Cheguei no ambulatório e o Arnaldo não estava. Sem ele, o atendimento ficava complicado por causa da burocracia com as fichas médicas e a liberação de medicamentos. Perguntei por ele:
Está resolvendo um probleminha na enfermaria e já volta. Arnaldo demorou e eu resolvi procurá-lo. Encontrei-o no corredor discutindo com um grupo de doentes. Conversa tensa; acusavam-no de não entregar a medicação prescrita. Um preso com o corpo queimado voltou-se para mim:
- Desculpa, doutor, estamos resolvendo um problema com o companheiro aqui que está dando mancada.
Para acalmar os ânimos eu disse que o Arnaldo trabalhava há três meses na enfermaria e que eu não tinha queixas dele. Um rapaz franzino, dos mais exaltados na roda, respondeu:
- É por isso que ele está tendo a oportunidade de se defender. Porque já tinha mano dizendo que amanhã, quando ele fosse entregar os remédios no fundo da galeria, o caminho seria sem volta.
Nesse momento, veio pela galeria um rapaz escuro e parou a um metro da rodinha. Sua aproximação foi precedida pelo silêncio dos outros:
- Não acredito que vocês estão debatendo um problema desses na presença do médico. Onde nós estamos?
A interferência dele acabou com a discussão. Um a um, os debatedores se dispersaram. No final do ambulatório mandei chamar o rapaz que acabou com a briga. Nego-Preto a seu dispor, disse ele. Pedi-lhe que interviesse para evitar violência contra o Arnaldo. Respondeu que eu podia ficar tranqüilo, a situação já estava resolvida.
Depois disso, sempre aparecia para conversar, contava casos da cadeia e falava das preocupações com a família, principalmente com o filho mais velho, adolescente sem juízo, que não obedecia à mãe.
O passado de Nego-Preto era semelhante ao dos outros, a infância nas ruas de terra da periferia, muitos irmãos e más companhias. Na década de 70, o pai esteve preso por nove anos na Detenção, e quando saiu não era o mesmo:
- Devido que ficou transtornado.
A prisão de Nego-Preto ocorreu após uma sucessão de acontecimentos a partir de um assalto a uma joalheria da Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo:
- Combinamos de se encontrar os tres na esquina do assalto. Nove horas, saí da favela e fui catar um carro com o revólver. O Marlon, meu vizinho de barraco, passou na casa do Escovão.
Quando entraram foi rápido. Os balconistas entregaram tudo o que
reluzia e mais o dinheiro do cofre. Os três saíram sem correr,
dobraram a esquina, pegaram o carro roubado e fugiram na direção
de Santana. De lá, para o Parque Edu Chaves. Largaram o Opala na Fernão
Dias e entraram pela favela com o produto do roubo.
No barraco, mal começou a partilha, Nego-Preto teve uma surpresa desagradável:
- Nesse intuito, que eu estou de cabisbaixo, olho de esguelha e, quem diria, ó, o Escovão está com a mão no revólver do cinto! Só que estava meio desesperado, olhando para a direita e para esquerda, onde que eu se aproveitei deste pequeno descuido e sapequei ele. Questão de sobrevivência, se não sapeco, sapecado seria eu.
Foram três tiros. Escovão não teve tempo para revidar; do jeito que estava, ficou. Imediatamente, Nego-Preto voltou a arma para o peito de Marlon:
- Ele podia estar de piolhagem com o Escovão ou, então,nele? tomar a liberdade de discordar da minha atitude.
Nem uma, nem outra; Marlon permaneceu estático, com os olhos assustados. Então, Nego-Preto quis saber:
- Por que você ficou quietinho enquanto eu dei os tiros
- Porque ele já tinha me ligado, que ia te matar para dividir a parte de você.
A resposta deixou Nego-Preto perplexo:
- Pó, você sabia que o cara ia apertar eu e ficar com todo esses baratos aí, sendo que nós três estamos igual na fita e se um vai para a cadeia os outros dois vão junto! Você podia ter evitado este acontecimento lastimável, ter dialogado com ele para ele não tomar uma atitude feia dessas.
Nego-Preto diz que só escapou com vida por ser homem sistemático:
- Em hora de partilha eu não mosco. É olho por olho e dente por dente, que amigo é amigo, e dinheiro é a maldição do Cão.
Marlon justificou-se dizendo que Escovão vinha de vários homicídios e poderia matá-lo caso fosse denunciado. NegoPreto não aceitou a justificativa:
- Pó, parceiro, podia ser temido, o que fosse, meu; não matou nós. Se você dá um alô, ninguém ia morrer, porque nós ia debater. Esse negócio de dar tiro nos amigos não e do meu feitio.
Diante da argumentação, Marlon fez uma autocrítica:
- Pó, Nego-Preto, nisso daí eu fui um pouco meio frágil.
- Então deixa passar despercebido; traição por crocodilagem é a coisa mais feia, é um Judas quem age assim, é pessoa que cuspiu na cara de Jesus!
