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Estação Carandiru

Drauzio Varella

O BAQUE

O trabalho no Carandiru começou com um diagnóstico da epidemia. De maio a agosto de 1990, colhemos sangue de 2492 detentos e aplicamos um questionário epidemiológico com perguntas sobre comportamento sexual e uso de drogas, entre outras.

Pela manhã, ao abrir as celas, os funcionários convocavam de setenta a oitenta homens que iam escoltados para o pavilhão Quatro e aguardavam trancados na gaiola do térreo, para evitar encontro com desafétos. Da gaiola, em grupos de dez, eram encaminhados ao laboratório para tirar sangue e responder ao questionário. O estudo foi realizado com o auxílio decisivo de seis presos do pavilhão Quatro, entre eles, os responsáveis pela coleta de sangue, ex-usuarios de cocaína injetável para os quais não havia acesso venoso impossível; na falta de opção, puncionavam vasos invisíveis no cotovelo. O mais habilidoso, de cabelo crespo e olhos rápidos, que ria fora de hora, preso por assaltos em parceria com a mulher do melhor amigo, que quis matá-lo quando descobriu a cumplicidade dos dois, justificou com modéstia o elogio que lhe fiz:

- Doutor, quem já injetou cocaína no escuro, com agulha sem ponta, lavada na chuva do telhado, colher sangue com esse material descartável que o senhor traz é até covardia da parte nossa.

Os resultados mostraram que 17,3% dos presos da Detenção estavam infectados pelo Hiv. Entre eles foram identificados dois fatores de risco significantes: uso de cocaína injetável e número de parceiros sexuais no ano anterior a pesquisa. Ao lado destes, estudamos um grupo de 82 travestis presos na Casa e constatamos que 78% eram portadores do vírus. Dos que se achavam há mais de seis anos no presídio, 100% tinham o teste positivo.

No trabalho com os travestis, encontramos o caso da Sheila, condenada a três anos e dois meses por ter comprado eletrodomésticos para o casamento de um ex-namorado (pelo qual ela, boba, ainda estava apaixonada) com o talão de cheque roubado de um pastor protestante que a tinha contratado na avenida. Seios enormes, blusa com nó acima do umbigo, Sheila confessava na presença de testemunhas mais de mil parceiros sexuais na Casa de Detenção no decorrer do ano anterior à pesquisa. Com eles havia praticado relação retal receptivo, desprotegido, a prática sexual associada ao mais alto risco de transmissão da AIDS. Ela era Hiv-negativa, teste repetido e confirmado no Laboratório Bioquímico de São Paulo e no de Retrovirologia da Cleveland Clinic dos Estados Unidos, demonstrando que algumas pessoas não se infectam mesmo após inúmeras exposições ao vírus.

Quase ao mesmo tempo, um grupo da usi, conduziu estudo semelhante com os detentos no dia em que chegavam para triagem no pavilhão Dois. Os resultados obtidos foram muito próximos dos nossos, sugerindo que a grande maioria das infecções acontecia na rua, antes da prisão. Na época, a moda era cocaína injetável. Nos cantos do presídio, os carcereiros achavam seringas e puniam os donos. Quando o batalhão de choque da PM revistava as celas, ao lado das facas apreendidas empilhavam um monte de seringas usadas.

Chocolate, um ladrão azarado do Jardim Bonfiglioli que roubou, sem saber, a casa da namorada do tio traficante e tomou uma surra de corrente pelo engano, e depois assaltou uma outra sem ter idéia de que era do filho de um delegado, contou assim uma visita do Choque:

- Os homens entraram com cachorro e metralhadora. Abriram a porta do xadrez e deram voz para a gente sair pelado, colar as mãos na parede da galeria e não olhar direto na cara deles. Acharam uma grinfa ainda com sangue dentro, debaixo da cama do Coça-Coça. Nem indagaram pelo pai da criança, já saíram dando paulada em nós todos, com a pastorzada pegando doído.

A repressão, contraditoriamente, favorecia a disseminação de hepatite C AIDS, pois estimulava o uso comunitário de seringas e agulhas, que podiam ser alugadas ou vendidas já cheias de droga para usuários que as injetavam em frações proporcionais à quantia paga, sem qualquer cuidado, a agulha passando direto da veia de um para o braço do outro.

Com caneta bic usada e havaiana velha, um ladrão de fala mansa, marido de uma mulher bonita da qual ele morria de ciúmes, chamado Chico Ladeira, preso por seguranças armados de metralhadora num assalto a um templo da igreja Universal, ganhava bom dinheiro fabricando seringa:

- Pego a bic e tiro a carga. Esquento uma agulha de injeção, que eu consigo por meios próprios de mim mesmo, e encaixo na ponta da caneta, que com o calor derrete o plástico e gruda firme. O êmbolo eu faço com uma borrachinha redonda cortada da alça da havaiana, fincada na ponta de um arame duro. Firmeza, dou garantia. Se vazar pode devolver que eu troco.

