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GRAVIDADE E CRONICIDADE

As manifestações clínicas da fome têm no eufemismo da desnutrição as formas biologicamente consideradas:

Grave, moderada ou leve, segundo o déficit de peso/idade Crônica (nanismo nutricional), pelo déficit idade/altura.

Trata-se de indicadores antropométricos diretos que descrevem a expressão clínica da fome. Universalmente aceitos como as provas objetivas e práticas de aferição do estado nutricional de indivíduos e de população, os indicadores antropométricos são o termômetro mais sensível do crescimento somático.

As diferentes denominações às manifestações da fome tais como a desnutrição, desnutrição energético-protéica, subnutrição ou má-nutrição protéico-calórica, além da questão ideológica e metodológica de explicação e registro, elas significam em comum, a expressão biológica da carência prolongada da ingestão de hidratos de carbono, gorduras e proteínas, nutrientes essenciais à manutenção, ao crescimento, desenvolvimento e a reprodução orgânica. Um processo orgânico, determinado todavia pela exploração capitalista, na medida em que regula o acesso aos bens essenciais, neste caso, os citados nutrientes advindos dos alimentos.

As necessidades desses nutrientes são estipuladas em calorias, cujas quantidades foram historicamente construídas, basicamente na esfera da produção, sedimentando hábitos, construindo e consolidando valores de consumo alimentar no curso da história da sociedade humana, através dos diferentes modos de produção. A unidade de referência utilizada para aferir o consumo de energia é a coloria. A FAO propõe em sua última recomendação de 1986, um aporte de aproximadamente 3.000 Kcal/dia para o homem e 2.350 para a mulher na América Latina. Utiliza como referência uma média de idade entre 20 e 39 anos e o peso de 65 kg para o homem e 55 para a mulher. Para ambos os sexos, uma média do metabolismo basal e uma atividade física moderada.

A FAO registra (em Políticas de Alimentos y Nutrición, 1969, p. 109) que o déficit do consumo calórico nos países periféricos era em média, 900 cal e o excesso nos países centrais de 4.000 cal. Em 1997, o déficit para os mesmos países estaria na faixa de 600 à 1.000 cal e o excesso entre 1.500 à 2.500 cal. Estes dados fazem um mapeamento da fome do qual a menor evidência é a de que o capitalismo gera sociedades igualmente produtoras da abundância e da miséria. Em respaldo a esta afirmação o New York Times, 1990, registra que uma em cada 12 pessoas passaria fome nos Estados Unidos, o que significaria 20 milhões de americanos na miséria. Afirmou que o nível de vida ali crescera nos últimos 15 anos apenas metade do que o dos alemães, 30% menos do que os japoneses e 15% menos do que os demais países ricos: Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá.

Segundo esse prognóstico, os Estados Unidos caminhariam a passos largos para se tornar numa potência mundial de segunda categoria. Evidente que aqueles dados não asseguravam que se confirmasse para o futuro esse quadro, sendo ele o país central da economia capitalista. Tratava-se de uma situação conjuntural específica do seu processo atual de desenvolvimento, como aliás já ocorreu algumas vezes, a última em 1982 uma recessão que logo se inverteu. A fome conjuntural de 20 milhões de americanos (Afros e Latinos) não se constituiria em desnutrição grave e um problema de saúde pública, posto que não era representativo da população como um todo nem formaria seqüelas biológicas e sociais irreversíveis. Não faltaram recursos financeiros para serem redirecionados para a agricultura e demais políticas sociais para retomar o crescimento industrial, oferta de empregos, melhor remuneração e redistribuição da renda.

No Brasil, o Estudo Nacional de Despesa Familiar (ENDEF, 1974), divulgado em 78, apontava que mais de 2/3 das famílias tinham um consumo de energia abaixo das recomendações, cujo déficit em média era de 400 calorias. Esse dado foi menos otimista ainda em relação ao Nordeste, onde cerca de 47% da população mostrou ter déficit calórico-protéico, enquanto que para os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro essa proporção foi de cerca de 42% e 39%, respectivamente. Uma constatação clara de que o modelo econômico após o golpe de 1964, só recrudescera as desigualdades regionais. Dentre as conclusões do ENDEF, (analisadas por Viacava et al p.199, 1988), avaliando a desnutrição no Brasil, destaca-se a de que em todas as regiões do país, a forma predominante de déficit de ingesta é a do tipo CP (suficiência protéica e predomínio da insuficiência calórica) uma vez que a insuficiência protéica pura é raramente observada.

