Nas semanas subseqüentes, a realidade demonstrou-se mais complexa do que eu imaginava. O número de doentes que vinha dos pavilhões para atendimento ambulatorial aumentava sem parar. Não eram apenas os casos de AIDS e tuberculose, a clientela tornou-se variada: facadas, acessos de asma, diabéticos, hipertensos, abscessos, craqueiros dispnéicos, paraplégicos com escaras, epilépticos em crise, dermatites diversas e, inclusive, gente saudável com intenção de tirar vantagem do médico ingenuo. Parecia um minipátio de milagres.
Eu tinha que ser rápido: ouvir as queixas, palpar, auscultar, olhar, fazer o diagnóstico e receitar o medicamento em cinco minutos no máximo. Sem errar, se possível. Medicina de antigamente: ouvir, examinar e dar o remédio.
Inútil solicitar exames laboratoriais porque os resultados, quando vinham, não chegavam a tempo de auxiliar na conduta. Uma velha máquina de raio X passava semanas quebrada ou aguardando licitação para a compra de filme radiográfico.
Dificuldades não faltavam. A medicação prescrita percorria complicadas vias burocráticas, e, nas freqüentes transferências dos detentos de um pavilhão para outro, perdia-se no caminho. A burocracia era tanta que as internações e altas da enfermaria eram batidas em seis cópias, trazidas para assinar sem papel-carbono. Muitas vezes, como é característico no serviço público, existia fartura de antibióticos e antivirais caríssimos, enquanto faltava aspirina e remédio para sarna.
Ao lado desses problemas operacionais, havia a ignorância dos pacientes. Classicamente, no tratamento da tuberculose os sintomas costumam desaparecer ao redor de quatro a oito semanas, porém a medicação deve ser mantida por seis meses, no mínimo, sob risco de recaída e, pior, do aparecimento de bacilos resistentes altamente letais que podem infectar os contatuantes. Manter adesão ao esquema prescrito era dificuldade intransponível para a maioria dos doentes, muitos dos quais dependentes de drogas de uso compulsivo como o crack.
Para complicar, eu não estava à altura daquela clínica antiquada, sem imagens radiológicas ou confirmação laboratorial. O espectro das patologias era amplo demais para alguém como eu, treinado na época das especializações.
As doenças de pele, por exemplo, epidêmicas nas celas apinhadas, compreendiam a dermatologia inteira: eczemas, alergias, infecções, picadas de percevejos, sarna e a muquirana, um ácaro ousado que se esconde nas dobras das roupas, capaz de saltar longas distâncias de uma pessoa à outra.
Uma vez, chegou um doente chamado Mil e Um, referência à falta dos quatro incisivos na arcada superior, que cumpria trinta dias de castigo na isolada porque apreenderam em seu xadrez duzentos gramas de crack e oito aparelhos de televisão, supostamente tomados de devedores inadimplentes. Ele era Hivpositivo e tinha feridas pequenas espalhadas nas pernas, coxas e parte inferior do abdômen, das quais saía um líquido claro e minúsculas larvas brancas, rastejantes. Não parou um segundo de se coçar enquanto falou comigo. Tratei a infecção associada e, frustrado, fiquei sem saber que agente era aquele, porque Mil e Um foi transferido para a Penitenciária, no desdobramento do caso dos televisores.
De todos os problemas, entretanto, o pior era a mentira. Naquele lugar,
é tudo complicado. Ao lado de pacientes graves, outros fingem doença,
e separar os dois grupos nem sempre é fácil para o médico.
O preso entrava pálido, cabelo amarrota-do, referindo fraqueza, diarréia,
vômitos, tontura e malestar.
A aparência era de pessoa doente, mas como ter certeza? A palidez podia
ser conseqüência do jejum intencional, da noite sem dormir, do
crack ou do talento de ator; as queixas subjetivas, como comprovar? O objetivo
dos fingidos era conseguir transferência para a enfermaria ou evitar
a alta e terem que deixá-la. Apesar da precariedade das instalações,
aquele lugar era um luxo, como explicou Juliano:
- Eles chegam na piolhagem, porque isso aqui é hotel três estrelas, vista do lugar daonde que eles são originados.
Quase todos pediam receitas de vitaminas, com estranha predileção pela B12 injetável. De início, achei que era por se sentirem fracos e considerarem pobre a alimentação servida pela Casa. Cheguei até a fazer algumas dessas prescrições inúteis, pensando num possível efeito placebo que lhes desse conforto psicológico. Logo percebi que entre os habitantes da cadeia também estava na moda a crença nos poderes miraculosos das vitaminas e sais minerais, criando um movimentado comércio paralelo desses produtos, no qual a dolorida injeção de B12, por exemplo, valia cinco pedras de crack. Descobri graças à honestidade do Pequeno, o baixinho de língua presa que confessava ter assassinado os quatro Pms que teriam matado seus pais e que apanhava feito gente grande cada vez que o pelotão de choque revistava a cadeia:
- Doutor, preciso de umas vitaminas, mas não vou enganar a sua pessoa.
Não é que eu vou tomar elas, vou vender para
comprar sabonete e papel higiênico. Sou sozinho, não recebo visita
e me viro com a ajuda dos médicos.
