Dois dias depois que o desassossego tirou Valente do pavilhão Nove,
reuni os travestis nos fundos do cinema para uma aula de prevenção
à AIDs. Era a primeira sexta-feira de outubro de 1992.
No final, insisti no perigo da penetração sexual desprotegida
e perguntei se havia alguma dúvida. A meu lado, um rapaz franzino de
Sapopemba, conhecido como Pérola Byington, pernas cruzadas feito mulher
e com a mão desmunhecada, roendo as unhas o tempo todo, fez o seguinte
comentário:
- Doutor, faz meia hora que o senhor está explicando como é
que pega e não pega esse vírus. Desculpa, mas isso nós
estamos cansadas de saber. Muitas amigas nossas já morreram. Nós
precisamos de camisinha, não aula! Se não tem camisinha para
a gente obrigar o ladrão a usar, de que adianta essa conversa, doutor?
Pouco depois apareceu o dr. Pedrosa, diretor-geral do presídio que,
na época, andava sozinho pela cadeia inteira, prática que posteriormente
cairia em desuso: - Tudo bem, doutor? Na saída, passa na minha sala
para tomar um café.
Nesse café, conversamos sobre distribuição de preservativos
aos detentos, medida que naqueles dias
despertava reações emocionais entre as autoridades judiciárias,
como a de um promotor de terno cinza e sapato azul-marinho que me respondeu
num debate:
- Se a sociedade não pode entregar um litro de leite para as crianças
da favela, o senhor nunca me convencerá a distribuir camisinha para
vagabundo na cadeia. O diretor e eu elaboramos uma estratégia para
apresentar o problema pessoalmente a algumas pessoas influentes do Sistema.
Depois, ele me mostrou uma "teresa" apreendida. Era uma corda de
doze metros, feita com tiras de cobertor cuidadosamente enroladas ao longo
de fios de arame, o que lhe conferia resistência para suportar o peso
de um homem disposto a escalar a muralha. A teresa puxou outras histórias
de fuga e, quando percebi, já era meio-dia e meia:
- Vou correr para o hospital, é tarde. Além disso, atrasei o
senhor.
- Por mim não, hoje é sexta-feira, dia deles lavarem tudo para
a visita do fim de semana. A cadeia está na maior calmaria.
Cerca de duas horas depois dessa observação, houve um desentendimento
entre dois presos no Pavilhão Nove.
Naquela tarde, no campo do Nove, enfrentavam-se o Furacão 2000 e o Burgo Paulista na disputa do campeonato interno do pavilhão. Nos andares, os presos arrumavam os xadrezes. Tudo calmo, como imaginava o diretor. No decorrer do jogo, inesperadamente, como ocorrem os acontecimentos mais graves nas cadeias, o Barba brigou com o Coelho na rua Dez do segundo andar do pavilhão, um armado de faca, o outro com um pedaço de pau. Briga de rotina, não fossem as terríveis conseqüências. A razão da desavença não foi esclarecida devidamente, de acordo com o Baiano Comedor, um traficante de cocaína sócio de uma pizzaria no Ipiranga, que se gabava de haver namorado as mulheres mais bonitas do bairro, testemunha ocular dos fatos:
- Uns dizem que foi por causa de uma dívida de cinco maços de cigarro. Tem quem acha que foi uma maconha que gerou os desentendimentos, mas alguns que estavam perto até falam que foi discussão de futebol. Tantas teses defendidas que, como diz o outro, jamais será encontrada a moradia da verdade.
Como Coelho e Barba pertenciam a duas facções rivais das zonas norte e sul, respectivamente, que há tempos se estranhavam na rotina do pavilhão, no momento da briga os companheiros alinharam-se em torno dos dois antagonistas e trocaram ameaças de morte. Na confusão que se estabeleceu, o pessoal do campo subiu para o segundo andar e o confronto adquiriu proporções mais sérias.
Seu Jeremias diz que nessas horas de tensão o desfecho depende de um equilíbrio delicado:
- Em briga de cadeia, doutor, se a coisa passa de um certo ponto, desanda, e aí só pára depois que morrer uma meia dúzia de uns três ou quatro.