Muitos traziam nos braços o estigma da dependência: trajetos venosos esclerosados e cicatrizes de abscessos bacterianos. Além dos usuários ocasionais, havia os chamados "baqueiros", subjugados pelo vício, assustados nas galerias, olhando para trás, para os lados e até para o teto como se algo fosse lhes cair sobre a cabeça, vítimas do delírio persecutório que inferniza o usuário crônico de cocaína.

Coça-Coça, que ganhou o apelido por causa de um amigo que o surpreendeu na zona pedindo para a prostituta passar as unhas em suas costas, descrevia assim esse delírio:

- Eu tomava baque na casa de um considerado meu que vivia amigado com uma mulher feia como a fome. Quando nós estava são, ó, o maior respeito! Era só injetar farinha na veia que ele entrava numa que a gente tinha que sair correndo, porque senão eu comia a mulher dele. Nós corria até perder o fôlego, aí o barato abaixava e a gente raciocinava: pra que isso, parceiro? Aí, voltava para casa, normal, na amizade, e tomava outro baque. A paranóia retornava tudo de volta e a gente tinha que correr de novo. Quando a farinha estava pela hora, nós chegava tão cansado que caía no chão, ridículo, sem força.

A situação era grave. Havia uma epidemia de cocaina injetável no presídio, reflexo da que se disseminava na periferia de São Paulo e de outras cidades brasileiras. Uma vez assisti a um ritual de cocaína injetável, ou "baque" , ao redor de uma mesinha, durante a gravação de um video educativo, num armazém abandonado. Eram quatro participantes: um jamaicano negro de rosto comprido, recém-saído da cadeia, que dizia ter sido preso injustamente ao visitar amigos colombianos de Medelín num hotelzinho da rua Aurora; um filho de árabes envelhecido precocemente; um magrelo de dentes estragados pai de dois filhos, que assaltava bilheteria de metrô; e um nissei da máfia que explorava lenocínio nas boates da Liberdade, o bairro oriental de São Paulo. Cada qual chegou com o pacotinho de cocaína enrolada em papel-manteiga e uma seringa pequena com agulha fina., dessas de insulina para diabético, fundamental para evitar marcas no braços. Colocaram três copos de vidro no centro da mesa:

um vazio, outro cheio de água da torneira e um terceiro com água fervida; entre eles, uma colher de sopa bem lavada. O jamaicano encheu um terço da seringuinha no copo com água fervida, enquanto o japonês explorador de mulheres derrubava uma dose de cocaína na colher seca.

O jamaicano esvaziou a seringa na colher e com o protetor da agulha dissolveu o pó no líquido, elogiando a qualidade daquela partida que se diluía facilmente. À direita dele, o japonês, mudo, apertava com força os músculos do braço, os olhos fixos nas veias expostas. Com a seringa, o aplicador aspirou o pó diluído na colher e introduziu a agulha bem devagar na pele do oriental impassível, até o sangue refluir vermelho. Como parte do ritual que eu desconhecia, injetou apenas um quarto do conteúdo da seringa e aspirou com o embolo um volume de sangue igual ao do líquido injetado.

Em seguida, repetiu a operação de injetar e aspirar varias vezes. O japonês mantinha os olhos arregalados na seringa, fascinado pelo entra e sai de sangue em seu interior. A administração durou dois ou três minutos, após os quais o explorador de mulheres levantou-se e começou a falar incoercivelmente, enquanto o árabe de rosto enrugado fazia saltarem as veias do antebraço.

O procedimento repetiu-se idêntico com os outros dois participantes: diluição do pó na colher, introdução lenta da agulha, fluxo e refluxo de sangue, olhar vidrado na seringa, agitação e monólogos concomitantes. Para minha surpresa, entretanto, o efeito da injeção era efémero. O aplicador ainda estava com a agulha na vela do magrinho de dentes estragados, o terceiro da roda, e o nisseiansioso ria garroteava o braço de novo. Enquanto este tomava o segundo baque, era a vez do árabe ficar agitado, depois do banguela e assim sucessivamente, num frenesi de intensidade crescente que só terminou quando o último grão de pó foi consumido.

Completada a primeira rodada, antes de iniciar a segunda oj amaicano lavou a seringa suja de sangue no copo com água da torneira e a esvaziou no copo inicialmente vazio. Depois de repetir duas vezes a operação de limpeza, o aplicador voltou a carregar a seringa no copo com água fervida para diluir a nova dose de pó na colher.

No final, o copo inicialmente cheio de água da torneira estava quase seco e o outro, vazio no inicio, continha uma solução tinta de sangue venoso.
Era a festa do Hiv. Embora cada um trouxesse a própria seringa, bastava alguém na roda estar infectado para espalhar vírus na água da lavagem das seringas e, ainda, contaminar a colher que todos usavam. Talvez por isso mais tarde eu tenha encontrado tantos ex-usuarios com AIDS que juravam nunca haver utilizado seringas alheias.