Fiquei atrapalhado. Havia fornecido prescrições para diversos
mentirosos, estaria certo negar para o único sincero?
Por isso após descobrir o outro lado, proteger esse pequeno delito
tornava-me cúmplice do Pequeno e sabe lá de quantos mais, no
futuro. Neguei, com uma ponta de remorso:
- Pequeno, até aqui eu não sabia da existência desse comércio. De hoje em diante, não receito vitamina para mais ninguém.
Ele respondeu:
- Se é assim, para ninguém mais, o senhor tem o meu respeito. Desde então, nunca mais prescrevi vitaminas, ganhei a consideração do Pequeno e aprendi que um dos segredos daquele lugar era não abrir exceções: fez para um, difícil negar para os outros.
Outra vez, apareceu um descendente de árabes, nariz avantajado, cheio de correntes embaraçadas nos pêlos do peito:
- Doutor, preciso uma receita de Biotônico Fontoura que eu tomo desde pequeno, para a minha família trazer na visita.
Eu nem sabia que ainda fabricavam o tal tônico revigorante e dei a
receita ao Turco, alcunha óbvia desse personagem que anos mais tarde
fugiu por um túnel cavado no pavilhão Sete; sem ela o Biotônico
trazido pelas visitas seria barrado na portaria.
Depois dessa solicitação, vieram outras; sempre a história
do Biotônico Fontoura da mamãe. Mesno esquema das vitaminas,
nada vi de errado em receitar o assim chamado fortificante, uma vez que eram
as famílias que o compravam, e se o preso decidisse posteriormente
vendê-lo, problema dele.
Uma tarde, ao cruzar a Divinéia, encontrei o chefe do serviço
médico, meu ex-professor:
- Vocês agora tratam AIDS com Biotônico Fontoura? Qual é a gozação?
- Ninguém te avisou que é proibido? Eles bebem misturado,com a pga desfiada e Saridesiina. Uns anos atrás, de tanto ouvir falar nessa maria-louca com Biotônico, resolvi experimentar. Um preso trouxe uma xícara cheia, anunciando pela galeria que estava chegando o café forte do dr. Mário.
- E que gosto tem?
- Gosto de fogo adocicado!
Na semana seguinte, na enfermaria, reclamei com meus auxiliares:
- Prescrevo Biotôníco para malandro colocar na maria-louca e ninguém me diz nada!
Eles riram, sem graça. Menos o Pedrinho, que respondeu sério:
- Doutor, o senhor ajuda nós e nós agimos legal com o senhor. Pode confiar, mas não conta com a gente para entregar os companheiros.
Devagar, aprendi que a cadeia infantiliza o homem e que tratar de presos
requer sabedoria pediátrica. Muitas vezes é suficiente deiXá-los
se queixar ou simplesmente concordar com a intensidade do sofrimento que referem
sentir, para aliviá-los. O ar de revolta que muitos traziam para a
consulta desaparecia depois que lhes palpava o corpo e auscultava pulmões
e coração. No final, não era raro encontrar ternura no
olhar deles. A paciência de escutar e o contato do exame físico
desarmavam o ladrão.
Ainda assim, os acontecimentos diários deixavam claro que a complexidade
daquele trabalho exigia atenção permanente e discernimento para
saber o que não deveria ser dito.
Um dia de chuva, entrou um ladrão do pavilhão Sete enrolado num cobertor, feito um beduíno do deserto, apenas os olhos de fora. Tinha os lábios rachados de febre, a conjuntiva amarelo - avermelhada e uma dor tão forte nos músculos que gritou quando lhe apertei a panturrilha.
Era leptospirose, doença transmitida pela urina do rato, comum naquela época do ano em que chovia toda tarde, o Tietê transbordava para a Marginal e o trânsito na região do Carandíru virava um inferno. Com tantos ratos e tantos esgotos entupidos, não era de estranhar a ocorrência de um ou outro caso. Aquela manhã, entretanto, estava atípica: em duas horas de atendimento, era o quarto doente com os mesmos sintomas. Muita coincidência. Enquanto o ladrão falava, dei uma espiada nas fichas dos tres pacientes anteriores e verifiquei que todos vinham do Sete, justamente o pavilhão mais próximo da muralha. Quando ele terminou de relatar seus sintomas, perguntei-lhe em tom de brincadeira:
- Você também trabalha no túnel?
Brincadeira infeliz! O rapaz ficou mais pálido ainda, os olhos amarelos arregalaram para dentro dos meus. Como se tivesse ficado surdo, Edelso, o falso médico, retirou-se da sala. Percebi que, imprudente, havia cruzado uma barreira perigosa. Na cadeia, certos temas queimam a língua de quem fala e os ouvidos que escutam. Parece que ficamos horas ali, tensos, naquele olhar mudo, até eu romper o silêncio:
- Desculpa, estou brincando. Nunca vi tanta leptospirose como hoje. Você é a quarta pessoa.
- Doutor, agora o senhor me complicou.
Desconcertado pela surpresa, ele não negou nem confirmou o trabalho no túnel. Procurei tranqüilizá-lo:
- Olha, não sou polícia, venho aqui para atender quem está doente. Pode confiar.
- Pelo amor de Deus, doutor, essa fila pode gerar desgraça em mim e nos companheiros que passaram por aqui hoje.