Para conter os ânimos, os funcionários recolheram os presos do campo, medida preventiva que facilita trancá-los para evitar o pior, se necessário. Mas não havia mais condições de obrigar a malandragem exaltada a entrar nas celas. O conflito era irreversível. A tensão cresceu tão depressa que Majestade, um dos ladrões mais respeitados, presidente de Esportes do pavilhão, um dos últimos a deixar o campo, ao chegar com as bolas e a rede nem tentou dialogar com os mais novos, como habitualmente fazia nesses momentos:
- Parecia feira de peixe, doutor. Quando está assim, é bobagem querer apaziguar. O sangue ferve e fica todo mundo desvairado.
Subi na minha, mas em vista das facas que estão passando na escada, bateu no meu presságio de que aquilo não vai acabarlegal.
Quando começou o corre-corre e os gritos de vai morrer, mesmo quem nada tinha a ver com os acontecimentos acautelou-se. Zelito, um negro alto e forte que mais tarde conheci na enfermaria cego dos dois olhos pelo gás lacrimogênio, tirou a faca do esconderijo:
- Eu não tinha nada com aquela zica, mas nunca vi um passa-passa de bicuda e pau como aquele. Vou desentocar a minha também, pensei comigo. No meio daquela bagunça podia sobrar para minha pessoa, perfeitamente. Majestade, que havia escapado vivo da rebelião de 1985, convenceu o companheiro de xadrez a se recolher:
-Vamos ficar na nossa, até morrer quem tiver que morrer.
A correria e os gritos disseminaram o tumulto pelos andares. Cadeia é como panela de pressão: quando explode, impossível conter.
Adelmiro, um filho de portugueses atarracado, cujo tio tinha um desmanche na Água Rasa em sociedade com um delegado, ao cruzar com um funcionário que contra o regulamento trazia as cartas endereçadas a ele sem passar pela censura administrativa, murmurou discreto, para não ser acusado de traidor pelos companheiros:
- Desce que está embaçado, chefão.
O carcereiro entendeu o recado e desceu rápido para o pátio interno, onde estavam cerca de dez colegas, impotentes diante das dimensões do tumulto. Atrás dele veio um bando de detentos com capuzes do tipo ninja e começou a depredar a Carceragem na esperança de destruir os próprios prontuários criminais.
Os funcionários de plantão contam que nessa hora ocorreu a primeira baixa no grupo da zona norte e que a esta se seguiram outras de ambos os lados, em retaliação. Mais tarde, a Pm afirmou ter encontrado mortos ao invadir o pavilhão. Na versão dos presos, ninguém morreu no acerto de contas.
Outra divergência envolve a saída dos funcionários do pavilhão amotinado. Há quem diga que a pequena equipe de plantão, para não correr o risco de cair refém, abandonou o pavilhão e trancou a porta de fora. Os carcereiros envolvidos afirmam que a Pm, alertada pelos guardas da muralha, já estava no presídio e deu ordem para que eles saíssem.
De qualquer modo, com a ausência dos guardas, o pavilhão caiu nas mãos dos rebelados. Logo o Nove, onde vai parar principalmente a garotada presa pela primeira vez. Gente sem experiência de cadeia, como o Nardão, um ladrãozinho principiante que aderiu porque, por coincidência, tinha tomado um baque de cocaína no xadrez quando começou o alvoroço:
- A cadeia caiu no nosso poder. Digo nosso porque, naquela circunstância, nós está tudo envolvido. Aí protestamos contra a nossa melhoria, que o ambiente já não vinha do melhor, muitos manos querendo transferência, cara com a Colônia assinada, pena vencida, as visitas um pinguinho só, e já era.
