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Estação Carandiru

Drauzio Varella

O BARRACO

A cela, xadrez ou barraco é a unidade funcional da cadeia. Suas dimensões variam sem lógica aparente: algumas, até espaçosas, são individuais; em outras, espremem-se sete, oito, vinte ou, como nas de Triagem, sessenta homens.

Há muitos anos a direção da Casa perdeu o direito de posse nos pavilhões maiores, como o Cinco, o Sete, o Oito e o Nove. Nesses, cada xadrez tem dono e valor de mercado. No pavilhão Cinco, custam mais barato: de 150 a 200 reais; no Oito há um xadrez de luxo com azulejos de primeira, cama de casal e espelhos que vale 2 mil.

A origem da propriedade perde-se no passado, quando os recursos da Casa começaram a minguar e a manutenção das celas ficou por conta dos próprios detentos, como explica Juscelino, um mineiro de sorriso encantador que comprava maconha no sertão de Pernambuco e voltava de ônibus-leito com a droga na mochila:

- O companheiro gasta o dele no melhoramento do barraco. Depois, a polícia vai querer colocar outro lá para morar de graça. Cadê a justiça?

Na opinião do dr. Walter, que começou ainda menino como carcereiro, formou-se advogado e chegou a diretor-geral do presídio, para resolver o problema seria preciso transferir todos os detentos, fechar a cadeia e começar de novo:

- No meio da noite, o senhor manda o preso para um xadrez. De manhã, ele sai e diz que não fica de jeito nenhum;sem explicar por quê. Pode insistir, ameaçar, fazer o que quiser que ele não volta; tem medo de morrer. Há xadrez em que o dono é libertado e deixa um inquilino pagando aluguel ou um amigo morando de graça. Se o proprietário voltar para a Detenção, o outro tem que devolver o imóvel. Veja a que situação chegamos!

No início a diretoria chegava a expulsar os ocupantes de uma cela e trancava-a por quinze dias. Quando resolvia abri-la era inútil: preso nenhum aceitava morar nela.

A situação é especialmente adversa para os que chegam na cadeia sem amigos nem dinheiro. Valtércio, um arrombador de carros que, num dia de Copa, roubou oito televisores no portamala dos automóveis estacionados nas imediações do Fórum e mais tarde foi à falência num acerto com a polícia, constatou com amargura:

- É a situação do país, doutor, ter que pagar para morar na cadeia.

A luz entra pelas barras da janela, a "ventaria", ilumina o xadrez e bate na porta, na parede oposta. A porta da cela é maciça, metálica, equipada com uma tranca que corre por fora, na qual é preso um cadeado forte. A presença desse cadeado, porém, não garante segurança a quem está trancado, pois no ambiente existem exímios praticantes da arte de abrir, ou "michar", qualquer tipo de fechadura. Por essa razão, alguns soldam uma alça de metal na parte interna da porta, outra no batente e prendem um cadeado entre elas, para se trancar por dentro. A prática é contra o regulamento e pode custar trinta dias na Isolada.

Uma noite, no pavilhão Cinco, durante a distribuição do segundo número do Vira Lata, perguntei através da janelinha de uma cela às escuras quantos moravam ali, para saber o número de gibis a entregar. Um negro forte acordou, pulou da cama e avançou para a porta com uma faca enorme na mão esquerda (pela rapidez com que a sacou, ela só podia estar escondida embaixo do travesseiro). Até entender o que se passava ele ficou ali, imóvel, com olhos de terror, a faca apontada na direção da porta. É pouco provável que confiasse na firmeza da tranca.

Na parte central da porta, abre-se uma pequena janela basculante, o "guichê", fechado por uma cortininha interna através da qual passam as entregas e efetuam-se as duas contagens diárias, ritual rigorosíssimo da cadeia. O guichê é suficientemente amplo para permitir a passagem da cabeça de um homem, expediente utilizado para xeretar a galeria no horário da tranca. Para garantir a privacidade do espaço interno, pendura-se no teto, um pouco atrás da porta, o "come quieto" um lençol que vem quase até o chão.
Ao contrário das prisões do cinema, em que as portas são gradeadas para expor os prisioneiros à vigilância permanente, na Detenção, os homens trancados nas celas não são vistos por quem passa na galeria. Se os carcereiros querem saber o que acontece, devem se restringir ao campo visual do guichê ou abrir a cela. Quando a situação é mais séria e decidem pela segunda opção, a boa técnica manda fazer os prisioneiros saírem pelados e colar as mãos à parede da galeria oposta ao xadrez. Toda cela tem um vaso sanitário velho mas geralmente limpo, o "boi", de formas variadas. Alguns são daqueles antigos, do tipo francês, com um buraco e dois apoios para os pés; outros são os clássicos vasos de louça encravados num cone invertido de concreto. As privadas terminam num buraco seco, por onde corre a descarga.

Por asseio, os presos jogam água fervente depois que o último usou o banheiro, à noite. Os mais cuidadosos tapam o buraco da privada com um saco plástico cheio de areia, para evitar odores, baratas e os ratos do encanamento. Para não manipular diretamente o saco, prendem-no a uma cordinha que passa por uma roldana fixada à parede.

Todas as celas têm uma pia e um chuveiro ou pelo menos um cano com saída de água na parede. Muitos gozam do conforto de duchas elétricas, que podem ser vendidas num momento de aperto ou aflição do corpo implorando cocaína. No pavilhão Oito, num xadrez coletivo de 27 homens, no fundo, havia um banheiro com um cano quase encostado à parede, através do qual escorria um fio de água. Apesar da ginástica a que eram obrigados, ai daquele que não tomasse o banho diário, mesmo no frio de junho. Os mais velhos cuidavam de impor essa obrigação aos novatos.