- Já nem sei de que assunto você está falando.
Lentamente, seu rosto se desanuviou. Sugeri-lhe que ficasse internado na
enfermaria, mas ele recusou; preferiu tomar antibiótico no xadrez.
Disse que podia contar com a ajuda dos companheiros.
Duas ou três semanas depois, em casa, no café da manhã,
abro o jornal: "Detentos fogem através de túnel no Carandiru".
O buraco, escondido atrás de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, foi aberto numa sala do Patronato, área onde os presos trabalham, no térreo do Sete, passou sob a muralha e terminou na sala de jantar de uma casa da rua vizinha ao presídio. Há quem diga haver percorrido o caminho inverso: da sala da casa em direção ao Patronato do Sete.
Alheios ao risco de desabamento, os homens rastejaram mais de cem metros pelo túnel inundado, com ratos afogados, boiando. Um dos primeiros a passar derrubou uma lâmpada da iluminação improvisada que, em contato com a água, eletrificou o trajeto. Na escuridão, espremidos entre as paredes do buraco, tomando choque no corpo molhado, sessenta e três homens escaparam para a liberdade.
Só não fugiu mais gente porque um deles, obeso, entalou na boca do túnel disfarçada atrás da santa. O Rolha, conforme ficou conhecido esse rapaz, foi transferido da Detenção às pressas, para não ser morto pelos companheiros frustrados que vinham atrás, na fila.
A Faxina é a espinha dorsal da cadeia. Sem entender sua estrutura, impossível compreender o dia-a-dia, dos momentos corriqueiros aos mais agudos.
Sua função é "pagar a bóia", isto é, distribuir cela por cela as três refeições diárias e cuidar da limpeza geral. O número de faxineiros varia conforme o pavilhão. Naqueles com menos gente, como é o caso do Quatro, do Seis ou do Sete, eles são cerca de vinte; nos mais populosos, como o Cinco, o Oito e o Nove, pavilhões com mais de mil prisioneiros cada, são necessários de 150 a duzentos faxinas, divididos entre os que servem comida e aqueles que tiram o lixo, varrem e lavam tudo. A Faxina tem hierarquia militar. Os recém-admitidos recebem ordens dos mais velhos e em cada andar há um encarregado que presta contas ao encarregado -geral do pavilhão. De acordo com a gravidade do problema, pode haver contato entre os encarregados- gerais, mas o comando é estanque ao pavilhão, não existe um chefe supremo da cadeia. Aliás, chamar os encarregados de chefes é ofendê-los, bem como a seus subalternos:
- Quem tem chefe é índio.
Aos funcionários não cabe escolher faxineiros, é a corporação que recruta seus membros. Para ser aceito, o candidato não pode ter delatado companheiro nem ter sido responsável pela prisão de alguém, não pode estar endividado, não pode ter ameaçado de morte um desafeto e não cumprir, não pode ter levado um tapa na cara nem assumido o papel de "laranja", ou seja, ter se responsabilizado pela ação cometida por outro. Enfim:
- Não pode ter mancada no Crime.
Um dos faxinas da enfermaria resume os requisitos em linhas mais abrangentes:
- O faxina é um ser humano como qualquer preso, mas tem que ter álibi com a malandragem. Não pode ser pilantra. A corporação é especialmente zelosa do comportamento sexual de seus membros. Estuprador jamais é aceito, e, se desmascarado, corre perigo de vida. Preso abusado sexualmente só será admitido se matar seus ofensores. Se for homossexual, então:
- Aí é que entra menos ainda. Não tem cabimento uma pessoa que pratica coisas com a bunda vim mexer na alimentação da coletividade.
Quando um membro é recrutado, os mais velhos explicam-lhe as regras de procedimento: não fazer dívida, respeitar visitas alheias, ajudar os necessitados, colaborar para a solução das desavenças e obedecer às decisões do grupo. Em caso de receber ordem que considere injusta, primeiro deve cumpri-la e depois, com respeito, discuti-la com os superiores. Se a ordem for extrema, deverá soltar a faca com os demais. É uma família: mexeu com um, comprou briga geral.
A união assegura autoridade irrefutável à Faxina. Para enfrentá-la seria preciso organizar um grupo mais forte, capaz de desencadear uma guerra interna pelo poder, acontecimento altamente improvável porém não impossível, como veremos mais tarde.
De sua parte, a administração do presídio tem uma visão darwiniana do processo, como deixa claro um antigo diretor, famoso por lutar boxe com os detentos mais fortes:
- Na competição, os presos mais hábeis dominam os fracos. É inevitável. Nós não impomos um chefe para eles
- seria ótimo se pudéssemos. O que nós fazemos é tirar partido da seleção natural do líder, usando a estrutura da Faxina para que ele assuma o comando dos outros. Se cada um fizesse o que bem entende, quem controlaria isso aqui?
O diálogo da administração com a cúpula da Faxina é fundamental para a manutenção da ordem. Uma tarde, houve uma reunião do diretor com os encarregados-gerais dos pavilhões, para acabar com a moda de fazer funcionários reféns em ponta de faca como meio de forçar transferência para outros presídios. O diretor prometeu agilizar a burocracia das transferências e os encarregados assumiram o compromisso de acalmar os desesperançados. Por mágica, a paz estendeu seu manto sobre a Detenção. Reunião do diretor de Disciplina com o encarregado geral parece a do presidente da companhia com o gerente-executivo: voz baixa, cada um explica o que quer e até onde pode chegar. Compromisso assumido é compromisso cumprido.
