E qual era a alma? O espírito?
Este espírito foi transformado pela guerra de descontentamento em náusea.
Esta náusea foi dirigida contra a sociedade, responsável pelos estragos da
guerra e contra a arte e a filosofia impregnadas de racionalismo burguês,
a ponto de se tornarem incapazes de criar novas formas, através das quais,
se pudesse veicular qualquer tipo de protesto. Opondo-se à paralisia que esta
situação parecia conduzir, estes jovens artistas voltaram-se para o absurdo,
para o primitivo, para o elementar. Aspiravam uma nova ordem que poderia restaurar
o equilíbrio entre o céu e o inferno. Eram contra a arte como instrumento
para emburrecer a humanidade. Mais do que a obra é o gesto. Um gesto provocador
contra o sentido comum, a moral, a lei ou qualquer norma ou ortodoxia. Transformar
poesia em ação. Unir arte e vida.
Em 14 de julho de 1916 realizou-se a primeira noite Dadá: música, danças,
manifestos, poemas, pinturas, figurinos, máscaras. Assim escreveu Hans Richter
a respeito: "o caldeirão da arte fervia no Cabaré Voltaire, certa noite,
ele transbordou."(...) "Campainhas, tambores, chocalhos, batidas
na mesa ou em caixas vazias animavam as exigências selvagens da nova linguagem,
na nova forma, e excitavam, a partir do físico, um público que inicialmente
quedava atordoado atrás dos seus copos de cerveja. Pouco a pouco eram sacudidos
e despertados de seu estado de letargia a tal ponto que irrompiam num verdadeiro
frenesi de participação. Isto era arte, isto era vida, e era isto o que se
queria."

Desenho de Marcel Jango, Cabaret Voltaire, 1916. Desenho, 33 x 30. Galeria
Schwarz, Milão
Os dadaístas quebraram as barreiras do significado das palavras. O importante era criar palavras pela sonoridade. O importante era o grito, o urro contra o capitalismo burguês e o mundo em guerra.
Outra noite, parecida com a primeira noite dadá, Hugo Ball recita o seu primeiro poema sonorista, chamado O Gadji Beri Bimba:
"Gadji beri bimba glandridi laula lonni dacori
Gadjama gramma berida bimbala glandri galassassa
laulitalomini
Gadji beri bin blassa glassala laula lonni cadorsu
sassala bim
gadjama tuffm i zimzalla binban gkigia wowolimai
bin beri ban
o katalominal rhinozerossola hosamen laulitalomini
hoooo gadjama
rhinozerossola hopsamen
bluku terullala blaulala looooo..."
Ball usava traje especial, como ele mesmo descreve: "traje concebido por Janco e por mim. Minhas pernas estavam enfiadas numa coluna feita de cartolina azul brilhante que ia até a minha cintura, o que, até aquela altura, me dava a aparência de um obelisco. Por cima eu usava uma enorme gola de papelão, revestida de escarlate por dentro e de amarelo-ouro por fora, presa ao pescoço de tal modo que eu podia movimenta-la à semelhança de asas, levantando e abaixando os cotovelos. O traje era complementado por um chapéu de feiticeiro, parecido com uma cartola, com listras brancas e azuis.
O público consternado inicialmente, acabou por explodir."
A poesia abandona a língua, como a pintura o fez com os objetos. Os poemas sonoristas pretenderam renunciar a uma linguagem já devastada: "É preciso que nos retiremos para a mais profunda alquimia da palavra e que até mesmo abandonemos a alquimia da palavra, para, desta maneira, preservar os mais sagrados domínios da poesia."
O dadaísmo se mostra povoado de ecos do futurismo italiano, no seu discurso agressivo, na linguagem violenta de seus manifestos, em suas experiências com o ruído e a simultaneidade, mas com uma diferença: o futurismo possuía um programa e o dadaísmo era visceralmente antiprogramático. A busca de uma verdade não sujeita às regras pré-estabelecidas, regras políticas e morais e também, artísticas.
O seu programa era não ter programa, não ter liames estéticos e sociais:
"Dadá não significa nada"- Dadá foi produzido na boca." (manifesto Dadá de 1918 - Tristan Tzara)
"A arte vai adormecer. A arte imitativa, papagaida, substituía por Dadá. A arte precisa ser operada. A arte é uma exigência especial, aquecida pela timidez do sistema urinário, histeria, nascida no ateliê." ( Tristan Tezara)
"Todos vocês estão acusados: levantem-se! De pé, como fariam para ouvir a Marselhesa ou Deus Salve o Rei...
Dadá, sozinho não cheira a nada; não é nada, nada, nada.
É como as suas esperanças: nada.