...Pode-se, assim, dizer que os problemas nutricionais encontrados nessas regiões devem-se fundamentalmente à insuficiência calórica das dietas consumidas.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas realizado em outubro de 1975, citado pelo (Ministério do Trabalho/PAT, 1979), registra que nas chamadas populações de baixa renda, o consumo calórico é de 1.818 cal como média familiar, o que corresponde a 60% das recomendações internacionais e a 52% dos gastos energéticos registrados para os que executam trabalho braçal, principalmente na agricultura e na construção civil. Esse estudo revela ainda o baixo consumo calórico em 70% das famílias de trabalhadores, igualmente a magnitude dos dados encontrados no estudo realizado no tropical semi-árido nordestino por (Lucena et al, 1987), sobre os padrões alimentares das famílias rurais daquela região. Todos eles, praticamente, repetem os dados do ENDEF.

No estudo de Lucena, o nanismo nutricional através do déficit estatural em 57,4% das crianças, foi o dado mais relevante seguido do déficit de peso 40,5%, ambos relativos ao desvio-padrão. Ao contrário de estudos anteriores, esse evidenciou que a zona rural apresentava a maior prevalência de desnutrição, enquanto aumentava a sua prevalência progressiva na faixa etária à partir de 12 meses de idade e caía a prevalência das formas moderada e severa. Um prognóstico claro do desmantelo rural-urbano e fundamentalmente, do declínio da agricultura para produtores de baixa renda.

A desnutrição energético-protéica neste país na década de 80, segundo o UNICEF, tinha os seguintes percentuais de prevalência: 8% dos recém-nascidos com baixo peso (menos de 2.500 gramas), 70% dos pré-escolares com algum grau de desnutrição, assim distribuídos: 70% do 1º grau, 17% do 2º grau e 13% do 3º grau. Foi consenso que os dados existentes sobre o estado nutricional de crianças eram alarmantes, tomando como base a média dos dados dos principais estudos até então realizados no país. Os indicadores mais utilizados para essa avaliação são variáveis antropométricas de peso x altura , peso x idade e idade x altura em crianças menores de 5 anos. Esses dados medem o crescimento somático em termos do peso e da estatura a partir do consumo de energia fornecida pelos hidratos de carbono, lipídeos e proteína através da alimentação.

As estatísticas internacionais da desnutrição em crianças menores de 5 anos do Chile, país cujo processo de desenvolvimento é semelhante ao nosso, que tem 12% de desnutridos e de Cuba que experimenta desde a sua Revolução em 59 uma transformação social profunda, registrou-se em 88, 0% de desnutridos, segundo seus respectivos sistemas de vigilância nutricional. Esse mesmo indicador nos Estados Unidos, 4%, Canadá 2%, China e União Soviética 1%, Suécia e Dinamarca 1 a 2% (FAO, 1989). Comparando-se aos percentuais brasileiros da mesma época, verifica-se a magnitude da situação nutricional, superando inclusive países cuja economia está em posição inferior à nossa no campo das relações internacionais do capitalismo e de seu produto interno bruto, como o Chile, o Equador, Argentina e Peru.

Os dados sobre a desnutrição em adultos no Brasil são mais restritos do que em crianças. Em 1984, o periódico Telex Análise publicou sob o título “Degradação Física” os baixos índices nutricionais dos recrutas fornecidos pelo Estado Maior das Forças Armadas (EMFA). Em termos de estatura, peso e perímetro cefálico. Um fato inusitado posto que pela primeira vez uma informação de tamanha gravidade da situação nutricional da população nessa faixa etária vinha a público. Os dados do EMFA revelam que em 1984, 750 mil dos 1,5 milhão de jovens que se apresentaram no alistamento daquele ano foram rejeitados por serem desnutridos. Ou seja, metade dos considerados biologicamente aptos, 30% destes, não teriam recuperação nutricional ao final do serviço militar. Acrescente-se a esses dados, a constatação de (Muller, 86):

“... não é de se estranhar que, em 1980, se tenha constatado que 6,2 milhões de casos de internamento junto à Previdência Social deveram-se à desnutrição, provocando gastos de cerca de 1,1 bilhão de dólares”.