A Faxina é absolutamente fundamental no controle da violência interna. Se alguém deve e não paga, o credor não pode soltar a faca sem antes conversar com o encarregado - geral, que ouve as partes e dá um prazo para a situação ser resolvida. Antes que este expire, pobre do credor que ousar agredir o outro. Sem o aval do encarregado - geral, nada pode ser feito:
- Porque é ele que segura todas as ocorrências do pavílhão. Naquele momento, podem estar cavando um túnel, armando um plano de fuga, e uma facada fora de hora põe tudo por água abaixo.
Uma vez, Zico, com fama de bandidão na Vila Guaram,reconheceu a fisionomia de um recém-chegado no pavilhão Nove e foi conversar com o encarregado - geral, um negro de lábios grossos conhecido como Bolacha, ladrão de longa carreira:
- Quero pedir licença para dar uma lição nesse pilantra. É estuprador, abusou da amiga da minha irmã, lá na vila!
Bolacha ouviu em silêncio e, quando o outro terminou o relato, voltou-se para ele:
- Se é como você diz, que ele desrespeitou a honestidade da moça, que a mãe dela deu parte na delegacia, deve de existir um boletim de ocorrência. É moleza, escreve para a tua vizinha e manda ela trazer cópia desse beó, que está liberado.
Zico seguiu a orientação à risca. O flagrante, de fato, havia sido lavrado e o xerox comprovava a versão apresentada ao Bolacha. Foi autorizado a matar o estuprador.
Recebida a autorização, porém, Zíco ouviu os amigos e refletiu que talvez não fosse aquela a melhor atitude. Não tinha nenhum laranja para assumir seu lugar na autoria do futuro crime: certamente seria condenado a muitos anos mais, logo agora que estava prestes a conseguir transferência para a Colônia, em regime semiaberto. Alguns dias depois, Zico foi chamado no xadrez do Bolacha na presença de testemunhas:
- Zico, qual é a tua, meu? Está esperando o que para resolver o caso daquele pilantra?
- Bolacha, sucedeu-se que subiu meu recurso para a Colônia e eu achei melhor deixar quieto por enquanto e acertar ele na rua.
- O, Zico, agora você me desapontou! Pede para matar o cara, traz prova do estupro e depois muda as idéias. Arruma tuas coisas e atravessa para o Cinco, que o Nove ficou pequeno para você. Você não é do Crime, meu. Você é um cômico.
Atendendo pedido do próprio Zico, os funcionários endossaram a decisão da Faxina e bateram a transferência para o pavilhão Cinco. Zé da Casa Verde, marido de duas mulheres, na época internado na enfermaria, fez o seguinte comentário a respeito da atitude dos faxineiros neste episódio:
- A Faxina tanto faz para auxiliar, como ajuda a prejudicar. Eles são anjos-demônios.
Entrar para a Faxina é estratégia perigosa de sobrevivência: de um lado, a proteção do grupo; de outro, a obediência cega às ordens dos superiores, para bem ou para o mal.
Quem chega ao topo da hierarquia deve ser homem de respeito e estar preso há alguns anos para conhecer o ambiente. Idade não é documento e no mundo do crime de pouca valia é a força física individual, ao contrário do que muitos pensam.
Conheci um encarregado franzino, de 25 anos, que comandava um pavilhão com 1600 homens. E o maior brutamontes da cadeia foi assassinado enquanto dormia, por um branquinho obstinado de 44 quilos. O comando da Faxina jamais é entregue a um facínora desmiolado. Todos os encarregados - gerais que conheci eram homens de poucas palavras e extremo bom senso, que assumiram a liderança graças à habilidade de resolver conflitos e formar coalizões.
Abrão, um nordestino atarracado, ex-proprietário de inferninho no cais de Santos, cumprindo 25 anos pela morte de um cliente abusado que bateu numa das prostitutas de seu harem, ressaltou as seguintes qualidades do encarregado -geral:
- Ele tem que ter cacife, situação verbal boa, escutar muito e falar pouco, para não dar aproximação. Tem que ter equilíbrio nas atitudes para dizer um isso está certo, um aquilo está errado, um você pega suas coisas e atravessa para o Cinco. Aqui, não é como na rua, que um louco pode ser chefe de seção, gerente de firma, chegar até presidente da república que nem aquele, que diz que cheirava farinha e tinha cara mesmo. Aqui, o líder é o que sabe ouvir a voz da razão, debater com os companheiros e se agrupar para ficar forte, porque, como é dito, contra a força não há resistência.
É árdua a rotina do encarregado. Do momento em que as celas se abrem até o horário da tranca, é preciso estar atento. Para se afastar do pavilhão por cinco minutos que seja, tem que deixar o subencarregado em seu posto. A necessidade desta precaução tem justificativa: - Em cinco minutos muita desgraça pode acontecer numa cadeia.