Quando acabou, os baqueiros continuavam falando sem parar nem ouvir, a boca seca pelo efeito do alcalóide tantas vezes injetado. No final, enquanto recolhíamos equipamento, vi o banguela pai de dois filhos pegar da mesa um copo com a solução sanguinolenta, subproduto da limpeza das seringas, e levá-lo à boca sem abalar os que estavam a seu lado.

- Não bebe isso! - gritei.

Ele não entendeu e começou a tomar o líquido grosso de sangue. Até eu conseguir deter-lhe o braço, bebeu pelo menos metade do copo:

- Olha o que você está bebendo, cara, isso é sangue puro! - Nossa! Nem percebi, pensei que era agua.

NO CINEMA

Então, vieram as palestras do cinema. A Casa tem um enorme salão cimentado, no segundo andar do pavilhão Seis, para mais de mil ocupantes, onde antigamente funcionou o cinema, destruído numa rebelião. Ali nós reuníamos trezentos ou quatrocentos presos, montávamos um telão com equipamento de som, passávamos vídeos educativos sobre AiDs e eu respondia as perguntas da platéia. O trabalho de montagem ficava por conta de dois funcionários da UNIP, o Roberto e o Luís, ajudados por uma equipe de detentos coordenada pelo Gerson do pavilhão Oito. Com o passar do tempo, Roberto e Luís ganharam popularidade na Casa, o primeiro apelidado de Pc pela malandragem devido à semelhança fisica com o personagem trágico de Alagoas.

Deslocar tantos homens do pavilhão de origem para o cinema e levá-los de volta ilesos não era simples. A operação, comandada pelo Waldemar Gonçalves, funcionário responsável pelo Departamento de Esportes, começava às oito da manhã. Os xadrezes dos andares cujos ocupantes desceriam para assistir à palestra eram destrancados antes dos demais e a malandragem dirigia-se para o pavilhão Seis. No final, lá pelas onze horas, percorriam ordeiros o trajeto de volta.

Uma semana após a outra, durante anos, centenas de presos indo e voltando, muitas vezes cruzando com inimigos de morte, e jamais ocorreu qualquer incidente. Entre os ladrões, havia um pacto de respeito ao cinema das sextas - feiras.

Hernani, um falsário ou "171", como prefere a malandragem, que se gabava de ser mais perigoso com a caneta do que os companheiros de revólver, justificou a tranqüilidade do ambiente:

- O senhor, o Luís e o Pc vêm fazer uma coisa boa para nós. Se algum mano criar caso, um acerto de conta, uma palhaçada, vai se colocar contra o bem geral. Aí é problema! Precisa desprezar o apego na vida.

Os homens chegavam em grupos. Boa parte, por princípio, ia direto para o fundo e sentava no chão, mesmo que houvesse lugar à vontade nos bancos da frente. No telão, enquanto entravam, passávamos vídeos de cantores populares. Ouviam atentos, marcando o ritmo no balanço do pé, discretos. Dançar ou mexer o corpo,jamais: - Que onde já se viu malandro rebolar na frente do outro! Lá pelas nove horas, parávamos a música, acendíamos as luzes e eu subia ao palco para dizer o seguinte:

- Atenção, malandragem, existe uma epidemia de AIDS na Casa. Os companheiros de vocês ficam magros, enfraquecem, vão para a enfermaria do Quatro e nunca mais voltam. Nós vamos passar um vídeo e depois responder perguntas sobre a doença. Não conversem agora. Nada é mais triste na vida de um homem do que acabar seus dias numa cadeia.

Durante as primeiras palestras, seu Florisval, o diretor de Disciplina, postava-se no palco, de costas para mim, e encarava a platéia. Um dia, pedi-lhe que não se preocupasse e fiquei sozinho com os presos. Deu certo, comecei a me entender melhor com eles. Enquanto passava o vídeo de AIDS, às vezes ouvia-se conversa no fundo da sala. Uma das manhãs, durante a projeção, no escuro, resolvi cruzar o cinema e sentar lá no fundo, entre eles, só para ver se a conversa parava. Fui, movido por uma sensação racional de confiança, mas estava com medo. Atravessei o cinema devagar. Quando cheguei nas últimas filas, a conversa calou. Sentei no chão, no meio dos ladrões, e fiquei assistindo ao vídeo. Tinha as mãos geladas e os batimentos cardíacos acelerados. Veio a sensação de que alguém pularia por trás para me esganar. Controlei o medo e resisti até o final. Então, levantei e voltei sem pressa para o palco. No caminho, notei que aquele andar não era bem o meu: tinha um toque da malandragem nas ruas do Brás. Na semana seguinte, repeti a experiência. O medo voltou bem menos intenso. Na terceira vez, o medo acabou.

