
Hugo Ball e Emmy Hennings
Início da Primeira Guerra Mundial. 1915. Chegou na Suíça, em Zurique, um
escritor e diretor de teatro: Hugo Ball. Veio com uma amiga chamada Emmy Hennings,
que cantava e recitava poemas.
Em primeiro de fevereiro de 1916, Ball funda o Cabaré Voltaire.
Um cabaré literário. Emmy cantava e Ball a acompanhava ao piano. Em 2 de fevereiro
uma notícia no jornal: "...o Cabaré Voltaire exorta todos os jovens artistas
de Zurique para que compareçam com sugestões e contribuições, sem se preocupar
com esta ou aquela orientação artística."
Os jovens compareceram. Ball relata: "no dia 5 de fevereiro o recinto
estava superlotado; muitos não encontravam mais lugar. Por volta das seis
horas da tarde, quando o pessoal ainda se encontrava martelando com afinco
e afixando cartazes, apareceu uma delegação de quatro homenzinhos, de aspecto
oriental, com pastas e quadros debaixo do braço, fazendo várias mesuras discretas.
Apresentaram-se: Marcel Janco, o pintor, Tristan Tzara, Georges Janco e um
quarto senhor, cujo nome me escapou. Por acaso, Arp também estava lá, e todos
se entenderam com poucas palavras. Logo em seguida, os generosos Arcanjos
de Janco estavam pendurados ao lado das outras coisas bonitas, e na mesma
noite Tzara recitou versos em estilo antigo, que foi tirando dos bolsos do
paletó de uma maneira muito simpática."
Zurique era o refúgio de vários personagens irregulares: desertores, emigrados
políticos, agentes secretos, etc. Havia também artistas literatos e poetas
que chegaram em Zurique por motivos os mais diversos. Tzara e Janco vieram
da Romênia e já moravam em Zurique por motivos de estudo (Tzara estudava filosofia
e Janco, arquitetura). Com a declaração de guerra da Romênia foram obrigados
a permanecer na Suíça. Hanz Arp veio de Paris e chegou em Zurique para encontrar
com sua mãe, que era alemã. Hugo Ball, que estava alistado no exército alemão,
escolheu a Suíça como asilo. Richard Huelsenbeck e Hans Richter também vieram
da Alemanha. Estes homens deram vida ao Cabaré Voltaire, onde nasceu o DADAÍSMO.

Sophie Taeuber e Hans Arp, Zurique, 1918

Tristan Tzara, Zurique, 1917

Marcel Janco, Zurique, 1916-17

Dr. Richard Huelsenbeck, Berlim, 1917
De onde surgiu a palavra dadá?
Como diz Hans Richter: "Até hoje é impossível constatar quem achou ou
inventou a palavra Dadá, ou o que ela significa." Várias são as versões
desta descoberta, várias foram as polêmicas que surgiram em torno da autoria
desta marca. Huelsenberck diz: "Ball e eu descobrimos a palavra Dadá,
por acaso, num dicionário francês-alemão, quando procurávamos um nome artístico
para madame LeRoy, a cantora do nosso Cabaré. Dadá é uma palavra francesa,
que significa cavalo de pau."
Já Hans Arp declara, em 1921, na revista do movimento: "Declaro que Tristan
Tzara encontrou a palavra dadá em 08 de fevereiro de 1916 às seis da tarde.
Eu estava presente com os meus doze filhos quando Tzara pronunciou pela primeira
vez essa palavra que despertou em todos nós legítimo esntusiasmo. Isso aconteceu
no Café Terasse de Zurique enquanto eu levava uma brioche à narina esquerda.
Estou convencido de que esta palavra não tem nenhuma importância e que apenas
os imbecis e os professores espanhóis podem interessar-se pelos dados. Aquilo
que nos interessa é o espírito dadaísta e nós éramos todos dadaístas antes
da existência de dadá."
Em 18 de abril de 1916, Tzara deu esta versão: "Uma palavra nasceu, não
sei como."
E Ribemont-Dessaignes confirma que o caso dependeu de "um cortador de
papel ter escorregado acidentalmente entre as páginas do dicionário."
A palavra dadá, segundo Baal, traz várias explicações que ficam em aberto:
"Dadá em romeno, significa Sim, Sim; em francês, cavalo de pau. Para
os alemães, a palavra é um sinal de ingenuidade tola e disparatada, e de simpatia,
cheia de alegria procriadora, pelo carro de criança."
O certo é que a palavra Dadá apareceu impressa pela primeira vez no Cabaré
Voltaire, no dia 15 de junho de 1916. Estas disputas pela autoria do nome
Dadá, só aconteceram após a expansão internacional do movimento dadaísta.
Em Zurique, quando o movimento estava sendo vivenciado, estas referidas disputas
nunca existiram.
Por algum tempo, houve muita discussão em torno do que seria uma arte nova,
uma nova poesia dentro do contexto em que estavam vivendo. Janco e Hans Arp
descreviam a situação: "Tínhamos perdido a esperança de uma condição
de vida mais justa para a arte em nossa sociedade. Aqueles dentre nós que
tinham consciência do problema sentiam o peso de uma enorme responsabilidade.
Estávamos indignados com os sofrimentos e o aviltamento do homem."(Janco).
"Em Zurique, em 1915, quando perdemos o interesse nas carnificinas da
guerra mundial, entregamo-nos às belas-artes. Enquanto ao longe troavam os
canhões, nós cantávamos, pintávamos, colávamos e fazíamos poesia a mais não
poder, pondo a alma inteira nisso." (Arp)