Vivem atarefados. Na enfermaria, atendi dois deles com sintomas visíveis de estresse, como se fossem altos executivos de multinacional ou, como prefere dizer o Bolacha, como se fossem juízes de direito:
- Lá acordo cheio de problema: é o cara que quer acertar uma
bronca da rua, um que precisa matar o pilantra, cavar um túnel, cobrar
dívida, o outro que ouviu uma palavra mal colocada, e vai assim até
a tranca. Precisa apaziguar tanta zica, doutor, que pareço pai de família,
só acalmo de noite, depois que todos foram para a cama.
Na verdade, nas fases mais agitadas do pavilhão, nem na cama Bolacha
tinha sossego:
- No silêncio da noite, a mente trabalha solitária porque a decisão final é minha e dela depende a sorte de um ser humano. Sou o juiz do pavilhão. Só que o juiz da rua trabalha aquelas horinhas dele e vai para casa com o motorista; eu, é 24 por 48. Ele, só tem que julgar se o acusado vai preso; no máximo, dar uma pena mais longa. Eu, assino pena de morte.
No início, fiquei com a impressão de que os funcionários não confiavam em mim. Depois, tive certeza. Eram arredios, mais tarde me contaram, por acharem que eu estaria ligado às associações de defesa dos direitos humanos ou teria interesses políticos.
Nos primeiros anos, descontados o Waldemar Gonçalves, que virou amigo íntimo, mais uns dois ou três, os restantes mudavam de assunto à minha chegada. Se, por curiosidade, eu fazia uma pergunta sobre a mais corriqueira ocorrência, da vam respostas evasivas. Depois de uma palestra no cinema do pavilhão Seis, cruzei com um rapaz ensangüentado a caminho da enfermaria e perguntei ao funcionário que o escoltava o que havia acontecido:
- Despencou uma telha na cabeça dele.
Outra vez, encontrei uma confusão na Divinéia. Gente que entrava e saía da sala de Revista, lotada; ânimos exaltados. Certamente tinham flagrado alguém com algo proibido. Quando perguntei o que se passava a um senhor baixinho que guardava o portão de acesso à Divinéia (onde anos depois encontrou a morte, prensado por um caminhão de lixo numa tentativa cinematográfica de fuga), ele respondeu sério:
- Um colega se sentiu mal com o calor.
A desconfiança não tinha motivação pessoal. Nada que eu tivesse feito ou dito poderia justificá-la. Na verdade, guardas de presídio não gostam de pessoas estranhas no ambiente de trabalho. A realidade é desconcertante numa prisão, o que parece certo muitas vezes está errado, e aparentes absurdos encontram lógica em função das circunstâncias.
O visitante, ingênuo, tira conclusões precipitadas e pode fazer
comentários indiscretos que eventualmente cheguem aos ouvidos da Corregedoria,
encarregada de investigar abusos de autoridade, ou à redação
dos jornais.
Os militantes das associações de defesa dos direitos humanos
e da Pastoral carcerária da Igreja Católica de um modo geral
são malvistos. Os funcionários dizem que eles só estão
interessados nos direitos dos bandidos.
- Doutor, nesse tempo, o senhor já perdeu a conta de quantos colegas nossos foram agüentados em ponta de faca. Não tem humilhação pior para um pai de família.
Só quem passou por isso pode contar. Alguma vez o senhor viu chegar alguém dos direitos humanos ou esses padres da Pastoral pra dar apoio ao funcionário?
Respondi que, de fato, nunca tinha visto. Ele prosseguiu:
- Um homem que não fazia mal para uma mosca, como o seu Joãozinho, morreu esmagado pelo caminhão de lixo no portão da Divinéia, naquela tentativa de fuga.
Pergunta se alguém veio dizer uma palavra de conforto para a viúva? Agora, vai dar um tapa num ordinário sem-vergonha qualquer para ver o processo que eles armam para a gente!
Os jornalistas, por sua vez, são mestres no desagrado, conseguem inimizades entre gregos e troianos. De medo que alguma vítima antiga lhes reconheça a fisionomia e novos processos aumentem o débito com a justiça, os presos fogem das objetivas como o diabo da cruz. Apontar-lhes uma máquina fotográfica ou câmera de TV faz com que cubram o rosto e de sapareçam mais depressa do que diante da metralhadora de um Pm. Os funcionários também evitam a imprensa, dizem que ela só serve para criticar e distorcer o que é dito.
Uma vez, seis detentos seqüestraram um grupo de carcereiros na lavanderia, junto ao pavilhão Seis, para exigir transferência de presídio, procedimento que se tornou rotina após o massacre do Nove. Quando cheguei, a frente da cadeia, nos baixos do elevado por onde passa o metrô, estava cheia de câmeras, microfones e carros de reportagem. Ao entrar na Casa, perguntei a um dos diretores que participava das negociações a razão do alvoroço:
- São abutres, doutor. Pousam aqui quando pressentem qualquer desgraça que ajude a vender jornal. A convivência encarregou-se de quebrar a resistência da corporação à minha pessoa, como disse seu Aparecido Fidélis, funcionario experiente, enquanto tomávamos um chope no Recanto Nordestino, ao lado da cadeia:
- Com o passar dos anos, nós percebemos que o senhor veio para somar.
