pebrina eram constantes, presentes em todos os bichos-da-seda doentes. Observava-se também nos animais doentes uma alteração da coloração do sangue.
Quatrefages descreve a enfermidade como possuindo ao mesmo tempo um caráter epidêmico e hereditário. A pebrina era epidêmica, no sentido de ser uma doença que não era própria do local, mas se manifestava durante um certo tempo de modo intenso, atingindo toda uma população através de uma causa comum. Como vimos, nessa época, associava-se as epidemias a fenômenos climáticos ou a miasmas. Era hereditária, no sentido de que os bichos-da-seda doentes produziam ovos "viciados": "(...) todos eles estavam atingidos pela pebrina, que os matou em parte, deixando os sobreviventes transmitirem aos ovos o germe da doença" . Quatrefages não afirma que os bichos-da-seda já nasçam doentes; mas supõe que eles nascem com uma predisposição à pebrina.
A pebrina havia se espalhado de tal forma, que praticamente todos os bichos-da-seda franceses estavam doentes. Embora uma certa porcentagem deles conseguisse se desenvolver, fazer casulos, transformar-se em borboletas e colocar ovos, esses ovos já estavam afetados e produziam lagartas fracas.
Quatrefages utiliza uma comparação entre a pebrina e a tuberculose. O bicho-da-seda atacado pela pebrina se torna fraco, suscetível de ser atingido por outras enfermidades. Ele deve ser cuidado com precauções especiais, "como se cuida de um tuberculoso cuja existência se deseja prolongar".
Dada a natureza "hereditária" da doença, Quatrefages
recomenda que só sejam aproveitados os ovos de bichos sadios, isso
é, sem manchas.
Para reduzir a "influência epidêmica" da enfermidade,
Quatrefages recomenda que as criações sejam pequenas e que sejam
tomados todos os cuidados higiênicos. Esses cuidados incluiam aquecimento
e ventilação adequada das criações de bichos-da-seda,
alimentação adequada, cuidados com umidade, etc.
No seu trabalho final, publicado em 1860, Quatrefages afirma que "a influência epidêmica pode atingir o embrião em desenvolvimento dentro do próprio ovo". Recomenda, por isso, que os ovos que eram importados de outros países só fossem trazidos para a França na época em que fossem se abrir.
Durante algum tempo, a situação da sericicultura parece ter melhorado. No entanto, em 1865 a epidemia é tão grave que os prefeitos e proprietários agrícolas solicitam providências ao Senado. É formada uma nova comissão para o estudo da pebrina. Por influência do químico Jean-Baptiste Dumas, Pasteur é indicado para fazer parte desse trabalho.
Louis Pasteur (1822-1895) era um químico. Sua formação nada tinha a ver com Medicina ou História Natural. A única ligação entre seu trabalho e a Biologia, anteriormente, tinha sido seu estudo de microorganismos responsáveis pela fermentação e pela putrefação.
Apesar da falta de preparo na área, Pasteur aceita a indicação de Dumas e é enviado à região de Alais, em junho de 1865, para iniciar o estudo da pebrina. O próprio Pasteur reconheceu que, antes de partir, havia estudado apenas os relatórios de Quatrefages sobre a doença. Depois de algumas semanas no campo, Pasteur retorna a Paris e em setembro de 1865 apresenta à Academia de Ciências suas primeiras conclusões.
