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O Caso da Chácara Chão - Domingos Pellegrini

 

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Dados Biográficos

Nasceu e vive em Londrina, Paraná, onde estudou Letras. Trabalha com jornalismo e publicidade. Seu primeiro livro de contos foi o ganhador do Jabuti de 1977.

Também escreve poesias, romances e romances juvenis.

Vive atualmente na Chácara Chão em sua cidade natal, de onde envia as notícias publicadas desde 1997 pelo Jornal de Londrina, enquanto escreve seus livros.

Resumo do Enredo

Manfredini é escritor de livros juvenis e Olga é dona de casa, que atende a encomendas de doces. O casal tem Verali, filha de dez anos, e Paulinho, que é filho dela do primeiro casamento.

Manfredini é um ex-repórter policial e ex-revolucionário que resolve retornar ao seu chão cultivando uma chácara. Ele fora redator de um suplemento agrícola e ela era neta de agrônomos, e ambos sentiam-se preparados para cuidar da chácara. Esta recebe o nome de Chácara Chão por causa do método usado por eles para reaproveitar as frutas que caem e as folhas secas que são colocadas num tanque de compostagem. A conclusão é que tudo que sai do chão, volta para o chão.

Num domingo em que só o casal está, a chácara é assaltada por dois rapazes, um ruivo e um mulato. Com revólver na mão, pedem jóias e dólares, e Olga vai buscar o pedido. Nisso João, um trabalhador da chácara chega e chama pelo patrão, como não é atendido, pula o portão.

Os assaltantes estavam drogados, distraem-se e Manfredini pega um facão, puxa Olga e correm para um quartinho e quando tentam fechar a porta, chega o mulato empurrando, Manfredini passa o facão pela fresta ferindo o ladrão. Os dois assaltantes fogem. Logo o alvoroço está formado, alguém avisa a polícia e os malandros são presos quase que imediatamente. O casal vai à delegacia para depor.

O delegado começa o interrogatório com Manfredini. Olga acha por bem procurar um advogado e, mesmo contra a vontade do marido, sai; no outro dia voltam à delegacia. São ouvidos em separado. Depois do depoimento de Manfredini, o delegado conta que a versão dos ladrões é bem diferente.

Eles não eram assaltantes, foram lá para “encontrar-se” com Olga, que queria transar com dois homens de uma só vez. O sangue do escritor ferve. O delegado diz que deve inquirir a todos já que eles falaram que foram surpreendidos por ele quando estavam no quarto, e que ele, flagrando os três, havia perdido a cabeça e ferido o rapaz a facão. Com esta versão, Manfredini nega-se a assinar o depoimento. O delegado aconselha-o a voltar com um advogado.

Os dois rapazes ficam presos porque tinham ficha. A dúvida começa a tomar conta da cabeça do escritor. Quando Olga chega em casa ele pergunta se ela conhece os dois, ela se ofende e ele se arrepende. O delegado vem visitar a chácara, confessa que o advogado dos rapazes armara uma “estratégia”, dizendo que um costumava freqüentar a chácara em encontros vespertinos com Olga, e que naquele dia ela havia pedido para ele levar outro, pois um era muito pouco para ela.

Quando o advogado sai, Manfredini conta tudo para Olga, que acha um absurdo a história. A notícia de que Olga é tarada e que Manfredini é corno se espalha. Olga já nem recebe quase encomendas de doces, que era o seu ganha-pão. O escritor recebe pouco da editora, pois a venda dos livros caiu.

O escritor recorre à ajuda de Binho, um antigo colega de revolução, conseguem ter acesso ao processo e saber o nome dos assaltantes: Florindo da Silva, o mulato, é ex-policial, afastado para tratamento psiquiátrico. Depois, licenciado, metera-se com drogas, roubo etc. O outro era filho de família rica, também com passagens pela polícia, sempre se livrava pois contratavam bons advogados para ele.

Enquanto isso o Doutor, advogado do casal, custa-lhes o dinheiro do poço artesiano que pretendiam cavar na chácara. O mesmo sugere que entrem num acordo, visto que os depoimentos eram contraditórios, que Manfredini podia ser indiciado num processo por agressão... Na chácara a vida continua com os trabalhos rotineiros. O casal trabalha duro, com a ajuda de João. O Doutor busca Olga e Manfredini para mais um depoimento. O advogado dos rapazes propõe um acordo. Indignado o escritor dá uma entrevista aos repórteres contando toda a verdade.