É grave a situação da parte hidráulica. Os vazamentos fazem parte da rotina; infiltram paredes, inundam galerias, o pátio interno e o interior das celas.

Alguns canos Já foram tão emendados que os consertos ficam complicados. Os beliches são de alvenaria ou madeira, às vezes engenhosamente colocados em cima da porta, junto às grades da janela ou tão próximos do teto que seus ocupantes se esgueiram como cobras para entrar no exíguo espaço. A este dão o nome de "galhada".

A privacidade no leito é obtida com cortinas coloridas que correm em fios presos ao beliche de cima ou diretamente no teto.

- O cortinório é de lei, devido que senão, tem gente olhando para mim o tempo todo. Sabe lá o que é isso, doutor, entra ano e sai ano, nenhum minuto o senhor poder ficar na sua? É onde que muito companheiro de mente fraca perde as faculdades e dá cabo da própria existência.

Nos grandes xadrezes coletivos, como os de Triagem, com sessenta, setenta pessoas, as camas são substituídas por
colchonetes de espuma de borracha, dispostos lado a lado no chão. A redução do espaço pode ser tal que os homens dormem invertidos, os pés de um no rosto do companheiro:

- Que não tem cabimento ficar dois malandros esfregando o nariz um no outro.

Os menos afortunados sequer têm acesso ao pequeno conforto da espuma, pois os tais colchõezinhos faltam ou são vendidos para pagar dívidas, como é rotina entre os craqueiros. Nesta situação, deitam-se sobre cobertores ou pedaços de papelão, a sandália de dedo como travesseiro.

Nas Triagens, com os homens chegando e saindo o tempo todo, a prioridade na escolha do espaço é estabelecida por critério temporal:

- Quem por último chega, rói o pescoço. Não tem o que perguntar, já vai se aninhando do lado do boi. Só sai dali no dia que entrar um mais recruta.

A mobília é rústica; pequenos guarda-louças, cabides para as roupas e prateleiras para os objetos pessoais, além de bancos toscamente construidos com a madeira que aparece ninguém sabe de onde. Num final de ano, a prefeitura de São Paulo instalou um palco junto ao campo do pavilhão Oito, para um show no qual vários conjuntos se apresentaram, inclusive o Reunidos por Acaso, tradicional grupo de pagode da Casa.

Dois ou três dias depois, quando os organizadores apareceram para desmontar as instalações, descobriram que o palco havia desaparecido ou, como prefere dizer a malandragem, tinha sido "passado na seda":

-Tantas tábuas dando moleza, doutor, nós no maiores gano; caiu do céu...

Uma peça fundamental em qualquer xadrez é o fogareiro: um tijolo com um sulco esculpido pelo qual serpenteia uma resistência elétrica ligada à fiação que corre por fora da parede.

Muitos, ao receber as refeições, lavam os alimentos, adicionam-lhes outros temperos e cozinham tudo de novo, procedimento que leva o nome de "recorte". Demonstrar habilidades culinárias pode ser decisivo na luta por uma vaga num xadrez decente. Em troca da moradia o "barraqueiro", como é chamado o recortador, cuida da alimentação de todos. A comida servida pela Casa é triste. Depois de alguns dias, não há cristão que consiga digeri-la; a queixa é geral. Os que não têm ganha-pão na própria cadeia ou família para ajudar, sofrem. Riquíssima em amido e gordura, a dieta, entretanto, engorda. Obesidade aliada à falta de exercício físico é um dos problemas de saúde da Detenção.

As galerias são lavadas todo final de tarde pelos "faxinas", um grupo de homens que constitui a espinha dorsal da cadeia, como veremos mais tarde. Tudo é limpo, ninguém ousa jogar lixo nas áreas internas. É raro ver um xadrez sujo, e, quando acontece, seus ocupantes são chamados de maloqueiros, com desdém. Na Copa de 94, assisti Brasil versus Estados Unidos num xadrez com 25 presos, no pavilhão Dois.

Não havia um cisco de pó nos móveis, o chão dava gosto de olhar. Em sistema de rodízio, cada ocupante era responsável pela faxina diária: após o café da manhã, ensaboar e escovar o chão, jogar um tacho de água fervente nos dois sanitários, tirar pó dos móveis e bater os tapetinhos; terminado o almoço, varrer bem varrido e água fervente nos bois; depois do jantar, água e sabão, lavar tudo de novo, enxugar e colocar os tachos no fogareiro para a limpeza final, pelando, nas privadas. Sabiá, ex-motorista da prefeitura que usava o carro oficial para entregar cocaína no centro da cidade, até que se apaixonou por uma mocinha da repartição e foi entregue à polícia pela esposa traída, explica o sistema:

- Passamos vários anos neste lugar; tem que zelar como se fosse nossa casa. Eu limpo hoje e só serei encarregado daqui a 26 dias. Não teria desculpa para não fazer no maior capricho. Outra, também, é que não ia dar certo. Querer bancar o espertinho, entre nós, tudo malandro, ó, nunca tem final feliz.

As roupas molhadas são estendidas na própria cela, em cantos do corredor ou presas a um pau hasteado através da janela. Muitos ganham a vida lavando para fora.

Uma vez, presenciei uma discussão na galeria do pavilhão Cinco porque os fregueses da Jaquelina, uma travesti lavadeira e passadeira presa por aplicar o golpe do suador, segundo o qual seus clientes eram surpreendidos em plena atividade sexual pelo amante dela armado de revólver, descobriram que ela ensaboava as roupas na água da privada. Revoltados, xingaram-na de suja, maloqueira e babá. Jaquelina, empertigada, com as mãos na cintura, garantia que o boi de seu xadrez era mais limpinho do que a cama em que dormiam aqueles vagabundos sem classe.