A partir daí, tive ampla liberdade. Pude circular até nas áreas de segurança, do Amarelo à Masmorra. Andar sozinho pela cadeia no meio dos ladrões transmitiu-me uma sensação de autoconfiança que não ficou limitada ao espaço interno do presídio.
Hoje, há funcionários que demonstram ao me ver a mesma alegria que sinto ao encontrá-los. Conversamos sobre o tra balho, problemas de saúde, agruras financeiras (que não são poucas entre eles), dificuldades com a família e desencontros com as mulheres (que são muitas). O respeito entre nós reforçou os laços que me prenderam à Detenção.
A vida que levam é dura. Para sobreviver dignamente, o salário não dá. Os que teimam na honestidade, fazem bico como segurança em banco, supermercado, loja, boate ou casa de tolerância.
Boa parte desse trabalho é a serviço de empresas clandestinas, sem direitos trabalhistas. Nem armamento recebem, utilizam o revólver pessoal, geralmente não legalizado, uma vez que a categoria não tem direito a porte de arma. Num assalto, se forem feridos ou matarem o assaltante, a empresa pode se eximir da responsabilidade. Não existe vínculo empregatício. Se morrerem, a família que se arranje com a pensão do Estado.
A jornada de trabalho é interminável. Os que dão plantão noturno saem às sete da manhã diretamente para o bico. Cama, somente na noite seguinte, quando folgam na cadeia. O pessoal do diurno inverte. Aqueles que cumprem horário fixo, das oito às dezoito, diariamente, ficam em situação pior: cochilam algu mas horas no serviço e é só. Deitar na cama, só na folga do final de semana. A ausência de casa desarticula a rotina familiar, destrói casamentos e dá ensejo a vidas duplas, dividindo-os entre a esposa e outras mulheres. Para agüentar a tensão inerente à atividade e o cansaço das noites, muitos abusam da bebida. Alcoolismo e obesidade são doenças prevalentes entre guardas de presídio. Bebem para valer, não é fácil acompanhá-los.
Uma noite, após a distribuição do quarto número do Vira Lata, o gibi erótico de prevenção à AIDS, juntei a equipe que participou do trabalho e fomos para o bar na frente da Detenção, chamado Alcatraz. Ao chegarmos, lá pelas onze da noite, encontramos um grupo de funcionários do diurno que bebia desde a saída, às sete. Ambiente de botequim: balcão congestionado de garrafa de cerveja, pratinho com calabresa acebolada, música de vitrola automática, falatório e fumaça de cigarro. Um dos carcereiros, quando me viu, estendeu-me a mão e com a voz de quem tem uma batata quente na boca, fez um pequeno discurso:
- Doutor Várella, quanta honra esta figura científica aqui, com este humilde funça, que no entanto é uma pessoa humana que tem no coração tanta dignidade como o senhor e neste momento de confraternização faz questão absoluta de oferecer-lhe uma pinga, que o senhor terá a fidalguia de aceitar.
Apesar do vernáculo persuasivo, titubeei; a distribuição da revista havia atrapalhado a minha rotina de tal forma que eu estava apenas com o café da manhã.
Aquela pinga, em jejum, não ia fazer bem. Diante da hesitação, um colega mais sóbrio do funcionário cambaleante veio em meu auxílio:
- Deixa quieto, que o doutor não é homem de tomar pinga em botequim.
A observação tocou meus brios. Respondi que honrado era eu,
por beber em tão distinta companhia.
Veio um daqueles copos de bar com frisos paralelos e uma dose para lá
de generosa: dois terços do copo. Com os olhares voltados para mim,
dei um gole de homem, como eles. O líquido escorreu incandescente pelo
esôfago, deu um tranco na boca do estômago e um baque instantâneo
no cérebro. Senti o corpo arrepiar. Aí o Waldemar sugeriu um
frango a passarinho, no capricho, especialidade do Alcatraz, acompanhado de
cerveja, é claro, e da voz melodiosa da Alcione cantando "Nem
morta" Quando a música acabava, alguém punha outra ficha
na vitrola e a cantora repetia o "Nem morta" a Alcione e o copo
cheio pareciam moto-contínuo.
Cheguei em casa e entrei no chuveiro com o gosto do franguinho encharcado no óleo do Alcatraz e as imagens da cadeia. No meio do banho, tomei um susto com a voz da minha mulher:
- Isso é hora de ouvir samba nesse volume?
- O rádio nem está ligado!
- Lógico, acabei de desligar. Você nem percebeu?
Não é intenção transmitir uma visão romântica desses homens, mesmo porque alguns não valem defesa. Envolvem-se com os ladrões, aceitam propinas nas transferências de xadrez, cobram pedágio nas portas dos pavilhões, compactuam com o tráfico e vendem facas para defesa pessoal. Corrupção pé-de-chinelo, universal nos presídios. Impossível de acabar. Provavelmente participam também de contravenções mais graves, como facilitação de fugas (um diretor-geral que assumiu logo após o massacre do Nove acabou preso no coc, por envolvimento em várias delas), ou deixam entrar armas de fogo, prática arriscada que provoca atitudes agressivas nos próprios colegas postos em risco.
Os que agem assim tornam-se indistinguíveis dos ladrões, porque, como afirmam os de conduta séria:
- Quem anda com porco, come farelo.
