Ó Adalziza dos sonhos;
Estrela dos firmamentos
Dos meus cantares risonhos,
Ó Adalziza dos sonhos,
Rasga esses véus enfadonhos
Dos teus louros pensamentos,
Ó Adalziza dos sonhos,
Estrela dos firmamentos.
Zulmira dos meus amores,
Zulmira das minhas cismas,
Resplandece como as flores,
Zulmira dos meus amores
Abre os olhos sedutores
Nos quais a minh'alma abismas,
Zulmira dos meus amores,
Zulmira das minhas cismas.
Deixai que a minh'alma escassa
De luz — aos astros emigre
Como gaivota que passa
Deixai que a minh'alma escassa
De amor — na plúmbea desgraça
De atrozes garras de tigre,
Deixai que a minh'alma escassa
De luz — aos astros emigre.
Ó cintilante Quiquia,
Menina dos meus olhares,
Flor azul da simpatia,
Ó cintilante Quiquia,
Rasga este céu da alegria
Dos meus risonhos cantares,
Ó cintilante Quiquia,
Menina dos meus olhares.
Olhos pretos, sonhadores
Ó celeste Carolina,
Como são esmagadores
Olhos pretos sonhadores,
Como vibram dos amores
A noss'alma cristalina,
Olhos pretos, sonhadores,
Ó celeste Carolina.
Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Ó frescura dos morangos,
Abre as pupilas radiosas,
Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Dá-me as estrelas formosas
Do olhar repleto de tangos,
Ó Flora, ó ninfa das rosas,
Ó frescura dos morangos.
Morena dos olhos pretos
Dos olhos pretos, morena,
Escuta os vagos duetos
Morena dos olhos pretos,
Faremos ambos, tercetos,
Com esta esfera serena,
Morena dos olhos pretos,
Dos olhos pretos, morena.
Ó Alzira, Alzira, Alzira,
Estrela resplandecente,
Resplandecente safira,
Ó Alzira, Alzira, Alzira,
Às vibrações desta lira,
Acorda do sono ardente,
Ó Alzira, Alzira, Alzira,
Estrela resplandecente.
Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos,
Ó simpática Adalziza
Como um cisne, est’alma frisa,
Vagueia, paira, desliza
Sem naufragar nos escolhos
Como um cisne, est’alma frisa
O mar de luz de teus olhos.
Fazes lembrar as mouras dos castelos,
As errantes visões abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.
Traços ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regiões sagradas,
Carinhos, beijos, lágrimas, desvelos.
Um requinte de graça e fantasia
Dá-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o lânguido abandono...
Desejos vagos, olvidadas queixas
Vão morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.
Camponesa, camponesa,
Ah! quem contigo vivesse
Dia e noite e amanhecesse
Ao sol da tua beleza.
Quem livre, na natureza,
Pelos campos se perdesse
E apenas em ti só cresse
E em nada mais, camponesa.
Quem contigo andasse à toa
Nas margens duma lagoa,
Por vergéis e por desertos,
Beijando-te o corpo airoso,
Tão fresco e tão perfumoso,
Cheirando a figos abertos.
De cabelos desmanchados,
Tu, teus olhos luminosos
Recordam-me uns saborosos
E raros frutos de prados.
Assim negros e quebrados,
Profundos, grandes, formosos,
Contêm fluidos vaporosos
São como campos mondados.
Quando soltas os cabelos
Repletos de pesadelos
E de perfumes de ervagens;
Teus olhos, flor das violetas,
Lembram certas uvas pretas
Metidas entre folhagens.
As papoulas da saúde
Trouxeram-te um ar mais novo,
Ó bela filha do povo,
Rosa aberta de virtude.
Do campo viçoso e rude
Regressas, como um renovo,
E eu ao ver-te, os olhos movo
De um modo que nunca pude.
Bravo ao campo e bravo à seara
Que deram-te a pele clara
Sãos rubores de alvorada.
Que esses teus beijos agora
Tenham sabores de amora
E de romã estalada.
Através das romãzeiras
E dos pomares floridos
Ouvem-se às vezes ruídos
E bater d’asas ligeiras.
São as aves forasteiras
Que dos seus ninhos queridos
Vêm dar ali os gemidos
Das ilusões passageiras.
Vêm sonhar leves quimeras,
Idílios de primaveras,
Contar os risos e os males.