É verdade, há tempos os funcionários alertavam que o ambiente no Nove deixava a desejar, mas fazer o quê? Num pavilhão daqueles, na época com 2 mil homens espremidos feito sardinha, fases mais tensas aconteciam periodicamente. Como adivinhar o momento da explosão? Excluídos os mais sensatos, que se trancaram nos xadrezes, os outros armaram um berreiro infernal, faca, pau, cano de ferro e quebra-quebra, correndo descontrolados, contagiando a massa com a excitação, feito estouro de boiada. Naquele momento, Santão, o rapaz sem a orelha direita que montava o equipamento nas palestras no cinema, cumprindo dezoito anos de uma pena que acabaria em fevereiro do ano seguinte, olhou pela janela do xadrez e viu o pelotão de Choque enfileirado na porta de fora do pavilhão, de máscara ninja cobrindo o rosto, escudo, metralhadora e a cachorrada.
Nos andares, agitados como formigas antes do temporal, os detentos queimavam e destruíam o que estivesse ao alcance. Alguns aproveitavam velhas rixas para saquear xadrezes alheios, provocando retaliação por parte dos saqueados.
Mais tarde o irracionalismo da turba teria conseqüências desastrosas, como observou Ôrra Meu, um faxina de pescoço longo como os de Modigliani e sotaque italianado característico do bairro da Mooca, preso num caminhão de lenha que trazia maconha de Pernambuco para um armazém da Vila Matilde:
- õrra, meu, a bem dizer verdade, bagunçamos mesmo, normal. Nessa, que uns imbecil se apossaram de umas latonas de óleo da Faxina e derramaram tudo na escada para a polícia escorregar. Digo imbecil porque são muito burros os caras, meu. Mais tarde a armadilha se voltaria contra nós próprios.
Enquanto isso, oficiais da Polícia Militar, acompanhados de autoridades judiciárias, assumiam o comando da cadeia. O diretor ainda tentou convencê-los a deixá-lo dialogar com os prisioneiros. De fato, chegou até a porta que dá acesso ao pátio externo do Nove, mas, antes que pudesse entrar, a Pm em formação militar atrás dele disparou portão adentro. Só podem contar o que se passou daí em diante, como diz o dr. Pedrosa:
- A Pm, os presos e Deus. Ouvi apenas os presos. Segundo eles, tudo aconteceu como está relatado a seguir.
Recolhido em seu xadrez, Majestade, corintiano fanático desde criança, como o tio que o levava para assistir aos treinos no Parque São Jorge, escutou a Pm anunciar do térreo:
- Entra todo mundo no xadrez que nós vamos invadir. Segundo os relatos, os presos obedeceram, pois, como dízem, é tradição na cadeia:
- A gente pode ser tudo ignorante, ladrão, malandro, mas burro não. Ninguém gosta de morrer. Quando a Pm invade, todo mundo corre para o xadrez, que os homens vêm de coturno, cachorro e calçado nas armas. Não tem condição de encarar eles na galeria com faca e pedaço de pau. No terceiro andar, ao ouvir o aviso para sair da galeria, Dadá, um ladrão de Carapicuíba que sobreviveu a seis tiros de um justiceiro contratado pelos comerciantes do bairro, único desencaminhado numa família de crentes praticantes e que na véspera havia recebido uma carta da mãe pedindo-lhe que não deixasse de ler na Bíblia o Salmo 9 1, teve uma impressão falsa:
- Estava meio sinistro. Vinha uma pá de polícia de máscara, só com os olhos de fora, metralhadora, latido de cachorro e um helicóptero abaixando bem baixinho, com um cano para fora. já entraram no andar de baixo atirando, mas eu, idiota, achei que era bala de festim.
Dadá correu para sua cela, onde encontrou mais treze pessoas tentando se esconder dos invasores, como ele. Achou um canto atrás de um pequeno muro junto à pia e se agachou.
Não esperou muito nessa posição incômoda. O Choque chegou depressa no terceiro andar. Pelos gritos, então, percebeu que as balas não eram inofensivas como havia imaginado:
- Vocês não me chamaram? Não pediram a morte? E é só barulho de rajada. Os infelizes que moscaram para se esconder foram os primeiros a cair. Era tiro seco e grito de pelo amor de Deus! Nós quietinhos no xadrez, eu feito avestruz, sem coragem para levantar a cabeça de trás da pilastrinha da pia.
