CONTÁGIO



Entre os pitagóricos, também deve ter existido a idéia de que a saúde resulta do equilíbrio físico interno. Esse conceito aparece em uma obra de Platão (o "Timeu"), em que ele descreve as concepções de um filósofo pitagórico:

Todos podem ver de onde surgem as doenças. Há quatro naturezas a partir da qual se forma o corpo: terra e fogo, água e ar. O excesso ou falta destes, contrariamente à natureza, ou a mudança de qualquer um deles de seu lugar natural para outro ou a transformação de algum deles em um tipo errado, ou qualquer outra irregularidade semelhante, produz desordens e doenças.

Quando cada processo ocorre em sua ordem, resulta comumente a saúde; quando na ordem oposta, doença.

Idéias como essas serão centrais no pensamento médico de Hipócrates, o mais famoso médico grego da Antigüidade. Supõe-se que ele viveu em torno do ano 400 antes da era cristã. Platão e Aristóteles falam sobre ele como sendo o mais importante médico da época. Tornou-se uma figura lendária, e posteriormente foram inventadas histórias sobre ele, como a de que seria um descendente de Hércules e de Asclepios.

Existe uma grande quantidade de livros que sobreviveram até hoje, que são atribuídos a Hipócrates. Esse conjunto de obras é chamado "Coleção Hipocrática" (ou, em latim: "Corpus Hippocraticum"). São muitos livros, de estilos diferentes, que não podem ter sido escritos por uma mesma pessoa, pois eles se contradizem e criticam uns aos outros. Eles foram reunídos quando foi criada a grande biblioteca de Alexandria, um século depois da época de Hipócrates. Pode ser que nenhum deles tenha sido escrito pelo verdadeiro Hipócrates. Muitos historiadores já tentaram identificar as épocas e autores dessas obras, mas nenhum desses resultados é seguro. Por isso, vamos nos referir simplesmente às "obras de Hipócrates", sem no entanto querer dizer que essas obras foram escritas por uma única pessoa chamada Hipócrates.

A medicina hipocrática é totalmente naturalista, ou seja, nunca leva em conta causas sobrenaturais. Esse ponto de vista se torna especialmente claro, por exemplo, em uma obra que discute a epilepsia, que era chamada de "doença sagrada":

Com relação à doença chamada "sagrada": ela me parece não ser mais divina nem sagrada do que outras doenças, mas tem uma causa natural da qual ela se origina, como as outras perturbações. Os homens consideram sua natureza e causa como divinas por ignorância e espanto, pois ela não é como as outras doenças. E essa noção de sua natureza divina é mantida pela incapacidade de compreendê-la e pela simplicidade do modo pelo qual ela é curada, pois os homens se libertam dela por purificações e encantamentos.

A obra de Hipócrates recusa toda explicação sobrenatural e associa a epilepsia a problemas hereditários do cérebro.

Uma idéia básica que aparece em muitas obras de Hipócrates é a de que o organismo humano é composto por um certo número de líquidos ou "humores". Quando esses humores estão distribuídos corretamente pelo corpo, e em quantidades corretas, existe a saúde. Mas quando um deles está em excesso ou acumulado em um local ou não tem as propriedades corretas, ocorre a doença.

A saúde é, assim, um estado de harmonia e a doença corresponde a uma desarmonia interna. Em grande parte, a saúde e a doença resultam da alimentação, pois é dos alimentos que se originam todas as substâncias do corpo, incluindo os humores. Os alimentos precisam ser transformados nas substâncias corporais, e isso ocorre através de seu "cozimento", digestão ou "maturação" no organismo. Se o alimento não é bem "cozido" no corpo, resultam humores inadequados e a doença.

O processo de cura exige que esses humores sejam "cozidos" e que os excessos sejam excretados pela urina, suor, excrementos ou catarro. O tratamento é feito principalmente pela dieta, exercícios físicos, banhos quentes, assim como remédios destinados a retirar os humores em excesso (como laxativos ou vomitórios).

Em algumas das obras hipocráticas, os remédios são também vistos como devendo ser dotados de propriedades opostas às dos humores que estão causando a doença. Nesse caso, os remédios poderiam anular os efeitos desses humores no corpo. No entanto, em outras obras, critica-se esse método de terapia.