Vêm chorar um seio de ave
Perdida pela suave
Carícia verde dos vales.
De manhã tu vais ao gado
A cantar entre as giestas,
Com tuas graças modestas,
Correndo e saltando o prado.
E a veiga e o rio e o valado
Que todos dormem às sestas
Acordam-se ante as honestas
Canções desse peito amado.
As aves nos ares gozam,
Entre abraços se desposam,
No mais amoroso enlace.
E as abelhas matutinas
Que regressam das boninas
Voam-te em torno da face.
As uvas pretas em cachos
Dão agora nas latadas...
Que lindo tom de alvoradas1
Na vinha, junto aos riachos.
Este ano arados e sachos
Deixaram terras lavradas,
À espera das inflamadas
Ondas do sol, como fachos.
Veio o sol e fecundou-as,
Deu-lhes vigor, enseivou-as,
Tornou-as férteis de amor.
Eis que as vinhas rebentaram
E as uvas amaduraram,
Sanguíneas, com sol na cor.
1 Na coleção de manuscritos existente na Fundação
Biblioteca Nacional, encontramos uma variação deste verso:
“Que linda cor de alvoradas”.
Engrinaldada de rosas,
Surge a manhã pitoresca...
Que linda aquarela fresca
Nas veigas deliciosas!
Que bom gosto e perfumosas
Frutas traz, madrigalesca
A rapariga tudesca
Que vem das searas cheirosas!
Como os rios vão cantando,
Em sons de prata, ondulando,
Abaixo pelos marnéis!
Que carícia nas verduras,
Que vigor pelas culturas,
Que de ouro pelos vergéis!
Orgulho das raparigas,
Encanto ideal dos rapazes,
Acendes crenças vivazes
Com tuas belas cantigas.
No louro ondear das espigas,
Boca cheirosa a lilases,
Carne em polpa de ananases
Lembras baladas antigas.
Tens uns tons enevoados
De castelos apagados
Nas eras medievais.
Falta-te o pajem na ameia
Dedilhando, à lua cheia,
O bandolim dos seus ais!
Morreste no campo um dia,
Como uma flor desprezada.
Clareava a madrugada
Azul, vaporosa e fria.
Sobre a agreste serrania,
Numa ermida branqueada1
Por uma manhã doirada
Um sino repercutia.
Teu caixão, de camponesas
E camponeses seguido,
Desceu abaixo às devesas.
Ganhou o atalho comprido
De casas em correntezas
E entrou num campo florido.
1 Na coleção de manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional, este verso está: “Numa ermida branqueada.” (Campesinas: variações e acréscimos recolhidos nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional)
Pelos vales e colinas
Os bandos das pombas voam...
E as latadas das boninas
As rentes cercas coroam.
Entre o rumor das campinas
Os carros de bois ressoam...
E nas névoas matutinas
Já os raios de sol coam.
Que aurora flor das auroras!
Nas frescas águas sonoras
Bóiam ilhas de verdura.
E na fita dos caminhos
Onde trinam os passarinhos
Vens vindo a rir, formosura.
Foste à fonte buscar água
E tinha secado a fonte...
Pobre flor azul do monte
Tiveste a primeira mágoa.
Porém se uma alma na frágua
Das dores, sem horizonte,
Queres ver, sentir defronte
Dos olhos, manda, que eu trago-a.
Vou t’a levar à presença
Para que vejas a imensa
Mágoa atroz que a devorou.
E saibas, ó sol das flores,
Que a fonte dos seus amores
Eternamente secou.
A pomba o vôo descerra
Para além dos infinitos,
Deixando todos os ritos
Das religiões cá da terra.
Ganha o mar e ganha a serra
Em busca de novos mitos
Desses bíblicos Egitos
Da Fé, que vagueia e que erra...
Quem tem sede de carinhos
Faz como pomba, procura
Corações que sejam ninhos.
Vai em busca ventura,
Da paz dispersa em caminhos
Que vão dar à sepultura.
Fui aos morangos do prado
E nunca os vi tão formosos...
Que perfume delicado,
Que cores, que tons preciosos.
Cor de sangue atravessado
De acesos sóis radiosos
Num rubro ocaso doirado,
Por horizontes calmosos;
Através da luz da aurora
Vivaz e fresca e sonora,
Num resplendor nunca visto;
Pareceram-me umas gotas
De sangue das carnes rotas
Das mãos e dos pés de Cristo.