De vítima, o escritor se transformara em réu. Procura a ajuda de Binho, novamente. Quer a ficha completa dos assaltantes e uma cópia do depoimento deles. Quando chega em casa, toda a família de Olga está lá e Verali, chorando, pergunta “Que é corno, pai?” Manfredini explode e tranca-se no escritório. Não está conseguindo escrever o romance juvenil encomendado por sua editora.

Na ficha de Florindo consta que ele e Olga já tinham um relacionamento antigo. O outro, filho de papai, Pedro Paulo Machado Mello de Cavalcante, fora convidado naquele dia por Florindo para atenderem ao desejo de Olga.

O escritor então resolve contar sua versão da história e Binho a publica em seu jornal na primeira página. A família de Olga, liderada pela avó, intima Manfredini a pagar pelas jóias, uma vez que eram antigas jóias “de família” que estavam sob sua guarda. Ao passar pela cidade, ele se surpreende com a reação das pessoas que o cumprimentam pelo que fez. É conhecido como o justiceiro do facão, e o episódio que protagonizou é “O Caso do Facão”, segundo os jornalistas.

Otoniel dos Santos, mecânico, vem se apresentar com sua mulher, como novo vizinho do escritor. O Doutor aparece e diz que há um pedido de indenização por parte dos assaltantes: despesas médicas. É mais uma manobra do advogado deles para conseguir um acordo.

Binho aparece com a ficha. Ao reler o depoimento Manfredini intriga-se com duas perguntas: Como a polícia chegou tão rápido no dia do assalto? Quem chamou? Como os assaltantes sabiam que ele guardava dólares em casa? Resolve investigar e chega até a mãe de Florindo, Clarinda dos Santos, que conta que a filha, que havia trabalhado na chácara, sabia dos dólares e contou ao irmão.

A chácara continua dando trabalho. Passam-se os dias e eles vão a uma entrevista com o Promotor. O mesmo esclarece que faltam provas e “diante das versões contraditórias e da ausência de provas” sugere o arquivamento do caso. Manfredini fica doido e quase fica preso por desacato. Dispensa o Doutor, dizendo tudo e mais um pouco do “palerma”.

Em meio a essa confusão surge um amigo dos tempos do exército, Arcanjo dos Santos, hoje um “advogado porta-de-cadeia”, que oferece sua ajuda sem cobrar nada do amigo escritor. Alerta Manfredini que Florindo faz parte de uma perigosa quadrilha, juntamente com outros policiais, que estão protegendo o ex-PM.

O carro da polícia havia chegado rapidamente naquele dia porque estavam dando “cobertura” ao assalto. O processo é arquivado pelo Promotor. A queixa é retirada é retirada pelo casal.

Com o tempo, o clima na chácara vai voltando ao normal. Os livros estão vendendo bem, as encomendas de Olga também. Arcanjo surge com novidades: o tal filhinho de papai se mandou para os EUA, mas Florindo agora quer indenização por danos físicos e morais.

Voltam ao antigo advogado, afinal já estava pago. Nesse mesmo tempo aparece um clube de som “Clubisteca” na chácara ao lado. Manfredini assina um abaixo-assinado promovido pelo vizinho mecânico, que também não gosta do barulho.

Num desses dias aparece o Arcanjo com os processos para Manfredini. Resolvem fazer o jogo da justiça e jogam tudo numa imensa fogueira. Talvez não adiante nada, mas dará muito trabalho aos homens da justiça para começar tudo de novo. Afinal, acontecia muito de processos “sumirem” sem deixar pistas, mesmo.

A mãe e a irmã de Florindo, agora crentes, resolvem fazer justiça devolvendo a metade das jóias que ele roubara. Estavam, inclusive, fugindo do rapaz, que passara a agredi-las. Ele, porém, está agora internado numa clínica.

Otoniel não consegue nada contra o funcionamento do Clubisteca, apelando para as autoridades. Resolve então fazer justiça com as próprias mãos. Compra e instala enormes caixas de som na frente de sua casa e o som que produz atrapalha o som do clube. Obtém também o apoio da vizinhança, que está prestes a invadir o local. Nesta mesma noite Florindo, que havia fugido da clínica, se droga e vai à chácara em busca de vingança. Encontra Olga na cozinha e a desmaia com uma pancada na cabeça.