Terminado o vídeo, eu respondia às perguntas feitas num outro microfone com fio comprido levado pelo Santista, um ladrão que dizia ter aproveitado a vida: fechava a boate, pagava bebida para todos, depois ia cheirar cocaína no motel com as moças da casa e, generoso, cobria o corpo delas com dinheiro roubado:

- Eu era o rei da noite, todas queriam sair comigo.

As dúvidas e as questões levantadas eram concretas. AIDS para eles não constituía preocupação teórica, era problema prático. Queriam saber os cuidados com as secreções corpóreas dos doentes, o risco de transmissão para os familiares, os sintomas iniciais e o tempo de evolução da doença.

Após a última resposta, em dois minutos, no máximo, eu resumia três idéias essenciais. Primeira: a solidariedade com o companheiro de xadrez, doente, não representa risco porque AIDs não se transmite no contato casual. Segunda: sem camisinha, o vírus passa do homem para mulher e da mulher para o homem, e nas relações homossexuais o parceiro ativo também corre perigo. Terceira: todos os que tomam droga na veia vão pegar o vírus, é questão de tempo.

No fim, eu acrescentava em tom evangélico: quem não consegue escapar do inferno da cocaína engole, faz supositório, fuma, mas baque na veia não, pelo amor de Deus!

A recomendação para substituir a via injetável era deixada para o final porque, no desfecho, quando eu insistia que fu massem em vez de injetar, explodia uma salva de palmas per meada por longos assobios, o que criava um clima apoteótico para a minha saída da sala.

Na época, esta última mensagem sobre a cocaína injetável foi dada assim porque me parecia ridículo, naquele ambiente, repetir slogans ingênuos do tipo "diga não às drogas" A razão de tantos aplausos, no entanto, eu só compreenderia em toda a profundidade bem depois, quando ficou claro que o crack varreria a cocaína injetável da cadeia.
A tarefa de tirar da cama centenas de malandros, antes das oito, para assistir a um vídeo educativo seguido de recomendações médicas, considerada irreal pelos funcionários mais experientes, foi facilitada decisivamente pelo Hernani, um senhor de cabelo grisalho, especialista no golpe da arara, através do qual montava firmas fantasmas para quebrá-las e dar calote na praça:

- Doutor, acordar vagabundo é um problema problemático. Por que o senhor não deixa passar um vídeo erótico no final da programação? No esgano que a moçada se encontra, vai lotar o cinema.

Fizemos um teste. No final, depois que eu saía da sala, entrava um vídeo de erotismo explícito. A estratégia de misturar música, medicina preventiva e sexo foi imbatível: um sucesso de público. Pode dar certo em outras cadeias, desde que sejam tomadas duas precauções: não permitir a entrada para assistir apenas ao último vídeo, pois a programação é um pacote indivisível, e, o mais importante, o filme erótico só começa quando o médico sai da sala.

Já nas primeiras palestras fiquei surpreso com a consideração que os homens demonstravam por mim. Nas perguntas usavam termos e expressões como "relação retal" "penetração", "prostituição", "homossexuais" ou "mulheres de cadeia" - jamais uma palavra grosseira, palavrão, nem pensar. Certa ocasião, ao interromper um vídeo de Daniela Mercury para colocar o de AIDS, uns três ou quatro do fundo assobiaram por brincadeira, como fazem os alunos de cursinho. Esta pequena manifestação deu o que fazer para o Waldemar Gonçalves convencer o pessoal que ajudava na montagem do equipamento a não esfaquear os assobiadores. Santão, um mulato musculoso cumprindo dezoito anos por assalto a banco, que ajudava a montar o equipamento de som, era dos mais revoltados:

- Qual é a desses caras, meu, querer zoar o médico que vem conscientizar os manos do perigo dessa praga e dar uma distração para a coletividade? Eles não estão tirando o doutor, estão tirando nós!

Na semana seguinte, antes de começar a palestra, o Benê, um filho de alcoólatra que odiava bêbado e baleou dois deles numa padaria de Parelheiros porque importunaram uma moça que ele nem conhecia, homem de poucas palavras e moral suficiente para apitar a decisão do campeonato interno de futebol daquele ano, apareceu com três jovens:

-Doutor, os manos aqui querem trocar uma idéia com o senhor.

O mais velho dos três, que na adolescência teve o olho esquerdo vazado por uma bala perdida, falou de cabeça baixa e com as mãos cruzadas atrás:

- Em nome meu e dos parceiros aqui presentes, junto, a gente veio pedir desculpa muito pelos assovios. Não foi por mal, mas se os companheiros entenderam que sim, quem somos nós para discordar.

Essa aura de respeito sincero em torno da figura do médico que lhes trazia uma pequena ajuda exaltou em mim o senso de responsabilidade em relação a eles.

Com mais de vinte anos de clínica, foi no meio daqueles que a sociedade considera como escória que percebi com mais clareza o impacto da presença do médico no imaginario humano, um dos mistérios da minha profissão.