Carregaram o corpo até um riacho e o caso foi mantido em segredo:
- Na favela, as pessoas têm olhos mas não vêm, os ouvidos são surdos e ninguém fala.
Alguns dias depois, o corpo apareceu no rio Tietê:
- Bem inchadão, doutor, feio, todo decomposto.
Movido por razões de foro íntimo, Nego-Preto foi ao enterro:
- Devido que nós ter sido criado perto, se eu não fosse ia dar na percepção que eu seria culpado dos acontecimentos.
Com o objetivo de afastar suspeita, passou o velório inteiro do lado do corpo. Encostado no caixão, conta que as lembranças voltavam como num filme:
- Po, parceiro, você deu mancada, meu. Coisa mais desagradável, querer ficar com tudo! Não devia de ter feito isso! Ainda mais que nós era da mesma infância, empinava pipa e roubava goiaba na casa da velha. Viu no que deu o egoísmo? Acabou sem nada; da terra, só levarás esse terço branco enrolado na mão.
Meses depois, Marlon roubou um sobrado, em Pinheiros. Deu azar, a casa era de um investigador de polícia. Foi preso e pendurado de cabeça para baixo para contar onde estavam os objetos roubados, a esta altura já vendidos:
- Numa boca de fumo na favela da Mimosa, perto da Fernão Dias, para um elemento que atendia pelo vulgo de Bom Cabelo.
Para sair do pau-de-arara sem entregar Bom Cabelo que pertencia a um grupo
fortemente armado, Marlon preferiu dar o nome do autor da morte de Escovão.
Nego-Preto foi parar no DEIC, onde encontrou o amigo delator:
- Marlon, você me deu no assalto também, meu?
- Não, no assalto não, Negão.
O emprego do aumentativo irritou Nego-Preto:
- Negão é papagaio de carvoeiro. Você sabe que eu não gosto que me tratem assim.
Marlon explicou que não disse por mal, e o outro continuou:
- Pó, mano, mas você vai me dar logo no homicídio? Era melhor ter me dado num dos assaltos.
- Eu te dei no homicídio porque os irmãos do Escovão estavam pensando que era eu que tinha matado ele. De fato, nós saímos juntos da casa dele para o assalto. Foi quando que eu apareci de volta e ele retornou finado.
Nego-Preto mais uma vez foi magnânimo:
- Pó, meu, estou desconsolado! Podia te envolver no homicídio,
mas não é meu feitio. Já que você me deu, vou confirmar
teu depoimento: que matei ele sozinho, joguei no rio e você está
limpo.
Na verdade, a benevolência também atendeu a interesses menos
altruísticos; se contasse tudo à polícia, iria responder
ainda pelo roubo do carro e o assalto à joalheria. Além disto,
tirar Marlon do processo poderia trazer vantagens futuras:
- Tenho a cópia de tudo, onde consta que ele me entregou, mas eu não delatei ele. Se um dia ele cruzar o meu caminho na cadeia querendo levar uma, vai ser a minha vez de falar: você é que vai levar uma, porque está em dívida comigo!
Mesmo assim, Nego-Preto diz que não costuma vingar-se desta forma, por causa de seus princípios:
- Eu não uso dessas artimanhas, para não denegrir a imagem do sentenciado, onde que vou ver ele ser espancado, ser tomado, roubado e escurrado. Este não é o meu ser. O meu feitio é ter olho e não enxergar, ter boca e calar.
O juiz não acreditou na história de que ele matou o comparsa em legítima defesa. Condenou-o também por ocultação de cadáver e, como agravante, julgou frieza criminosa sua atitude de comparecer ao enterro e postar-se pensativo diante do caixão. Pegou dezenove anos e seis meses. Uma tarde, quando cruzei o pátio do pavilhão, ele conversava sério com um rapaz novinho, de pele mais clara do que a dele. Era o filho mais velho, que acabava de chegar à Detenção, condenado a três anos e dois meses por assalto a mão armada.
Charuto entrou com o dedo enterrado numa cebola cozida. A mão esquerda amparava a outra; nesta, os dedos estavam dobrados, com exceção do indicador, esticado, a metade digital introduzida num túnel aberto na cebola quente, de sair fumaça.
Sentou-se à minha frente, com cara de dor, e desembainhou o dedo ofendido. Estava bem inchado; na última falange, logo abaixo da linha de inserção da unha, havia dois cortes profundos, transversais, simétricos em relação à linha média, no meio de um hematoma pulsátil.
- Mordida de rato?
- É, doutor, atingiu o osso.
Ratos de várias raças infestavam o presídio. No escuro, circulavam nas galerias, corredores e interior das celas. Na Cozinha Geral, após a distribuição da janta, mal os faxinas acabavam de enxugar o chão esburacado, o exército murino invadia o território e saqueava a despensa. Ao clarear o dia, inimigos da luz, escondiam-se nos esgotos até cair outra noite, inexpugnaveis.
- Foi meia hora atrás.
- Mordida de rato de dia?