Procura por Manfredini, com um velho revólver e com o facão, apanhado na mesa do terraço. Num descuido do bandido, o escritor atira nele um banquinho de madeira. Florindo atira, acertando o abajur. No escuro, pai e filha fogem. Os disparos continuam, mas o som alto da TV abafa o ruído dos tiros. Manfredini é perseguido por Florindo no escuro da chácara, entre as árvores. Ele vai se esquivando do agressor até que este cai no tanque de compostagem.

Florindo se suja todo e se machuca, mas sai de lá e continua. O escritor despista o bandido para o fundo da chácara, que vai no seu encalço tropeçando, caindo e se arranhando nas espinheiras. Enquanto isso, Verali, que pulara o muro, chama Otoniel, que está às voltas com a polícia que fora chamada para resolver o impasse do som. Vizinho e polícia adentram a chácara. Florindo, todo arrebentado, no fundo do quintal, é finalmente preso pela polícia.

O Clubisteca é fechado, para alegria de Otoniel e da vizinhança.

Novos depoimentos são feitos, agora com a orientação do advogado Arcanjo. O ex-PM agora é expulso definitivamente da corporação. Não há como negar os fatos. Há o pedido de desculpas do delegado, da imprensa, dos vizinhos. A outra metade das jóias aparece e a tranqüilidade volta a reinar na Chácara Chão. Afinal, se o processo for reaberto, alguém terá que voltar do exterior e pode se complicar.

“E a quadrilha – falei – também vai ficar em paz, presumo. É assim neste país, né? Só um vai preso de vez em quando,o mais pobre, o Tiradentes...”

Fonte: literaturavirtual.com.br

O Caso da Chácara Chão

Domingos Pellegrini

Publicado em 2000, O Caso da Chácara Chão, de Domingos Pellegrini, segue, até no título, o que há de mais chamativo no mercado editorial, do qual o autor é um dos seus expoentes, famosamente conhecido por sua produção juvenil. Trata-se de um romance policial.

A história básica passa-se durante o Carnaval. A chácara do personagem-narrador, Manfredini (é praticamente um alter-ego do autor, pois ambos mantêm muitos pontos de contato em relação à personalidade e ao histórico de vida), é invadida por dois bandidos, que estão em busca de jóias e dólares.

Crentes que o ambiente estaria vazio, começam a ver seus planos frustrados quando encontram os donos. Descontrolam-se, chegando, para ameaçar, a matar a gata de estimação do casal, Miau.

A situação piora quando são ouvidos os gritos do caseiro João, que, ao não ser respondido, pula o mulo da propriedade.

O narrador consegue escapar, mas é perseguido por um dos malfeitores, até que consegue se trancar em um cômodo, não sem antes ferir gravemente com um facão o opositor que tentava impedir o fechamento da porta. Machucado, foge.

Seguindo o caminho mais simples, os donos registram queixa na delegacia e esperam a atuação da polícia para a captura dos criminosos, o que de fato foi feito. No entanto, obteve-se um resultado completamente diferente.

Os bandidos alegaram que a esposa do narrador os havia convidado para um encontro conjugal no momento em que o marido não estava presente. Este, voltando inesperadamente, surpreendera a dupla e, ferido na honra, vingara-se ferindo um dos supostos traidores.

O que piora a situação é que o aparelho do Estado começa, ao invés de defender a vítima, a permitir que esta tivesse sua reputação atacada. É nesse momento que entra em ação o melhor aspecto dos romances policiais: a exposição crua das feridas do sistema social.

Ainda assim, apesar de seguir o esperado no gênero que desenvolve, Domingos Pellegrini destaca-se nessa obra ao destilar um ceticismo, uma descrença extremamente amarga em relação às instituições. E tudo com uma literariedade que encanta.

Não se deve pensar, porém, que o aspecto estético está na elaboração rebuscada da frase. Sua linguagem é simples, direta, despojada de enfeites artificiais.

Há beleza em suas imagens poéticas, principalmente àquelas ligadas à descrição de elementos da Natureza, mas sem o emprego de recursos que tornem o texto pesado, de leitura arrastada.

