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Família Composta

(Domingos Pellegrini)

PAI: Escuta aqui, seu bostoeta, e você, sua irresponsável que eu tanto preveni, mas não me escutou, se quiserem ir ao Ratinho ou se quiserem ir pro meio do inferno, vão, mas não contem comigo! Nada nem ninguém vai me convencer a participar daquela baixaria, nem se for pro meu neto ter um pai, ninguém vai me convencer!!! FILHA: Nem a mãe, pai? (PEGA O NENÊ NO BERÇO) TOCA A CAMPAINHA.

PAI: Tua mãe?! Não vai me dizer que você convidou tua mãe para...

FILHA SAI COM O NENÊ.

POETA: Meu sogro, a vida logra nos envolver em tais peças que o melhor é esquecer logo para esfriar a cabeça aceitando as cicatrizes e jogando enfim o jogo se quisermos ser felizes! TOCA A CAMPAINHA, POETA ABRE A PORTA E SAI. ENTRA A MÃE (MESMA ATRIZ QUE INTER34 PRETOU A FILHA, COM PERUCA GRISALHA E OUTRAS ROUPAS E POSTURAS).

MÃE: Boa noite. (OLHAM-SE LONGAMENTE.

ELA VAI AO BERÇO, AGACHA) Que lindo! É a tua cara! PAI: Não, são só os meus pés! E será que eu estou ficando louco? Vou me beliscar pra ver se é verdade! Quem sabe eu deva bater com o pau do pilão na cabeça pra acordar! MÃE (RI): Você continua engraçado! Foi por isso que me apaixonei por você, sabia? Tanto moço mais bonito, mais forte, até moço rico tinha afim de mim, mas eu me interessei por você porque você me fazia rir, sabia? PAI: Ah, eu devo mesmo ser um palhaço, pra ficar aqui olhando pra tua cara enquanto você ri de mim! Como é que você tem coragem de, depois de anos, chegar aqui de repente, dizendo boa noite como se nada tivesse acontecido?! MÃE (LEVANTANDO-SE E ENCARANDO): Mas nada aconteceu mesmo, meu ex-marido.

Nada aconteceu quando eu te pedi para trabalhar menos e ficar mais comigo, falei que não era preciso a gente ganhar mais, mas viver mais. Nada aconteceu quando eu te procurava na cama e você se encolhia suspirando de cansaço. Nada aconteceu quando te falei que você podia usar melhor as tardes de domingo em vez de ficar vendo televisão e se enchendo de cerveja. Nada aconteceu quando eu te convidei pra passear de bicicleta, fazer jardinagem, fazer ginástica, fazer caminhada, ir dançar no baile do bairro, nada aconteceu! Ou melhor, aconteceu que você foi ficando barrigudo e eu ficando cheia de você! E aí aconteceu que te convidei pro curso de dança de salão e você falou que já sabia dançar, e lá fui eu parar nos braços de alguém que viu em mim a mulher que você não via mais. Aí, aconteceu!...

PAI (HUMILDE): É, acho que eu até mereço ouvir tudo que você falou aí... (ELEVANDO A VOZ) O que não posso aceitar é que, depois de tantos anos sem eu deixar faltar nada em casa, você foi embora sem falar nada...

MÃE: Mas queria que eu falasse o quê? E você ia aceitar alguma coisa que eu dissesse? Você sempre se achou cheio de razão, nada do que eu dizia você ouvia, sempre dizendo que você é que tinha razão, eu falando que a vida não é só comida na mesa e você dizendo que comida na mesa é que é o mais importante, até que eu vi que você queria mais ter razão do que ser feliz...

PAI (HUMILDE): Hoje posso até reconhecer que você tinha razão em achar que eu queria ter razão demais, mas... (ELEVANDO A VOZ) agora o que não posso aceitar é você voltando pra me convencer a ir pra televisão participar de baixaria pro teu genro acontecer como poeta, que maravilha! Eu devia era estar vendo meu jogo, com licença! (LIGA A TEVÊ).

HOMEM DA TEVÊ: Pesquisa da Unicef revela que, além da alimentação incorreta e do estresse, uma das principais causas de enfarte são as chamadas emoções reprimidas, como o remorso, o ódio, a inveja, a amargura ou rancor, que podem também levar à depressão! A pesquisa...

PAI (DESLIGA A TEVÊ): Pois saiba que eu não tenho rancor nenhum, depressão muito menos, levo uma vida ótima e... Ai! (CURVASE COM A MÃO NO PEITO) Ai!

