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Poesias - David Mestre

 

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Ao Sábado a Cidade

Reapreender as normas do
discurso, por exemplo: ao Sábado
a cidade

ou seja: o primeiro da tua
voz entre frente e gente
repetes: ao Sábado a cidade

à ordem lambida dos
holofotes: a rusga

mal ferida no adobe exausto
da carne:
ao Sábado a cidade

transpira do transistor para a axila morna
dos salons: a catinga

interna do teu corpo sacudido na
areia devagar ao
sábado, a cidade

é: um resto de boca
no teu súbito
acordar.

Blues

Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo

Espera

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

Ngaieta de beiço

Cantarei
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da

minha língua (em guarda).

O oiro
o mel
o silêncio cúmplice

a arca da tua boca
magra.

Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?

Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.

Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá

Oh Calcutá

Teus pássaros
oh Calcutá

voam dos beirais em bandos
voláteis num alvoroço
de gritos roucos quase

humanos
contra a vidraça

Teus pássaros
oh Calcutá

um deus búdico nu
e sentado nos devolveu
num gesto vago

ausente solto
do nada

O sapo

O sapo
sabe
saltar na lagoa

o sapo
sabe
que não voa

o sapo
chape
chape

O sol nasce a oriente

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente

Portugal colonial

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
pelos cães
nem a notícia

curta
a dizer-te
que morri.

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada

Que outro nome

Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce

e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.

Liberdade.

Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem

de moscardo zumbias: Ngola
nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.

Liberdade.

Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.

Liberdade.

Sinais de saliva

Sulco a terra
ouço
estalar
a som
bra das
palavras

Cavo
e des
cubro
raízes
adormeci
das

Procuram a
superfície
e dela
recebem
sinais de sal
iva

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