A maior parte das idéias de Pasteur coincide com as de Quatrefages. Ele admite que os ovos provenientes de bichos-da-seda com corpúsculos devem ser considerados doentes, mesmo se não se nota nos próprios ovos as manchas que assinalam a pebrina. Ele admite portanto, como Quatrefages, que a enfermidade é hereditária:
Sou levado a admitir que todos os grãos [ovos] nascidos de borboletas que possuem corpúsculos, é um grão doente. Se as borboletas são pouco carregadas de corpúsculos, seu grão fornecerá lagartas que não os mostrarão, ou que só os mostrarão excepcionalmente, no final de sua vida, e a criação poderá se comportar bem; mas se o grão provém de pais cujos tecidos ou sucos nutrientes forneceram os princípios necessários ao desenvolvimento de uma quantidade considerável de corpúsculos, ele participará ainda mais de sua constituição e talvez desde a primeira idade da lagarta o mal se mostrará pelos corpúsculos ou por todos esses sintomas mais ou menos difíceis de caracterizar que fazem adivinhar que uma criação não dará resultado. Se reuníssemos em um mesmo lugar uma multidão de crianças nascidas de pais doentes da tísica pulmonar [tuberculose], eles cresceriam mais ou menos doentios, mas só mostrariam tubérculos pulmonares - sinal certo de sua má constituição - em graus e idades variadas. As coisas se passam aproximadamente da mesma forma para as lagartas.
Pasteur repete, com detalhes, a idéia de Quatrefages de que a pebrina seria semelhante à tuberculose. Desde a Antigüidade, alguns autores haviam considerado a tuberculose como hereditária, enquanto outros a consideravam adquirida por contágio ou por influência do meio. No século XVIII, deu-se preferência à última interpretação e por isso foram tomadas medidas higiênicas para combater a doença. Apesar dessas medidas, enquanto vários tipos de doenças diminuíam no século XIX, a tuberculose continuou um grave problema na Europa. Em meados do século, existiam defensores tanto da natureza hereditária quanto da natureza adquirida da doença. Quatrefages e Pasteur, no entanto, adotam a visão de que a tuberculose é hereditária enquanto constituição orgânica, podendo se manifestar ou não dependendo das condições a que as pessoas estão submetidas. Os dois autores aplicam exatamente a mesma idéia à pebrina
Utilizando essa concepção, Pasteur propõe um modo de selecionar ovos sadios que não difere muito do anterior. Ele propõe que se examine todo o corpo do macho e da fêmea, após a colocação dos ovos, para procurar a existência de corpúsculos. Se houver corpúsculos nos pais, os ovos serão declarados doentios, em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de corpúsculos dos pais. Se não forem encontrados corpúsculos nos pais, os ovos serão considerados sadios.
Quanto aos próprios corpúsculos, Pasteur adota uma opinião que já havia sido proposta anteriormente pelo italiano Ciccone: eles não são microorganismos vegetais nem animais, são apenas o produto de um organismo doente.
Eu teria desejado poder tratar aqui sobre a natureza dos corpúsculos; mas esse assunto merece observações mais amplas do que as que pude fazer. No entanto, atrevo-me a dizer que minha opinião presente é que os corpúsculos não são nem animais nem vegetais, mas corpos mais ou menos análogos às granulações das células cancerosas ou dos tubérculos pulmonares. Do ponto de vista de uma classificação metódica, eles deveriam ser classificados preferivelmente ao lado dos glóbulos de pus ou dos glóbulos do sangue, ou mesmo dos grãos de amido, do que ao lado dos infusórios ou dos mofos.
Pode-se perceber que, no início de seu estudo dos bichos-da-seda, Pasteur está longe de apresentar novidades: ele utiliza idéias idênticas às de seus antecessores.
No ano seguinte, Pasteur dedica cinco meses ao estudo das criações. Ele observa que as lagartas podem já nascer com corpúsculos, ou tornar-se corpusculosas durante o seu desenvolvimento. No seu segundo trabalho, apresentado em julho de 1866, ele admite que "um bicho-da-seda pode ser corpusculoso de nascença ou tornar-se [corpusculoso], seja por acidente, seja principalmente por influência da hereditariedade, durante a criação". Ou, inversamente: se uma borboleta do bicho-da-seda é corpusculosa, "diremos que o grão do qual saiu, que o verme do qual proveio, que a crisálida que lhe deu nascimento estavam doentes, ou pelo menos muito predispostos a tornar-se [doentes], ou que a doença ocorreu no alojamento durante a criação".
