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Missal

cruz e sousa

SOFIA

Foi na sala branca, de leves listrões d’ouro, que eu a vi interpretar

um dia ao piano Mendelsohn, Schumann, as fugas de Bach, as sinfonias de Beethoven.

Tinha um nome bíblico, lembrando palmeiras e cisternas: chamava-se Sofia.

Era alta, de uma brancura de hóstia, como certas aves esguias que os aviários conservam e que aí vivem num grande ar dolente de nostalgia de selvas, de matas cerradas, de sombrios bosques.

Nervosa, de um desdém fidalgo de fria flor dos gelos polares, e triste, traía a Arte aquele altivo aspecto, a orgulhosa cabeça erecta em frente às partituras, que os seus olhos garços liam e que os seus dedos rosados e aristocráticos executavam com perfeição, com claro entendimento nas teclas.

E de todo esse nobre ser delicado, de todo esse perfil de imagem de jaspe, irradiava uma harmonia vaga, melancólica, uma auréola de pungitiva amargura, mais desoladas que as sinfonias de Beethoven, como se todas aquelas músicas excelsas tivessem sido inspiradas nela.

Ó aromas, sutilíssimas essências dos finos frascos facetados do luxuoso boudoir dessa musical Magnólia; aromas vaporosos, maravilhosos perfumes que incensais, à noite, de volúpia, a sua alcova, como as purpurinas bocas das rosas, falai a linguagem alada que as vozes humanas não podem falar e dizei os murmúrios estranhos dos sentimentos imperceptíveis, imaculados, que alvoroçam a alma ansiosa dessa sonhadora Sofia.

Só os aromas, só as essências terão os eflúvios castos, os fluidos luares de expressão, o ritmo inefável para contar que latentes palpitações traz Ela no sangue, que chama d’astro lhe inflama o peito, quando volta triste dos concertos egrégios e vai enclausurar-se na alcova, – muda, muda, talvez sob a névoa de lágrimas, na comovente concentração dos que morrem amando…

MANHÃ D’ESTIO

O Azul hoje amanheceu numa melodiosa canção, duma consoladora carícia veludosa de arminho, duma doce e suavíssima frescura de maçã rosada – brunido, reluzente, como um raro bronze florentino finíssimo, vivamente cheirando a violetas, a jasmins e a

rosas machucadas.

Na cristalina sonoridade do côncavo páramo aberto há uma etérea música que passa em fios sutilíssimos de luz e de aroma pela sua transparência diamantina e velada, como um líquido radioso e fragrante através duma primorosa safira.

E o canto de um pássaro, que além atravessa o céu é mais brando, é mais tenro, então, mais harmonioso e sereno, prende, emociona e arrebata mais porque vai cheio desta ambiente fluidez matinal, desta vaporosa e delicada tonalidade aérea, deste fino sentimento amoroso de impoluto noivado dos elementos naturais animados, destes, enfim, deliciosos tons alegres que dão um rico sabor à terra, uma vibração luminosa aos aspectos e um mais meigo encanto imaculado aos frutos que pendem das árvores e às flores que coloram, dulcificam tudo com a graça, a inefável candidez de sorrisos.

Os arvoredos recortam nitidamente no ar as suas ramagens intensas, cujo verde orvalho cintila, e as palmeiras, que mais de perto avisto, altas, sobrepujando os outros arvoredos, como a afirmação soberana do poder germinativo, aprumam-se, firmes, desdobrando no alto as suas verdejantes plumas que tremeluzem nas arfantes aragens.

Na pradaria florida os gorjeios crescem, trinados festivamente cortam o espaço, vôos, rumores d’asas, claros e argentinos ruídos frescos de rios, chiantes carros dormentes de lavouras tomando o vermelho e risonho atalho murmuroso dos campos relvosos, entre a implorativa plangência mugidora dos tardos bois melancólicos;

movimentos agrícolas de enxadas, de sachos e arados, todos os instrumentos e aparelhos rurais, cavando, mondando, preparando a terra para as culturas, avigorando-a e adubando-a, dando-lhe a larga força nutriente aos germes para que ela opere e produza, farte infinitamente a todos de sazonadas colheitas.

E toda essa orquestração da Natureza e do trabalho, todas essas impetuosas, palpitantes correntes da Vida, enchem o ar de alvoroço, de alarido, duma religiosa bênção panteísta e de um cântico enlevador que desce consolativamente sobre as coisas – como se toda a seiva, vegetal e humana, estivesse na gestação poderosa, da fecunda elaboração de mundos virgens e novos.

