ol, rei astral, deus dos sidérios Azues, que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as águas! Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório catedralesco de onde refulges e triunfas, ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa Religião da Arte, esmaltado no marfim ebúrneo das iluminuras do Pensamento.
Permite-me que um instante repouse na calma das Idéias, concentre cultualmente o Espírito, como no recolhido silêncio das igrejas góticas, e deixe lá fora, no rumor do mundo, o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das
formidandas paixões sangrentas.Concede, Sol, que os manipanços não possam grotescamente, chatos e rombos, com grimaces e gestos ignóbeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas, que têm à cabeça as veneráveis orelhas e os chavelhos da Infalibilidade, para aqui não venham com solene aspecto abençoador babar sobre estas páginas os clássicos latins pulverulentos, as teorias abstrusas, as regras fósseis, os princípios batráquios, as leis de Crítica-megatério.
E faz igualmente, Sultão dos espaços, com que os argumentos duros, broncos, tortos, não sejam arremessados à larga contra o meu cérebro como incisivas pedradas fortes.
Livra-me tu, Luz eterna, desses argumentos coléricos, atrabiliários, como que feitos à maneira das armas bárbaras, terríveis, para matar javalis e leões nas selvas africanas.
Dá que eu não ouça jamais, nunca mais! A miraculosa caixa de música dos discursos formidáveis! E que eu ria, ria – ria simbolicamente, infinitamente, até o riso alastrar, derramar-se, dispersar-se enfim pelo Universo e subir, aos fluidos do ar, para lá no foco enorme onde vives, Astro, onde ardes, Sol, dando então assim mais brilho à tua chama, mais intensidade ao teu clarão.
Pelo cintilar de teus raios pelas ondas fulvas, flavas, ó Espírito
da Irradiação! Pelos empurpuramentos das auroras, pela clorose
virgem das estepes da Lua, pela clara serenidade das Estrelas, brancas e castas
noviças geradas do teu fulgor, faculta-se a Graça real, o magnificente
poder de rir – rir e amar, perpetuamente rir… perpetuamente amar…
Ó radiante orientalista do firmamento! Supremo artista grego das formas
indeléveis e prefulgentes da Luz! pelo exotismo asiático desses
deslumbramentos, pelos majestosos cerimoniais da basílica celeste a
que tu presides, que esta Oração vá, suba e penetre os
etéreos passos esplendorosos e lá para sempre viver, se eternize
através das forças firmes, num álacre, cantante, de clarim
proclamador e guerreiro.
Tu, na emoção desse encanto doloroso e acerbo da Arte, te sentirás, um dia, velho, fatigado, como um peregrino que percorreu ansiosamente todas as vias-sacras torturantes e perigosas.
Essa maravilhosa seiva de pensamentos, toda essa púrpura espiritual, as vivas forças impetuosas do teu sangue, agindo poderosamente no cérebro, irão aos poucos, momento a momento, desaparecendo, num brilho esmaecido, vago, o brilho branco e virgem das estrelas glaciais.
A tu’alma será condenada à solidão e silêncio , como certas formosuras claustrais de monjas que brumalmente aparecem por entre as celas, deixando no espírito de quem as vê, quase que o mistério de um religioso esplendor…
E, já assim emudecido e gelado para as nobres sensações do Amor, ficarás então como se estivesses morto – sem cabelos, sem dentes, sem nariz, sem olhos – sem nenhumas dessas expressões físicas que tornam os seres humanos harmoniosamente perfeitos.
Em vão te recordarás da doçura de mãos aveludadas e brancas, da amorosa diafaneidade de uns olhos claros…
As tuas Iedos, as tuas Lésbias e as tuas Aldas, fluidamente te passarão na memória, alvas e frias…
Pó infinitamente tratar de idéias como de astros prodigiosos, sonhaste com os opulentos, doirados prestígios da Glória; pensaste na Elevação, como na solenidade augusta das montanhas.
Mas, velho já, lembrarás um sol apagado, cuja forma material poderá persistir talvez ainda e cuja chama fecundadora e ardente se extinguirá para sempre…
Não crer em nada, não sentir nada, não pensar nada, será tua filosofia da senilidade. E, neste estado do ser, mais cruel que Budismo, deixarás, como disse Heine, que a morte vá enfim tapar-te a boca com um punhado de terra…
No entanto, pela tua retina cansada, desfilará tudo o que tu outrora amaste com intensidade: os ocasos, de verberações de metal sobre o mar e sobre o rio. Os finos frios radiantes, de azul resplandecente. A Lua, como estranha rosa branca, perfumando o ar, derramando lactescências luminosas nos campos alfombrosos. Os navios, as escunas e os hiates, todas as embarcações admiráveis, que fazem sonhar, balouçando nas ondas, em relevos nítidos, em gravuras esmaltadas ao fundo dos horizontes.
Tudo o que pensaste, o que trabalhaste pela Forma, com nervos e com sangue; tudo o que te deixou despedaçado, na amargura da luta com o estilo
e com a frase, cantará grandioso, solene, como os Salmos de Salomão.Com essa natureza mística, quase religiosa, que possues, o Mundo te parecerá uma catedral vastíssima, colossal, de biliões e biliões de torres de cristal, de safira, de rubim, de ametista, de onix, de topásio e d’esmeralda.