A ênfase principal neste segundo artigo, como no primeiro, é dizer que os filhos de pais doentes, corpusculosos, serão doentes e que os ovos de borboletas sadias serão sadios. Mas Pasteur está apresentando aqui uma nova opinião, embora não diga que está abandonando sua hipótese inicial. O que significa "tornar-se corpusculoso por acidente?" Como os bichos podem se tornar doentes durante a criação? Não havia nada sobre isso no primeiro trabalho de Pasteur.
Nesse segundo artigo, ele descreve que nas criações em larga escala (industriais), é muito raro encontrar alguma borboleta sem manchas, "o que tende a estabelecer a infecção nos alojamentos". Indica também que, trabalhando em pequena escala, foi possível obter borboletas não corpusculosas, ou seja, sadias, partindo de ovos que tinham corpúsculos. Como isso foi conseguido?
Eu o atribuo não apenas ao fato da criação pequena, mas à precaução que tomei de afastar todos os dias os bichos mortos sobre a palha ou suspeitos de uma morte própria para um local próprio, onde se evitava o mais possível os pós das camas, das pranchas e das mesas.
Embora Pasteur não seja claro, diz também em outro ponto que tomando-se "pequenos cuidados de asseio" pode-se "afastar a infecção". Tudo isso parece indicar que ele acreditava na possibilidade de transmissão da enfermidade dos animais mortos ou doentes para os sadios.
Para descobrir a "fonte de infecção", Pasteur analisou a poeira dos alojamentos dos bichos-da-seda do ano anterior, antes que fossem utilizados novamente. Peneirando essa poeira, encontrou uma grande quantidade de corpúsculos misturados ao pó. Ele se pergunta se esses corpúsculos podem ser microorganismos, ou esporos dos mesmos, por analogia com a doença que havia sido estudada por Bassi (a muscardina). Mas ele nega claramente essa possibilidade.
Quando se pensa que os corpúsculos se parecem muito a esporos de mucedínios, ficaríamos tentados a crer que os alojamentos foram invadidos por um parasita análogo ao da muscardina. Isso seria um erro. Essa poeira estava carregada de corpúsculos porque na criação houve muitos bichos corpusculosos mortos na palha, que apodreceram, secaram, e os corpúsculos de seus cadáveres e de seus dejetos se disseminaram por toda parte.
Deposito sobre a mesa da Academia um pouco do pó do alojamento de que falo. Examinando-o ao microscópio, a Academia poderá se convencer da assustadora multiplicação desses pequenos corpos que eu sempre considero como uma produção que não é nem vegetal nem animal, incapaz de se reproduzir, e que deve ser incluída na categoria desses corpos de regular que a fisiologia distingue há alguns anos como organitas, tais como os glóbulos do sangue, os glóbulos do pus, etc.
Apesar de não serem microorganismos, esses corpúsculos encontrados
na poeira são maléficos, pois Pasteur afirma conterem "elementos
tóxicos em um alto grau". Polvilhando as folhas de amoreira que
alimentavam os bichos-da-seda com a peira repleta de corpúsculos, havia
uma grande mortalidade entre os animais, em poucos dias, embora eles não
ficassem cheios de corpúsculos.
A "infecção" dos bichos-da-seda, para Pasteur, não
se deve nem a problemas com os alimentos, nem a miasmas deletérios
no ar, nem a um tipo de cólera, nem a uma epidemia misteriosa. Os restos
dos cadáveres e os excrementos dos bichos doentes, cheios de corpúsculos,
seriam a causa dessa infecção.
Na verdade, a posição de Pasteur nessa época é confusa e até contraditória. Ele admite claramente que os bichos-da-seda podem se tornar doentes durante a criação; fala em infecção e chega a se referia a contágio, mas atribui a infecção a corpúsculos que não se reproduzem, que são apenas tóxicos e que matam rapidamente os bichos sem torná-los corpusculosos.
A situação ficará mais clara logo depois.