Acordo de manhã cedo,
Da luz aos doces carinhos...
Que rosas pelos caminhos,
Que rumor pelo arvoredo.
Para o azul radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos,
Cheio de amor e segredo...
Dentre as moitas de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.
Pela margem das estradas
Que penetrante frescura,
Que femininas risadas!
Os olhos das adoradas
São como os campos festivos
Cheios dos brilhos mais vivos
Das alegres madrugadas.
Como as frescas alvoradas
Há pelos campos estivos
Lindos cantos expressivos
De camponesas medradas;
Nos olhos das que adoramos
Há aves cantando e ramos
Noivados do nosso amor.
Perspectivas radiantes
Só vistas pelos amantes
De almas abertas em flor!
De manhã cedo os rebanhos
Saltam, galgam montanhosos
Alcantis esplendorosos,
Cheios de brilhos estranhos.
E quando após os amanhos
Dos terrenos vigorosos
Os lavradores sequiosos
Regressam de afãs tamanhos;
Quando o sol no ocaso em chamas
Veste as árvores de lhamas
E luminosos veludos;
Entre as trêmulas guitarras
Das nostálgicas cigarras
Quedam-se os gados lanzudos.
São tantas as sementeiras
Como as estrelas são tantas...
Ah! que virgens bebedeiras
Vêm dos aromas das plantas.
Nas terras alvissareiras
De novas colheitas santas,
Que brotos de trepadeiras,
Que vinhas quantas e quantas.
Como a seiva e o viço estoura
Pelos campos da lavoura,
Num frenesi de novilho...
Só tu, infecunda e triste,
De gelo, nunca sentiste
Os vivos germens de um filho!
Por estas manhãs sonoras
Em tudo a luz vibra e salta
E arroios, várzeas esmalta
De deslumbrantes auroras.
São mais alegres as horas,
Nem o humor às almas falta
E de uma força mais alta
Fecundam-se as virgens floras.
Os aspectos de verdura
Recebem formas serenas
D’encantos e de frescura.
Ah! que ruflados de penas
Na luz que canta na altura,
Nas folhagens de açucenas!
Tu trazes agora o peito
Como essas urnas sagradas,
Repleto de gargalhadas,
Sonoro, bom, satisfeito.
Por dentro cantam assombros
E causas esplendorosas
Como latadas de rosas
Dos muros entre os escombros.
Quando o ideal nos alaga,
Embora as lutas do mundo,
Levanta-se um sol fecundo
Do peito em cada uma chaga.
Voltou-se a seiva de outrora,
De outro, mais forte e destro,
Iluminado maestro,
Das harmonias da aurora.
Fulgurem por isso as musas,
As belas musas, por isso...
Voltou-te o passado viço,
Foram-se as mágoas, confusas.
Agora, quando eu dirijo
Meus passos, à tua porta,
Sinto-te um bem que conforta,
Vejo-te alegre e mais rijo.
Porque afinal pela vida
Nem tudo se desmorona
Quando se vaga na zona
Da mocidade florida.
Gostas de ver pelos ramos
Das verdes árvores novas,
A chocalhar umas trovas,
Coleiros e gaturamos.
Já podes bem comer frutas,
Os teus simpáticos jambos,
E ouvir alguns ditirambos
Da natureza nas grutas.
Podes olhar as esferas,
Com ar direito e seguro,
De frente para o futuro,
De lado para as quimeras.
Não tenhas cofres avaros
De santos — na luz te afoga,
E a alma arremessa e joga
Por esses páramos claros.
Reúne os sonhos dispersos
Como andorinhas vivaces
E o colorido das faces
Ao coberto dos versos.
Como uns lábaros vermelhos,
Contente como os lilases,
As crenças dos bons rapazes
Tem prismas como os espelhos.
Tudo por ti resplende e se constela,
Tudo por ti, suavíssimo, flameja;
És o pulmão da racional peleja,
Sempre viril, consoladora e bela.
Teu coração de pérolas se estrela,
E o bom falerno dás a quem deseja
Vigor, saúde à crença que floreja,
Que as expansões do cérebro revela.
Toda essa luz que bebe-se de um hausto
Nos livros sãos, todo esse enorme fausto
Vem das verduras brandas que reluzem!