Outro elemento digno de nota é a movimentação das cenas, ágil, precisa, quase que dotada de um caráter cinematográfico. Os flashbacks estão nos locais exatos e na medida correta.

A manipulação do tempo da narrativa é quase sinfônica (quanto a esse aspecto, não se deve esquecer que a obra, num esquema de diário, muitas vezes metalingüístico, acaba tendo uma proximidade muito forte entre o tempo da narrativa (tempo da história, dos fatos narrados – passado não muito remoto em muitas das vezes) e o tempo da enunciação (tempo do ato contar a história, sempre presente).

Aliada à já citada limpeza de sua linguagem, contribui para que a degustação da obra seja fluente, sem obstáculos inúteis e desnecessários.

Deve-se também elogiar a forma coerente com que o narrador consegue dar vida e caráter às suas personagens, até mesmo nas que se apresentam caricaturizadas, como a família Filipov, à qual pertence a cônjuge do narrador.

Há inclusive atenção na substanciação da caracterização dos animais, como Miau (a gata assassinada), Minie (cadela idosa) e Morena (cadela que havia chegado filhote e que cresce no decorrer da narrativa).

Para reforçar o que se apresentou quanto ao domínio na construção das personagens, basta observar Verali, filha do narrador, que, de menina urbana e, portanto, isolada e dona de amigas invisíveis, torna-se a garota feliz, realizada quando vai para a chácara.

Outra personagem é Olga, ex-militante de esquerda e que “cai” para preocupações mais ligadas ao chão, como ter uma filha praticamente por produção independente com Manfredini, esforçando-se por manter-se por meio da confecção de chocolates.

Mas a personagem mais rica é o narrador, um sujeito decepcionado com a esquerda, ou mais precisamente com os militantes, que, ao invés da luta aberta, preocupavam-se em se encostar no funcionalismo público.

Seu desencanto, no entanto, não significa inércia. Torna-se uma figura que tem um pouco de misantropo, impaciente e quixotesco ao lutar pelos direitos do cidadão, pela aplicação da lei, principalmente no que se refere ao silêncio.

O ruído urbano é a mais simbólica forma de invasão e agressão do mundo moderno.

Resultado: cansado da pasmaceira do povo, cansado por praticamente lugar sozinho, além de amadurecido seu relacionamento com Olga e depois de ter ganhado muito dinheiro trabalhando na redação de discursos de uma campanha política, resolve morar com Olga. Compram, para tanto, uma chácara, a que dá título ao livro.

Tal imóvel se torna a utopia, o grande sonho de mundo e de vida dos dois, o que se percebe pelo nome. Baseia-se na idéia de que tudo o que foi gerado pelo chão, por ele será aproveitado.

É, pois, um microcosmo perfeito (já que o macrocosmo fracassou) em que se dedicam na reciclagem e aproveitamento de tudo. Tudo natural, ecológico, planejado, perfeito. Até a invasão urbana, representada pelo assalto realizado durante o Carnaval.

Esse episódio só piora a relação do personagem com o Estado, pois, como se disse, mostra a violência se voltando contra eles. Pedem ajuda para punir bandidos e acabam sendo castigados de várias formas.

Em primeiro lugar, pela possibilidade de se tornarem de vítimas a réus. Há ainda a indiferença, a zombaria e o desrespeito com que são atendidos. Além disso, a polícia faz uma perícia completamente incompetente, como se estivesse mais interessada em não resolver o caso (não procuram direito a arma do crime.

Não fazem autópsia da gata, não retiram na hora correta as balas incrustadas no teto e no chão da sala da chácara. Nem sequer verificam a presença de resíduos de pólvora das mãos dos bandidos).

Sem contar que são pressionados por um ação de indenização, o que constitui um acinte típico da literatura de Kafka.

Conforme se luta por mais justiça, mais lama vai sendo jogada. Acaba-se esbarrando em obstáculos gigantescos. Um dos bandidos, Florindo dos Santos, era policial licenciado.

Entra em jogo, portanto, toda a força de uma corporação protegendo um dos seus integrantes. O pior é que ele faz parte de um esquema gigantesco arquitetado por uma máfia dentro da própria polícia, responsável pelo desvio de material apreendido, inclusive drogas. Detalhe sórdido: o soldado tinha desvios graves de comportamento, sendo até toxicômano.

