tanto tempo Beatriz ficou calada, fixando o Ponto luminoso, isto é Deus. — 18. Amores nove, os nove círculos de anjos. — 22.
Matéria e forma etc.; Deus criou no mesmo tempo a forma pura (os anjos), a matéria pura (os elementos), a forma conjunta à matéria (os corpos e as almas). — 31-36. Ordem foi concriada etc.; na parte superior do Universo foram colocados os anjos (ato puro); na inferior a matéria pura; e no meio a forma conjunta à matéria. — 37-41. Jerônimo etc. S. Jerônimo escreveu que os anjos foram criados antes do mundo sensível; mas o Poeta está de acordo com outros escritores, que se baseiam sobre os livros sagrados. — 50-51. Dos anjos parte etc., os anjos rebeldes convulsionaram a Terra. — 56. Do que hás visto etc., Lúcifer. — 97-102. Qual diz etc. Os pregadores discutem sem base nenhuma sobre a origem do eclipse que se deu no dia da morte de Jesus. — 104. Lapi e Bindi, nomes comuns em Florença, no tempo de Dante. — 109. Convento, os Apóstolos. — 124. De Santo Antônio etc.; com essas fraudes os padres engordam.
* Conservou-se a grafia original (cança) em lugar da atual (cansa) para preservar a rima. [NE]
Os nove coros angélicos aos poucos vão desaparecendo, Dante volve os seus olhos novamente para Beatriz, cuja beleza é agora maravilhosa a tal ponto que renuncia a descrevê-la. Eles estão no Empíreo, e Dante vê um rio de luz, cujas ribas estão esmaltadas de flores. Do rio saem centelhas que formam flores e depois voltam para as ondas. Enfim vê uma grande rosa de luz na qual aparecem anjos e os bem-aventurados. No meio há um trono preparado para o imperador Henrique VII.
TALVEZ milhas seis mil de nós distando, A hora sexta ferve e deste mundo 3 A sombra vai-se ao nível inclinando, Quando o meio do céu, p’ra nós profundo, Tal se faz que não mostra o seu semblante 6 Mais de uma estrela deste val ao fundo; E enquanto vem do sol a radiante Núncia, o céu olhos cerra, adormecido 9 Um após outro até o mais brilhante: Tal o triunfo, sem cessar movido De gáudio, em torno ao Ponto deslumbroso, 12 Que parece, contendo estar contido,
Extinguiu-se aos meus olhos vagaroso.
Não vendo a pompa mais, a amor cedendo, 15 A Beatriz voltei-me fervoroso.
Num só louvor eu, resumir querendo Dela o que vezes mil tenho cantado, 18 Frustara o intento, o esforço meu perdendo.
Pelo humano ideal imaginado Não seria o primor, que vi mas, creio, 21 Gozá-lo todo, só a Deus é dado.
Neste árduo passo superado, anseio: Vate jamais em trágico poema 24 Ou cômico sentiu tamanho enleio; Quanto a vista ao clarão do sol mais trema.
Tanto a memória do seu doce riso 27 As potências do espírito me algema.
Dês que vi do seu gesto o paraíso Na terra até me alçar a visão pura 30 Meu canto renovar não foi preciso.
Mas seguir-lhe a sublime formosura Nos versos meus agora não me atrevo, 33 Como artista, que o extremo esforço apura.
Beatriz, sendo tal que a deixar devo A tuba, mais que a minha, sonorosa,
36 Enquanto esta árdua empresa ao termo levo, Com gesto e voz de guia cuidadosa, — “Ao céu que é pura luz” — disse — “ao presente 39 Alçamo-nos da esfera mais vultosa, “Luz intelectual, de amor ardente, Amor do sumo bem, que enche a alegria; 42 Alegria em dulçores transcendente.
“Do céu verás, na santa bizarria, Uma e outra milícia: uma no aspeto 45 Que hás de ver do final Juízo em dia.” Como aos visivos espíritos direto Relâmpago, que a ação lhes tolhe e os priva 48 De discernir o mais patente objeto, Circunfluiu-me assim uma luz viva Com véu do seu fulgor, que me impedia 51 Em claridade ver tanto excessiva.