Três semanas após a apresentação do segundo trabalho de Pasteur, Antoine Béchamp (1816-1908) apresenta à Academia de Ciências de Paris o resultado de estudos que estava desenvolvendo sobre os bichos-da-seda. No início de seu trabalho, Béchamp expõe com toda clareza as duas alternativas para compreender a pebrina:
Pode-se fazer duas hipóteses para dar conta da natureza da doença chamada pebrina.
1ª Ela é constitucional. Nesse caso os corpúsculos vibrantes não passam de um sinal patognômico, uma produção patológica. Longe de ser causa da doença, eles são apenas seu efeito.
2ª Ela é parasitária. Então os corpúsculos, se não se descobrir nenhuma outra produção organizada, são a causa produtora da doença.
O trabalho que desenvolvo há quatro meses está fundamentado sobre a segunda alternativa.
Portanto, Béchamp está explorando a possibilidade que Pasteur rejeitou desde o início: a de que os corpúsculos sejam parasitas microscópicos vivos, que sejam a causa da pebrina.
Utilizando essa concepção, Pasteur propõe um modo de selecionar ovos sadios que não difere muito do anterior. Ele propõe que se examine todo o corpo do macho e da fêmea, após a colocação dos ovos, para procurar a existência de corpúsculos. Se houver corpúsculos nos pais, os ovos serão declarados doentios, em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de corpúsculos dos pais. Se não forem encontrados corpúsculos nos pais, os ovos serão considerados sadios.
Quanto aos próprios corpúsculos, Pasteur adota uma opinião que já havia sido proposta anteriormente pelo italiano Ciccone: eles não são microorganismos vegetais nem animais, são apenas o produto de um organismo doente.
Eu teria desejado poder tratar aqui sobre a natureza dos corpúsculos; mas esse assunto merece observações mais amplas do que as que pude fazer. No entanto, atrevo-me a dizer que minha opinião presente é que os corpúsculos não são nem animais nem vegetais, mas corpos mais ou menos análogos às granulações das células cancerosas ou dos tubérculos pulmonares. Do ponto de vista de uma classificação metódica, eles deveriam ser classificados preferivelmente ao lado dos glóbulos de pus ou dos glóbulos do sangue, ou mesmo dos grãos de amido, do que ao lado dos infusórios ou dos mofos.
Pode-se perceber que, no início de seu estudo dos bichos-da-seda, Pasteur está longe de apresentar novidades: ele utiliza idéias idênticas às de seus antecessores.
No ano seguinte, Pasteur dedica cinco meses ao estudo das criações. Ele observa que as lagartas podem já nascer com corpúsculos, ou tornar-se corpusculosas durante o seu desenvolvimento. No seu segundo trabalho, apresentado em julho de 1866, ele admite que "um bicho-da-seda pode ser corpusculoso de nascença ou tornar-se [corpusculoso], seja por acidente, seja principalmente por influência da hereditariedade, durante a criação". Ou, inversamente: se uma borboleta do bicho-da-seda é corpusculosa, "diremos que o grão do qual saiu, que o verme do qual proveio, que a crisálida que lhe deu nascimento estavam doentes, ou pelo menos muito predispostos a tornar-se [doentes], ou que a doença ocorreu no alojamento durante a criação".
A ênfase principal neste segundo artigo, como no primeiro, é dizer que os filhos de pais doentes, corpusculosos, serão doentes e que os ovos de borboletas sadias serão sadios. Mas Pasteur está apresentando aqui uma nova opinião, embora não diga que está abandonando sua hipótese inicial. O que significa "tornar-se corpusculoso por acidente?" Como os bichos podem se tornar doentes durante a criação? Não havia nada sobre isso no primeiro trabalho de Pasteur.
Nesse segundo artigo, ele descreve que nas criações em larga escala (industriais), é muito raro encontrar alguma borboleta sem manchas, "o que tende a estabelecer a infecção nos alojamentos". Indica também que, trabalhando em pequena escala, foi possível obter borboletas não corpusculosas, ou seja, sadias, partindo de ovos que tinham corpúsculos.