Nas obras hipocráticas, não se descreve de modo totalmente claro as idéias que depois se tornaram clássicas, como a doutrina dos humores. Foi depois, a partir de Galeno, que passaram a ser aceitos como fundamentais os quatro humores: sangue, fleugma (catarro), bilis negra e bilis amarela. Nas obras hipocráticas esses humores aparecem, mas há também menção a outros, como o salgado, o humor amargo, etc.

A doença se manifesta quando um dos humores não é cozido adequadamente pelo corpo, permanencendo "cru". Então, ele se separa dos demais e produz um desequilíbrio. A degeneração dos humores ocorre ou por dieta incorreta, ou por alguma mudança nas condições atmosféricas. Na obra hipocrática "Sobre a natureza do homem" aparece uma descrição bastante clara dessas idéias:

O corpo do homem tem dentro dele sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra. Eles constituem a natureza desse corpo e por eles surge a dor ou a saúde. Ocorre a saúde mais perfeita quando esses elementos estão em proporções corretas um para com o outro em relação a composição, poder e quantidade, e quando eles estão perfeitamente misturados. Sente-se dor quando um desses elementos está em falta ou excesso, ou se isola no corpo sem se compor com todos os outros.

É possível que a concepção de quatro humores fundamentais tenha surgido a partir da teoria dos quatro elementos de Empédocles. Ele ensinava que tudo é constituído a partir de quatro elementos básicos: terra, fogo, água e ar. Essa idéia será depois aproveitada por vários outros autores, assumindo grande importância na medicina.

No decorrer da doença, o organismo procura "cozinhar" o humor que está cru, através do calor natural, que pode se intensificar (manifestando-se pela febre). A febre não é, portanto, um sinal negativo, mas um sinal positivo de reação do organismo. Durante a doença, existe uma luta entre o poder da doença e o poder do corpo. O processo de cozimento ou maturação do humor cru termina por uma "crise", que pode ser favorável ou negativa. Para acompanhar a evolução da doença, é por isso de grande importância examinar todo tipo de excremento ou secreção (vômito, fezes, urina, catarro, suor, etc.). O doente pode se recuperar com a expulsão ou transformação do humor cru; pode morrer; ou pode haver uma recuperação parcial, quando o humor cru ou parcialmente cozido fica isolado sob a forma de um abcesso, de uma inflamação ou inchaço localizado.

O seguinte exemplo da descrição de Hipócrates mostra o papel da expulsão dos humores:

(...) houve quatro sintomas principais que indicavam a recuperação: uma hemorragia adequada pelas narinas; descarga copiosa de urina com muito sedimento de caráter adequado; intestinos desarranjados com evacuações de bilis no momento certo; aparecimento de características de disenteria. Em muitos casos a crise surgia não apenas com um desses sintomas mas, na maioria dos casos, com todos eles e os pacientes pareciam estar pior; mas todos os que tinham esses sintomas melhoravam.

As técnicas terapêuticas descritas nos textos hipocráticos se baseiam nesse tipo geral de concepção. Em certos estágios da doença, deve-se ajudar o organismo através de laxativos, vomitórios, expectorantes, diuréticos, regime, sangrias. Em outras fases, deve-se deixar que o organismo atue sozinho.

A teoria hipocrática de doença e cura não utiliza nenhuma suposição semelhante à de contágio. A causa da doença é sempre algo associado à alimentação, ao clima, às características da região, ao modo de vida, à idade e sexo da pessoa. A hepatite, por exemplo, é causada pela bílis negra e ocorre no outono. O tifo ocorre no verão, quando a bílis é colocada em movimento.

Com relação às estações, se o inverno for seco e soprar vento do norte, e a primavera for úmida e soprar vento do sul, haverá necessariamente no verão febres agudas, doenças dos olhos e disenteria, especialmente entre as mulheres e nos que tenham constituição úmida.

