Quando eu era pequeno, assistia eletrizado àqueles filmes de cadeia
em branco e preto. Os prisioneiros vestiam uniforme e planejavam fugas de
tirar o fôlego na cadeira do cinema.
Em 1989, vinte anos depois de formado médico cancerologista, fui gravar
um vídeo sobre AIDs na enfermaria da Penitenciária do Estado,
construção projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo nos anos
20, no complexo do Carandiru, em São Paulo. Quando entrei e a porta
pesada bateu atrás de mim, senti um aperto na garganta igual ao das
matinês do cine Rialto, no Brás. Nas semanas que se seguiram,
as imagens do presídio não me saíram da cabeça.
Os presos na soleira das celas, o carcereiro com a barba por fazer, um Pm
de metralhadora distraído na muralha, ecos na galeria mal iluminada,
o cheiro, a ginga da malandragem, tuberculose, caquexia, solidão e
a figura calada do Dr. Getúlio, meu ex-aluno no cursinho, que cuidava
dos pre-SOS COM AIDS.
Duas semanas depois, procurei o dr. Manoel Schechtman, responsável
pelo departamento médico do sistema prisional, e me ofereci para fazer
um trabalho voluntário de prevenção à AIDs. Na
conversa, o dr. Manoel me explicou que a situação da epidemia
na Penitenciária não era das piores se comparada à dos
7200 presos da Casa de Detenção, o maior presídio do
país, situado no mesmo complexo, de frente para a movimentada avenida
Cruzeiro do Sul, vizinho do metrô, a dez minutos da praça da
Sé, quilômetro zero de São Paulo.
O trabalho começou em 1989 e dura até hoje. Com o apoio da Universidade
Paulista/UNIP, uma instituição particular de São Paulo,
fizemos pesquisas epidemiológicas sobre a prevalência do HIV,
organizamos palestras, gravamos vídeos, editamos a revista em quadrinhos
O Vira Lata, um Carlos Zéfiro dos anos 90 escrito por Paulo Garfunkel
e desenhado por Libero Malavoglia, e atendi doentes. Com os anos, ganhei confiança
e pude andar com liberdade pela cadeia. Ouvi histórias, fiz amizades
verdadeiras, aprendi medicina e muitas outras coisas. Na convivência,
penetrei alguns mistérios da vida no cárcere, inacessíveis
se eu não fosse médico.
Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, os homens, como os demais grandes primatas (orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos), criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo. Esse processo adaptativo é regido por um código penal não escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas leis são aplicadas com extremo rigor:
- Entre nós, um crime jamais prescreve, doutor. Pagar a dívida
assumida, nunca delatar o companheiro, respeitar a visita alheia, não
cobiçar a mulher do próximo, exercer a solidariedade e o altruísmo
recíproco,
conferem dignidade ao homem preso, O desrespeito é punido com desprezo
social, castigo físico ou pena de morte:
- No mundo do crime, a palavra empenhada tem mais força do que um exército. Não é objetivo deste livro denunciar um sistema penal antiquado, apontar soluções para a criminalidade brasileira ou defender direitos humanos de quem quer que seja. Como nos velhos filmes, procuro abrir uma trilha entre os personagens da cadeia: ladrões, estelionatários, traficantes, estupradores, assassinos
e o pequeno grupo de funcionários desarmados que toma conta deles. A narrativa será Interrompida pelos interlocutores, para que o leitor possa apreciar-lhes a fluência da linguagem, as figuras de estilo e as gírias que mais tarde ganham as ruas. Por razões éticas, os casos descritos nem sempre se passaram com os personagens a que foram atribuídos. Como diz a malandragem:
- Numa cadeia, ninguém conhece a moradia da verdade.
- Cadeia é um lugar povoado de maldade.
Pego o metrô no largo Santa Cecília, na direção Corinthians-Itaquera, e baldeio na Sé. Desço na estação Carandiru e saio à direita, na frente do quartel da Pm. Ao fundo, a perder de vista, a muralha cinzenta com os postos de vigia. Vizinho do quartel abre-se um pórtico majestoso: CASA DE DETENÇÃO, EM letras pretas. O portão da rua leva a um pátio de estacionamento lotado de carros. Por ele circulam advogados, mulheres com sacolas e funcionários corpulentos de calça jeans que falam do trabalho, riem uns dos outros e mudam de assunto quando um estranho se aproxima. Há que cumprimentá-los com decisão; caso contrário, dá vontade de gritar de dor quando a mão é esmagada no aperto. Trinta passos para dentro fica o predinho da Administração, fechado por um portão verde no qual se acha recortado um portãozinho para pedestres. Para entrar, não é necessário bater; bastá aproximar a cabeça da janela do portãozinho que por telepatia o rosto do porteiro aparece mal iluminado, lá dentro. A abertura obedece à velha rotina das cadeias, segundo a qual uma porta só pode ser aberta quando a anterior e a se guinte forem fechadas.