Esse da idéia esplêndido eletrismo,
O forte, o grande, audaz psicologismo,
Os organismos naturais produzem...
Por entre campos de seara loura
De alegre sol puríssimo batidos,
Passam carros chiantes de lavoura
E raparigas sãs, de coloridos
Que a luz solar que as ilumina e doura
Lembram pomares e jardins floridos,
Por entre campos de seara loura.
A Natureza inteira reverdece
Pelos montes e vales e colinas;
E o luar que freme, anseia e resplandece,
Movido por aragens vespertinas,
Parece a alma dos tempos que floresce...
Enquanto que por prados e campinas
A Natureza inteira reverdece.
A paz das coisas desce sobre tudo!
E no verde sereno d’espessuras,
No doce e meigo e cândido veludo,
Tremem cintilações como armaduras
Ou como o aço brunido dum escudo;
Enquanto que das límpidas alturas
A paz das coisas desce sobre tudo!
A casa, a rude tenda construída,
Onde habitam as mães e as crianças
Promiscuamente, nessa mesma vida
De perfume lirial das esperanças,
Como é feliz, dos astros aquecida!
Aquecida do Amor nas asas mansas
A casa, a rude tenda construída.
As bocas impolutas e cheirosas
Das raparigas, pródigas belezas
De finos lábios púrpuros de rosas,
Abrem, cheias de angélicas purezas,
As cristalinas fontes murmurosas
De risos, refrescando em correntezas
As bocas impolutas e cheirosas.
Da vida aurora rica do seu sangue
Flameja a carne em báquicas vertigens!
E quem tiver uma epiderme exangue
Para ficar com essas faces virgens,
Para não ser mais pálida nem langue,
Tem de beber das cálidas origens
Da viva aurora rica do seu sangue.
Lindas ceifeiras percorrendo. searas
Nos campos, ó bizarras raparigas,
Pelas manhãs e pelas tardes claras
Vós desfolhais sorrisos e cantigas
Que deixam ver as pérolas mais raras
Dos dentes brancos, frescos como estrigas...
Lindas ceifeiras percorrendo searas!
No alegre sol de então
De uma manhã de amor,
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.
Ia e vinha e a voar
Gentil e trêfega, azul,
Sonoramente a percorrer pelo ar,
Como um silfo tenuíssimo e taful.
Sobre os frescos rosais
Pousava débil, sutil,
Doirando tudo de um risonho abril
Feito de beijos e de madrigais.
Que doce embriaguez
O vôo assim seguir
Da borboleta azul, correndo, a vir
Do espaço pela Etérea candidez!
Fazendo, tal e qual,
O mesmo giro assim,
O mesmo vôo límpido, sem fim,
Nos mundos virgens de qualquer ideal.
Ir como ela também
Em busca das loucas
E tropicais e fúlgidas manhãs
Cheias de colibris e sol, além...
Ir com ela na luz
De mundos através,
Sem abrolhos nas mãos, cardos nos pés,
Ó alma minha, que alegria a flux!...
No alegre sol de então
De uma manhã de amor
A borboleta solta no fulgor
Da luz, lembrava um leve coração.
Canta ao sol como as cigarras
A tua nova alegria.
No Azul ressoam fanfarras
Da grande vida sadia.
Alerta, um clarim de alerta
Àquela antiga saúde:
— À clara janela aberta
Para o mar salgado e rude.
Que volte, ruidosa, agora,
Como um pássaro marinho,
A tua saúde, a aurora
Do teu sangue, estranho vinho.
E como espiga madura
Floresce outra vez à vida,
Resplandece à formosura,
Ó torre de ouro florida!
Quero-te em rosas festivas
A polpa das carnes brancas.
E rindo-te às forças vivas
Com rubras risadas francas.
Formosa, soberba e nua,
Nesse olhar que tudo abrange,
Na fronte um diadema, em lua
Num talhe curvo de alfanje;
Vem! o sol é teu amante!
Ah! vem mergulhar nos braços
Do flavo sultão radiante
Do harém azul dos espaços.
Gotas de luz e perfume,
Leves, tênues, delicadas,
Acesas no doce lume
De purpúreas alvoradas.
Pingos de ouro cristalinos
Alados na esfera, ondeando,
Dispersos por entre os hinos
Da natureza vibrando.
Sorrisos aéreos, soltos,
Flavas asas radiantes,
Que levam consigo envoltos
Da aurora os sóis fecundantes.