MÃE: Que foi?! PAI: Nada, uma pontada, só uma pontada, ai! (DEITA NO SOFÁ) MÃE (GRITANDO): Dalvo, Dalvo! PAI: E, além de poeta, se chama Dalvo! Eu mereço, devo ter feito muito mal a algum poeta em alguma outra vida... Ai! MÃE: Fica quieto, não fale! Daaaalvooooo! PAI: Lembra quando a gente casou e fazia amor neste sofá, lembra? MÃE: Lembro, antes de você ficar vendo tevê e tomando cerveja até dormir aqui mesmo! PAI: Me perdoa! Ai, parece que estão me enfiando uma faca! MÃE: Faca vão te enfiar é na mesa de operação se for o que estou pensando. Fica quieto! POETA ENTRA, DEPARANDO COM PAI DEITADO NO SOFÁ E MÃE SENTADA DEBRUÇADA SOBRE ELE: Que cena linda, a vitória do amor e do perdão mostrando que o coração é quem manda em nossa história!

MÃE: Manda vir o Siate, isto sim! Acho que ele tá tendo um enfarte! POETA: Meu celular é pré-pago e está momentaneamente sem crédito, acredite! PAI: Me faz, meu bem, um afago...

Lembra o tempo em que a gente se amava até no tapete?...

POETA (DISCANDO TELEFONE FIXO): Rimou! Acredite com tapete, é rima tonante, mas é rima! Só pode ser sinal de Deus, ele vai se salvar! E vai ao Ratinho com a gente, contar que o perdão e a poesia lhe salvaram a vida! Alô? É do Siate? Venham já, por favor, à Rua dos Abacates esquina com Melancia! Meu sogro tá com enfarte! DESLIGA O TELEFONE.

Não morra, sogro, ainda! Te farei uma poesia Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e Emergência; serviço de ambulâncias do Governo do Paraná.

Com toda a minha arte pra recitar muito linda no Programa do Ratinho! PAI: Estou vendo só pontinhos girando na escuridão...! POETA: São os pontos da audiência do nosso sucesso imenso, sogro, na televisão! MÃE: Se ele morrer, vou sentir muito remorso! PAI: Não estou vendo mais nada!...

POETA (ENQUANTO SE OUVE SIRENE DO SIATE): Mas verá seu genro alçado ao céu das celebridades e superadas as mágoas minha poesia afinal vendendo mais do que água mineral ou pão de sal! MÃE: Ele tá ficando roxo! POETA: Se morrer, fazer o quê?

A gente diz pro Ratinho que a felicidade é um tortuoso caminho que alguns não vencem não e outros conseguem vencer com perdão no coração! PAI: Cadê o pau do pilão?! Aaaaaaaaaaaai!!! CORTE DE LUZ. NA ESCURIDÃO, FAMÍLIA CANTA PARABÉNS PRA VOCÊ. LUZ: EM CENA, DIANTE DE BOLO CUJA VELINHA A FILHA ACENDE, ESTÃO ELA, O PAI E O POETA.

FILHA: Pena que o nenê está dormindo, senão ia ver seu primeiro bolo de aniversário! POETA: Primeiro ano de vida: a página de um caderno que depois de cada inverno tem primavera florida! PAI: E depois de quase morto a gente enxerga tudo com outros olhos, e muda endireita o que era torto ajeita o que era sem jeito aceita o inaceitável e só com o preconceito se mantém intolerável! FILHA: Ai, pai, quem te viu e quem te vê! Até agora não entendo como é que você acordou da cirurgia só falando em forma de poesia! PAI: Já te contei, minha filha quando eu era rapazote cantava lá os meus motes fazia os meus estribilhos, mas por medo ou por vergonha engavetei o talento e a chave então joguei fora até ver que cada sonho faz parte do esqueleto das carnes da nossa história! POETA: Meu sogro, você me orgulha e jamais me esquecerei dos versos que você fez calando até o barulho do Programa do Ratinho! Verso repetido no fi m de cada estrofe de uma composição.

Diante do teu soneto eu me senti um poeta até bem pequenininho...

Como era mesmo o soneto? PAI: Senhor Ratinho, não existe gato capaz de amedrontar a decisão de quem depois de ouvir o coração só quer obedecer ao seu mandato! POETA: Nem é preciso comparar retratos ou apelar para a ciência, não: basta olhar nos olhos ou então reconhecer os nossos pés de pato! PAI: É neto meu, é sangue de poeta que sangue de poeta procurou usando o coração de minha filha! POETA: Teste de DNA só nos atesta que é o perdão a poesia do amor e a maior arte é fazer família! PAI: Retificando, retificando: fazer família não é nada comparado com manter família...