É de boa educação esperar sem inúteis demonstrações de impaciência. Ouço a batida do destranque e caio na Ratoeira, um átrio gradeado com dois guichês rasgados à esquerda, para o visitante se identificar. De entre os guichês sai um corredor que dá acesso à sala do diretor-geral, ampla e cheia de luz. A mesa é antiga.
Na parede atrás dela, uma foto do governador. Mais abaixo, um dos diretores, cadeeiro de muitos anos, afixou uma placa de cobre: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar preso na Casa de Detenção". Retorno à Ratoeira, espero abrir o portão interno e fico de frente para a muralha que circunda a cadeia, vigiada por policiais militares armados com submetralhadoras. Passo para a Divinéia, um pátio amplo em forma de funil.
Na parte estreita fica a sala de Revista Corporal, parada obrigatória dos que entram, exceto médicos, diretores e advogados. Antes do acesso aos pavilhões, é preciso entrar nesta sala e levantar os braços diante dos revistadores, que se limitam a bater as mãos na cintura e na face lateral das coxas do revistado. Revistar é outro ritual de cadeia.
Engana-se, no entanto, quem julga pura encenação tão mecânica revista: volta e meia alguém é flagrado com droga, vai preso e cumpre pena nas dependências do coc (Centro de Observação Criminal). Uma vez, cinco presos do pavilhão Cinco, armados de facas, tomaram funcionários como reféns na Lavanderia, para conseguir transferência de presídio. A porta da cadeia ficou cheia de polícia e repórteres com câmeras. Um funcionário aproveitou a confusão para entrar com um quilo e meio de cocaína. Foi pego na Revista. Seu Jesus, diretor de Vigilância, ex-lutador profissional de luta livre, hoje pastor protestante, fez o que pôde para identificar o destinatário da encomenda: - É melhor contar. Olha a tua situação, meu: de manhã, você chega no trabalho como chefe de família, respeitado; à tarde, sai daqui preso. Vai pegar cinco ou seis anos lá no coc.
Teus meninos, agora, são filhos de bandido. Tua esposa não é mais senhora de um servidor público, é mulher de malandro. O apelo emocional foi de pouca valia para a Vigilância. O convívio, mestre persistente, havia ensinado ao carcereiro-traficante o mandamento supremo da marginalidade:
- O Crime é silêncio.
Outro dia, um funcionário do pavilhão Oito, atarracado, de bigode, quis entrar com um pacote de crack amarrado à face interna das coxas. O revistador, que andava meio desconfiado, descobriu. Surpreendido, o rapaz atarracado saiu correndo para dentro da cadeia com o objetivo de atingir o Oito, no fundo do complexo, onde poderia contar com a ajuda dos proprietários da droga para se livrar do flagrante. Não atingiu o intento; na correria, foi derrubado pelos colegas.
Do lado da Revista fica a Copa da diretoria, construção recente executada pelos próprios presos. Um deles, quando a obra estava no final, fez questão de me mostrar o trabalho; com os olhos brilhando de orgulho, apontava as tábuas do teto caprichosamente alinhadas por ele e um companheiro estrábico que se perfilava a seu lado, balançando vigorosamente a cabeça em anuencia completa às explicações do marceneiro -chefe. No final, apertei-lhes a mão em despedida. Só então escutei a voz empostada do ajudante:
- Reeducando Xavier às suas ordens, doutor.
A Divinéia é cheia de movimento durante o dia. Tudo o que entra ou sai da cadeia passa obrigatoriamente por ela. Sem atravessá-la, só pulando a muralha ou cavando túnel. Caminhões descarregam comida, tijolos, madeira e material para o trabalho nos Patronatos, além de retirar toneladas de lixo. Humanamente impossível revistar tudo o que entra. Paralisaria o presídio. É na Divineia o ponto final dos camburões que trazem os presos ou que os levam para fora: depoimentos no Fórum, reconhecimento nos distritos ou transferência para outros presídios - procedimento chamado de "bonde", na linguagem da cadeia. Os que chegam descem algemados pela porta de trás do camburão, ofuscados pela luz repentina. À noite, com a Divinéia escura, a cena de chegada na cadeia provoca melancolia.
A Detenção tem mais gente do que muita cidade. São mais de 7 mil homens, o dobro ou o triplo do número previsto nos anos 50, quando foram construídos os primeiros pavilhões. Nas piores fases, o presídio chegou a conter 9 mil pessoas.
Como o trabalho de carga e descarga fica por conta dos detentos, é na Divinéia o meu primeiro contato com eles. Facílimo reconhecê-los, basta olhar para a calça de cor bege, uniforme obrigatório. Paletó é proibido, o cabelo tem que estar curto. Não podem andar descalços, de peito nu ou a barba por fazer. Camisa, malha e blusão são livres. A camiseta é soberana. A alvinegra do Esporte Club Corinthians Paulista é disparado a mais popular, bate as do Palmeiras, São Paulo e Santos somadas. Em época de Copa, a da seleção tinge os corredores de canário, depois rareia e desaparece. Camiseta-propaganda de político ninguém usa, pega mal no ambiente.
Em minha direção vem um malandro desdentado, na ginga, sandália de dedo e uma T-shirt impecável da New York University:
- Chegando, doutor?