E, à hora longínqua de profundo luar glacial e imóvel, de cada uma dessas torres sugira um espectro branco dos teus sonhos, como uma ronda fantástica, e os sinos plangentes vibrarão ao mesmo tempo, com tristezas noturnas e lancinantes, por todo o sepulcramento de teus Ideais.
E tu, velho, embora, na torre verde d’esmeralda, ficarás egrégio, vencedor, imortal, eterno, só e sereno, ao alto, sob as estrelas eternas.
Num fulgor d’ouro velho o sol tranqüilamente desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d’águas calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num tom de bronze.
No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há uma doce suavidade
astral e religiosa.Às derradeiras cintilações doiradas do nobre Astro do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das mastreações, na quietação das ondas, parecem estar em êxtase na tarde.
Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas altas lembrando, na distância, esguios caracteres de música, pautam o fundo do horizonte límpido.
Os navios, assim armados, com a mastreação, as vergas dispostas por essa forma, estão como a fazer-se de vela, prontos a arrancar do porto.
Um ritmo indefinível, como a errante etereal expressão das forças
originais e virgens, inefavelmente desce, na tarde que finda, por entre a
nitidez já indecisa dos mastros…
Em pouco as sombras densas envolvem gradativamente o horizonte em torno, a
vastidão das vagas.
Começa, então, no alto e profundo firmamento silencioso, o brilho frio e fino, aristocrático das estrelas.
Surgindo através de tufos escuros de folhagem, além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face chara de chim, verte um óleo luminoso e dormente em toda a amplidão da paisagem.
Àquela hora, meio tarde no dia, não sei que compunção evangélica me assaltou, me invadiu a alma, que eu penetrei no templo iluminado.
Altas naves sombrias pela névoa crepuscular da tarde, já em
tons violáceos, abriram-se aos meus olhos, numa solene paz mística.No alto do altar-mor vinha uma austera eloqüência da Religião, da Fé Católica, de Rito Romano.
Velas amareladas e frias, de chama nobre e ardente, elevavam-se em tucheiros cinzelados, numa luz oscilante, trêmula às vezes por alguma momentânea aragem, com almas na indecisão de viver.
Na capela do Santíssimo, rutilante de caros brocados e doiraduras custosas, de fulgentes pratarias, de tons azulados e brancos de jarras esbeltas, uma lâmpada fulgurava, toda em esmalte de prata, por entre meia-tinta aveludada da hora, através do silêncio eucarístico, monástico da capela.
Uma serenidade de força divinal, de majestade tranqüila, enchia o templo de um grande ar panteísta.
Nos altares laterais, os santos, histerismos mumificados, no imortal resplendor das coisas abstratas, dos impulsos misteriosos que alucinam e por vezes fazem vacilar a matéria, tinham dolorosas e fortes expressões de luxúria.
Eu sentia, sob aquelas rígidas carnes mortificadas, frêmito vivo do sangue envenenado e demoníaco do pecado.
E, de repente, não sei por que profana, tentadora sugestão, vi nitidamente Nossa Senhora descer aos poucos do altar, branca e muda, arrastando u manto estrelado, e, vindo anelante para mim, de braços abertos, dar-me, com os olhos claros de azul, profundos e celtas, infinitas, inefáveis promessas…
Ah! naturalmente eu sonhara acordado, porque Tu, durante este meu sonambulismo de sátiro lascivo, subitamente entraste, trêfega, com vivacidade de pássaro, no templo iluminado; e eu então logo senti que os lindos olhos claros de azul que virginalmente se encaminharam para os meus, na ardência de um desejo, eram, por certo, os teus olhos, sempre meigos, sempre amorosos, ó luz, ó sol, ó esplendor dos meus olhos!
Na colina da vila trepada no alto agrupam-se as casarias. Há sol. E na frente das casas caiadas de branco a luz vibra nervosamente, fazendo tremer a vista sob a crua irradiação da soalheira, como sob os flamantes bicos vertiginosos do gás da ribalta; enquanto que nas casas pintadas de amarelo e de vermelho quebra-se a forte intensidade da luz.
Nestas ubérrimas regiões agricultáveis, de loiras messes de produto, amanha-se a terra para a plantação da cana, da mandioca e do milho — do milho que nasce e cresce as com suas folhas compridas,
flexíveis e largas como lustrosas, acetinadas fitas verdes.E vê-se agora, na grande extensão do campo, entre a verdura fremente de sol, a gente da lavoura, aplicada ao arado, ao alvião e à enxada, — homens, mulheres e crianças, com os trajes da labuta, trabalhando e cantando queixas passadas que ecoam no ar tranqüilo, emprestando a essas paragens o pinturesco tom da vida de um desenho quente e colorido de leque chinês.
Mais abaixo da roça, além de uma estreita ponte de pau a pique, que se atravessa a um de fundo, está o mar, fulgurante, profundamente calmo e liso, espelhando o céu, e cortado, às vezes docemente por canoas a vela e a remo de voga que seguem para o mar grosso, ou por canoas a remo de pá que vão e voltam da pesca, cheias de peixe fresco que salta dentro, prateado e luzente, ainda vivo, com olhos vidrados de madrepérola, as guelras rubras e as barbatanas membranosas palpitando , no último anseio de se moverem na água.
