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Cristovão Colombo

Cristovão Colombo
Cristovão Colombo

Em 12 de outubro de 1492, Cristovão Colombo chegou a uma ilha do Caribe, convencido de que atingira a Índia.

Os livros escolares nos dão uma imagem bastante distorcida de tudo que diz respeito à chamada Descoberta da América por Colombo. Primeiro, vem a informação de que ainda se achava que a Terra era plana e Colombo teria sido um dos pioneiros em acreditar que ela era redonda, e portanto ele podia chegar ao Oriente navegando em direção ao Ocidente. Isso não era verdade: a teoria de que a Terra é redonda já era aceita pela elite bem informada. É possível que o povo ainda achasse que ela era plana, mas pessoas cultas não.

Segundo, costuma-se indicar qual a ilha do Caribe a que Colombo aportou pela primeira vez no continente. Não é verdade, não se sabe qual foi a ilha, não existe documentação que indique isso. A ilha na qual Colombo se fixou em viagens posteriores, onde exterminou a tribo dos Arawak, e que é hoje ocupada pelo Haiti e a República Dominicana, não foi a primeira em que ele pisou em solo americano. Quando dos 500 anos da viagem inaugural de Colombo, comemorados em 1992, surgiram filmes e livros sobre ele, de modo geral mostrando-o como um idealista que queria resolver um problema de todos os europeus – facilitar o comércio com o Oriente, que até então era feito por terra, por caravanas de camelos. De idealista ele não tinha nada: queria era ficar rico e famoso, e conseguiu. O contrato que ele negociou com os reis da Espanha previa honrarias e uma fortuna caso ele fosse bem-sucedido na busca do caminho das Índias. Como ele declarou ter chegado lá, recebeu todos os prêmios previstos, inclusive título de nobreza que foi herdado por seus descendentes. Até o fim da sua vida, e depois de quatro viagens, ele continuou insistindo que tinha chegado lá. Também não é verdade que Colombo acabou pobre e na desgraça. Morreu desprestigiado talvez, mas rico, com o título de Almirante. Seu filho foi nomeado duque e herdou grandes propriedades no Novo Mundo.

Colombo aprendeu com os sábios de Constantinopla

Cristovão Colombo

1. A terra já era redonda

Aprendemos na escola que na época de Colombo todo mundo achava que a Terra era plana. Ele teria sido um dos primeiros a se convencer que a Terra era redonda e bolou a idéia de que, saindo da Europa em direção ao Oeste, poderia chegar ao Leste. Essa historinha simplesmente é falsa. Que a Terra era redonda já era fato sabido há muito tempo, e a idéia de atingir o Oriente por esse caminho também era velha.

Os gregos, 500 anos antes de Cristo, já sabiam que a Terra era redonda, e chegaram a calcular a sua circunferência com bastante exatidão. Durante a Idade Média esse conhecimento se perdeu, no Ocidente, mas depois voltou através dos sábios de Constantinopla que fugiam da invasão turca. Na década de 1480 qualquer pessoa bem informada sabia que a Terra era redonda.

Quanto à idéia de ir para o Oriente navegando através do Atlântico, ela já estava sendo discutida pelo menos vinte anos antes da viagem de Colombo. Ninguém tinha tentado ainda por ser muito longe, e as técnicas de navegação da época eram precárias. O pessoal estava acostumado a navegar sempre beirando a terra firme. O caminho que Portugal estava buscando para as Índias era assim, navegando ao longo da costa da África. O mérito de Colombo foi ter tido a coragem e a obstinação para realizar essa empreitada de atravessar o Oceano Atlântico.

2. Comércio

Naquela época o principal, praticamente o único, comércio internacional era com o Oriente. Por Oriente entenda-se China e Índia, de onde vinham artigos de luxo como sedas, temperos (cravo, canela, pimenta, etc) e outros. Esse comércio era feito através de caravanas que vinham por terra até a margem do Mediterrâneo. Essa fase do transporte era controlada por árabes e por asiáticos. Já a partir daí as Cidades-República italianas, como Veneza e Gênova, dominavam o comércio. Veneza foi durante séculos uma cidade-nação rica e poderosa graças à sua posição de grande dona do comércio no Mediterrâneo.

Em meados do século XV tudo mudou. Com a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453 o livre trânsito de mercadorias por terra acabou. Os turcos passaram a impôr sobrepreços enormes nas mercadorias, aumentando os preços finais em até dez vezes.