Estudo realizado por Araújo et al de 1985-87 nas forças armadas em Natal, com os 753 recrutas selecionados para o serviço militar no. quadro abaixo -já desprezados portanto aqueles considerados nutricionalmente incapazes para o serviço que segundo a avaliação do EMFA são de 50%- retoma a questão que Nelson Chaves já denunciara há 20 anos sobre o nanismo nutricional progressivo da população nordestina, descrito na diminuição da estatura em até 20 cm do limite de altura X idade considerada padrão 1,80 cm para homem e 1,70 para mulher.

60% dos acima considerados “nutricionalmente aptos” para o serviço militar estavam desnutridos na relação idade/altura. Essa média cai em apenas 3%, quando deixam o serviço, mesmo sob o regime intensivo de alimentação adequada e exercícios físicos nos quartéis. A extrapolação desses dados aqui para a população nordestina, justifica-se na medida em que Natal se constitui pólo de recrutamento para a Região através do Comando Naval e do CATRE. Mais abaixo nesta página, comenta-se os dados acima, relacionando-se as variáveis que comprovam a severidade e cronicidade da desnutrição.

Em 1989, a PNSN -Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição-, a PNDS –Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, 1996- e a PPV -Pesquisa de Padrões de Vida (Ne e Se) em 1997-, estudaram a população como um todo, à exceção da segunda que avaliou os < 5 anos e as mães. Uma discussão acerca desses últimos estudos encontra-se neste mesmo link de página sob o título: Transição Nutricional. De forma geral, descrevem o quadro da desnutrição com nuances de que sua manifestação mais freqüente é a cronicidade, que baixara a prevalência da gravidade, a precocidade da incidência em bebês de 6 meses, manutenção dos níveis em 8% do baixo peso ao nascer e a ascensão da obesidade em crianças e adultos.

Na região nordeste, Rio Grande do Norte, em 94, esta autora et al em Censo Nutricional com 40.323 crianças < 5 anos, a cronicidade comprovada foi de 42% e a gravidade em 22% delas. Segundo Waterloo, comprova-se a gravidade com o déficit de peso X idade de uma criança de baixa renda em relação a uma criança normal em peso, de mesmo sexo e idade mas de classe social superior. No mesmo sentido, a cronicidade significa o déficit de altura x idade em relação a uma criança normal em altura de mesmo sexo e idade e de classe social superior.

Os resultados percentuais de prevalência de 22% com déficit de peso nos estudos de adultos e crianças no RN/Natal são indicativos da severidade da desnutrição. Nos adultos/recrutas, na medida em que 34% dos “selecionados” para o serviço militar na entrada e 22% dos egressos estavam desnutridos. A menor proporcionalidade de déficit do indicador de peso x idade em relação ao de idade x altura, é perfeitamente explicável. A aparente discrepância entre os resultados de prevalência de déficit estatural em 57% e o déficit de peso 22% nos soldados, consiste no fato de que o crescimento orgânico otimizado entre a altura e a idade, só é possível à partir do consumo de proteínas de alto valor biológico, proveniente dos produtos de origem animal. Justamente aqueles produtos que a grande maioria das classes trabalhadoras não consome em quantidade e qualidade suficientes em função do seu baixo poder aquisitivo e do alto custo desses alimentos.

Por outro lado, o peso corporal pode ser obtido mais facilmente a partir do consumo prolongado de alimentos à base de hidratos de carbono, os quais em geral têm menor custo em relação aos alimentos de origem animal, fornecem basicamente energia , mantendo um peso corporal deficiente, ou mesmo regular, à base de edema causado pela extrapolação do líquido celular intersticial, resultante do desequilíbrio hidroeletrolítico pelo auto-metabolismo de proteínas do estoque orgânico.