- Estou. Como foi o fim de semana?
- Suave.
Na parte ampla do funil que é a Divinéia, o pátio é fechado por um paredão com figuras natalinas pintadas anos atrás: um pastorzinho contra o céu estrelado, montanhas com neve e três ovelhinhas bondosas. Atrás delas, erguem-se os andares superiores do pavilhão Seis, central.
Do lado esquerdo da Divinéia, há um bosque com macaquinhos
nos galhos e um coreto inútil. Entre as árvores, um caminho
asfaltado leva ao portão que conduz aos pavilhões Dois, Cinco
e Oito.
Do lado oposto, vizinho à Copa da diretoria, há um canteiro
de flores e uma fontezinha assentada num receptáculo de caco de cerâmica,
no qual um dia nadaram peixinhos or namentais. A fonte é despojada:
três discos revestidos com azulejos azuis, de diâmetros crescentes
do topo para baixo, concêntricos em torno de um eixo de concreto.
Do disco superior, escorre sobre os outros um minguado fio de água, exausto para a tarefa de projetar-se ao alto e na queda oxigenar a água em que viveram os peixinhos, conforme a concepção original. É uma obra que não faz justiça à tradição brasileira no campo dos chafarizes. Deste lado, em posição simétrica à que dá acesso ao Dois, entre o jardim caipira e a fonte, fica o portão de entrada para os pavilhões do lado direito da cadeia: o da frente é o Quatro, depois vêm o Sete e o Nove. No último andar do Quatro está situada a enfermaria, local de muitas histórias contadas neste livro.
A Detenção é um presídio velho e malconservado. Os pavilhões são prédios cinzentos de cinco andares (contado o térreo como primeiro), quadrados, com um pátio interno, central, e a área externa com a quadra e o campinho de futebol.
As celas ficam de ambos os lados de um corredor - universalmente chamado
de "galeria" - que faz a volta completa no andar, de modo que as
de dentro, lado 1, têm janelas que dão para o pátio interno
e as outras para a face externa do prédio, lado E. Paredes altas separam
os pavilhões, e um caminho asfalta do, amplo, conhecido como "Radial",
por analogia a movimentada avenida da zona leste da cidade, faz a ligação
entre eles.
O portão de entrada dos pavilhões é guardado por um funcionário
sem armas nem uniforme. Para diferenciálos dos presos, os carcereiros
vestem calça escura ou jeans. É proibido entrar no presídio
com armas, exceção feita ao temido pelotão de Choque
da Pm, nos dias de revista geral.
As celas são abertas pela manhã e trancadas no final da tarde. Durante o dia, os presos movimentam-se com liberdade pelo pátio e pelos corredores. Cercade mil detentos possuem cartões de trânsito para circular entre os pavilhões. São faxineiros, carregadores, carteiros, estafetas, burocratas, gente que conta com a confiança da administração, além daqueles que os conseguem por meios ilícitos. Para os funcionarios, esse passa-passa torna a cadeia incontrolável, e, se cada pavilhão pudesse ser isolado como unidade autônoma, ficaria mais fácil vigiar.
Por segurança, a entrada do pavilhão é gradeada em forma de uma gaiola constituída pela porta externa e pelas internas, que bloqueiam o acesso à escada e à galeria do térreo. O mesmo sistema de gaiolas repete-se na entrada de todos os andares. Com as gaiolas trancadas, quem vem pela galeria é obrigado a abrir duas portas para ter acesso à escada do andar e, ao atingir o térreo, outras duas, na gaiola de baixo, para sair do pavilhão. Não há portas elétricas como nos filmes: o abre e fecha é no braço. No folclore do Casarão há muitas menções às "ruas Dez" palcos tradicionais de disputas violentas.
Na verdade, rua Dez nada mais é do que o trecho da galeria oposto à gaiola de entrada do andar, do outro lado do quadrado, longe da visão dos guardas, que, para atingi-la, são obrigados a percorrer as galerias laterais, onde ficam expostos à visão dos "olheiros" estrategicamente dispostos nas duas esquinas da Dez, nos momentos mais agudos. Não há briga de soco na rua Dez, paulada e facada é que acertam diferenças sob o olhar excitado dos circunstantes.
O perdedor, quando sai vivo, desce para a Carceragem e pede transferência de pavilhão, geralmente para o Cinco. O adversário melhora a posição no ranking. Outras vezes, o condenado à morte é atraído para lá e esfaqueado por um grupo de composição variável. Nessas situações, há quem aproveite para dar um golpe a mais mesmo em alguém que nenhum mal lhe causou. O velho Jeremias, de carapinha branca, sobrevivente de quinze rebeliões e pai de dezoito filhos com a mesma mulher, não considera a valentia o ponto forte dos agressores:
- Tantos anos na cadeia, doutor, e nunca vi ninguém matar alguém sozinho. Chega a juntar vinte, trinta, para meter a bicuda naquele que vai morrer. Pode ser forte que for, não tem defesa. A cadeia perversa a mente do sentenciado num tanto tal, que o cara está levando os golpes muitos que não têm nada a ver com a fita pegam carona na desgraça do alheio e soltam a faca também, só de maldade. Isso aqui, é a maior covardia!