O outro bandido, Pedro Paulo Machado de Mello Cavalcante, como a extensão do nome indica, é de família tão rica quanto poderosa, acostumada a usar um advogado por demais eficiente que sempre afasta o jovem de crimes ligados ao vício, como o presente caso.

Esse advogado vai ser responsável por mais decepções. Eficientíssimo (não se deve esquecer que o advogado do narrador é incompetente, mais preocupado em seguir protocolos – em busca de um arquivamento – do que em resolver o problema), conseguirá armar esquemas para salvar seus clientes e prejudicar mais ainda Manfredini.

Fica a idéia de que o que funciona no Judiciário não é a justiça em si, mas a manipulação, armação. O clímax surge quando a história vaza para a Imprensa, tão preocupada com escândalo, sensacionalismo. Cria-se uma mancha gritante na reputação daqueles que deveriam ser vistos como vítimas.

Sempre que se lembrava dO Caso da Chácara Chão, associava-se à imagem de Olga como tarada ou de Manfredini como o Louco do Facão a fazer justiça com as próprias mãos, imagem esta que é piorada quando investe de maneira explosiva (atira pedras e machado) contra os inúmeros carros de som que poluem auditivamente aquele que deveria ser um bairro residencial.

Apesar dessa confusão toda, há alguns pontos de apoio. O primeiro é um amigo ligado à Imprensa, Binho, que lhe permitirá, além do acesso a informações importantes, que sua versão seja veiculada na mídia.

O resultado é, de certa forma, torto. Se num primeiro instante é visto como um vilão, um louco, depois passa a ser visto como um herói, pois encarnou o desejo de todo um povo massacrado: fazer justiça pelas próprias mãos. Em suma, não é entendido, mas visto como uma caricatura.

O fundo do poço surge quando há com a Justiça uma audiência, eufemisticamente chamada de “entrevista”. Nela, fica consagrada a incompetência do Estado, que não consegue representar e nem defender o cidadão. O processo está para ser arquivado.

O narrador, como sempre, explode, quase sendo preso por desacato. A reviravolta, a princípio tímida, surge quando encontra, ainda no fórum, outro decepcionado ex-militante esquerdista, Arcanjo.

Tornara-se advogado de porta de cadeia não para fazer sacanagem contra o sistema ao ajudar criminosos, mas para evitar que este atrapalhasse os direitos daqueles que não têm como se defender. E em tal situação encontrava-se Manfredini.

Sua primeira ação, imediata, já se mostra útil. Evita que o “homem-bomba” seja preso. Ainda impede a derrota fragorosa da ação. Contribui também para que seja bloqueado o processo de indenização.

Mas, diante de todo o quadro que se é apresentado, pois estão lidando com bandidos do mais pesado calibre, consegue convencer o casal a retirar a queixa, na esperança de que a outra parte também o faça.

No fim, um ano se passa. Reforça-se a descrença em relação ao sistema, o que fica representado no fato de a chácara, o paraíso, ter os muros agora todo coberto de plantas dotadas de espinhos.

A decepção é tão grande que o narrador já não abre mais tanto escândalo quando um salão de festas, por demais barulhento, é inaugurado ao lado da chácara (é interessante lembrar que a fiscalização, quando aparece, fica mancomunada com o salão. Note a tirada amarga quando o protagonista relata que os fiscais saíram alegres e com alguns “presentes”).

O clímax surge num duplo combate. Os vizinhos armam uma barulheira musical para competir com o baile de Carnaval do salão. A polícia baixa.

E é nesse instante que Florindo surge, para se vingar, pois com toda a questão judicial, não havia agüentado e cometera delitos, acabando por perder muitos dos seus direitos na corporação. Acha que a culpa pelo fracasso recai sobre Manfredini e sua família.

Suas intenções criminosas são, no entanto, frustradas. Olga e Verali evadem-se. Manfredini consegue fugir pela chácara. Sua enorme vantagem é que o vilão não conhece o terreno e, em meio à escuridão, acaba-se ferindo sucessivamente pelas plantas, muitas delas espinhosas.

Consegue a vitória humilhante ao mesmo tempo em que o povo, irado, faz com que o salão respeite os vizinhos.

Tal final parece lembrar o campo juvenil em que o autor se especializou. Jogou-se tanta lama na cara do leitor a ponto de poder sufocar sua visão de mundo. Essa vitória da natureza é uma luz de expectativa positiva.