Nessa época Portugal liderava os progressos na navegação. Sendo o país mais ocidental da Europa, localizado fora do Mediterrâneo, com saída apenas para o Atlântico, era natural que tivesse mais interesse em buscar novas fronteiras por mar. O príncipe Dom Henrique, o Navegador, tinha fundado a Escola de Sagres, que durante algumas décadas foi o principal centro de estudos marítimos da Europa. Os portugueses foram responsáveis por dois progressos fundamentais para a navegação: aperfeiçoaram o uso do astrolábio e do quadrante, instrumentos que permitiam ao navegador saber a sua localização observando os astros, e desenvolveram o uso das velas móveis, que tornaram possível navegar não só na direção do vento, mas também quase contra ele.

Com o fechamento parcial do caminho terrestre pelos turcos, achar um caminho por mar tornou-se urgente. Os portugueses passaram a procurar o caminho mais fácil, que era contornar a costa da África. Hoje em dia isso parece simples, mas naquele tempo não havia experiência de se navegar tão longe. Os navios portugueses passaram a descer pela costa do continente africano, indo cada vez um pouco mais longe. Á medida que faziam isso, iam estabelecendo postos de comércio na costa, encarregados de adquirir mercadorias locais. Essas mercadorias eram marfim, pimenta, ouro em pó e escravos negros. Esses foram os primeiros estabelecimentos coloniais daquelas nações que se tornariam as potências coloniais européias. Por coincidência, foram também os últimos, já que Portugal foi o último país a decidir se retirar das antigas colônias. Entre a chegada e a saída, foram 500 anos de permanência colonial européia na África.

3. O projeto

Radicado em Portugal, Colombo primeiro tentou vender sua idéia de alcançar o que eles chamavam as Índias para o rei português. Acontece que este já estava investindo recursos na outra rota, pela África, e não fazia sentido dispersar recursos em duas tentativas diferentes. Lá pelo começo de 1485 o rei deu a negativa final a Colombo. Nessa época morreu sua mulher, que era portuguesa, e ele decidiu partir para a Espanha.

Tendo conseguido uma apresentação aos reis Fernando e Isabel, Colombo passou a tentar convencê-los de seu plano. Foi só depois de alguns anos que afinal a viagem foi aprovada. O país estava sem dinheiro, depois do esforço de expulsão dos mouros e de lutas internas para unificar os vários reinos.

Como parte de sua argumentação Colombo usava o apelo religioso: era preciso atingir os povos pagãos da Ásia para convertê-los à verdadeira fé. No processo, é claro, se tomaria muito ouro deles, e esse ouro seria utilizado para conquistar a Terra Santa ocupada por muçulmanos. A História mostra que esses pagãos, no caso os nossos índios, não foram convertidos a nada, mas sim escravizados ou mortos. Quanto ao ouro, foi usado para qualquer coisa menos a conquista da Terra Santa. Mas o pessoal era crédulo e acreditou na pregação moralista de Colombo, e o apoio da Igreja foi fundamental para a aprovação final do plano.

Nosso herói era bom negociador e soube vender-se bem. No acerto final com a Casa Real, Colombo teve garantido para ele uma comissão de dez por cento de todo o comércio com as regiões que atingisse. E foi nomeado Almirante do Ocidente, e Governador-Geral de quaisquer terras desconhecidas que descobrisse. Tanto a comissão de 10% quanto o título de Almirante seriam hereditários.

No final os reis pagaram apenas uma pequena parte dos custos da expedição. Grande parte foi financiada por bancos italianos (os principais bancos eram italianos, em decorrência do domínio italiano no comércio internacional). Além disso, um dos banqueiros, que era diretor do equivalente local da nossa Polícia Federal, que tinha o nome sugestivo de Santa Hermandad -- provavelmente entidade irmâ da Santa Inquisição, que havia sido fundada, havia pouco tempo, para torturar e matar judeus e muçulmanos --, conseguiu inventar uma multa, ninguém sabe bem a que pretexto, que obrigou a cidade de Palos de la Frontera a dar dois dos três navios de que Colombo precisava.