Rita cadilac

Fizemos um concurso de cartazes de prevenção à AIDS patrocinado pela UNIP, com prêmio de mil dólares convertidos em maços de cigarro, a moeda local, dividido entre os cinco ganhadores. O Waldemar Gonçalves, do Esporte, e um grupo de presos dos postos culturais dos pavilhões distribuíram cartolina branca e pincel mágico preto. Cópias dos melhores cartazes foram posteriormente afixadas pela cadeia inteira.

O primeiro colocado desenhou uma camisinha, dentro da qual havia uma seringa pingando sangue. Embaixo, os dizeres: AIDS Você pode evitar".

Tantos cartazes de AIDS e nunca vi alguém unificar com tanta propriedade a idéia do preservativo e da seringa numa mensagem unica, como fez o vencedor, um magrinho com dentes em péssimo estado que tinha parado de estudar na escola primária e cumpria cinco anos, por pequenos assaltos em parceria com o primo mais velho na região do largo Treze, zona sul de São Paulo. Os prêmios foram entregues numa tarde de calor intenso, no cinema do Seis. Estavam presentes mais de mil detentos. Para abrilhantar a cerimônia, o Waldemar convidou Rita Cadillac, ex-chacrete que encantava os homens diante da TV, sábado à noite. O pagode ficou por conta do Reunidos por Acaso.

Depois da quinta música, o mestre - de- cerimônias, Demétrio, um senhor careca com anel no dedinho, viciado em corrida de cavalo, anunciou com voz melosa:

- Prezados reeducandos deste estabelecimento penal, o humilde locutor que vos dirige o verbo tem a honra de anunciar esta grande artista figurativa da televisão. Musa indomável da arte dançarina. Aquela que foi a bailarina crooner do impredizível Chacrinha, que Deus o tenha. Neste momento festivo, convido para adentrar ao palco a madrinha da Casa de Detenção: Rita Cadillac!

As últimas sílabas dos dois nomes próprios saíram intermináveis. De saia justa, Rita subiu decidida, os seios balançando na blusa entreaberta. Uivos e suspiros na platéia. Com sorriso malicioso ela encarou o público, fez um sinal para os músicos e caiu no samba. Mulher sensual, requebrado maravilhoso!
Excitada, a massa gritava:

-Vira, madrinha! Vira, Rita, pelo amor de Deus!

Ela, desentendida, continuou seu bailado lascivo de frente, no máximo de lado, para os homens suplicantes:

- Vira como a gente gosta! Vira, Ritinha, só uma vez!

Quando os gritos atingiram o clímax, Rita, de saia preta, ar de colegial, levou a ponta do dedo indicador ao lábio e com a outra mão desenhou um círculo imaginario, como a consultar o desejo da malandragem.

- Isso, vira! Agora, madrinha, mata nós! Suada, dois botões desabotoados, ela afinal fez a vontade dos fãs.

Imediatamente as vozes calaram. Silêncio total.
No pagode do Reunidos, o cantor, de cavaquinho, atacou estribilho de sua autoria:

- "Liberdade é você, o nosso amor é um barraco para nos aquecer."

De costas para o público extasiado, no ritmo, suas cadeiras começaram um movimento sinuoso de amplitude crescen-te. Quando esta atingiu o grau máximo, Rita Cadillac, com a mão na nuca e a outra abaixo do umbigo, dobrou gradativamente os joelhos sem afrouxar o rebolado, até as coxas ficarem paralelas ao nível do palco. Resistiu longo tempo requebrando nesta posição, de salto alto e costas eretas. Depois tomou o caminho inverso ao da descida. No meio do percurso para cima, quando as coxas atingiram 45 graus em relação ao palco, subitamente sua bunda estancou no ar, por segundos. Rosto de perfil, queixo sobre o ombro, mão esquerda levantando o cabelo do pescoço molhado, as cadeiras, afinal, deram o tranco definitivo para o alto e, artista, saiu na direção do pandeiro, para o delírio total da malandragem, que quase pôs abaixo o velho cinema. Com todo o respeito.

ATROPELO NA DIVINÉIA

Com freqüência, ao terminar as palestras, os presos me paravam no corredor para expor problemas de saúde. Queixavam-se de febres noturnas, fraqueza, ínguas, tosse, lesões de pele, moléstias venéreas. Vinham magrinhos, com fôlego curto e sintomas característicos da fase avançada da AIDS. Impossível resolver seus casos naquelas consultas-relâmpago, palpar pescoços, olhar gargantas inflamadas ou feridas nos genitais, em pé, no meio dos curiosos. Não havia como evitar essas abordagens ou deixar de me envolver com os dramas individuais. Às vezes, uma afecção banal como o sapinho, igual ao da boca dos bebês, fácil de curar com alguns comprimidos, impedia o doente de engolir até saliva. Gente com sintomatologia sugestiva de tuberculose automedicava-se com inúteis vitaminas e mastruz, uma erva à qual atribuem propriedades medicinais.