- Estava trabalhando, ó, doutor, desentupindo aquele esgoto que entope no pavilhão Dois, quando aconteceu o acidente. Charuto tirou a tampa de ferro que cobre a abertura do esgoto que sempre entope, em frente à fachada do Dois. O buraco estava até a boca de tranqueira e comida velha boiando.
Desceu naquela água imunda, até os joelhos, e começou a tirá-la com um balde. Quando a manilha grossa apareceu, Charuto enfiou a mão pela lateral, para retirar um saco plástico que atrapalhava o desentupimento. Neste momento sentiu uma dor lancinante, assim descrita:
- Pegou horrível na ponta do dedo, fina, ardida, e espalhou como um choque pelo braço; deu até amargor na boca. Puxou a mão, no reflexo; veio junto o rato pendurado no dedo indicador, mordendo fixo. Era preto, enorme:
- Pensei até que fosse um cachorrinho desses de madame. No desespero, a mão desenhou um círculo no ar e bateu o rato contra o cimento, mas a pega estava tão firme que não soltou. Infernizado com a dor que até choque dava, o rato travado no osso, Charuto levantou o braço o mais alto que pode e despencou o animal no chão; com toda força.
- Só aí, com perdão da palavra, foi que o desgraçado largou. Ficou esperneando as patinhas para cima.
- Morreu?
- Que nada, doutor, o bicho é o demônio!
Foi então que Charuto, cego de ódio, agarrou o inimigo com as duas mãos, segurou-lhe a boca para não levar outra mordida e vingou-se:
- Cravei os dentes na mente do infeliz. Mordi duro, até ele parar de debater. Depois escovei os dentes, e já era.
Esse tal de Charuto tinha sorriso alvo e dentição perfeita, raridade no ambiente. Malandro completo no andar, falar e olhar, assaltante incorrigível, estava condenado a dezesseis anos, nesta segunda passagem pela cadeia.
Dois anos depois do entrevero com o rato, ele convenceu o Zoinho, um ladrão estrábico internado com sarna disseminada, a vender o próprio colchão para comprar crack, depois tapeou o amigo, fumou as pedras sozinho e quando um funcionário da enfermaria descobriu a venda, Charuto armou uma confusão tal que Zoinho não só assumiu a culpa de tudo, como pegou trinta dias de castigo na Isolada. Duas semanas mais tarde, Charuto apareceu no ambulatório, com ar cerimonioso, acompanhado de um companheiro narigudo, felliniano:
- Doutor, daria para o senhor atender este considerado meu, que está com uma coceira cabulosa? Tratava-se do incauto comprador do colchão infestado do Zoinho.
Depois disso, passei tempos sem vê-lo. Um dia, Charuto retornou com muita tosse, febre, dispnéia e os olhos encovados: tuberculose pulmonar com derrame de líquido pleural à direita do tórax. Órfão de mãe, Charuto não recebia visitas desde que chegou à cadeia, desta segunda vez, há quatro anos. Nos primeiros meses, ainda lia jornal e pedia notícias da rua, mas logo concluiu que satisfazer a curiosidade trazia mais sofrimento e alienou-se dos acontecimentos do lado de lá da muralha, como fazem muitos homens sem família condenados a penas longas.
Dos parentes, não sentia saudades, com exceção do filho mais velho:
- O pequenininho eu não quero ver, porque ele está bem com a avó, a mãe da Rosirene. Agora, o grande eu não sei,porque ele vive com a Rosane, minha outra mulher, e ela é fumadora de crack.
Após cumprir dez anos, em sua primeira passagem pela Detenção, Charuto foi posto em liberdade. Ao sair, soube que Rosane, mãe de seu primeiro filho, tinha acabado de ser presa. Um domingo foi visitá-la na penitenciária de Tremembé. Levou o menino para ver a mãe e cinco gramas de cocaína, de presente. No ônibus de volta, com o primogénito no colo, foi abordado por uma senhora de fino trato:
- Escuta aqui, simpatia, eu também sou malandra, sabe, eu sou malandra. Vim visitar minha irmã e vi você dando um barato lá para a sua mulher. É sua mulher, não é? É o seguinte, eu trafico. Não tem condição de você arrumar umas dez gramas para mim? Pode confiar que eu sou do ramo. Sou do ramo, entendeu? Sou malandra! Charuto sentiu firmeza. Terça-feira, pegou um ônibus até o Jabaquara e, de lá, o Jardim Míriam:
- Levei uma cara de farinha. Eu não conhecia aquela quebrada; o maior
jogo duro para achar a casa.
No quarto dessa senhora, dona Joana, Charuto entregou a droga e sentou para
conversar com seu Machado, um senhor que morava com ela.
Foi quando a tentação entrou pela porta dos fundos, sorrindo, de vestidinho com alça: Rosirene.
- Nega dos lábios finos, nariz empinado, bunda de escola de samba e eu no esgano, ó, saindo da cadeia, depois de tirar dez anos. Naquela hora, pensei com a minha cabeça, preciso comer essa nega de qualquer jeito! Não sei se isso já aconteceu com o senhor, doutor, amor à primeira vista! Paixão arrebentadora!