No térreo dos pavilhões ficam os setores de apoio: eletricidade, hidráulica, uma sala de atendimento médico, a Carceragem com os arquivos dos presos, a escolinha as igrejas. Em cima das mesas não há computadores, apenas máquinas de escrever. Diante delas, sentam-se funcionários auxiliados por equipes de detentos encarregados da burocracia. Na parede, invariavelmente, há um quadro-negro com os dados numéricos do pavilhão. O fluxo de transferências? libertações é intenso.
A população da Casa é móvel: cerca de 3 mil homens são libertados ou transferidos anualmente. Construída para albergar apenas presos à espera de julgamento, a Detenção transformouse numa prisão geral. Ao lado de ladrões primários condenados a poucos meses, ali cumprem pena criminosos condenados a mais de um século.
Embora a arquitetura externa dos pavilhões seja semelhante, suas divisões internas e a geografia humana são bem diferentes. Como vimos, quem vem da rua para a Divinéia fica de frente para o pavilhão Seis, central. Da entrada para o fundo, à esquerda, vêm os pavilhões Dois, Cinco e Oito. À direita, em posição simétrica, o Quatro e depois o Sete e o Nove.
PAVILHÃO DOIS
É a entrada da cadeia. Vivem ali oitocentos presos que cui dam da Administração: Chefia, Carceragem, serviço de som e refeitório dos funcionários. Além dos setores de apoio, no térreo do Dois funcionam a alfaiataria, a barbearia, a fotografia, a rouparia e a laborterapia, que controla a remissão de pena à qual fazem jus aqueles que trabalham (para cada três dias trabalhados, o detento ganha um de remissão da pena).
Ao chegar na Casa, o preso desce do camburão na Divinéia e
vai direto para o Controle Geral do Dois, encarregado de registrá-lo,
fotografá-lo e distribuí-lo para os diferentes pavilhões.
É no pátio interno do pavilhão Dois que acontece o ritual
de chegada: o detento é registrado, fica de cueca na frente de todos
e deposita a roupa na Rouparia. Recebe a calça cáqui, chamada
de "calça jega". e corta o cabelo modelo "tigela",
primeiro e último corte gratuito na cadeia.
O corte dos "triagens" é único. Parece, de fato, que colocaram uma tigela pequena no topo da cabeça e passaram a máquina zero da beirada para baixo. Dá ao recém-chegado um ar tosco, especialmente no caso dos mais velhos.
Despersonalizado, o novato é recolhido na Triagem Um, no térreo, uma cela de oito metros por quatro, lotada de acordo com o número de detentos que a Casa recebeu naquele dia. Dali, no dia seguinte, vai para a Triagem Dois, no terceiro andar, aguardar a distribuição, que é feita obrigatoriamente por um dos três diretores: o diretor-geral, o de Disciplina ou o de Vigilância. Fechada durante as 24 horas do dia, esta cela chega a albergar sessenta, setenta e até oitenta homens, dependendo do fluxo de entrada.
Quando ocorrem rebeliões nos distritos policiais, podem chegar cinqüenta ou mais presos de uma vez só. Numa dessas, recentemente, duzentos detentos vieram transferidos. Como se queixam os funcionários, sempre cabe mais gente:
- Isso aqui é pior do que coração de mãe.
Ou, numa visão mais prosaica:
- Aqui desemboca o esgoto da cidade.
Na distribuição, o diretor reúne grupos de dez a quinze triagens que, respeitosamente, de mãos para trás, ouvem as normas da Casa:
-Vocês estão chegando na Casa de Detenção de São Paulo para pagar uma dívida com a sociedade. Aqui não é a casa da vovó e nem da titia, é o maior presídio da América Latina. Aqueles que forem humildes e respeitarem a disciplina, podem contar com os funcionários para ir embora do jeito que a gente gosta: pela porta da frente, com a família esperando. Agora, o que chega dizendo que é do Crime, sangue nos olhos, que é com ele mesmo, esse, se não sair no rabecão do Instituto Médico Legal, pode ter certeza que vamos fazer de tudo para atrasar a vida dele. Gente assim, nós temos mania de esquecer aqui dentro.
Cuidado especial é dedicado à segurança dos recém-chegados. Seu Jesus, diretor de Vigilância, tem uma forma peculiar de abordar o problema:
- Se algum dos senhores por acaso tem dificuldade de relacionamento social num dos pavilhões, não faça cerimônia, meu filho, pode abrir o coração comigo. Deixa a gente ajudar agora, antes que seus inimigos o façam.
A seguir, de um em um, para certificar-se do tipo de crime que resultou na condenação e já prevendo a invariável negativa de autoria, pergunta sério:
- Qual foi o delito que dizem que o senhor cometeu?