A assistência médica no presídio era precária para enfrentar uma epidemia como aquela. Para cuidar dos 7 mil prisioneiros, havia dez médicos, se tanto. Os baixos salários, a falta de condições de trabalho haviam corroído o ânimo da maioria, de tal forma que poucos, deste grupo já pequeno, exerciam a função com dignidade.

Nessa fase, eu saía da cadeia com um misto de impotência e culpa. De um lado, não conseguia esquecer o olhar encovado dos doentes; de outro, o que tinha eu a ver com aquilo? já não bastavam o tempo gasto com as palestras e o risco de andar naquele meio? Além disso, muitas das expressões que me sensibilizavam como médico possivelmente nunca haviam demonstrado complacência diante de suas vítimas indefesas, na rua.

O impasse tinha duas soluções: parar de ir à cadeia ou encontrar um horário para atender os doentes, organizadamente. Prevaleceu a segunda alternativa. Aquele mundo havia entranhado em mim, era tarde para fugir dele. Como médico, não me cabia julgar os crimes dos pacientes, a sociedade tinha Juízes preparados para essa função. Além disso, fazer medicina naquele lugar, só com o estetoscópio, como os médicos antigos, após tantos anos de clínica apoiada em exames laboratoriais e imagens radiológicas, era um desafio.

Uma manhã de inverno, subi até o quinto andar do pavilhão Quatro para acertar os detalhes com o dr. Mário Mustaro, o chefe do serviço médico da Casa, por coincidência meu ex-professor de bioquímica na faculdade. Falamos da burocracia interna, das patologias mais prevalentes e conheci meu primeiro enfermeiro, Edelso, um rapaz com jeitão de classe média, preso por roubo de automóvel e exercício ilegal da medicina.

Estávamos nessa conversa quando entrou um funcionário:

- Doutores, precisam sair rápido. Três presos fizeram refém no pavilhão Cinco e estão vindo para a frente na direção da Divinéia.

Na escada, o médico-chefe, mais de trinta anos de serviço público, aconselhou-me:

- Vê como é? As instalações são precárias, falta material, remédio, pessoal, tudo, e quando alguém tem boa vontade, esbarra no problema disciplinar. Quer um conselho? Não perde tempo com isso aqui. Descemos depressa. Ele saiu para a portaria e eu, curioso para ver a confusão, aproveitei um pretexto e fiquei para trás com um guarda que me pôs a par do acontecido.

Cada um com sua faca, três presos do Amarelo tinham agarrado o carcereiro:

- É o seguinte, chefão: reagiu, morreu!

Com o refém em ponta de faca, desceram até o térreo e saíram do pavilhão. A malandragem abriu espaço no pátio. Na porta que separa o Cinco do Dois, o porteiro percebeu a situação do colega:

- Passam só os três e eu tranco de novo. O resto fica!

Deu um tempo para destrancar. Enquanto isso, os detentos que estavam no pátio do pavilhão Dois puderam ser recolhidos e a porta da gaiola interna foi fechada. Um mulato, baixinho e troncudo, de camisa aberta, à direita do refém, com uma das mãos segurou-lhe o braço esquerdo passado por trás das costas e, com a outra, encostoulhe uma lâmina de 30 centímetros contra o tórax. Do lado oposto, um branco de cabelo desgrenhado, dentes falhados na frente, mantinha posição simétrica à do mulato, de modo que o funcionário, lívido, ficava com os braços cruzados por trás do corpo e uma faca de cada lado do peito. O terceiro, musculoso de malhação, puxava o refém pela gola da camisa e espetava-lhe, de leve, embaixo do queixo, uma lâmina pontiaguda. Percorreram a Radial, que liga os pavilhões, e pararam diante do portão do Dois, que dá para a Divinéia. A essa altura, na muralha, três PMs movimentavam-se nervosos com as armas para atirar. Na Divinéia, um grupo de funcionários mais velhos tomou posição. Negociação tensa para abrir a porta de acesso à Divinéia; escorria sangue do queixo do carcereiro rendido. Os ladrões exigiam transferência para outro presídio, a Pm esperava uma brecha para atirar e os funcionários para cair em cima. Mútuas ameaças de morte, porta trancada, gritaria e indecisão.

Dada finalmente a ordem, apenas o portãozinho de pedestres foi aberto - passagem estreita para dois, impossível para quatro. Os funcionários em círculo ao redor do portão abriram alas.

O fortão, musculoso, passou antes com a faca no queixo do carcereiro, o mulato e o descabelado ficaram para trás. Descuido grave. Um Pm da muralha engatilhou. Com o ruído, o mulato, ato reflexo, abaixouse. O descabelado que vinha atrás dele foi obrigado a parar. Como que ensaiados, dois canos metálicos cantaram no ar.