O mundo está podre, mas não é motivo para desistência, derrotismo. É uma luta individualista, mas é a melhor arma que se tem, na presente situação social.

É a alimentação de esperanças diante da vida, mais simples e mais natural possível, distante da doença em que se transformou a vida moderna.

Fonte: www.vestibular1.com.br

O Caso da Chácara Chão

Domingos Pellegrini

O livro O caso da Chacára Chão foi inspirado num episódio real, um assalto ao sítio do próprio autor, Domingos Pellegrini, que decidiu romancear o fato e criar a história.

Publicado em 2000, O Caso da Chácara Chão, segue, até no título, o que há de mais chamativo no mercado editorial, do qual o autor é um dos seus expoentes, famosamente conhecido por sua produção juvenil.

A obra tem, na opinião do autor, ingredientes bem brasileiros como violência, drogas, corrupção policial, jornalismo sensacionalista, racismo, conformismo mas também amor, perdão e amizade. Traça painéis críticos da realidade brasileira.

Segundo Pellegrini, a obra "é um policial social, mas no fundo, como sempre, trata dos conceitos de caráter e de conduta".

Linguagem e Tempo

Sua linguagem é simples, direta, despojada de enfeites artificiais. Há beleza em suas imagens poéticas, principalmente àquelas ligadas à descrição de elementos da Natureza, mas sem o emprego de recursos que tornem o texto pesado, de leitura arrastada.

O narrador-personagem usa alguns ingredientes bem brasileiros são forças presentes na narrativa, tais como - violência, drogas, corrupção policial, burocracia, jornalismo sensacionalista, racismo, conformismo e também amor, perdão, revolta e amizade.

Há beleza em suas imagens poéticas, principalmente àquelas ligadas à descrição de elementos da Natureza, mas sem o emprego de recursos que tornem o texto pesado, de leitura arrastada.

Outro elemento digno de nota é a movimentação das cenas, ágil, precisa, quase que dotada de um caráter cinematográfico. Os flashbacks estão nos locais exatos e na medida correta. A manipulação do tempo da narrativa é quase sinfônica (quanto a esse aspecto, não se deve esquecer que a obra, num esquema de diário, muitas vezes metalingüístico, acaba tendo uma proximidade muito forte entre o tempo da narrativa (tempo da história, dos fatos narrados – passado não muito remoto em muitas das vezes) e o tempo da enunciação (tempo do ato contar a história, sempre presente). Aliada à já citada limpeza de sua linguagem, contribui para que a degustação da obra seja fluente, sem obstáculos inúteis e desnecessários.

Personagens

O protagonista da obra é um jornalista e escritor que mora numa chácara, como o próprio Pellegrini: há três anos e meio, para fugir do barulho do centro da cidade, Pellegrini mudou para a Chácara Chão, nos arredores de Londrina, onde pretende passar o resto de seus dias.

Deve-se também elogiar a forma coerente com que o narrador consegue dar vida e caráter às suas personagens, até mesmo nas que se apresentam caricaturizadas, como a família Filipov, à qual pertence a cônjuge do narrador. Há inclusive atenção na substanciação da caracterização dos animais, como Miau (a gata assassinada), Minie (cadela idosa) e Morena (cadela que havia chegado filhote e que cresce no decorrer da narrativa).

Para reforçar o que se apresentou quanto ao domínio na construção das personagens, basta observar Verali, filha do narrador, que, de menina urbana e, portanto, isolada e dona de amigas invisíveis, torna-se a garota feliz, realizada quando vai para a chácara. Outra personagem é Olga, ex-militante de esquerda e que “cai” para preocupações mais ligadas ao chão, como ter uma filha praticamente por produção independente com Manfredini, esforçando-se por manter-se por meio da confecção de chocolates.

Mas a personagem mais rica é o narrador, um sujeito decepcionado com a esquerda, ou mais precisamente com os militantes, que, ao invés da luta aberta, preocupavam-se em se encostar no funcionalismo público.

Seu desencanto, no entanto, não significa inércia. Torna-se uma figura que tem um pouco de misantropo, impaciente e quixotesco ao lutar pelos direitos do cidadão, pela aplicação da lei, principalmente no que se refere ao silêncio. O ruído urbano é a mais simbólica forma de invasão e agressão do mundo moderno.