A morte correu pela galeria e chegou na porta de sua cela:
- Um polícia abriu o guichezinho da porta, enfiou a metralhadora e gritou: Surpresa, chegou o diabo para carregar vocês para o inferno! Deu duas rajadas para lá e para cá. Encheu o barraco de fumaça, maior cheirão de pólvora. Só fui perceber que estava vivo quando senti um quente pingando nas costas. Era sangue, na hora até pensei que fosse meu. Olhei para os parceiros, tudo esfumaçado, furado de bala, pondo sangue pela boca. Morreram onze, escapei só eu, com um tiro de raspão no pescoço, e um companheiro da Cohab de Itaquera, ó, ileso, maior sorte.
No segundo andar, Jacó, um dos faxineiros do Nove, baixinho de fala ágil, traficante de cocaína que se orgulhava de fazer negocios por telefone, sem sequer tocar na droga, escapou por pouco:
- Foi o maior panico, todo mundo correu para o xadrez.
Eles vinham intencionados de matar a Faxina inteira. Assim que apareceram
no segundo andar, um Pm
gritou: Vamos dar fim nesses filhos da puta da Faxina!
Por não conhecer a cadeia, entretanto, os soldados pegaram a galeria no sentido oposto ao das celas dos faxineiros. Sorte de Jacó e azar do carteiro, que foi o primeiro a morrer; justamente ele, sobrevivente daquele caso em que os carcereiros de um distrito da capital trancaram mais de cinqüenta homens numa cela apertada, matando dezoito por asfixia. Depois do carteiro, vieram os outros da mesma ala.
Em seu xadrez, Majestade, vendo confirmada a premonição, sentou-se num banquinho com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça grisalha entre as mãos, o olhar na direção dos pés. O companheiro, apavorado, tremia no canto da cama. Quando a porta da cela foi aberta, Majestade permaneceu estático, de cabeça baixa.
Pelo canto dos olhos viu apenas o coturno do policial e esperou o tiro de misericórdia na nuca:
- Depois de uma eternidade, ele perguntou se a gente estava na bagunça. Expliquei que eu não era criança, sem levantar os olhos do chão, que nós só mexia com esporte, que ele podia ver as bolas espalhadas no xadrez. O Pm ficou quieto, eu esperando o tiro. Aí o coturno deu meia-volta na direção da galeria e eu ouvi o companheiro caindo no choro descontrolado. Continuei feito estátua.
Os vizinhos de cela de Majestade não tiveram a mesma sorte. Entre
eles, o centro-avante do Furacão 2000, que momentos antes da rebelião
estava radiante com os cinco gols marcados contra Marcão, goleiro do
Burgo Paulista (que também encontrou a morte), e com a perspectiva
da liberdade na terça-feira seguinte.
No quinto andar, num xadrez com nove pessoas, morreram sete, inclusive dois
irmãos cariocas, presos uma semana antes após assaltar um motorista
na Castelo Branco, para voltar ao Rio e assistir ao casamento de uma prima:
- Morreu um sentado na cama e o outro no apavoro.
Nesse xadrez, Salário Mínimo, um ladrão condenado pelo latrocínio de dois policiais em Itapevi, conseguiu sobreviver graças à baixa estatura. No meio do tiroteio, encolheu-se num canto e puxou para cima do seu o corpo enorme de Rambo, o primeiro a cair morto na cela.
Passava das três da tarde quando a Pm invadiu o pavilhão Nove. O ataque foi desfechado com precisão milítar: rápido e letal. A violência da ação não deu chance para defesa. Embora tenha sobrado para todos, as baixas mais pesadas ocorreram no terceiro e no quinto andar. Cerca de trinta minutos depois de ordenada a invasão, nas galerias cheias de fumaça ouviram-se gritos de "Pára, pelo amor de Deus! Não é para matar! já chega, acabou! Acabou!".