No susto, o musculoso voltou-se para trás, afrouxando a faca ensangüentada. Descuido fatal. O refém agarrou o braço do algoz e imobilizou a arma.

Em volta dos três formou-se uma aglomeração de calças jeans. Impossível ver detalhes. Quando tudo acalmou, o funcionário -refém, branco como cera, fascies doloroso, saiu carregado pelos colegas, com o pé direito fraturado de vingança. O mulato e o musculoso, cheios de equimoses, foram embolados num carrinho de mão usado para transportar tachos de comida. O descabelado, camisa em frangalhos, sangue escorrendo na fronte, olho direito fechado por um inchaço vermelho, incapaz de dar dois passos em linha reta, vinha ao lado do carrinho. Vendo-o trôpego, na direção da enfermaria, um funcionário recém-chegado na Divinéia gritou: - Ainda consegue andar, ladrão? Os colegas têm coração mole!

BEM-VINDO

Na semana seguinte a essa tentativa de transferência frustrada pela ação dos funcionários de coração mole, voltei ao pavilhão Quatro. O elevador estava quebrado, subi as escadas até o quinto andar, segui o corredor e saí na enfermaria. Era uma galeria com doze celas de um lado e dez do outro, uma copa no fundo à esquerda, um banheiro grande com mais azulejos despregados do que assentados na parede e três chuveiros elétricos, dos quais apenas um esquentava.

Neste, sob a água que escorria em pingos grossos, um preso sem camisa, com cara de boxeador, esfregava um trapo ensaboado nas costas esqueléticas de um doente e, com a outra mão, agarrava-o pela axila para mantê-lo em Pé. O paciente tinha ferida cruenta no rosto, extensa, que pegava toda a região frontal direita, avançava sobre as pálpebras, encobria completamente o olho e descia pela face, provocada por Herpes Zoster, um vírus oportunista freqüente nos casos de AIDS. Aquele enfermeiro -pugilista amparando sem jeito o doente bambo com o rosto desfigurado, parecia cena de filme macabro.

Os quartos, na realidade, eram celas comuns caladas de azul-ingênuo na metade de baixo e branco na de cima, pé-di-reito alto, claras de dia e com uma luz mortiça à noite. No interior deles, um catre metálico, colchãozinho de espuma cortada à faca, privada, pia e mais nada. Na parede oposta à porta maciça, uma janela gradeada com os vidros quebrados.

No espaço exíguo entre a cama e a parede, os doentes amontoavam algumas peças de roupa, um par de tênis, o chi-nelo, sacos plásticos com comida, banana, pão amanhecido e a caneca do café.

Alguns pareciam bem de saúde; recuperavam-se de cirurgias após tiroteios, facadas, problemas ortopédicos, queimaduras por água fervente derramada por desafétos, crises de bronquite asmática e dermatites. Outros, emagrecidos pela tuberculose epidêmica no presídio, perambulavam de bermuda e chinelo rider, enchendo a galeria de acessos de tosse e bacilo de Koch. Nas camas, enrolados em cobertores ordinários, jaziam homens febris, caquéticos, a mucosa da boca coberta de sapinho, dispnéicos, molhados de urina, em fase terminal de evolução da AIDs. Tinham o olhar resignado que a morte impõe quando chega devagar.

Com o Edelso e mais dois detentos, passei a primeira visita. No final, entrei no quarto de um rapaz de Santo André, ladrão de automóveis, pele e osso, que tossia incoercivelmente e cuspia uma secreção sanguinolenta. O escarro tingia o chão de vermelho rutilante, não havia onde pisar.

- Você não pode cuspir assim! Está com tuberculose, quem entra aqui, pisa e espalha a doença pela enfermaria.

- Doutor, se as tosses fossem menas e a força mais, eu podia se erguer para cuspir na pia, mas do jeito que eu estou ruim do fôlego não tem condições.

Paramos, os enfermeiros e eu, na saída da enfermaria, junto a ouvidos curiosos. Expliquei-lhes que o bacilo da tuberculose está presente no escarro e nas gotículas invisíveis espalhadas no ar pela tosse, e que o risco de transmissão naquele ambiente era real, inclusive para nós mesmos.

Terminei de prescrever, dei algumas orientações e me despedi. Um dos enfermeiros, Juliano, fortão, de bigode, que pu xava a perna esquerda atingida numa emboscada em que perderam a vida un irmão e outro parceiro, acompanhou-me ao elevador:

- Bom descanso, doutor. O senhor volta?

Fui para casa com medo de pegar tuberculose.

O IMPACTO

Naquela época, eu tinha vinte anos de experiência clínica com doentes graves e terminais, e a Impressão de conhecer o ambiente da cadeia. Mesmo assim, fiquei chocado. Passei a semana introspectivo e desinteressado dos acontecimentos sociais, as lembranças da enfermaria indo e voltando. Minha mulher disse que nunca me viu tão calado.