— “Sempre o Amor, que este céu tanto extasia, Por ser o círio à flama aparelhado, 54 Este saudar a quem recebe envia.” — Bem não tinha estas vozes escutado, Eis senti que virtude milagrosa 57 A força minha havia sublimado;
Senti vista mais que antes poderosa E tal, que a luz mais penetrante e pura 60 Afrontar poderia valorosa.
Fúlvido lume um rio me afigura, Entre margens correndo, que esmaltava 63 A primavera da celeste altura.
Do seio essa corrente arremessava Centelhas; que entre as flores se espargiam 66 Como rubis, que o ouro circundava.
Quando ébrias de perfumes pareciam Reprofundavam na ribeira bela: 69 Se umas entravam, outras emergiam.
— “O desejo, que te urge e te desvela, De saber quanto vês maravilhado 72 Me agrada neste excesso que revela.
“Não serás em tal sede saciado Senão dessa água tendo já bebido” — 75 Dos meus olhos o sol me há declarado.
“Os topázios, que movem-se, o luzido Rio e das flores o matiz ridente 78 Prefácio umbroso da verdade hão sido.
“Não, por ser isto impenetrável à mente,
Mas por defeito da fraqueza tua, 81 Que te veda visão tanto eminente.” — Não há criança, que tão presto rua Ao seio maternal, em despertando 84 Mais tarde do que está na usança sua, Como eu: melhor espelho desejando Fazer dos olhos, à água me inclinava, 87 Que flui, pureza e perfeição nos dando.
Das pálpebras apenas se molhava A borda, a forma, que antes vi comprida, 90 Do rio, circular se apresentava.
Como quem sob a máscara escondida A face teve e logo diferente 93 Se mostra, essa aparência removida, Assim flores, centelhas, mais fulgente Alegria mostraram e eu já via 96 Do céu ambas as cortes claramente, Ó de Deus esplendor, por quem já via O triunfo do reino da verdade, 99 Dá-me valor; que eu diga o que já via.
Lá alto há luz de tanta claridade, Que Deus visível faz à criatura, 102 Que em vê-lo tem da paz a f’licidade.
Ela se estende em circular figura, Tão vasta que o seu âmbito faria 105 Ao sol desmarcadíssima cintura.
Um raio era o que dela aparecia Refletido no Móbile Primeiro, 108 A que assim vida e influxo principia.
Qual em cristal do próximo ribeiro Se espelha, como para ver as flores 111 E verdura, que o vestem, lindo outeiro, Miravam-se, da luz aos esplendores, De degraus em milhões almas tornadas 114 Da terra para os célicos fulgores.
Se claridades tantas derramadas Stão no imo degrau, como da Rosa 117 No cimo hão de as grandezas ser esmadas? Sem turbar-me, a amplitude portentosa, Notava o qual e o quanto da alegria, 120 Em que se enleva aquela grei ditosa.
De perto, ao longe igual resplendecia; Pois onde por si mesmo Deus governa 123 Da natureza a lei não mais regia.
Ao centro áureo da Rosa sempiterna,
Que em degraus dilatada rescendia 126 Louvor ao sol da primavera eterna, Como quem cala, mas falar queria, Beatriz, me atraindo, disse: — “Atenta 129 Dos brancos véus na imensa jerarquia “O espaço vê, que esta cidade ostenta! Quanto cada fileira está cerrada! 132 A poucos lugar vago se apresenta.
“Essa grande cadeira assinalada Já de coroa, que te move espanto, 135 Antes de teres nesta boda entrada, “Será de Henrique excelso, que há de o manto Vestir de Augusto, para a Itália vindo 138 Antes de afeita ao regimento santo.
“Cega cobiça, a tantos iludindo, Iguais vos torna a infante, que sem tino 141 De ama o seio não quer, fome sentindo.
“Será então Prefeito no divino Foro aquele, que, oculto ou descoberto, 144 Não há de ser de acompanhá-lo di’no.