Encantado pela mulata, chamou seu Machado para um canto:
- E essa mina aí?
- Essa mina aí, está aí.
- Então, fala para essa nega que é o seguinte: vou levar ela
para Santos amanhã.
Voltou na quarta-feira, mas não foi preciso viajar tão longe:
- já saímos direto para o Flor da Lapa, a maior festa e tal, gastei dinheiro que nem água. Depois, achei que tudo bem, experimentei a fruta, já era. Apenas que ela não foi embora.
Como as condições não lhe permitiam Flor da Lapa toda noite, alugaram uma maloca num cortiço da Dino Bueno, perto da Rodoviária velha, para viver no maior amor:
- Embora que de vez em quando tinha que dar uns murros nela, que a nega
era folgada pra caramba.
Uma noite, Charuto foi dormir muito louco e acordou com a gritaria:
- õ, vê se acorda que a casa está pegando fogo! Eram os vizinhos do cortiço:
- Uma tremenda fumaceira, saí a milhão de dentro do quarto.
Rosirene tinha jogado tudo que era dele, roupas, chinelo, sapato, em cima
da cama do casal e ateado fogo. A vizinhança ameaçava chamar
a polícia; e ele sem saber se apagava o fogo ou acalmava os vizinhos.
Se a Pm chegasse, iria prendê-lo noato; havia acabado de sair da cadeia.
A incendiária, do lado de lá da rua, assistia de camarote, cínica,
dando risada. - Pó, queimou tudo, até a minha calça de
baile! O maior custo para convencer os vizinhos deixar quieto, a polícia
não ia querer saber.
Quando acabou o fogo, descalço, Charuto saiu para tomar ar. A mulata
veio atrás. Na Dino Bueno com o Largo Coração de Jesus
ele parou numa fogueira:
- Na maior neurose, querendo pegar ela de quebrada. Sentou. Ela também, com prudência, do outro lado, em frente. Depois de um tempo, Charuto levantou devagar com um cigarro apagado no canto da boca, pegou um tição do fogo como se fosse acendê-lo e avançou na direção da Rosirene:
- Dei umas trinta tiçãozadas nela. Era fagulha para todo lado, parecia que nós estava no inferno de Satanás! Vingado, refugiou-se num bar na famosa esquina da São João com a Ipiranga e tomou várias para rebater. Mais tarde, quando voltou para casa, encontrou a maloca em silêncio:
- A primeira coisa que eu olho na cama queimada é a nega dormindo,
ó! Puta vida, vai embora daqui, já. Não vou. E, nessa
de vai embora já, não vou, vai, não vou, ela acabou não
fondo, e nós ficamos naquele amor aconchegado.
Viveram dois anos juntos. Esqueceu do filho e da mulher na cadeia de Tremembé,
por causa dessa paixão. Amanheciam fumando pedra, escovavam os dentes
com a mesma escova, pediam um comercial no bar e comiam no mesmo prato, de
tão bem que se davam:
- Eu roubava, ela se virava.
Segundo ele, não adiantava: mesmo quando roubava uma quantia suficiente para passarem alguns dias curtindo, saía de manhã e, quando voltava à tarde, cadê a Rosirene?
- Estava na Estação da Luz se virando. Sabe, elas viciam e não querem sair dali. Eu não podia fazer nada. Quer dar? É com ela mesmo. A única coisa que eu falava era: só não dá para amigo meu, que eu te quebro o pescoço.
O destino os desuniu quando ele ficou caído de tanto crack e ela voltou para a casa da mãe, com o menino que tinha nascido.
Uma noite, trombaram na Boca do Lixo e Rosirene confessou estar namorando um amigo dele, Mato Grosso, o dono das pedras, e que os dois tinham planos de mudar para Ponta Porã.
-Veja só, dando para amigo meu e ainda os dois fazendo plano!
Hoje, ele reconhece ter perdido a mulher porque não há harmonia que resista ao crack. Mesmo assim, continuava decidido a resolver o caso pela via passional.
- Quando sair da cadeia, vou matar o Mato Grosso. Ela não, porque o errado é ele, que me conhece e sabe que a mulher é minha; não tem nada que cantar ela e levar embora. É eu que ele está tirando, não ela. A decisão de poupar Rosirene do castigo fatal, no entanto, é fruto recente da ponderação, pois quando chegou na cadeia seu desejo era atraí-la para um lugar ermo, cortar-lhe os pés fora com um machado e justificar: - Não vou te matar porque nós temos um filho, e não quero que ele me venha falar que eu matei a mãe dele. Mais tarde, ele vai te ver sem pé, vai perguntar por que e você vai dizer: eu dei para outro cara. E, aí, ele vai saber que o pai dele agiu na razão. Sua intenção era fazer uma malvadeza que Rosirene jamais esquecesse. Afinal, largou Rosane por causa dela. Na época, ele gostava da Rosane; a primeira vez em que esteve preso,pensou que se Rosane o abandonasse, iria enlouquecer. Até ameaçou:
- Se você não me visitar, te furo os olhos. Ela, sorriu e tranqüilizou-o:
- Quem falou que eu sou mulher de abandonar homem meu na cadeia?