Como o seu paraíso: nada.
Como os seus ídolos: nada.
Como os seus políticos: nada.
Como os seus heróis: nada.
Como os seus artistas: nada.
Como as suas religiões: nada.
Vaiem, gritem, esmurrem meus dentes, e daí? Continuarei dizendo que vocês são uns débeis mentais.
Daqui a três meses, meus amigos e eu lhes estaremos vendendo os seus retratos, por uns poucos francos.
( Manifesto canibal Dadá, de Francis Picabia, lido na noite Dadá, no Théâtre de la Maison de l'Oeuvre, Paris, 27 de março de 1920).
O espanhol Francis Picabia chega em Zurique em 1918, vindo de Nova York. Sua descrença total pela arte e sua falta de sentido da vida opera uma mudança radical no movimento dadaísta. Hans Hichter diz a respeito de Picabia: "Encontrei Picabia poucas vezes, mas estes encontros sempre foram para mim, algo como a experiência da morte: extremamente estranho, extremamente atraente, extraordinariamente instigante e assustador. Possivelmente, entretanto, todos nós tivemos, em determinado momento, e por algum tempo., a necessidade de seguir o impulso antivida que Picabia expressava de maneira tão virulenta. Lembro-me de que em horas de desespero e em fase à guerra, à injustiça, caminhei pelo meu ateliê e destruí com pontapés os meus próprios quadros que olhavam para mim. Não sei de que forma este impulso de autodestruição se manifestou nos meus amigos, mas lembro-me das profundas depressões sofridas por Janco, habitualmente tão equilibrado e gentil." (...) " o movimento parecia ter deixado para trás o equilíbrio entre arte e antiarte, para enveredar pelo reino estratosférico do alegre Nada."
Tzara fica fascinado pela personalidade dominadora e fascinante de Picabia e no seu Manifesto Dadá 1918 expressa o seu niilismo:
"Filosofia, eis a questão: de que lado olharemos a vida, Deus, pensamento, ou que outro tipo de fenômeno? Tudo o que vemos é falso."
Picabia edita em Zurique, o número 8 de sua revista 391, fundada em Barcelona, e que atesta oficialmente sua vinculação direta com o movimento Dadá.
Muitas obras dadaístas tiveram na sua criação o método da "poesia no chapéu" - recolhendo diversos elementos e colocando-os juntos segundo a casualidade das suas formas, das suas cores, da sua matéria:
"Para fazer uma poesia dadaísta:
Pegue um jornal.
Pegue uma tesoura.
Escolha no jornal um artigo que tenha o comprimento que você deseja dar sua poesia.
Recorte o artigo.
Corte de novo com cuidado, cada palavra que forma este artigo e coloque todas as palavras num saquinho.
Agite delicadamente.
Tire uma palavra depois da outra colocando-as na ordem em que você as tirou.
Copie-as conscienciosamente.
A poesia se parecerá com você.
Ei-lo transformado em escritor infinitamente original e dotado de encantadora sensibilidade..."
(Manifesto Dadá de 1918 - Tristan Tzara).
Serões provocadores, recitais inconformistas, declamações cacofônicas e, podemos dizer, os primeiros happenings da história, baseados na inspiração casual, no absurdo e no anti-racionalismo. Este era o clima do Cabaré Voltaire, onde nasceu o "movimento mais subversivo da história da arte e das letras."
A Revista Dadá
A revista "Dada" resultou de um trabalho em conjunto de Janco, Arp, Ball, Huelsenbeck, Hans Richter e de muitos outros dadaístas. Tristan Tzara era o editor, o carro chefe, com toda sua energia, paixão e talento organizador. Vários foram os manifestos publicados na revista Dadá.
Teses, anti-teses e a-teses:



Capas para Dada, 1917-18
"Destruo as caixas cranianas e as da organização social. Desmoralizar em toda parte, jogar o homem do céu no inferno, voltar os olhos do inferno para o céu, reerguer a terrível roda do circo universal nos reais poderes e na imaginação de cada indivíduo."
"Ordem=desordem; eu=não eu; afirmação=negação: máxima irradiação da arte absoluta, absoluta em pureza, caos ordenado - rolar eternamente em segundos sem fronteiras, sem respiração, sem luz, sem controle - amo uma obra antiga por causa do seu caráter de inovação. Apenas o contraste nos prende ao passado."
"Dadá não significa nada - Dada foi produzido na boca."
Como promotor ideal do Dadá, Tzara estabelece contatos com poetas e escritores modernos de outros países, especialmente na França.O dadaísmo começa a transformar-se num movimento internacional.
Cristina Tolentino
Fonte: www.caleidoscopio.art.br