4. A viagem

O grande mérito geralmente atribuído aos reis Fernando e Isabel é muito exagerado, já que eles arriscaram muito pouco de seu dinheiro no projeto de Colombo. Também o grande mérito atribuído ao descobridor como teórico da redondeza da Terra, e do novo caminho para as Índias, é falso. Verdadeiro, porém, e grande, repita-se, é o seu mérito, e o da tripulação, no que diz respeito à coragem. Deixar a costa e rumar para alto mar, sem saber quanto tempo duraria a viagem, que ventos encontrariam e como voltariam para casa, requeria muita valentia.

As condições de vida a bordo de uma caravela eram abomináveis. Não havia alojamentos -- o pessoal dormia onde achasse um canto seco para se deitar o que, num pequeno navio à vela, freqüentemente é difícil. A comida era nojenta, e piorava a medida em que o tempo passava e os mantimentos iam se estragando. Mesmo a água ia ficando ruim, e era misturada com vinho para que pudesse ser bebida. O pior, nessa viagem pioneira, era a grande incerteza: quanto tempo demoraria para se chegar a algum lugar? Se demorasse demais -- se houvesse uma calmaria e os navios ficassem parados por muito tempo -- poderia acabar a comida ou a água, e isso significaria morte certa para todos.

O capitão era senhor absoluto, com direito de vida e morte sobre a tripulação. Num acesso de mau humor ele podia mandar chicotear, enforcar ou jogar ao mar qualquer tripulante, e isso às vezes acontecia.

Como a viagem nunca tinha sido feita antes, ninguém podia saber seus macetes. Uma grande descoberta de Colombo foi que havia um vento constante soprando da costa da África para o Caribe. Tendo ele descido em direção sul até as Ilhas Canárias, sua frota se beneficiou desse vento que sopra permanentemente na direção certa. Essa descoberta fez tanta diferença que ajudou a reduzir o tempo da viagem de 33 dias para 21, na segunda expedição. Na volta, descobriu-se um outro vento, também permanente, soprando na direção oposta. Era só subir um pouco para o norte, lá do lado do continente americano, e pegar o vento que levava de volta para a Europa. É engraçado, mas ao mesmo tempo que existem correntes marítimas, existem também ventos predominantes que sopram a maior parte do tempo.

Esses ventos facilitaram muito a vida dos espanhóis e portugueses em suas viagens para a América. Já os países do norte da Europa como Inglaterra, França e Holanda, mais tarde aprenderam uma outra rota mais pelo norte do Oceano Atlântico, e o fato de que a América do Norte foi colonizada pelos europeus do norte, e a América Central e a do Sul pelos ibéricos, tem ligação com essas rotas dos ventos.

Não havia, é claro, instrumentos para medir a velocidade de um navio. Não havia nem relógios. Só havia ampulhetas, aqueles instrumentos de vidro, cheios de areia, a qual escorre de uma metade para a outra num tempo pré-determinado. A técnica de medir a velocidade consistia em jogar um pedaço de madeira na água, lá na frente do navio e medir, com a ampulheta, quanto tempo levava para essa madeira chegar ao fim do navio. Disso se extrapolava a velocidade, e se calculava quanta distância se percorria a cada dia, o que era registrado no diário de bordo.

Quem fazia esses cálculos, e os registrava, era Colombo. Receoso de que a tripulação começasse a ficar com medo da grande distância da viagem, ele mantinha dois diários: um com a distância que considerava correta, para seu uso, e outro falsificado, com distância menor, que mostrava aos tripulantes.

Dois meses depois de terem partido da Espanha a tripulação já estava começando a ficar nervosa. Colombo jurava que a terra estava perto, e realmente começaram a surgir cada vez mais indícios disso, como pedaços de pau boiando e passarinhos voando. Finalmente em 12 de outubro, logo de manhã cedo, avistou-se terra. O rei havia prometido uma grande recompensa em dinheiro para o primeiro a ver terra, e o marinheiro que deu o grito de TERRA, chamado Juan Rodríguez Bermeo, pensou que estava rico. Ledo engano. Colombo declarou que já tinha visto uma luz ao longe, na noite anterior, embora tivesse esquecido de contar aos outros, e que portanto a recompensa era sua. Como com o Comandante não se discute, o prêmio ficou para Colombo.