Mulheres nuas decoram paredes, armários e, caracteristicamente, a face interna das portas. São escandalosas, recortadas de revistas masculinas, trocadas ou vendidas em pequenas bancas armadas na galeria, expostas ao lado de pacotes de macarrão, pó de café, latas de ervilha e tênis usados. As mais populares são as loiras, de quatro, fotografadas por trás, com o olhar provocante voltado para o espectador. Não há pudor em misturá-las com imagens de santos, iemanjás, Nossa Senhora Aparecida ou o piedoso Coração de Jesus, em coloridos painéis ecumênicos.

Retratos de homem, jamais; só se for do pai, do irmão ou de artista em cela de travesti. Aqueles que têm mulheres ciumentas ou religiosas recolhem cuidadosamente suas musas na véspera da visita, deixando solitários os santos nas paredes.

Nos xadrezes mais cuidados, o conjunto de cortininhas, tapetes bordados, colchas de retalhos e imagens de santo confere ao ambiente um jeito de casinha caipira. O xadrez é espaço sagrado. É preciso muita confiança para entrar sem convite na cela de um companheiro. Ainda assim, como diz seu Jeremias, aquele senhor pai de dezoito filhos com a mesma mulher, firme de caráter, cumprindo sete anos desta vez:

- Sem o proprietário estar lá, você não entra. Por mais intimidade que teja ou não teja. É mancada grave! Já vi nego morrer por um pão. O cara tinha muita amizade com o outro, fumou maconha, ficou com larica e entrou no xadrez enquanto o amigo estava no Fórum. Tinha dois pãezinhos; comeu um. O outro voltou e disse que tinha guardado o pão para não ter que comer a janta fria. Pronto: de madrugada, matou ele dormindo.

Surpreendidos furtando, os "ratos de xadrez", como são rotulados, apanham de pau e faca. Chegam na enfermaria dizendo invariavelmente que caíram da escada, ensangüentados, cabeça rachada, o corpo marcado de vergões e facadas superficiais, especialmente na região glútea, castigo imposto quando se decide desmoralizar o contraventor. Dessa forma, os ladrões tornam explícito que seu código penal é implacável quando as vítimas são eles próprios.

- Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, só que quando a gente pega é problema.

SOL E LUA

O dia começa às cinco para a turma que serve o café da manhã. Moram todos juntos, geralmente no segundo andar do pavilhão, e fazem parte da confraria da Faxina, que é a espinha dorsal da cadeia, como foi dito. Carregam os pães e grandes vasilhames com café em carrinhos de ferro. Pelo guichê das celas trancadas surgem canecas e bules amassados, à medida que o grupo passa. Os inimigos da aurora deixam a vasilha de café no guichê da porta e penduram um saco plástico para receber o pãozinho com manteiga e evitar o suplício de sair da cama.

Ainda no escuro, acendem-se as luzes dos barracos, em silêncio, para respeitar o sono alheio, como explica o SemChance, um mulato franzino que ganhou o apelido de tanto repetir essas palavras no final das frases: - Tem que ser na manha. Se acordar cedinho, todo mundo dormindo, se for urinar no boi e der descarga ou fazer qualquer zuadinha, o senhor tem que mudar de xadrez. Acordar vagabundo, é sem chance. Perto das cinco da manhã, os carcereiros do noturno efetuam a contagem. Para tanto, obrigam a malandragem a pular da cama e postar-se diante do guichê, para ter certeza de que estão todos presentes e vivos antes da entrega do plantão. Segundo um dos funcionários que há anos exerce essa atividade:

- Nessa hora, cara feia ali é mato.

Às oito começa o destranque. A partir das gaiolas dos andares, sai um grupo de funcionários pela direita e outro pela esquerda da galeria. Com um molho de chaves, o da frente abre os cadeados; o que vem atrás retira-os e puxa a tranca. Sons metálicos reverberam pelo corredor. Das celas, como formigas, os homens saem silenciosos.

Nos pavilhões de trabalho, eles rapidamente assumem seus postos. Outros, como os costuradores de bola de futebol, por exemplo, exercem suas atividades no próprio xadrez. Muitas vezes me detive diante deles, admirando a elegância com que costuram. Trabalham sentados, os gomos da bola presos entre os joelhos, e, a palma das mãos protegida por tiras de couro, passam as laçadas com movimentos rítmicos, precisos, para ca e para o outro lado, até o ponto da amarra. É um balé manual.

Embora a vagabundagem empedernida resista no leito, o vaivém é infernal na galeria e na escada gasta pelo uso. Andam invariavelmente depressa, sobem os degraus de dois em dois; mal acabam de descer para o campo, voltam ao xadrez e, de novo, para baixo. Parecem homens de negócios com hora marcada.
O corre-corre sossega lá pelas nove, estranha hora de servir, ou "pagar" , o almoço. Como não existem refeitórios gerais nos pavilhões, novamente entra em ação o grupo de faxinas. Com as portas abertas, agora o ritual do serviço é um pouco diferente daquele do café: cada um deve estar em seu xadrez, a galeria livre para a passagem do carrinho com as pilhas de quentinhas ou, quando ainda funcionava a Cozinha Geral, com tachos de arroz, feijão e a mistura de carne com batata e cenoura, o popular "picadão" , A presença na galeria neste momento delicado é interpretada como um atentado à higiene alimentar e punida com severidade.

Uma vez, atendi um grandão, estrábico, cabelo escovinha, cheio de escoriações. Alegava ter caído da cama, mentira evidente pelas características dos ferimentos. A verdadeira história pouco depois eu ouvi do Pequeno, um rapaz de língua presa, de um metro e meio de altura, que deu fim à vida de quatro Pms que, segundo ele, mataram seus pais: enquanto os faxinas serviam o almoço, o grandão, distraído, saiu na galeria com a camisa aberta e uma toalha no pescoço. Imediatamente, um dos faxineiros virou-se para ele:

- Tu é bem folgado, simpatia.