POETA: Me lembrou, meu sogro amado que a cerveja e o guaraná foram comprados fiado na sua conta no bar onde fui até cobrado de forma impertinente, mas deixei adiantado que pagarás brevemente PAI: Mas eu não autorizei fiado em bar algum! POETA: Meu sogro, a vida é repleta de surpresas e imprevistos, mas relaxe: haja visto teu próprio neto, que foi uma surpresa e agora é a alegria do avô! E veja aí, noves fora, a conta do mês que passou! (ENTREGA PAPEL AO PAI) PAI (LENDO PAPEL): Mas... mas... Ai meu coração! É uma pequena fortuna! POETA: Calma que tudo se arruma!

FILHA: Pai, tá fixando roxo, não! POETA: É só dar três pré-datados, meu sogro, não tem problema! Não vá ficar estressado por coisinha tão pequena! PAI: Coisinha?! É o que eu levo quinze dias pra ganhar dando duro no trabalho, seu...! CAI NO SOFÁ, SOCORRIDO PELA FILHA E PELO POETA, ENQUANTO A TEVÊ LIGA.

HOMEM DA TEVÊ: Estudo da Federação dos Bancos indica que o Brasil é o país que criou um sistema único de crédito informal, por meio dos cheques pré-datados. (ENQUANTO A FILHA E O POETA FALAM A SEGUIR): Esse tipo de microcrédito cresce muito mais que o sistema de crédito formal! FILHA: Desliga isso! POETA: Não fui eu que liguei, acho que ele caiu em cima do controle remoto! HOMEM DA TEVÊ: Calcula-se que 70% da população usam sempre ou regularmente os cheques pré-datados para, como dizem os economistas, “ir vivendo na frente” e driblando assim os juros altos nos créditos convencionais. E, por falar em driblar, em seguida vem aí o grande clássico do nosso futebol...

FILHA DESLIGA A TEVÊ, EM SINCRONIA COM CORTE DE LUZ. NA ESCURIDÃO, OUVE-SE CHORO DE NENÊ E PREFIXO MUSICAL DO PROGRAMA DO RATINHO, SEGUIDO DE SIRENE DO SIATE, QUE CESSA PARA SE OUVIR A VOZ DE RATINHO: RATINHO: Fala, Sombra! SOMBRA: Pois não, Ratinho! Livro de poesia de poeta que esteve aqui no seu programa está vendendo mais que água mineral ou pão de sal! Os poemas tratam de amor familiar, Ratinho! RATINHO: Então vamos para os nossos comerciais com produtos de grande valia para toda a família! ACENDEM-SE AS LUZES. PAI ESTÁ DEITADO EM CAMA COM PEDESTAL DE SORO INJETANDO NA VEIA. POETA ENTRA PÉ ANTE PÉ COM A MÃE.

POETA: Ah, coitado do meu sogro! O que não faz o estresse quando a pessoa não vê que mais vale viver bem que se matar trabalhando pra ganhar o que não tem! A vida é pra ir levando...

MÃE: É, você leva a vida, e a minha filha leva dinheiro pra casa, trabalhando fora e levando o filho pra creche enquanto você fica fazendo poesia, que beleza!...

POETA: É, minha sogra, a beleza é a razão da minha vida! Vejo a beleza até mesmo numa formiga ou lesma no arroz servido na mesa erva daninha florida tudo é belo nesta vida! MÃE: Coitada da minha filha, agora com o pai assim, largado numa cama sem saber quando vai ou mesmo se vai melhorar...! E ela chega em casa, ainda tem de cozinhar pra botar a comida na mesa, pra quem só come é uma beleza mesmo!...

POETA: Beleza é a minha sogra mesmo quando assim zangada...

Parece fruta madura cheirosa e bem encarnada uma dessas criaturas que o tempo só embeleza e que parece mistura de pecado e de nobreza...

MÃE: Mas o que é isso agora?! Tá querendo me cantar, é? E na beira da cama do meu ex-marido agonizante?! PAI: Eu não tô agonizante! MÃE: Ele falou! Saiu do estado de coma! POETA: A poesia tem o dom de fazer ressuscitar reviver tudo que é bom a beleza eternizar! Eu sabia que provocando meu sogro muito querido teria de dar ouvidos a quem está esperando que levante enfim da cama para viver com quem ama! PAI: Cadê o pau do pilão?!...

MÃE: Que é que ele está dizendo? POETA: Está pedindo o pilão! Querendo fazer paçoca pra festejar a vitória desse grande coração! Meu Deus, que coisa mais louca! PAI: Eu quero é dar uma coça nesse pilantra, querida! E começar nova vida caminhando todo dia dançando bolero e tango samba, baião e até mambo e fazendo academia! MÃE: Bem dizem que a pessoa muda muito depois do coma, ganha outra visão da vida...