Nós, Artistas, que dissipamos toda a nossa mais bela e opulenta porção de glóbulos rubros para arrancar à Natureza a sua latente verdade; que nos embevecemos na contemplação, no misticismo do céu; que de tudo ansiamos pelas recônditas, encantadas origens; que tanta vez nos mergulhamos no azedume e na inclemente maresia do tédio, achando a vida gasta, acabada, falazes e mentidos os seus lantejoulados, fascinantes enlevos, trememos de comoção, ficamos extasiados quando essas perspectivas se nos antolham assim d’esplendor, trazendo ainda à nossa desvirilizada e já quase decadente estrutura moral um pouco de alento, heroísmo e força, de sagrada virtude de pensamento e gloriosa envergadura espiritual para a luta, hauridos a plenos sorvos nos abundantes mananciais de luz, na soberba caudal imensa da Natureza fecunda e generosa.

Porque só a Natureza, germinalmente só ela, nos sabe dar à alma e ao corpo esta nobre saúde, estas estóicas atitudes épicas; porque só ela nos comunica os seus emotivos impressionismos, nos penetra os seus evangélicos, pensativos silêncios e recolhimentos alpestres, tão empiricamente transvasados no neblinoso luar dos Sonhos e tão relicariamente votados ao culto como os santuários; só é dela que vem a crença robusta que nos põe no peito como que afiadas lâminas de espada para destruirmos bizarros as mil venenosas cabeças da formidável serpente da Dúvida; só ela nos veste dessa flamante irradiação de aurora da qual emergimos vitoriosos, no fluido ouro resplandecente da aurora da Vida;e só ela, enfim, nos lava do mal, nos purifica como a salitrosa salsugem do Mar glauco nas salutares e matinais travessias d’alacridade picante, quando se volta das ondas numa eflorescência pagã de Tritão marinho, no luminoso frescor primaveril e sonoro dum viçoso ramo silvestre ruflante de revoadas de coleiros e gaturamos cantando.

Um clarim, uma trompa de caça que por aqui vibrasse, como numa pastoral da idade média, nesta formosa manhã perfumada, apanharia, tomaria destes murmúrios todos, pelo fenômeno acústico da recepção e transladação dos sons, como em placas fonográficas, todos os profundos e vagos ecos e os levaria então para longe – derramando-os, espalhando-os em cada placidez sedentária de sítio, em cada remanso bonançoso de campo, fazendo renascer a brava cultura ingênita das terras, palpitar o rijo pulmão d’aço do movimento incessante, pulsar, latejar vinculativamente as artérias da fecundidade e circular em todo o sangue oxigenado, ardoroso e produtivo que gera e fortalece tudo e que não é mais do que o Sol eletricamente entranhado nas mais profundas raízes de tudo.

APARIÇÃO DA NOITE

Fria aparição da meia-noite, o Luar seja contigo!

Tu vens da neve, das algidezes cruas da neve; e eu não sei bem se é a neve que te faz frio ou se és tu que fazes fria a neve.

Há, contudo, em ti, algum calor, que não é inteiramente a vida, mas que suaviza os punhalantes regelos da neve; que não é o sol da tua carne, a chama do teu corpo, mas um quente raio d’estrela, a estrela de teu olhar aceso como velas místicas no recolhido e sagrado santuário de uma Capela.

O luar seja contigo, seja contigo o luar emoliente e lascivo, este luar equatorial que não é dia nem noite, mas uma doce penumbra velada do sol do teu sorriso – como se sobre o sol do teu sorriso, para dulcificar a intensidade do foco da sua luz, quando tu eras astro inflamado, que ardias, força latente, matéria animada e pulsante, se houvesse colocado um transparente abat-jour verde, branco, azulado e amarelado, conforme é, às vezes, a refração luminosa da Lua.

Mas tu deveras aparecer-me, fria Visão da meia-noite, dentro de uma redoma de cristal, por entre um resplendor de lágrimas, para eu então poder assim crer no teu encanto, no teu mistério de meia-noite.

No entanto, aqui me aparece, metida em pelas de Astrakan, melancólica, pálida, vaporosa, livorescida quase, como aquelas belezas apagadas e tristes que vêm dos frígidos ares desolados do Norte.

Porque tu acabas de vir da Rússia agora, das fulgurantes estepes, da ostentação militar do Tzar de ferro, ouvindo os clamores da dinamite.

Vens das hirtas margens do Neva para os coruscantes fogos tropicais das terras da América. E chegas ainda virginal e pubescente para a irradiação angélica do Véu, para o simbolismo cândido da Grinalda de flores de laranjeira, para a bênção serena e perfumada do Noivado.