A convivência prolongada com a malandragem, a falta crônica de dinheiro e a própria burocracia da justiça brasileira fermentam o caldo da corrupção. Um antigo diretor, certa vez, recebeu denúncia de que o funcionário encarregado de dar andamento à papelada dos detentos no Fórum cobrava serviço por fora. Sem dar dinheiro para ele, podia-se mofar na cadeia. O diretor passou-lhe uma descompostura, transferiu-o para vigiar o portão do pavilhão Nove e nomeou uma pessoa de sua confiança para a estratégica função, porque quando cessam as transferências para o regime semi-aberto e as libertações, o ambiente fica péssimo, pronto para explodir.
Pois bem: semanas depois, em meio ao descontentamento crescente da massa carcerária, e sem conseguir fazer andar papel nenhum, o funcionário de confiança voltou ao diretor:
- Doutor, quer um conselho? Devolve fulano para a função. Só ele conhece o caminho das pedras no Fórum.
Ali, sem caixinha, cria teia de aranha. O diretor, um homem de senso prático que começou a vida batendo de cassetete em cabeça de bêbado criador de caso no cais de Santos, resolveu não dar murro em ponta de faca e chamou o funcionário malandro:
- Olha aqui, fulano, faz quase um mês que você abre e fecha porta para vagabundo, no Nove. Deu tempo de aprender a lição. Volta para o Fórum e faça o que for necessário para andar os papéis do pessoal, antes que a situação fique pior do que está.
Justiça seja feita, porém: há muitos guardas de presídio sérios, apesar da má fama da profissão, dos salários ridículos, do risco de contrair tuberculose, virar refém ou morrer na ponta de uma faca. Não fossem eles, seria impossível tocar a cadeia.
Seguindo a tradição do serviço público brasileiro, na Detenção são muitos os servidores inativos e pouquissimos nas funções produtivas. Além disso, a desvalorização da carreira de guarda de presídio provocou deserção de muitos homens experientes, forçando a contratação de jovens sem treinamento adequado.
Uma vez, na Radial, junto ao portão que separa o Seis do Dois, em voz baixa o Chico Bagana, ladrão de muitas passagens pela Casa, gozador empedernido, chamou minha atenção para o novato da guarita:
- Doutor, vê se tem cabimento botar um menino desses para tomar conta da gente. Ele está amarelo de medo.
Esses fatores, aliados ao absenteísmo, criam situações surrealistas. Durante o dia, por exemplo, de dez a doze funcionários tomam conta de um pavilhão como o Oito, com mais de 1500 detentos reincidentes; à noite, o número cai para seis ou sete. Para cuidar dos 1600 presos do Cinco, a mesma precariedade.
Como um grupo tão pequeno de homens sem armas consegue controlar um presídio daquele tamanho é um dos mistérios da cadeia. Talvez o maior. A estrutura é tão frágil que a única explicação para não ocorrerem fugas espetaculares, daquelas de esvaziar pavilhão, é a dada pelo seu Reinaldo, da portaria:
- A nossa sorte é que eles não falam a mesma língua.
Reduzido à essência, o trabalho dos carcereiros consiste em dividir a malandragem, maquiavelicamente. Como diz seu Bonilha, ex-diretor do Cinco, que uma vez pagou do bolso um pacote de cigarro que um ladrão devia, só para evitar um homicídio a mais em seu pavilhão:
- Eu passo o dia jogando areia na deles.
Seu Fidélis, cadeeiro da velha guarda, diz que o segredo do oficio é tirar partido do conflito de interesses entre os detentos:
- Doutor, o Crime é uma profissão. O malandro de verdade chega aqui para tirar a cadeia em paz, voltar para a rua o mais rápido possível e assaltar, que essa é a vida dele. Ele segura os companheiros, não se envolve em plano de fuga, droga ou facada, para não comprometer o objetivo de ir embora. Sem perceber, o maior bandidão acaba nosso aliado.
A habilidade para estabelecer alianças com as pessoas certas, os líderes da massa carcerária, é essencial para o bom anda mento da cadeia e para a segurança física do funcionário.
O convívio com os presidiários é capaz de criar sólidas relações de amizade. Para o homem preso, o carcereiro representa o contato com a sociedade exterior - o único, no caso dos que não recebem visitas. Um pequeno favor, o apoio numa hora difícil ou a simples paciência para escutar um desabafo despertam no detento extrema consideração pelo funcionário. O respeito mútuo é parte do equilíbrio de forças que se estabelece na cadeia e pode ser decisivo para preservar a vida nos momentos de violência irracional.
Nos dias conturbados que se seguiram ao massacre de 1992, a malandragem de moral chegava a escoltar funcionários até a saída, para evitar possíveis represálias da massa revoltada.
Ao lado das amizades certas, uma boa equipe de delatores é fundamental para a paz interna. O alcagüeta é personagem tão velho quanto os presídios. Delata a troco de uma vantagem pessoal: transferência, pagamento de dívida, vingança, inveja, intriga de mulher ou para eliminar o traficante concorrente, como diz seu Florisval, que começou como carcereiro e chegou a diretor:
- Quando aparece um alcagüeta, procuro ver se a informação que ele traz vale a vantagem que ele quer tirar.