Uma depois da outra, as metralhadoras silenciaram.
Quando os tiros calaram, caiu um silêncio de morte na galeria.
Atrás do murinho, Dadá só pensava no desgosto da mãe com a morte dele e no arrependimento por não ter lido o Salmo 91. Minutos depois, escutou passos de coturno:
- Quem está vivo, levanta, tira a roupa e sai pelado! Ergueram-se o Itaquera e ele:
- Ainda tentei reavivar um companheiro que eu conhecia da rua, mas ele já estava de olho virado. Saí para a galeria. Maior esgano, ó, um corredor polonês de Pm: corre, corre! Levei paulada nas costas e pontapé nas pernas.
Quando chegou na gaiola, antes da escada, um policial soltou um pastor preto que pulou no pescoço do ladrão ferido. Dadá deu uma finta no animal e escapou para a escada, mas levou um chute que veio não sabe de onde, desequilibrou-se nos degraus lambuzados de óleo, caiu e bateu a cabeça. O pastor veio em cima:
- O tombo causou um branco na mente. Foi até bom, porque na hora nem senti as mordidas do cachorro nas pernas e no testículo.
Acordou com o cassetete do Pm:
- Levanta, vagabundo, mão na cabeça!
Como Dadá, os demais sobreviventes tiraram a roupa e correram no meio da pancadaria, escada abaixo, escorregando no óleo e no sangue derramado, com os cachorros no encalço.
Jacó, o traficante por telefone, diz que não houve espaço para altruísmo:
- Saí do xadrez e o cachorro veio atrás. Quando ia me alcançar,
desviei por trás de um companheiro mais gordo, de modo que ele ficou
entre a fera e eu. Infelizmente para ele, coitado, que tomou uma mordida no
braço, que nem rodando o animal no ar ele largava. Não tive
condições de socorrer o rapaz, porque ali era cada um por si
e Deus por quem Ele julgava merecedor.
Majestade controlou os nervos, a cabeça entre as mãos, até
ouvir a ordem de descer:
- Saí desabalado, para escapar da pancadaria. A pressa foi tão
nervosa que, ó, esqueci de tirar a roupa.
Desceu as escadas de bermuda e a inseparável camisa do Corinthians.
Quando chegou no pátio interno, havia um Pm com a metralhadora apontada
para os que desciam. Entre as pernas do policial jazia um homem morto, com
sangue escorrendo pela boca. Era o Santão, que nos ajudava no cinema.
Apesar do tempo de cadeia, Majestade tomou um choque ao ver o corpo do amigo:
- Quando vi o Santão ali, feito troféu no meio das pernas do Pm com a metranca, meu raciocínio paralisou. Ao vê-lo de roupa, o policial soltou a trava da arma:
- ó, corintiano mosca-de-boi, está vestido por quê?
Ao ouvir o som do destrave, Majestade e todos os que estavam perto jogaram-se no chão, um por cima dos outros. Ele diz que nunca tirou a roupa mais depressa:
- Mergulhei de peito no chão e já levantei pelado. Os policiais dispuseram a massa em fila no pátio interno do pavilhão e ordenaram que todos sentassem com os braços cruzados sob as coxas e a cabeça entre os joelhos. Quem levantasse o olhar para ver o que se passava, tomava cacetada e mordida dos pastores alemães.
Ficaram horas sentados no pátio, pelados, em silêncio, com a Pm e os cachorros excitados em volta. Quietinho, preocupado apenas em preservar a vida, Chico Heliópolis, ladrão da favela de mesmo nome, perdeu a corrente de ouro e a santa protetora que ganhou da madrinha na primeira comunhão:
- O Pm abaixou do meu lado: vê se é bom fazer isso com os outros, seu vagabundo, e arrancou a correntinha do meu pescoço. Justamente eu que só roubei firma, banco e mansão e nunca me sujei por coisa miúda. Lá pelas dez da noite a Pm tomou posição na escada e nas galerias e começou a recolher os presos. Subiram os cinqüenta ou sessenta da primeira fila. Minutos depois, mais tiros, gritos e latidos.