O critério de distribuição não é rígido, mas obedece às regras básicas. Por exemplo, artigo 213 - estupro - normalmente é encaminhado para o pavilhão Cinco; reincidentes, no Oito; primários, Nove; e os raríssimos universitários vão morar nas celas individuais do pavilhão Quatro. Na Triagem, muitos pedem para ficar no próprio Dois. Devido à disponibilidade de trabalho e, talvez, por situar-se na frente do presídio, mais próximo da Administração, o pavilhão tem fama de tranqüilo:
- Lá é mais fácil correr atrás da liberdade.
Fica do lado oposto, simétrico ao Dois. Contém menos de quatrocentos presos, alojados em celas individuais, caso único na Detenção. Durante a triagem, quando o recém-chegado pede para ser designado para o Quatro, o diretor responde:
morar.
- Não diga?... No Quatro, meu filho, até eu gostaria de
A intenção original era a de que fosse um pavilhão exclusivo do Departamento de Saúde. De fato, no térreo estão os xadrezes dos presos com tuberculose e no quinto andar funciona a enfermaria geral. No entanto, por necessidade de proteção aos marcados para morrer, a direção foi obrigada a criar um setor especial no térreo, a "Masmorra", de segurança máxima o pior lugar da cadeia.
A Masmorra fica em frente à gaiola de entrada do pavilhão. É guardada por uma porta maciça, ao lado da qual uma placa avisa que é terminantemente proibida a entrada de qualquer pessoa não autorizada. São oito celas de um lado da galeria escura e seis do outro, úmidas e superlotadas. O número de habitantes do setor não é inferior a cinqüenta, quatro ou cinco por xadrez, sem sol, trancados o tempo todo para escapar do grito de guerra do Crime:
- Vai morrer!
Ambiente lúgubre, infestado de sarna, muquirana e baratas que sobem pelo esgoto. Durante a noite, ratos cinzentos passeiam pela galeria deserta.
A janela do xadrez é vedada por uma chapa de ferro fenestrada, que impede a entrada de luz. Por falta de ventilação, o cheiro de gente aglomerada é forte e a fumaça de cigarro espalha uma bruma fantasmagórica no interior da cela. Tomar banho exige contorcionismo circense embaixo do cano na parede ou na torneira da pia, com uma caneca.
A Masmorra é habitada pelos que perderam a possibilidade de conviver
com os companheiros. Não lhes resta outro lugar na cadeia; nem nas
alas de Seguro, como o Amarelo do Cinco, por exemplo. Mofam trancados até
que a burocracia do Sistema decida transferi-los para outro presídio.
O nome "Masmorra" periodicamente chama a atenção da
imprensa e das organizações de defesa dos direitos dos presos
e obriga a Corregedoría a inspecionar o local.
Numa destas visitas o diretor-geral, irritado com o juiz corregedor que o culpava pela situação desumana em que viviam os habitantes da ala, propôs-lhe com firmeza:
- Doutor, vou abrir cela por cela e o senhor vai perguntar quem aceita ser transferido daqui para qualquer pavilhão da Casa. Se eles estiverem de acordo, transfiro todo mundo e fecho o setor na sua presença.
Após a abertura do segundo xadrez, o corregedor entendeu que o desejo de cada um era mudar de presídio, só que se recusavam a sair da Masmorra enquanto não cantasse a transferência, por se julgarem protegidos naquele local.
Em dia de sol, no pátio do Quatro, o visitante vai encontrar muitos presos em precárias cadeiras de roda. Quase sempre são ladrões que perderam o movimento das pernas em tiroteios, e cumprem pena no Quatro para cuidar das sondas urinárias e das escaras que não cicatrizam. Além disso, podem utilizar o elevador do pavilhão, o único que ainda funciona na cadeia. Os paraplégicos são muito respeitados pelos companheiros, que costumam auxiliá-los nas tarefas diárias.
No segundo andar, há um trecho da galeria cujas celas são identificadas com um cartão afixado: "DM" , sigla que identifica os "doentes mentais". O critério para lhes atribuir tal rótulo é incerto, uma vez que não existe serviço especializado em psiquiatria na Casa. Alguns dos DMS já chegaram com distúrbios sérios de comportamento, outros entraram em surtos psicóticos na própria cadeia e avançaram sem motivo para esganar o companheiro, tentaram suicídio, desenvolveram quadros depressivos graves ou esgotaram o cérebro no cachimbo de crack.
Genival, um dos habitantes do setor, diz que perdeu o juízo por causa da visão de um senhor que ele matou num assalto:
- Quando a noite caía, a alma penada dele vinha me assombrar, na escada, na galeria e até no xadrez trancado. Tentei me suicidar duas vezes para escapar da perseguição.
Como nos manicômios do século xix, passam o tempo reclusos em seus xadrezes. A medicação psiquiátrica que recebem é praticamente a mesma para todos. A situação desses presos só não é pior por causa da dedicação comovente de um cearense de cabelo ondulado convertido a pastor do Exército da Salvação, condenado a doze anos por crimes que ele dizia fazer de tudo para esquecer, que chefiou por muito tempo um grupo de auxiliares encarregados da higiene, da medicação e de dar comida na boca dos que não conseguiam se alimentar. A falta de médicos especializados em distúrbios psiquiátricos permite que a malandragem mau caráter simule quadros psicóticos para se refugiar entre OS DMs e escapar da vingança dos inimigos.