Os escritos hipocráticos nunca supõem que alguma coisa capaz de produzir doenças penetra dentro do doente, ou que a doença possa passar de uma pessoa para outra. Quanto muitas pessoas adquirem a mesma doença, a causa é alguma mudança do ambiente, que afetou a todos do mesmo modo.
Nota-se especialmente esse tipo de concepção em uma obra hipocrática denominada "Sobre as epidemias". Nessa obra, o autor se dá ao trabalho de descrever cuidadosamente o clima, os sintomas da doença e a sua evolução, mas em nenhum instante fala sobre contágio. Cada epidemia descrita nesta obra tem uma "constituição" particular, associada às condições ambientais que a produziram.

Em Thasus, aproximadamente no equinócio de outono, quando as Plêiades ainda apareciam [isto é, entre 21 de setembro e 8 de novembro], houve chuvas suaves contínuas e abundantes, com ventos do sul.

O inverno teve predominância [de ventos] do sul, com poucos ventos do norte. Houve seca. Em geral, o inverno se assemelhou à primavera.

A primavera foi fria e teve predominância do sul, poucas chuvas. O verão, em sua maior parte, enevoado, sem chuva; ventos da estação foram raros e curtosl, soprando de modo irregular.

A constituição anterior teve predominância do norte, enquanto que a tendência geral [nesse ano] foi de ventos do sul e secas. Por isso, no início da primavera, houve alguns poucos casos de febre ardente, todos muito leves; em alguns houve hemorragia, mas nenhum foi fatal. Muitos tiveram inchações ao lado das orelhas, em muitos casos dos dois lados, em geral sem febre e não necessitando ficar acamados. (...) Essas condições ocorreram em crianças, jovens e adultos; principalmente os que se exercitavam em ginásios e que lutavam. Raramente atacou mulheres. (...)

Esta descrição de uma "epidemia" é típica da obra hipocrática. Não há nenhuma discussão detalhada sobre a relação entre o clima e os sintomas, embora às vezes se possa adivinhar a conexão que se poderia tentar estabelecer, utilizando a teoria dos humores. E, como já foi dito, em nenhum caso aparece qualquer referência à transmissão de doenças de uma pessoa para outra.

Em que sentido, então, se pode falar aqui sobre "epidemias"? É preciso recordar o significado primitivo dessa palavra. "Epidemia" era uma palavra inicialmente utilizada para indicar a residência temporária em uma cidade, de uma pessoa que não era daquele local. Pelo contrário, "endemia" se referia à residência permanente de alguém nativo daquele mesmo local. Essas palavras não diziam respeito a doenças e não tinham nenhuma conotação de algo que passasse de uma pessoa para outra. Assim, utilizando o significado original da palavra, o texto hipocrático está descrevendo corretamente como "epidemia" uma doença que não é própria de um local, mas que permanece durante algum tempo naquela cidade.

A PESTE DE ATENAS: O CONTÁGIO NA TRADIÇÃO GREGA

Vimos que, na teoria hipocrática, as epidemias eram causadas por algum tipo de influência (em geral, climática) que atingia ao mesmo tempo toda a população. Não ha-via menção ao contágio. Em contraste com a visão "científica" de Hipócrates, a popula-ção em geral admitia a transmissão de doenças de uma pessoa para outra. Pode-se ob-servar isso na famosa e impressionante descrição que o historiador Tucídides fez da peste que assolou Atenas.

A peste descrita por Tucídides ocorreu no ano 430 antes da era cristã, logo após a invasão da cidade pelos espartanos, durante a guerra do Peloponeso. Havia notícia de que a doença já havia ocorrido antes em outros locais, mas em Atenas a epidemia foi muito mais grave, matando milhares de atenienses. A doença se estabeleceu repentina-mente e atingiu rapidamente muitas pessoas.

Tucídides conta que os médicos ignoravam como tratar essa doença e que ne-nhuma tentativa de tratar os doentes tinha sucesso. As pessoas recorreram às preces e consultas aos oráculos, mas isso de nada serviu. Inicialmente, os atenienses pensaram que os invasores haviam envenenado os poços de água, pois a região onde a doença surgiu não tinha fontes, e utilizava poços. Mas logo a doença se espalhou pelas outras partes de Atenas, e ficou claro que não se tratava de envenenamento, mas de uma terrí-vel peste.