Ao lado direito da lavoura estão os engenhos de açúcar, de farinha e de arroz, com seu ar rústico, emadeirados de novo, no aspecto simples dessa vida rude de trabalho nos campos.
Ao lado esquerdo há uma vasta eira de sólida argamassa de cimento romano, mandada fazer pelo proprietário desses terrenos campestres e férteis, na qual se põe a secar , se debulham e limpam os cereais, pelo tempo das eiras, no outono, e onde os pequenos lavradores daqueles arredores brincam o Tempo Será, de cabeça nua ao fresco dos luares serenos que espalham grandes silêncios soturnos e misteriosos nas brancas estradas dos sítios.
Quem anda por ali, nas estações primaveris goza do panorama ridente da vila, refrescado de auras leves e puras, que vêm do mar; da resina que exalam as árvores à noite, salubrizando a atmosfera e dando às verdejantes campinas a frescura e a nitidez de uma gouache encantadora.
E, quem for artista, e quiser percorrer ao longo da costa, até a uma gruta de pedras brancas, que ali há, formando um vulto agachado ou ao longo da paisagem toda, nos descampados; ou ao comprido dos atalhos marginados de ervas agrestes e tufos de espinheiros abrindo em flor, ou ao direito do chão claro, arenoso e úmido das praias, há de sentir as mais pitorescas e vivas comoções da Natureza.
De manha, o gado que desce os vales, lento e dócil, aspirando a temperatura azotada, seguido pelo tropeiro que canta alegre no seu cavalo; os leiteiros, que vêm de longe, que passam para a cidade com o leite dentro de latas bojudas colocadas em paus que eles atravessam no ombro direito; as graciosas raparigas da roça, que levam a apascentar o rebanho das cabras monteses que saltam barrancos e carcavões, alígeras, lépidas, com os seus pequenos chifres pontudos,a Mefistófeles; os carros de boi, que chiam devagar, morosamente, na poesia de seu campestre ritmo simpático, atulhados de lenha e de cana rosa e guiados pelo campônio que vai na frente, munido de vara-pau, rosto grave e sóbrio, governando os benignos animais com a velha técnica arrastada e tremida na aspereza da voz — abençoada técnica que já vem lá dos seus antepassados e que os seus queridos filhos e netos, depois, mais tarde, quando ele fechar os olhos, terão de a recebe também, intacta sempre a mesma, saturada do íntimo perfume intenso do passado, como uma herança eterna.
À tarde, o gado que volta para abeberar-se, de arejar no campo, ao suave ocaso do dia, quando tintas multicores se esbatem no fundo dos espaços côncavos; os leiteiros que voltam com a féria arranjada, pitando, ou, de cigarro atrás da orelha, assobiando meigas cantigas que aprenderam na infância e que se fundem à melancólica, à dolência da loira luz que morre — quando, do cimo da encosta, após a última badalada saudosa do Ângelus, apagam-se os esboços e os contornos dos horizontes, caindo então sobre a terra a neblina cinzenta do crepúsculo…
Por entre celas místicas, silenciosas, lá te foste emudecer para sempre, ó harmonioso e célebre pássaro do canto, nos pesados claustros.
Cor de rosa e de ouro na iluminada sala dos teatros, trinava para o alto inefavelmente, e, agora, não sei por que tormentosa paixão que te desolou um dia, ficaste infinitivamente reclusa, sob os fuscos tetos de um convento,
como uma rara rosa opulenta numa estufa triste, fugindo ao sol dos prados.Fria e muda estarás, talvez, a estas horas, ajoelhada na capela de um Cristo glacial de marfim sagrado — branca, mais glacial e de mais branco marfim do que esse Cristo, com as níveas mãos de cera e face também de cera macerada pelos jejuns e pelos cilícios, dentro de sombrias vestes talares.
E, assim muda e assim fria, perpassarás como a sombra de um vivo afeto ou de um profundo sentimento artístico, ao frouxo clarão de âmbar das lâmpadas lavoradas.
O teu alado perfil, as tuas linhas suaves, serão, no religioso crepúsculo da capela, como que a recordação do aroma, da luz, do som que tu para a Arte foste.
Nos olhos, apenas uma centelha, uma leve faísca evidenciará o passado esplendor, o encanto que eles tiveram, quando amaram, cá fora no mundo, com as violências do desejo, com os ímpetos frenéticos, vertiginosos da carne.
E os corações que te adoraram, que te ouviram outrora os incomparáveis gorjeios da garganta, que te sentiram a carnação formosa palpitando sob a vitória dos aplausos, ficarão saudosos e perplexos ao ver-te agora assim para sempre enclausurada, para sempre gelada aos fulgores e sensações do mundo, mergulhada, enfim, na necrópole de um convento, como um astro através de frígidas e espessas camadas de neve…
Torvo, trêmulo e triste na noite, esse bêbado que eu via constantemente à porta dos cafés e dos teatros, parara em frente do cais deserto, na alta, profunda hora solitária.