Prometeu e cumpriu. Visitou-o, quase dez anos, todo final de semana, com as sacolas e o menino. Até ir presa. Ele é que a traiu, por causa da Rosirene:
- Fui cachorro; abandonei a Rosane presa em Tremembé; ó, maior ingratidão!
O castigo veio a cavalo quando Rosane saiu da cadeia, antes da data prevista.
Uma noite, ele dormia tranqüilo num hotelzinho, com a Rosirene, certo
de que a outra continuava presa, quando Rosane, libertada, foi à Boca
do Lixo cobrar a referida ingratidão. Perguntou sobre o paradeiro do
ingrato num bar:
- Ele está dormindo com a mulher dele no Copa 70. - Ali, mulher dele, é? Cachorro!
Entrou no quarto quebrando tudo; de cara jogou a Tv no chão e avançou para cima da Rosirene, cujo tamanho era o dobro do seu. Ligeiro, ele vestiu a roupa e sumiu. Ficou num botequim, esperando a poeira baixar. Meia hora depois, apareceu o português do hotel: - Vai ver o que aquela baixinha aprontou lá. Encheu a cara da tua mulher, espetou um alfinetão na bunda dela que tirou sangue, ainda rasgou e tacou fogo nas roupas da grandona!
Charuto tem febre e sudorese noturna; está magro e com os pulmões afetados. Ri, as recordações parecem deixá-lo feliz. Apesar da eterna gratidão à Rosane, só pensa na Rosirene:
- Doutor, se eu morrer na cadeia, não vou ficar sossegado. Tenho que ver aquela mulher de novo. Depois, vou matar o Mato Grosso, mas a primeira coisa é ver a Rosirene, só mais uma vez. Ela é linda, doutor! Tá louco, a nega me enfeitiçou.
Sem-Chance diz que não era ladrão nem nada. Mulato, franzino, riso aberto, o caçula da casa, chegou aos dezenove anos sem trabalhar. Os pais, na medida do possível, faziam todas as vontades dele: - O maior dengo.
Uma ocasião brigou com a família e saiu: - Só de bronca.
Depois de dois dias, com fome, lá na vila mesmo, parou numa fogueira onde alguns amigos se aqueciam: - Eles também não eram ladrões, mas estavam com o pensamento de tomar o revólver do vigia da pedreira. Sem-Chance foi com eles, não por convicção, mas por não ter para onde ir. Só para não ficar ali sozinho, na fogueira.
Entraram todos menos ele, que guardou o lado de fora.
Ao perceber o movimento, o vigia entrou em pânico e começou a gritar. Um deles atirou e acertou a cabeça do coitado. Apanharam o radinho, a jaqueta de guarda noturno e o revólver e fugiram.
Esse crime deu um processo de latrocínio que estragou a vida dele.
Foi condenado: doze anos e oito meses. - Só para ver que nós
não tinha maldade nenhuma, doutor, nós roubava onde todo mundo
conhece nós. Nós é criado ali. É sem chance.
Atrás das grades aprendeu o que faltava, e quando saiu, em 1987:
- Comecei a roubar, bem roubado.
Assaltou firmas, padarias e gente andando na rua. Especializou-se no "gogó", método através do qual dava uma gravata no transeunte, enquanto os parceiros limpavam a vítima. Conta que nunca matou; chegava dizendo isto é um assalto e, se a vítima não acreditasse, dava uma coronhada na cabeça para intimidar. Não roubava mulher desacompanhada, só de medo de chegar na cadeia com fama de estuprador.
-Voltei para a Detenção em agosto de 9 1, por causa desse barato de gogó e uns cinqüenta, cem assaltos, por aí. Peguei mais dezenove anos, que o juiz não quis saber das atenuantes. Foi sem chance.
Dessa pena, já cumpriu cinco anos. Desde que chegou, ninguém lhe traz um maço de cigarros. Sobrevive às custas dos conhecidos. Vende relógios e roupas dos companheiros endividados; o proprietário pede cinco, ele anuncia por sete ou oito. Tudo o que ganha na luta acaba no cachimbo de crack.
- Eu tenho uma coisa de bom no caráter da minha pessoa: só fumo no dinheiro! O senhor nunca vai ouvir que o SemChance comprou um cisco de crack no fiado. Ando pela galeria de cabeça em pé, sem rabo preso com vagabundo nenhum. Aqui dentro, comigo, é no respeito! Depois que perdeu a mãe, para a família ele não existe mais: - Para a sociedade, eu não passo de um reles, rejeitado que nem cachorro sarnento. Se aqui na cadeia os manos não tratar eu como considerado, não vou ser nada para ninguém, sou um zero no mundo. Vou perder a identidade própria do ser humano. É sem chance. Tratei-o de uma tuberculose grave, instalada nos gânglios linfáticos. Tinha ínguas volumosas no pescoço e axilas. Magrinho, quase morreu. Depois de um mês, já sem febre e com apetite, teve alta da enfermaria. Insisti com ele sobre a importância de manter a regularidade do tratamento e que era fundamental dar um tempo com o crack.