Como diz Bigode, um homem de caráter forte, antigo no pavilhão, chefe de uma quadrilha de piratas no porto de Santos, cumprindo 213 anos:
- Para se livrar da patifaria que aprontou, ele finge que perdeu o juízo e vem parar no meio dos DMS, no Quatro. Ama nhã vai para a rua e ainda tira uma que cumpriu pena na Detenção, que ele é do Crime, sangue bom.
O castigo destes pode vir através da medicação psiquiátrica prescrita, que provoca impregnação e impõe dificuldade de coordenação motora, tremores, descontrole dos esfincteres e outras alterações neurológicas. Por imperativos de segurança, discretamente a diretoria manda para o Quatro alguns estupradores e justiceiros, bandidos geralmente contratados por comerciantes da periferia para matar ladrões do bairro. Como o pavilhão é menos populoso, mais tranqüilo, os praticantes desses delitos têm mais chance de escapar da ira coletiva. A presença oculta deles, no entanto, cria um clima de desconfiança em relação ao pessoal do Quatro:
- Ali, ninguém sabe quem é e quem não é.
É o que está em pior estado de conservação. Fica do lado oposto ao Quatro, vizinho do Dois. Tem escadas com degraus desbeiçados, fiação elétrica por fora das paredes infiltradas pelos vazamentos, água empoçada e lâmpadas queimadas na galeria. Nas janelas, a malandragem hasteia mastros para secar a roupa. Clima de cortiço.
É o pavilhão mais abarrotado da cadeia. Movimento intenso nos corredores. Há momentos em que não se consegue alojar um preso a mais sequer. Moram ali 1600 homens, o triplo do que o bom senso recomendaria para uma cadeia inteira. Para tomar conta deles, a Detenção escala de oito a dez funcionarios durante o dia e cinco ou seis à noite, às vezes menos.
No primeiro andar, além da Carceragem, da enfermaria e da sala de aula com uma biblioteca pobrezinha, fica a Isolada, um conjunto de vinte celas que guardam de quatro a dez homens espremidos em cada uma. São detentos pegos em contravenções locais, como porte de arma, pinga, tráfico, desrespeito aos funcionários ou plano de fuga. Cumprem trinta dias nesse lugar abafado, escuro, com ajanela coberta por uma chapa perfurada igual à da Masmorra. Tranca dura, permanente. Os trinta dias sem sol.
Seu Lupércio, com mais de oitenta anos e dezenas de entradas e saídas na Casa por fumar e vender maconha, diz que isso não é nada:
- Antigamente trancava tantos numa cela, que precisava fazer rodízio para dormir. Metade ficava em pé, quietinho para não acordar os outros. Na troca de turno é que aproveitava para urinar. Precisava comer pouco, porque não podia evacuar o intestino no xadrez. Só quarta e sábado, quando destrancava por uma hora para o banho e as necessidades. Castigo durava noventa dias, não era essa moleza de trinta como agora.
No segundo andar moram os presos integrantes da Faxina, encarregados da limpeza geral e da distribuição das refeições, além dos que trabalham nos patronatos, no judiciário e na entrega das sacolas de alimentos trazidas durante a semana, para quem tem a felicidade de contar com família.
O terceiro andar é conhecido como o dos estupradores e justiceiros, também chamados de "pés-de-pato" , embora nem todos os seus ocupantes pertençam a essas categorias. A experiência recomenda colocar os estupradores junto com os justiceiros, para que os dois grupos se protejam em caso de vingança da massa carcerária, que não perdoa o estupro e odeia caçadores de ladrões. No quarto andar moram os que não conseguiram lugar melhor, outros que foram expulsos dos pavilhões devido a mau procedimento ou derrota em disputas pessoais, além de mais estupradores e justiceiros. Nesse andar, porém, o que chama a atenção do visitante é a presença dos travestis, com as maçãs do rosto infladas de silicone, calças agarradas e andar rebolado. Durante o dia, alguns fazem ponto na porta das celas.
No último andar, à direita, fica a ala da Assembléia de Deus, o grupo evangélico de presença mais forte na Casa. São inconfundíveis: jamais calçam tênis, sempre de sapato, camisa de manga comprida abotoada no colarinho e a Bíblia preta desbotada. Moram na ala mais de quinhentas pessoas que rezam dia e noite sob a supervisão de um enérgico pastor-chefe e seus auxiliares. É uma igreja e um centro de recuperação ao mesmo tempo.
Vizinho dos crentes, à esquerda, ainda no quinto andar, fica o Amarelo, um conjunto de segurança fechado 24 horas por dia. Vão para o Amarelo os que estão ameaçados de morte e alguns infelizes que, simplesmente, não têm onde morar. Vi vem no Amarelo de quinhentos a seiscentos presos, quase 10% da população da Casa, pelo menos seis ou sete em cada xadrez de três metros por dois de largura.
O Cinco é o pavilhão dos sem-família, dos sem-teto e dos "humildes" Embora homens respeitados cumpram pena nas suas dependências, no conceito da malandragem é o pavilhão da ralé. Vi ladrão barbado chorar feito criança ao ser transferido para lá.