POETA: E por falar em visão que tal ver televisão? LIGA A TEVÊ.

HOMEM DA TEVÊ (FALA ENQUANTO PAI VAI SENTANDO NA CAMA): A média de vida dos brasileiros continua a aumentar, passando agora dos 70 anos, quando era de apenas 45 anos no começo do século passado! Além de melhorar a alimentação, as pessoas de terceira idade dedicam-se mais a atividades saudáveis, como por exemplo...

PAI (PEGANDO O CONTROLE REMOTO, DESLIGA A TEVÊ): Andar de bicicleta, querida, ir até a zona rural fazer piquenique! (BOTA AS PERNAS PARA FORA DA CAMA, FICA EM PÉ) Levar meu neto pra passear! Ir pescar! Não quer ir junto? Só pescamos uma vez na vida!...

MÃE: ...e você ficou reclamando do sol, do calor, dos mosquitos! PAI: Aquele homem reclamão morreu, querida.

Por falar em homem, como vai seu atual marido? MÃE: Não sei. Acabamos.

POETA: Isso merece um poema! A vida é caleidoscópio...

PAI: Cale a boca! Se rimar caleidoscópio com copo, eu te esgano, seu sacana! Vai cuidar do teu filho enquanto tua mulher trabalha pra sustentar a casa, vai! Vai!! (POETA SAI) Família composta...! MÃE: Calma, meu bem, não se exalte, lembre que o seu coração...

PAI: O que você disse? MÃE: Que o seu coração...

PAI: Não, antes. Me chamou de meu bem? MÃE: É, afinal fomos casados quantos anos? PAI: Fomos não, somos! Eu não pedi divórcio, nem você! Talvez a gente já pressentisse que, com o tempo... (DÃO-SE AS MÃOS) MÃE: Pois é, o tempo... Será que ainda temos tempo? PAI: Meu bem, como dizem os Stones...

MÃE: Quem? PAI: Os Rolling Stones, meu bem, dizem que o tempo está do nosso lado e é nosso amigo quando a gente sabe viver a vida! MÃE: Mas quem são esses Rolestones aí? PAI: Um conjunto de rock, querida, vou te mostrar. Eu não andei morto enquanto você Os Rolling Stones é um grupo de rock em atividade desde 1962. A música Time is on my side é uma das mais antigas gravações da banda.

Esteve fora, ouvi coisas novas, li novas coisas, pensei em me renovar! Vamos namorar? MÃE: O que?! PAI: Namorar. Como outrora se namorava pra ver se você gosta de mim e eu também de você! Talvez começar agora uma nova vida enfim! MÃE: Eu... eu nem sei o que dizer! PAI: Querida, não diga nada é até melhor que assim seja porque a boca que beija já está demais ocupada...

BEIJAM-SE ENQUANTO ESCURECE EM RESISTÊNCIA E OUVE-SE A VOZ DE RATINHO: RATINHO: Fala, Sombra! SOMBRA: Pois não, Ratinho! Sogro de poeta monta site na internet chamado Velho Namoro, pregando a volta ao velho costume de namorar firme, em vez de ficar fácil! E recomenda o namoro especialmente para as pessoas da terceira idade! E para os jovens recomenda namorar mais e ficar menos! RATINHO: E nós ficamos com nossos comerciais, Sombra! ACENDEM-SE AS LUZES E A TEVÊ.

HOMEM DA TEVÊ: Isto foi uma peça de teatro.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é para nos fazer pensar que também podemos mudar a nossa vida.

Tudo está em mudança rápida. Há apenas um século, mulheres não podiam votar.

Meio século atrás, a maioria da população morava no campo, hoje 90% moram na cidade.

Eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa, ao contrário de hoje.

A educação superior era para poucos. Os serviços de saúde eram muito pouco usados, até porque existiam poucos serviços públicos de saúde. A população ainda não sabia que paga impostos embutidos no preço de tudo que compra. De lá para cá, tudo mudou muito, a família também. As famílias compostas hoje são maioria na população brasileira. Quem não muda, fica per dido. Eu mesmo não sei mais o que dizer diante disso. Podem se retirar, por favor.

Isto foi uma peça de teatro. Não sei mais o que dizer. Vão viver. Podem se retirar, por favor. Isto foi uma peça de teatro e isto é uma gravação. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é apenas para nos fazer pensar que também podemos mudar a nossa vida. Tudo está em mudança rápida.

Há apenas um século... (CONTINUA REPETINDO A MENSAGEM ATÉ O PÚBLICO SE RETIRAR).

FIM

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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