Espadaúdo, de grande estatura, ombros fortes como um cossaco, costumava sempre bater a cidade em marchas vertiginosas, na andadura bamba dos ébrios,
indo pernoitar depois ali, perto das vagas, amigas eternas de sua nevrose..Um luar baço, enevoado, de quando em quando brilhava, abria, rasgando as nuvens, num clarão que iluminava amplas fachas do céu de um tom esverdeado, como folhagens tenras e frescas laçadas pela chuva.
O Mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre o dorso.
Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão infinita das ondas, um silêncio impenetrável.
E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e mar, era a mudez, a solidão
da lua…
Junto ao cais, olhando as vagas repousadas, a taciturna figura do bêbado
destacava em silhouette sombria.
E ele gesticulava e falava, movia os braços, proferia palavras ásperas e confusas, como os tartamudos.
Eu via-lhe as mãos, todo o corpo invadido por um convulsivo temos, que não era, de certo, a desoladora e enregelada doença da senilidade.
O seu aspecto, ao mesmo tempo piedoso e feroz, traduzia a expressão terrível que deixa o bronze inflamado da Dor calcinando naturezas nervosas e violentas.
Trôpego, espectral, fazia pensar, pela corpulência, na massa formidanda
de um desses ursos melancólicos, caminhando aos boléus, como
que numa bruma de pesadelo…
Os seus grandes olhos d’árabe, muito perturbados pelo álcool,
tinham o brilho amargo de um rio de águas turvas e tristes.
Era talvez um desses seres nebulosos, gerados do sangue aventureiro e venenoso de uma bailarina e de um judeu, sem episódios pitorescos, frescos e picantes de alegria e saúde.
Um desses seres tenebrosos, quase sinistros, a quem faltou um pouco de graça, um pouco de ironia e riso para florir e iluminar a vida.
Alma sem humor — essa força fina e fria, radiante, que deu a Henri Heine tanta majestade.
No entanto, quanto mais eu observava esse fascinado alcoólico, pasmando instintivamente, na confusão neblinosa da embriagues, para as ondas adormecidas na noite, mais meditava e sentia as profundas visões de sonâmbulo que lhe vagavam no cérebro as saudades e nostalgias.
Porque o álcool, pondo uma névoa no entendimento, apaga, desfaz a ação presente das idéias e fá-las recuar ao passado, levantando e fazendo viver, trazendo à flor do espírito, indecisamente, embora, as perspectivas, as impressões e sensações do passado.
Nos límpidos espaços nem um movimento, um frêmito leve de aragem perturbava a harmoniosa tranqüilidade da noite clara, por entre os finos rendilhados prateados das estrelas.
Mais amplo, mais vasto e sereno ainda, o silêncio descia, pesava na natureza, sobre os telhados, que pareciam, agrupados, aglomerados nos infindáveis renque das casas, enormes dorsos escuros de montanhas, de elefantes., de dromedários.
Sobrepujando, avassalando tudo, com expressões misteriosas de Idade Média, as elevadas torres das igrejas, como vigias colossais de granito, erectas para o firmamento na luminosa sonoridade do luar, tinham a nitidez dos desenhos.
E a luz do astro noturno e branco, da Verônica do Azul, congelada de mágoas, envolvia a face atormentada do bêbado como num longo sudário de piedades eternas…
Os ingleses, fidalgo entendimento de artista, para significar - o melhor
- dizem na sua nobre língua de prata: the best…
O que os ingleses chamam the best é finamente o que eu quero exprimir
com a palavra — sabor — que, para a requintada espiritualidade,
marca alto na Arte — filtrada, purificada pela exigência, pelo
excentrismo da Arte.
Após a delícia frugal de um lunch de frutas silvestres e claros vinhos, numa colina engrinaldada de rosas, quando o sol sob nuvens aparece e desaparece, numa confortante meia-sombra de luz, não é apenas
o gozo das frutas e dos vinhos que te fica saboreando no paladar.O asseado aspecto do dia levemente frio, agulhante nas carnes , o ouro novo do sol em cima, a cor bizarra, correta do verde luxuoso, o gelo fresco e cristalino nas taças sonoras espumantes de líquidos vaporosos, e o viçoso encanto de formosas mulheres, indo em bocas de aurora e dentes de neve. — toda essa impressionante, alegre palheta de pintura à água, aflora num esplendor de gozo a que tu bem podes chamar o raro sabor das coisas.
A clarividência na atitude dos perfis que a essa hora pintalgam a paisagem de colorido variado, o aroma que de tudo vem e que de tudo sobe para a serenidade azul, o ritmo simpático do momento, a lassitude branda de nervos, que engolfa as idéias numa larga felicidade amável — como em amplos coxins de arminho — todas essas preciosas maneiras e pitorescos estilos que dão linha, grande tom ao viver, fazem, enfim, que de tudo se experimente um radiante, aguçado sabor.
Não basta, pois, o paladar. Esse, apenas, materializa. Não é, portanto, suficiente, que se sinta o sabor na boca, que o examine, que se o depure, que se o saiba distinguir com acuidade, com atilamento. É necessário, indispensável que, por um natural desenvolvimento estético, se intelectualiza o sabor, se perceba que ele se manifesta na abstração do pensamento.