Como na população local misturam-se justiceiros, estupradores, delatores e presos que estão em dívida com outros, os habitantes do Cinco, conscientes do perigo que correm, precisam estar preparados para se defender. Podem passar anos em paz, mas um dia a cadeia vira e eles acabam na ponta de uma faca. Como diz a malandragem:
-Aqui, quem tem mancada no Crime vive em sobressalto.
Por isso o Cinco, além de tradicional produtor de "maria - louca" , a pinga destilada clandestinamente, é considerado o pavilhão mais armado:
- O Cinco é a fábrica de faca da cadeia.
Fica entre o Dois e o Quatro. É o único em posição central no complexo. Tem cerca de trezentos presos. No térreo funcionou a Cozinha Geral até 1995, quando ela foi desativada e a Casa passou a receber a comida dos presos em quentinhas. As instalações, no entanto, ainda continuam no local: enormes panelas de pressão com o revestimento externo amassado, piso destruído, azulejos despregados e goteiras do teto. À noite, a Cozinha abandonada parece cenário de filme expressionista. No segundo andar há um auditório enorme, no qual chegamos a reunir mais de mil detentos em palestras sobre prevenção à AIDS.
Nesse local funcionou um cinema, até ser des truído numa rebelião. Daí em diante ficou apenas o grande salão, com um palco de madeira elevado, na frente. No segundo e no terceiro andar do Seis funcionam as salas destinadas à Administração: Vigilância, Disciplina, Departamento de Esportes, Judiciário e diretoria de Valorização Humana.
As celas começam no quarto andar. Dois, três, cinco, até quinze prisioneiros em cada uma delas. No quinto andar, um setor chamado mps (Medida Preventiva de Segurança) foi criado como alternativa à superlotação do Amarelo; entretanto, devido ao impacto desagregador do crack na ordem interna, inaugurado, o mps lotou imediatamente.
Quem visita o Seis encontra rodinhas de homens negros falando uma língua
estranha. São nigerianos conversando no dialeto nativo (embora quase
todos falem inglês e às vezes português, com sotaque forte).
Fazem parte da conexão nigeriana do tráfico de cocaína,
detidos no país e aqui obrigados a cumprir pena.
Caçapa, um ladrão que cumpre cinco anos no Seis, que ganhou
20 mil dólares num assalto a banco, com os quais comprou um mercadinho
no bairro da Pedreira e, assim, atendeu aos apelos da mulher para que abandonasse
o crime e que seis meses depois, para não perder a moral, teve que
perseguir e matar os dois adolescentes que assaltaram o referido estabelecimento,
tem a respeito dos nigerianos uma opinião que reflete a da maioria:
- Se o senhor pergunta, eles respondem e não esticam o assunto; se não pergunta, eles ficam na deles. Eles não são do Crime, são aventureiros do tráfico, não ajudam e nem atrasam a vida do ladrão, são humildes, sangue bom. A gente enaltece a pessoa deles.
Quem está na Divinéia de frente para o pavilhão Seis, central, fica com o Sete à sua direita, vizinho do Quatro. Os xadrezes do Sete contêm de três a seis pessoas, no máximo, e a maioria dos presos trabalha. No térreo, como nos outros pavilhões, funcionam a burocracia, os setores de manutenção e o Patronato, que organiza o trabalho encomendado de fora: colocar espirais em caderno, elásticos em pastas, construção de miniaturas de barcos a vela (antiga tradição das cadeias brasileiras), costurar bolas de futebol e outras tarefas manuais.
No segundo andar mora a Faxina, constituída por um grupo de vinte a trinta presos, e nos outros andares os demais habitantes, distribuídos sem ordem aparente.
No quinto andar, estão os xadrezes reservados aos que cumprem castigo. No pátio há uma quadra de esportes e dois campinhos de futebol empoeirados, palcos de batalhas futebolísticas nas quais os atletas não chegam propriamente a primar pela técnica, muito menos pela elegância do vestuário.
O Sete foi construído para ser um pavilhão de trabalho e assim permanece. A ocupação, as práticas esportivas e a relativa ausência de superlotação são responsáveis pela fama de calmo atribuída ao pavilhão. De fato, muitas vezes passam-se dois ou três anos sem ocorrer uma única morte em suas dependências. Por ser o pavilhão mais próximo da muralha, no entanto, o Sete é o local preferido para as fugas subterrâneas:
- O Sete é a fábrica de túnel da cadeia.
Fica atrás, à esquerda, e forma, com o Nove, o "fundão" do presídio:
- O problemático fundão.
O pavilhão é quadrado como os outros, porém enorme, as galerias chegam a ter quase cem metros de comprimento. No total, moram no Oito cerca de 1700 pessoas, mais de seis vezes a população da prisão americana de Alcatraz, desativada nos anos 60.
No segundo andar ficam as celas dos faxineiros, de 150 a duzentos homens. Nos andares de cima, nos xadrezes que dão para o pátio interno, vivem em média seis pessoas. Já os da fachada externa do pavilhão podem ser semicoletivos e albergar dois ou três homens, ou coletivos, com dez a doze. No quinto andar há oito celas de Castigo, semelhantes às dos outros pavilhões.