No pátio, com medo das balas, os homens procuravam se arrastar, discretamente, para as filas de trás. Gaguinho, um apontador de jogo do bicho e vendedor de maconha que trabalhava na copa dos funcionários, descreveu assim o caminho de volta:
- Na subida da escada, tem uma coisa interessante: estava lavado de sangue, um monte de cadáver espalhado. Não podia parar a fila, os polícias mandavam correr e ameaçavam: se alguém me espirrar sangue, vai morrer! Tinha que correr descalço naquela sangueira, sem levantar os pés para não sujar os elementos, que eles queriam achar pretexto pra matar.
A aversão dos policiais pelo sangue derramado custou a vida de vários desastrados, como explicou Isaías, um ladrão que perdeu o movimento do braço esquerdo por overdose de crack e anos depois morreu de tuberculose na enfermaria:
- Tudo alucinante, na velocidade, e ainda mandava nós gritar: Viva o Choque! Viva o Choque! Um tiozinho que vinha, em vez de pisar num finado estendido na passagem, desviou para o lado do polícia encostado na parede, só que pisou na poça de sangue e espirrou na calça do cidadão. O polícia não teve dúvida: parou a escada na hora e pou, pou, dois tiros, na frente de todo mundo. Atirou, puxou o corpo de lado e gritou para um preso de óculos que vinha em seguida na fila:
- Você aí, carrega esse cadáver lá para baixo!
Nesse momento, a mente do finado deve ter entrado em pane, porque ele caiu
no choro e disse que não tinha coragem. Ah! Você não vai,
é? Deu um tiro seco, que só não foi à queima-roupa
porque o rapaz estava pelado, como todos nós. Numa fração
de segundo, já virou para a fila: Não pára! não
pára!
Os homens foram distribuídos ao acaso nos xadrezes. Em cada um, colocavam
o máximo possível, trancavam e lotavam o seguinte, até
prenderem todos.
Os corpos tiveram que ser carregados para o térreo pelos próprios
presos. Jacó, o baixinho que traficava por telefone, foi um dos carregadores.
- Chegaram para mim e mais quatro: Vocês; aí, podem catar os cadáveres da galeria do segundo andar e levar pra Escola, lá embaixo! A gente pegava nas pernas e nos braços e descia. Tudo depressa, com os polícias apavorando.
A essa altura, embora os acontecimentos já lhe tivessem anestesiado o medo da morte, Jacó se preocupou por estar descalço, com os pés esfolados do futebol:
- Tanto Hiv na cadeia, se escapar vivo vou acabar pegando AIDs. Foi quando um PM mandou a gente empilhar direito os corpos, na Escola, que estava a maior bagunça de braço e perna, as cabeças cada uma para um lado. Nisso que ele está falando, alguém se mexeu na pilha. Ele foi dar uma coronhada de metralhadora no cara e se distraiu, aonde que eu me aproveitei e deitei num cantinho, no meio dos falecidos. Ficou imóvel na brecha entre os corpos, com a respiração quase presa, até que os quatro entraram com o último cadáver. O Pm se dirigiu a eles:
- Terminou? Eles responderam que sim. Rã, rã, rã, rajou os quatro. Caíram duro por cima dos próprios companheiros que a gente tinha carregado.
Enquanto o medo da AIDS salvava a vida de Jacó, um oficial da Pm dava ordem para Dadá descer os corpos do terceiro andar:
Só na gaiola do terceiro tinha uns trinta cadáveres amontoados. A pilha tinha quase dois metros de altura. Descemos eles para o carro do IML estacionado na entrada. já estavam até rijos, com uns arrombos no peito. Quando Dadá e os companheiros acabaram, o tenente mandou chamá-lo:
- Vem cá, vagabundo, você está em latrocínio
de polícia,
- Eu, não senhor, vim preso de laranja.
- Você matou polícia, sim, não me engana!
- Nunca matei ninguém, senhor, minha pena é pouquinha, três
anos só. Caí de laranja.