Da aurora que a primavera
Faz cantar, brota no peito
E floresce em folhas de hera
O coração satisfeito.
Essa aurora produtiva
Do amor soberano e eterno,
Que é nas almas força viva
E nas abelhas falerno.
Nas doudejantes abelhas
Que dentre flores volitam
E do sol entre as centelhas
Resplendem, fulgem, palpitam.
Zumbem, fervem nas colméias
E rumorejam no enxame
Pelas flóridas aléias
Onde um prado se derrame.
Assim mesmo pequeninas
E quase invisíveis, quase,
Com as suas asitas finas,
De etérea de fluida gaze.
Ah! quanto são adoráveis
Os favos que elas fabricam!
Com que graças inefáveis
Se geram, se multiplicam.
Nos afãs industriosos
Que enlevo, que encanto vê-las
Com seus corpos luminosos
D'iriante brilho d'estrelas.
E nas ondas murmurosas
Dos peregrinos adejos
Vão dar ao lábio das rosas
O mel doirado dos beijos.
Marche, marche, marche a verve!
Bandeiras, clarins, tambores,
Marchar!
A poncheira ideal, que ferve,
Sons, aromas, chamas, cores!
Cantar!
Que este diabo vem, saudoso,
Das profundezas do arcano,
Viver!
O vinho maravilhoso
Da forma raro e renano,
Beber!
Vem beber o vinho iriado,
O Falerno, claro e quente,
Haurir!
Num paladar requintado,
Todo inflamado e fremente
Sentir!
Que o sangue da verve vibre
Raja, raja, raja, raja,
Taful!
E a alma do sol se equilibre
Para que mais sonhos haja
No azul!...
Mas este diabo tão fino,
Que de tudo dá o acorde
Genial!
Este capróide genuíno,
Verde, verde, morde, morde,
Fatal.
Assim loura és mais formosa
Do que se fosses trigueira:
Corpo de eflúvios de rosa
Com esbeltez de palmeira.
Vestida de cor da aurora
Leve dos fluidos da graça,
És uma estrela sonora
Que, em sonhos, pelo éter passa.
Resplandece em teu cabelo
Um fulgor de sol dourado,
Que só de senti-lo e vê-lo
Fica tudo iluminado.
Do teu branco leque aberto
Que lembra uma asa de garça,1
Aspiro um perfume incerto,
Talvez a tua alma esparsa.
Num resplendor de madona
E altivez de corça arisca2
Surges da luz entre a zona
Com quebrantos de odalisca.
Que venha o duque normando
De castelos escoceses
Com seu ar bizarro e brando
Amar-te os olhos ingleses.
E entre aromas e frescores
E revoadas de abelhas,
Como num campo de flores
Que esse olhar vibre centelhas.
Que cantem na tua boca
As alegrias radiadas,
Numa ideal rajada louca
De vôos de passaradas.
Que como os astros no espaço,
Teu encanto resplandeça...
Com pelúcias no regaço
E asas de ave na cabeça.
E que os teus dois seios puros
Que o amor fecundando beija
Fiquem cheios e maduros
Com dois bicos de cereja.
1 Nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional este verso termina em “graça” ao invés de “garça”. 2 Idem “a risca” ao invés de “arisca”.
Nos ervaçais vibrou o sol agora,
Nas fitas verdes dos canaviais...
Como rompesse loura e fresca a aurora
Agora o sol vibrou nos ervaçais.
Murmurejam de alegres os caminhos
Que até parecem, límpidos, cantar
Na música melódica dos ninhos
Que vai nos ares se cristalizar.
Floresce tudo, em toda parte flores
Neste maio feliz, e tão feliz
Que as plantas exuberam de vigores
Desde a profunda, pródiga raiz.
Noivam as aves junto dos riachos
No seu alado alvorecer de amor;
E o coqueiral, com os amarelos cachos,
Pompéia de riquíssimo verdor.
Fluem na sombra meigas fontes claras1
Sob o frondente e vasto laranjal
E para além magníficas searas
Se estendem como um leito virginal.
Na serena paz vegetativa
Faz docemente tudo adormecer
Mas num sono de luz doirada e viva,
Quase a dormência de quem vai morrer...
Ah! que o silêncio, a solidão dos ermos,
Das agrestes paragens do sertão
Se dão saúdes a espíritos enfermos
Também supremas nostalgias dão!