Eu o atribuo não apenas ao fato da criação pequena, mas à precaução que tomei de afastar todos os dias os bichos mortos sobre a palha ou suspeitos de uma morte própria para um local próprio, onde se evitava o mais possível os pós das camas, das pranchas e das mesas.
Embora Pasteur não seja claro, diz também em outro ponto que tomando-se "pequenos cuidados de asseio" pode-se "afastar a infecção". Tudo isso parece indicar que ele acreditava na possibilidade de transmissão da enfermidade dos animais mortos ou doentes para os sadios.
Para descobrir a "fonte de infecção", Pasteur analisou a poeira dos alojamentos dos bichos-da-seda do ano anterior, antes que fossem utilizados novamente. Peneirando essa poeira, encontrou uma grande quantidade de corpúsculos misturados ao pó. Ele se pergunta se esses corpúsculos podem ser microorganismos, ou esporos dos mesmos, por analogia com a doença que havia sido estudada por Bassi (a muscardina). Mas ele nega claramente essa possibilidade.
Quando se pensa que os corpúsculos se parecem muito a esporos de mucedínios, ficaríamos tentados a crer que os alojamentos foram invadidos por um parasita análogo ao da muscardina. Isso seria um erro. Essa poeira estava carregada de corpúsculos porque na criação houve muitos bichos corpusculosos mortos na palha, que apodreceram, secaram, e os corpúsculos de seus cadáveres e de seus dejetos se disseminaram por toda parte.
Deposito sobre a mesa da Academia um pouco do pó do alojamento de que falo. Examinando-o ao microscópio, a Academia poderá se convencer da assustadora multiplicação desses pequenos corpos que eu sempre considero como uma produção que não é nem vegetal nem animal, incapaz de se reproduzir, e que deve ser incluída na categoria desses corpos de regular que a fisiologia distingue há alguns anos como organitas, tais como os glóbulos do sangue, os glóbulos do pus, etc.
Apesar de não serem microorganismos, esses corpúsculos encontrados
na poeira são maléficos, pois Pasteur afirma conterem "elementos
tóxicos em um alto grau". Polvilhando as folhas de amoreira que
alimentavam os bichos-da-seda com a peira repleta de corpúsculos, havia
uma grande mortalidade entre os animais, em poucos dias, embora eles não
ficassem cheios de corpúsculos.
A "infecção" dos bichos-da-seda, para Pasteur, não
se deve nem a problemas com os alimentos, nem a miasmas deletérios
no ar, nem a um tipo de cólera, nem a uma epidemia misteriosa. Os restos
dos cadáveres e os excrementos dos bichos doentes, cheios de corpúsculos,
seriam a causa dessa infecção.
Na verdade, a posição de Pasteur nessa época é confusa e até contraditória. Ele admite claramente que os bichos-da-seda podem se tornar doentes durante a criação; fala em infecção e chega a se referia a contágio, mas atribui a infecção a corpúsculos que não se reproduzem, que são apenas tóxicos e que matam rapidamente os bichos sem torná-los corpusculosos.
A situação ficará mais clara logo depois.
Três semanas após a apresentação do segundo trabalho de Pasteur, Antoine Béchamp (1816-1908) apresenta à Academia de Ciências de Paris o resultado de estudos que estava desenvolvendo sobre os bichos-da-seda. No início de seu trabalho, Béchamp expõe com toda clareza as duas alternativas para compreender a pebrina:
Pode-se fazer duas hipóteses para dar conta da natureza da doença chamada pebrina.
1ª Ela é constitucional. Nesse caso os corpúsculos vibrantes não passam de um sinal patognômico, uma produção patológica. Longe de ser causa da doença, eles são apenas seu efeito.
2ª Ela é parasitária. Então os corpúsculos, se não se descobrir nenhuma outra produção organizada, são a causa produtora da doença.
O trabalho que desenvolvo há quatro meses está fundamentado sobre a segunda alternativa.
Portanto, Béchamp está explorando a possibilidade que Pasteur rejeitou desde o início: a de que os corpúsculos sejam parasitas microscópicos vivos, que sejam a causa da pebrina.
