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Soneto

cruz de souzA

SONETO I

-- Os Trópicos pulando as palmas batem... Em pé nas ondas -- O Equador dá vivas!...

Ao estrídulo solene dos bravos! das platéias, Prossegues altaneira, oh! ídolo da arte!...
-- O sol pára o curso p'ra bem de admirar-te
-- O sol, o grande sol, o misto das idéias.

A velha natureza escreve-te odisséias...
A estrela, a nívea concha, o arbusto... em toda a parte Retumba a doce orquestra que ousa proclamar-te Assombro do ideal, em duplas melopéias!

Perpassam vagos sons na harpa do mistério
Lá, quando no proscênio te ergues imperando
-- Oh! Íbis magistral do mundo azul -- sidério!

Então da imensidade, audaz vem reboando
De palmas o tufão, veloz, febril, aéreo
Que cai dentro das almas e as vai arrebatando!...

SONETO II

Dizem que a arte é a clâmide de idéia
A peregrina irradiação celeste,
E d’isso a prova singular já deste
Sorvendo d’ela a divinal sabéia!.

Da “Georgeta” na feliz estréia, Asseverar-nos ainda mais vieste
Que és um gênio, que te vás de preste
Tornando o assombro de qualquer platéia!...

Sinto uns transportes fervorosos, ledos
Quando nas cenas de sutis enredos
Fulgem-te os olhos co’a expressão dos astros!...

E as turbas mudas, impassíveis, calmas Sentem mil mundos lhes crescer nas almas... Vão-te seguindo os luminosos rastros!...

SONETO III

Um dia Guttemberg c'o a alma aos céus suspensa, Pegou do escopro ingente e pôs-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um rútilo alcançar
Ao mágico clangor de sua idéia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa! Ruiu o despotismo no pó, a esbravejar...
Uniram-se n'um lago, o céu, a terra, o mar...
Rasgou-se o manto atroz da horrível treva densa!...

Ergueram-se mil povos ao som das melopéias, Das grandes cavatinas olímpicas da arte!
Raiou o novo sol das fúlgidas idéias!...

Porém, quem lance luz maior por toda a parte
És tu, sublime atriz, ó misto de epopéias
Que sabes no tablado subir, endeusar-te!...

SONETO IV

É delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura... É linda e alva como a neve pura, Débil, franzina, divinal, nervosa!...

E d'entre os lábios setinais, de rosa Libram-se pérolas de nitente alvura... E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve compleição mimosa!...

Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes, Bem como um astro majestoso, helênio...

Sente-se n'alma as atrações potentes Que só se operam ao fulgor do gênio, As rubras chispas ideais, ferventes!...

SONETO V

Imaginai um misto de alvoradas
Assim com uns vagos longes de falena,
Ou mesmo uns quês suaves de açucena
C'os magos prantos bons das madrugadas!...

Imaginai mil cousas encantadas... O tímido dulçor da tarde amena,
As esquisitas graças de uma Helena, As vaporosas noites estreladas...

Que encontrareis então em Julieta
O tipo são, fiel da Georgeta
Nos dois brilhantes, primorosos atos!...

E sentireis um fluido magnético
Trêmulo, nervoso, mórbido, patético,
Bem como a voz dos langues psicattos!...

SONETO VI

Parece que nasceste, oh! pálida divina,
Para seres o farol, a luz das puras almas!... Parece que ao estridor, ao frêmito das palmas Exalças-te feliz a plaga cristalina!...

Parece que se partem, angélica Bambina,
As campas glaciais dos Tassos e dos Talmas,
Lá quando no tablado as turbas sempre calmas
Transmutas em vulcão, em raio que fulmina!...

E quando majestosa, em lance sublimado
Dardejas do olhar, olímpico, sagrado
Mil chispas ideais, titânicas, ardentes!...

Então sente-se n'alma o trêmulo nervoso
Que deve ter o mar, fantástico, espumoso
Nos grossos vagalhões, indômitos, frementes!!...

SONETO VII

Quando apareces, fica-se impassível E mudo e quedo, trêmulo, gelado!... Quer-se ficar com atenção, calado,
Quer-se falar sem mesmo ser possível!.

Anda-se c'o a alma n'um estado horrível
O coração completamente ervado!...
Quer-se dar palmas, mas sem ser notado, Quer-se gritar, n'uma explosão temível!...

Sobe-se e desce-se ao país das fadas,
Vaga-se co’as nuvens das mansões douradas
Sob um esforço colossal, titânico!...

E as idéias galopando voam...
Então lá dentro sem parar, ressoam
As indomáveis convulsões do crânio!!...

SONETO VIII

Lágrimas da aurora, poemas cristalinos Que rebentais das cobras do mistério! Aves azuis do manto auri-sidério... Raios de luz, fantásticos, divinos!...

Astros diáfanos, brandos, opalmos, Brancas cecens do Paraíso etéreo, Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!...

Brisas suaves, virações amenas, Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!...

Vinde do arcano n’um potente afago Louvar o Gênio das mansões serenas, Esse Prodígio singular e mago!!...

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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