A introspecção, no entanto, não refletia a tristeza que como médico talvez eu devesse sentir diante daquela miséria humana. A perspectiva de penetrar fundo o universo marginal, embora assustadora, era tão fascinante que para dizer a verdade eu estava feliz, excitado com aquele trabalho e apaixonado pela medicina, profissão caprichosa como a mulher amada, capaz de despertar crises inesperadas de paixão pela vida inteira.

Comecei a estudar tuberculose, que eu não tratava desde os anos 70, quando pensávamos que a moléstia seria erradicada do Brasil a curto prazo. Durante muitos dias, ao lembrar da cadeia, reconhecia sensações interiores que me remetiam à infância correndo atrás de balão, no Brás. A vida pulsava mais forte.

Voltei na semana seguinte e reuni o trio de auxiliares: o falso médico Edelso, Juliano, que puxava a perna, especializado em bancos e carros-fortes, e Pedrinho, um tipo de barba cerrada e passado misterioso, com três balas alojadas no tórax, condenado a 22 anos. Antes de ir para a enfermaria, ensi nei-lhes como administrar a medicação contra a tuberculose e os cuidados gerais com os pacientes. Eles ouviram interessados, fizeram perguntas e deram sugestões para melhorar o atendimento.

A visita transcorreu num clima bem diverso da anterior. Vários doentes referiam alívio da tosse, da sudorese noturna e aumento da disposição. Quando passamos pelo rapaz de Santo André que cuspia sangue, ele estava sentadona cama, afundando um pãozinho no café com leite. Um outro, com uma pneumonia associada à AIDs, agoniado com a falta de ar na semana anterior, andava devagarinho pela galeria.
De xadrez em xadrez, do final da manhã até o meio da tarde, examinei os pacientes. Do meu lado, os três enfermeiros sem almoço, na maior seriedade. Na saída, havia um clima de respeito profissional entre nós. Fui embora com sede, faltou coragem para tomar água da torneira. Na outra semana, a caminho da enfermaria, sentados no banco junto à porta da sala de atendimento ambulatorial, meia dúzia de presos aguardavam. Um deles, guarda-costas de um traficante da Rocinha, vestido com a camiseta do Flamengo, os braços cobertos de feridas que ele coçava ininterruptamente, falou num sotaque carioca arrastado:

- Com sua permissão, doutor, sabemos que o senhor vem para atender os manos da enfermaria com HIV, mas eu e os companheiros aqui do Oito estamos assim, modo de dizer, no maior esgano. Uns com febre e fraqueza, outros com comichão no corpo que não deixa dormir. Por isso, viemos apelar para a sua boa vontade de dar uma força para a gente.

Visivelmente, precisavam de ajuda. Dos seis, quatro estavam com tuberculose avançada, um apresentava um quadro neurológico estranho e o carioca com coceira tinha lesões dermatológicas disseminadas que eu não fazia idéia do que representavam.

Terminei de vê-los e fui para a enfermaria com o trio de auxiliares. Com exceção de uns dois ou três portadores de AIDS cujo estado geral se deteriorava progressivamente, os demais continuavam melhorando. Chegamos a dar algumas altas.

Horas mais tarde, ao sair, na porta da sala de atendimento nova surpresa, desta vez mais numerosa: quinze doentes com a mesma conversa de que precisavam de ajuda. Tinha caído a noite quando terminei. O juliano desceu comigo até o térreo e chamou o funcionário para destrancar a gaiola. O carcereiro veio com um molho de chaves:

- Até essa hora, doutor! Nem sabia que o senhor ainda estava lá em cima. E você, Juliano já era. Pode subir que eu vou te trancar.

Juliano deu um sorriso estranho e subiu de volta. Saí do pavilhão, cruzei a Divinéia e bati no portão que leva à portaria. Através da janelinha, o porteiro da noite me mediu de alto a baixo.

- Quem é você?

- Sou médico, estava atendendo no Quatro.

Encarou-me outra vez, demoradamente, depois abaixou o olhar na direção da minha calça:]

- É o seguinte: eu vou falar com o plantão, e se ninguém te conhecer, você fica.

- Sou médico, pode perguntar para o funcionário que me abriu a gaiola do Quatro.

- Não é você que vai me dizer para quem eu devo perguntar. Espera aí.

Desconfiado, olhou fixo nos meus olhos e saiu sem pressa na direção da Ratoeira. Apesar de saber que tudo acabaria esclarecido, o fato de estar do lado de dentro e experimentar a rudeza do contato com aquele que tinha a posse da chave provocou-me certo desconforto, talvez semelhante ao expresso pelo sorriso do Juliano quando ele subiu para ser trancado no xadrez.

No final dei sorte, o porteiro voltou com um funcionário que me conhecia e se desculpou:

- Não leva a mal, doutor, são 7 mil aí dentro. A minha cara é desconfiar!

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