"A peste de Atenas", quadro do pintor belga Michiel Sweerts (1624 - 1664).
"A peste de Atenas", quadro do pintor belga Michiel Sweerts (1624 - 1664).

O próprio Tucídides foi acometido pela peste, mas sobreviveu. Ele não se preo-cupa em especular sobre a causa da doença, mas descreve com grande cuidado os seus sintomas:

Se alguém já estava doente antes, sua enfermidade se transformava na peste. Os outros, sem nenhum sinal de aviso, em plena saúde, eram tomados inicialmente por um forte calor na cabeça, vermelhidão e inflamação dos olhos. As partes in-ternas, como a garganta e a língua, ficavam sanguinolentas e emitiam um hálito fétido e repugnante. Esses sintomas eram seguidos por espirros e rouquidão, e logo depois a doença descia ao peito, manifestando-se por uma tosse violenta. Depois, fixava-se na boca do estômago, revolvendo-o; e seguiam-se descargas de bílis de todos os tipos catalogados pelos médicos, acompanhados por sofrimento atroz.

A maior parte dos doentes era tomada por ânsia de vômito, que provocava fortes espasmos. Em alguns isso logo cessava, em outros demorava. O corpo, na superfície, não dava a impressão de um calor excessivo, nem ficava pálido, mas um pouco avermelhado, lívido, e rompiam pequenas úlceras e pústulas. Os órgãos internos, no entanto, queimavam tanto que os enfermos não suportavam o contato das roupas e tecidos, mesmo os mais finos; desnudavam-se completamente e queriam jogar-se na água fria. E muitos de fato o faziam, jogando-se nos poços, oprimidos por uma sede insaciável; mas não fazia diferença se bebiam muito ou pouco.

A impossibilidade de repousar e de dormir os atormentava continuamente. O corpo inicialmente não se desgastava, mas resistia ao trabalho da doença. Os que morriam após sete ou oito dias ainda conservavam uma certa força. Mas os que passavam desse estágio, quando a doença descia ao ventre, tinham grandes ulcerações acompanhadas por fortes diarréias e por causa desta muitos morriam de fraqueza.

A terrível doença, quando não matava, produzia graves danos e mutilações nas mãos, pés e órgãos genitais. Alguns sobreviventes ficavam cegos. Outros, perdiam toda a lembrança de seu passado, não conhecendo mais seus familiares. Os cadáveres ficavam jogados pelo chão. Os pássaros e os animais que normalmente se alimentariam desses corpos, ficavam longe deles, ou, se os comiam, morriam logo depois.

Temendo o contágio, os próprios parentes abandonavam as pessoas doentes. Segundo Tucídides, as pessoas que ficavam doentes e sobreviviam não eram mais atacadas pela peste e podiam atender sem perigo aos doentes.

Tantas pessoas morriam que já não se conseguia mais enterrá-las ou queimar adequadamente seus corpos. A morte atingia a todos e a proximidade do fim fazia com que as pessoas se tornassem imediatistas, durante a praga. Ninguém mais se importava com as leis, com a honra ou a religião. Todos queriam apenas aproveitar da maneira mais agradável possível os seus últimos momentos.

Há estimativas de que tenha morrido a metade ou mais da metade dos habitantes de Atenas.

A peste desapareceu como havia surgido: sem que se soubesse sua causa ou como curá-la. Parecia algo sobrenatural. Pouco depois da peste, os atenienses colocaram no altar uma estátua de bronze de Atenea Hygieia, a quem foi atribuída a salvação da cidade.

Na descrição de Tucídides, percebe-se claramente que ele acreditava que a peste era transmissível. Note-se que a idéia de que a doença passava de uma pessoa para outra não é apenas uma hipótese do próprio Tucídides. Ele descreve que as pessoas abandonavam os doentes por medo de adquirirem a peste. É evidente, por essa descrição, que o conceito de contágio da peste era extremamente difundido entre as pessoas.