No pavilhão, ele fez exatamente o oposto e voltou pior, com a doença disseminada nos pulmões, falta de ar ao mínimo esforço e caquexia. Na recidiva o bacilo veio agressivo e resistente à medicação. Em poucos dias ficou fraco, dispnéico, caído na cama o dia inteiro. Ainda assim, sorria quando eu chegava para examiná-lo. Uma tarde, fui vê-lo antes do ambulatório. A cela estava invadida por uma luz bonita, alaranjada, reflexo do sol na mulher pelada da parede. Em coma, encolhido no catre, pele e osso, ele parecia uma criança. Migalhas de pão espalhavam-se em volta da boca ressecada. Atrás delas, um batalhão de formigas apressadas andava em ziguezague pelo rosto agônico de Sem-Chance.
Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha. Em seu olhar de homem preso, as vezes brilha uma luz que ilumina o rosto inteiro. Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários como Meneghetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha e Promessinha fizeram de seu Valdo um homem de respeito no presídio.
Na caminhada, cumpriu pena em diversas unidades. Numa delas, após quatro meses de solitária na escuridão total, quebrada só quando abriam o guichê da cela para passar o prato de comida, que ele precisava engolir depressa para se antecipar ao assanhamento das baratas, seu Valdo simulou ter perdido o juízo. Para convencer os carcereiros da insanidade, rasgou uma nota de cinco e comeu os próprios excrementos:
- Tive que fazer essa sujeira para sair daquele lugar.
Na solitária daquele tempo, a gente aprendia o limite de um ser humano.
Seu Valdo nasceu numa ladeira de terra do Pari, perto do largo Santo Antônio, neto de uma avó racista que discriminava a mãe dele, de pele negra:
- Meu pai, por ser assim de mente fraca nas influências, se largou e eu fiquei ao léo dará, com a mãe e duas irmãs pequenas.
Naquelas circunstâncias, a mãejuntou os três filhos e voltou para a casa da mãe dela na alameda Glete. A acolhida foi calorosa:
-A minha avó materna, que justamente tinha um puteiro, recebeu nós
de braços abertos.
A casa dessa avó, na zona do baixo meretrício de São
Paulo, era um predinho de três andares, no qual trabalhavam doze mulheres.
No fundo ficava a casa deles, normal.
- Com o dinheiro que a vovó ganhou administrando o puteirinho, compramos
um parque de diversões e, nisso, começamos a correr trecho.
Seu Valdo era grandão, já tinha dezesseis anos, tomava conta
do estande de tiro ao alvo e vivia amigado com a Betina, ex-funcionária
do predinho da alameda Glete.
Um dia, por traição do destino, o parque pegou fogo e a família
voltou para uma pequena chácara da avó previdente, perto da
represa de Guarapiranga, na periferia de São Paulo.
Seu Valdo foi trabalhar como desentupidor de fossa, levantou uma casinha e levou vida de trabalhador até que os acontecimentos mudaram o rumo das coisas. A mulher foi a causa de tudo, segundo ele:
- Devido que era muito ciumenta, até dos meus cachorros. Eu adoro cachorro e nem podia tratar deles direito que ela enfezava, dizia que eu punha mais atenção nos bichos do que propriamente na figura dela. Veja que absurdo, doutor, um ser humano rivalizado com um animal. O gênio da esposa era um suplício. Ciúmes de outras mulheres, então:
-Virgem, Deus o livre!
Se ele cumprimentava uma vizinha, ela xingava de mulher da vida em diante, e cada vez que ele se atrasava, eram quatro horas de falatório, no mínimo. O gênio da esposa criava problema com maridos e irmãos das moças ofendidas. Ele só fazia apaziguar; tarefa inglória:
- Não tem jeito, doutor, mulher quando engata no ciúme é
o Cão vestido de saia. De noite, o senhor quer dormir para trabalhar
cedo e a peste não pára. O senhor bebe uma cachaça depois
do serviço, chega em casa disfarçando na hortelã, ela
fareja o bafo e pronto! já acha que estava com outra, que homem tudo
não vale nada. E vai o filho de Deus provar que não! Um dia,
mudou-se para a vizinhança uma mulata assim descrita por ele:
- Maravilhosa, doutor, duas pernas torneadas por Deus e um rebolado de parar
a feira.
Na rua, quando a mulata vinha de lá, seu Valdo, discretíssimo,
abaixava a cabeça. O comedimento tinha justificativa:
- Para não atiçar a jaguatirica em casa.
E também, admite, para não despertar a ira do marido, afamado
como baiano ciumento, criador de vários casos por causa da mulata.