5. Primeiros contatos

Até hoje não se sabe qual foi essa ilha do Caribe onde os espanhóis tiveram o primeiro contato com o continente americano. Os instrumentos de navegação não tinham precisão, além do que Colombo não era bom nesses cálculos. Existem duas ou três diferentes teorias sobre qual seria a ilha. Mais de um pesquisador refez a travessia do Atlântico usando o diário de bordo da viagem original como guia, mas a imprecisão dos dados, e a existência de dezenas de ilhas parecidas, torna impossível se ter certeza. Colombo achava que tinha chegado às Índias e é por isso que os nossos índios receberam esse nome. Colombo ainda viveria 14 anos, faria mais três viagens à América, e morreria afirmando que tinha chegado à Ásia. Ainda nessa primeira viagem ele andou explorando as ilhas do Caribe, e quando chegou à ilha que é hoje Cuba achou que estava no Japão.

A primeira impressão dos espanhóis sobre os índios foi de gente dócil, ingênua e confiante. Eles ficaram encantados com os presentes que os espanhóis davam, tipo contas de vidro colorido, e em troca estavam dispostos a dar qualquer coisa que tivessem. Na sua ingenuidade os nativos subiam nos navios sem qualquer receio, e os espanhóis aproveitaram para prender sete deles para levar de volta para a Espanha como escravos. Alguns dos índios usavam enfeites de ouro, e os espanhóis acharam que estavam perto das minas do precioso metal que tanto queriam achar.

Fora aprisionarem alguns índios, e algumas pequenas brigas, o contato entre europeus e nativos nessa viagem foi bom. Ao partir, Colombo deixou 39 homens na ilha de Hispaniola, com a missão de construir um forte que seria o primeiro posto da futura ocupação da região. Quando, um ano depois, Colombo chegou em sua segunda expedição, não achou ninguém. Só uns restos de cabanas de madeira queimados. Através de intérpretes soube-se que os espanhóis, ao invés de construir um forte, tinham se dedicado aos prazeres da carne. Andavam pela ilha em bandos, se aproveitando de qualquer mulher que lhes atraísse, chegando ao estupro se a vítima não cedesse. Depois de algum tempo dessa situação os nativos perderam a paciência e trucidaram os espanhóis. As informações sobre o comportamento de seus homens devem ter sido realmente chocantes, pois Colombo aceitou a vingança dos índios.

6. Espanhóis x índios

A partir do início da segunda viagem, o relacionamento com os índios mudou. Aqueles que antes eram elogiados pela sua generosidade e inocência, agora eram chamados de selvagens. Em vez de falar em fraternidade, e em conversão ao catolicismo, falava-se em escravos e ouro.

As interpretações mais recentes da vida de Colombo lhe dão o papel de um homem indeciso e fraco, às vezes violento, e falam em matança de índios e genocídio. Embora haja controvérsias a respeito, vou reproduzir aqui algumas dessas acusações já que, exageradas ou não, são um assunto importante que não pode ser omitido. A principal fonte de informações para estes fatos é o Frei Bartolomeu de las Casas, que chegou à America no começo do séculos XVI. Ele escreveu um relato do descobrimento. O problema é que o conceito de rigor histórico não existia naquele tempo, e um historiador freqüentemente misturava fatos com boatos e lendas. Além disso, las Casas foi um veemente defensor dos índios, e tinha a tendência de acreditar em tudo que lhe contassem que fosse favorável aos índios e desfavorável aos descobridores.

Um dos primeiros episódios de violência foi com um índio que tinha sido capturado e cuja barriga tinha sido aberta por um golpe de espada de um espanhol. Ao ver que ele não tinha mais serventia como escravo, pois o ferimento parecia grave, os espanhóis o atiraram para fora do navio, que estava ancorado perto de uma ilha. Segurando sua barriga com uma mão, para que os intestinos não saíssem para fora, o índio começou a nadar com o outro braço em direção terra. Os espanhóis foram atrás dele num bote, capturaram-no de novo, e o atiraram ao mar outra vez, depois de amarrar seus pés e mãos. Teimosamente o índio conseguiu se soltar, e começou mais uma vez a nadar em direção terra. Imediatamente, do navio, dispararam uma série de tiros, e o infeliz afinal afundou nas águas transparentes.

Nessa mesma época inicial dez índias foram capturadas e levadas ao navio principal, o de Colombo, mas seis conseguiram fugir. O Almirante, através de seus intérpretes, mandou pedir ao cacique que as mandasse de volta. Elas deveriam servir de escravas sexuais dos marinheiros, para mantê-los mais sossegados.