No térreo, além das seções burocráticas, funcionam uma capela católica, os templos da Assembléia de Deus, a Igreja Universal, a Deus é Amor e o Centro de Umbanda.
No pátio do Oito, além de uma quadra esportiva, está o maior campo de futebol da cadeia. No chão batido são disputados os campeonatos internos e as partidas contra os times da rua que a convite enfrentam a seleção da cadeia. Nessas ocasiões, pobre daquele que desrespeitar um visitante. Os xadrezes do Oito, assim como os do Sete, do Cinco e do Nove, têm proprietários, prática tradicional da Detenção que será explicada mais adiante. Por isso, quem não tem de trezentos a quatrocentos reais para comprar a cela de um companheiro vai morar nas "duchas" do Oito. Nestas, anteriormente destinadas aos banhos coletivos, moram de seis a dez pessoas num espaço de três metros de comprimento por dois. Há uma ducha no terceiro, no quarto e no quinto andar. A principal característica do Oito, no entanto, não está na planta física ou na superlotação, mas na paisagem humana. Vão para lá os reincidentes no crime; réus primários são raros. A concentração de presos conhecedores das leis da cadeia estabelece regras de comportamento bem definidas.
Rolney, um ladrão da zona sul que cumpriu doze anos no pavilhão e foi libertado, mas retornou porque ao surpreender a mulher morando - na casa que era dele - com seu melhor amigo, convidou o rival para uma cerveja no bar da favela e quando este tentou consolá-lo dizendo que a vida era assim mesmo, matou-o com dois tiros para provar que não, caracteriza o Oito da seguinte forma:
- Aqui mora quem já passou pelo jardim-de-infância da cadeia. Entre nós não existem meias palavras. Não pode confundir a com b. Ou é ou não é. Se não é, morreu.
Gersinho, portador do vírus da AIDs, dezenove anos, assaltante primário aceito no pavilhão porque um ladrão que o viu nascer, e que talvez tenha sido namorado de sua mãe, convidou-o para morar em seu xadrez, diz que aprendeu muito com a convivência:
- No Oito, cada qual carrega sua cruz, calado. O sofrimento dos anos de cadeia ensina o sentenciado a se trancar na própria solidão. É uma escola de sábios.
O pavilhão é para aqueles com nome feito no Crime. Geralmente,
o habitante do Oito é mais velho e não se envolve em confusão.
Olha, escuta e fica quieto.
Não age, reage:
- Faz como a cascavel: só dá o bote quando pisam nele.
Faz par com o Oito, no fundo. Chega a ter mais de 2 mil presos, a maioria condenada pela primeira vez. As dimensões, a organização dos setores de serviço e a distribuição dos xadrezes é a mesma do Oito. As semelhanças param por aí, entretanto.
No Nove, existem duas celas de triagem com um número de prisioneiros que pode chegar a trinta, dormindo no chão, espremidos, tomando cuidado para não encostar o rosto nos pés do companheiro. As Triagens ficam trancadas o tempo todo. Os presos só descem para receber as visitas aos domingos ou às quartas-feiras das oito às quinze, quando são liberados para procurar xadrez, tarefa árdua para os novatos desconhecidos, porque o direito de posse da moradia, como dissemos, é dos ladrões há muito tempo. Na reforma que o pavilhão sofreu depois do massacre de 1992, os beliches de madeira varados de bala foram substituídos por lajes de concreto. Por essa razão, no Nove, quem não tem condições financeiras para comprar um xadrez inteiro pode adquirir apenas o direito de exclusividade da "pedra", ou cama.
Assim que os triagens chegam, os outros sobem para ver se entre eles há amigos ou inimigos. Nesse caso, o desafeto é ameaçado de morte e tem duas alternativas: pedir refúgio, desmoralizado, no Amarelo do Cinco, ou enfrentar o desafio e as facas do inimigo e seus parceiros. Como dizem os funcionários:
- O Nove é um pavilhão de encontro.
Embora a direção propositalmente mantenha alguns presos mais experientes no Nove, a alta concentração de jovens impetuosos é responsável pelas freqüentes confusões criadas no pavilhão.
Imediatamente depois do massacre de 1992, um faxineiro do Oito condenado a 27 anos por assalto a um banco na XV de Novembro, no centro de São Paulo, no qual perdeu a vida o gerente, fez a seguinte crítica aos companheiros do Nove:
- É tudo cabeça- de-bagre, doutor. No meio de uma bagunça daquelas, deixar os funças ir embora e ficar só os presos para dentro do pavilhão é pedir para a PM invadir. Um barato daqueles jamais teria se passado no Oito.
Majestade, assaltante dos anos 70 que cumpre pena há vinte anos sem sair do Nove, diz que a diferença em relação ao Oito é a seguinte:
- Em nenhum dos dois pode pisar no ovo, só que no Oito é você mesmo que coloca o ovo. No Nove, são os outros, e ainda espalham sabonete no chão para escorregar.