Enredo

Alfredo Manfredi, um escritor de livros juvenis, ex-exilado, cansado da pasmaceira do povo, além de amadurecido seu relacionamento com Olga e depois de ter ganhado muito dinheiro trabalhando na redação de discursos de uma campanha política, resolve morar com Olga. Compram, para tanto, uma chácara, a que dá título ao livro. Tal imóvel se torna a utopia, o grande sonho de mundo e de vida dos dois, o que se percebe pelo nome.

Baseia-se na idéia de que tudo o que foi gerado pelo chão, por ele será aproveitado. É, pois, um microcosmo perfeito (já que o macrocosmo fracassou) em que se dedicam na reciclagem e aproveitamento de tudo. Tudo natural, ecológico, planejado, perfeito. Até a invasão urbana, representada pelo assalto realizado durante o Carnaval.

Quer fugir do estresse dos centros urbanos e refugia-se com a família na chácara, em busca de tranqüilidade. Mas não será isso que ele terá: um assalto à propriedade transforma completamente a vida do escritor e de sua família.

A história básica passa-se, como citado, durante o Carnaval. A chácara do personagem-narrador, Manfredini (é praticamente um alter-ego do autor, pois ambos mantêm muitos pontos de contato em relação à personalidade e ao histórico de vida), é invadida por dois bandidos, que estão em busca de jóias e dólares.

Crentes que o ambiente estaria vazio, começam a ver seus planos frustrados quando encontram os donos. Descontrolam-se, chegando, para ameaçar, a matar a gata de estimação do casal, Miau.

A situação piora quando são ouvidos os gritos do caseiro João, que, ao não ser respondido, pula o mulo da propriedade. O narrador consegue escapar, mas é perseguido por um dos malfeitores, até que consegue se trancar em um cômodo, não sem antes ferir gravemente com um facão o opositor que tentava impedir o fechamento da porta. Machucado, foge.

Seguindo o caminho mais simples, os donos registram queixa na delegacia e esperam a atuação da polícia para a captura dos criminosos, o que de fato foi feito. No entanto, obteve-se um resultado completamente diferente. Os bandidos alegaram que a esposa do narrador os havia convidado para um encontro conjugal no momento em que o marido não estava presente. Este, voltando inesperadamente, surpreendera a dupla e, ferido na honra, vingara-se ferindo um dos supostos traidores.

O que piora a situação é que o aparelho do Estado começa, ao invés de defender a vítima, a permitir que esta tivesse sua reputação atacada. É nesse momento que entra em ação o melhor aspecto dos romances policiais: a exposição crua das feridas do sistema social.

Esse episódio só piora a relação do personagem com o Estado, pois, como se disse, mostra a violência se voltando contra eles. Pedem ajuda para punir bandidos e acabam sendo castigados de várias formas. Em primeiro lugar, pela possibilidade de se tornarem de vítimas a réus.

Há ainda a indiferença, a zombaria e o desrespeito com que são atendidos. Além disso, a polícia faz uma perícia completamente incompetente, como se estivesse mais interessada em não resolver o caso (não procuram direito a arma do crime.

Não fazem autópsia da gata, não retiram na hora correta as balas incrustadas no teto e no chão da sala da chácara. Nem sequer verificam a presença de resíduos de pólvora das mãos dos bandidos). Sem contar que são pressionados por um ação de indenização, o que constitui um acinte típico da literatura de Kafka.

Conforme se luta por mais justiça, mais lama vai sendo jogada. Acaba-se esbarrando em obstáculos gigantescos. Um dos bandidos, Florindo dos Santos, era policial licenciado. Entra em jogo, portanto, toda a força de uma corporação protegendo um dos seus integrantes.

O pior é que ele faz parte de um esquema gigantesco arquitetado por uma máfia dentro da própria polícia, responsável pelo desvio de material apreendido, inclusive drogas. Detalhe sórdido: o soldado tinha desvios graves de comportamento, sendo até toxicômano.

O outro bandido, Pedro Paulo Machado de Mello Cavalcante, como a extensão do nome indica, é de família tão rica quanto poderosa, acostumada a usar um advogado por demais eficiente que sempre afasta o jovem de crimes ligados ao vício, como o presente caso.