A volúpia letal do meio-dia,
Nas horas encalmadas, sob a luz,
Dá duma campa a atroz melancolia
Assinalada numa simples cruz.
Depois o campo na mudez da vila,
Aquela eterna e soberana paz
Da imensa vastidão sempre tranqüila
Como que punge e que entristece mais!
1 Nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional este verso está grafado: “Fluem na sombra as meigas fontes claras”.
Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando,
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convulsões vermelhas.
Nos beirados das casas, sobre as telhas,
Das andorinhas esvoaça o bando...
E o mar, tranqüilo, fica cintilando
Do sol que morre às últimas centelhas.
O azul dos montes vago na distância...
No bosque, no ar, a cândida fragrância
Dos aromas vitais que a tarde exala.
Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala ...
Laranjas e morangos — quanto às frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te dálias rubras, d'essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.
Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando lágrimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,
Mas onde as almas — pássaros que voam —
Vivem sorrindo às músicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.
Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!
1 Nos manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional encontramos uma variação para o primeiro verso deste soneto no qual “goiabas” substitui “morangos”.
Acordo de manhã cedo
Da luz aos doces carinhos:
Que rosas pelos caminhos!
Que rumor pelo arvoredo!
Para o azul radioso e ledo
Sobe, de dentro dos ninhos,
O canto dos passarinhos
Cheio de amor e segredo.
Dentre moitas de verdura
Voam as pombas nevadas,
Imaculadas de alvura.
Pelas margens das estradas
Que penetrante frescura
Que femininas risadas!
Ao longo das louríssimas searas
Caiu a noite taciturna e fria...
Cessou no espaço a límpida harmonia
Das infinitas perspectivas claras.
As estrelas no céu, puras e raras,
Como um cristal que nítido radia,
Abrem da noite na mudez sombria
O cofre ideal de pedrarias caras.
Mas uma luz aos poucos vai subindo
Como do largo mar ao firmamento — abrindo
Largo clarão em flocos d’escumilha.
Vai subindo, subindo o firmamento!
E branca e doce e nívea, lento e lento,
A lua cheia pelos campos brilha...
Estas risadas límpidas e frescas
Que Pan trauteia em cálamos maviosos
Nesta amplidão dos campos verdurosos,
Nestas paisagens flóreas, pitorescas;
Toda esta pompa e gala principescas
Destas searas, destes altanosos
Montes e várzeas, prados vigorosos,
Louros — talvez como as visões tudescas;
Este luxuoso e rico paramento,
Feito de luz e de deslumbramento
— Do grande altar da natureza imensa.
Aguarda o poeta sacerdote augusto,
Para cantar no seu missal robusto,
A nova Missa da razão que pensa...
Pastores e camponesas
De rudes almas esquivas
Passam entre as candidezas
Das estrelas fugitivas.
Parece que nada os punge,
Nada os punge e sobressalta.
A lua que os campos unge
No firmamento vai alta.
E eles passam sob a lua,
De queixas desafogados,
A cabeça livre e nua,
Na florescência dos prados.
Seres meigos e singelos,
Mulheres de lindo rosto,
Lábios cálidos e belos,
Do quente sabor do mosto.
Pastores de tez morena,
Queimados ao sol adusto:
Claridade bem serena
No fundo do olhar bem justo.
Neles tudo é riso e festa,
Neles tudo é festa e riso,
Frescuras brandas de giesta
E graças de Paraíso.
Simples, toscas e felizes,
Sem ter um laivo de mágoa:
Almas das verdes raízes,
Limpidez de gota d'água.
Neles tudo é paz de aldeia
E ri com os risos mais frescos...
O céu inteiro gorjeia
Idílios madrigalescos.
Seduzido por miragens
Caminha o bando risonho
Dessas virentes paragens,
Levado na asa de um sonho.
Nele tudo ri sem ânsia
E com doçura secreta;
E como uma nova infância
Cantantemente irrequieta.
Encantos de mocidade,
Saúde, fulgor, vigores,
Dão-lhe a doce suavidade
Maravilhosa das flores.
Os corações, florescentes,
Vão nesses peitos cantando
E rindo em festins ardentes
E dentre os risos sonhando.
Ri na boca, ri nos olhos,
Nas faces o bando, rindo
O bom riso sem abrolhos,
Que lembra um campo florindo.