A severidade do desnutrido quantifica-se em até o terceiro grau de acordo com o déficit e nomeia-se respectivamente de leve, moderada e grave. Portanto, quanto mais precoce for a idade da criança em que se dê a instalação da carência (protéico-energética), sua duração no tempo, natureza e intensidade da deficiência dietética (carência de proteínas de origem animal e energia em altos percentuais de inadequação), mais severa será a seqüela da fome/inanição em termos do dano biológico e social.

O conceito da degradação física pelo nanismo nutricional é o sinal da desnutrição que mais evidencia a espoliação orgânica. Daí, a relação idade X altura ser o indicador de maior sensibilidade epidemiológica e por isto mesmo, o indicador de desenvolvimento populacional de maior relevância para aferir o estado nutricional. O legado cruel da fome pregressa e crônica em crianças e adultos marcada na baixa estatura, no baixo peso, no inchaço, no rosto pálido e caquético, na redução do encéfalo, nos cabelos rarefeitos e dispigmentados, no riso esquálido e desdentado, na canseira fisiológica, na irritabilidade do marasmático e na apatia da carência protéica, pintam o retrato preto e branco das mazelas da condição de vida.

A privação constante dos mínimos nutricionais e demais essenciais à vida como um todo, fazem os tipos humanos considerados por Nelson Chaves como biologicamente fortes. Constituem um grande exército de desnutridos, arregimentados nas classes trabalhadoras mais exploradas da estratificação social, através da verdadeira violência silenciosa da desigualdade. O perfil populacional do brasileiro em termos de coletividade é de um povo feio que estampa em seu biotipo e na face a brutalidade da adversidade social em que vive: A caricatura da insegurança e o espantalho da fome.

O curso histórico da alta prevalência da DEP, seja como causa básica ou associada da morbi-mortalidade infantil e demais doenças sociais como a tuberculose, etc.., teve sua gravidade denunciada desde os anos 30 e foi objeto de preocupação do Congresso Brasileiro dos Problemas Médico-Sociais de Após Segunda Guerra. Das conclusões deste Congresso, destacam-se as que pediam mudanças na política alimentar tais como a prioridade para produção dos alimentos para o consumo interno, reforma agrária e subvenção às culturas de subsistência. Essas conclusões demonstram portanto que, desde os anos quarenta já existia o entendimento explícito de que a questão alimentar e nutricional brasileira tem sua determinação estruturada na ordem social, via política agrária e econômica passando pela concentração da terra, crédito à produção e comercialização de alimentos para o consumo interno.

Os indicadores diretos ou indiretos do estado nutricional, tais como renda, custo da ração mínima, prevalência de doenças socialmente determinadas e intimamente ligadas com a fome/desnutrição como a tuberculose e o peso da desnutrição em metade da mortalidade infantil é que reforçam a afirmação de que no Brasil como um todo, 40% de sua população tem algum problema nutricional grave, associado ou não em termos de desnutrição energético-protéica, anemia ferropriva e hipovitaminose A.

De fato, a fome/desnutrição reflete de forma explícita o baixo consumo prolongado de energia e proteína. Esse consumo entretanto já descrevemos, é regulado socialmente, sua reversibilidade só será possível entretanto, com transformações sociais profundas e uma política global que abranja toda a complexidade da questão agrária, alimentar, de empregos e salários que cubra as necessidades da população como um todo.

Na prática, o que o Estado oferece como resposta através do setor saúde de forma não sistemática, para atenuação dos danos da desnutrição energético-protéica, é a suplementação de alimentos fontes de energia e proteína que em geral significa uma ineficiente e corruptora distribuição de subsídios. Mais ainda, de baixa cobertura nutricional e populacional e por conseguinte, sem a menor eficácia na resolução do problema. Uma avaliação dessa prática, encontra-se no terceiro link desta homepage que aborda a intervenção do Estado na questão nutricional.

Fonte: www.ufrnet.br

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