- Então, antes que eu me arrependa, sobe com essa fila aí. Sai
da minha presença, que você vai pegar o maior boi porque tem
a cara do meu filho mais velho! Mais tarde o ladrão de Carapicuíba
deu graças a Deus pela semelhança física com o primogênito
do militar:
- Eu tirei a noção de que o filho dele me salvou a vida, depois de ver que os demais carregadores sumiram para sempre.
Com os presos trancados, os carros da polícia e do imi transportaram os mortos até tarde da noite. Nas celas o ambiente era trágico, diz Dadá:
- Não conseguimos dormir dentro do barraco. Uma, porque nós ficamos perturbadíssimos, e, outra, que o cheiro de carniça era forte; o chão estava de sangue até o rodapé. Só no dia seguinte é que limpamos tudo, e eu arranjei uma Bíblia.
No livro sagrado, Dadá finalmente leu o Salmo 91 recomendado pela mãe na véspera, e diz que chorou feito criança com o trecho:
- Mil cairão a teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não
serás atingido; nada chegará a tua tenda.
No dia 2 de outubro de 1992, morreram 111 homens no pavilhão Nove,
segundo a versão oficial. Os presos afirmam que foram mais de duzentos
e cinqüenta, contados os que saíram feridos e nunca retornaram.
Nos números oficiais não há referência a feridos.
Não houve mortes entre os policiais militares.
Conheci Bárbara gripada, de calça justa e um nó na blusa acima do umbigo. Tinha um brinco só, uma borboleta colorida tatuada no pescoço e um morango na nádega esquerda, parcialmente escondido pela calcinha de renda.
Foi no lugar mais lúgubre do Carandiru: o Amarelo, galeria escura de paredes úmidas, com vinte celas de cada lado do corredor central, no último andar do Pavilhão Cinco. Para lá vão os marcados para morrer, gente que desrespeitou as leis do crime: estupradores, delatores, uma multidão de craqueiros insolventes e ladrões que ludibriaram comparsas ou deitaram na cama da mulher de algum companheiro preso.
No Amarelo, as celas têm dois metros e pouco de largura por três metros de comprimento e ficam trancadas as vinte e quatro horas do dia. O visitante que vem pela galeria não tem acesso visual ao interior. A porta de entrada é de ferro maciço, com um pequeno guichê central fechado por dentro. Através dele, a malandragem esgueira a cabeça para bisbilhotar, trocar uma idéia cara a cara com o vizinho e passar mercadoria pelo fio de barbante.
A pintura encardida das celas exibe as manchas das cabeças que nela encostaram. No alto da parede oposta à porta, meia dúzia de grades grossas constitui o único acesso ao mundo exterior. A paisagem são as janelas das outras três faces que completam o quadrilátero interno do pavilhão e um pedaço de céu no alto.
Naquela época, cumpriam pena no Amarelo quase seiscentos homens para lá transferidos por livre e espontânea vontade. Sete, oito, doze, às vezes, num espaço restrito, nublado de fumaça de cigarro. Ociosos, sentados no chão durante o dia e deitados em colchonetes de espuma à noite; um corpo para lá, outro para cá, invertidos, a cabeça de cada um voltada para os pés do companheiro, porque dois malandros jamais dormem com os rostos virados um para o outro.
Sol, apenas aos sábados, das oito ao meio dia. Nesse dia, o pavilhão inteiro amanhece fechado para que eles possam descer ao pátio sem risco. Mesmo assim, muitos abrem mão desse direito, preferem continuar trancados. São homens precavidos, empenhados em sair com vida da cadeia.
Às segundas-feiras, com o auxílio do enfermeiro voluntário Paulo Preto, homem livre como eu, e do Faustino, um preso do Amarelo, eu atendia os habitantes do setor. Quando chegávamos ao quinto andar, um funcionário abria as duas portas que dão acesso à galeria central e nos trancava lá dentro. À noite, para sair, gritávamos para ele trazer as chaves.
Fonte: Download Feito do Site: confiar.atspace.com/estacao.htm