Antoine Béchamp.
Béchamp encontrou sobre a superfície exterior de ovos dos bichos-da-seda e do corpo de lagartas, muitos corpúsculos que podiam ser retirados por lavagem com o auxílio de um pincel. Observou que as lagartas jovens podiam ter corpúsculos fora do corpo, e nenhum em seu interior. Ele sugeriu nesse trabalho que os corpúsculos viriam inicialmente de fora dos ovos, prendendo-se às lagartas e depois introduzindo-se nelas.
Pasteur comenta pouco depois sobre o trabalho de Béchamp. Ele discute especialmente a idéia de que os corpúsculos estão inicialmente fora dos ovos. Afirma que mesmo lavando muito cuidadosamente os ovos produzidos por borboletas corpusculosas, e esmagando-os, são encontrados corpúsculos.
Quanto à questão geral sobre a causa da enfermidade, colocada por Béchamp, Pasteur prefere não se pronunciar, por se tratar de opiniões "a priori", ou seja, que precedem a investigação experimental: "Com relação a idéias preconcebidas, é bom que cada um se inspire nas que acreditar mais próprias para conduzir à verdade".
Logo depois, no entanto, são publicados dois artigos de grande importância, que estudam a natureza dos corpúsculos do bicho-da-seda e defendem sua natureza parasitária. Um deles é do próprio Béchamp, o outro é do naturalista Balbiani.
Balbiani ataca diretamente a interpretação de Pasteur sobre os corpúsculos:
Dentre todas as opiniões contraditórias que foram emitidas sobre a natureza dos corpúsculos da pebrina, a mais discutível, em minha opinião, é a que os compara a elementos anatômicos normais ou mais ou menos alterados, ou a produtos mórbidos como os glóbulos de pus. Há mais de oito anos que essa opinião foi refutada pelo professor Lebert.
Balbiani esclarece que Lebert e ele próprio haviam feito estudos químicos sobre os corpúsculos, concluindo que eles não tinham as propriedades dos tecidos animais. Balbiani afirma que, ao invés de serem produzidos pelo corpo do bicho-da-seda, os corpúsculos invadem gradualmente os seus tecidos, como parasitas. Ele compara os corpúsculos da pebrina a parasitas vegetais que já haviam sido estudados antes em outros animais (peixes, aranhas, insetos, etc.), e que eram conhecidos pelo nome de "psorospermias" (nome tirado de "psora", sarna, que é uma afecção causada por um pequeno parasita, e "sperma", que significa semente ou germe). Balbiani conclui:
Os corpúsculos que se observa na doença descrita sob o nome de pebrina nos bichos-da-seda não são elementos anatômicos provenientes da alteração de partes fluidas ou sólidas de seu organismo, mas psorospermias, quer dizer, espécies vegetais parasíticas, que se encontra, aliás, em um grande número de outros insetos e articulados.
É curioso que Balbiani utiliza contra a opinião de Pasteur argumentos químicos. Como foi dito anteriormente, Pasteur era um químico por sua formação. Seria de se esperar que ele utilizasse métodos químicos, para o estudo da pebrina, mas ele não o fez.
Béchamp, por sua vez, utiliza também argumentos químicos semelhantes aos de Balbiani mas, além disso, mostra outras fortes evidências de que os corpúsculos são vegetais microscópicos.
Pasteur, como vimos, havia feito estudos sobre fermentações e aceitava que esse fenômeno é produzido por microorganismos. Béchamp, na mesma época, havia chegado a conclusões idênticas. Aproveitando sua experiência com esse tipo de fenômenos, Béchamp testou os corpúsculos da pebrina para verificar se eles se comportavam como fermentos. Colocando-os em uma solução de açúcar de cana, verificou que ele de fato produzia a fermentação do líquido, com a transformação do açúcar em glucose e acidificação do líquido. Como se admitia que os fermentos eram vegetais microscópicos, concluia-se que os corpúsculos eram parasitas e não produtos dos bichos-da-seda.