“A Deus, porém, apraz que esteja perto Tempo, em que perderá cargo sagrado! Terá com Simão Mago o lugar certo,
148 E o de Anagni será mais soterrado.” —
1-6. O Poeta quer que se entenda como desapareceu aos seus olhos a visão de que é objeto o canto anterior; e compara o desaparecimento ao apagar-se das estrelas no começo do dia. — 7-8. Do sol a radiante núncia, a aurora. — 44. Uma e outra milícia, os santos que combateram contra os vícios e os anjos fiéis, que combateram contra os rebeldes. 44-45. Uma no aspecto etc., os santos com os corpos com os quais aparecerão no Juízo Final. — 116. Rosa; o imenso círculo no qual se encontram os bem-aventurados tem a forma de uma rosa. — 136. Henrique VII, eleito imperador em 1308, coroado em Milão em 1311, e em Roma em 1312. Morreu em Buoncovento em 1313. — 142. Prefeito no divino foro, papa. — 143-144. Aquele etc., Clemente V que aparentemente será seu amigo, mas ocultamente será seu inimigo. — 147. Terá com Simão Mago o lugar certo, no Inferno entre os simoníacos. — 148. O de Anagni, Bonifácio VIII.
Enquanto Dante contempla a rosa do Paraíso, Beatriz sobe e vai ocupar o lugar que lhe pertence, no meio dos bem-aventurados. S.
Bernardo é o último guia de Dante. Ele lhe indica a Virgem Maria, toda brilhante de luz celeste.
FORMA assumindo de uma branca rosa, Tinha ante os olhos a milícia santa, 3 Que em seu sangue fez Cristo sua Esposa.
A outra, que, adejando, vê, decanta Do Onipotente a glória, que a enamora, 6 E a bondade, que deu-lhe alteza tanta, Bem como abelhas, cujo enxame agora Nas flores se apascenta, agora torna 9 À colmeia, onde os favos elabora, Descia à flor imensa que se adorna De folhas tantas, e depois subia 12 Ao centro, onde o amor seu sempre sojorna.
Nas faces viva flama refulgia, Nas asas ouro, em tudo mais alvura, 15 Que a candidez da neve escurecia.
De sólio em sólio entrando na flor pura E as asas agitando, derramavam 18 Ardor e paz, colhidos lá na altura.
As multidões aladas, que giravam, Ao Senhor se interpondo e à flor brilhante, 21 Nem vista, nem splendores atalhavam, Que a luz divina cala penetrante No universo, segundo ele merece; 24 Nada lhe empece o brilho triunfante.
O gaudioso império, onde aparece A par da grei antiga a grei recente 27 De olhos, de amor num fito se embevece.
Trina luz, que, num astro unicamente, Fulgindo, alma lhes tens inebriada, 30 Conosco nas procelas sê clemente! Se os Bárbaros, da terra enregelada Vindos, que Hélice cobre cada dia 33 No seu giro, do filho acompanhada, A pompa ao ver, que a Roma enobrecia, Pasmavam, quando já Latrão famoso 36 Do mundo as maravilhas precedia; Da terra eu ido ao trono luminoso, Exalçado do tempo à eterna vida
39 E de Florença ao reino virtuoso, Quanto havia de ter a alma transida! Nem ouvir, nem falar apetecera: 42 Tanta alegria ao passo estava unida! Bem como o peregrino considera O templo, a que seu voto o conduzira, 45 E o que vê recontar, tornando, espera, Na ardente luz a minha vista gira De degrau em degrau, e agora acima, 48 Abaixo logo e em derredor remira.
Rostos eu vi, que a caridade anima Com lume divinal; seu doce riso 51 Por suave atrativo se sublima.
Sem deterem-se mais do que o preciso, Os olhos meus haviam rodeado 54 Em sua forma geral o Paraíso: Vivo desejo em mim stando ateado, A Beatriz voltei-me; ter queria 57 A solução do que era inexplicado Ao que eu pensava o oposto respondia: Nos gloriosos trajos de um eleito, 60 Em vez de Beatriz, um velho eu via.
Nos olhos transluzia-lhe e no aspeito Alegria beni’na e o continente 63 De pai era, à ternura sempre afeito.
