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Velho Vento

cruz de souzA

Velho vento vagabundo!
No teu rosnar sonolento
Leva ao longe este lamento, Além do escárnio do mundo.

Tu que erras dos campanários
Nas grandes torres tristonhas E és o fantasma que sonhas Pelos bosques solitários.

Tu que vens lá de tão longe Com o teu bordão das jornadas Rezando pelas estradas Sombrias rezas de monge.

Tu que soltas pesadelos
Nos campos e nas florestas E fazes, por noites mestas, Arrepiar os cabelos.

Tu que contas velhas lendas
Nas harpas da tempestade, Viajas na Imensidade, Caminhas todas as sendas.

Tu que sabes mil segredos,
Mistérios negros, atrozes E formas as dúbias vozes Dos soturnos arvoredos.

Que tornas o mar sanhudo,
Implacável, formidando,
As brutas trompas soprando
Sob um céu trevoso e mudo.

Que penetras velhas portas,
Atravessando por frinchas...
E sopras, zargunchas, guinchas
Nas ermas aldeias mortas.

Que ao luar, pelos engenhos, Nos miseráveis casebres Espalhas frios e febres
Com teus aspectos ferrenhos.

Que soluças nos zimbórios Os teus felinos queixumes, Uivando nos altos cumes
Dos montes verdes e flóreos.

Que te desprendes no espaço
Perdido no estranho rumo
Por entre visões de fumo,
Das estrelas no regaço.

Que de Réquiens e surdinas
E de hieróglifos secretos
Enches os lagos quietos
Revestidos de neblinas.

Que ruges, brames, trovejas
Ó velho vândalo amargo, No sonâmbulo letargo
De um mocho rondando igrejas.

Que falas também baixinho Lá da origem do mistério, Trazendo o augúrio sidéreo E certa voz de carinho...

Que nas ruas mais escusa, Por tardes de nuvens feias, Como um ébrio cambaleias Rosnando pragas confusas.

Que és o boêmio maldito, O renegado boêmio,
Em tudo o turvo irmão gêmeo
Do sonhador Infinito.

Que és como louco das praças Nos seus gritos delirantes Clamando a pulmões possantes Todo o Inferno das desgraças.

Que lembras dragões convulsos, Bufantes, aéreos, soltos, Noctambulando revoltos Mordendo as caudas e os pulsos.

Ó velho vento saudoso, Velho vento compassivo, Ó ser vulcânico e vivo, Taciturno e tormentoso!

Alma de ânsias e de brados, Consolador companheiro Sinistro deus forasteiro D'espaços ilimitados!

Tu que andas, além, perdido,
Tateando na esfera imensa
Como um cego de nascença
Nos desertos esquecido...

Que gozas toda a paragem,
Toda a região mais diversa, Levando sempre dispersa
A tua queixa selvagem.

Que no trágico abandono, No tédio das grandes horas Desoladamente choras,
Sem fadigas e sem sono.

Que lembras nos teus clamores,
Nas fúrias negras, dantescas, Torturas medievalescas
Dos ímpios inquisidores.

Que és sempre a ronda das casas, A gemente sentinela
Que tudo desgrenha e gela
Com o torvo rumor das asas.

Que pareces hordas e hordas
De hirsutos, intonsos bardos
Vibrando cânticos tardos
Por liras de cem mil cordas.

Ó vento languido e vago, Ó fantasista das brumas,
Sopro equóreo das espumas, Ó dá-me o teu grande afago!

Que a tua sombra me envolva
Que o teu vulto me console
E o meu Sentimento role
E nos astros se dissolva...

Que eu me liberte das ânsias De ansiedades me liberte, Pairando no espasmo inerte
Das mais longínquas distâncias.

Eu quero perder-me a fundo
No teu segredo nevoento, Ó velho e velado vento, Velho vento vagabundo!

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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