Esse advogado vai ser responsável por mais decepções. Eficientíssimo (não se deve esquecer que o advogado do narrador é incompetente, mais preocupado em seguir protocolos – em busca de um arquivamento – do que em resolver o problema), conseguirá armar esquemas para salvar seus clientes e prejudicar mais ainda Manfredini. Fica a idéia de que o que funciona no Judiciário não é a justiça em si, mas a manipulação, armação.

O clímax surge quando a história vaza para a Imprensa, tão preocupada com escândalo, sensacionalismo. Cria-se uma mancha gritante na reputação daqueles que deveriam ser vistos como vítimas. Sempre que se lembrava dO Caso da Chácara Chão, associava-se à imagem de Olga como tarada ou de Manfredini como o Louco do Facão a fazer justiça com as próprias mãos, imagem esta que é piorada quando investe de maneira explosiva (atira pedras e machado) contra os inúmeros carros de som que poluem auditivamente aquele que deveria ser um bairro residencial.

Apesar dessa confusão toda, há alguns pontos de apoio. O primeiro é um amigo ligado à Imprensa, Binho, que lhe permitirá, além do acesso a informações importantes, que sua versão seja veiculada na mídia. O resultado é, de certa forma, torto. Se num primeiro instante é visto como um vilão, um louco, depois passa a ser visto como um herói, pois encarnou o desejo de todo um povo massacrado: fazer justiça pelas próprias mãos. Em suma, não é entendido, mas visto como uma caricatura.

O fundo do poço surge quando há com a Justiça uma audiência, eufemisticamente chamada de “entrevista”. Nela, fica consagrada a incompetência do Estado, que não consegue representar e nem defender o cidadão. O processo está para ser arquivado. O narrador, como sempre, explode, quase sendo preso por desacato.

A reviravolta, a princípio tímida, surge quando encontra, ainda no fórum, outro decepcionado ex-militante esquerdista, Arcanjo. Tornara-se advogado de porta de cadeia não para fazer sacanagem contra o sistema ao ajudar criminosos, mas para evitar que este atrapalhasse os direitos daqueles que não têm como se defender. E em tal situação encontrava-se Manfredini.

Sua primeira ação, imediata, já se mostra útil. Evita que o “homem-bomba” seja preso. Ainda impede a derrota fragorosa da ação. Contribui também para que seja bloqueado o processo de indenização. Mas, diante de todo o quadro que se é apresentado, pois estão lidando com bandidos do mais pesado calibre, consegue convencer o casal a retirar a queixa, na esperança de que a outra parte também o faça.

No fim, um ano se passa. Reforça-se a descrença em relação ao sistema, o que fica representado no fato de a chácara, o paraíso, ter os muros agora todo coberto de plantas dotadas de espinhos.

A decepção é tão grande que o narrador já não abre mais tanto escândalo quando um salão de festas, por demais barulhento, é inaugurado ao lado da chácara (é interessante lembrar que a fiscalização, quando aparece, fica mancomunada com o salão. Note a tirada amarga quando o protagonista relata que os fiscais saíram alegres e com alguns “presentes”).

O clímax surge num duplo combate. Os vizinhos armam uma barulheira musical para competir com o baile de Carnaval do salão. A polícia baixa. E é nesse instante que Florindo surge, para se vingar, pois com toda a questão judicial, não havia agüentado e cometera delitos, acabando por perder muitos dos seus direitos na corporação. Acha que a culpa pelo fracasso recai sobre Manfredini e sua família.

Suas intenções criminosas são, no entanto, frustradas. Olga e Verali evadem-se. Manfredini consegue fugir pela chácara. Sua enorme vantagem é que o vilão não conhece o terreno e, em meio à escuridão, acaba-se ferindo sucessivamente pelas plantas, muitas delas espinhosas. Consegue a vitória humilhante ao mesmo tempo em que o povo, irado, faz com que o salão respeite os vizinhos.

Tal final parece lembrar o campo juvenil em que o autor se especializou. Jogou-se tanta lama na cara do leitor a ponto de poder sufocar sua visão de mundo. Essa vitória da natureza é uma luz de expectativa positiva. O mundo está podre, mas não é motivo para desistência, derrotismo. É uma luta individualista, mas é a melhor arma que se tem, na presente situação social. É a alimentação de esperanças diante da vida, mais simples e mais natural possível, distante da doença em que se transformou a vida moderna.

Fonte: www.passeiweb.com

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