— “E Beatriz?” — exclamo eu de repente.
Tornou-o: — “Baixar me fez do meu assento 66 Por contentar o teu desejo ardente.
“Verás, do cimo ao círc’lo tércio atento, Beatriz nesse trono colocada, 69 Que lhe há dado imortal merecimento.” — Olhos alçando, à Dama sublimada, Divisei que de c’roa era cingida, 72 Da eterna luz, em refração, formada.
Da região etérea a mais subida Vista mortal, no pego profundando, 75 De tão longe não fora dirigida, Como olhos meus, em Beatriz fitando.
Via-a, porém: a efígie livremente 78 Descia a mim do vulto venerando.
— “Senhora! Esp’rança minha permanente! Que não temeste, por me dar saúde, 81 Teus vestígios deixar no inferno horrente! “De tantas cousas, quantas eu ver pude Ao teu grande valor e alta bondade
84 A graça referir devo e virtude.
“Sendo eu servo, me deste a liberdade, Pelos meios e vias conduzido, 87 De que dispunha a tua potestade.
“Seja eu do teu valor fortalecido, Porque minha alma, que fizeste pura 90 Te agrade ao ser seu vínculo solvido.” — Desta arte orei. Lá da sublime altura, Em que estava sorrindo-se encarou-me; 93 Depois voltou-se à eterna Formosura.
— “Por chegares” — o velho assim falou-me — “Ao termo da jornada, como anelas, 96 A que seu rogo e santo amor mandou-me, “Teus olhos voem pelas flores belas: Eles mais hão-de se acender, no esguardo 99 Para alçar-se ao divino raio, em vê-las.
“E a Rainha do céu, por quem eu ardo Cheio de amor, nos há de ser beni’na, 102 Pois sou seu servo, o seu fiel Bernardo.” — Como quem da Croácia se destina A ver Santo Sudário em romaria, 105 Por fama antiga da feição divina;
Devoto a contemplar se não sacia, Dizendo em si: “ó Jesus! meu Deus piedoso! 108 Tal o semblante vosso parecia!” Assim notei o afeito caridoso Daquele, que em seus êxtases no mundo 111 A paz celeste prelibou ditoso.
— “Filho da graça, este viver jucundo Ser-te não pode” — prosseguia — “noto, 114 Se os olhos teus não alças cá do fundo.
“Dos círculos atenta ao mais remoto: Lá no trono a Rainha está sentada; 117 Seu reino, o céu, lhe é súdito e devoto.” — O rosto ergui. Bem como na alvorada A parte, em que o sol nasce no horizonte 120 Excede a que franqueia à noite entrada, Assim, quase a subir de vale a monte, No píncaro eminente parte eu via 123 Vencer em lume a qualquer outra fronte.
Como lá donde espera-se do dia O carro, que perdeu Fetonte, a flama 126 Aumenta e noutros pontos se embacia, Assim essa pacífica oriflama Se avivava no meio; e a cada lado
129 Por modo igual se enfraquecia a chama.
De milhares o centro rodeado Stava de anjos voando como em festa, 132 Cada um na arte e no brilho assinalado.
De os ver e ouvir contento manifesta A Beldade: que extremos de alegria 135 A outros santos nos seus olhos presta.
Se eu tivera opulenta fantasia E a eloqüência não menos, desse encanto 138 Um só traço exprimir não poderia.
No vivo lume e ao ver Bernardo quanto Os meus olhos, absortos, se fitavam, Volveu-lhe os seus, acesos de ardor tanto, 142 Que a mais fervor meu êxtase enalçavam.
2. A milícia santa, os santos. — 3. Os outros, os anjos. — 32.
Hélice, a ninfa Hélice ou Calixto que foi transformada por Júpiter na constelação da Ursa Maior. — 33. Do filho acompanhada, o filho de Hélice foi transformado na constelação da Ursa Menor. — 35. Latrão, foi por algum tempo a sede dos imperadores romanos. — 102. Bernardo, S. Bernardo, abade de Clairvaux, na Borgonha, que foi devotado ao culto da Virgem Maria. — 104. Santo Sudário, ou Verônica (imagem verdadeira), imagem de Jesus impressa num véu, relíquia que se conserva em Roma. — 116. A rainha, a virgem Maria. — 125. O carro que perdeu Fetonte, o sol. — 127. Oriflama, estandarte de guerra dos reis de França; aqui indica a Virgem.