Foi a senha para os outros faxinas empurrarem o grandão para a rua Dez, baterem nele e voltarem ao trabalho, como se nada tivesse acontecido.

O velho Lupércio, maconheiro, convicto, conta que no tempo em que havia respeito, nas refeições estendia-se um cobertor Parahyba no chão do xadrez e sobre ele colocavam-se os pratos. Então, o que estava preso há mais tempo naquela cela escolhia o seu; o mais novo era o último a se servir. As regras de comportamento no horário da comida eram rígidas:

- Nessa hora não podia usar banheiro, escarrar, tossir e muito menos chupar dente, que tomava paulada no ato. No período da manhã se concentra o grosso das atividades esportivas e de lazer: futebol, boxe, capoeira, halterofilismo, música e as aulas. A mais popular é disparado o futebol. Nos jogos, quando a bola mal chutada vai parar na canaleta da muralha, o PM que estiver passando por ali dificilmente a devolve ao campo.

A explicação para o descaso - dada por um policial transferido para essa função após a morte de um colega, seguida do fuzilamento de quatro membros da quadrilha que o matara - é vocacional:

- Não entrei na Pm para ser gandula de vagabundo.

Os campeonatos são organizados com regulamento que é posto no papel, depois de discussões intermináveis, pelo pe soal da FIFA (Federação Interna de Futebol Amador), um grupo unido de detentos experientes e respeitados, escolhidos por eleição direta entre os times de futebol de cada pavilhão, comandados pelo diretor do Departamento de Esportes, o funcionário Waldemar Gonçalves, que tem o hábito de mascar cravos que ele guarda numa latinha de pastilhas Valda.

No meio de tantos jogadores é possível montar uma seleção geral de bom nível técnico, o que não evita resultados desastrosos contra excelentes times de várzea convidados para enfrentá-los. Essas derrotas ocasionais, embora decepcionem a malandragem, jamais provocam reações desrespeitosas contra os visitantes. Seu Reinaldo Drumond, um funcionário da portaria, negro, forte como touro, uma vez propôs trazer um time do bairro para enfrentar a seleção da cadeia e justificou para o Waldemar:

- Eu sei que eles vão perder, que o time da malandragem é forte. Mas a minha intenção é fazer que quem está se desviando lá na Vila, pensando em entrar para o crime, venha ver aonde é que leva essa vida.

Anos atrás, num dos campeonatos para seniores, jogadores com mais de trinta anos, fui convidado a dar o pontapé inicial. Honrado pela escolha, que partiu justamente dos mais velhos na cadeia, não só dei o referido pontapé como procurei assistir aos jogos. Na partida decisiva? time do pavilhão Oito venceu o do Dois, por três a um.

No final, os atletas reuniram-se ao redor da mesinha do representante da FIFA disposta na lateral, bem na metade do campo, para as premiações. Havia um prêmio especial para os jogadores que mais se destacaram no time dos campeões e vices. O Waldemar me passou uma medalha pendurada numa fita azul e branca e anunciou o nome do melhor jogador do time do Dois, o vice-campeão.

Era o Gaúcho, um zagueiro com cara de amazonense, que tinha chegado na periferia de São Paulo há vinte anos, como assentador de azulejo. Foi bem no trabalho, até fazer amizade com um ladrão da vizinhança e, por causa dele, meter-se numa briga em que perderam a vida dois contendores. Como conseqüência, fugiu de casa, perdeu emprego, tudo o que tinha, e acabou sócio do amigo ladrão, que não lhe faltou nessa hora.

Depois de lhe pendurar a medalha no pescoço, estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele tremia de emoção, o olho úmido apertado Para não trair o sentimento, brilhando como o das crianças premiadas na escola primária. Ao redor de duas, três da tarde, já é servida a janta, obedecendo ao mesmo ritual de faxinas, carrinhos, galerias vazias e respeito obsessivo pela higiene. Dessa hora em diante, quem tiver fome que se vire por conta própria. Os horários esdrúxulos das refeições justificam-se em função da contagem, que deve acontecer às cinco da tarde. Daí a importância do recorte e a necessidade dos "jumbos":

- O jumbo é a sacolada que a família traz para nós na visita ou deixa na portaria nos dias de semana. Ajuda muito, embora que tem uns cabeça-de-bagre que passam o Jumbo na seda para pagar dívida de droga.

Às dezessete horas, todos são recolhidos a seus andares e as gaiolas são fechadas. As celas permanecem abertas até as sete e meia, exceto as daqueles cujas atividades justifiquem a permanência fora do xadrez, como os faxinas e os enfermeiros, por exemplo. A tranca é outro dos rituais da cadeia: a galeria está movimentada, cheia de luzes, feijão no fogo, as portas abertas com as mulheres peladas voltadas para lado de fora, vozerio, pagode no radinho, entra-e-sai com panelas e roupas. De repente, um funcionário aparece na gaiola do andar e bate seguidamente um cadeado contra a grade ou um cano contra o chão: péim, péim, péim, ritmado, sem parar. Corre cada um para o seu xadrez; depressa, porque a tranca impõe respeito. Em pares os carcereiros começam a fechar: o primeiro pendura o cadeado na alça, o que vem atrás puxa a tranca e trava o cadeado. Tudo rápido, ninguém pode ficar de fora.