Por fim, as palavras, como têm colorido e som, têm do mesmo modo, sabor.
O cinzelador mental, que lavora períodos, faceta, diamantiza a frase; a mão orgulhosa e polida que, na escrita, burila astros, fidalgo entendimento de artista, deve ter um fino deleite, um sabor educado, quando, na riqueza da concepção e da Forma, a palavra brota, floresce da origem mais virginal e resplende, canta, sonoriza em cristais a prosa.
Para a profundidade, a singularidade de todo o complexo da Natureza, o artista que sente claro, entende claro, pensa claro, saboreia claro.
Por uma doirada tarde azul, em que os rios, após as chuvas torrenciais, sonorizam cristalinamente os bosques, os camponeses de uma vila risonha, numa unção bíblica, conduziam ao tranqüilo cemitério florido o loiro cadáver branco de uma virgem noiva, morta de amor, tão bela e tão nova, umedecida no féretro, como se tivesse acabado de nascer da rosada luz da manhã.
Infantil ainda,viera outrora da Alemanha através de castelos feudais,
de montanhas alpestres, de árvores velhas e enevoadas…
E, então, desde o dia de sua morte, uma lenda espalhou-se, como a dos
Niebelugen, em todas aquelas cabeças ingênuas, rudes e humildes.
Ela era a deusa fantástica, a visão encantada dos antigos palácios medievais de vidraçaria gótica, onde as rainhas mortas apareciam brancas ao luar, à flor dos lagos e rios, suspirando toda a tragédia histérica dos convulsivos amores passados, que os ventos de hoje como que ainda melancolicamente repetem…
Era a monja das aldeias dos castelos feudais, graves e solenes, cheios de névoas alemãs, atravessados de fantasmas que fazem mover alvas e longas clâmides de linho no ar neutralizado da meia-noite…
E, por altas horas, em certos dias, ao luar, a imaginação apreensiva dos homens e mulheres do campo, via uma virgem loira, de ignoto aspecto de ondina mágica, surgir do solo em exalações fosforescentes, o coração traspassado de flechas inflamadas, arrastando soturnamente pela areia luminosa uma vasta túnica branca, os cabelos de sol soltos para trás, candidamente pálida, cantando a canção sonâmbula do túmulo e desfolhando grandes grinaldas de flores de laranjeiras, cujas frescas e níveas pétala cheirosas redemoinhavam, agitadas por um vento frio — pelo vento gelado e soluçante da Morte.
Enquanto, fora, na noite, gralha, grasna e grulha o Carnaval em fúria, vai, Mergulhador, rindo para o espaço a tua aguda risada acerba.
Os luminosos lírios das estrelas desabrocharam já nos faustosos brocados do Firmamento, como que para ritmar em claras árias de luz
a tua torva risada triste.Apavora-te o Sol flamejante, eterno, na altura infinita. Não queres a aflitiva evidência do sol, que tudo põe num relevo brusco, que pinta as chagas de vermelho, faz sangrar as dores, perpetuar em bronze o remorso.
Amas a sombra, que esbate os aspectos claros, esfuminha os longes, turva e quebra a linha dos corpos.
Queres a noite, longas trevas amargas que confundam máscaras hediondas de Gwimplaines com faces loiras de deusas.
Noite igualmente deliciosa e dilacerante que te anule para os sentimentos humanos, que te disperse no vácuo, dissolva imortalmente o espírito num som, num aroma, num brilho.
Noite, enfim, que seja o vasto manto sem astros que tu arrastes pelo mundo
a fora, perdido no movimento supremo da Natureza, como um misterioso braço
de rio que, através de fundas selvas escuras, vai, por estranhas regiões,
sombriamente morrer no Mar…
A noite tem, para a tua delicada sensibilidade, o majestoso poder de apagar-te
dos olhos esses sinistros animais terríveis que babujam ao sol e desfilam,
diante de ti, na truculenta marcha cerrada de pesadas massas formidandas.
Enquanto, pois, lá fora, o Carnaval em fúria gralha, grasna e grulha, num repique macabro de guizos jogralescos, uivando uma língua convulsiva e exótica de duendes e notâmbulas bruxas walpurgianas, prende-te, ó deus do Tédio, Mergulhador dos Mediterrâneos da Arte! Às imensas asas da fria águia negra das multidões – a noite – e ri, ri! Sob as claras árias da luz das Estrelas, a tua venenosa risada em fel e em sangue…
Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro.
Brancuras de luz da manhã prateiam as águas quietas, e, à tarde, coloridos vivos de acaso as matizam de tintas rútilas, flavas,
como uma palheta de íris.Navios balanceados num ritmo leve flutuam nas vítreas ondas virgens, com o inefável aspecto nas longas viagens, dos climas consoladores e meigos, sob a candente chama dos trópicos ou sob a fulguração das neves do Pólo.
Alguns deles, na alegre perspectiva marinha, rizam matinalmente as velas e parte - mares afora - visões aquáticas de panos, mastros e vergas, sob o líquido trilho esmaltado das espumas, em busca, longe, de ignotos destinos.