S. Bernardo esclarece a Dante a composição da rosa do Paraíso.
De um lado estão os santos cristãos; do outro os hebreus, que acreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo de Maria, mulheres hebréias; mais embaixo as crianças mortas logo depois do batismo.
DE contemplar no seu prazer sorvido, De instruir-me, espontâneo, se incumbia, 3 E este santo discurso há proferido: — “A chaga, que sarou e ungiu Maria Abrira a bela, que aos seus pés sentada 6 Divisas, do homem no primeiro dia.
“Stá na tércia fileira entronizada Logo abaixo Raquel; resplendente 9 Ao lado Beatriz vês colocada.
“Sara, Rebeca, Judite e a prudente Bisavó do cantor, que lamentara, 12 Miserere clamando, a culpa ingente: “Num degrau cada uma se depara Da rosa, folha a folha, descendendo 15 Como seu nome a minha voz declara.
“Estão, do degrau sétimo descendo, Como de lá subindo, em seguimento 18 Hebréias, dividida a Rosa sendo: “Formam elas, assim, repartimento, Segundo em Cristo a fé predominara, 21 Da santa escada em todo o comprimento.
“Da parte, em que da flor se completara Em cada folha o número, exalçado 24 Vês quem a Cristo no porvir sperara; “Da parte, onde o hemiciclo é sinalado De alguns lugares vagos, se apresenta 27 Quem creu em Cristo ao mundo já chegado.
“Como de um lado a divisão se ostenta, Da Virgem pelo trono demarcada 30 E pelos mais, que a vista representa, “Assim do oposto a sede destinada Ao que no ermo e martírio sempre há sido 33 Santo e em dois anos da infernal estada, “Lugar que, tem por conta, há precedido Aos de Francisco, de Agostinho, Bento 36 E outros, de um degrau cada um descido.
“De Deus ora contempla o sábio intento:
Igualmente a fé nova e a antiga crença 39 Hão de encher o jardim do firmamento.
“Abaixo do degrau da escada imensa, Que as divisões reparte, está sentado 42 Ninguém, porque ao seu mérito pertença, “Mas pelo alheio, e ao modo decretado.
Seus corpos tais espíritos deixaram 45 Antes que discernir lhes fosse dado.
“Bem à luz da evidência to declaram Pela voz infantil e pelo gesto: 48 Olha, escuta, e tuas dúvidas se aclaram.
“Duvidas e o não fazes manifesto; Sutil pensar em nó te prende estreito; 51 Mas deste enleio vou livrar-te presto.
“Crer-se não pode em casual efeito Do reino divinal no infindo espaço; 54 Nem há fome, nem sede ou triste aspeito.
“De eternas leis vincula tudo o laço, E, como o anel no dedo, justamente 57 Da criação responde tudo ao traço.
“Portanto aquela prematura gente Sine causa não sobe à vida eterna; 60 Mais ou menos, cada um entra excelente.
“Deste reino o Monarca, que o governa De amor em tanto extremo, em tal ventura, 63 Que desejo nenhum além se interna, “Criando, de sua face na doçura, Os espíritos, dota-os a seu grado.
66 Isto basta saber: não mais apura.
“Ao claro está nos gêmeos demonstrado, Que haviam, — na Escritura se refere, 69 Já no materno ventre batalhado.
“Assim a luz altíssima confere A grinalda da Graça dignamente 72 Segundo a cor da coma, que prefere.
“Graduação, portanto, diferente Lhes cabe sem ter méritos na vida: 75 Visão primeira os distinguiu somente.
“Nos primitivos tempos conseguida Estava a salvação, quando a inocência 78 À fé dos pais se achava reunida.