Alguns dos navios dessa segunda expedição iam voltar para a Espanha, e nada de ouro ou outras riquezas que eles pudessem levar. Para não mandá-los de mãos abanando, montou-se uma grande expedição de caça a escravos, que capturou mil e quinhentos nativos. Os navios só tinham lugar para quinhentos, de modo que os exemplares de melhor físico foram escolhidos. O resto foi solto. Dos quinhentos exemplares embarcados, só trezentos chegaram vivos à Espanha. Colombo logo concluiu que o trafico de escravos não seria bom negócio, porque a mortalidade em viagem era alta, e decidiu dar preferência à busca do ouro. De qualquer forma, ele escreveu: Vamos, em nome da Santíssima Trindade, continuar mandando todos os escravos que der para vender.

A partir daí criou-se na ilha de Hispaniola, segundo o relato de Las Casas, um reino de terror sem igual. O Almirante queria ouro, para contentar seus reis e receber seus dez por cento. Como os índios usavam alguns enfeites de ouro, que era garimpado em riachos, os espanhóis se convenceram de que deviam existir grandes jazidas do metal, o que não era fato. Exigiu-se que cada índio, homem ou mulher, a partir dos catorze anos de idade, trouxesse a cada três meses uma determinada quantidade de ouro a um dos fortes dos colonizadores. Em troca, o índio recebia uma fichinha de cobre, estampada com um símbolo do trimestre, que tinha de ser usado pendurado no pescoço. Era assim uma espécie de selo-pedágio. Quem era visto sem seu pedágio era punido: suas duas mãos eram decepadas. Inevitávelmente a morte vinha em poucos minutos. Gravuras da época mostram os índios cambaleando, o sangue correndo, e a terrível expressão de surpresa na fisionomia dos coitados olhando para o toco de seus pulsos.

Em alguns meses os poucos enfeites de ouro que restavam foram entregues aos espanhóis, e os nativos passavam os dias inteiros garimpando para tentar contentar seus senhores. Mas era impossível. Aqueles que tentavam fugir para as montanhas eram caçados, com a ajuda de cachorros, e mortos.

Nessa época começaram os suicídios em massa. O pessoal se matava com um veneno feito com mandioca. Estima-se que em dois anos morreu metade, ou algo entre 100.000 e 500.000, da população dessa tribo de Arawaks, habitantes de Hispaniola.

Entre a terceira e a quarta viagens de Colombo veio uma viagem de outro espanhol chamado Ovando, com a maior tropa até então, com 31 navios e 2500 homens. Ele foi recebido pela cacique mulher Anacoana, que convidou todos os outros caciques sobreviventes, oitenta e quatro, para dar as boas vindas ao espanhol. Criando um precedente mais tarde seguido por Cortez e Pizarro, os conquistadores puseram fogo na casa de Anacoana, matando todos os caciques que estavam dentro, e em seguida mataram os que estavam do lado de fora e enforcaram Anacoana.

Em 1515 só sobravam 10.000 Arawaks e quarenta anos depois a raça havia desaparecido. Os conquistadores tinham apagado da face da terra um povo inteiro, aquele mesmo que tinham descrito como bom e dócil. Nem um havia se convertido para a religião católica. A partir daí escravos negros, de físico mais forte, foram trazidos da África para trabalhar nas plantações da ilha. Anos depois essa ilha passaria à posse da França e no fim do séculos XVIII os escravos se rebelariam e fundariam a República do Haiti.

Na continuação da colonização existem outros relatos horripilantes de violência. Os irmãos Diego e Franco Porras, por exemplo, decidiram desertar e fugir numa canoa indígena, com alguns remadores nativos. Veio uma tempestade, já em mar alto, e eles acharam que a canoa estava muito pesada e jogaram para fora os remadores. Como alguns deles teimassem em agarrar a borda da canoa, para não ficarem para trás e morrerem afogados, os espanhóis calmamente deceparam suas mãos.

Uma outra história conta de índios que deviam ser enforcados por algum crime que supostamente teriam cometido. Eles eram pendurados baixinho, com os pés quase tocando o chão. Embaixo deles faziam uma fogueira de maneira que se eles quisessem se apoiar no chão para não morrer enforcados, eram queimados. Já os caciques, por consideração especial, não eram enforcados, mas sim queimados vivos numa espécie de assadeira, que os queimava devagar. Uma vez um capitão espanhol reclamou que não conseguia dormir por causa dos gritos dos que estavam sendo queimados, e mandou que eles fossem liquidados imediatamente. Mas o carrasco, em vez disso, amordaçou-os para que não pudessem gritar, e continuou a queimá-los devagarinho, como ele gostava.