Vacilou, na primeira vez tem o nome anotado; na reincidência, são trinta dias de castigo na Isolada, inesquecíveis. Os funcionarios justificam o rigor:

- Se não for enérgico vira bagunça, doutor. Aqui é tudo malandro, a maioria sem ocupação, a não ser ficar de olho numa vantagem. Se der moleza uma noite, na seguinte o senhor não tranca mais ninguém.

Fechadas as celas, nas galerias ouve-se o barulho de pratos, falatório, risadas, as vozes do Aqui e Agora e o jornal Nacional. Depois, gradativamente, as luzes se apagam e o silêncio cai pesado. Mesmo os notívagos que assistem filme até acabar a programação tomam cuidado com volume da Tv, porque sono de malandro é sagrado.

Sem a agitação do dia, sem o sobe-e-desce e o entra-e-sai, a cadeia perde a face humana, transforma-se num casarão ermo, galerias escuras e os altarezinhos de Nossa Senhora Aparecida com vela acesa e vaso com flor de plástico.

Tarde da noite, andando por esses corredores mal-assombrados, com o silêncio quebrado por uma tosse anônima, o miado de um gato, a porta que bate ao longe, entendi por que os suicídios acontecem de manhã, depois de noites de depressão ou pânico claustrofóbico, espremidos entre os outros, sem poder chorar:

- Homem que chora na cadeia não merece respeito.

Seu Lupércio, criado num orfanato de Poá, vendedor de maconha no varejo que na mocidade foi massagista do São Paulo, diz que perdeu a conta de quantos se enforcaram nas grades das janelas, e acha que as noites ficaram mais calmas depois que permitiram as visitas íntimas.

- Antigamente era pior. O calado da noite era quebrado por gritos que ecoavam pela cadeia inteira. Em seguida, o pessoal começava a bater caneca na grade. já era: podia o funça vim buscar que alguém tinha sido estuprado.

FIM DE SEMANA

Sexta-feira, deu meio-dia a água corre nos barracos, alaga a galeria e desce a escada aos borbotões. Cheiro de sabão forte, pagodes e sertanejos da periferia misturam-se no corredor com a bateção de rodos e vassouras. A malandragem estende a roupa na Janela, arrasta móveis e esconde as mulheres peladas.
Faxineiros com bota de borracha, sob o olhar do companheiro encarregado da faxina do andar, empurram a enxurrada escada abaixo, enquanto os que vêm atrás secam a galeria. Entre eles, ágil, desloca-se o encarregado, enérgico e educado, para impedir que sobre qualquer ilha sem enxugar. Na escadaria, a cascata espumante despenca até a gaiola do térreo e desemboca nas águas pretas que outra coluna de faxinas vem puxando a rodo pela Radial, a avenida que une os pavilhões. Tudo, como diz o encarregado- geral do pavilhão Sete:

- Para as visitas encontrar nós num ambiente mais adequado nos princípios de higiene e civilização.

As famílias madrugam na porta, mulheres na imensa maioria. São namoradas, esposas, irmãs, tias e a inseparável mãe, dificil de abandonar o filho preso, por mais crápula que ele seja. Em dez anos na cadeia, assisti a tais demonstrações de amor materno que, confesso, encontrei sabedoria no dito: amor, só de mãe.

Uma senhora do Paraná, de coque no cabelo e pernas grossas de varizes, viajava seiscentos quilômetros de ônibus a cada quinze dias, religiosamente, para visitar o filho condenado a 120 anos. Quatro anos antes, o rapaz, a convite de um amigo traficante, tinha invadido uma casa cujos moradores ele sequer conhecia e chacinou seis pessoas, acusadas de terem pedido providências à polícia para acabar com a boca de crack de propriedade desse amigo, situada na frente da casa delas. Num domingo, a senhora de coque implorou a um guarda do presídio que cuidasse do menino dela:

- Eu sei que o meu filho fez coisa errada por causa das companhias, mas quando olho para ele, não acredito que ele tirou a vida daquela gente como dizem, vejo ele pequeninho no colo, rindo no fundo dos meus olhos.

Num sábado, no campo do Oito, conheci a mãe do Pirata, uma senhora baixa e encorpada, na ponta dos pés e o dedo em riste no nariz dele. Chefe de uma quadrilha que abordava navios na barra de Santos, encarregado de prender uma corda com gancho na murada por onde subiam com as metralhadoras, o Pirata ouvia a descompostura de cabeça baixa, as mãos entrecruzadas atrás, humilde como um zagueiro diante do cartão amarelo.

As visitas carregam sacolas de plástico abarrotadas; potinhos de plástico com pastéis, maionese, macarronada, calabresa frita e frango assado. Não há a menor preocupação com o colesterol: trazem só o que o preso gosta. Vêm muitos bebês agasalhados, boa parte deles concebida na própria cadeia. Crianças maiores enfadadas pela inatividade da espera completam o contingente infantil.

É uma população bem heterogênea de gente pobre, que passa horas em pé: senhoras sofridas, crentes de trança, mães de família, morenas de calça justa e loiras oxigenadas que falam e gingam no ritmo da malandragem. Algumas chegam tristes, com seus filhos. Outras trazem cadeiras de armar e cumprimentam a fila inteira.
Como as mulheres sempre encontram assunto entre elas, com o passar das horas a fila engrossa de rodinhas femininas enquanto o pelotão de diabinhos corre, tropeça, derruba sorvete na roupa e toma beliscões no meio delas. Está longe de ser desprezível o sacrifício dessas pessoas. Uma vez, seu Mavi, diretor do pavilhão Nove, perguntou a um grupo de presos que se queixava da comida:

- Estão reclamando do quê? Comem sem trabalhar; boa ou má, recebem assistência médica e remédio de graça, direito que trabalhador não tem; quando aprontam um companheiro cisma de matar vocês, nós transferimos para o Seguro. Quem tira cadeia é a família, que sai de casa no escuro com a sacolada, pega três conduções ainda reúne o dinheirinho ganho com suor para vocês gastarem no crack.