Luisão, legendário ex-diretor da Casa, jura que era capaz de identificar aqueles nos quais a cagüetagem é qualidade inata:
- Ele já nasce cagüeta, doutor.
É atividade de alto risco no mundo do crime; passível de execução sumaria. Ainda assim, para desespero da malandragem, como admite pesarosamente o SemChance:
- Tem sempre um cagüeta na fita, doutor. É sem chance.
Numa cadeia, como os acontecimentos são descritos segundo a versão preferida de cada narrador, ninguém sabe de que lado está a verdade. Ouvir dez pessoas é escutar dez histórias, e separar o joio do trigo, um quebra-cabeça que exige preparo intelectual. O funcionário experiente registra tudo o que se passa ao redor, mesmo o insignificante. Quando surge um problema, ouve os bem-informados, chama o chefe da Faxina, debate com os colegas e convoca os delatores. Até tomar a decisão final:
- A gente pisa em ovos; qualquer deslize pode acabar em morte.
Quando quer descobrir culpados, seu Jesus, diretor de Vigilância, diz que evita movimentos bruscos: - Eu cutuco de leve e espero para ver onde a onça vaigritar.
São espertos; na astúcia, confundem a malandragem desunida.
Uma vez o pavilhão Oito passou o dia trancado, por causa de um boato
de que estava sendo cavado um túnel. Na tran ca-represália,
ninguém serve comida e o mau humor cresce no decorrer do dia. No final
da tarde, quando seu Jesus, do alto de seus 120 quilos, cruzou o pátio
do pavilhão, ouviu de uma janela:
- Vai morrer, seu Jesus!
- E você não, malandro? - respondeu de imediato.
Ao lado dos defensores de técnicas civilizadas, porém, existem funcionários mais radicais:
- O que segura uma cadeia, doutor, é pau e bonde, o resto é bobagem. Acerta o cara e transfere lá para a penitenciária de Presidente Wericeslau, quase na divisa com Mato Grosso, para ver se ele não volta mansinho. Na Detenção, as agressões aos presos, tradição forte no sistema prisional brasileiro, não desapareceram, mas diminuíram de intensidade com o passar dos anos, pois, como diz Luisão, atualmente aposentado:
- Quando eu comecei, a moda era ser caceteiro; hoje é parar de bater. O funcionário se adapta aos tempos. O senhor leva a patroa ao baile, doutor, toca valsa, o senhor vai querer dançar samba?
Curioso é que os presos mais velhos consideram o coronel Guedes, um militar dos anos 70, época da ditadura, como o melhor diretor de todos os tempos. Falam dele com grande admiração:
- O lema era pau e cela, mas existia respeito, de nossa parte e dos funcionários. Andava sozinho pela cadeia inteira, na moral, todo mundo de mão para trás quando ele passava. O homem era fascista, não dava mole para nós nem para a justiça, com ele tinha que cumprir a lei dos dois lados. Telefonava para as autoridades e dizia que a pena tinha acabado: ou chegava o alvará de soltura ou ele punha o elemento na rua. Ajuizada tinha medo do coronel.
Dadas as condições do presídio, é impossível
acabar com as agressões, porque no convívio com os ladrões
alguns funcionários se embrutecem de tal modo que não enxergam
outra alternativa para impor ordem. Como vigiá-los na calada da noite,
no canto escondido de um pavilhão escuro?
Uma vez, seu Lourival, funcionário calejado, comentou a respeito de
um episódio rumoroso, no qual dois presos se queixaram ao padre de
terem levado uma surra de cano de ferro e o caso foi parar na Corregedoria:
- Duvido que alguém faça concurso para guarda de presídio
só para bater em detento. É o ambiente daqui que deixa a pessoa
assim.
Na prisào, a violência que explode em ciclos invade a vida dos
guardas. Nos acertos de contas entre a malandragem, quando um grupo decide
dar cabo de alguém, os funcionários têm ordem para não
interferir. Morra aquele que tiver de morrer; paciência, trabalham desarmados:
- Nessa hora não dá, doutor, é como querer apartar briga de cachorro louco.
Um funcionário de trinta e poucos anos que faz bico como segurança de um prostíbulo em Diadema, que ele garante ser lugar de respeito e insiste que eu vá visitar, contou que a imagem do primeiro preso que ele viu morrer, há cinco anos, retorna quando menos espera:
- Chegaram oito com faca e pau no xadrez do tal de Alagoas. Ele me viu e começou a gritar: me ajuda, seu Paulo, pelo amor de Deus! A única coisa que eu pude fazer foi pedir para não matarem o rapaz. Não adiantou nada. Tomou mais de vinte golpes. É feio, doutor, um ser humano berrando feito porco apunhalado e o senhor não poder fazer nada.
Com o tempo, Paulo presenciou outras mortes semelhantes, mas a impressão da primeira foi inesquecível:
- Até hoje a expressão de terror daquele rapaz volta na minha mente, num aniversário de família, na cama com a minha mulher ou na frente da TV com as crianças. De minha parte, posso assegurar que a influência do meio está longe de ser desprezível. Apesar de médico, diversas vezes tive vontade de bater em alguém na cadeia, não por terem me faltado ao respeito, fato jamais ocorrido, mas pela revolta diante da perversidade de um preso com outro.