Outros condenados, ainda na Hispaniola governada por Colombo, eram cortados em pedaços e a carne era vendida aos colonos como alimento para cachorros. Isso era considerado militarmente uma boa política, pois fazia os cachorros se habituarem ao gosto da carne índia, o que vinha a calhar quando tinham de caçar índios fugidos.

7. Os anos finais

Mesmo tendo realizado o grande feito de atravessar o Atlântico e descobrir um novo mundo, Colombo não estava satisfeito. A mera descoberta, por si só, não valia dinheiro. Mesmo a glória era duvidosa. Como ainda não sabiam do imenso tamanho do continente, descobrir um mundo novo não valia muita coisa. O que valeria glória seria provar que eles tinham chegado à Ásia, e o que valeria muito dinheiro seria achar ouro.

Daí as duas obsessões do descobridor para o resto da vida: provar que tinha atingido a Ásia e achar ouro. No relatório da primeira viagem Colombo insiste em exagerar o tamanho dos locais visitados, tentando convencer seus patrões que terras tão grandes não podiam ser ilhas desconhecidas, mas sim o continente asiático. Ele fala ainda em minas de ouro e de outros metais que são somente um produto da sua imaginação.

A segunda expedição de Colombo deixou a Espanha em setembro de 1493, um ano após a primeira. Desta vez eram dezessete navios, com uma tripulação entre 1.200 e 1.500 pessoas. Essa expedição durou mais de dois anos, durante os quais Colombo estabeleceu uma base de operações em Hispaniola e explorou o Caribe. Ele seguiu a costa de Cuba em direção ao sul durante algum tempo, tentando determinar se aquilo era ilha ou continente. Ventos contrários, e doenças no navio, fizeram-no voltar. Colombo obrigou toda a tripulação a assinar uma declaração dizendo que a grande extensão daquela costa provava que era um continente, já que ilha nenhuma pode ser tão grande, e que portanto tinham atingido a Ásia.

Durante esse tempo todo Colombo estava sendo duramente criticado na Espanha. Muita gente estranhava a falta de notícias, a falta do ouro, e começava a desconfiar que Colombo mentia. A nova colônia não produzia dividendos e, ao contrário, vivia pedindo que mais víveres fossem enviados da Espanha.

Os colonizadores espanhóis, assim como os nossos antepassados de Portugal, não vinham para cá para ficar, mas sim para ganhar dinheiro rápido e voltar para casa. Qualquer espanhol que se considerasse como valendo alguma coisa era contra trabalho físico. Assim, os colonizadores não criavam uma agricultura que pudesse sustentá-los.

Quando a segunda expedição já durava dois anos, os reis mandaram um investigador para ver o que estava acontecendo. Isso deixou Colombo nervoso e ele resolveu voltar para se explicar. A recepção que teve foi fria. A essa altura já fazia quase quatro anos da descoberta e nada de ouro ou de especiarias, nada de asiáticos. Colombo insistia em montar uma nova expedição, mas isso demorou. Alguns navios com suprimentos e mais colonizadores, incluindo as primeiras mulheres, foram enviados, mas Colombo só conseguiu chefiar uma nova viagem, a terceira, em maio de 1498, dois anos depois de voltar da anterior.

Dos seis navios dessa expedição, três rumaram direto para Hispaniola; com os outros três Colombo foi procurar a China. Ele atingiu, pela primeira vez, a costa da América do Sul, na altura da Venezuela, e viajou ao longo dela durante seis semanas, antes de desistir e rumar, ele também, para Hispaniola. Impressionado talvez com a exuberância da vegetação e com o tempo bom, Colombo, em seu relatório enviado aos reis de Espanha, declarou que tinha achado o Paraíso. Ele dizia que ...o mundo não é exatamente redondo mas tem o formato de uma pera, ou do seio de uma mulher...esse seio tem um mamilo, onde a Terra tem altitude maior, se aproximando mais do céu... bem no meio desse mamilo fica o Paraíso. A essa altura dá a impressão de que anos de ansiedade estavam deixando o descobridor um tanto desequilibrado.

É mais ou menos dessa época a viagem ao Novo Mundo de um italiano chamado Amérigo (assim mesmo, com G) Vespucci. As descrições muito bonitas que ele escreveu dessa e de outras viagens ficaram famosas, e seu nome acabou sendo usado nos mapas da época, dando assim o nome de América ao nosso continente.