Quando o sol está alto, a horda de ambulantes ataca e a névoa de churrasquinho de gato embaça a calçada. Vendem lataria, bolacha, cocada de tabuleiro, raspadinha de groselha, cachorro-quente recheado com purê de batata e refrigerante de dois litros. Barracas expoem camisetas, tênis usados, alugam paletós para os homens poderem entrar (exigência que ultimamente caiu em desuso) ou vestidos discretos para as mais ousadas, porque o ambiente exige respeito.

Em todos os cantos apregoam maços de cigarro, a moeda oficial atrás das grades. O básico é o Cominander, anunciado a 7 reais o pacote de dez. Lá dentro, cada maço vale 50 centavos; Hollywood e Marlboro custam o dobro. O valor do maço obedece à lei da oferta e da procura: entrou muito cigarro, o preço cai; faltou, sobe. Como a oferta flutua de acordo com a condição financeira da família, que, por sua vez, reflete a situação econômica do país, nos períodos de crise nacional as visitas levam menos cigarro e o preço do maço sobe. No plano Collor, no auge do congelamento, Xanto, um ladrão que ao visitar a tia-madrinha no Pari baleou tanto o tio bêbado que teve a infeliz idéia de espancá-la na frente dele, como os dois primos que tinham vindo em socorro do pai (atirou no peito dos três porque, como reconhece, não saber dar tiro nas pernas dos outros é um de seus defeitos), fez a seguinte análise:

- Isso jamais teria se sucedido entre nós. Já imaginou, uma mocinha chegar aqui e anunciar que a grana nossa, ganhada na luta, tinha congelado? já era, doutor, não sobrava nem o pensamento na mente dela.

Os pavilhões Dois, Cinco e Oito, do lado esquerdo de quem entra, recebem os familiares aos domingos; os demais, aos sá bados. No último final de semana de cada mês é autorizada a visita em ambos os dias: é a "dobradinha". Os portões abrem às sete, quando a fila já está enorme. obrigatório passar pelas baias de Revista. A dos homens é mais superficial; as mulheres são revistadas por funcionárias que olham até dentro da calcinha e, quando desconfiam, mandam que a revistada a tire e se agache, para verificar se há corpo estranho na genitália.

Por mais tato que as revistadoras possam ter, o exame é constrangedor, especialmente para senhoras recatadas. Até as onze horas, a fila de entrada anda a toque de caixa, para que todos possam estar fora antes das quatro, horário da contagem geral. Final de semana comum, vêm de 2 a 3 mil pessoas. Quando faz frio aparece menos gente, e com chuva, menos ainda. Páscoa, Dia das Mães e Natal é enorme a multidão que se aglomera.

Na tarde da segunda-feira que antecedeu o Natal de 1997, cheguei no presídio para ver os doentes e já havia uma pequena fila com cobertores, cadeiras e camas de armar. Eram mulheres e crianças que, terminada a visita da véspera, não tinham voltado para casa: postaram-se ali, dispostas a aguardar até o próximo final de semana.

Nos dias que se seguiram, a fila cresceu; as mulheres se revezando, comendo de marmita, usando banheiro nos bares da vizinhança e trocando fralda de bebê ali mesmo, protegidas apenas por uma cobertura rústica de amianto que a direção construiu sobre a calçada nos últimos anos.

Naquela semana, sexta-feira depois do expediente, houve uma cervejada de Natal dos funcionários num bar vizinho. Mais de meia-noite, quando saímos alegres, a fila ia longe, bem para lá do abrigo, passava pelo quartel da Pm e chegava no metrô. Uma mulata de sorriso franco, Zilá, das primeiras na ordem de chegada, disse que estava muito feliz porque o marido fizera chegar a ela uma quentinha com macarronada preparada por ele no xadrez, para inveja das amigas na fila. Zilá tinha uma escadinha de quatro filhas, das quais apenas a mais velha havia sido concebida com o pai em liberdade, seis anos antes. Naquele dia, para lhe fazer companhia e ser apresentada a um parceiro do marido, tinha chegado a Fran, uma vizinha do Taboão da Serra, magrinha, tímida, que podia ter no máximo vinte anos. Apesar de compactuar com as intenções, Zilá desaconselhava a pretensão da amiga:

- É o que eu digo para a Fran: você quer conhecer o Roberval eu te levo, mas não desejo para ninguém o cansaço da fila, a humilhação na Revista, sempre sozinha, morta de saudade, as crianças perguntando quando o papai volta para casa. Só com muito amor no coração uma mulher suporta essa vida.

Ao lado, Fran, o rosto na penumbra projetada pelo poste de luz, concordava com a cabeça, mas pretendia passar a noite ali decidida a conhecer o tal de Roberval, um mulherengo de bigode, sócio do marido de Zilá no negócio de assaltar carga.

As visitas entram através de portinholas que abrem diretamente na calçada, depositam as sacolas diante do funcionário, que as examina, e depois são submetidas à revista pessoal. Tarefa absurda revistar tanta gente; levaria dias para ser executada com rigor.

Essa dificuldade estratégica cria oportunidade para um funcionário articular-se com a visita e fazer vista grossa à entrada de itens proibidos, procedimento arriscado para quem traz e para os que deixam passar. Estes são fiscalizados pelos próprios colegas, como explica um deles:

- Comigo foram contratados mais de duzentos fúncionários. Dez anos depois, sobraram cinco ou seis. Com esse salário baixo, alguns se contaminam com o crime e viram pilantras. Só que a gente nunca sabe quem são. Tem que desconfiar de todos, lamentavelmente.