Á tarde, no poente vermelho, flamante, dum rubro clarão d’incêndio, os navios ganham suntuosas decorações sobre as vagas.
O brilho sangrento do ocaso, reverberando na água, dá-lhes uma refulgência de fornalha acesa, de bronze inflamado, dentre cintilações de aço polido.
Os navios como que vivem, se espiritualizam nesta auréola, neste esplendor feérico de sangue luminoso que o ocaso derrama.
E mais decorativos são esses aspectos, mais novos e fantasiosos efeitos recebem as afinadas mastreações dos navios, donde parece fluir para o alto uma fluida e fina hormonia, quando, após o esmaecer da luz, a Via-Láctea resplende como um solto colar de diamantes e a Lua surge opaca, embaciada, num tom de marfim velho.
Não sei que estranho frisson nervoso percorre-me às vezes a espinha, me eletriza e sensibiliza todo como se meu corpo fosse um harmonioso teclado de cristal vibrando as sonoridades mais delicadas.
Um ombro aveludado e trescalante a frescura aromática, que pelo meu ombro levemente roce na rua, num encontro fortuito, produz-me um estado tal de volúpia, dá-me tão longa, larga volúpia, que me vejo por entre incensos, festivamente paramentado como o sacerdote que ergue o cálix acima da cabeça, ao alto do Altar-Mor dos templos
doirados, sentindo que um aluvião de almas crentes o adora de joelhos.A mão fina, ideal, calçada em luva clara, de formosa mulher que por entre a multidão aparece e desaparece, como uma estrela por entre nuvens, bem vezes, também, me alvoroça e agita o sangue.
E sigo, radiante, triunfal, rei, essa nobre mão enluvada, à qual eu em vão pediria o ouro, a riqueza afetuosa de um gesto carinhoso – a essa delicada mão avara e milionária que,para mais avara tornar-se ainda, se fora esconder na maciez elegante da luva fresca, vivendo dentro dela afagada, confortada, palpitando talvez por encontrar a mão feliz que vibrará de amor ao seu contato.
Então, assim, a emoção que desperta todos os meus sentidos, no curioso giro que faço com o pensamento acompanhando a feminina mão fidalga, não é uma emoção de indiferença, por certo, mas uma emoção de despeito.
Estranhamente, como força hercúlea que me prendesse à terra, chamando-se à iniludível Realidade, desço das inauditas, siderais, regiões a que subira.
Vejo-me logo, então, profundamente vencido no tempo, e, no meu rosto, à maneira dos fundos sulcos que as charruas abrem nos campos, imprevistas rugas se evidenciam, como se eu tivesse de repente envelhecido um ano.
Da Dor poucas vezes sinto só o que ela tem de selvagem, de rugidora.
Emoções delicadas, sutis, que me doem também fundo na alma, porque me melancolizam, deixam-me um ritmo de música, uma afinada dolência de suavíssimos violinos, e que por fim delicia.
É como se alguém vibrasse de brando as cordas de um instrumento e ele, trêmula, amorosamente, ficasse a gemer no mais meigo, no mais doce dos dedilhados acordes...
A emoção é que me faz amar os eucaliptus altos, afilados, retorcidos convulsamente, como a dor dum gigante.
É ainda essa mesma emoção que me faz perceber e ouvir o misterioso som dos metais: o claro riso diamantino da Prata e o trovejante rumor do bronze.
O que o mundo chama fatalidade, negras e assoberbantes catástrofes, como um incêndio, não posso bem com nitidez que emoção me causa.
Realmente, num incêndio, todas aquelas chamas são maravilhosas!
Não sei que raro, que estupendo Rembrandt veio de surpresa encharcar
de um rubro violento, sanguinolento e flamejante, todo aquele belo edifício
que, há pouco, era um rendilhado palácio ou uma igreja gótica,
um Louvre em Pompas ou um faiscante chalet d’esmalte.
E não sei até como essas chamas formando miríades de fantasmagorias, ilusionismos, entre os quais às vezes perpassa a deliciosa cor azulada, aveludada, de poncheiras colossais, não devoraram tudo logo a um tempo!
Têm sido, talvez, benévolas, piedosas demais as chamas, porque há já bastante horas que o fogo alastrou, minou, rastejou, como um verme de incêndio, pelos alicerces do edifício e só agora que os trovejamentos desabem, as paredes caem, como se fossem de cera, milhares de fogozinhos correm eletricamente como microscópicos insetos luminosos pelo luxuoso papel das paredes, enquanto todo o resto da madeira estala e range , num crac-crac seco, caindo desmantelada como os mastros e vergas de um navio que afunda na fúria dos aceanos, sob o rijo estourar das tormentas.
Alucinamento, nevropatia, embora, eu não sei bem, na verdade, se um incêndio me apavora ou me delicia, - o que sei é que intimamente
me sobre-excita.Também o Mar, a emoção que experimento ao vê-lo, verde, amplo, espelhado, dá-me uma saúde virgem, uma força virgem.