O cargo de Governador-Geral dava a Colombo poder total no território descoberto. Como ele não confiava em quase ninguém, e era visto pelos seus comandados espanhóis como estrangeiro, tinha entregue o comando da colônia em Hispaniola, durante suas ausências, aos seus irmãos Bartolomeu e Diego. Esses dois adotavam atitudes autoritárias, e até tirânicas, não só com os índios mas também com os seus comandados brancos, e quando Colombo chegou a Hispaniola depois da sua exploração da costa sul-americana os colonizadores estavam a ponto de se rebelar. Os dois irmãos de Colombo já haviam até enforcado alguns espanhóis para conter a revolta, e a situação estava muito tensa. Colombo apoiou seus irmãos, e a tensão piorou.

Nesse momento a Corte mandou um interventor, com plenos poderes para assumir o comando dos novos territórios. Ele chamava-se Bobadilha. Sua primeira atitude, ao chegar e ouvir depoimentos de todo mundo, foi prender os três irmãos e enviá-los, acorrentados, para serem julgados na Espanha. O capitão do navio ficou com pena de Colombo e, após a partida, ofereceu-se para tirar as correntes que o prendiam. Colombo recusou a oferta, dizendo que as correntes que tinham sido colocadas por ordem real só sairiam por ordem real. Ele fez questão de comparecer à audiência com o rei e a rainha acorrentado, dramatizando a injustiça que achava que estava sendo feita. O resto de sua vida Colombo guardou essas correntes, mesmo depois que foram retiradas, e determinou que elas fossem enterradas com ele.

Colombo foi julgado e absolvido. As autoridades chegaram à conclusão de que Bobadilha tinha sido rigoroso demais com ele. Não queriam, porém, dar-lhe a oportunidade de novas viagens. Durante alguns anos o navegador insistiu e implorou, jurando que se lhe dessem só mais uma chance ele chegaria à China. Finalmente em 1502 Colombo conseguiu.

Deram-lhe quatro navios, e permitiram a viagem com as seguintes condições:

Pela quarta vez Colombo viajaria ao Novo Mundo e voltaria sem qualquer conclusão final. E pela quarta vez ele faria um relatório insistindo em que tinha chegado Ásia, e falando em riquezas imensas que na verdade não existiam. Na realidade, ele pisara pela primeira vez em terra firme da América Central. Até então todos os territórios visitados eram ilhas do Caribe. Durante essa viagem Colombo mandou uma carta para o Rei e a Rainha, na qual se revelava bastante tresloucado. Além de se fazer de vítima, dizendo-se um injustiçado e incompreendido, ele contava que Deus falava com ele, comparando-o a Moisés e Davi, e exortando-o a não desistir. Ao mesmo tempo, a carta inventa mais histórias de minas de ouro imensas, cujo caminho só ele conhecia. Em novembro de 1504 a expedição, que durara mais de dois anos, estava de volta à Espanha.

Colombo viveria menos de dois anos, pois veio a morrer em maio de 1506. Até o fim ele se queixou dos maus tratos e injustiças recebidos, e passou para a posteridade a imagem de ter tido um final de vida na solidão e na pobreza. A realidade não foi bem essa. Colombo teve reconfirmados pelo rei Fernando (a rainha Isabel morreu em 1505) os títulos de Almirante e Vice-Rei. Além disso, após muitas discussões sobre os dez por cento que esperava ter de todo o comércio com os novos territórios, o rei lhe deu dez por cento do quinto real, ou dois por cento do total, o que era suficiente para deixar qualquer um muito rico.

Além dos títulos já mencionados, o filho de Colombo foi agraciado com o título de Duque de Veragua, nome de uma vasta área de terra que ele ganhou no Panamá. Mais tarde a família vendeu essa propriedade de volta para a Coroa. Também a ilha que é hoje a Jamaica era propriedade da família, só que foi tomada pelos ingleses no séculos XVII.

Alguma riqueza sobrou. O escritor Ernest Hemingway, em seu livro Death in the Afternoon, sobre touradas, fala dos famosos touros de raça especial para touradas criados pelo Duque de Veragua no começo do século XX. O atual duque, descendente direto de Colombo, chama-se Cristovão Colombo (ou melhor, Cristóbal Colón, que é a versão espanhola do nome), e é capitão da Marinha Espanhola.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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