Mais tarde, fiquei sabendo que o desconfiado autor das palavras acima, por sua vez, também despertava desconfiança entre seus colegas. Como diz o dr. Walter, diretor-geral:

- A coisa mais difícil numa cadeia é identificar os que estão envolvidos com os ladrões.

Os visitantes que fazem tráfico de droga para o interior do presídio correm risco. Quando pegos, são encaminhados ao distrito mais próximo, onde é lavrado o flagrante de tráfico; inafiançável. Um domingo, cruzei com uma mocinha de dezenove anos que saía chorando, presa ao entrar com vinte gramas de cocaína para o namorado.

Num outro dia, a diretoria substituiu inesperadamente um funcionário da porta e surpreendeu uma visita com 32 quilos de maconha, em duas sacolas. A apreensão causou problemas internos:

- Deixou nós na maior secura. No desdobramento, subiu o preço do crack. As mulheres que trazem droga, fazem no para tirar o companheiro ou o filho de um apuro ou para que ele ganhe atrás das grades o sustento da família.

Os funcionários que fiscalizam a entrada parecem cães farejadores movidos por percepções extra-sensoriais. Um deles, um mulato grandão com olhar de boi manso, doze anos de portaria, utiliza a seguinte técnica:

- Revisto a sacolada, mas sem descuidar da fila. Quando percebo alguém fora da naturalidade, dou uma olhada rápida nos olhos da pessoa, seguida de outra. À medida que ela (digo ela porque quem traz bagulho é quase sempre mulher) começa a chegar perto, meu olhar ganha comprimento. No fim, quando ela põe a pacoteira em cima da mesa, eu nem ligo, meu olhar está fixo dentro dos olhos dela. Quem deve, não resiste, vacila. Outros estendem a mão para cumprimentar a visita e sentir se está fria, trêmula ou molhada de suor. Com o rabo do olho, não deixam escapar um detalhe da figura humana que se apresenta: a roupa, a ginga difícil de disfarçar, uma tatuagem, os modos e a giria:

- Se a mulher se aproxima e diz: "Ô, chef'ão", já sei que é mulher de ladrão!

O olfato é um aliado poderoso dos que guardam a saída: o cheiro da cadeia entranha no homem preso. Difícil definir que odor é esse. Parece mistura de vários outros: alho frito, pano de chão guardado, suor e um toque de creolina. Embora não possa ser classificado como mau cheiro, é desagradável. Quente e pesado.

É tão pegajoso que os carcereiros, ao abrir as celas de Castigo, apinhadas, nunca se colocam diante da abertura:

- Não fica na frente da porta, doutor, esse bafo gruda na roupa da gente de um jeito que nem lavando sai.

Os dias de visita exigem atenção redobrada dos guardas. Sair disfarçado de visitante é estratégia tradicional nos presídios. Uma vez, um detento trocou a calça cáqui por um jeans e saiu com um grupo de funcionários. O guarda da porta ficou um pouco atrapalhado - tanta gente trabalha na Casa...

- De que grupo você é?

- Sou do grupo tal, vim de reforço.

- Pediu autorização para o seu Raimundo?

- Lógico!

- Então, malandro, a casa caiu, que nem seu Raimundo não tem!

Outro preso, de estatura baixa, com o mesmo disfarce, deu de cara com um funcionário do tamanho de um guarda-roupa de casal, que um dia eu ouvi atender o telefone identificando-se modestamente: "Aqui é o príncipe negro da Portaria".

Sua Alteza desconfiou da palidez do baixinho:

- Qual é o teu grupo?

- Grupo um.

- E o teu número?

- Número um.

- Tudo número um! Qual é, você é da Bralima, malandro?

Esses casos, que mais tarde viram folclóricos, são punidos com trinta dias de castigo na Isolada, mas não
causam revolta:

- Se ele vem na moral, tudo bem, é direito dele. Não prejudicou ninguém, é respeitado. A cara dele é fugir, a nossa é não deixar. Vai para o Castigo, mas sem dosar corretivo. Agora, se vem na forçada, como um que me agüentou no portão com um revólver engatilhado na minha cabeça, mas acabou preso antes de chegar na esquina, aí é outra coisa. Lamentavelmente, foi ele mesmo que pediu.

Lidar com a fila exige habilidade no trato social. É preciso paciência com as pessoas nervosas, ajudar senhoras de idade, as grávidas, e encarar com firmeza as que apelam para a ignorância. Muitos conhecem as líderes naturais do grupo e, por intermédio delas, acalmam as outras nos momentos de tensão. É tarefa para profissionais habilidosos, que sofrem o impacto psicológico do trabalho, como diz o funcionário de olhos mansos:

- Meus colegas me acham tolerante. Para eles pode ser, mas a família se queixa que eu mudei. Antes, eu era caseiro, tranqüilo, visitava minha madrinha todo dia, conversava. Depois de doze horas nesse trabalho, chego em casa com a cabeça quente, janto quieto e vou dormir. Nem me lembro da madrinha.

VISITAS ÍNTIMAS

São nebulosas as origens das visitas íntimas. Contam que começaram no início dos anos 80, insidiosamente, com alguns presos que improvisavam barracas nos pátios dos pavilhões nos dias de visita. Outros, mercenários, juntavam dois bancos compridos, cobriam-nos com cobertores e alugavam o espaço interno para a intimidade dos casais.

Na época, as autoridades fizeram vista grossa, convencidas de que aqueles momentos de privacidade acalmavam a violência da semana. Quando surgiram as primeiras queixas de menores engravidadas nesses encontros furtivos, ficou evidente que a situação escaparia do controle. Incapazes de acabar com o privilégio adquirido, decidiram, então, oficializar as visitas íntimas: as maiores de idade podiam subir ao xadrez do companheiro, desde que previamente registradas com identificação e foto. Desta forma, no melhor estilo Pantaleón e suas visitadoras, personagens de Vargas Llosa, o sexo foi burocratizado na Casa de Detenção de São Paulo e o sistema espalhou-se pelo país.