Chegas a tempo…

E se queres um noivo, se andas em busca de um noivo, aí tens, pois, o Luar, frio como essa natureza fria, e alvo, lirialmente alvo, como tu.

Aí tens o Luar…

Envolve-se à sua clâmide de linho, mergulha-te nos seus flocos de prata, ó meiga Eslava triste, meu desmaiado amor e heliotrópio branco dos sonhos, que aqui vieste findar eternamente a vida nessa nostálgica doença nervosa de melancolia que trouxeste do teu país polar, muito longe nos gelos, e que até te dá já a névoa densa, a espessa nuvem dolorosa das ilusões que se transformam em nuvens.

Vens para sempre extinguir-se sob esses tórridos mormaços, nessa doença histérica de que ninguém na tua pátria pôde de certo determinar a pugentíssima origem, e que não é mais, nada mais é, talvez do que a doença do clima, do spleen das tardes, das exaustas paisagens sem seiva; as displicências amargas à hora dos longos ocasos taciturnos, quando adormecidamente as campinas e as planícies incultas nevam e o horizonte é uma trespassante angústia crepuscular que desola…

Aí tens o Luar…

Cobre-te nessa musselina fúlgida, veste essa finíssima gaze diáfana…

Abre os primorosos olhos de Madona, castíssimos, chorosos e macerados, e absorve pelos cílios todo esse nosso fluido e luxuoso azul; e fecha depois esses teus primorosos olhos também azues…

Sorri ainda uma vez, como num supremo frêmito final de ave ferida no peito;agita amorosamente, languescidamente, numa poeirada d’ouro, como na última noite de beijos da remota paixão que se foi, a loira e divina cabeça astral, leonina e doirada; tem um derradeiro estremecimento convulsivo e sonoro de cordas d’harpa em todo o níveo corpo; cerra à música celeste, eucarística da voz para sempre os lábios, e, assim, nesse láteo nimbo seráfico da Lua, fica em êxtase, na doce, na infinita quimera misteriosa da Morte, numa leve graça idealizante e alada de vôo etéreo de querubins, como quem está dormindo ou como o sol que emperdeniu e gelou…

Fria Aparição da meia-noite, o Luar seja contigo!

ESTESIA ESLAVA

Como os embriagados de kava da Polinésia vou tartamudeando e soluçando sob as paixões, ó águia, Águia Germânica,

imperiosa e doirada!

Uma estranha harmonia de “Dança macabra” de Saint-Saens me entorpece e invade em lágrimas negras de notas.

Todo o meu pensar e sentir estacou de súbito agora, como um nervoso cavalo da Arábia a que se refreia o bridão, diante da tua plumagem d’oiro da tua envergadura d’asa valente, – ó águia! doirada Águia humana e Germânica, que tudo de mim para sempre levas, Esperanças e Sonhos, impetuosamente arrebatado no alto, ao impulso fremente das tuas garras alpinas.

E eu fico em ânsias no vácuo, num vago anelar indefinido, como as aspirações do perfume que quer ser luz…

Mas um pedaço de horizonte ao longe marcando as infinitas distâncias e uma língua de terra aprumada em monte, tornam-me tangível o sentimento da realidade; e, então, claramente vejo e sinto, desiludido das Coisas, dos Homens e do Mundo, que o que eu supunha embriagamento, arrebatamento de amor nas tuas asas, ó loira Águia Germânica! – nada mais foi que o sonambulismo dum sonho à beira de rios marginados de resinoso aloendros em flor, na dolência da Lua nebulosa e fria, à alta paz do Azul, sob as pestanejantes estrelas rutilamente acesas…

TÍSICA

Lânguida e loira, tinha, na verdade, um ruidoso e festivo acordar de

canários.

Quando o dia vem triunfalmente cantando por todas as gargantas de oiro dos pássaros, perfumado por todos os prados de rosas, rumorejando por todos os sonoros veios cristalinos de fontes, ela erguia-se também do leito, cantando, numa alegria comunicativa que iluminava tudo e ia para o piano soluçar no teclado, lindas barcarolas e valsas.

Quanta vez eu ouvi, e quantas outras a vi no rés do chão que enfrentava a minha morada, sempre com um vermelho esmaecido, manchado, em ambas as faces.

Como era feliz, e que ruidoso e festivo acordar de canários tinha Ela!

Chegou, afinal, o inverno.

A emigração das andorinhas começa em vôos incisivos, que frisa o espaço translúcido de ruflagens d’asas…

Os grandes frios pedem as grandes capas de lã para as mulheres, os confortáveis regalos de pelúcia, as luvas, que agasalham, que protegem as mãos, os pardessus e os largos fíchus para a cabeça.