“Às primeiras idades em seqüência, Dos filhos trouxe às asas inocentes 81 Circuncisão, virtude e permanência.
“Depois de anunciada a Graça às gentes.
Sem batismo perfeito haver de Cristo 84 Não valeu a inocência desses entes.
“Ora atento na face, que à de Cristo Mais se assemelha; a sua luz tão pura 87 Só te pode dispor a veres Cristo.” — Vi chover de alegria tal ternura, Que a Maria os espíritos levavam 90 Para voar criados nessa altura, Que quanto os olhos antes contemplavam Tais portentos patentes não fizera: 93 Os assomos de Deus se revelavam.
Dos anjos o primeiro, que viera, Cantando “Ave, Maria, gratia plena”, 96 Ante Maria as asas estendera.
Respondendo à divina cantilena De toda parte a gloriosa corte, 99 Resplendeu cada face mais serena.
— “Ó santo Pai, que a caridade forte Em prol meu fez deixar o doce assento, 102 A ti marcado por eterna sorte, Diz-me que anjo com tal contentamento Da soberana a fronte olha divina, 105 No amor mostra do fogo o encendimento.” —
Desta arte inda vali-me da doutrina Daquele, que enlevava-se em Maria, 108 Como no sol a estrela matutina.
Tornou-me: — “Alacridade e bizarria, Quanta em anjo haver possa e nalma humana, 111 Há nele; assim nos dá suma alegria: “Foi ele o que à bendita Soberana Levou a palma, o filho de Deus quando 114 Quis assumir a nossa carga insana.
“Minhas vozes tua vista acompanhando, Do justíssimo império alça aos formosos 117 Patrícios, de alto nome, venerando.
“Os dois, que acima brilham, venturosos Por starem perto da Sob’rana Augusta; 120 São desta Flor princípios gloriosos: “À sestra sua aquele, que se ajusta, O Pai é que, tentado por mau gosto 123 Tanta amargura à sua prole custa.
À destra o Pai primeiro se acha posto Da santa Igreja; as chaves lhe entregara 126 Da Rosa Cristo e o fez o seu preposto.
“E o que antes de morrer vaticinara
Duros tempos daquela amada Esposa, 129 Que por lanças e cravos se alcançara, “Fica-lhe a par; e, junto, a glória goza O capitão da gente ingrata, insana, 132 Que viveu de maná, revel, teimosa.
“Em frente a Pedro vês que senta-se Ana, Tão leda a excelsa Filha contemplando, 135 Que imóveis olhos tem, cantado hosana.
“Em frente ao Pai dos homens venerando, É Luzia: a Beatriz há suplicado, 138 Quando ias para o abismo te inclinando “Mas da tua visão o assinalado Tempo foge: paremos, pois, fazendo 141 Do pano, que há, vestido bem talhado.
“E para o Amor Primeiro olhos erguendo, Saibamos se do seu fulgor no seio 144 Penetras, quanto possas te absorvendo.
“Mas, de que retrocedas no receio, Movendo as asas, em vez de ir avante, 147 Impetra graça, de piedade cheio, “Daquela, que em valer é tão pujante.
Em mente a voz me segue fervoroso, Com vivo afeto e coração amante.” —
151 E esta santa oração disse piedoso:
5. A bela que aos seus pés etc. Eva. — 8. Raquel, mulher de Jacob. — 10-11. Sara, mulher de Abrão; Rebeca, mulher de Isaque; Judite, que livrou o povo de Israel, matando Olofernes; a prudente bisavó etc., Rute, bisavó de Davi. — 32. Ao que etc., S.
João Batista. — 35. Francisco, Agostinho e Bento, santos fundadores de ordens religiosas. — 67-69. Gêmeos, Esaú e Jacob. — 79-81. Às primeiras idades etc., nos tempos que passaram de Abrão até Cristo, a circuncisão era requisito indispensável para a salvação. — 82-84. Depois de enunciada etc., depois de Cristo é indispensável o batismo. — 85. Na face que à de Cristo etc., Maria Virgem. — 112. Foi ele o que etc., Gabriel. — 122. O pai etc., Adão. — 124. O pai primeiro etc., S.