Um domingo de sol, seu Valdo no portão de casa estreava o primeiro
óculos escuros de sua vida, quando passou a morena requebrante. Distraído,
ele nem percebeu que, atrás dele, Betina chegou na janela para bater
o pano de pó:
- Para quê, doutor! A onça invocou que eu estava de olho comprido
na mulher do baiano. Deu a volta sorrateira, meiga como quem vai me fazer
um carinho, e foi básica: zap! Agarrou no meu membro. Veja só
o desrespeito! Num instante, Betina avaliou a dureza em questão e concluiu
que seu Valdo era um ordinário sem-vergonha e não valia o feijão
que ela enchia na marmita dele. A gritaria atraiu os vizinhos. Seu Valdo não
sabia onde esconder a cara. Por fim, convencido da impossibilidade de acalmar
a esposa, mandou-se para o botequim, morto de vergonha dos conhecidos.
- A estrupício ainda veio atrás até a esquina falando
um monte, tudo na voz esganiçada.
No bar ele encontrou o Joca, que lhe pagou um rabo-de-galo para acalmar e
o convidou para uma partida de sinuca. Experiente no taco e com as mulheres,
Joca aconselhava o companheiro quando chegou o baiano. Não tinha achado
bonito o papel de seu Valdo:
- O que você aprontou com a Cida?
- Nunca nem olhei para a sua esposa, cidadão. Até peço
desculpas à sua pessoa, mas o acontecido não é motivo
para ofensa. Minha mulher é ciumenta possessa e sempre dá vexame.
A vila inteira reconhece o feitio dela. - Tua própria senhora disse
na frente de todo mundo que você não tira os olhos da Cida quando
passa. Vou te ensinar a respeitar a mulher do próximo, seu preto vagabundo!
O baiano puxou a peixeira. Joca, amigo de verdade, não gostou da ofensa
e puxou o revólver:
- Ele é preto sim. E por acaso você é muito branco?
Agora: vagabundo não, que ele tem carteira assinada. Se der um passo
à frente, quem morre é você, baiano! O baiano vinha cego
de ciúmes ou era valente de fato. Mesmo baleado ainda tentou esfaquear
seu Valdo. Só não conseguiu porque este lhe deu uma pancada
na fronte, com a parte grossa do taco de bilhar. O baiano morreu no hospital.
Joca, que andava procuradíssimo pela polícia, fugiu para o Nordeste.
E seu Valdo:
- Trouxa, dois dias depois se apresentei na delegacia, pobre, sem advogado,
alegando legítima defesa. Dia de visita, um mês mais tarde na
Casa de Detenção, anunciaram o nome de seu Valdo para receber
uma pessoa na entrada do pavilhão. Morto de ódio, diz ele, no
caminho até a porta decidiu esganar a Betina, aquela mulher possessiva
responsável pela desgraça que o atingira.
No portão, entretanto, não era Betina quem o aguardava:
- Era a morena, a pivô da tragédia, de vestido vermelho, olhos
trêmulos e lábios rútilos. Me abriu um sorriso tão
alvo, doutor, que encantou meu coração.
E nesse dia abençoado começou o nosso amor, que pela vontade
de Deus resiste até hoje.
À noite Valente não saía sozinho pela vila: tinha medo
de ladrão. Filho de lavradores crentes do norte do Paraná, veio
para São Paulo morar com um primo na periferia de Guarulhos. Foi bem
até conhecer as pessoas erradas, cheirar cocaína, perder o emprego
e se desentender com o primo. Em seis meses começou a assaltar padaria,
açougue, pagamento de firma e a matar gente: - Tem pessoas que a gente
conversa com ele, assim, ou vai fazer um trabalho junto, mas a gente não
gosta dele. Um espírito com o outro não bate. Para quem está
na vida do crime, matar ele é que nem beber um copo de água.
Um de seus amigos, Salviano, vivia com uma mulher que havia namorado um Pm.
Uma noite, por ciúmes, Salviano convidou Valente para matar o policial.
Ele diz que aceitou o convite porque estava mesmo sem fazer nada: - Esperamos
no ponto do ônibus. Era para ele chegar às
dez, apareceu às onze e meia. Demos oito tiros nele e saímos
fora.
Outra vez ele levava a namorada para casa, quando passou um rapaz e disse
um palavrão. Valente deixou a moça e foi atrás do outro:
- Quando alcancei, falei pra ele: ô, boca-suja! Foram cinco tiros. Valente
era homem de poucas palavras: - Muitas pessoas do Crime até debate
com a vítima; comigo não tinha conversa.
Em seguida, perderam a vida dois comerciantes do Alto da Penha que tentaram
reagir ao assalto, um ladrão que falou mal dele para uma vizinha e
um outro no botequim por causa de uma cerveja derramada. A sétima ocorreu
na divisão de 30 mil dólares roubados em companhia de dois parceiros.
Estavam repartindo o dinheiro quando um deles teve a má idéia
de ir ao banheiro:
- Fiquei esperto, porque olho de ladrão cresce mais do que devia.