Provavelmente, Hipócrates presenciou essa peste. Há narrativas de que ele próprio teria acabado com ela, acendendo grandes fogueiras por toda a cidade de Atenas (ou seja, mudando o seu clima, de modo artificial). Porém, se vivenciou essa assustadora experiência, ela não lhe passou a idéia de contágio.

Por que motivo Hipócrates não aceitou a concepção popular de contágio nas epidemias? Não podemos sabê-lo com certeza, pois ele nem chega a discutir essa idéia. Mas pode-se tentar compreender sua posição com base na atitude geral que é mostrada nos textos hipocráticos. De um modo geral, nesses livros não se tenta adivinhar aquilo que não pode ser observado.

Aquilo que se pode conhecer de uma doença é o que é mostrado pelos sintomas, e pouco mais além disso. Ao invés de especular sobre o que não se vê, os textos hipocráticos se concentram nos aspectos que podem ser mais úteis para a prática médica: descrição dos sintomas, desenvolvimento da doença, prognóstico, tratamento. Essa atitude empírica pode ter sido um dos motivos para evitar qualquer discussão sobre uma coisa invisível que pudesse estar passando de um doente para uma pessoa sadia, transmitindo a doença.

Pode ser também que essa noção de contágio parecesse a Hipócrates uma mera superstição, como as noções de magia e religião com as quais ela sempre esteve associada na Antigüidade. Como a medicina hipocrática é decididamente naturalista e despreza qualquer explicação sobrenatural, talvez a idéia de contágio tenha sido recusada e atirada ao lixo juntamente com as outras idéias supersticiosas com as quais estava associada.

Pode ter havido ainda um terceiro motivo. A concepção geral de saúde e doença de Hipócrates é incompatível com a idéia de contágio. Se a saúde é um equilíbrio dos humores, como esse equilíbrio poderia ser rompido pelo contato físico com outra pessoa? Como um desequilíbrio dos humores em um doente pode passar para outro? É difícil imaginar uma coisa desse tipo. Pode ter sido, portanto, por motivos teóricos, que o contágio foi excluído do pensamento médico de Hipócrates.

A SITEMATIZAÇÃO DA MEDICINA RACIONALISTA GREGA

Um dos mais importantes filósofos de todos os tempos foi, sem dúvida, Aristóteles. Ele viveu em uma época pouco posterior a Hipócrates. Seu pai era médico, e ele deve ter adquirido certo conhecimento da medicina da época. Embora nunca tenha se dedicado mais especialmente a esse estudo, sua obra filosófica teve grande influência indireta nas teorias médicas posteriores.

Para Hipócrates, a medicina era uma arte ou técnica, um conhecimento empírico - isto é, adquirido pela experiência, pela observação, por tentativa. Embora houvesse uma vaga teoria por trás dos ensinamentos de Hipócrates, suas obras nunca dão grande ênfase à tentativa de explicar os sintomas das doenças através de causas internas, por exemplo. Parece mais importante fazer previsões corretas e obter sucesso no tratamento do que compreender o que está acontecendo dentro do doente.

Esta atitude geral da medicina hipocrática era coerente com a visão de Platão a respeito do conhecimento. Segundo Platão, não é possível se obter um conhecimento racional, exato, das coisas que pertencem ao mundo material. Qualquer concepção sobre o mundo que percebemos à nossa volta, para Platão, é apenas uma opinião mais ou menos provável e que nunca pode ser segura. Assim, quando se trata do mundo material, torna-se mais importante a prática do que a teoria.

No entanto, essa visão sobre o conhecimento do mundo se altera completamente com Aristóteles. Ele defende a possibilidade de um conhecimento científico, racional, seguro, exato, do mundo material, pelo estudo das causas dos fenômenos.

Aristóteles diferencia claramente o conhecimento, propriamente dito, da técnica, considerando esta última como inferior, por não ter uma base sólida. A experiência prática, a observação, as generalizações, são para Aristóteles o ponto de partida do conhecimento científico, mas não o seu final. O final seria um conhecimento seguro, baseado na intuição das verdadeiras causas dos fenômenos observados.