Pedro. — 127-129. E o que etc., S. João Evangelista. — 131. O capitão etc., Moisés. — 133. Ana, mãe da Virgem. — 137. Luzia, Santa Luzia, virgem e mártir, v. Inferno II, 97-102.
S. Bernardo pede à Virgem Maria que conceda a Dante contemplar a Deus. O Poeta vê um tríplice círculo no qual está revelada a Trindade divina. No círculo médio vê figurada a efígie humana. No espírito de Dante se forma o desejo de conhecer o modo da união da natureza divina com a humana. Um repentino esplendor lhe revela o mistério da encarnação de Cristo; e aqui termina a sublime visão.
“VIRGEM Mãe, por teu Filho procriada, Humilde e sup’rior à criatura, 3 Por conselho eternal predestinada! “Por ti se enobreceu tanto a natura Humana, que o Senhor não desdenhou-se 6 De se fazer de quem criou, feitura.
“No seio teu o amor aviventou-se, E ao seu ardor, na paz da eternidade, 9 O germe desta flor assim formou-se.
“Meridiana Luz da Caridade És no céu! Viva fonte de esperança 12 Na terra és para a fraca humanidade! “Há tal grandeza em ti, há tal pujança,
Que quer sem asas voe o seu anelo 15 Quem graça aspira em ti sem confiança.
“Ao mísero, que roga ao teu desvelo Acode, e, às mais das vezes, por vontade 18 Livre, te praz sem súplica valê-lo.
“Em ti misericórdia, em ti piedade, Em ti magnificência, em ti se aduna 21 Na criatura o que haja de bondade.
“Esse mortal, que da ínfima lacuna Do mundo até o empíreo, passo a passo, 24 Viu quanto a vida esp’ritual reuna, “Te exora auxílio ao seu esforço escasso: A mente sublunar lhe seja dado 27 A Suma Dita no celeste espaço.
“Eu que, no meu ardor, nunca aspirado Hei mais por mim o que em prol dele peço 30 Meus rogos todos alço esperançado.
“Te digna conseguir que o véu espesso Da humanidade sua despareça, 33 E assim lhe seja o Sumo Bem concesso.
“Depois da alta visão dá que ainda eu peça Que conserves, Rainha Onipotente, 36 Sempre pura sua alma e ao mal avessa.
“De perversas paixões guarda-o clemente: Vê Beatriz e o céu inteiro unidos, 39 Juntando as mãos, ao voto meu fervente!” — Os olhos, que por Deus são tão queridos No santo orador fitos demonstraram 42 Que eram seus ternos rogos atendidos.
Após ao Lume eterno se elevaram, Em que, se deve crer, da criatura 45 Olhos, em modo tal, não profundavam.
E dos desejos eu, que à mor altura Suba, o ardor cessar, como devia, 48 Senti, me apropinquando da ventura.
Bernardo, me acenando, me sorria, Que para cima olhasse; mas eu estava 51 Já por mim mesmo tal qual me queria.
A vista, que em pureza sublimava, Do alto, que é por si toda a Verdade, 54 Mais e mais pelos raios penetrava.
E o que eu vi, desde então, na imensidade Transcendeu quanto o verbo humano intente: 57 Cede a memória a tanta majestade.
Qual homem, que, a sonhar, vê claramente,
Depois só guarda a sensação impressa, 60 E o mais em todo lhe não volta à mente; Tal eu; quase a visão inteira cessa.
Mas no meu coração quase destila 63 Doçura que em seu êxtase começa.
Assim ao sol a neve se aniquila, Assim na leve folha, entregue ao vento, 66 Se dispersava o orác’lo da Sibila.
Flama excelsa, que o humano pensamento Excedes tanto, oh! presta ao meu, piedosa, 69 Um pouco de inefável luzimento.
E a língua minha faz tão poderosa, Que uma centelha só da tua Glória 72 Aos pósteros transmita venturosa; Pois que, em parte surgindo-me à memória E sendo por meus versos celebrada, 75 Melhor se entenderá tua vitória.