Quando o comparsa saiu do banheiro, trazia a jaqueta de couro no braço,
cobrindo parcialmente a mão direita. Valente não hesitou:
- Catei o revólver da mesa e dei três tiros nele. Desperdício,
o primeiro acertou bem no meio das vistas. O outro companheiro se assustou:
- Você está louco, matou o cara!
- Ele ia atirar em mim.
Foram até o corpo, levantaram a jaqueta e verificaram que o morto não
tinha nada nas mãos, o revólver permanecia na cinta. Paciência,
o amigo consolou:
- Morreu por culpa dele próprio: a mesa cheia de dinheiro e ele aparece
assim, por detrás, ainda com a mão encoberta! Infelizmente,
ele vacilou.
Três anos nessa vida e Valente resolveu organizar uma quadrilha para
assaltar banco. Viajou para o Rio e comprou uma metralhadora na Rocinha. Não
chegou a utilizá-la, porque dois de seus parceiros foram mortos num
assalto e outro foi embora para o interior. Sobraram ele e Salviano, co-autor
do assassinato do Pm.
Salviano, nessa época, apaixonou-se por uma menina de dezesseis anos
e abandonou a ex-namorada do Pm. Com o amorpróprio ferido, a moça
foi ao DEIc e denunciou os dois comparsas.
A polícia chegou enquanto ele dormia. Ainda quis alcançar a
arma, mas não deu tempo. Nunca imaginou ser preso com tanta facilidade:
- Sofri dez dias no pau-de-arara, meia hora por dia.
Teve dia que me penduraram duas vezes. Eles queriam bastante coisa, até
o que eu não devia. Por causa da metralhadora, só de assalto
a banco, que eu nem cheguei cometer, eles queriam que eu assinasse oito. Confessei
só o que eu devia, menos quatro homicídios que ficaram de fora.
De início foi condenado a dezoito anos. Oito meses depois, no júri
seguinte, pegou 112 de uma só vez. A pena total ficou em 130 anos e
nove meses.
- Eu abati um pouco. Mas não mudei de vida, até piorei para
pior. Fui para o pavilhão Nove. Lá eu queria apresentar que
era bandido perigoso. Chegava no cara e dizia: você é de ver?
Se é, nós vamos trocar agora! Aí, se ele não queria
trocar, eu falava: então você deixa a televisão, as coisas
suas e pode atravessar para o Cinco, que é o teu lugar. Eu pensava
que a minha vida não tinha mais jeito, já que era para morrer
na cadeia, não custava que fosse hoje. Se tinha que ser esse o meu
destino, que sêsse.
Então, veio um dia de chuva. Para se abrigar, ele encostou na parede
junto à igreja, no térreo do Nove e, sem querer, ouviu a pregação
do pastor:
- A Bíblia diz em Isaías capítulo 9, verso 6, que Jesus
Cristo é o Conselheiro, é o Deus forte, Pai da Eternidade e
Príncipe da Paz. Você que vive na vida errada, Deus tem um plano
para você. Venha hoje para Jesus, que amanhã pode ser tarde.
Não importa se é bandido, quantos matou, Jesus Cristo faz questão
de perdoar você com todos os teus pecados, te tirar das trevas e operar
uma obra na sua vida.
Valente chegou um pouco para dentro. Sentiu que o Espírito Santo de
Deus falava pela boca do pastor:
- Quem quer aceitar Jesus? Quem quer levanta a mão!
As veias do pescoço do pregador saltaram e os olhos cuspiram fogo.
Valente achou que a fisionomia estava desfigurada pelo Espírito Santo
de Nosso Senhor.
Sentiu um punhal frio penetrar-lhe a carne. Levantou o braço: - Dobra
o joelho, irmão!
Valente obedeceu e caiu no choro:
-Arrependi dos crimes, da raparigagem e das maldades. Chorei feito nenê
no colo da mãe.
Quando levantou, estava desanuviado. Sentiu o perdão do Senhor pousar
em sua fronte.
Continuou morando no Nove, mas os companheiros estranharam a mudança:
- Tinha uns, mais no espírito entrevado, que ameaçavam: está
bom, agora é crente, então vai morrer e tal, que nós
não suporta bandidão arrependido. Andava pelas galerias do Nove
com o Velho Testamento, sem maldade no coração, lutando para
colocar os companheiros no caminho da Verdade:
- De repente, bateu um desassossego na minha mente que era para eu ir embora
do Nove. Que tinha que ser logo. Que ali não era mais o meu lugar.
Pediu guarida para os irmãos da Assembléia de Deus, no Cinco,
e juntou-se a eles, no quinto andar. Era outro homem: - já não
usava mais gíria nem palavra torta e não tinha mais perversidade
na alma. Estava num plano de Deus, era Jesus abreviando na minha vida, elegendo
eu para continuar vivo no seu Reino, porque dois dias depois que eu saí,
a Pm invadiu o Nove, com cachorro e metralhadora.