Béchamp fez outros testes que deram também resultados muito claros. Se os corpúsculos fossem produtos do animal, eles deveriam de desfazer quando um bicho-da-seda morto apodrecesse. Béchamp esmagou três bichos-da-seda pouco corpusculosos em água. Observou inicialmente o líquido e viu que uma gota colocada ao microscópio mostrava três ou quatro corpúsculos de cada vez, no campo visual. Deixou o líquido se decompor durante oito dias e notou um cheiro característico de coisas podres. Examinou então uma gota do líquido no microscópio. Observou uma grande quantidade dos microorganismos que costumam aparecer durante a putrefação, como vibriões e outros infusórios. Além deles, havia uma enorme quantidade de corpúsculos iguais aos dos bichos-da-seda. Eles não haviam se dissolvido ou apodrecido. Pelo contrário: eles haviam se multiplicado. Isso mostrava ao mesmo tempo que não eram partes dos bichos-da-seda, e que eram seres vivos autônomos, pois haviam se reproduzido.
Outro teste de Béchamp consistiu em colocar os corpúsculos em uma base forte: a potassa cáustica (KOH). Uma solução de potassa a 10% dissolve quase instantaneamente as células animais, incluindo as do pus e de tecidos cancerosos. Pelo contrário: colocando-se os corpúsculos nessa solução, eles mantêm a mesma forma durante mais de dois dias. Colocando-se todo o corpo de um bicho-da-seda, esmagado, na solução de potassa, o corpo todo se dissolve, exceto os corpúsculos. Isso mostrava que eles tinham uma natureza química muito diferente.
Além disso, Béchamp observou que os corpúsculos tinham certo movimento (eram chamados às vezes de "corpúsculos vibrantes", por causa disso). Quando eram deixados muito tempo na potassa, o movimento desaparecia. A única interpretação razoável do fenômeno era a de que eles eram vivos e que a potassa os havia matado.
Após a publicação dos trabalhos de Balbiani e Béchamp, Pasteur se retrai. Ele não discute os pontos mais importantes desses trabalhos, mas comenta aspectos secundários. Critica Béchamp novamente por sua idéia de que os corpúsculos vem de fora dos ovos e não comenta nenhum outro ponto de seu trabalho.
Quanto ao trabalho de Balbiani, Pasteur se mostra mais cordial e não o critica. Ele afirma que sua própria opinião é diferente, mas que irá examinar com cuidado as idéias de Balbiani, "pois elas partem de um observador hábil e porque sobre esse assunto tenho apenas visões preconcebidas", que ele não podia fundamentar pela observação . No entanto, Pasteur afirma que se as idéias de Balbiani não invalidam e sim reforçam o método prático que ele próprio havia desenvolvido para o cuidado dos bichos-da-seda.
Por fim, Pasteur diz que "enquanto não se demonstrar o modo de geração desses corpúsculos, a idéia de que são parasitas ficará sem base". No entanto, Béchamp já havia mostrado claramente que eles se reproduziam fora do corpo dos bichos-da-seda.
Outro naturalista, N. Joly, defende Pasteur e se volta contra Béchamp, afirmando que os corpúsculos são uma produção do organismo e que a causa da doença é constitucional. Joly indica que Béchamp precisaria apresentar uma prova diferente de que os corpúsculos são a causa e não efeito da enfermidade: precisaria produzir a doença em animais sadios, pelos corpúsculos.
Para admitir aqui a teoria do parasitismo, seriam necessárias, em minha opinião, provas mais conclusivas do que as que são dadas pelo senhor Béchamp. Eu gostaria, por exemplo, que ele inoculasse o corpúsculo vibrante em uma lagarta reconhecidamente sadia e que ele produzisse, de modo indubitável, a pebrina, assim como se faz nascer a muscardina inoculando a Botrytis bassiana
Béchamp procura estudar o processo de reprodução dos corpúsculos. Em março de 1867, ele publicou o resumo de um trabalho em que mostrava que esses corpúsculos se dividiam por cissiparidade, como vários outros microorganismos. No mês de abril, Béchamp apresenta à Academia de Ciências de Paris um trabalho mais desenvolvido sobre o mesmo assunto, com desenhos que mostram o crescimento, mudança de forma e divisão dos corpúsculos. Essa era a prova exigida por Pasteur para aceitar que os corpúsculos são parasitas, como vimos antes.
