Os filósofos da Grécia antiga, antes de iniciarem suas discussões sobre as preocupações do homem que tentava desvendar o mundo que o cercava, conceituavam os termos que iriam usar, para assegurarem-se de que "o que cada um deles dissesse seria compreendido de maneira uniforme por todos". Infelizmente, nos tempos modernos, nem sempre usa-se esta estratégia e o resultado é que são freqüentes os desentendimentos nas discussões. Em outras palavras, com o passar dos tempos a lição dada pelos ancestrais da civilização ocidental foi esquecida!
Percebi, desde logo, que o termo BIOTECNOLOGIA, é um exemplo do que acabei de citar. Apesar de aparecer com muita freqüência em conversas, debates e, até mesmo, na mídia local e nacional, não é conceituado de maneira clara e uniforme por todos. Portanto, iniciarei tentando responder a seguinte indagação:
Na realidade, ela resultou da aplicação do conhecimento nas áreas de citologia, genética, fisiologia e de bioquímica e biologia molecular, armazenado durante os 2 últimos séculos pela humanidade. Portanto, antes de conceitua-la, farei uma rápida revisão de alguns conceitos básicos sobre a estrutura organizacional e funcional dos seres vivos e algumas considerações de ordem histórica, que, espero, irão facilitar, não só a compreensão do que se entende por Biotecnologia, como também poderão auxiliar na avaliação de suas potencialidades e dificuldades.
Esta transparência ilustra como os seres vivos estão estruturados, mostrando também a relação entre a estrutura organizacional e a funcional. Em outras palavras, retrata que, o que acontece a nível de indivíduo (planta ou animal) resulta de mudanças (funcionais e/ou estruturais) que ocorrem a nível molecular, do mesmo modo que, qualquer variação ambiental que afeta o indivíduo também tem reflexos a nível molecular. Como mostrarei mais adiante a biotecnologia atua a nível molecular, mas seus efeitos se fazem sentir a nível de indivíduo.

O conhecimento acumulado até o final da década de 1920 pode ser resumido em: estabelecimento dos princípios da hereditariedade; compreensão da estrutura da célula e de sua divisão durante o crescimento e desenvolvimento dos seres vivos; compreensão da estrutura e formação dos gametas; e, finalmente, a descoberta da localização dos genes no núcleo das células (cromossomos). Estas descobertas abriram o horizonte para o melhoramento genético de plantas e de animais. O resultado foi a grande revolução no setor agroindustrial, ou seja, a criação de variedades e de híbridos mais produtivos, trabalho este que continua até os dias de hoje. Convém lembrar que, até mesmo a indústria de bebidas beneficiou-se desses conhecimentos: uvas, colmos de cana, tubérculos de beterraba e sementes mais ricas em açucares fermentescíveis, bem como, cepas de microrganismos mais eficientes no processo de fermentação. Enquanto isso acontecia nas áreas da Citologia, Genética e Fisiologia, ocorriam também descobertas relevantes nas áreas de Bioquímica e Biologia Molecular, tais como: a identificação dos ácidos nucléicos (DNA e RNA) no núcleo das células e sua associação com os cromossomos, ou seja, a prova de que O DNA ESTÁ NOS CROMOSSOMOS E CONTÉM GENES.
Durante a década de 1950 foram feitas descobertas muito significativas para a Biotecnologia nas duas áreas do conhecimento: a estrutura do DNA foi descrita, estabeleceu-se o "dogma central da biologia molecular" e, partindo-se de culturas de células e tecidos, in vitro, conseguiu-se regenerar indivíduos idênticos àqueles de onde foram retiradas as células (fumo, cenoura e girino).
Estas descobertas podem ser consideradas como A CONCLUSÃO DA FUNDAÇÃO DO "EDIFÍCIO DA BIOTECNOLOGIA".
Cabem aqui algumas indagações:
O que vem a ser DNA e o que quer dizer "Dogma Central da Biologia Molecular"?
Qual é a relação do DNA com os Genes e com os Cromossomos?
A resposta para a primeira pergunta pode ser vista na próxima transparência:

A sigla DNA provém da palavra inglesa para ácido desoxirribonucléico, que possui uma molécula em formato de espiral composta de duas "fitas ou colunas vertebrais", às quais estão ligadas a bases nitrogenadas que correspondem às letras do código genético. Observem que a ADENINA (A) somente se emparelha com a TIMINA (T) e, do mesmo modo, GUANINA (G) e CITOSINA (C) se encaixam devido às suas atrações químicas específicas (pontes de hidrogênio).
Quanto ao "Dogma Central da Biologia Molecular" a transparência que se segue ilustra, esquematicamente, as idéias preconizadas por seus autores (os quais de descreveram a estrutura do DNA: Watson & Crick):
("dogma central da biologia molecular").

Segundo eles, o DNA, guardião do patrimônio gené-tico do organismo (expresso em um código de 4 letras: A, T, C e G), mantém este patrimônio durante a divisão celular, pois graças a sua REPLICAÇÃO garante a passagem para as células filhas do mesmo patrimônio genético da célula que lhes deu origem; como foi visto anteriormente, os genes existentes no DNA são os responsáveis por todas as características do indivíduo, sendo isto possível graças a intermediação das PROTEINAS, as quais são sintetizadas a partir do DNA, via RNA, através dos processos de TRANSCRIÇÃO e de TRADUÇÃO.
A resposta para a última pergunta encontra-se na próxima transparência:
(GENE, DNA e CROMOSSOMO).
Esta figura é auto-explicativa: mostra como o DNA (molécula que contém os GENES) é "empacotado" para formar os CROMOSSOMOS, que estão no núcleo da célula.

Neste ponto cabe uma visualização da estrutura da célula, como ela é conhecida hoje, para que não se perca a idéia integrativa do que se viu até aqui.

Como sabem os senhores, a célula é constituída de membrana, núcleo e corpo celular (a célula vegetal possui, além disto, a parede celular). Ela pode ser visualizada como uma Indústria em que o Núcleo representa o Prédio da Gerência, as Organelas Citoplasmáticas os diferentes setores responsáveis pela produção, controle de qualidade e embalagem, sendo o transporte, interno e externo, de materiais produzidos responsabilidade das Membranas (internas e externa).
Finalmente, no início da década de 1970 (vide transparência 2) ocorreu a descoberta que pode ser considerada como a construção da PORTA DE ENTRADA DO EDIFÍCIO DA BIOTECNOLOGIA: A CLONAGEM DO DNA.
Pesquisadores americanos, depois de retirarem uma porção do DNA de um sapo, ligaram esta porção ao DNA a um vetor (plasmídio de infecção) e, finalmente, a inseriram em uma bactéria (hospedeiro). Observaram, então, que o hospedeiro multiplicou-se e com ele a cópia de DNA do sapo, ou seja, houve uma clonagem do DNA. O mais espetacular de tudo foi que a bactéria passou a sintetizar, além das suas proteínas, as do sapo, isto é, foi geneticamente modificada. Eles batizaram isto de "TÉCNICA DO DNA RECOMBINANTE", mas a imprensa arranjou um nome de maior impacto: "ENGENHARIA GENÉTICA".
Isto posto, fica mais fácil conceituar o termo BIOTECNOLOGIA.
A comunidade científica e tecnológica mundial conceitua biotecnologia como sendo (Transparência 8: Conceito de Biotecnologia),
o conjunto de processos que envolvem o uso das técnicas do DNA recombinante (isolamento, caracterização e transferência de genes), objetivando a produção de indivíduos transgênicos (Engenharia Genética) portadores de características consideradas desejáveis pelo homem.
Hoje, enquadram-se também dentro da biotecnologia as técnicas de cultivo de células e tecidos, "in vitro", visando a micropropagação, a limpeza clonal, a produção de fármacos, enzimas, hormônios, vacinas e de outros produtos químicos bioconvertidos. Além disso, há quem inclua, ainda, as técnicas de sequenciamento do DNA e as de clonagem de seres vivos, objetivando a "cópia" de indivíduos identificados como portadores de características que devem ser perpetuadas (exemplo: animais considerados excepcionais no que tange a sua capacidade produtiva - de ovos, de carne ou de leite).
Fonte: www.sfiec.org.br