Sínto o gozo repousante de sondá-lo, de descer à imensa profunda necrópole gelada onde uma florescência de algas vegeta; e, ao mesmo tempo, diante do Mar, sinto o peito alanceado de incomparável saudade de países vistos através do caledoscópio da imaginação, dos sonhos fantasiosos – países lindos e felizes , floridos trechos de terra, ilhas tranqüilas, províncias loiras, simples, de caça e pesca, donde a sombra amorosa da pa benfazeja fosse como uma sombra doce, protetora, de árvore velha, e onde, enfim, a Lua tudo imaculasse numa frescura salutar de pão alvo ...
A emoção, a sensibilidade em mim, quase sempre desperta uma meditativa amargura, uma grande e mística dolência do passado, que enevoa tudo – como o indefinido mistério perfumado dessas soberbas mulheres de Versailles, carnações fidalgas e perfeitas que estremeceram de luxúria e apaixonadamente amaram pelos velhos parques abandonados, rojando sobre as areias sonoras das alamedas a cauda astral das vestes de Deusas.
No templo branco que os mármores augustos e as cinzeluras doiradas esmaltam e solenizam com resplandência, dentre a profusão suntuosa das luzes, suavíssimas vozes cantam.
Coros edênicos inefavelmente desprendem-se de gargantas límpidas, em finas pratas de som, que parecem dar ainda mais brancura e sonoridade à
vastidão do templo sonoro.E as vozes sobem claras, cantantes, luminosas como astros.
Cristos aristocráticos de marfim lavrado como fidalgos e desfalecidos príncipes medievos apaixonados, emudecem diante dos Cânticos, da grande exalção de amor que se desprendem das vozes em fios subtilíssimos de voluptuosa harmonia.
O seu sangue delicado, ricamente trabalhado em rubim, mais vivo, mais luminoso e vermelho fulge ao clarão das velas.
Dir-se-ia que esse rubim de sangue palpita, aceso mais intensamente no colorido rubro da luxúria dos Cânticos. Que despertam, ciliciando, todas as virgindades da Carne.
Fortes, violentas rajadas de sons perpassam convulsamente nos violoncelos, enquanto que as vozes se elevam, sobem, num veemente desejo, quase impuras, maculadas quase, numa intenção de nudez.
E, através das volúpias das sedas e damascos pesados que ornamentam o templo, das luzes adormentadoras, dos pertubadores incensos, da opulência festiva dos paramentos dos altares e dos sacerdotes, das egrégias músicas sacras, sente-se impressionativamente pairar em tudo a volúpia maior – a volúpia branca dos Cânticos.
Desce um desses crepúsculos violáceos em que parece errar no espaço a enevoada música das casuarinas ...
Envolvem gradativamente a imensidade os veludos negros da Noite.
Num céu frio d'inverno, que umas mais frias estrelas esmaltam pouco a pouco, começa prodigiosamente a surgir a Lua, alta e misteriosa, lembrando baladas.
Dias d'ouro, ricos e raros, resplandeceram já com o sol na luxúria verde da folhagem.
E agora, o luar, que veste as noites de noivas, desdobra suntuosamente as suas tules delicadas e os seus luxuosos cetins brancos, imaculados.
Fecundam-se os grandes campos, quietos na nívea luz da Lua, no clarão que dela jorra, dormente e doce.
E os animais que repousam na amplidão dos vistosos gramados, gozam tranqüilos um sono brando, acariciador, como que produzido pela amorfinada claridade da Lua límpida e profunda.
As águas, as frescas águas das fontes e rios, as largas águas
dos mares serenamente adormecem, num esplendor cristalino
Apenas uma surdina leve que sai delas , como um leve ressonar, lhes denuncia,
no silêncio claro da noite, a antureza sonora.
E enquanto a rumorosa paisagem, todos os frementes impulsos do dia calam-se, em redor, na noite, a lua e as estrelas amorosas acordam e brilham, num recolhimento de Santuário, todas de branco, como virgens para a primeira comunhão.
Peters, esse humorismo ao mesmo tempo alucinante e alado; o pessimismo paradoxal de Alphonse Karr e Gustavo Groz, tão semelhantes nas linhas gerais; todo aquele pungente, doloroso, estranho Livro de Lázaro, de Henri Heine, tudo isso, fundido numa cristalização de lágrimas e sangue, como a flamejante e espiritualizada epopéia do Amor, exprimiria bem, talvez, a noite de tua psicologia negra, ó soturno, ó triste, ó desolado Feio.
Tu vens exata e diretamente do Darwin, da forma ancestral comum dos seres organizados: eu te vejo bem as saliências craneanas do Orango, o gesto
lascivo, o ar animal e rapace do símio.As tuas feições, duras, secas, quase imobilizadas em pedra, puxadas, arrepanhadas num momo, como a confluência interior dos desesperos e das torturas, abrem-se rebeladamente num sarcasmo, ao qual às vezes uma gesticulação epiléptica, nevrótiva, clownesca, faz impetuosa brotar a gargalhada das turbas, enquanto a tua voz coaxa e grasna, numa deprecação de morte, com ásperas e absurdas variabilidades ventríloquas de tons.