Cada detento tem direito de inscrever uma única mulher. Esposa, amásia ou namorada, não há exigência de laços legais. No caso de rompimento, outra só pode ser indicada depois de seis meses. Com jeitinho, porém, esse período às vezes é substancialmente reduzido. Mais de 2 mil mulheres fazem parte do programa.

A rotina é caprichosa: após a revista elas se dirigem ao pavilhão, onde os homens esperam de roupa passada, cabelo penteado e perfume cheiroso. No térreo, numa mesinha, na porta que dá acesso à escada que conduz às celas, fica um funcionário com a caixa de fichas. Os casais fazem fila diante da mesa, a mulher entrega a carteira de identidade, ele confere a foto, prende o documento à ficha com um clipe e o retém até a saída. Da porta para dentro não há carcereiros, os presos administram a própria visita.

Nos pavilhões mais populosos, como o Cinco, o Oito e o Nove, o pátio interno fica tão cheio de gente que os presos sem visita evitam descer para deixar espaço, e como não podem permanecer nas celas ocupadas pelos casais, aguardam em pé, no corredor. A galeria fica cheia de homens. Quem nunca entrou no presídio imagina que os mais fortes tomem as mulheres dos mais fracos num corredor como esse, cheio de malandros encostados na parede.

Ledo engano: o ambiente é mais respeitoso do que pensionato de freira. Quando um casal passa, todos abaixam a cabeça. Não basta desviar o olhar, é preciso curvar o pescoço. Ninguém ousa desobedecer a esta regra de "procedimento", seja a mulher esposa, noiva ou prostituta. Uma vez, Genésio, um nordestino cicioso que esbanjou nas boates da zona norte o dinheiro roubado em mais de cem assaltos, reconheceu na galeria uma mulher da qual havia sido cliente:

- o companheiro vinha com o braço no ombro dela. Virei de costas para a parede, para evitar que ela me visse e deixasse transparecer. Olha que elegância, doutor! Num xadrez, caso um único morador receba visita, todo o tempo disponível é dele; se houver vários, o horário é dividido em partes iguais. Não há necessidade de bater na porta; a pontualidade é britânica. Nas celas maiores, com vinte, trinta homens, em que não existe outra possibilidade senão a do uso concomitante, eles improvisam espaços privativos com cobertores pendurados. Para acobertar as manifestações mais exaltadas do arroubo feminino, ligam os rádios bem alto. Os sem-visita podem alugar o xadrez para companheiros mais afortunados:

- Que nada é de graça numa cadeia.

Se houver disponibilidade econômica e um pouco de conhecimento, é até possível tirar visita em outro pavilhão, expediente utilizado para receber a esposa no xadrez de origem, no sábado, e a namorada em outro pavilhão com visita aos domingos. O número de funcionários é insignificante para coibir a infidelidade.

Por um desses mistérios da alma feminina, são muitos os que arranjam namorada enquanto cumprem pena. Uma vez, o juiz corregedor, de tanto analisar pedidos envolvendo detentos e suas mulheres, queixou-se ao diretorgeral:

- Doutor, o que o preso tem que nós não temos?

Muitas moças vêm visitar um parente e acabam apresentadas ao amigo dele. Outras respondem a correios amorosos de revistas femininas e são convidadas a conhecer o missivista, invariavelmente um rapaz de bons princípios que deu um mau passo e espera encontrar no amor de uma mulher a força para se regenerar.

As visitantes sentem-se protegidas no ambiente. Ao retirar os carcereiros do interior dos pavilhões, a direção sabiamente entregou a administração da visita aos únicos capazes de garantir segurança total. O homem preso tem pavor de perder a mulher amada.

Sem-Chance, ladrão escolado, fala da esperteza do "Ricardão", nome atribuído ao amante da mulher de quem está na cadeia:

- Se na visita não tiver respeito, doutor, elas vão ficar com medo de voltar, onde que uma conta para outra algum fato lastimável sucedido e, daqui a pouco, entre elas: eu não vou mais lá! Se você não vai, eu também não, é perigoso! Pronto, ói nós aqui no maior veneno e elas curtindo lá fora, que Ricardão é o que mais tem, pronto para dar o bote traiçoeiro na fragilidade da mulher solitária. É sem chance.

É preciso saber proceder: jamais cobiçar a mulher do próximo e manter impecável a ordem geral. Não há falta considerada pequena, qualquer deslize é gravíssimo. Certa vez, um estelionatário de bigodinho bateu na esposa durante a visita e os gritos foram ouvidos nas celas vizinhas. A sorte do agressor foi um funcionário, minutos depois, escutar três rapazes no pátio organizando um grupo para matar o arruaceiro assim que terminasse a visita, e providenciar sua imediata transferência para o Amarelo, setor dos jurados de morte.

A estratégia funcionou apenas em parte: nas primeiras horas da manhã seguinte, em pleno Seguro, o valentão tomou duas facadas. Em estado grave, foi levado para o Hospital do Mandaqui, sofreu cirurgia, passou quatro dias na UTI, perdeu oitenta centímetros de intestino e ganhou uma colostomia, mas escapou com vida. A malandragem se espantou:

- Deu a maior sorte!

Embora participem do programa mulheres de todas as idades, as jovens constituem maioria. Na saída, chama a atenção o número de mocinhas com bebês. Muitas saem de cabelos molhados, denunciadores do banho tomado no xadrez.

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