Nesse mesmo dia, Pasteur apresenta também à Academia um pequeno trabalho em que anuncia ter mudado de opinião e aceitar agora que os corpúsculos eram parasitas. No entanto, o motivo da mudança de opinião de Pasteur não foi o trabalho de Béchamp. Pelo contrário: Pasteur nem cita o nome de Béchamp, mas anuncia que ele próprio, Pasteur, acaba de descobrir que os corpúsculos se dividem por cissiparidade no estômago dos bichos-da-seda.
Na verdade, o trabalho de Pasteur era pouco conclusivo. Suas observações foram criticas por Balbiani. Mas, mesmo se suas observações tivessem sido perfeitas, a descoberta de que os corpúsculos se dividem dentro do estômago dos bichos-da-seda não provava que eram seres vivos independentes, nem que eram vegetais, nem que eram a causa da doença. No entanto, a partir desse momento, Pasteur considerou que havia provado rigorosamente que os corpúsculos eram parasitas e que eram a causa da pebrina.
Nem neste trabalho, nem em qualquer outro posterior, Pasteur admitiu que Béchamp havia defendido antes dele, com excelentes argumentos e observações, a natureza parasitária dos corpúsculos do bicho-da-seda. Béchamp protestou, enviando uma carta à Academia de Ciências de Paris, na qual indicava toda a sucessão de trabalhos dele próprio e de Pasteur, mostrando de forma clara que ele e não Pasteur havia estabelecido a causa da pebrina. De nada adiantou. Dada a grande influência de Pasteur na época, o trabalho de Béchamp foi esquecido. E perpetuou-se, até hoje, a falsa história de que Pasteur, estudando os bichos-da-seda, fundou a teoria microbiana das enfermidades.
Sob o ponto de vista sociológico, este episódio que estudamos aqui é uma triste amostra de como, muitas vezes, os pesquisadores estão mais interessados em si próprios do que na verdade. Os cientistas não são anjos. São seres dotados de vaidade, de agressividade, capazes de ocultar a verdade, de mentir, de utilizar estratégias pouco dignas para vencer os adversários e sobressair socialmente.
Sob o ponto de vista científico, por outro lado, a descrição desse episódio permite também tirar algumas lições. Vimos como foi difícil estabelecer que a doença dos bichos-da-seda era causada por microorganismos. Por um lado, não basta observar o corpo do animal e ver dentro dele certos corpúsculos para concluir que esses corpúsculos são microorganismos que causam a enfermidade. É preciso primeiro reconhecer que esses corpúsculos são vivos; verificar se eles podem viver fora do organismo doente e se reproduzir; se possível, identificar o seu tipo; e estabelecer a relação entre eles e a doença. No caso estudado, desde o início ninguém tinha dúvidas de que os corpúsculos eram ou causa, ou efeito da doença. Mas, em princípio, poderia se tratar de outra coisa: os corpúsculos poderiam ser microorganismos que invadissem os bichos-da-seda quando eles estivessem debilitados pela enfermidade, ao invés de serem a própria causa da doença. Por isso, ainda teria sido necessário que Béchamp e Pasteur tivessem aprofundado suas investigações, para esclarecer pontos como este.

O estudo dos bichos-de-seda por Agostino Bassi e, depois, por Béchamp
e Pasteur, conduziu à identificação dos primeiros casos
de microorganismos causadores de doenças.
Na década de 1860, ao mesmo tempo em que ocorreram os estudos de Lister sobre a infecção das feridas e os de Pasteur e Béchamp sobre os bichos-da-seda, muitos outros pesquisadores se dedicaram à pesquisa de microorganismos e sua relação com doenças.