O teu horror não é deplorável só, não causa só piedade – mas é um obsceno horror – e as abas compridas e esfrangalhadas duma veste que te fica em rugas, em pregas encolhidas na largura neste teu corpo esquelético, e que parece a mortalha dalgum hirto cadáver que houvessem desenterrado – as esquisitas abas desta veste, sob o chicote elétrico do vento, alçam-se em vôo, deblateram para trás de ti, ansiosas, aflitas, puxando-te, num arrebatamento histérico, como se fossem fúrias tremendas que te quisessem arrojar pelos ares, num delírio de darem-te a morte.
Outras vezes, porém, lembram as asas de um grande morcego monstro, imensas e membranosas, causando asco nauseante e enchendo tudo duma sinistra treva lugubremente cortada de arrepios e esvoaçamentos medonhos.
Árvores frondentes e undiflavadas de sol, onde os pássaros cantem; rios gorgolejantes de cristais sonoros; vivos e iluminados vegetais em flor; campos verdes, afofados na verdura tenra, como estofos de veludos e sedas rutilosas e orientais, não são já para a tua alegria, recuada agora no fundo das nostálgicas neblinas da torturante desilusão de seres Feio.
Os perpétuos gelos do Volga e do Neva para sempre rolam, em densas camadas, sobre o teu coração; e, aí, tudo o que dele se aproxima, outros corações que te buscam, outros afetos que te procuram, perdem todo o calor, resfriam logo, inteiramente ficam gelados já diante da tangibilidade gwinplainesca da tua fealdade.
Só eu, numa suprema hora de spleen, de esgotamento de forças psíquicas, em que me falte extensamente o humor – essa bondade hilariante do Espírito – te idolatro e procuro, ó lascivo Feio! que da luxúria pantagruélica dos vermes devoras na treva os sonhos – porque não os podes alimentar, nem ver florir, nem crescer! Sem que a diabólica verdade flagrante esteja a rir de teu amor e a pintar picarescamente caricaturas na quase apagada perspectiva da tua existência.
Só as artísticas sensibilidades nervosas, vibráteis, quase feminis, podem amar-te; enquanto que as individualidades ocas, estéreis, áridas, duras, sem vibração sensacional, sem cor, sem luz, sem som e sem aroma, fugirão para sempre de ti como à repelência asquerosa de um putrefato.
Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! porque és a escapelante ironia da Formosura, a sombra aurora da Carne, o luto da matéria doirada ao sol, a cal fulgurante da sátira sobre a ostentosa podridão da beleza pintada. Gosto de ti porque negas a infalível, a absoluta correção das Formas perfeitas e consagradas, conquanto tenhas também, na tua hediondez, toda a correção perfeita – como o sapo, coaxando cá embaixo na lodosa argila, tem, no entanto, a repelente correção própria do sapo; - como a estrela, fulgindo, lá, em cima, no precioso Azul, tem a serena e etérea correção própria d’estrela.
Por uma espécie apenas de schopenhaurismo é que eu adoro-te, ó feio! e quereria bem rolar contigo nesse Nirvana de dúvida até à suprema aniquilação da morte, vendo surgir, como de lagos de quimeras, em estalagmites de neve, diante de mim, sombrios e álgidos, pesadelos de mulheres amadas; pálidas Ofélias, Margaridas loiras, Julietas tormentadas, visões, enfim, como nas tragédias de Mcbeth ou a nevoenta Visão germânica do Graal.
Numa seda negra d’Arte, vestidos de negro, à semelhança desse trágico Hamlet da Dinamarca, iríamos os dois, através dos largos e profundos cemitérios silenciosos, consultar as rígidas caveiras das virginais Ilusões que se foram, e que, à nossa aproximação, sorririam, talvez, felizes, como se lhes levássemos a palpitante matéria animada de nossos corpos para cobrir, fazer viver as suas galvanizadas carcaças frias.
Mas ah! eu quisera bem, por vezes, também, ter o rude materialismo analítico de Buchener, que, certamente, não sentiria por ti, ó Feio! esta extravagante, excêntrica, singular influência mórbida que nas funções de meu cérebro vem, contudo, como doença amarga, um tédio amarelo e pesado de chim que o ópio estuporou e enervou.
Não houvesse dentro em mim, através das Ilíadas do Amor, das Bacanais do Sonho, um sentimento melancólico ao qual o pensamento dá uma expressão de enfermidade psicológica, e eu não arrastaria a tua sombra, não andaria preso ao teu esqueleto, ó soturno, ó triste, ó desolado Feio!
Há uma irradiação larga e opulentíssima nos ares.
Esbraseamento do sol do fim da tarde dá fortes verberações quentes à paisagem, que resplandece, e de cuja vegetação estuante de calor parecem rebentar as raízes túmidas de seiva,
como veias imensas latejando de sangue oxigenado e vivo.Nessa elaboração enorme da Terra que procria e fecunda, na gestação desses mundos que, como astros, gravitam talvez em cada grão de areia, pululando e vibrando, a Natureza é como uma grande força animada e palpitante, dando entendimento e sentimento à Matéria e fazendo estacar a vida no profundo ocaso da Morte.
E, daí a pouco, a Lua, através das matas do vale, anelante e álgida, surgirá, rasgará d’alto as nuvens do céu, acordando os aromas adormecidos, cristalizada, vagarosa e tristemente, como uma dor que gelou…