Desprende-se já do éter as fortes lestadas de vento e chuva, destruidoras e rijas, arrepiando e convulsionamente contorcendo os galhos das árvores, que amarelecem.

Amanhece-se tiritando sob o fulgurante ar frígido das geadas, que nevam os plácidos campos.

E, lá, à cima das serras altas, nas desprotegidas cabanas onde a miséria habita, tiritam também de frio e desamparadamente morrem, com uma chama azul no olhar vítreo, as loiras e morenas virgens tísicas que na estação passada levaram a trabalhar nos rudes amanhos da lavoura e a mourejar nas longas vigílias amargurosas da agulha.

A tísica! a tísica! Essa doença simbolicamente dolorosa e triste, que devasta os lares como os cortantes invernos devastam as searas! Doença artística e desolada, que dá um aspecto eminentemente romântico a todas as mulheres, como àquela violeta de Parma, flor dolente e venenosa do Amor, essa Margarida Gautier, roxo lírio inefável de melancolia plantado à margem de lagos furta-cores de quimera, e que a mais abrasadora paixão, a febre mais intensa, o tufão ardente de um fundo e desvairado sentimento para sempre emurcheceu

e desfolhou!

Doença amarga! que soturnamente devorando os pulmões, põe em redor de quem a sofre um magoado impressionismo de saudade e uma névoa gelada de sepulcro…

E as virgens que morrem dessa doença tão atormentadora e serena ao mesmo tempo, levam para o túmulo, na crispação dos lábios entreabertos e violáceos, como derradeira e a mais pungente ironia da Dor, o desmaiado sorriso da última esperança, do último sonho, da última ilusão que tiveram sobre a Terra.

Há muitos dias já não a vejo, a lânguida Loira.

Não sei porque, mas a sua ausência inquieta-me.

Eu quisera sempre vê-la, como dantes, pálida, lânguida e loira, com um vermelho esmaecido, manchado, em ambas as faces.

Porém, ela não aparece, não vai, como então, sentar-se ao piano, no luminoso purpurear das manhãs, fazendo soluçar no teclado lindas barcarolas e valsas. E isso punge-me n’alma de tal modo que eu procuro saber o que é feito dela e dizem-me que adoeceu.

- Adoeceu! E de que?

- Está tísica. O médico diz que não durará muito.

- Tísica! Tão moça e tão bela! E que ar festivo tinha ela. Como cantava! Que sonoridade de voz! E tudo isso agora acabar, morrer…

É certo, aflitivamente certo o que me disseram. Ela vai morrer!

Vejo-a continuamente de uma palidez clorótica, os olhos de um brilho cru, agudo, que faz febre; as orelhas diáfanas, muito despegadas do crâneo; o nariz cada vez mais afilado e desfalecido; toda ela de uma amarelada transparência de morte, de uma magreza hirta, como essas santas mártires do cilício que vivem nos claustros fechados e austeros de pedra, olhando entre grades para céus fuscos, com olhos cheios dos fluidos místicos do Panteísmo, e que parecem subir, através de nimbos, além, às empíreas regiões dos excelsos arcanjos alvos de luz…

Vejo-a constantemente, através de vidraças, sem brilho de vida quase, como um astro vesperal prestes a apagar para sempre todo o seu clarão diamantino e virgem.

E, no entanto, nos intervalos lúcidos da doença, que lhe abrem no peito, às Esperanças, como um esplendor de força nova, de vigorosa saúde, o piano vibra de quando em quando, , sob as suas mãos febris, trêmulas, nervosas e cadavéricas, alguma melodia triste de casuarinas gementes, um desvairamento histérico de lágrimas, a fina música nostálgica no fim de tudo – talvez essa suspirante serenata de Schubert, cujo ritmo saudoso tão profundamente nos invade a alma e a entristece e no qual parece haver gritos e soluços de amor entrecortados pela agonia torturante da Morte…

ORAÇÃO AO MAR

Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões

de pérolas e turbilhões de músicas!

Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências…

Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!

Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde se originam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.

Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde se geram prodígios como de uma luz imortal fecundadora.

Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.

Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que conserves no íntimo da tu’alma heróica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e idéias, estas emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas idéias do Ideal, para perfumar e florir, num Abril e Maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.

Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes…

Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam…

Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas confusas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais, que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas das cordoalhas dos Navios, ó Mar! guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as idéias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler, a meditadoras Estrelas, á emoção do Ângelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos…

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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