Da luz pela agudeza suportada, Eu me perdera, creio, com certeza, 78 Se da luz fora a vista desviada.
E, recordo-me, pois mor afouteza Tomei, tanto, que face a face olhando, 81 Encarar pude na Infinita Alteza.
Tu ó Graça abundante, me animando, Olhos fitar ousei na luz eterna, 84 A visão almejada consumando.
E lá na profundeza vi que se interna Unido pelo amor num só volume 87 O que pelo universo se esquaderna: Acidente, substância e o seu costume, Conjuntos entre si por tal maneira, 90 Que da verdade exprimo um frouxo lume.
Creio que a forma universal inteira Vi desse nó; porquanto mais ao largo 93 Sinto, ao dizer, ledice verdadeira.
Um só instante à mente dá letargo Maior, que séc’los vinte e cinco à empresa 96 Que admirar fez Netuno a sombra de Argo.
De êxtase assim minha alma toda presa, Atenta, absorta, imóvel se imergia, 99 E sempre em contemplar mais stava acesa.
E essa Luz tal efeito produzia, Que em deixá-la por ver dif’rente aspeto 102 Consentir impossível me seria: Que o Bem da sua aspiração objeto,
Todo está nela; é tudo lá perfeito, 105 Como fora de lá tudo é defeto.
Meu dizer de ora avante mais estreito Será no que recordo que o do infante 108 Ainda ao seio maternal afeito; Não porque presentasse outro semblante A viva Luz, que a contemplar eu stava, 111 Antes, como depois, sempre constante; Mas, como, olhando, a vista se alentava, A Imutável Essência parecia 114 Mudar, quando só eu me transformava.
Na substância profunda e clara eu via Da excelsa Luz três círc’los dicernidos 117 Por cores três, de igual periferia, Íris de íris, um de outro refletidos Estavam, flama o têrcio parecia 120 Spirando, por igual, de um, de outro unidos, Quanto é curta expressão! Quanto a excedia Meu pensar, ao que eu vi, este já sendo 123 Tal, que pouco bastante não diria.
Lume eterno, que a sede em ti só tendo, Só te entendes, de ti sendo entendido, 126 E te amas e sorris só te entendendo!
O girar, que, dessa arte concebido Via em ti como flama refletida, 129 Quanto foi dos meus olhos abrangido, No seio seu da própria cor tingida A própria efígie humana oferecia: 132 Foi nela a vista minha submergida! Geômetra, que o espírito crucia Para o cir’lo medir, em vão procura 135 Princípio, que ao seu fim mais conviria: Assim eu ante a nova visão pura Ver anelara como a image’ humana 138 Ao círculo se adapta e ali perdura.
Às asas minhas fora empresa insana, Se clareado a mente não me houvesse 141 Fulgor, que a posse da verdade aplana.
À fantasia aqui valor fenece; Mas a vontade minha a idéias belas, Qual roda, que ao motor pronta obedece, 145 Volvia o Amor, que move sol e estrelas.
66. O orác’lo da Sibila; Virgílio (Eneida III) diz que a Sibila Cumana escrevia os seus oráculos sobre folhas soltas e depois as jogava no ar, sendo dispersadas pelo vento. — 94-96, Um só
instante etc., um só instante do tempo transcorrido depois da visão me causa maior esquecimento que não aquele que vinte e cinco séculos causaram ao episódio dos Argonautas, o qual surpreendeu a Netuno. — 118-120. Íris de íris etc., o Filho parecia refletido no outro, no Pai como íris de íris; e o terceiro, o Espírito Santo parecia fogo procedente de um e de outro. — 127-131. O girar que, dessa arte etc., aquele dos círculos, isto é, o segundo, que parecia refletido do outro, pareceu-me tivesse efígie humana, tingida, porém, de cor divina. — 134. Para o círc’lo medir, para encontrar a quadratura do círculo, isto é um quadrado cuja área seja igual à de um determinado círculo. — 143. Mas a vontade minha etc., mas o Amor, isto é, Deus, que move o Sol e as estrelas, movia a minha vontade, concordemente à sua, como uma roda que obedece ao motor.
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INFERNO
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