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CRISE DE MATURIDADE

Meio século depois, esse estilo de compreensão da vida alcançaria seu ápice com a finalização do Projeto Genoma Humano (PGH), que pôs no entanto em crise a própria simplicidade sugerida pelo DNA tornado ícone da onipotência das biotecnologias.

A transcrição dos 3 bilhões de "letras" químicas do texto cifrado nos 23 pares de cromossomos da espécie humana abarrotou os computadores dos bioinformatas, mas todo esse conhecimento em estado bruto _dados e mais dados_ tem servido mais para mostrar como será difícil de fato controlar os mecanismos de uma doença como o câncer, bandeira emocionante tantas vezes agitada pelos geneticistas para prover de fundos bilionários suas fábricas de sequenciamento (transcrição).

Existem dezenas, centenas de genes que podem estar envolvidos no surgimento e na proliferação de tumores. Muitos correspondem a mecanismos e moléculas que favorecem processos imprescindíveis para o crescimento do tumor, como a divisão incessante de células ou a formação de vasos sanguíneos para irrigá-lo. Outros são fundamentais para a invasão de outros tecidos, como a capacidade de células tumorais atravessarem barreiras naturais do corpo e alcançar outros tecidos, levando à metástase. Outros, ainda, estão relacionados com mecanismos de controle desses processos, que por razões misteriosas deixam de funcionar.

Cada tipo de câncer, tudo indica, apresenta um perfil peculiar de acionamento e de desligamento de um subconjunto peculiar dessas dezenas de genes. Técnicas de automação e miniaturização laboratoriais, de computação e de estatística, estão sendo desenvolvidas para esmiuçar a "assinatura" de cada tipo de câncer, mas todo esse esforço será capaz _ainda durante vários anos_ apenas de aperfeiçoar o diagnóstico.

Num futuro ainda distante, coisa de uma década ou mais, talvez seja possível projetar, com base em todo esse conhecimento molecular, remédios específicos para cada tumor. Por ora, contam-se nos dedos as drogas desenvolvidas já com aplicação significativa de informações genômicas, como os antitumorais Glivec (ou Gleevec) e Herceptin. Mesmo nesses casos, informa Antonio Oliveira-dos-Santos, da empresa norte-americana de biotecnologia Amgen, a informação genômica obtida dos bancos de dados foi somente uma das ferramentas, e não necessariamente a principal.

O aspecto modesto das realizações contrasta com o exagero das promessas para "vender" o PGH, iniciado em 1989 sob a batuta do próprio James Watson e com um custo estimado na época em US$ 3 bilhões. A idéia de que soletrar o genoma equivaleria a "descobrir o que significa ser humano" pode hoje parecer ridícula, mas só para geneticistas ou iniciados em genômica, porque o comum das pessoas ainda tem sua visão da tecnociência biológica marcada por essas hipérboles.

Bem, não só o comum das pessoas. O próprio Watson afirma, em um documentário de TV que estréia amanhã no Reino Unido, "DNA", que a burrice é uma doença, e ainda por cima genética, estando os engenheiros genéticos moralmente obrigados a encontrar um meio de eliminá-la da espécie humana. Simples assim.

É provável que o documentário apresente também muitas vozes a favor da complexidade, que forneçam o contraditório necessário a essa idéia simplista de Watson. Mas não é descabido prever que milhares de espectadores ficarão mais fascinados com a perspectiva aberta pelo descobridor da dupla hélice _afinal, ele é o detentor do Nobel para o DNA.

Esse é o outro aspecto, menos científico e mais glamuroso, da revolução da biologia aberta pela dupla hélice do DNA: a molécula com estilo inaugurou também a era do biólogo-celebridade, tão bem encarnado por Watson e pelo cientista-empresário Craig Venter, criador da Celera, companhia privada cuja concorrência permitiu a conclusão do rascunho do genoma humano em 2001.

Não faltam, de resto, figuras excêntricas na história do DNA e da biologia molecular, dispostas a cunhar slogans de entonação bíblica como "Santo Graal da Biologia", "Dogma Central" e "Livro da Vida".

Suas frases de efeito, assim como a imagem onipresente da dupla hélice, marcam o imaginário popular da virada do milênio, assim como a do átomo impregnou a cultura de massas na metade do século 20. Elas criaram e ainda alimentam a impressão disseminada de que a engenharia genética está a um passo de alcançar o controle dos mecanismos mais finos do fenômeno da vida.

Nada mais distante da realidade, descobrem cotidianamente os geneticistas em seus laboratórios. A biologia molecular tem notável poder explicativo, mas a realidade que revela na intimidade das células tem muito a mais a ver com a complexidade de uma rede como a internet do que com o funcionamento de um programa de computador, a metáfora mais comum para descrever a função do DNA.

Na base de tudo, com efeito, os processos embutidos no DNA são relativamente simples, como sugerido por sua estrutura molecular. O caráter complementar das duas metades (hélices) entrelaçadas tem a ver diretamente com sua capacidade de se duplicar e gerar cópias idênticas da molécula, uma para cada corpo gerado na divisão celular. Logicamente anterior a essa capacidade de duplicação fiel, porém, vem a função nobre do DNA —a transmissão entre gerações (de células ou indivíduos) dos meios mínimos para o novo organismo produzir o repertório de proteínas característico de sua espécie.

Duplicação e expressão (transcrição e tradução) de genes são, contudo, apenas a base da genômica. Quanto mais se investiga seu funcionamento real na vida das células, mais a complexidade se impõe. Um dos complicadores é o fato de a "informação" contida no DNA poder ser modificada e modulada por um sem-número de mecanismos celulares, o que no mínimo abala a imagem prevalecente de que o DNA é o "cérebro" ou "centro de controle" da célula.

Um desses mecanismos, a interferência de RNA, escolhido pela revista norte-americana "Science" como a pesquisa mais importante de 2002, é outra pedra no caminho de quem tinha a esperança de encontrar no DNA a substância definidora da vida no passado, no presente e no futuro. Nada mais apropriado para a dupla hélice, após 50 anos de reinado solitário, do que dividir e descentralizar o poder.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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