A enorme influência de Aristóteles fez com que, entre as pessoas com formação filosófica, o mero conhecimento prático ou empírico passasse a ser desprezado. O verdadeiro conhecimento tinha que ser sistemático, exato, formando uma estrutura demonstrativa semelhante à matemática. O ponto central desse conhecimento era a etiologia - o conhecimento da causa ("aitia", em grego, é causa) . A própria medicina deveria ser um sistema filosófico racional, para ser um conhecimento e não uma mera arte.
É claro que a medicina de Hipócrates não satisfazia a esse ideal. Por isso, um importante ramo da medicina pós-hipocrática procurou fornecer uma base racional, sistemática, para o pensamento médico. Essa base exigia uma teoria elaborada, capaz de explicar a causa dos sintomas das doenças e dos efeitos dos procedimentos terapêuticos.

A própria filosofia de Aristóteles forneceu uma base geral para a medicina racionalista. Ele desenvolveu e sistematizou a doutrina dos quatro elementos de Empédocles, analisou a relação entre os elementos e as quatro qualidades básicas (quente-frio, úmido-seco) e estabeleceu relações entre essas qualidades e elementos com os humores e com alguns órgãos.

Os quatro elementos materiais básicos (fogo, ar, água e terra) representam, no pensamento grego, aquilo que chamamos de estados da matéria: "água" não se refere apenas à água propriamente dita, mas a qualquer líquido (vinho, vinagre, óleo, etc.), assim como "terra" representa qualquer sólido. A água, ao se congelar, vira terra (gelo); ao ser aquecida, vira ar (vapor); e o fogo é o estado de maior aquecimento do ar, que se torna luminoso. Essas quatro possibilidades esgotam tudo o que se conhecia e serviam para descrever todos os tipos de materiais da natureza.

Segundo Aristótles, existem quatro poderes básicos, que formam dois pares de opostos: quente-frio, úmido-seco. Uma coisa não pode ser quente e fria ao mesmo tempo, nem úmida e seca ao mesmo tempo; essas qualidades são opostas. Mas podem existir as combinações de quente com úmido e seco, e de frio com úmido e seco.

Isso forma quatro e somente quatro possibilidades:

e cada uma dessas quatro combinações corresponde a um dos elementos básicos da matéria. O fogo é quente e seco; o ar é quente e úmido (pois, como já foi dito, o ar é equivalente ao vapor d'água); a água é fria e úmida; a terra é fria e seca.

Esta análise permite compreender, "teoricamente", por que existem quatro e apenas quatro elementos: o motivo é que existem quatro e apenas quatro combinações possíveis das qualidades básicas. Essas relações podem ser representadas por meio de um diagrama, como o que vemos ao lado:

Aristóteles estabelece relações entre os quatro elementos e os quatro humores do corpo humano. O sangue é quente e úmido, podendo ser associado ao ar; a fleuma é fria e úmida, podendo ser associada à água; a bílis negra é considerada fria e associada à terra, enquanto a bílis amarela é "ardente" e associada ao fogo. Note-se que existe também uma relação bastante razoável entre as cores dos humores e os quatro elementos: a bílis amarela tem a cor do fogo; a bílis negra tem a cor do solo; a fleuma tem a cor da água. Apenas no caso do sangue não é possível estabelecer uma relação com a cor do ar.

Contágio

Aristóteles não desenvolveu uma teoria médica; mas sua concepção geral de ciência e seus princípios básicos sobre a natureza dos componentes orgânicos serviram de base para os médicos que, após ele, tentaram formular uma medicina racionalista.

Entre 350 e 250 antes da era cristã, houve vários médicos importantes que seguiram esse caminho. Os mais conhecidos são Diocles, Praxagoras e Mnesitheos. Eles enfatizam a relação entre os quatro humores, os quatro elementos e as quatro qualidades básicas. Procuram dar as causas das diversas doenças, atribuindo-as às perturbações desses humores; e recomendam tratamentos baseados na teoria, de um modo muito mais sistemático do que havia sido feito pelos escritos hipocráticos.

De acordo com essa tradição, a melancolia, por exemplo, é produzida quando a bílis negra se acumula em torno do coração. Resfriados violentos são devidos ao acúmulo de uma fleuma muito fria. A paralisia é devida ao bloqueio das artérias pela fleuma fria.