Rindo em sonoras risadas,
Rindo em frêmitos vivazes,
Rindo em risos de alvoradas,
Rindo em risos de lilases.
Os campos entontecidos
Nos vinhos da lua clara
Ficam bizarros, garridos,
De vitalidade rara.
As águas claras das fontes
Vibram lânguidas sonatas
E as nuvens vestem os montes
Das visões mais timoratas.
Na copa dos arvoredos,
Nas orvalhadas verduras
Há sonâmbulos segredos
E murmuradas ternuras.
E o bando festivo passa
Rindo, alegre, casto e suave,
Iluminado de graça,
Mais leve que um vôo de ave.
Podeis rir, almas ditosas,
Almas novas como frutos
De vinhas miraculosas
De pomares impolutos.
Podeis rir, almas eleitas
Que os anjos percebem tanto
Lá das esferas perfeitas
Nas harmonias do Encanto.
Almas brancas, Páscoas leves,
Alvos pães de áureos altares,
De mais candidez que as neves
E a madrugada nos mares.
Almas sem sombras ferozes
Nem espasmos delirantes.
Eco das bíblicas vozes,
Caminhos reverdejantes.
O vosso riso é bendito,
Os vossos sonhos são castos,
O estrelamento infinito
De mundos claros e vastos.
Podeis rir, peitos ufanos,
Belas almas feiticeiras,
Vós tendes nos risos lhanos
O trigo das vossas eiras.
A vossa vida é planície,
Não tem declives funestos:
Sois torres que a superfície
Assenta nos dons modestos.
A vossa vida é bem rasa,
Preso à terra o vosso esforço;
Nem mesmo um frêmito de asa
Vos faz agitar o dorso...
Sois como plantas vencidas,
Conquistadas pela terra,
Dando à terra muitas vidas
E tudo que a Vida encerra.
É do vosso sangue moço
Que na terra se derrama,
Que sobe o rubro alvoroço
De ocasos de sóis em chama.
Manchas, ao certo, não tendes
E nem trágico flagício,
Almas isentas de duendes,
Lavadas no Sacrifício.
Das pedras, nos vossos ombros,
A rigidez não carrega.
Em jardins tornam-se escombros
E em luz a crença que é cega.
Desses perfis adoráveis,
Na curva casta dos flancos
Brotam viços inefáveis
Dos florescimentos brancos.
Podeis rir! ó benfazeja
Bondade de nobre essência.
Deus vos chama e vos deseja
Na estrelada florescência.
Um anjo vos acompanha
Nessa estrada matutina
E convosco a ideal montanha
Sobe da graça divina.
O flagelo deste mundo,
Nesses corações não pesa.
Enquanto o Horror vai profundo
Vossa alma tranqüila reza.
Contritos e de mãos postas,
Humildemente de joelhos,
O Demônio, pelas costas,
Não vem vos dar maus conselhos.
Vós sois as sagradas reses
Votadas ao azul Sacrário.
Deus vos olha muitas vezes
Com o seu olhar visionário.
Mas quando, como as estrelas,
Adormecerdes um dia,
Voando mais perto a vê-las
Na Paragem fugidia.
Quando na excelsa Bonança
Afinal adormecerdes,
Nos olhos toda a esperança
Levando dos prados verdes.
Quando lá fordes, subindo
Para as límpidas Alturas,
Profundamente dormindo,
Em busca das almas puras.
Praza aos céus que nos caminhos
Da eterna Glória, das palmas,
Mais brancas que os claros linhos
Possais encontrar as almas!
Dos cheirosos, silvestres ananases
De casca rubra e polpa acidulosa,
Tens na carne fremente, volutuosa,
Os aromas recônditos, vivazes.
Lembras lírios, papoulas e lilases;
A tua boca exala a trevo e a rosa,
Resplande essa cabeça primorosa
E o dia e a noite nos teus olhos trazes.
Astros, jardins, relâmpagos e luares
Inundam-te os fantásticos cismares,
Cheios de amor e estranhos calafrios;
E teus seios, olímpicos, morenos,
Propinando-me trágicos venenos,
São como em brumas, solitários rios.
Manhã de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas.
Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um pássaro rosado,
Nas cristalinas águas murmurosas.
Dás o bom dia ao Mar nesse mergulho
E das águas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços.
Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços!